É Agora Ou Nunca



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É Agora... ou Nunca

Marian Keys

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AGRADECIMENTOS 
Obrigada a todos na Michael Joseph e na Penguin. Agradecimentos especiais à minha editora, Louise Moore, pela sua visão, entusiasmo, elogios, amizade e edição meticulosa, implacável e consciente.

Agradeço a todos na Poolbeg pelo seu trabalho duro, apoio e aprovação. Devo mencionar, em especial, a orientação editorial de Gaye Shortland.

Obrigada ao meu agente, Jonathan Lloyd, e a todos da Curtis Brown.

Obrigada aos amigos fiéis que estiveram comigo desde o primeiro livro, leram este aqui à medida que eu ia escrevendo e que, através de suas sugestões, comentários e incentivo, me convenceram a continuar — Jenny Boland, Caitriona Keyes, Rita-Anne Keyes e Louise Voss.

Obrigada a Tadhg Keyes pela consultoria sobre moda masculina jovem.

Obrigada a Conor Ferguson, Niall Hadden e Alex Lyons pelas informações a respeito do mundo da propaganda.

Obrigada a Liz McKeon pelas orientações a respeito das mesas de ginástica passiva.

Obrigada ao Dr. Paul Carson, Isabel Thompson, da HUG, Barry Dempsey e AnneMarie McGrath, do Instituto Irlandês do Câncer, e a todos na Terrence Higgins Trust pelo tempo e as informações que me ofereceram, com tanta generosidade.

Obrigada a Sra. Mary Keyes pelos ditados típicos de County Clare e por me obrigar a tirar muitos palavrões do texto final.

Obrigada a Emily Godson pela orientação a respeito do mundo dos atores em Los Angeles.

Obrigada a Neville Walker e Geoff Hinchley pelas informações sobre como um jovem gay se diverte nas cidades grandes (eu não sabia!).

Muitas outras pessoas me ajudaram com conselhos práticos, incentivo e apoio. Sou muito grata, agradeço de coração a todos. Espero sinceramente não ter deixado ninguém de fora e, se isso aconteceu, sinto muitíssimo. Suzanne Benson, Suzie Burgin, Paula Campbell, Ailish Connelly, Liz Costello, Lucinda Edmonds, Gai Griffin, Suzanne Power, Eileen Prendergast, Morag Prunty e Annemarie Scanlon.

Agradeço ao meu amado Tony por tudo, pelo seu apoio tanto prático quanto emocional. Por ler a versão final do livro de mãos dadas comigo, garantindo que eu não sou um fracasso completo. Por descer e subir o tempo todo, me trazendo chá. Por me dar sugestões sobre a composição dos personagens, desenvolvimento da história, ortografia, gramática e tudo o mais de que se lembrava. Eu não conseguiria ter escrito este livro sem ele.

Finalmente, obrigada a Kate Cruise 0'Brien, que trabalhou comigo neste livro até março de 1998, quando morreu, de forma trágica e inesperada.



Para Kate

O ontem é apenas um sonho

E o amanhã é só uma visão:

O hoje, porém, bem vivido,

Transforma todo ontem em um sonho de felicidade

E todo amanhã em uma visão de esperança.

Portanto, cuide bem do dia de hoje.

PROVÉRBIO SÂNSCRITO

CAPÍTULO I
No restaurante em Camden, cheio de vidros e metais cromados, a atendente magra passava a unha roxa ao longo do livro de reservas, murmurando:

— Casey, Casey... onde está esse nome?... Ah, achei! Mesa 12, Você é a...

—... Primeira a chegar? — emendou Katherine, terminando a frase por ela. Não conseguia esconder seu desapontamento, depois de ter se obrigado, a despeito da resistência feroz de todas as fibras do seu corpo, a se atrasar cinco minutos.

— Você é de Virgem? — Unhas Roxas acreditava cegamente em astrologia.

Diante da concordância de Katherine, continuou:

— Seu destino é ser patologicamente pontual. Agüente isso... Um garçom chamado Darius, exibindo cachos exuberantes que formavam um coque no alto da cabeça, ao estilo Hepburn, apontou na direção da mesa, onde ela cruzou as pernas e sacudiu a cabeça de leve, para ajeitar o cabelo curto, na esperança de ficar com um ar mais firme e descontraído ao mesmo tempo. Em seguida, fingiu que analisava o menu, desejou ser fumante e jurou baixinho que da próxima vez tentaria chegar dez minutos depois da hora marcada.

Talvez, como Tara vivia sugerindo, ela devesse começar a freqüentar os Travados Anônimos.

Segundos depois, Tara chegou e, de forma pouco típica para ela, na hora marcada, fazendo barulho com o sapato ao andar pelo piso de madeira clara e com os cabelos cor de trigo voando à sua volta. Usava um vestido assimétrico que rebrilhava de novo, tinha cara de ter custado uma baba e — infelizmente — formava pequenos bolsões de pano em volta dela. Os sapatos, porém, eram o máximo!

— Desculpe por não ter me atrasado — desculpou-se ela. — Sei que você acha que devemos manter a tradição, mas as ruas e o tráfego conspiraram contra mim.

— Então não foi culpa sua — disse Katherine, fitando-a com um olhar severo. — Mas não faça disso um hábito. Feliz aniversário!

— O que há de feliz nisso? — perguntou Tara, com cara de lamento. — Você estava feliz no dia em que fez 31 anos?

— Marquei dez sessões de lifting não-cirúrgico — admitiu Katherine. — Mas não se preocupe. Você não parece nem um dia mais velha do que aos 30. Bem, um diazinho, talvez...

Darius apareceu para anotar o pedido de Katherine para as bebidas. Ao ver Tara, porém, um ar de alarme surgiu em seu rosto. Ela, de novo, não!, pensou, preparando-se bravamente.

— Vinn...nho? — perguntou Tara a Katherine, imitando sotaque


de português. — Ou vamos partir para álcool de verdade?

— Gim e tônica.

— Então, traga dois. Certo. — Tara esfregou as mãos de satisfação. — E agora, onde estão os meus livrinhos de colorir e a caixa de giz de cera?

Tara e Katherine eram as melhores amigas uma da outra desde que tinham quatro anos, e Tara tinha um saudável respeito pela tradição.

Katherine empurrou um pacote colorido sobre a mesa e Tara rasgou o papel de presente, exclamando, deliciada:

— Coisas da Aveda!

— Produtos da Aveda são o equivalente a livros de colorir e giz de cera para as mulheres de trinta e poucos anos — explicou Katherine.

— Mas quer saber de uma coisa?... — disse Tara, pensativa. — Acho que sinto falta dos livrinhos de colorir com giz de cera.

— Não se preocupe — garantiu Katherine —, porque a minha mãe ainda os compra para você, em todos os aniversários. — Tara levantou o rosto para olhar Katherine, que explicou, depressa: — Na cabeça dela, por assim dizer.

