À distância do mundo



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À DISTÂNCIA DO MUNDO

CLAUDIA SALOMÃO

1
Um dia ameno, como todos os outros daquele mês de junho. Aleksandr estava na janela do seu apartamento na Rua Malaya Bronnaya, no centro de Moscou. Já passava das oito horas da noite, mas o céu ainda estava claro. E lá fora, as pessoas corriam apressadas em direção às estações de metrô, fugindo para o conforto de seus lares. Aleksandr acendeu um cigarro e ficou apreciando as cores das luzes nas fachadas dos prédios. Talvez ele não soubesse mais se explicar, um homem de sessenta e dois anos, professor de literatura russa da Universidade de Moscou, atento aos horrores do mundo, além de sua cidade, trancada no coração da Rússia, para os últimos patriotas, que de uma forma ou de outra, livres nas suas ruas. Aleksandr se afastou da janela, puxou as cortinas e ligou a televisão. No noticiário o ataque de ultranacionalistas contra grupos étnicos nas proximidades do Kremlin e a candidatura à presidência de Sergei Gulyayev. O tempo que muda tudo num segundo, transformando as horas num segundo do passado. Aleksandr procurou um saca-rolhas e abriu a garrafa de vinho. Sentia frio, e vestiu um casaco de lã, enquanto seus pés descalços gelavam no frio dos tacos de madeira da sala. Sentou-se à mesa e enquanto bebia o vinho, rabiscava um pouco de poesia. “ O mundo não penso, apenas sinto... Horas de amor atrás das janelas, eu me embriagando sozinho... Quando ela vêm, à meia-noite, quase ando desnudo pela cidade. Vejo todos dormindo e ela me segura pela mão. Seus olhos são frios, e ela me mostra os seios. Ainda pulsam, incógnitos, na tentativa de me seduzir. O que nos meus lábios já têm gosto de cereja preta.” Aleksandr larga a caneta sobre o papel. Aquela música ele sabia de cor. Sabia inventar o refrão, quando tudo no seu quarto escuro parecia solidão. Aproximou-se da janela... Lá vem a noite... Liga o aparelho de som na rádio Kultura. Um concerto para piano de Rachmaninov, o que o levou longe, quando criança, tocando piano numa sala vazia, lutando contra os seus demônios e manchando o rosto com algumas lágrimas. Aleksandr olha o piano antigo, herança dos pais, encostado num canto e se emociona. Já faz algum tempo que não compõe nenhuma música, último de seus refúgios. Acende mais um cigarro e se deixa cair sobre o sofá de couro preto. O computador no canto da sala, a estante abarrotada de livros, o tapete vermelho, o velho abajour, a televisão... O mundo de tantos homens deve ser tão reduzido assim... O que o faz escrever, dissecando a alma dos últimos poetas, à espera da imortalidade. O telefone toca... Aleksandr se levanta e atende ao telefone. Seu filho Filipp, de doze anos de idade...

- Pai?


- Como você está, meu filho?

- Você vai poder ficar comigo no fim de semana?

- Sim, por que não?

- Me leva no cinema?

- Levo sim... Eu preciso te buscar?

- Acho melhor...

- Sábado, logo pela manhã?

- Tudo bem.

- Um beijo, meu filho.

- Pai?


- Sim?

- O computador está funcionando? É que eu comprei um jogo novo.

- Filipp, já não te disse que não quero te ver grudado no computador?

- Só um pouco.

- Vamos ver...

