À Sombra da Estrela a private Affair Kelly Walsh



Baixar 1.01 Mb.
Página1/10
Encontro20.04.2018
Tamanho1.01 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10


À Sombra da Estrela

A Private Affair



Kelly Walsh

Nick olhou fascinado para o rosto de Laurel. Recostada a uma palmeira, ela admirava o suave anoitecer e as ondas que morriam docemente na prata de Malibu. Hesitante, ele ergueu-lhe o queixo, obrigando-a a fitá-lo. “Você é a mulher mais linda e desejável que já encontrei”, murmurou, antes de beijá-la Seu coracão bateu mais depressa ao perceber que desta vez ela não o rejeitava, e uma esperança louca o invadiu. Laurel teria finalmente compreendido que não valia a pena negar-se ao amor em nome de uma relação obsessiva com outra pessoa? Poderia enfim afastá-la da vida que a sufocava, mostrando-lhe um mundo novo de ternura e felicidade?

Num mágico momento, o amor venceu todas as barreiras.
Disponibilização: Claudia

Digitalização: Simone R.

Revisão e Formatação: Deda Dantas

Título original: A Private Affair
Copyright © by V. P. Walsh
Publicado originalmente em 1988 pela

Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá


Tradução: Vera Maria Marques Martins
Copyright para a língua portuguesa: 1989
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3 andar

CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil Caixa Postal 2372


Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressa na Artes Gráficas Parâmetro Ltda.

CAPÍTULO I

Nervosa, Laurel Davis olhou para a placa na porta do escritório: Malone & Malone, Detetives Particulares. Girou a maçaneta, hesitante. Depois, respirando fundo para acalmar-se, entrou.

Estudou a sala de recepção, mobiliada com bom gosto. Não havia ninguém na escrivaninha. Três portas levavam a outras salas e ela viu que a da direita encontrava-se ligeiramente aberta. Dali vinha o som de uma música cantarolada por voz masculina agradável e afinada. Encaminhou-se para ela e olhou para dentro, sentindo cheiro forte de tinta. No alto de uma escada de pintor, um homem inadequadamente vestido para a tarefa pintava a moldura de gesso que contornava o teto. A calça branca e a camiseta regata cinzenta já mostravam algumas manchas de tinta.

— Robert Malone? — perguntou ela.

— Nick — ele corrigiu.

Os lábios cheios abriram-se num sorriso amigável e os olhos castanhos-claros assumiram uma expressão de vivo interesse enquanto ele analisava a mulher parada à porta. O brilhante cabelo castanho caía até os ombros em ondas suaves, roçando a gola do imaculado conjunto de linho branco. O sol forte de junho entrava pela janela escancarada, iluminando os olhos verdes-azulados, mostrando-os em toda sua beleza. Todavia a expressão deles era de preocupação.

Ela se pusera a examinar a figura alta no momento em que entrara na sala vazia. Os ombros eram largos e o físico mostrava atlética esbelteza. O cabelo castanho-escuro, ondulado, tinha reflexos claros nas mechas queimadas de sol e a pele bronzeada do rosto achava-se respingada de tinta. Todos os traços exibiam linhas harmônicas e masculamente belas.

— Estou procurando Robert Malone, o detetive particular — ela explicou, quebrando o silêncio que se tornava incômodo.

— Ele saiu para tratar de um caso.

Debruçou-se no alto da escada, ainda segurando o pincel, sem notar que a tinta pingava no sapato de couro.

— Posso ajudá-la em alguma coisa? — perguntou solícito. Sou Nick Malone. Robert é meu pai e somos sócios.

— Gostaria de falar com ele. Sabe se vai demorar?

— Penso que vai, sim. — Colocou o pincel na borda da lata apoiada no alto da escada e começou a descer. — Foi encontrar- se com um cliente em La Jolla.

Ao pisar no último degrau, ele esfregou o joelho esquerdo, fazendo uma careta de dor. Embaraçado, sorriu ligeiramente.

— Esse joelho nunca mais vai ficar bom. Uma mulher que eu estava seguindo me acertou com um taco de beisebol.

— Seguindo?

— Sim, numa investigação — esclareceu ele, começando a limpar as mãos numa toalha. — Desculpe a sujeira. Estamos redecorando. Aceita um café, ou prefere um refrigerante?

—- Um refrigerante, obrigada.

— Está bem. Vamos até o meu escritório.

Ele colocou a toalha num dos degraus da escada, tomou Laurel delicadamente pelo braço e conduziu-a de volta à sala de recepção. No mesmo instante, uma mulher ruiva, de meia-idade, entrou, vinda do corredor externo. Correu para a escrivaninha e largou a bolsa sobre ela.

— Desculpe a demora, Nick, mas o tribunal estava apinhado.

— Não tem importância, Betty. Esta é... — Voltou-se para olhar para Laurel. — Ainda não sei seu nome.

— Laurel Davis.

Não vendo nenhuma aliança nas mãos delicadas, ele deduziu que ela fosse solteira.

— A srta. Davis veio ver Robert mas vou levá-la ao meu escritório. Não me passe chamadas que não sejam absolutamente urgentes, sim, Betty?

A mulher sorriu para Laurel e tornou a olhar para ele.

— Randy disse que a audiência de Peters será na próxima segunda-feira às nove da manhã. Quer que você esteja lá e mandou perguntar se amanhã pode passar por aqui. Quer estudar seu depoimento outra vez.

— Está bem. Já anotei na minha agenda mental.

Não sabia por que Randy tinha necessidade de voltar a estudar o depoimento que prestara em favor de um antigo cliente, mas o advogado era sempre extremamente meticuloso. Jon Peters não era santo, mas com certeza não tinha culpa no caso de desvio de dinheiro acontecido na firma de importação para a qual trabalhava.

Voltando a atenção para Laurel, sorriu e levou-a ao escritório. Depois de fechar a porta, apontou para uma poltrona de couro colocada na frente da escrivaninha.

— Por favor, sente-se.

Abriu uma porta do armário que ocupava uma parede inteira e retirou duas latas de refrigerantes de um pequeno refrigerador. Encheu dois copos plásticos e entregou um a ela, acompanhado de um guardanapo de papel.

— Mora em San Diego, srta. Davis?

— Não, em Santa Bárbara.

Ela cruzou as pernas e arrumou a saia sobre os joelhos. Observou-o caminhar para a escrivaninha e acomodar-se na cadeira giratória. Nick Malone devia andar pela casa dos trinta, embora a massa de cabelo rebelde e a cor bronzeada da pele lhe dessem um ar bastante juvenil.