Tara acendeu um cigarro e olhou, com ar melancólico, para o terninho da Karen Millen, em um marcante tom de vinho, que Katherine vestia, e elogiou:

— Você está fantástica!

— Você também.

— Tá me zoando?

—Não! Estou falando sério. Adorei a sua roupa!

— Foi meu presente de aniversário para mim mesma. Sabe de uma coisa?... — o olhar de Tara pareceu ficar sombrio. — Detesto lojas que usam aqueles espelhos ligeiramente convexos, que fazem com que o vestido deixe você magra e esbelta. Sou uma idiota, e sempre acho que é por causa do feitio e do corte excelentes, e é por isso que eles custam o valor da dívida externa de um país sul-americano... — e fez uma pausa, a fim de dar uma tragada monumental no cigarro. — Quando você vê, já está em casa, se olhando em um espelho que não é convexo e descobre que está parecendo uma leitoa de roupão.

— Mas você não está parecendo uma leitoa.— Estou sim. O pior é que eles não fazem troca, a não ser que haja algo errado com o vestido. Eu argumentei que havia muita coisa errada com o vestido, expliquei que ele me fazia parecer uma leitoa de roupão, mas eles disseram que isso não conta... só se fosse um zíper enguiçado, ou algo assim. Enfim, é melhor usá-lo, porque estourei o limite do meu cartão Visa para poder pagar.

— Mas você já estava com o limite do cartão estourado.

— Não, não!... — explicou Tara, com honestidade. — Eu já tinha estourado o limite oficial. O limite real é 200 libras acima do que vem no extrato. Você sabe disso!

— Ah!... — disse Katherine, baixinho.

— Olhe aqui! — disse Tara, pegando o menu e parecendo agoniada. — Eles só têm coisas deliciosas! Por favor, Senhor, dai-me forças para não pedir o couvert. Estou tão esfomeada que seria capaz de comer uma vaca inteira, com chifre e tudo!

— Como vai a tal dieta do "nada é proibido"? — quis saber Katherine, embora já desse para imaginar a resposta.

— Já era! — Tara soprou a fumaça, com ar envergonhado.

—Mas que mal havia nela? — consolou-a Katherine.

— Pois é! — replicou Tara, aliviada. — Que mal havia, não é?... Thomas estava furioso com aquilo, como você já deve ter sacado. Aliás, pensando bem... imagine uma dieta que diz a uma glutona como eu que não há nada proibido. É uma receita para o desastre!

Katherine exclamou algumas frases murmuradas, como vinha fazendo sempre nos últimos 15 anos, desde que Tara saíra dos trilhos com relação à comida. Katherine podia comer exatamente o que gostava, precisamente pelo fato de não querer comer. Por fora, ela aparentava o tipo de mulher brilhante, que jamais precisa se preocupar com nada. Os lindos olhos cinzentos que piscavam por trás da franja pesada e reta eram autoconfiantes e observadores. Ela sabia disso. Praticava no espelho o tempo todo, quando estava sozinha.

A seguir, foi a vez de Fintan aparecer. Sua chegada triunfal através do restaurante foi notada pelos atendentes e também pela maioria dos clientes. Alto, grande e lindo, com o cabelo preto jogado para trás em um topete volumoso e brilhante. O paletó do seu terno roxo cintilante exibia pequenas aberturas, como casas para botão, aplicadas ao longo das duas mangas, e através desses pequenos orifícios dava para ver a camisa verde-limão que também brilhava e cintilava. Suas lapelas eram tão largas que dava para um Boeing aterrissar nelas.

Discretos murmúrios se fizeram ouvir, do tipo "Quem é ele?..." e "Será que ele é um ator?..." ou "Talvez um modelo famoso...".

O burburinho agitava o ar à sua passagem como folhas secas rolando ao vento, e a sensação de bem-estar entre os clientes de sexta à noite foi marcante e palpável. Certamente, todos pensaram, ali está um homem com estilo! Ele avistou Tara e Katherine, que vinham acompanhando a sua chegada com um ar divertido e indulgente, e lançou-lhes um sorriso gigantesco. Foi como se todas as luzes do lugar se acendessem ao mesmo tempo.

— Que bochicho glorioso! — exclamou Katherine, acenando com a cabeça para o seu terno.

— Um bando de anônimos barulhentos — reagiu Fintan, tentando aplicar um ritmo cockney (Linguajar tipicamente londrino) às palavras, mas falhando por completo. Não havia jeito de esconder o seu sotaque de County Clare.

Embora nem sempre tivesse sido daquele jeito. Assim que chegou em Londres, 12 anos antes, recém-saído de um ambiente repressivo de cidade pequena, Fintan resolveu que ia se reinventar, e se dedicou a isso com afinco. A primeira providência foi o jeito de falar. Tara e Katherine foram forçadas a aturar tudo, sem alternativa, enquanto Fintan recheava as suas frases com exclamações tipicamente londrinas, como "Uau", "Mii... au" e altos papos sobre um iminente convite para participar do musical Taboo, com Boy George.

Nos dois anos anteriores, porém, ele voltara ao seu acento irlandês, com algumas modificações. Sotaques eram bem aceitos, considerados in em sua área de atuação, a indústria da moda. As pessoas achavam que era charmoso falar como Jean-Paul Gaultier: "Comme vai, mon caro amigo?" Fintan, porém, logo compreendeu a importância de se fazer entender. Assim, atualmente ele tinha sotaque irlandês, só que mais light. Ao mesmo tempo, os 12 anos de Londres fizeram com que os fortes sotaques de Tara e Katherine também sofressem uma urbanização de leve a moderada. Feliz aniversário! — disse Fintan para Tara, sem beijá-la. Embora Tara, Katherine e Fintan beijassem quase todo mundo em encontros sociais, entre eles não havia beijos. Talvez por terem sido criados juntos em Knockavoy, uma cidadezinha que não valorizava muito as manifestações físicas de afeto. A versão clássica de Knockavoy para as preliminares de uma transa era o homem dizer: "Se prepara que lá vai bala, garota!" De qualquer modo, isso não impediu Fintan de tentar introduzir o estilo continental, com dois beijos, um em cada bochecha, quando eles se mudaram para o apartamento de Willesden Green, nos primeiros tempos, logo que chegaram em Londres. Ele até mesmo queria que eles agissem assim entre eles, ao chegar do trabalho. Porém, encontrou muita resistência por parte delas, o que o deixou desapontado. Por que será que todos os seus novos amigos gays tinham mulheres indulgentes ao seu lado, sempre amigas íntimas, e ele não?

— E aí, como é que você está? — perguntou-lhe Tara. — Parece que perdeu alguns quilos, seu sortudo. Como vai a sua beribéri?

— Continua rolando, me atacando loucamente, e chegou ao meu pescoço agora — suspirou Fintan. — E a sua febre tifóide, como anda?

— Consegui me livrar dela — respondeu Tara. — Fiquei uns dias de cama, e ontem tive um surto moderado de raiva, mas já passou.