Aleksandr desligou o telefone e ficou um pouco pensativo... Não sabia direito como educá-lo. As crianças de hoje são tão automáticas... Aleksandr pagava suas aulas de violino, coisa que Filipp fazia com muita resignação. Mas pouco conseguia quando tentava lhe iniciar no mundo da literatura, oferecendo-lhe alguns livros infantis e incitando-lhe a escrever algumas considerações à respeito do seu mundo. Aleksandr se levanta do sofá, vai até o banheiro e liga o chuveiro. Tira a roupa, procura um sabonete no armário branco e se olha no espelho. Às vezes duvida do que vê, e chega a se emocionar. Onde se encontra o paradeiro da nossa juventude? Quando era jovem, tantos anos nos corredores da universidade, sonhando com a poesia que nunca saia do papel por medo de desafiar os escritores russos que morreram embriagados e sujos de nanquim. O corpo recebe os primeiros jatos de água quente e ele demora cerca de vinte minutos debaixo do chuveiro. Quase sem pressa, perdendo os pensamentos em coisas levianas, lembrando-se da última vez que tinha amado uma mulher, uma professora de biologia de quarenta e dois anos, que conheceu numa exposição de Naum Gabo. Lembra-se de tê-la levado para um motel distante do centro da cidade e se embriagado de uísque. Enquanto ela se despia, ele imaginava-se escrevendo uma poesia sobre os seus seios brancos e sobre sua púbis quase virginal. Fizeram amor duas vezes e depois disso os dois apenas se esbarraram uma vez no refeitório da universidade, numa tarde chuvosa. Sentaram-se à mesma mesa e ficaram em silêncio durante todo o tempo, desviando-se de futuros comprometimentos. Ele termina de se lavar e se enrola na toalha azulada. Que horas será que são? Ele caminha até o quarto e vê que no relógio ao lado da cama já passam das nove horas. Veste o pijama e vai até a cozinha beber mais um pouco de vinho, enquanto fuma um último cigarro. Fecha as janelas, deixa as cinzas sobre o cinzeiro, toma dois comprimidos de antidepressivos e se deita sob a manta escura que cobre os lençóis de linho da sua cama. Logo o sono vem. Na hora que a maioria das pessoas reza uma prece e se deseja uma boa noite.


2
- Isaac Babel, como vocês mesmos puderam conferir, nessa pequena coletânea de contos, apesar da escassez de seu trabalho, é tido como um dos melhores escritores do século passado, misturando lirismo e barbárie. Gostaria que para a próxima aula vocês fizessem uma resenha sobre o seu conto preferido, que valerá um ponto a mais para a somatória da nota de vocês.

Assim que terminou de falar, os alunos começaram a deixar a sala de aula. Aleksandr conferiu as horas no relógio e também começou a arrumar as suas coisas. Num instante seu olhar pousou sobre aqueles alunos apressados e Aleksandr começou a se perguntar se tudo aquilo tornava sua vida real. Pegou suas coisas e caminhou tranquilamente até a sua sala. Abriu a porta e se deparou com uma quantidade de livros e papel, naquele seu mundo secreto, vasculhando a história da literatura russa para poder percorrer o seu caminho em paz, estendendo aos seus jovens alunos um pouco de significado para a construção de suas identidades. Acendeu um cigarro... Já estava na hora de se aposentar, mas achava que depois de cumprido seu papel na sua história pessoal, apenas lhe sobraria a nostalgia de um dia ter acreditado em si mesmo. Seu país, sua grande Rússia, talvez o abençoasse e lhe desse um descanso merecido. Deixou a universidade e seguiu em direção ao cemitério Novodeivicky, onde estava enterrado os restos mortais de seus ancestrais. Estacionou o carro na entrada do cemitério, comprou algumas flores e seguiu pelas trilhas entre as lápides até encontrar o jazigo de sua família. O céu estava encoberto e há apenas alguns metros dali, uma jovem de cabelos loiros, vestida numa roupa preta, acendia uma vela e chorava compulsivamente, chegando a incomodar o silêncio que se ouvia no lugar. Aleksandr não pode deixar de se comover. Largou as flores num vaso sobre o jazigo e se aproximou da jovem para oferecer-lhe um lenço.

- Obrigada.

Aleksandr se afastou um pouco e perdeu alguns instantes observando a foto do jovem que havia falecido.

- Era seu namorado?

- Sim.


- Não é melhor deixar a vida quando ainda somos feitos de sonhos?

- E os nossos sonhos interrompidos?

- Não deixam de ser sonhos.

- Obrigada pelo lenço... Agora está todo sujo.

- Não tem importância.

A jovem se virou e Aleksandr sentiu um aperto ao ver seus olhos escuros cheios de lágrimas. Um olhar quase inexpressivo, vago e frio, que por um instante pareciam secar todas as flores que já haviam morrido.

- Você tem um cigarro?

Aleksandr procurou o maço de cigarros dentro do bolso do casaco e lhe estendeu a mão.

- Eu nunca tinha amado antes.

Aquela frase explicava o seu olhar, embora agora eles pareciam demonstrar alguma vida.