Ele sorveu um gole da bebida gelada e estudou a possível cliente. Em seu trabalho já vira muitas pessoas perturbadas e Laurel Davis evidentemente achava-se dominada por profunda inquietação.

— Foi mandada aqui por alguém? — perguntou.

— Não. Encontrei seu anúncio nas páginas amarelas da lista telefônica. Chamou-me a atenção por declarar que vocês tinham trinta anos de experiência no ramo. Uma firma deve ser muito boa para permanecer ativa durante tanto tempo.

Apesar de manter a compostura, ela deixava transparecer como estava tensa.

— Srta. Davis — começou ele com um sorriso destinado a acalmá-la. — Precisa saber que tudo o que discutirmos aqui será considerado confidencial, mesmo que decida não contratar nossos serviços. Gostaria de falar sobre o assunto que a trouxe ao nosso escritório?

— O problema não é exatamente meu.

— Não?


— Não. Trata-se de minha empregadora. Ela... ela está sendo chantageada.

Nick recostou-se na cadeira e alcançou um bloco de papel amarelo.

— Precisa anotar o que eu vou dizer? — perguntou ela assustada.

— Não. Sua empregadora reside em Santa Bárbara, suponho — disse ele afastando o bloco.

— Sim.

— E por que deseja contratar um detetive de San Diego? Há bons profissionais em Santa Bárbara e Los Angeles.



— Quero contratar alguém de fora. Nossa cidade é muito pequena e a roda de mexericos em Los Angeles, muito ativa e perigosa.

— Entendo. Sua empregadora deve ser alguém conhecida.

Laurel mordeu o lábio, presa de nervosismo, e os olhos verdes mostraram indecisão. Sem atinar com a razão, ele percebeu que desejava ajudá-la, que queria fazê-la relaxar.

— Como essa mulher está encarando o fato de ser chantageada?

— Ela não sabe.

Os olhos castanhos de Nick encheram-se de surpresa.

— Não sabe?

— Não contei. Não vou sobrecarregá-la com mais um problema.

Ele inclinou-se sobre a escrivaninha e cruzou os braços no tampo, analisando o rosto pálido e tenso.

— Deixe-me ver se entendi direito. Sua empregadora está sendo chantageada, você não lhe revelou o fato e quer que descubramos o chantagista. É isso?

— Exatamente.

— Quem é a mulher para quem trabalha?

Ela colocou o copo sobre a escrivaninha e encarou-o.

— Vai aceitar o caso?

Os olhos dele estreitaram-se. Quanto tempo precisaria gastar naquele jogo de adivinhações?

— Antes de responder, srta. Davis, preciso saber mais a respeito do problema. — Fez uma pausa, observando-a brincar nervosamente com as alças da bolsa. — Lembre-se de que nossa conversa é confidencial. Para quem trabalha?

Laurel fitou-o nos olhos, pensativa, como se estivesse tomando uma decisão muito difícil.

— Diana Baxter — disse num fio de voz.

— Diana Baxter? A estrela de cinema?

— Sim.


Nick era apenas um rapazinho quando vira Diana Baxter pela primeira vez num filme. Aparecia num épico bíblico, como Dalila ou Betsabá, não se lembrava bem. Todavia, jamais esquecera a impressão que ela lhe causara com seus cabelos castanhos cascateantes e seu corpo esguio envolto em seda azul. A cena em que descia uma escadaria de mármore, lentamente, ainda estava em sua memória. Os olhos azuis e límpidos da estrela eram encantadores e prometiam o paraíso, tornando-a um símbolo de beleza e sensualidade para todos os homens. Os anos haviam passado e ela, ainda bonita, desaparecera das telas.

— Diana Baxter — repetiu, mais para si mesmo. — Percebo por que deseja lidar com o problema da maneira mais sigilosa possível. Ela é um ídolo nacional. Por que está sofrendo chantagem?

Laurel tornou a pegar o copo, mas notou que sua mão tremia e pousou-o novamente. Convivia há duas semanas com o ataque do chantagista e ainda não dividira sua preocupação com ninguém. De alguma forma, discutir o fato com outra pessoa tornara o pesadelo mais real. Pensara naquilo sem cessar e o terror acabara por dominá-la, dando-lhe a impressão de que a mataria sufocada de um momento para outro.

— Por que sua empregadora está sendo chantageada, srta. Davis? — ele tornou a perguntar.

— Não posso dizer — respondeu ela, desviando os olhos.

Nick estudou o rosto conturbado, pondo-se a tamborilar no tampo da mesa, um hábito dos momentos de reflexão.

— Isso torna tudo mais difícil — observou. — Quer que eu descubra a identidade do chantagista sem me dizer o motivo da extorsão. Além disso, confessou que Diana Baxter nem sabe do fato.

Ela torceu o cordão de ouro que lhe adornava o pescoço. Os dedos longos tremiam de leve.

— É isso mesmo o que desejo, sr. Malone. Que descubra o criminoso com os poucos elementos que lhe forneci.

— Nenhum investigador em seu juízo perfeito aceitaria o caso nessas condições.

— Talvez ajudasse se eu explicasse melhor.

— É claro que sim.

Ela respirou fundo e pareceu escolher as palavras com extrema cautela.

— A srta. Baxter foi contratada para trabalhar num filme para a televisão. As filmagens começam em duas semanas e ela já tem muito em que pensar.

— Qual sua função exata junto à estrela?

— Sou coordenadora das atividades dos empregados e de outras pessoas que lhe prestam serviços. Supervisiono o trabalho de seu agente, do publicitário, do contabilista e também dos servidores domésticos.

— O bastante para mantê-la sempre ocupada, não?

— Sim. — Ela ergueu-se e caminhou até uma janela, virando- se então para olhá-lo. — E agora acontece isso. Mas preciso manter a tranquilidade da srta. Baxter a qualquer custo.

— Parece muito devotada a ela.

— E sou. Entende que uma publicidade adversa, justamente agora, seria... desastrosa?

— Entendo, sim. É uma pessoa leal, srta. Davis. Uma qualidade admirável nos tempos de hoje.

Ela aproximou-se da escrivaninha e pousou as pontas dos dedos na borda.

— Gostaria de ter certeza de que também é leal, sr. Malone — declarou em tom calmo.

Ele captou uma onda de suave fragrância. Leve, sutil e tentadoramente misteriosa como a mulher que o fitava. Aspirou o ar profundamente, deixando-se envolver pelo perfume.