— Brincar com esse tipo de coisa atrai desgraças, sabiam? — afirmou Katherine, jogando a cabeça para trás com ar de repulsa.

— É culpa minha se estou sempre me sentindo doente? — reagiu Fintan, indignado.

— É culpa sua sim — reagiu Katherine, sem se alterar. — Se você não saísse para se acabar na balada todas as noites da semana, eu garanto que ia se sentir muito melhor de manhã.

— Você vai se sentir cheia de culpa se um dia descobrir que eu estou com aids — resmungou Fintan, com ar sombrio.

Katherine ficou branca ao ouvir isso. Até mesmo Tara estremeceu, pedindo:

— Gostaria que vocês não ficassem falando essas coisas.

— Desculpe — pediu Fintan, com um jeito humilde. — O terror é um diabinho que faz a gente dizer coisas idiotas. Fui visitar um velho amigo de Sandro ontem à noite, e ele parece uma daquelas vítimas do campo de Belsen, na Segunda Guerra. E eu nem sabia que ele


era soropositivo. A lista continua a aumentar, e isso me deixa todo encagaçado...

— Nossa... — disse Tara, baixinho.

— Mas não há por que ficar apavorado — exclamou Katherine, falando rápido e de forma enérgica. — Você faz sexo seguro e tem um relacionamento estável. Como vai o pônei italiano, a propósito?

— Ele é um rapaz maravilhoso. Ma-ra-vi-lho-so!! — declarou Fintan, de forma expansiva e teatral, o que fez com que os outros clientes do restaurante tornassem a olhar, balançando a cabeça de satisfação ao ver que ele era, afinal, algum ator famoso, como todos imaginaram ao vê-lo chegar.

— Sandro é o máximo! — continuou Fintan, agora com a voz normal. — Não podia ser melhor. Mandou esse cartão para você, com todo o amor... — e entregou um envelope a Tara —... e pediu desculpas por não estar aqui, mas é que neste exato momento está com a sua gloriosa roupa de tafetá verde-jade dançando "Show me the Way to Amarillo" pelo salão, loucamente. Foi convidado para ser dama de honra no casamento de Peter e Eric, lembram?

Fintan e Sandro já estavam juntos há vários anos. Sandro era italiano, mas baixinho demais para ser qualificado como um "garanhão italiano". Só podia ser "pônei" mesmo. Era arquiteto e vivia com Fintan, com esplendor e estilo, no bairro de Notting Hill.

Você me conta uma coisa que eu vivo querendo saber?.. — perguntou Tara, com todo o cuidado. — Você e o pônei nunca têm brigas?

— Brigas?! — Fintan mostrou-se perplexo. — Você quer saber se nós brigamos um com o outro? Que pergunta estranha. Somos apaixonados um pelo outro.

— Desculpe — murmurou Tara.

— Nunca paramos de brigar! — continuou Fintan. — Vivemos um tentando estrangular o outro, de manhã, de tarde e de noite.

— Então vocês estão, tipo assim, viciados um no outro? — perguntou Tara, com um pouco de ansiedade.

— Vamos colocar do seguinte modo: quem fabricou Sandro fez o melhor trabalho de sua vida. Mas, afinal, por que você está querendo saber das nossas brigas?

— Por nada — Tara entregou-lhe um pacote minúsculo. — Este é o seu presente para mim. Você me deve 20 paus.

Fintan recebeu o pequeno embrulho, admirou o papel de presente e o devolveu para Tara, dizendo;

— Feliz aniversário, boneca. Quais os cartões de crédito que você aceita?

Tara e Katherine tinham um acordo com Fintan, e costumavam comprar os próprios presentes de aniversário e de Natal, para depois cobrarem dele o valor gasto. Essa tradição teve início no aniversário de 21 anos de Fintan, quando as duas quase foram à falência ao comprar para ele a obra completa de Oscar Wilde. Ele aceitara o presente com os devidos agradecimentos, mas manteve o rosto peculiarmente sem expressão. Algumas horas mais tarde, quando a festa já estava avançada, elas o encontraram soluçando, curvado em posição fetal no chão da cozinha, entre restos de batatas fritas esmigalhadas e latas vazias. Livro!, choramingava ele. Essa porra de livros... Sinto muito por parecer ingrato, mas ê que eu achei que vocês iam me trazer uma camiseta emborrachada do John Galliano!

Depois dessa noite, eles chegaram àquele acordo, que ainda vigorava.

— O que foi que eu dei a você? — perguntou Fintan.

Tara rasgou o papel de presente com animação e exibiu um batom.

— Mas este não é um batom qualquer — explicou, empolgada. — Este aqui é indelével, não sai de jeito nenhum. A menina da loja me garantiu que ele resiste até mesmo a um ataque nuclear. Acho que a minha longa busca finalmente acabou.

— Já não era sem tempo! — comentou Katherine. — Quantos batons indeléveis falsos você já foi convencida a comprar?

— Perdi a conta — respondeu Tara. — Eles vêm com essas promessas de marcar os lábios com profundidade e firmeza de cor, e logo depois já estão sujando a borda dos copos e o garfo, exatamente como qualquer batom comum. Dá vontade de chorar!

A próxima a chegar foi Liv, usando uma jaqueta curta da Agnes B, modelo "seria capaz de te matar para ficar com essa roupa". Ela se preocupava muito com grifes, como devia ser, em se tratando de alguém que trabalhava no mundo do design, ainda que na área de decoração de interiores. Liv era sueca. Alta, com braços fortes, tinha dentes resplandecentes de tão brancos, e cabelos pela cintura, quase brancos de tão louros, e com fio totalmente reto. Os homens muitas vezes pensavam reconhecê-la de algum filme pornô.

Liv surgira na vida de Tara e de Katherine há cinco anos, quando Fintan se mudou e foi morar com Sandro. Elas chegaram a colocar um anúncio em busca de mais alguém com quem dividir o apartamento, mas não estavam conseguindo ninguém que estivesse disposto a ocupar um quarto tão minúsculo. Ao ver Liv chegar para visitar o apê, não levaram fé naquela sueca. Ela parecia grande demais para o espaço. No momento, porém, que Liv descobriu que Tara e Katherine eram irlandesas — e, melhor ainda, que tinham vindo da região rural da Irlanda —, seus olhos azuis se acenderam, ela pegou a bolsa e entregou o dinheiro do depósito na mesma hora.

— Mas... — perguntou Katherine, surpresa. — Você nem perguntou se nós temos máquina de lavar roupa.

— Isso é o de menos — disse Tara, visivelmente abalada. — Você nem quer saber onde fica o bar mais próximo?  Tudo bem — assegurou Liv, com um leve sotaque, — Essas coisas não são importante.

— Se você pensa assim... — Tara já estava se perguntando se Liv tinha alguns amigos suecos em Londres. Gigantes louros e bronzeados que ela ia trazer para casa e apresentar às amigas.

