À Sombra das Chuteiras Imortais



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NELSON RODRIGUES


À SOMBRA DAS

CHUTEIRAS IMORTAIS

Crônicas de futebol

Seleção e notas:

RUY CASTRO

3ª reimpressão

COLEÇÃO DAS OBRAS DE NELSON RODRIGUES

Coordenação de Ruy Castro
1. O casamento (romance)

2. A vida como ela é... O homem fiel e outros contos

3. O óbvio ululante: Primeiras confissões (crônicas)

4. À sombra das chuteiras imortais (crônicas de futebol)

A edição das obras de Nelson Rodrigues

conta com o apoio da Unicamp





http://groups.google.com/group/digitalsource

Copyright © 1993 by

Espólio de Nelson Falcão Rodrigues

Copyright de “Personagens para a eternidade”

© 1993 by Ruy Castro
Capa:

João Baptista da Costa Aguiar

sobre foto de Rodolpho Machado/

Abril Imagens
Preparação:

Marcos Luiz Fernandes
Índice remissivo:

Sérgio Pereira de Almeida
Revisão:

Lucíola S. de Morais
Agradecemos a Christina Konder e a Maria Célia Fraga,

do Departamento de Pesquisa de O Globo, e a

Augusto Falcão Rodrigues pelo auxílio na reunião do material

que resultou neste livro

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)


Rodrigues, Nelson, 1912-1980.

À sombra das chuteiras imortais : crônicas de fute­bol / Nelson Rodrigues ; seleção e notas Ruy Castro. — São Paulo : Companhia das Letras, 1993.
isbn 85-7164-320-2
1. Crônicas brasileiras \. Castro, Ruy, 1948 — ii. Título.
93-1175 cdd-869.935


Índices para catálogo sistemático:

1. Crônicas : Século 20 : Literatura brasileira

869.935


2. Século 20 : Crônicas : Literatura brasileira

869.935



1993


Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Tupi, 522

01233-000 — São Paulo — sp

Telefone: (011) 826-1822

Fax: (011)826-5523



Contra Capa

Do brasileiro vira-lata ao brasileiro orgu­lhoso de ser brasileiro — esta é a trajetória contada por Nelson Rodrigues nas se­tenta crônicas de À sombra das chuteiras imortais. Elas cobrem o período que vai da Copa do Mundo de 1950, em que a derrota do Brasil para o Uruguai em ple­no Maracanã reforçou a péssima imagem que o brasileiro fazia de si mesmo, à Co­pa de 1970 no México, a do tricampeonato — passando pela emoção de todas as Copas que vieram no meio e que ajudaram o Brasil a se trans­formar como nação.

Mas não é só quando trata da seleção que Nel­son faz do futebol um teatro que envolve todas as paixões humanas. Ao falar de um reles Fla­mengo X Canto do Rio ou do velório de um ve­lho jogador obscuro, ele está apenas usando o fu­tebol como um pretexto para mergulhar em suas obsessões: o heroísmo e o medo, a multidão e o indivíduo, a vida e a morte.

Seleção de Ruy Castro
Orelhas do Livro

Nelson Rodrigues não enxergava direi­to. De longe, então, era incapaz de distin­guir Fulano de Beltrano. No Maracanã, que deixa o torcedor a léguas do campo, não conseguia ver o jogo sozinho. Tinha que ter alguém soprando no ouvido dele os lances que a vista curta não alcançava. E, no entanto, ninguém jamais retratou um jogo de futebol com a dimensão épica que o leitor vai encontrar neste livro or­ganizado por Ruy Castro com o mesmo ri­gor e o mesmo encantamento com que se debruçou sobre a vida e a obra desse admirável artista que conheci tão de perto.

Releio, em estado de graça, a prosa poé­tica de Nelson Rodrigues, escrita ao longo de vinte anos. São crônicas da época em que o futebol brasileiro foi mais feliz. O li­vro apaixona. O estilo é, ao mesmo tempo, lírico e cortante. Nelson adjetiva a vida e os homens com uma audácia exemplar. À sombra das chuteiras imortais é a obra sem igual de um cronista que nunca deu a mínima bola para a frígida aritmética do jogo. Na ótica privilegiada de Nelson, fute­bol sempre foi e há de ser arrebatamento. Paixão avassaladora. Chuteiras sangran­do pela doce abstração de um gol.