Laurel examinou os pensativos olhos castanhos, tentando ler o que transmitiam. Não conseguiu. Endireitou o corpo e voltou a sentar-se.

— Vai aceitar? — perguntou esperançosa.

Ele acabara de deslindar um caso complicado de desfalque e estava planejando tirar alguns dias de férias antes de mergulhar em outro trabalho. Mas era obrigado a admitir que Laurel Davis o fascinava. Não tinha certeza de poder aceitar os termos que ela apresentara e as características diferentes do caso o deixavam hesitante.

— Quanto o chantagista quer?

— Já lhe paguei vinte mil dólares, mas... — Laurel baixou os olhos e a voz suave enfraqueceu — receio que o problema não termine por aí.

Ele deixou a cadeira giratória e foi para a frente da escrivaninha, cruzando os braços e examinando-lhe a expressão tensa. Gostaria de poder dizer que tudo acabaria bem, mas não podia prometer tal coisa, com as mãos atadas como se encontrava. Nada poderia fazer com informações tão precárias.

De certo sabe, srta. Davis, que devia ter procurado a polícia.

— Não posso fazer isso.

— Como foi que o chantagista fez as exigências?

— Por carta. Dava instruções sobre como entregar o dinheiro. Fui à Missão Santa Bárbara, na Laguna Street. Fecha às cinco da tarde e a carta exigia que alguém levasse o dinheiro às nove da noite. Obedeci. Deixei o pacote com as notas no interior de um carro azul com placa do Arizona estacionado lá.

— Que marca era o carro?

— Não me lembro. Era um carro velho, em condições péssimas. Depois de deixar o dinheiro, fui embora, sabendo que estava sendo vigiada. Antes porém olhei o número da placa.

— Aposto que depois foi averiguar e descobriu que o carro era roubado.

Ela olhou-o espantada.

— Foi isso mesmo. Como sabe?

— Não é o primeiro caso de extorsão que nos aparece, srta. Davis.

— Ah, naturalmente.

— A polícia teria revirado tudo do avesso se houvesse apresentado queixa.

— Eu sei, mas é justamente o que desejo evitar. Tumulto.

— Se não deseja envolver a polícia no assunto, por que quer descobrir a identidade do chantagista?

— Quero saber com quem estou lidando.

— E resolver o problema sozinha?

— Se for necessário.

— Não é uma boa ideia. Muito perigosa. De qualquer modo, sinto muito, mas nada poderei fazer sem saber o motivo da chantagem.

— Não é sempre dinheiro?

Ele rodeou a escrivaninha e sentou-se outra vez.

— Nem sempre. Neste caso parece que é, mas isso não torna a lista de suspeitos mais curta. Muita gente gostaria de ganhar vinte mil dólares sem fazer força.

— Então, não pode me ajudar?

— Receio que não.

Ela ia levantar-se para partir, mas a cigarra do intercomunicador impediu-a.

Ele apertou um botão.

— Sim, Betty?

— Seu pai está na linha três.

— Obrigado.

Ergueu o telefone e apertou outro botão.

— Oi! Como estão as coisas aí em La Jolla?

Laurel viu o rosto sorridente ficar alerta e sério, enquanto Nick ouvia em silêncio.

— Tem todas as características de fraude de seguro — ele comentou. — Talvez o segurado estivesse cheio de dívidas, como sempre acontece. — Fez uma pausa, ouvindo. — Bem, a companhia seguradora terá de iniciar um processo judicial, porque já pagou ao cliente.

Olhou para Laurel e notou os movimentos nervosos que ela fazia com as mãos, torcendo as alças da bolsa branca. Mais uma vez o desejo de ajudá-la assaltou-o.

— Estamos com uma cliente em perspectiva aqui no escritório — disse ao pai.

Ouvindo-o, ela encheu-se de nova esperança. Instantes atrás visualizara-se percorrendo vários escritórios de investigação numa odisseia infrutífera. E provavelmente os outros detetives não seriam tão gentis quanto Nick Malone.

— É um caso de chantagem — ele continuou. — Um pouco complicado. A vítima não sabe que está sendo atacada.

Ficou ouvindo as considerações do pai, reprimindo um sorriso.

— Eu sei. Não precisa resmungar. Disse que era complicado.

Virou a cadeira para a janela e fez um resumo do que ouvira a respeito do caso de extorsão contra Diana Baxter.

Enquanto ele falava, Laurel conscientizava-se de que tudo se apresentava verdadeiramente complicado e estranho. Sentiu-se esmorecer. Não poderia culpá-los se não aceitassem ajudá-la, mas precisava desesperadamente de alguém em quem confiar.

Girando a cadeira outra vez, ele voltou a observá-la, admirando a elegância da postura, o autocontrole que ela mantinha mesmo em circunstâncias tão adversas. Era bonita também. De repente, lembrou-se de outra cliente cheia de atrativos, Louise Hamilton. E dos problemas que lhe causara.

Embora Louise e Laurel não fossem parecidas, ambas eram adoráveis, cultas e elegantes. A antiga cliente fora objeto de investigação de um caso com uma companhia de seguros que contratara a Malone & Malone. Pessoa ambiciosa, vendera as joias seguradas e alegara que haviam sido roubadas de sua casa em San Diego. Apenas o ceticismo inato de Nick o impedira de encerrar o caso a favor da mulher. Louise acabara na penitenciária estadual da Califórnia para cumprir pena de dois a cinco anos, dependendo de seu comportamento. Afastando as lembranças, voltou a prestar atenção na conversa com o pai.

— Vai passar a noite em La Jolla? — indagou, sorrindo ao ouvir a resposta afirmativa. — Quer dizer que Janet vai preparar um daqueles jantares deliciosos para você? Muito bem. Até amanhã, então.

Colocou o telefone no gancho e olhou para Laurel, que se levantava e lhe estendia a mão.

— Muito obrigada por ter me ouvido, sr. Malone. Entendo perfeitamente sua relutância em aceitar meu caso.

Ele apertou a mão delicada. Era macia e morna. Havia uma súplica muda nos belos olhos verdes-azulados. Mas foi o sorriso cansado que o impressionou.

— Há alguma coisa que eu poderia fazer para que reconsiderasse sua decisão? — perguntou ela, sentindo que Nick hesitava cm despedir-se.

— Estou pensando — ele respondeu.

A porta abriu-se e as mãos deles soltaram-se. Betty olhou para os dois através da fresta.