Só que, poucos dias depois de Liv se mudar para o apartamento, o motivo de seu entusiasmo instantâneo veio à tona. Para alarme e consternação de Tara e Katherine, Liv perguntou se poderia acompanhá-las à missa, ou juntar-se a elas para rezar o terço, à noite. Parece que Liv estava à procura de algum significado para a vida. Havia encalhado temporariamente nos recifes da psicoterapia e estava agora apostando todas as esperanças na iluminação espiritual, torcendo para que o catolicismo das novas amigas pudesse passar para ela.

— Desculpe desapontá-la — explicou Katherine, com gentileza —, mas é que não somos assim muuuito católicas não...

— Não somos muito católicas? — exclamou Tara. — Sobre o que você está falando?

Katherine pareceu surpresa. Certamente não reparara em nenhum sinal de renovação recente na fé de Tara.

— Não somos muito católicas é uma expressão meio fraca — continuou Tara, explicando melhor. — Católicas totalmente relapsas seria uma descrição mais precisa.

Liv, porém, acabou superando o desapontamento inicial. E, embora passasse uma porcentagem de tempo alarmantemente alta em conversas sobre reencarnação com o jornaleiro da esquina — que era indiano e seguia a religião sique —, de resto ela era perfeitamente normal. Tinha namorados, ressacas, recebia cartas ameaçadoras da administradora de seus cartões de crédito e possuía um guarda-roupa cheio de modelos que comprara em liquidações, com descontos de até 70 por cento, e nunca usara.

Liv dividiu o apartamento com Tara e Katherine durante três anos e meio, até que decidiu tentar banir sua dor existencial comprando um apartamento próprio. Mas passou todas as noites dos primeiros seis meses no velho apê de Tara e Katherine, chorando e explicando o quanto era solitário morar sozinha, e ainda estaria nessa se Katherine e Tara não tivessem saído de lá e ido cada uma cuidar da sua vida.


CAPÍTULO 2 
— Então, somos só nós quatro? — Fintan parecia surpreso.

Tara fez que sim com a cabeça, explicando:

— Estou muito fragilizada para celebrações loucas. Preciso do conforto de um pequeno grupo de amigos neste dia triste.

— O que eu quis perguntar, na realidade, foi "Cadê o Thomas?” — os olhos de Fintan cintilaram.

— Ahn... ele queria curtir uma noite em casa, sossegado — disse Tara, ligeiramente envergonhada.

— Mas hoje é o seu aniversário! — protestaram todos, em coro —... E ele é o seu namorado!

— Ele nunca sai conosco — reclamou Fintan. — O bundão ranzinza devia ter feito um esforço para vir, já que era o seu aniversário.

— Mas eu não me importo! — insistiu Tara, com sinceridade. — E ele vai me levar ao cinema, amanhã à noite. Deixem-no em paz! Admito que ele não é o cara mais fácil de se conviver no mundo, mas também não é tão detestável. Ele simplesmente é emocionalmente marcado porque...

— Sim, sim, sim — interrompeu Fintan —, já sabemos. A mãe dele o abandonou quando ele tinha sete anos, e então não é culpa dele o fato de ser um bundão ranzinza. Mas ele devia tratar você melhor. Você merece o máximo!

— Mas eu já estou satisfeita com o que tenho — exclamou Tara.

— Juro por Deus! A expectativa que vocês têm de mim é muito... muito... — e fez uma pausa, buscando a melhor palavra. —... Muito exacerbada. Vocês são como aqueles pais que querem que o filho seja um neurocirurgião quando ele só presta, na verdade, para ser catador de lixo. Eu amo Thomas Fintan ficou mudo de tanta frustração. O amor era cego mesmo, sem sombra de dúvida. No caso de Tara, além de cego, era surdo, mudo, disléxico, andava torto e estava com um princípio de Alzheimer.

— E Thomas me ama — assegurou Tara, com firmeza. — E antes que vocês comecem a me dizer o quanto eu estaria melhor sem ele, devo lembrá-los de que estou em pleno sufoco do "agora ou nunca". Em meus decrépitos 31 anos, provavelmente nunca mais vai passar


outro homem no qual eu possa embarcar!

Liv entregou a Tara seu cartão e o presente. O cartão era coberto com seda e pintado à mão, e o presente era um vaso de vidro comprido e liso, em azul-cobalto.

— Nossa, é lindo!... Liv, você é tão estilosa que chega a doer! — exclamou Tara, escondendo o seu desapontamento ao ver que o presente não era a loção anticelulite da Clarins, sobre o qual ela havia soltado indiretas quase explícitas. — Obrigada!

— Estão prontos para fazer o pedido? — perguntou Darius, já com a caneta na mão.

— Acho que sim — murmuraram todos. — Alguém aí, pode começar...

— Certo, então eu começo! — Tara sorriu por trás do cardápio. — Vou querer um Chokito gratinado, acompanhado por uma barra de cereais refogada e um cappuccino de raiz-forte.

Darius continuou olhando para ela, sem achar graça. Tara fizera exatamente a mesma coisa da última vez.

— Desculpe — disse ela, dando uma risadinha. — É que é divertido imaginar essas combinações malucas.

Darius continuava a olhar fixamente para ela, impassível.

— Por favor — sussurrou Katherine. —... Simplesmente peça!

— Tá bom, desculpe. — Tara pigarreou. — Muito bem, vou querer o bife brülé com molho de coentro, broto de raiz de beterraba refogado com curry e um purê de chocolate.

— Tara! — explodiu Katherine.

— Não, não, está certo — disse Fintan, apressado, tentando acalmá-la. — Isso realmente tem no cardápio.

— Ah, é? — Katherine olhou para a lista de pratos. — Então, tá... desculpe. Na verdade, traga um prá mim também...

Depois que a comida chegou, com cada prato mais elaborado que o anterior, a conversa rumou para questões relacionadas com a idade.

— Apesar de tudo o que as pessoas falam — insistiu Katherine —, não são as rugas que me deixam deprimida. É o fato de que, nos últimos dez anos, o meu rosto inteiro simplesmente...

— Despencou! — falaram em coro Tara e Liv. Elas sempre faziam isso.

— Sei exatamente o que você quer dizer. — Tão bem treinada como se estivesse disputando uma corrida de revezamento, Tara assumiu o bastão e continuou: — Se você olhar para a foto que está no meu passaporte, que foi tirada nove anos atrás, vão notar que minha boca estava quase na testa. Em compensação, agora meus olhos estão totalmente caídos, batendo lá no queixo... Qual dos queixos?, eu sei que vocês estão pensando... e as minhas têmporas estão quase na altura da minha cintura.

— Que sorte a nossa termos à disposição as maravilhas da cirurgia plástica! — exclamou Liv, com ar passional.

— Não sei não... — disse Fintan, pensativo. — Acho que é maravilhoso envelhecer com graça e deixar a natureza seguir o seu curso. Um rosto maduro tem tanta personalidade...!