O olhar metafórico de Nelson percorria o campo todo, recriando cada passe, cada drible, cada gol, numa secreta tabelinha com parceiros do imponderável. Era nas entrelinhas desse jogo sempre mágico que ele ia buscar seus personagens. A bola que passasse por Castilho não passaria por uma certa alma do outro mundo que o cronista volta e meia escalava para salvar de uma derrota o time do Fluminense ou a seleção nacional. Por suas sagradas paixões, Nelson Rodrigues encarava Deus e o mundo.

Nelson Rodrigues costumava dizer que, como um menino, via o amor pelo bura­co da fechadura. Poderia dizer, também, que via o futebol com os olhos de um ilu­minado. Todo domingo, ele ia ao estádio, para contemplar os anjos e os demônios da sua devoção. Foi assim, no entardecer de cada jogo, que nasceu À sombra das chuteiras imortais, canto primeiro e úni­co à epopéia do futebol brasileiro.

Nelson é o nosso Homero, sem tirar nem pôr.



Armando Nogueira
Nelson Rodrigues nasceu no Recife, PE, em 1912, e morreu no Rio, em 1980. De­le, a Companhia das Letras já publicou: O casamento (romance), A vida como ela é... O homem fiel e outros contos, O ób­vio ululante: primeiras confissões (crôni­cas) e este A sombra das chuteiras imor­tais. Próximo lançamento: A vida como ela é... II. A editora lançou também O an­jo pornográfico: a vida de Nelson Rodri­gues, por Ruy Castro.

ÍNDICE



A BARRIGA INSUBMERSÍVEL 149

A CAVEIRA NO ESPELHO 106

A COPA DO APITO 126

A CRUZ DO BOTAFOGO 64

A CUSPARADA METAFÍSICA 32

A DIVINA GOLEADA 28

A INVISIBILIDADE DO ÓBVIO 129

A REALEZA DE PELÉ 42

À SOMBRA DOS CRIOULÕES EM FLOR 142

A VERGONHA 124

A VINGANÇA DE JULINHO 77

A VOLTA DA LEITERIA 69

ARTILHEIRO EM ESTADO DE ANJO 34

BANDEIRINHA -ARTILHEIRO 75

BEAU 133

BEIJOS IMACULADOS 92

BICAMPEÕES DO MUNDO 89

BOCAGE NO FUTEBOL 18

CEM POR CENTO DIDA 67

CHEGA DE HUMILDADE 139

COMPLEXO DE VIRA-LATAS 50

CONVENIÊNCIA DE SER COVARDE 14

DESCOBERTA DE GARRINCHA 52

DESLIZANDO COMO CISNES 178

DIDI SEM GUIOMAR 44

DRAGÕES DE ESPORA E PENACHO 185

É CHATO SER BRASILEIRO! 59

ENCOURAÇADO DE SOL 112

FLAMENGO SESSENTÃO 10

FREUD NO FUTEBOL 26

GARRINCHA NÃO PENSA 61

GUERRA SUJA, TÃO SUJA 155

IRRESISTÍVEL FLAMENGO 30

JOÃO 146


MATAR OU MORRER 116

MOMENTOS DE ETERNIDADE 163

MORRENDO AO PÉ DO RÁDIO 54

O \“POSSESSO\ 83

O BELO MILAGRE DAS VAIAS 159

O CRAQUE NA CAPELINHA 22

O CRAQUE SEM IDADE 12

O DEUS DE CARLITO ROCHA 37

O DIVINO DELINQÜENTE 99

O EICHMANN DO APITO 86

O ENTENDIDO, SALVO PELO RIDÍCULO 174

O GOL MIL 152

O GORDO SALVADOR 46

O GRANDE DIA DE OTACÍLIO E ODETE 170

O GRANDE SOL DO ESCRETE 166

O JUIZ LADRÃO 16

O MAIS BELO FUTEBOL DA TERRA 181

O MAIS CARIOCA DOS TIMES 108

O MARTÍRIO DE NÍLTON SANTOS 110

O MINEIRO SOLIDÁRIO 95

O PELÉ BRANCO 72

O QUADRÚPEDE DE 28 PATAS 48

O RISO 24

O TRIUNFO DO HOMEM 57

OS INIMIGOS DO ÓBVIO 120

OS QUE NEGAM GARRINCHA 114

PERSONAGENS PARA A ETERNIDADE 9

PIOR PARA OS FATOS 104

RIGOLETTO DE LANÇA-PERFUME 20

SEMANA DE FLA—FLU 102

SOMOS BURROS, BURRÍSSIMOS 122

TERRENO BALDIO 118

UM ESCRETE DE FERAS 135

UM FLUMINENSE TÃO FLAUBERT 97

UM GESTO DE AMOR 131

UM HORIZONTE DE CHIFRES 80

VESTIDO DE FOGO 39




PERSONAGENS PARA A ETERNIDADE

Das setenta crônicas de À sombra das chuteiras imortais, as primeiras 31 foram publicadas originariamente na revista Man­chete Esportiva, onde Nelson Rodrigues escreveu de 1955 a 1959. Dessas 31, as primeiras onze conservam os títulos originais. As outras vinte, publicadas sob a rubrica “Meu personagem da se­mana”, ganharam títulos novos usando-se escrupulosamente o pensamento e as palavras do autor. As 39 crônicas restantes (a partir de “Um horizonte de chifres”) saíram em O Globo, onde Nelson escreveu a partir de 1962 uma coluna diária que, às segundas-feiras, vinha sob a rubrica “Meu personagem da sema­na” e, nos demais dias, sob “À sombra das chuteiras imortais”. Também essas ganharam títulos novos sob o mesmo critério.

As notas ao pé de página, pelo organizador desta edição, servem para situar o leitor sobre o resultado e outros detalhes da partida a que Nelson se refere — uma preocupação que ele não precisava ter, já que sua coluna vinha na página onde se cobria o tal jogo. A identificação de certos nomes citados por ele só foi feita nos casos extremos. Supôs-se que a maneira com que ele escrevia sobre futebol, quase desligando-o da vida real e jogando-o numa dimensão de eternidade, fosse suficiente pa­ra tornar essas pessoas fascinantes, mesmo que o leitor não te­nha grande informação sobre elas.

Aos que notarem a ausência do “Sobrenatural de Almeida” e de outros personagens de Nelson: eles pertencem mais às suas crônicas dos anos 70 — fora das balizas deste livro, que se en­cerra exatamente no tricampeonato do Brasil. Mas estarão pre­sentes numa segunda e inevitável coletânea futebolística de Nel­son. À sombra das chuteiras imortais é só o começo.



R. C.

FLAMENGO SESSENTÃO

Corria o ano de 1911. Vejam vocês: — 1911! O bigode do kaiser estava, então, em plena vigência; Mata-Hari, com um seio só, ateava paixões e suicídios; e as mulheres, aqui e alhures, usa­vam umas ancas imensas e intransportáveis. Aliás, diga-se de pas­sagem: — é impossível não ter uma funda nostalgia dos quadris anteriores à Primeira Grande Guerra. Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Con­venhamos: — grande época! grande época!

Pois bem. Foi em 1911, tempo dos cabelos compridos e dos espartilhos, das valsas em primeira audição e do busto uni­lateral de Mata-Hari, que nasceu o Flamengo.1 Em tempo retifi­co: — nasceu a seção terrestre do Flamengo. De fato, o clube de regatas já existia, já começava a tecer a sua camoniana tradi­ção náutica. Em 1911, aconteceu uma briga no Fluminense. Dis­cute daqui, dali, e é possível que tenha havido tapa, nome feio, o diabo. Conclusão: — cindiu-se o Fluminense e a dissidência, ainda esbravejante, ainda ululante, foi fundar, no Flamengo de regatas, o Flamengo de futebol.

Naquele tempo tudo era diferente. Por exemplo: — a tor­cida tinha uma ênfase, uma grandiloqüência de ópera. E acon­tecia esta coisa sublime: — quando havia um gol, as mulheres rolavam em ataques. Eis o que empobrece liricamente o fute­bol atual: — a inexistência do histerismo feminino. Difícil, muito difícil, achar-se uma torcedora histérica. Por sua vez, os homens torciam como espanhóis de anedota. E os jogadores? Ah, os jogadores! A bola tinha uma importância relativa ou nula. Quantas vezes o craque esquecia a pelota e saía em frente, ceifando, dizimando, assassinando canelas, rins, tórax e baços adversá­rios? Hoje, o homem está muito desvirilizado e já não aceita a ferocidade dos velhos tempos. Mas raciocinemos: — em 1911, ninguém bebia um copo d’água sem paixão.

Passou-se. E o Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o fute­bol moderno exige. Mas o comportamento interior, a gana, a garra, o élan são perfeitamente inatuais. Essa fixação no tempo explica a tremenda força rubro-negra. Note-se: — não se trata de um fenômeno apenas do jogador. Mas do torcedor também. Aliás, time e torcida completam-se numa integração definitiva. O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor, que não afeta as raízes do ser. O torcedor rubro-negro, não. Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza, ele san­gra como um césar apunhalado.

Também é de 911, da mentalidade anterior à Primeira Gran­de Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a cami­sa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, des­fraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de che­gar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no ar­co. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.


[Manchete Esportiva, 26/11/1955]

O CRAQUE SEM IDADE

Quando acabou a etapa inicial do jogo Brasil x Paraguai, o placar acusava um lírico, um platônico 0 x 0. Ora, o empate é o pior resultado do mundo. O torcedor sente-se roubado no dinheiro da entrada e inclinado a chamar os 22 jogadores, o juiz e os bandeirinhas de vigaristas. Acresce o seguinte: — de todos os empates o mais exasperante é o de 0 x 0. Essa virgindade desagradável e irredutível do escore já humilhava o público e, ao mesmo tempo, o enfurecia.

Súbito, o alto-falante do estádio se põe a anunciar as duas substituições brasileiras: — entravam Zizinho e Walter. Foi uma transfiguração. Ninguém ligou para Walter, que é um craque, sim, mas sem a tradição, sem a legenda, sem a pompa de um Ziza. O nome que crepitou, que encheu, que inundou todo o espaço acústico do Maracanã foi o do comandante banguense. Imediatamente, cada torcedor tratou de enxugar, no lábio, a ba­ba da impotência, do despeito e da frustração. O placar perma­necia empacado no 0 x 0. Mas já nos sentíamos atravessados pela certeza profética da vitória. Os nossos tórax arriados encheram-se de um ar heróico, estufaram-se como nos anúncios de fortificante.

Eis a verdade: — a partir do momento em que se anunciou Zizinho2, a partida estava automática e fatalmente ganha. Por­tanto, público, juiz, bandeirinhas e os dois times podiam ter se retirado, podiam ter ido para casa. Pois bem: — veio o jogo. Ora, o primeiro tempo caracterizara-se por uma esterilidade bonitinha. Nenhum gol, nada. Mas a presença de Zizinho, por si só, dinamizou a etapa complementar, deu-lhe caráter, deu-lhe alma, infundiu-lhe dramatismo. Por outro lado, verificamos ain­da uma vez o seguinte: — a bola tem um instinto clarividente e infalível que a faz encontrar e acompanhar o verdadeiro cra­que. Foi o que aconteceu: — a pelota não largou Zizinho, a pe­lota o farejava e seguia com uma fidelidade de cadelinha ao seu dono. (Sim, amigos: — há na bola uma alma de cachorra.)

No fim de certo tempo, tínhamos a ilusão de que só Zizi­nho jogava. Deixara de ser um espetáculo de 22 homens, mais o juiz e os bandeirinhas. Zizinho triturava os outros ou, ainda, Zizinho afundava os outros numa sombra irremediável. Eis o fato: — a partida foi um show pessoal e intransferível.

E, no entanto, a convocação do formidável jogador susci­tara escrúpulos e debates acadêmicos. Tinha contra si a idade, não sei se 32, 34, 35 anos. Geralmente, o jogador de 34 anos está gagá para o futebol, está babando de velhice esportiva. Mas o caso de Zizinho mostra o seguinte: — o tempo é uma con­venção que não existe nem para o craque, nem para a mulher bonita. Existe para o perna-de-pau e para o bucho. Na intimida­de da alcova, ninguém se lembraria de pedir à rainha de Sabá, a Cleópatra, uma certidão de nascimento. Do mesmo modo, que importa a nós tenha Zizinho dezessete ou trezentos anos, se ele decide as partidas? Se a bola o reconhece e prefere?

No jogo Brasil x Paraguai, ele ganhou a partida antes de aparecer, antes de molhar a camisa, pelo alto-falante, no inter­valo. Em último caso, poderá jogar, de casa, pelo telefone.
[Manchete Esportiva, 3/12/1955]

CONVENIÊNCIA DE SER COVARDE

Há tempos, fui à rua Bariri, ver um jogo do Fluminense. E confesso: — sempre considerei Olaria tão longínqua, remo­ta, utópica como Constantinopla, Istambul ou Vigário Geral. Já na avenida Brasil, comecei a sentir uma nostalgia e um exílio só equiparáveis aos de Gonçalves Dias, de Casimiro de Abreu. Conclusão: — recrudesceu em mim o ressentimento contra qual­quer espécie de viagem. Mas, enfim, cheguei e assisti à partida. Nos primeiros trinta minutos, houve tudo, rigorosamente tu­do, menos futebol. Uma vergonha de jogo, uma pelada alvar, que não valia os cinco cruzeiros do lotação. E, súbito, ocorre o episódio inesperado, o incidente mágico, que veio conferir ao match de quinta classe uma dimensão nova e eletrizante.

Eis o fato: — um jogador qualquer enfiou o pé na cara do adversário. Que fez o juiz? Arremessa-se, precipita-se com um élan de Robin Hood e vem dizer as últimas ao culpado. Então, este não conversa: — esbofeteia o árbitro. Ora, um tapa não é apenas um tapa: — é, na verdade, o mais transcendente, o mais impor­tante de todos os atos humanos. Mais importante que o suicídio, que o homicídio, que tudo o mais. A partir do momento em que alguém dá ou apanha na cara, inclui, implica e arrasta os outros à mesma humilhação. Todos nós ficamos atrelados ao tapa.

Acresce o seguinte: — o som! E, de fato, de rodos os sons terrenos, o único que não admite dúvidas, equívocos ou sofis­mas é o da bofetada. Sim, amigos: — uma bofetada silenciosa, uma bofetada muda, não ofenderia ninguém, e pelo contrário: — vítima e agressor cairiam um nos braços do outro, na mais profunda e inefável cordialidade. É o estalo medonho que a va­loriza, que a dramatiza, que a torna irresgatável.

Pois bem: — na bofetada de Olaria não faltou o detalhe auditivo. Mas o episódio não esgotara ainda o seu horror. Restava o desenlace: — a fuga do homem. Pois o juiz esbofeteado não teve meias medidas: — deu no pé. Convenhamos: — é empol­gante um pânico assim taxativo e triunfal, sem nenhum disfar­ce, nenhum recato. Digo “empolgante” e acrescento: — rarís­simo ou, mesmo, inédito.

Via de regra, só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única: — apresenta-se como se fosse a própria estátua eqüestre. Mas a covardia, não. A co­vardia acusa uma vergonha convulsiva. Tenho um amigo que faz o seguinte: — chega em casa, tranca-se na alcova, tapa o bu­raco da fechadura e só então, na mais rigorosa intimidade — apanha da mulher. Mas cá fora, à luz do dia, ele é um Tartarin, um Flash Gordon, capaz de varrer choques de polícias especiais.

Pois bem. Ao contrário dos outros covardes, que escon­dem, que renegam, que desfiguram a própria covardia — o juiz correu como um cavalinho de carrossel. Note-se: há hoje toda uma monstruosa técnica de divulgação, que torna inexeqüível qualquer espécie de sigilo. E, logo, a imprensa e o rádio envol­veram o árbitro. Essa covardia fotografada, irradiada, televisio­nada projetou-se irresistivelmente. E quando, em seguida, a po­lícia veio dar cobertura ao árbitro, este ainda rilhava os dentes, ainda babava materialmente de terror. Acabado o match a mul­tidão veio passando, com algo de fluvial no seu lerdo escoamen­to. Mas todos nós, que só conseguimos ser covardes às escon­didas, tínhamos inveja, despeito e irritação dessa pusilanimidade que se desfraldara como um cínico estandarte.

[Manchete Esportiva, 17/12/1955]



O JUIZ LADRÃO

De vez em quando, eu esbarro num saudosista. É um sujei­to esplêndido, que vive enfiado no passado. Direi mais: — vive feliz e realizado no passado como um peixinho num aquário de sala de visitas. E convenhamos que isto é bonito, é lindo. Outro dia, um deles atracou-se comigo no meio da rua; arrastou-me para o fundo de um café, e, lá, com o olho rútilo e o lábio trêmulo, pôs-se a falar de Marcos de Mendonça, o “Fitinha Roxa”; da “espanhola”; do assassinato de Pinheiro Machado e do campeo­nato que o Botafogo tirou em 1910. Mas, nos vinte minutos da conversa retrospectiva, já lhe pendia do beiço uma grossa, uma espuma bovina, uma baba elástica. De mim para mim, compreen­di essa nostalgia, louvei essa fidelidade ao passado. Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.

Por exemplo: — o futebol antigo. Era, a meu ver, um fenô­meno vital muito mais rico, complexo e intrincado. Hoje, os jo­gadores, os juizes e os bandeirinhas se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Não encontramos, em ninguém, uma dessemelhança forte, crespa e taxativa. Não há um craque, um árbitro ou um bandeirinha que se imponha como um símbolo humano definitivo. Outrora havia o “juiz ladrão”. E hoje? Hoje, os juizes são de uma chata, monótona e alvar honestidade. Abra-hão Lincoln não seria mais íntegro do que Mário Vianna. E va­mos e venhamos: — a virtude pode ser muito bonita, mas exala um tédio homicida e, além disso, causa as úlceras imortais. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.

Mas ponha-se um árbitro insubornável diante de um viga­rista. E verificaremos isto: — falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista. O profissionalismo torna inexeqüível o juiz ladrão. E é pena. Porque seu desapare­cimento é um desfalque lírico, um desfalque dramático para os jogos modernos.

Vejam vocês que coisa melancólica e deprimente: — um jogo de futebol tem 22 homens. Com o juiz e os bandeirinhas, 25. Acrescentem-se os gandulas e já teremos um total de 29. Vin­te e nove homens e nem um único e escasso canalha, nem um único e escasso vigarista! Eis a verdade, que levaria um Balzac ao desespero e à úlcera: — as condições do futebol contempo­râneo tornam impraticável a existência do canalha. Ou por ou­tra: — o canalha pode existir, mas contido, frustrado, inédito, sem função e sem destino.

Mas em 1918, 17 ou 16, os gatunos constituíam uma brio­sa fauna, uma luxuriante flora. Evidentemente, havia as exce­ções. Mas os salafrários podiam apitar as partidas e com que glo­rioso, com que genial descaro! Certa vez, foi até interessante: — existia um juiz que era um canalha em estado de pureza, de graça, de autenticidade. Um domingo, ele vai apitar um jogo decisivo. Que fazem os adversários? Tentam suborná-lo. Ora, o canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável. E o homem optou pela solução mais equânime: — levou bola dos dois lados. Justiça se lhe faça: — roubou da maneira mais de­senfreada e imparcial os dois quadros. Ao soar o apito final, os 22 jogadores partiram para cima do ladrão. Mas o gângster já se antecipara, já estava pulando muros e galinheiros. Era uma figurinha elástica, acrobática e alada. Isto foi em 1917. O juiz gatuno está correndo até hoje.


[Manchete Esportiva, 31/12/1955]

BOCAGE NO FUTEBOL

Quando eu tinha meus cinco, meus seis anos, morava, ao lado de minha casa, um garoto que era tido e havido como o anticristo da rua. Sua idade regulava com a minha. E justiça se lhe faça: — não havia palavrão que ele não praticasse. Eu, na minha candura pânica, vivia cercado de conselhos, por todos os lados: — “Não brinca com Fulano, que ele diz nome feio!”. E o Fulano assumia, aos meus olhos, as proporções feéricas de um Drácula, de um Nero de fita de cinema. Mas o tempo pas­sou. E acabei descobrindo que, afinal de contas, o anjo de boca suja estava com a razão. Sim, amigos: — cada nome feio que a vida extrai de nós é um estímulo vital irresistível. Por exem­plo: — os nautas camonianos. Sem uma sólida, potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama, um Colombo, um Pedro Ál­vares Cabral não teriam sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão.

Mas, se nas relações humanas em geral, o nome feio pro­duz esse impacto criador e libertário, que dizer do futebol? Eis a verdade: — retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível, Como jogar ou como torcer se não podemos xin­gar ninguém? O craque ou o torcedor é um Bocage. Não o Bocage fidedigno, que nunca existiu. Para mim, o verdadeiro Bocage é o falso, isto é, o Bocage de anedota. Pois bem: — está para nascer um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano. O craque brasileiro não sabe ganhar partidas sem o incentivo cons­tante dos rijos e imortais palavrões da língua. Nós, de longe, vemos os 22 homens correndo em campo, matando-se, agoni­zando, rilhando os dentes. Parecem dopados e realmente o estão: — o chamado nome feio é o seu excitante eficaz, o seu afrodisíaco insuperável.

Exagero? Nem tanto, nem tanto. A propósito, vou citar aqui o caso de Jaguaré.



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