— Vou sair para ir ao dentista, Nick. Frank telefonou dizendo que virá amanhã cedo conversar sobre o caso Dolan. Acha que estará tudo terminado dentro de uma semana.

— Obrigado, Betty. Divirta-se.

— No dentista? — replicou a secretária com um sorriso endereçado a Laurel. — Você sim é que pode divertir-se.

— Tchau, Betty. Respeite seu chefe.

A mulher riu e fechou a porta, deixando-os a sós.

— Frank é um dos nossos dois investigadores — ele explicou, olhando para o relógio. Em seguida acrescentou: — Ainda não almocei, srta. Davis. Pretende voltar agora para Santa Bárbara?

— Não. Estou hospedada no hotel do aeroporto. Achei que não resolveria o assunto em apenas um dia. Disse que não almoçou? Mas estamos quase na hora do jantar!

— Sim. O que acha de terminarmos nossa conversa enquanto jantamos?

Vendo que ele se mostrava mais propenso a aceitar o caso, ela retribuiu o sorriso amigável e concordou.

Observou-o fechar os arquivos, pensando que Nick Malone fugia completamente da ideia que fizera de um detetive particular, provavelmente influenciada pelos investigadores de séries de televisão. Não parecia o machão frio, de coração duro, que se entupia de uísque e mantinha-se insensível às dores alheias. O instinto lhe dizia que Nick não era nada daquilo.

Pelo contrário, dera a impressão de ser compreensivo e honesto, confiante em si mesmo, sem arrogância. Enquanto ele ligava a secretária eletrônica, ela apanhou-se desejando tê-lo conhecido em circunstâncias mais agradáveis. Era sensível e bonito o bastante para passar num teste de fotogenia de qualquer estúdio cinematográfico. Seu aperto de mão fora caloroso e conseguira confortá-la.

No caminho para o estacionamento, Nick olhou para ela com um sorriso ligeiramente acanhado.

— Importa-se de me acompanhar até em casa para que eu possa tomar banho e trocar de roupa? — Puxou a frente da camiseta. — Nenhum restaurante decente me aceitará, vestido assim.

Ela sorriu.

— Não me importo, não. — Olhou para o emblema da camiseta. — Alma Mater? Alguma fraternidade de universidade?

— Sim. Da velha Universidade Estadual da Califórnia.

— Estudou lá?

— Sim. E você?

— Estudei no Arizona. Sou de lá.

Entraram no carro e ele ligou o motor, pensando no que ela dissera sobre a entrega do dinheiro. Colocara o pacote de notas num carro com placa do Arizona.

— O que a trouxe à Califórnia?

— Um emprego.

— Com Diana Baxter?

— Sim.

Nick remoeu a informação, imaginando por que, com tantos profissionais capazes em Los Angeles, Diana Baxter contratara uma auxiliar de outro Estado. Havia muitos detalhes que o intrigavam a respeito de Laurel Davis. Pagara vinte mil dólares a um chantagista sem comunicar o fato à empregadora. Lealdade e dedicação eram qualidades muito louváveis, mas grandes somas de dinheiro gastas em segredo e a preocupação exagerada em poupar um patrão de desgostos fugiam às obrigações de qualquer empregado.



Também não podia negar que estava bastante curioso para saber o que um chantagista usaria contra Diana Baxter para extorquir-lhe dinheiro. Além disso, toda a personalidade de Laurel apelava para as suas fantasias, atraindo-o. Estaria mentindo se negasse que acharia bastante interessante conhecê-la melhor.


CAPÍTULO II

Depois de rodar por uma grande avenida durante algum tempo, Nick virou à direita e entrou numa rua tranquila no bairro de Hillcrest. Parou na frente de uma casa de dois andares, de paredes de estuque e telhado inclinado. Ajudou Laurel sair do carro e guiou-a através de uma arcada, de um pátio para o interior da moradia. Ela olhava em volta, gostando de tudo o que via, adorando a sala de estar espaçosa, arejada e sem móveis excessivos. As paredes brancas realçavam o assoalho de tábuas enceradas parcialmente coberto por coloridos tapetes indígenas. Tons quentes de terra e tecidos de cor neutra dominavam a decoração. Todavia não se percebia o toque feminino. Talvez Nick não fosse casado.

— Sente-se, Laurel — sugeriu ele, passando com naturalidade para um tratamento informal. — Não vou demorar. Gostaria de tomar alguma coisa?

— Não, obrigada — respondeu ela, acomodando-se num sofá cor de ferrugem cheio de almofadas.

A cozinha é logo ali. — Apontou para um lugar além de uma porta estreita em forma de arco. — Se mudar de ideia, sirva-se.

— Obrigada.

Ele ligou o aparelho de som e subiu a escada com grades de ferro, linda, perfeitamente adequada ao ambiente. A música que encheu a sala era de estilo country. A letra, cantada por uma mulher, falava de estrelas e lua, olhos brilhantes e corações partidos. Laurel sorriu para si mesma, pensando nas duas vezes em que tivera seu coração partido. Lembrou-se de Keith Dunbar, o jovem por quem se apaixonara na universidade. O pai dele ocupava posição de destaque numa companhia de petróleo e preparara o filho para trabalhar na Venezuela. Keith desejara levá-la para lá como esposa, mas Laurel não quisera acompanhá-lo, achando que tinha outras obrigações. Vivera situação muito semelhante com Brian Cannady, o arquiteto que conhecera ao chegar em Santa Bárbara. Incapaz de compreender sua dedicação a Diana Baxter, o namorado apresentara-lhe um ultimato: ou o emprego, ou ele. Laurel permanecera firme no propósito de não abandonar a atriz e o relacionamento terminara.

Fugindo às lembranças penosas, ela olhou em volta, notando as cestas de vime penduradas no teto, ostentando verdadeiras cascatas de samambaias exuberantes. Havia um quadro a óleo representando a linha costeira da Califórnia e através das janelas altas via-se o verde do pátio cheio de plantas. Porém, mesmo tentando distrair-se com o ambiente, começou a pensar em Nick. E no problema que a levara até ele. Não sabia se estava agindo corretamente. Haveria mais exigências de dinheiro por parte do chantagista e não seria possível manter Diana na ignorância dos fatos. Se Nick conseguisse descobrir o autor do golpe ela tentaria conversar com ele e procuraria fazê-lo desistir da chantagem. Diana Baxter e ela já haviam suportado muitas situações difíceis e não seria justo deixar que um criminoso as arruinasse. Se um entendimento não bastasse, seria obrigada a encontrar outra forma de silenciar o homem... ou a mulher.