As três mulheres olharam para ele com a cara azeda. Obviamente, Fintan não conseguia visualizar como era assistir às próprias feições se desfazendo diante do espelho. Mas, também, o que se poderia esperar? Embora fosse gay, Fintan continuava sendo do sexo masculino, abençoado com níveis tão elevados de colágeno que se achava Dorian Gray. Mas deixe que se passem mais dez anos, e então vamos ver se ele continua com essa história absurda de envelhecer de forma graciosa. Ele vai correr de joelhos, pedindo por um bisturi, pensaram elas, com sombria satisfação.

— Um rosto maduro tem tanta personalidade...! — imitou Tara. — Essa é boa, ainda mais vindo do sujeito que quase teve que se mudar para um apê maior, a fim de abrigar a sua coleção de potes da Clinique. Um curador, é disso que o seu banheiro precisa. Você até poderia abri-lo para visitação pública.

— Mii-au!... — riu Fintan (algumas das expressões que usava haviam resistido à sua reinvenção).

Então a conversa seguiu, inexoravelmente, para o tiquetaque dos seus relógios biológicos.

— Eu adoraria ter um bebê — disse Liv, com ar pensativo e melancólico. — Detesto ter um útero aqui dentro em compasso de espera.

— Não! — ralhou Katherine. — Você está apenas em busca de realização, mas só vai conseguir sofrimento.

— Não se preocupe, pois isto não vai acontecer — lamentou Liv. — Pelo menos não enquanto o meu namorado estiver casado com outra mulher e morando na Suécia.

—Pelo menos você tem um namorado — disse Fintan, com ar alegre. — Não é como a nossa Katherine aqui. Faz quanto tempo desde que você transou pela última vez?—Katherine simplesmente sorriu de forma misteriosa e Fintan suspirou. — O que vamos fazer com você? Não é nem o caso de você não receber cantadas masculinas.

Katherine tornou a curvar os lábios, dessa vez com um sorriso ligeiramente mais firme.

— Sabem de uma coisa? Eu adoraria ter um bebê — admitiu Fintan. — Esse é o único arrependimento que eu tenho por ser viado.

— Mas você pode ter um bebê — animou-o Tara. — Arrume uma mulher prestativa, faça um contrato de barriga-de-aluguel e vá em frente!

— É mesmo... Que tal uma de vocês? Katherine?

— Não — respondeu Katherine, bem depressa. —Jamais vou ter filhos.

Fintan riu ao ver a expressão de nojo em seu rosto e previu:

— O amor de um homem legal vai fazer você mudar de idéia. E quanto a você, Tara? Sente alguma fisgada no útero diante da idéia de ficar cuidando de um bebê de um lado para outro?

— Sinto... Não... Quer dizer, não sei. Talvez... — hesitou. — Mas vamos reconhecer... Eu mal consigo cuidar de mim mesma. Ter que lavar, alimentar e vestir alguém ia ser um desastre! Sou muito imatura.

— Vejam só o que aconteceu com Emma — concordou Katherine. Emma, uma velha amiga de todos à mesa, fora, no passado, a mais divertida das mulheres, até arrumar dois filhos, um atrás do outro a era uma mulher absolutamente fantástica, mas agora parece uma daquelas ativistas ambientais.

— Desperdício de uma grande figura feminina — disse Tara. — Não tem tempo nem de lavar os cabelos, porque vive ocupada, limpando bundas. Mas está feliz.

— Pensem em Gerri — lembrou Katherine. Gerri era outra amiga das antigas, que adorava festas, até ter um filho e imediatamente se transformar ela própria em um bebê. — Gerri perdeu por completo a capacidade de falar como uma pessoa adulta.

— Mas ela já aprendeu a usar o peniquinho e sabe contar até dez — informou Liv. — E está feliz também.

— E não esqueçam da Melanie — disse Katherine, com ar sombrio. — Costumava ser tão liberal... agora se transformou em uma verdadeira fascista de extrema-direita, e seria uma adversária dura para a Frente Nacional. É isso o que uma criança pode fazer por você. Melanie vive tão ocupada assinando petições contra pedofilia que se esqueceu da própria vida.

— Mas pensem só a emoção que seria segurar o seu próprio bebê nos braços — disse Liv, com a voz suave. — Que alegria! Que felicidade!

— Alerta de sentimentalismo, acudam todos! — riu Tara. — Liv está ficando toda derretida! Alguém aí, impeça isso!

— O que foi que Thomas lhe deu de presente de aniversário, Tara? — A fim de desviar a atenção de Liv, antes que ela explodisse em lágrimas sentimentais, Katherine acabou falando sem pensar:

— Uma nota de 10 shillings*? — sugeriu Fintan.

— Dez shillings? — debochou Tara. — Cai na real! Ele jamais seria assim tão perdulário — acrescentou. — Uma moeda de 1 farthing* *, essa talvez ele me desse de presente... — Bateu com o punho na mesa e anunciou, com um forte sotaque de Yorkshire: — Não sou pão-duro, sou apenas controlado! — A voz de Tara soou incrivelmente igual à de Thomas.

— Então foi um vasinho para flores revestido de conchinhas presas com cola branca, que ele mesmo fez? Ou quem sabe uma caneta esferográfica usada? — pressionou Fintan.

— Ele me deu um especial Thomas Holmes — contou Tara, voltando a usar a voz normal. — Um potinho de creme para as mãos e a promessa de uma lipoaspiração no dia em que ele ganhar na loteria.

Ele não é mesmo hilário? — perguntou Fintan, com sarcasmo.

Foi um potinho de creme para as mãos novo? — perguntou Katherine, com tom neutro. — Ou ele roubou o produto no banheiro feminino do lugar onde trabalha?

— Ora, por favor! — Tara pareceu indignada. — Claro que não era novo! Era o mesmo que ele me deu no Natal passado. Eu havia enfiado o presente no fundo de alguma gaveta, ele obviamente o encontrou e resolveu reciclá-lo.

— Mas que unha-de-fome! — Liv não conseguiu se segurar.

_________________

* Nota fora de circulação, ainda do tempo em que o sistema monetário britânico


não era decimal. Dez shillings era o equivalente a meia libra. (N.T.)

** Moeda mais antiga e ainda de menor valor. (N.T.)


— Ele não é unha-de-fome — rebateu Tara.

Liv pareceu surpresa. Normalmente, Tara era a primeira a comentar o quanto Thomas era mão-fechada, antes de qualquer pessoa falar isso, só para mostrar que ela não se importava.

— Ele é só ligeiramente sovina — completou Tara. — Vamos lá, Liv, pode dizer...

— Thomas é só ligeiramente sovina — repetiu Liv. — Obrigada, Tara.

— De qualquer modo, dá para entender o seu ponto de vista — disse Tara. — Essas datas foram todas inventadas pelos comerciantes, para poderem ganhar mais dinheiro. Natal, Dia dos Namorados e toda essa xaropada. Eu o admiro por se recusar a ser manipulado. E isso não quer dizer que Thomas nunca me compre presentes. Algumas semanas atrás, sem motivo especial, ele me trouxe uma linda bolsa de água quente com revestimento felpudo para minhas cólicas.