- Ah... O amor... Nem sempre ele é categórico.

- Se fala isso é porque o amor já o abandonou há muito tempo.

- Talvez... Mas eu tento não pensar nisso.

- Se não o procura mais é porque já está morto.

- E onde mais você pensa encontrá-lo, agora que o seu amante se foi? Por que os fantasmas tendem a construir muros ao nosso redor, impedindo-nos de viver.

- Quem é você?

- Um dia eu sonhei ser um grande escritor, mas ainda não encontrei o tempo certo para me tornar imortal... E nem mesmo encontrei o amor, diferente de você.

Aleksandr começou a se afastar, mas a jovem o seguia com os olhos.

- Espere... Não me deixe aqui sozinha...

Aleksandr voltou o olhar para aqueles olhos, agora repletos de piedade.

- Então vamos embora.

A jovem se levantou, aproximou-se do jazigo de sua família e roubou uma das flores que ele havia deixado ali.

- Posso pegar mais um cigarro?

Quando deixaram o cemitério, ainda parados na entrada, Aleksandr lhe disse:

- O que acha de tomarmos um café? Está frio aqui.

- Não sei...

- Qual o seu nome?

- Iliya.

- Prazer, Aleksandr.

Ele não sabia direito o que fazia, com aquela jovem sentada ao seu lado dentro do carro, fumando seus cigarros compulsivamente.

- Quantos anos você tem, Iliya?

- Vinte e oito.

- Não consigo me lembrar de quem eu era quando eu tinha a sua idade.

- Talvez por que estamos sempre tentando nos esquecer de nós mesmos.

- Não sei... Talvez para ocultar os próprios erros.

- Mas se chegou até aqui...

- E para onde devemos ir?

- Conheço um café delicioso nessa rua.

- O quê?

- Desculpe-me, estou brincando...

- Não, é que você me deixou confuso.

Os dois deixaram o carro e entraram no café, num prédio bastante antigo nas proximidades do centro da cidade. Tiraram os casacos e se sentaram à mesa. Ele ainda não sabia o que estava fazendo ali, ao lado daquela jovem, que agora parecia mais animada.

- Na verdade eu nunca tinha vindo aqui.

- Está se sentindo melhor?

- Um pouco.

- Quer comer alguma coisa ou quer só um café?

- Quero um chocolate quente e um pedaço de torta de queijo.

- Vou pedir ao garçom.

- Além de sonhar em ser escritor, você faz o quê da vida?

- Podia apenas sonhar, não? Mas sou professor de literatura russa na universidade de Moscou.

- E existem muitas escritoras russas?

- Algumas... Mas a maioria abandonou a Rússia quando ainda eram jovens.

- Alguma coisa por aqui ainda nos escraviza, não?

- Quer falar de liberdade?

- É o que tento ilustrar no meu trabalho.

- Você faz o quê?

- Sou formada em artes plásticas... Faço esculturas, quadros... Mas ainda estou bem longe de romper as fronteiras do nosso mundo, embora também acredito que minha arte poderia ser melhor compreendida do outro lado do mundo... Como você mesmo disse, longe de nossos fantasmas.

- Posso te fazer uma pergunta? Seu olhar... Onde você está presa?

- E por que eu diria isso a um homem que acabei de conhecer?

- Por que foi a primeira coisa que eu percebi em você...

- Talvez eu tenha nascido cega, e outros olhares me fazem enxergar. Olhares mundanos, vagos, dominadores.

- É isso que eu sinto.

- Não deva ser nada bonito.

- Não... Eu não quis dizer isso...

- Mas é o que são. E nada me faz tanto sentido do que a busca pela minha identidade, pela minha liberdade.

- Entendo.

- Acho que terminamos.

- Quer que eu te deixe em algum lugar?

- Não... Eu moro aqui perto.

- Seria demais te pedir seu telefone? Gostaria de te ajudar...

- Não, não acho legal... Como eu mesma lhe disse, acabamos de nos conhecer.

- Mas eu gostaria que aparecesse lá na universidade, talvez se interesse por alguma aula... Eu adoraria...

- Isso é algum tipo de cantada barata?

- Lógico que eu sou só um tarado de sessenta e dois anos.

- Não quis dizer isso... Só acho que a minha vida já é bastante complicada para eu me envolver em...

- Se envolver em quê?