Revoltava-se com a ideia de que justamente quando a vida de Diana começava a mudar, quando os problemas começavam a ser resolvidos, acontecesse uma coisa daquelas. Problemas. Tivera inúmeros desde que chegara à Califórnia, mas, encarando sua vida com realismo, reconhecia que nunca deixara de enfrentar dificuldades.

— Não demorei demais, não é verdade?

Arrancada dos pensamentos pela voz de Nick, ergueu os olhos e viu-o caminhando em sua direção. Estava ainda mais bonito de calça esportiva bege e camisa marrom de seda. Sorria-lhe de forma quase íntima, como se fossem velhos conhecidos. Instantes depois rodavam novamente pelas ruas, dirigindo-se ao restaurante Reuben. E. Lee, em Harbor Island. No restaurante, uma réplica dos velhos barcos movidos a roda do Mississipi, jantaram à luz de velas. A comida, frutos do mar, acompanhada de vinho branco gelado, estava deliciosa e o ambiente dava uma agradável sensação de tranquilidade. Durante a refeição, ela ficou sabendo que Nick, ainda estudante universitário, planejara entrar para o campo de Ciências Jurídicas e que nas férias de verão trabalhava com o pai na agência de investigação.

— Era um pequeno negócio de família — explicou sorrindo. — Stella, minha mãe, trabalhava como recepcionista e dirigia o escritório. — O rosto atraente tornou-se solene. — Ela morreu dez anos atrás. — Fez uma pausa e o sorriso voltou. — Trabalhando na agência, descobri que preferia lidar com pessoas, ajudando-as a resolver seus problemas, do que ficar confinado num escritório.

Laurel estava surpresa por perceber como era fácil conversarem. — É bonito ver pai e filho tão unidos — comentou sorrindo.

— Unidos? Não é bem a palavra certa. Trabalhamos juntos muito bem, mas Robert é tão independente quanto eu. Quando eu era criança, havia uma ligação muito forte entre nós, mas estraguei um pouco o nosso relacionamento com minhas atitudes de adolescente impulsivo. Quando terminei o colegial ele decidiu que eu precisava ir para a universidade.

— Ele decidiu? Você não queria?

— Não. Passei um ano aprontando o diabo, aborrecendo Robert mortalmente. Trabalhei na descarga de barcos de pesca, pintando telhados e como salva-vidas em Ocean Beach. — Tomou um gole de vinho e ficou em silêncio por alguns instantes. — Na verdade, não sabia o que queria da vida — continuou. — Meu pai procurou remediar a situação não se intrometendo, assumindo uma atitude de faça-o-que-quiser-mas-não-me-aborreça. Foi tiro e queda. No ano seguinte fui para a universidade.

— Por que não moram juntos?

Ele fitou-a espantado. Ainda havia quem esperasse que um homem adulto morasse com o pai? Deu uma risadinha. — Não daria certo. Ele tem um apartamento em Old Town. Vive a vida dele e eu vivo a minha. Ainda é forte e saudável e não precisa de mim para cuidar dele.

Nick era o tipo de pessoa aberta, que não fazia rodeios para falar de sua vida particular, mas nunca confessara a ningúem, nem mesmo a Cheryl, sua ex-esposa, o que sofrera quando, aos dezessete anos, descobrira que o pai estava tendo um caso. E a mulher morava no mesmo quarteirão que eles. A mãe nunca se queixara de nada, mas ele tinha certeza de que ela sabia. Jamais se esquecera da briga que tivera com o pai a respeito de sua infidelidade e ainda se arrependia por haver dado um soco em Robert num momento em que não pudera controlar a raiva. O tempo curara muitas feridas, mas o pai e ele não eram íntimos. De modo algum.

— Não tem irmãos? — Laurel indagou, quebrando o silêncio que se fizera entre eles.

— Não. E você?

— Também sou filha única, mas gostaria de ter irmãos.

— Seus pais ainda vivem no Arizona?

Ela mordeu o lábio e sacudiu a cabeça. — Fui criada por meus tios. Ele era engenheiro de minas e viajava muito a trabalho. Assim, na maior parte do tempo, eu ficava sozinha com minha tia e as galinhas.

Riu e o som do riso suave atingiu Nick como uma onda de música. Ele não pôde reprimir o pensamento de que gostaria de transformá-la em algo mais que uma simples cliente. Todavia, quando tentou continuar a conversa e descobrir mais sobre ela, percebeu que Laurel não gostava muito de falar sobre si mesma. Preferia discorrer sobre a atriz para a qual trabalhava.

— Algum dia — ela disse enquanto tomavam café — um diretor fará um filme sobre a vida de Diana Baxter. Aos dezessete anos venceu um concurso de beleza no Texas, sem que os pais soubessem. O pai, um pastor protestante, expulsou-a de casa e ela foi para Hollywood, onde passou a viver num minúsculo apartamento que dividia com outra garota.

— Uma vidinha bem agitada, não?

— Um dia, Glen Driscoll, que é seu agente até hoje, viu-a e arranjou-lhe um emprego de modelo em Los Angeles. Dirigiu-a até colocá-la nos meios publicitários mais altos e finalmente conseguiu-lhe um teste cinematográfico. Com seu talento, sua beleza e um bom agente, logo tornou-se a estrela de ouro da MGM. O resto todo mundo sabe.

— Diga-me, Diana Baxter é um ser humano mortal como nós? Lava pratos, leva roupa ao tintureiro e faz compras no supermercado?

Laurel sorriu ao imaginar Diana envolvida em qualquer tipo de trabalho doméstico.

— Não faz nada disso. Sua vida foi muito complexa. Tumultuada mesmo. Com o dinheiro que ganhou no correr dos anos tornou-se uma espécie de empresa, e mesmo que tivesse tempo não saberia negociar contratos, planejar e investir capital. Acho que ninguém saberia sozinho.

— Então ela sempre precisou de alguém de confiança para ajudá-la.

— Sim. A princípio teve secretárias particulares, incapazes de lidar com empregados, agentes e consultores de todo o tipo. A última delas quase ficou louca. E foi nesse cenário que entrei, dez anos atrás.

Nick a ouvia, encantado pelo carinho verdadeiro e pelo entusiasmo com que ela falava de Diana Baxter e suas atividades. Um entusiasmo que não existia quando falava de si mesma. Algo perturbador.