— É tão avarento que prefere isso a comprar um bom analgésico todo mês, porque ia acabar saindo mais caro — debochou Fintan.

— Ah, não fale assim — e Tara quase riu. — Você não vê o que eu vejo.

— E o que você vê?

— Sei que Thomas parece meio grosso, mas, na verdade, ele sabe ser carinhoso. Às vezes... — e pareceu levemente envergonhada ao relatar o fato — ele me conta lindas histórias na hora de dormir, sobre um ursinho chamado Ernest.

— Isso é um eufemismo para o pau dele? — perguntou Fintan, com ar desconfiado. — Esse Ernest costuma se esconder à noite em cavernas escuras?

— Ah, acho que estou perdendo meu tempo com você — reagiu Tara, dando boas risadas. — Você tem alguma fofoca nova? Vamos lá, conte-nos algo bem indecente a respeito de alguém famoso.

Fintan, que era o braço direito da famosa Carmella Garcia, uma decoradora espanhola ligada em coca, que costumava ser chamada pela crítica especializada de "gênio impressionante" e, ao mesmo tempo, de "megera alucinada", estava por dentro de todo tipo de informação escandalosa a respeito dos ricos e famosos.

— Certo, tenho fofocas, mas posso, antes, pedir outro drinque?

— Ele é só ligeiramente sovina — completou Tara. — Vamos lá, Liv, pode dizer...

— Thomas é só ligeiramente sovina — repetiu Liv. — Obrigada, Tara.

— O papa é católico? — reagiu Tara, sendo óbvia.

Muito tempo e vários cafés mais tarde, Katherine começou a reparar, com certo desconforto, que Unhas Roxas estava louca para fechar o caixa e ir para casa. Ou, talvez, fechar o caixa, sair e ficar doidona em algum lugar.

— Acho que é melhor fecharmos a conta — disse, interrompendo as risadas bêbadas e escandalosas.

— Deixem que eu pago — ofereceu Fintan, com o ar magnânimo das pessoas que já estão prá lá de Marrakech. — Eu... absolutamente... insisto!

— De jeito nenhum! — disse Katherine.

— Você está me ofendendo — reagiu Fintan, colocando o cartão de crédito sobre a mesa com força. — Está me insultando!

— Como você vai conseguir manter a sua conta negativa em apenas dez milhões se continuar pagando o jantar para todo mundo? — alertou Katherine.

— Ela tem razão — concordou Tara, com determinação. — Você me disse que ia acabar preso se continuasse a aumentar a conta do cartão sem controle. Comentou que os caras de farda iam chegar com algemas e cassetetes, prontos para lhe enfiar o cacete.

— Deus te ouça! — exclamaram a uma voz Fintan e Liv, cutucando-se mutuamente e caindo na risada.

— ... Disse ainda que eles iam levar você para longe e nós nunca mais íamos ver você. “Impeça-me se eu for usar este cartão novamente” foi o que você pediu. — Tara empurrou o cartão sobre a mesa de volta para ele.

— Até parece!... Logo você falando isso!

— Dois erros não formam um acerto.

— Como é que pode eu viver assim sem grana, totalmente durango...? — quis saber Fintan. — Eu ganho um salário decente.

— Pois é por isso mesmo! — consolou Tara, com lógica de bêbado. — Eu, por exemplo. Quanto mais o meu salário aumenta, mais pobre eu fico. Sempre que consigo um aumento, minhas despesas crescem mais, até absorver toda a grana nova, porque a expansão do que sai é muito maior do que a do que entra. Dizem que fazer dieta só serve prá gente engordar ainda mais, não é? Pois eu acho que aumentos de salário só servem prá deixar a gente mais pobre!

— Por que não conseguimos ser um pouco mais como você, Katherine? — especulou Fintan.

Katherine, certa vez, confessara que sempre que era aumentada no emprego fazia uma transferência mensal para a poupança, exatamente no mesmo valor do aumento recebido, partindo do princípio de que, como ela não tinha aquele dinheiro antes, não ia sentir falta dele mesmo. Dividiu a conta por todos e disse:

— Preciso de gente perdulária por perto, para poder me sentir superior.

Finalmente, foram embora.

Darius, o garçom, observou Katherine, que deslizava com elegância rumo à saída. Ela não era o seu tipo, mas algo em seu jeito o deixara intrigado. Reparou o quanto ela bebera, mas não estava cambaleando, nem dando guinchos agudos ou se amparando nos outros, como o resto do grupo. E ficara impressionado pela forma como ela se comportara logo que chegou. Era especialista em mulheres que fingiam indiferença ao ficar esperando à mesa, sozinhas, por alguém, e tinha certeza de que a pose despreocupada de Katherine era legítima. Tentou achar uma palavra para descrevê-la (ele queria ser um DJ, e palavras não eram exatamente o seu ponto forte). Enigmática, seria a palavra que ele procurava, se ao menos conhecesse o termo.

— Para onde vamos agora? — perguntou Tara, com avidez, depois que todos conseguiram chegar na calçada, aos trancos e barrancos. Embora ainda fosse princípio de outubro, já estava bem frio. — Alguém sabe de alguma festa?

— Não, essa noite não.

— Não tem festa nenhuma? Geralmente sempre alguém descola alguma...

— Podíamos ir ao Bar Mundo — sugeriu Katherine.

— Não! — recusou Tara, balançando a cabeça. — Vou lá toda quarta-feira com o pessoal da minha seção, e associo o lugar com ambiente de trabalho.

— Que tal o Blue Note?

— Deve estar entulhado. Não íamos conseguir uma mesa.

— E o Happiness Stan?

— A música estava uma bosta, da última vez que fomos lá.

— E o Subvertido?

— Ah, por favor, me poupe!

— Acho que isso é uma negativa. — Katherine já estava acabando com a lista dos lugares que costumavam freqüentar.

— Que tal a Câmara de Torturas? — sugeriu Fintan, com ar alegre. — Tem um monte de bofes lindos andando de um lado para outro, presos por coleiras.

— Não, você já esqueceu? — lembrou Katherine. — Fomos barradas lá naquela vez, por sermos mulheres.

— Ah, foi por isso? — surpreendeu-se Liv. — Achei que tinha sido porque nossas cabeças não estavam raspadas.

— Sabem de uma coisa? Não estou a fim de ir para uma boate dessas não — admitiu Tara. — Não estou no clima prá fazer zona. Queria mesmo era sossegar o facho, sentar em um lugar confortável, sem precisar sair na porrada para conseguir um drinque, e me sentir capaz até de ouvir o que estamos conversando... Puxa, caramba!... — e apertou o próprio estômago com ar de pavor. — Já começou a acontecer! Menos de um dia depois dos 31 e eu já estou parecendo


uma velha! Agora vou ter que ir para um lugar doido desses, só para provar a mim mesma que é o que eu quero.