- Nada...

- Ficamos assim?

- Posso ficar com seus cigarros? Gostei da marca... São deliciosos.

- Pode sim...

- Então... Tchau, Aleksandr.

- Tchau, Iliya.

A jovem se levantou e o deixou sozinho, fazendo com que se sentisse um perfeito idiota. O que esperava, pensou consigo mesmo, que a levaria para algum motel barato? Às vezes ele acreditava que o amor fosse o tipo da coisa que se vendia em supermercados, mas se deliciava ao acreditar que podia apenas ser encontrados em livros, quando o escritor, nas suas palavras, sempre pode projetar o idílio de suas fantasias, descrevendo no espelho, o amor vislumbrado. Pagou a conta e se levantou. Dirigiu-se para o carro e seguiu em direção à sua casa. Alguma coisa daquela jovem tinha ficado nele, como se fossem parte da mesma coisa, e isso o deixou frágil, como se suas feridas tivessem ficado expostas, e por um instante sentiu raiva dela, por levar embora parte de sua solidão. Abriu o porta-luvas do carro e apanhou outro maço de cigarros. Desceu do carro e subiu pelo elevador. Um dia medonho, pensou. O amor podia tê-lo arranhado. Que ela estava por aí, isso ele acreditava, mas que a encontrasse chorando lágrimas de outro amor era inadmissível. E a sua loucura, a sua loucura, nem mesmo o melhor dos escritores poderia transgredi-la. Deitou-se na cama e ficou pensando... Qual o tamanho de Moscou nos olhos daquela jovem? E sentiu pena do homem, e sentiu pena do mundo... Quem poderia consolá-la?
3
Filipp brincava no chão da sua sala, com miniaturas de carros. Aleksandr fumava um cigarro, sentado no sofá, enquanto bebia uma dose de uísque. Já nem se lembrava de Iliya. Talvez, por conhecer tantas jovens, alunas suas, alguma coisa nele as desejava, alguma coisa nele se deixava esquecer. Mas ele sabia, as jovens são perigosas, nutrem paixões platônicas por desconhecidos e se despem na frente de sujeitos idiotas. Às vezes, resgatá-las desse vício podia ser uma ilusão para a sua alma amargurada.

- Onde quer almoçar, Filipp?

- No Mc Donald’s.

- Sempre no Mc Donald’s...

- Por favor, pai... Você sabe que a mamãe nunca deixa...

- Por que ela é esperta... Sabe que uma criança como você precisa de nutrientes, coisa que está bem distante dos sanduíches do Mc Donald’s.

- Só hoje...

- E só da próxima vez, e da próxima vez...

- Por favor... Lançaram um sanduíche novo.

- Um sanduíche novo, né? Tudo bem, Filipp, tudo bem...

- Legal...

- Então vamos?

Desceram o prédio e seguiram pela rua. Havia uma lanchonete do Mc Donald’s não muito longe dali. Os dois almoçaram tranquilamente, Aleksandr distraído com o movimento das pessoas ao seu redor. Sua vida não devia ser muito diferente das vidas dos milhões de russos de Moscou. Crianças, jovens ou velhos, todos pareciam acreditar na distância relativa que os afastavam do mundo, tornando para si próprios as únicas referencias.

- Quer ir ao Parque Gorki? Podemos andar de montanha-russa...

- Queria ir ao cinema...

- Mas o dia está tão bonito... Vamos aproveitar. É bem melhor do que ir ao cinema assistir mais um filme chato.

- Como você sabe que o filme vai ser chato?

- Como eu sei? Sempre é.

- Tudo bem... Mas da próxima vez eu quero ir ao cinema.