— Meu trabalho — prosseguiu ela — é fazer com que oito pessoas não exijam que Diana esteja em oito lugares diferentes ao mesmo tempo, entende? Sou uma espécie de gerente particular e todos os problemas passam por mim. Funciono como coordenadora e elo entre ela e os outros. Conheço-a muito bem e sei o que a interessa e agrada.

— Desempenha um papel muito importante na vida da estrela, resumindo — ele observou.

— Importante e exaustivo. Imagine que cuido até de suas necessidades mais simples, como transporte, acomodações aqui no país e no estrangeiro. — Laurel riu com complacência. — E até da alimentação de seu ego.

— Diana Baxter possui um ego? — ele provocou.

— É uma estrela de primeira grandeza e isso não é fruto de talento apenas. Precisa de muita energia para colocar-se na pele das diferentes personagens que representa. E essa energia nasce do ego, assim como da confiança em sua capacidade.

— Tenho a impressão de que tudo isso não lhe deixa muito tempo para viver sua própria vida. Estou errado?

— Não. Realmente não tenho tempo para mim mesma.

Ele teve vontade de dizer que aquilo era um crime, mas reprimiu o impulso. Fitou os olhos iluminados pela chama da vela e sentiu-se invadido por estranhas sensações. Fazia tempo que uma mulher não lhe interessava tanto quanto Laurel e a intensidade desse interesse surpreendeu-o. Tinha ímpetos de dizer-lhe que gostava do modo como ela andava, quase deslizando. Que suas feições eram belas e denotavam um caráter meigo que nunca encontrara em outra mulher. Desejou correr os dedos pelo cabelo sedoso, da cor das avelãs, e pousar os lábios nos dela para descobrir se eram tão suaves como pareciam. Contudo, não podia fazer nada daquilo. Suas reflexões foram interrompidas pelo garçom que chegava com a conta e logo depois saíam do restaurante.

A noite estava calma e uma brisa corria na praia, despenteando as árvores. As luzes dos três deques do barco refletiam-se nas águas da baía de San Diego e Laurel admirou o espetáculo enquanto caminhavam pela ponte de madeira que ligava o restaurante flutuante à ilha. Pouco depois, andando ao longo do cais, voltaram a falar do assunto que os preocupava.

— Diana Baxter nunca se casou, não é mesmo? — indagou ele.

— Não. Sempre disse que viu muitos casais de Hollywood passarem pelo divórcio e que não queria arriscar-se. Além disso é dedicada demais à carreira.

— Assim como você — ele comentou.

— Há algo errado em dedicar-se a uma profissão? — ela replicou, surpresa com o comentário.

— Não. Também me dedico ao trabalho com afinco, mas há limites.

— E acha que eu exagero?

— E não é verdade?

— Receio que você não esteja entendendo minha posição.

— Por que não explica melhor, Laurel?

Ela não conseguia captar o que havia nele que a perturbava. Talvez fosse aquele modo franco de dizer o que pensava e de fazer perguntas que vindas de qualquer outro homem seriam indiscretas. Durante o jantar fora capaz de relaxar e baixar a guarda, mas começava a perceber que agira mal.

— Pensei que íamos discutir o problema de Diana — desconversou. — Há algo que deseja saber que eu ainda não tenha dito?

— Há várias coisas. Por exemplo, pode me explicar como conseguiu vinte mil dólares para dar ao chantagista?

Ela parou abruptamente e fitou-o irritada. Depois forçou-se a encarar a pergunta com calma. Afinal ele era um investigador e no momento estava desempenhando um trabalho.

— Tirei das minhas economias. Como gerente particular, recebo quinze por cento dos lucros do cliente.

— Nunca imaginei que Diana, afastada do trabalho durante lanto tempo, pudesse ter uma renda muito grande.

— Ela ficou afastada apenas durante quatro anos. Trabalhou no teatro, em Londres, e no ano passado fez uma peça em Los Angeles. Além disso, Tony Koop, seu gerente financeiro, sempre fez seu dinheiro render em ótimos investimentos.

— Investimentos que rendem juros capazes de mantê-la num estilo de vida tão sofisticado, ou é necessário recorrer ao capital de vez em quando?

Ela pensou depressa e resolveu revelar apenas o necessário para ajudá-lo na investigação. Não ia dizer que no momento Diana lutava com dificuldades financeiras.

— Os anos em que Diana ficou afastada custaram-lhe muito dinheiro. Precisava manter a propriedade em ordem. — Fez uma pausa e admirou as luzes dos barcos de recreio ancorados ao longo do cais. — Além de ter outras despesas.

Ele tentou adivinhar que outras despesas seriam aquelas, cujo pensamento haviam feito Laurel hesitar. Compreendera que ela ainda não se achava pronta para confiar nele, mas estava decidido a ser paciente e deixá-la levar o tempo que quisesse para abrir-se completamente.

— Esse Tony Koop, há quanto tempo trabalha para Diana? — perguntou quando se encaminhavam para a área de estacionamento.

— Sete anos. Ocupou o lugar do pai, Wayne.

— Suponho que Tony Koop tenha outros clientes.

— É claro. Tem escritório em Los Angeles, mas mora em Santa Bárbara. Muitas pessoas que trabalham em Hollywood residem na nossa cidade ou em Montecito. Assim evitam a poluição e os mexericos da meca do cinema. Acha que um dos colaboradores de Diana possa ser o chantagista?

— Não podemos generalizar. Tudo o que devemos fazer é afunilar o curso das suspeitas, endereçando-o para quem possa ter motivos. Vou precisar de um relatório sobre todas as pessoas que trabalham para Diana.

O rosto dela iluminou-se, animado. — Quer dizer que vai trabalhar no caso?

Ele sorriu, notando seu entusiasmo ingênuo. — Calma! Ainda não resolvi seus problemas. Sim, vou aceitar o caso, mas quero que compreenda que não tenho bola de cristal. Posso demorar um pouco a agarrar o chantagista.

— Quando pode começar?

— Já comecei.

— Está bem, mas quando irá a Santa Bárbara?

— Amanhã irei ao tribunal, na parte da manhã. Se quiser, logo a seguir podemos ir de carro, juntos. Durante a viagem você me falará das pessoas que cercam Diana. — Olhou para o relógio. — O que acha de irmos a uma boate antes que eu a leve para o hotel?

— Não gosto muito de lugares movimentados, Nick.

— Conheço um lugar tranquilo e muito repousante. Ele abriu a porta do carro e ajudou-a a acomodar-se.