— Também não estou muito a fim de ir para a balada hoje não... — consolou-a Liv — mas talvez seja porque eu já cheguei aos 31 e meio, e devo estar começando a aceitar a velhice.

—- Não! — Tara fez cara de indignação. —Já é péssimo o fato de eu não querer ir, mas aceitar isso, nunca! Odeio o processo de envelhecimento, odeio de verdade!

— O próximo passo é começar a achar que era melhor ficar na cama vendo televisão do que fazer qualquer outra coisa — os olhos de Katherine cintilavam de maldade. — Então, você vai começar a dar desculpas para não sair de casa. Tem até um nome oficial para


essa Síndrome: enclausuramento. O controle remoto vai virar o seu melhor amigo.

— Eu já o amo — confessou Tara.

— E então você vai deixar de comprar Vogue e começar a comprar Living Etc.

— Essa é aquela revista de decoração de interiores? Katherine concordou com ar diabólico e Tara fez cara de nojo, exclamando: — Argh!...

— Vamos para o apartamento de alguém — tentou Fintan, decidido a manter a agitação da noite. — Podemos fingir que lá é um point da moda.

— Então, o que acham da minha casa? — sugeriu Tara, pensando em Thomas e torcendo para eles recusarem. Estava bêbada, mas não tão bêbada assim.

— E que tal a minha casa? — sugeriu Katherine, também pensando em Thomas.

— Eu voto na casa de Katherine — falaram Liv e Fintan, ao mesmo tempo e bem depressa, também pensando em Thomas.

— Tem birita lá? — quis saber Tara.

— Claro que tem! — respondeu Katherine, com ar de ofendida.

— Puxa, viramos adultos de verdade — murmurou Tara, com a língua engrolada.

Katherine fez sinal para um táxi, o que aborreceu os dois homens que estavam na rua a 50 metros adiante deles e que já estavam esperando há mais tempo.

— Gospel Oak, por favor — pediu ela.

E tão perto que vocês podiam ir a pé — reclamou o motorista. Eu não podia não — explicou Tara, com cara de empolgada. — Estou de porre.

— Vocês lembram... — recordou ela, depois que os quatro já haviam entrado no táxi — que o álcool não durava nada, acabava rapidinho, no tempo em que morávamos todos juntos? Sempre que íamos para a Irlanda — esticou o braço na direção de Katherine e
Fintan —, ou voia para a Suécia — apontou para Liv —, e trazia mos bebida do crie fop... quer dizer, do free shop, detonávamos tudo, até a última gota, assim que chegávamos em casa.

— Essa era a nossa pobreza — confirmou Liv.  — A palavra certa é "fraqueza" — corrigiu Tara, de forma casual. — Mas não se tratava apenas disso. Éramos jovens, tínhamos fogo aqui dentro! — e massageou a barriga.

— Agora, somos velhos — disse Liv, pesarosa.

— Não! — comandou Katherine. — Ainda está muito cedo prá vocês duas desmoronarem. Ainda temos pelo menos mais uma hora para curtir.

 CAPÍTULO 3 
Enquanto Fintan e as amigas estavam no restaurante, a poucos passos dali, uma festa acontecia. É claro que havia várias festas acontecendo em toda parte, porque era Londres, em plena sexta-feira à noite, e na região de Camden. Esta festa em particular, porém, contava com a presença de Lorcan Larkin.

Lorcan Larkin era um homem para quem quase tudo dava certo. Na verdade, a única coisa que não funcionava bem para ele era o próprio nome — meio estranho de pronunciar, Tinha um metro e noventa, peito largo, barriga lisa e sarada, tipo tanquinho, pernas compridas, quadris estreitos em um corpo escultural que ele conseguia manter a base de muita comida, bebida e fumo. Exibia cabelos espessos, ruivo-escuros, olhos estreitos cor-de-violeta e uma das bocas mais lindas e sensuais que se podia encontrar na virada do século 21, na área de azaração de Camden.

Milhares de mulheres eram lançadas em um turbilhão confuso sempre que encontravam Lorcan e imediatamente se viam invadidas de tesão por ele.

— Mas eu nem mesmo acho homens ruivos atraentes! — era um refrão comum. — Isso é tão embaraçoso!

Lorcan era um ruivo muito especial. Nada de gozações do tipo "Olha só aquele babaca com cabelo cor-de-gengibre" quando ele passava pela rua. O mais comum era um desfile de olhares extasiados.

E, nos raros casos em que alguma mulher se via prestes a ficar pau da vida com ele, em vez de se lançar a seus pés, Lorcan usava a sua arma secreta. O sotaque irlandês. Só que não era aquele sotaque caricato, que as pessoas usavam para fazer piada com os irlandeses, tipo "ói nóis aqui". Nada disso... a voz suave de Lorcan era fluida, lírica, mas, acima de tudo, culta e refinada. Ele não tinha receio de injetar alguma citação estranha ou um verso poético no meio da conversa se achasse que a situação pedia isso. As mulheres ficavam hipnotizadas pela voz de Lorcan, porque era assim que ele queria.

No exato momento em que Tara estava pedindo para comer duas sobremesas ("Ora, é o meu aniversário, afinal", anunciou, com ar de desafio), Lorcan decidiu que ia comer a filha da dona da casa, que tinha 16 anos e se chamava Kelly. Obviamente, ela estava louca para que isso acontecesse, pois dera em cima dele a noite inteira, lançando-lhe olhares provocantes com seus imensos olhos de gazela, roçando os peitos grandes e firmes em seu braço sempre que passava perto dele. Tudo bem que Angeline, sua mãe, ia ficar muito pau da vida, mas não seria a primeira vez que mãe e filha iam sair no tapa por causa dele, e também não seria a última. Lorcan observou Kelly com atenção, distraindo-se com a sua gloriosa abundância adolescente. Suas pernas eram compridas e esbeltas, seu traseiro empinado e bem redondo. Dava para sacar que era o tipo de mulher que ia engordar muito cedo e muito rápido. Em mais uns dois anos, tudo aquilo estaria completamente perdido, entre pneuzinhos, barrigas duplas cheias de gordura e o resto todo desperdiçado. E ela estaria se perguntando o que acontecera de errado com o seu corpo. Naquele instante, porém, estava perfeita.

— Hora de vazar, meu chapa — Benjy lembrou a Lorcan, tentando disfarçar a ansiedade. Lorcan já devia estar na casa da namorada, Amy, há várias horas, para comemorar o seu aniversário.

— Ainda não... — Lorcan enxotou Benjy com a mão.

— Mas... — protestou Benjy.

— Larga do meu pé! — falou Lorcan, entre dentes.

Benjy já dividira um apartamento com Lorcan, quando os dois eram mais jovens, e era uma espécie de secretário social não-oficial do amigo. Vivia colado em Lorcan, na esperança de que o seu tremendo sucesso com as mulheres passasse para ele, pelo menos um pouco. No caso de isso falhar, sempre havia a oportunidade de estar por perto para receber as sobras de Lorcan — só isso já significava uma legião de mulheres — e recolhê-las com carinho, de preferência na cama.

Lorcan se levantou do sofá, esticando o corpo com descontração e graça. Com o rosto brilhando, foi em direção a Kelly, que baixou os olhos com ar tímido, não sem antes Benjy perceber um brilho de triunfo neles. Não conseguiu ouvir o que Lorcan disse para Kelly, mas dava para imaginar. Lorcan, certa vez, por pura bondade, lhe contara algumas de suas cantadas infalíveis.

— Tente murmurar bem junto da orelha dela "você é uma mulher terrível, me atormentando assim, com esse olhar..." — aconselhara ele a Benjy. — Ou então diga, de forma inesperada, como se estivesse nervoso: "Desculpe incomodá-la, mas preciso lhe dizer que você possui a boca mais maravilhosa que eu já vi... Desculpe mais uma vez por ter vindo perturbá-la, já estou de saída." Fale essas coisas e o seu sucesso com elas vai aumentar em 100 por cento — garantiu a Benjy.

Só que 100 por cento de aumento em cima de zero é zero mesmo. E as frases que funcionavam tão bem com Lorcan rendiam a Benjy apenas olhares sem expressão ou gargalhadas de desdém, sendo que em uma dessas vezes o resultado fora um tapa tão grande na cara que o deixou ouvindo sininhos por três dias.

— O que estou fazendo de errado? — quis saber Benjy, já desesperado, assim que sua audição voltou ao normal. Talvez ajudasse um pouco se ele não tivesse apenas um metro e sessenta e cinco de altura, não fosse gordinho e nem tivesse o cabelo desbotado e ralo, mas Lorcan não lhe disse nada disso. Gostava de bancar o benfeitor.

— Certo — concedeu Lorcan, sorrindo —, aprenda com o mestre. Você vê duas garotas. Uma delas é uma tremenda gata, e a outra, o contrário. Isso acontece com freqüência. Pois bem, você começa a dar em cima do dragão, entende?... Fica atrás dela que nem sarna e ignora a gostosa. A medonha fica toda empolgada por estar se dando bem, deixando a gata prá trás. A gata fica muito puta por estar sendo ignorada, e tenta fazer com que você se interesse por ela. No fim, você ganha as duas!

Benjy se encheu de esperança. Lorcan fazia tudo soar muito razoável.

Você tem alguma outra dica, Lorcan? Ele meditou por um momento, e então disse:

— Olhe... toda mulher aprecia algo em si mesma — explicou, — Toda mulher tem o que elas chamam de "ponto forte". Tente descobrir o que é. Pode acreditar, cara, é sempre óbvio. Então, elogie, seja lá o que for.

— Tem mais alguma coisa que eu precise saber? — concordou Benjy, com ar esperançoso.

— Sim. Com as gordas é mais difícil de descobrir o ponto forte. Segundos depois de Lorcan e Kelly desaparecerem, Angeline, uma mulher atraente que vivia preocupada com o tamanho da barriga, correu até onde Benjy estava.

— Para onde foi o Lorcan? — perguntou, preocupada. — E onde está Kelly?

— Ahn... Nã-não sei — gaguejou Benjy. — Mas não esquente, eles devem estar por aqui, em algum lugar — acrescentou, perguntando a si mesmo por que se preocupava com aquilo.

Eles realmente estavam por ali, na verdade dentro do quarto de Kelly, todo cor-de-rosa e entulhado de badulaques. Quase não dava para ver a cor do edredom sobre a cama, escondido por uma superabundância de bichinhos de pelúcia, todos arrumadinhos. Kelly parecia uma mulher feita, mas o resto dela ainda não percebera esse fato.

As coisas com Lorcan estavam indo rápido demais. Ela queria apenas que ele a beijasse, para ela poder dizer depois para a mãe, com ar de vitória: "Viu só, sua velha com cara de grávida? Eu disse que era mais gostosa que você." Ela ainda não decidira se o deixaria apenas apalpar seus seios, por fora da roupa, é claro, mas acabou resolvendo que era melhor não... Assim, quando Lorcan começou a abrir as próprias calças, isso foi um choque. Quando as arriou até o meio das pernas e acariciou sua ereção imensa e assustadora na cara de Kelly, isso foi um choque ainda maior.

— É melhor voltarmos para a festa — propôs ela, aterrorizada.

— Ainda não... — disse Lorcan, abrindo um sorriso perigoso e colocando a mão atrás dos cabelos macios de sua nuca.

Benjy levantou os olhos com uma mistura de admiração, ódio e inveja ao ver Lorcan voltar para a sala andando de maneira pomposa, como se estivesse dando a volta olímpica.

— Seu filho-da-mãe sortudo! — murmurou.

— Eu não trepei com ela. — Os olhos de Lorcan estavam límpidos embebidos de bondade. — Sua honra continua intacta.

— Sei, tá legal... Você não encostou um dedo sequer nela — debochou Benjy. — E quanto a Amy? É aniversário dela.

— Não consigo evitar — explicou Lorcan, sorrindo e levantando os ombros de um jeito que faria várias mulheres adultas se jogarem aos seus pés. — Eu amo as mulheres.

— Não, não ama... — falou Benjy, baixinho. — Acho que você as odeia.

— Ah, qual é?... — reagiu Lorcan. — Hora de cair fora. Vamos logo, cara, estamos atrasados! — E saiu andando na frente, com ares de quem tem um compromisso, ignorando Kelly, chorosa e humilhada, toda encolhida no primeiro degrau da escada.

— Por que você sempre trata as mulheres como lixo? — quis saber Benjy, assim que saíram para a rua, naquela noite fria de outubro, enquanto esperavam um táxi. — O que a sua mãe fez para você? Amamentou você no peito por tempo demais? Não amamentou o bastante?

— Minha mãe era ótima — disse Lorcan, com a voz suave e melodiosa contrastando com a de Benjy, aguda e cheia de raiva. Por que será que as pessoas viviam procurando motivos idiotas e freudianos para a pouca atenção que ele dispensava às mulheres? Era tudo muito simples. — No fundo, Benjy, trata-se apenas da velha piada, entendeu?

—Que velha piada? — berrou Benjy, ao ver que Lorcan não respondeu, seguindo a direção do seu olhar que pousou sobre três mulheres e um homem que estavam do lado de fora de um restaurante próximo.

— Que velha piada?! — repetiu Benjy, ainda mais alto, com a raiva amplificada pela imagem das quatro pessoas entrando no táxi que seria deles.

— Por que motivo os cães lambem o próprio saco? — perguntou Lorcan.

Benjy olhou para ele com um silêncio mal-humorado, sem saber a resposta.

— Porque eles podem, Benjy... — explicou Lorcan, com ar de tédio. — Porque eles podem.





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