A tarde estava ensolarada... Caminharam em direção à montanha-russa, de onde, do alto, por um instante, antes das curvas em declínio, podia se avistar o rio que atravessava a cidade. Ele sentiu vontade de gritar, mas o sorriso do seu filho o fez evitar. Compraram pipocas e se sentaram num banco. No rosto de seu filho ele via uma nova chance para ele mesmo, como se aquela criança fosse ele em outra existência. Talvez mais alegre, talvez sem os melancólicos erros que fizeram com que crescesse alheio ao mundo, esperando apenas o dia seguinte para um futuro que nunca chegava. Comendo pipocas ele se perguntava: E o futuro, chegou? Deixou o menino em casa e seguiu sem rumo, fumando um cigarro, distraindo-se com as ruas, e com suas janelas cinzas. Por que no mundo se crescia tão distante um dos outros? Em nenhum lugar do mundo aquele seu povo vivia, e isso era assustador. Um mundo dividido pela fé em Deus, condicionando cada povo a um modo diferente de compreender Deus. Um Deus que entendia todas as línguas, até os dialetos nos lugares mais remotos, onde se sobrevive quase pela própria inexistência. Voltou para casa, descalçou os pés e lhe preparou um café. O telefone tocou. Era Moisey, um filósofo também professor da universidade, amigo há muitos anos, convidando-lhe para um drinque num bar da cidade. Desligou o telefone... Seria bom sair essa noite. Beber alguma coisa quente e observar as mulheres atrevidas, que vestiam seus melhores vestidos para uma noite de luxúria. Acendeu um cigarro... Zemfira tocando na rádio, um dose de vodka no copo de cristal... “ ya khochu chtoby vo rtu ostavalsya chestnyy vkus sigaret..” Quantos dias se perdendo nesse emaranhado de impossibilidades? Aleksandr se levantou do sofá e foi até o banheiro ligar o chuveiro. Seus pálidos olhos azuis, que tudo viam, das sombras às luzes. De quem o mundo nunca sente falta? Seremos eternos para Deus, em seus propósitos sem destino algum? Depois do banho ele veste uma camisa preta e uma calça jeans. E se deita na cama, fumando mais um cigarro. Mais tarde, já no bar, na rua Ulitsa Petrovka, embriagando-se e acabando com o maço de cigarros. Ele estava distraído e não percebeu que haviam lhe roubado um cigarro do seu maço.

- Você tem fogo?

Seus olhos pareciam diferentes, mas ele não deixou de se emocionar.

- Iliya?

- Ilyia? Sim sou eu, com outra alma, talvez ainda sem destino, quando Deus me der outro rosto e me transformar numa princesa medieval.

- Quanto você bebeu para não se lembrar de mim?

- Ei, seus cigarros são bons, mas quem é você?

- Aleksandr... Nos conhecemos no cemitério...

- Quer dizer que Iliya não perdeu a mania de freqüentar cemitérios?

- Você não é Iliya?

- Não... Iliya é minha irmã gêmea... Eu me chamo Natasha.

- Irmã gêmea?

- Pois é, infelizmente... Algumas pessoas tem a mesma alma, algumas pessoas tem a mesma cara. E bem, às vezes não tão iguais, cometem os mesmos erros... Aposto que ela também fumou um dos seus cigarros.

- Prazer, Natasha.

- Me paga um drinque?

- Acho que você já bebeu demais.

- É porque não espero nada dessa vida.

- Tão jovem e tão amarga...

- Pelo menos não freqüento cemitérios, chorando por alguém que já morreu há duzentos anos.

- É porque não acredita em amor eterno.

- Sei... Quem beijaria meus seios se eu me transformasse em outra pessoa?

- Não beijaria os de sua irmã também?

- Por que você beijaria os meus seios se pode muito bem beijar os da minha irmã?

- Talvez você fosse diferente...

- Diferente? Já me despi para dezenas de homens, e todos foram hipócritas. Lógico que gostaria de ter outro corpo, e me vingar...

- Talvez cometesse os mesmos erros.

- Talvez não cometeria nenhum. Mas nessa vida, creio já estar perdida...

- Você tem a mesma beleza da sua irmã, mas suas personalidades são diferentes.

- É o mínimo para que não nos confundam quando fazemos amor.

- ...

- O que foi?



- Estou pensando nisso que me disse.

- Já que conhece nós duas, com qual gostaria de fazer amor?

- Com aquela que me amasse...

- Amor... Não é o final das ilusões?

Por um instante Aleksandr pensou em lhe beijar. O uísque já subia à sua cabeça. E aquele sorriso não deveria ser mal interpretado. Sim, ela era bela, e ao contrário da irmã, sonhava com a vida. Mas ele não saberia dizer se havia algum mal naquilo.

- Não quer me levar para casa?

O carro seguia pelas ruas de Moscou. Os dois estavam em silêncio. Natasha fumava um cigarro, depois de descalçar os pés das sandálias altas. Aleksandr ligou o rádio, naquela hora em que as músicas são melosas, e em que o amor sempre se vinga nos quartos de motéis.

- Pode parar aqui.

- Onde é?

- Um cantinho charmoso no terceiro andar. Não é lá grande coisa, mas é meu, só meu...

- Quer que eu suba?

Natasha começou a rir.

- Não quer que eu tire a roupa para você?

- Quero sim.

E dizendo aquilo, Aleksandr sentiu pena de si mesmo. Não, ela não se parecia com uma prostituta barata, mas parecia que lhe fazia um favor.

- Não sinta pena de nós dois, por favor.

Natasha abriu a porta do prédio e apertou o botão do elevador.

- Com sorte deve ter um baseado em algum canto da casa.

- Sim, seria bom.

Quando Natasha abriu a porta Aleksandr se deparou com um cômodo pequeno. Um sofá azul no canto, alguns quadros nas paredes pintadas de preto.

- Pode tirar os sapatos...

O que ele fazia ali, meu Deus?

- O quarto é naquela porta. Vou pegar dois copos... Está a fim de uma dose de vodka?

- Sim.


Sentado na beirada da cama, olhando para o teto, vendo seu reflexo na televisão bastante antiga. Natasha apareceu, de sutiã, segurando os dois copos cheios de vodka e gelo.

- Achei o baseado... Tem isqueiro?

Os dois se sentaram na cama, encostando as costas na cabeceira. Natasha se deitou no seu colo e aspirava a droga. Aleksandr pousou os olhos sobre o seu peito, pulsando debaixo do sutiã rosado. E com as pontas dos dedos alisava seus cabelos.

- Você é bonita, Natasha... Muito bonita...

- É o tempo quem molda nossos corpos, não?

- É... Eu não tinha esse rosto na sua idade.

- Mas eu me imagino quando tiver a sua, sem medo de envelhecer.

- Talvez os homens não sejam tão mais fáceis.

- Talvez eu não seja mais tão fácil.

- Por que faz isso? Sou um estranho, não?

- Não acredito que possa me machucar, se bem que já errei em outras vezes. Os homens são medonhos, não acha?

- Deus e Cristo no mundo... Talvez lutem para ser o Diabo.

- Que frase... E o que resta às mulheres? Ser a virgem Maria?

- Por que não?

- E quantas Marias, não? Tantas virgens em seus corpos... Se pudesse voltar atrás em tudo o que já fiz, acho que seria virgem... Poderia viver com essa pureza.

Terminaram de fumar e voltaram as bocas para os copos de vodka.

- Você faz o que para viver, Natasha?

- Várias coisas... Não terminei a faculdade como minha irmã... Banco a modelo nua em uma escola de artes. Tiro fotografias, escrevo poesias e saio vendendo de bar em bar. Até dá para viver.

- Poesias? Eu sou professor de literatura russa na universidade. Por que não começa a freqüentar as minhas aulas?

- Sério? Eu ia adorar.

Natasha se levantou da cama e pegou um cobertor dentro do armário.

- Está frio...

Depois se deitou ao seu lado e repousou a mão direita sobre o seu peito, desabotoando a camisa. Ali, naquele momento, ele percebeu que ela só queria um abrigo, e que não era de maneira alguma, sexo fácil com entrega à domicílio. Depois de alguns minutos ele se virou, encarou-a nos olhos e lhe beijou a boca. Um beijo estranho, com gosto da vodka que parecia adormecer suas línguas. Um beijo... Um beijo... O que é mais difícil no amor... As línguas encontrarem um propósito. Depois Natasha se aninhou no seu peito e adormeceu. Aleksandr, achando aquela noite estranha demais, apenas fechou os olhos, segurando com a ponta dos dedos da mão esquerda a mão de Natasha. Uma noite russa para um dia russo, e achou bom, estarem à distância do mundo.
4

Depois de uma semana, quando entrou na sala de aula da universidade, ficou aterrorizadamente feliz, ao ver a imagem de Natasha entre seus alunos. Ela usava um chapéu preto e um vestido branco, e tinha sobre a carteira um caderno e uma caneta. Enquanto Aleksandr falava sobre a poesia de Maiakovski, seus olhos frequentemente fugiam para a imagem de Natasha, enrubescendo-se às vezes.



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