— Nick, você não... não anda armado, não é?

— Não — respondeu ele sorrindo. — O que faço de mais perigoso no meu trabalho é dirigir por auto-estradas.

Laurel ficou surpresa quando ele parou na frente de sua casa em vez de seguir para o local que descrevera como repousante. Entendeu e sorriu, nada nervosa. Sentia que Nick era um cavalheiro.

— Tranquilo e repousante — repetiu-lhe as palavras.

— E bastante confortável- — ele arrematou com um sorriso travesso.

Entraram e ela perguntou se podia usar o telefone para ligar para Los Angeles. Depois de deixar o toque de chamada repetir-se mais do que era necessário, pousou o aparelho e sentou-se numa poltrona com um suspiro.

— Não atenderam? — ele quis saber, percebendo que ela ficara preocupada.

— Não. — Laurel olhou para o relógio. — Eu devia ter ido com ela.

— Ido com quem? Com Diana?

— Sim. Vai passar a noite em Los Angeles, num apartamento que tem lá. Amanhã receberá algumas instruções sobre as filmagens.

— Sua empregadora não é mais criança, Laurel. Certamente sabe defender-se sozinha.

Ela abandonou a poltrona e ficou de pé, torcendo as mãos nervosamente. — É meu dever evitar que ela tenha problemas. Ele ia dizer novamente que sua dedicação era exagerada, mas a expressão conturbada do rosto bonito o deteve.

— Diana sabe que você está em San Diego? — perguntou apenas.

— Sabe. Tivemos duas tentativas de assalto no mês passado e eu disse que vinha a San Diego contratar um serviço de segurança para examinar a propriedade.

— Esse serviço de segurança sou eu, imagino.

— Acertou. Desse modo poderá fazer sua investigação sem que ela desconfie da verdade.

— Ela não se admirou de você querer contratar gente de outra cidade?

— Não. Diana nunca discute minhas decisões.

— Entendo. Gostaria de tomar creme de menta com soda? É refrescante.

— Gostaria, sim — ela aceitou, conseguindo sorrir. — Posso usar o telefone novamente?

— Claro. Fique à vontade. Começou a dirigir-se à cozinha, mas parou no meio do caminho e a fitou.

— Sempre fica assim preocupada com Diana? — Antes que ela respondesse, ergueu a mão num gesto apaziguador. — Já sei, é o seu trabalho.

Laurel ficou olhando-o atravessar a sala e depois discou outra vez o mesmo número de Los Angeles. Quando não obteve resposta, ligou para Santa Bárbara e falou com Ron Zowalski, o homem que ajudava Diana nos ensaios e estudos de um novo papel e que morava no apartamento em cima da garagem. Ele também já tentara entrar em contato com a atriz, inutilmente.

— Eu queria ir com ela — Ron explicou. — Mas sabe como Diana é teimosa. Cismou de ir sozinha. Droga! O que aquela mulher está tentando provar?

Ela deve estar bem, Ron. Talvez esteja na casa de Glen. Em que estado de ânimo ela saiu?

— Acho que estava ligeiramente eufórica.

— Fabuloso — gemeu Laurel. — Euforia não é boa conselheira. Bem, não há nada que possamos fazer.

— Quer que eu ligue para Glen?

— Não! — ela quase gritou. — Se Diana descobrir que estamos tentando controlá-la vai perder a autoconfiança que procuramos, tão penosamente, ajudá-la a conquistar. Estarei de volta amanhã, mais ou menos ao meio-dia. Procure não ficar muito preocupado, Ron.

O homem riu ironicamente e depois de se despedirem, ela desligou.

— Conseguiu? — perguntou Nick da porta em arco que levava à cozinha.

Carregava uma bandeja com dois copos e guardanapos e ela foi ao seu encontro.

— Precisa de ajuda?

— Segure a porta para mim, sim?

Ela fez o que ele pedia e entrou atrás, seguindo-o para a outra extremidade da cozinha comprida. — Quer abrir a porta de vidro que leva ao pátio, Laurel?

Ela fez correr uma das partes da porta e viu um alpendre que abria para o pátio interno. Estava mobiliado com espreguiçadeiras e cadeiras rústicas forradas de almofadas grossas em tom castanho. Vasos de plantas formavam uma continuação do jardim e do teto de madeira pendiam samambaias fartas e de folhas longas.

— Que lugar gostoso! — exclamou ela encantada. — Adorei a mobília. É tão diferente!

— Eu mesmo fiz tudo. Gosto de trabalhar como marceneiro nas horas de folga. O trabalho manual me ajuda a relaxar. Sente-se.

Laurel ocupou uma espreguiçadeira de ripas envernizadas, de encosto erguido, ficando com as pernas confortavelmente estendidas. Nick pousou a bandeja sobre uma mesa baixa e redonda, também de ripas. Entregou-lhe um copo de bebida, notando como a luz de um lampião do pátio punha reflexos dourados no cabelo acastanhado, e sentou-se na cadeira do outro lado da mesa. Ergueu o copo que segurava.

— Que o nosso trabalho tenha sucesso — brindou.

Ela sorriu e experimentou a mistura de creme de menta e soda. — Você tem razão. É mesmo refrescante — observou.

Os olhos verdes pousaram sobre um grande vaso na outra extremidade do alpendre. Begônias alaranjadas emergiam de pés de hera verde-escura, formando um contraste encantador.

— Também gosta de jardinagem, não é?

— Sim, gosto de plantas, mas não sou um grande jardineiro. Tem algum passatempo, Laurel?

Ela examinou o rosto de feições bem definidas e atraentes, sem poder deixar de pensar que seus dias eram quase frenéticos, comparados à tranquilidade que parecia acompanhar o modo de viver de Nick. Teve um instante de clarividência, sentindo-se roubada de algo, mas a preocupação com Diana voltou a ocupar- lhe a mente.

— Não tem passatempos, Laurel? — ele insistiu.

— Gosto de pintar, quando acho tempo. Em tela. — “Se Diana não está no apartamento, onde estará?” ela pensava.

— Pinta aquarelas também? — ele interessou-se.

— Prefiro trabalhar com óleo. Gosto de tintas com mais consistência. — “Talvez fosse bom ligar para Glen e descobrir se ela foi lá.”

— Aposto como pinta muito bem — ele incentivou-a.

— Por que diz isso?

— Imagino que você seja capaz de fazer tudo o que quiser.

Ela sorriu e ficou olhando para os cubos de gelo no copo. “Tudo o que quiser”.

Fazia muito tempo que não dedicava tempo às coisas que desejava executar, sempre atenta para que a vida de Diana corresse da forma mais serena possível. E mesmo naquele momento, em companhia tão agradável, não conseguia relaxar. Seus pensamentos continuavam tomados pela preocupação com a atriz e com o chantagista. De um minuto para outro a vida de Diana poderia desmoronar e isso afetaria a ela também.

— No que está pensando, Laurel? Parece tão distante!

Uma cigarra, inconsciente de que já anoitecera, enchia o ar com seu canto estranho e o pátio, iluminado por lampiões elétricos de luz amarelada, era um pacífico reduto de beleza.

— Estava pensando que o ambiente de sua casa é muito tranquilo.

De repente, Santa Bárbara e Hollywood pareceram-lhe mundos longínquos e ela desejou não ter de voltar àqueles locais. Como ficaria feliz se pudesse encontrar um lugar onde não precisasse pensar em horários, perigos, correrias e, principalmente, chantagistas...

Encarou Nick, sem poder reprimir um suspiro.

— Acho que deve saber de alguns detalhes antes de encontrar-se com Diana — começou em tom hesitante. — Ela sofreu uma depressão nervosa, seis anos atrás. Lidou com muitos envolvimentos sentimentais e antes de mim teve uma série de problemas com empregados. A propriedade é enorme e necessita de muita gente para funcionar a contento.

— Imagino o trabalho que deve dar.

— Sim, e Diana não sabe dizer não a ninguém. Envolve-se com pessoas inescrupulosas, que abusam de sua bondade inata. Logo que comecei a trabalhar para ela não percebi que era dependente de álcool e drogas e, quando descobri, o problema já assumira proporções assustadoras. Tentei persuadi-la a procurar ajuda profissional, mas foi inútil.

Nick encontrava-se preso às palavras dela, totalmente absorvido pela triste revelação. Sentou-se aprumado, não mais relaxado e despreocupado.

— Acabou sendo hospitalizada com neurose depressiva — ela prosseguiu. — O psiquiatra discutiu o problema comigo, dizendo que tudo vinha da infância, talvez devido aos conflitos gerados pela extrema severidade dos pais. Não sabia quanto tempo ela precisaria ficar no hospital e, para diminuir as despesas, dispensei grande parte do pessoal, tanto empregados domésticos como profissionais que lhe davam assistência.

Ela desviou os olhos do rosto dele, fixando um ponto distante do jardim;

— Foi uma fase horrível, Nick. Diana caíra na armadilha da depressão e demorou muito tempo para escapar. Dois anos depois, com a aprovação do médico, planejei uma vida mais ativa para ela. Diana não saía de casa, não recebia visitas, não conversava. Eu precisava fazer alguma coisa para ajudá-la!

— Parece-me que fez muito, Laurel — declarou ele com sinceridade, lembrando-se do fardo que a doença nervosa da mãe colocara em seus ombros e nos do pai. — Conheço o problema.

— Não suportei tudo sozinha, graças a Deus. E graças a Ron Zowalski. Na época ele trabalhava num centro de recuperação de Santa Bárbara e consegui que fosse a nossa casa duas vezes por semana. A princípio Diana não o aceitou, mas Ron não desistiu. Foi severo e, por meio de argumentações e até ameaças, tomou o caso com mãos firmes e fez maravilhas.

— Deve ser um bom sujeito, esse Ron.

— É maravilhoso. Ajudou Diana física, mental e psicologicamente. Na verdade, acredito que, se não fosse por ele, Diana ainda estaria vagueando pela casa como um zumbi. Quando quase obriguei Glen a lhe dar um papel na peça levada para Londres, ela só aceitou quando Ron se dispôs a ir junto. Em Los Angeles, quando fez a temporada no Theatre Center, Ron precisava ficar nos bastidores, noite após noite.

— Foi Glen Driscoll quem indicou Diana para o papel no filme para a televisão?

O rosto suave e bonito endureceu. Ela colocou o copo sobre a mesa com um pouco mais de força do que seria necessário.

— Não exatamente. Li o roteiro e vi que o papel era perfeito pura ela, mas Glen receava que Diana não fosse capaz de levar o compromisso até o fim. Não posso culpá-lo. Ele é co-produtor do filme e nós dois sabíamos que contratá-la era arriscado.

— Compreendo o que quer dizer.

— Uma produção para a televisão custa milhões de dólares e é realizada com rapidez estafante. Um filme é feito em apenas algumas semanas.

— E Glen hesitava em confiar na resistência de Diana — comentou Nick, anotando mentalmente o que ouvira. — Suponho que vinte mil dólares não significam muito para ele.

— Não. Mas não acredito que Glen tentasse algo tão cruel quanto uma chantagem contra Diana.

Nick não tinha tanta certeza. Em seu ramo de negócio já vira familiares de vítimas, para não falar de amigos, fazerem coisas verdadeiramente mesquinhas por causa de dinheiro. Porém, sabendo que Laurel já estava perturbada, não quis aumentar suas preocupações. Guardou as suspeitas para si mesmo.

— Espero que Diana tenha consciência da auxiliar maravilhosa que você é.

Ela sentiu as lágrimas queimarem-lhe as pálpebras. Falando sobre aqueles anos em companhia de Diana, revivera todos os momentos traumatizantes que passara ao lado da atriz. Não querendo que ele percebesse que se encontrava à beira de um ataque de choro, levantou-se da espreguiçadeira e caminhou lentamente até uma viga de madeira que sustentava o teto do alpendre. Furtivamente enxugou os olhos e disfarçou o gesto quando percebeu que ele se aproximava.

, — O que foi, Laurel?

Ela fitou-o, procurando sorrir. — Acho que estou um pouco amedrontada com essa história de extorsão. Queria que tudo já estivesse terminado para que eu pudesse voltar a trabalhar em paz.

— Viver em paz, você quer dizer.

— Trabalhar... viver... não é tudo a mesma coisa?

— Pode ser. Escute, Laurel, não fique mais com medo. Agora não está sozinha. Eu a ajudarei a resolver esse problema.

A sensação de estar sendo confortada, em vez de confortar, era tão nova que subitamente uma onda de alívio invadiu-a. Sentiu-se como se um pesado fardo fosse tirado de seus ombros. Embora ainda não tivesse certeza de que tudo poderia ser resolvido da melhor forma possível, era bom dividir temores e preocupações com alguém. Olhou para Nick com um sorriso confiante.






Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal