1 a literatura infantil e os horizontes de leitura



Baixar 176.32 Kb.
Página1/3
Encontro29.11.2017
Tamanho176.32 Kb.
  1   2   3



1 A LITERATURA INFANTIL E OS HORIZONTES DE LEITURA



    1. A literatura na perspectiva do leitor

A estética da recepção é a teoria da literatura formulada por Hans Robert Jauss e seus colegas da Escola de Constança, no final da década de 60, desenvolvida a partir do trabalho A história da literatura como provocação à teoria da literatura,1 que retoma a problemática da história da literatura. Jauss traz de volta a discussão por não compartilhar com a orientação da escola idealista ou da escola positivista para a construção de uma história literária, uma vez que ambas não realizam seus estudos embasados na convergência entre o aspecto histórico e o estético, criando, assim, um vazio entre a literatura e a história. A inexistência desse nexo resulta, portanto, em pesquisas que se preocupam apenas com as obras e seus autores, deixando à margem o terceiro elemento do circuito literário, os leitores.

Em vista disso, o teórico contrapõe-se às correntes teóricas marxista e formalista, tais como, a crítica sociológica, o new criticism, o formalismo russo e o estruturalismo. A crítica à teoria literária marxista reside no fato de ela entender como sendo seu papel apresentar a literatura apenas como reflexo dos fenômenos sociais, o que implica emitir um juízo de valor de uma obra literária pautado somente na sua capacidade de representação da estrutura social, impossibilitando, a partir desse juízo, a definição de categorias estéticas.

No que se refere à teoria literária formalista, a crítica funda-se na concepção da obra literária como um todo autônomo e auto-suficiente, com seus elementos organicamente relacionados, independente de dados históricos ou biográficos do autor, atribuindo a verdadeira significação a sua organização interna sem necessitar da referência a uma situação externa. Desse modo:

o processo de percepção da arte surge como um fim em si mesmo, tendo a perceptibilidade da forma como seu marco distintivo e o desvelamento do procedimento como o princípio para uma teoria que, renunciando conscientemente ao conhecimento histórico, transformou a crítica de arte num método racional e, ao fazê-lo, produziu feitos de qualidade científica duradoura.2

Para Jauss, as duas teorias limitam-se a compreender o fato literário no âmbito da estética da representação e da produção, o que significa a exclusão da dimensão da leitura e do efeito, que é a privilegiada pela estética da recepção, tendo em vista o propósito desta em apresentar uma visão diferenciada da história da literatura pautada na historicidade da obra de arte literária, já que ela “não repousa numa conexão de ‘fatos literários’ estabelecida post festum, mas no experienciar dinâmico da obra literária por parte de seus leitores”.3

Sob esse ponto de vista, a estética da recepção toma como objeto de investigação o receptor. Isso exige dela a construção de uma nova concepção de leitor fundamentada não mais na visão marxista, que o concebe como parte integrante da estrutura social apresentada pela ficção, nem na visão formalista, que necessita dele apenas enquanto sujeito da percepção, capaz de, a partir das pistas textuais, diferençar a forma e revelar o procedimento. O leitor assume, então, “seu papel genuíno, imprescindível tanto para o conhecimento estético quanto para o conhecimento histórico: o papel de destinatário a quem, primordialmente, a obra literária visa”.4

Com a mudança do foco de investigação para a recepção, o fato literário passa a ser descrito a partir da história das sucessivas leituras por que passam as obras, as quais se realizam de um modo diferenciado através dos tempos, porque:

a obra literária não é um objeto que exista por si só, oferecendo a cada observador em cada época um mesmo aspecto. Não se trata de um monumento a revelar monologicamente seu Ser atemporal. Ela é, antes, como uma partitura voltada para a ressonância sempre renovada da leitura, libertando o texto da matéria das palavras e conferindo-lhe existência atual.5

A recepção, nessa perspectiva, é compreendida “como uma concretização6 pertinente à estrutura da obra, tanto no momento de sua produção como de sua leitura, que pode ser estudada esteticamente”,7 considerando, assim, o leitor como um elemento também textualmente marcado na obra de arte literária. Para o teórico, privilegiar a recepção representa conceber o texto literário como um fato que não se limita à dimensão estética, pois também considera a social. Por conseguinte, desloca-se a concepção de literatura enquanto sistema de sentido fechado e definitivo para a de um sistema que se constrói por produção, recepção e comunicação, ou seja, por um relacionamento dinâmico entre autor, obra e leitor.

Sendo assim, a obra literária é condicionada pela relação dialógica entre literatura e leitor, o que acarreta, necessariamente, um processo de interação entre os mesmos, cujo grau de perenidade depende dos referenciais estético-ideológicos que os configuram, isto é, em face da natureza dialógica dessa relação, a obra literária só permanece em evidência enquanto puder interagir com o receptor, sendo o parâmetro de aceitação desse o horizonte de expectativas,8 composto pelo sistema de referências que resulta do conhecimento prévio que o leitor possui do gênero, da forma, da temática das obras já conhecidas/lidas, e da oposição entre as linguagens poética e pragmática.9

O sistema de referências, contudo, não se restringe aos aspectos estéticos da obra, haja vista que no ato da leitura também entra em jogo a experiência de vida do leitor, porque entre a leitura de uma obra e o efeito pretendido ocorre o processo da compreensão, exigindo do leitor não só a utilização do conhecimento filológico, mas de todo o seu conhecimento de mundo acumulado. Em vista disso, o conjunto de referências também é regido pelas convenções, elencadas por Zilberman, da seguinte ordem:

- social, pois o indivíduo ocupa uma posição na hierarquia das sociedades;


  • intelectual, porque ele detém uma visão de mundo compatível, na maioria das vezes, com seu lugar no espectro social, mas que atinge após completar o ciclo de sua educação formal;

  • ideológica, correspondente aos valores circulantes no meio, de que se imbuiu e dos quais não consegue fugir;

  • lingüística, pois emprega um certo padrão expressivo, mais ou menos coincidente com a norma gramatical privilegiada, o que decorre tanto de sua educação, como do espaço social em que transita.10

No processo de realização da leitura literária, o horizonte de expectativas do leitor pode ser satisfeito ou quebrado por uma determinada obra. Dessa relação de satisfação ou ruptura de horizontes pode-se estabelecer a distância entre a expectativa do leitor e sua realização, denominada por Jauss de distância estética, que indicará o caráter artístico da obra. Ocorrendo a satisfação, a obra caracteriza-se como sendo “arte culinária” ou de mera diversão, isto é, literatura de massa, visto que não exige nenhuma mudança de horizonte, servindo apenas para reforçar as normas literárias e sociais em vigor. No caso da quebra de expectativas, consoante Arnold Rothe,11 pode vir a acontecer uma mudança de comportamentos e de normas ou uma rejeição por parte do público, como ocorreu, por exemplo, com Sthendal e Flaubert, provocando a formação de um novo público.

Em virtude dessas reações, tem-se a formulação do seguinte preceito teórico: somente a quebra ou a ruptura de expectativas será indicativa do valor estético de um texto, cuja avaliação, a partir da distância estética, se torna bastante independente da visão particular do crítico. Tal postura, para Regina Zilberman,12 aproxima Jauss dos formalistas e estruturalistas, porque, de certo modo, esse critério adotado recupera o efeito de estranhamento da obra de arte literária proposto por tais teorias. E, como conseqüência pragmática, a reconstrução do horizonte de expectativas oportuniza às obras consideradas clássicas o retorno do seu viés emancipador, perdido por causa do processo de canonização, que as tornaram incapazes de suscitar novos questionamentos.13

Reconstruir os horizontes de expectativas de uma obra em relação ao processo de produção/recepção sofrido por ela em épocas distintas significa encontrar as perguntas para as quais o texto constitui uma ou mais respostas. A lógica da pergunta e da resposta é o mecanismo da hermenêutica que permite identificar o horizonte de expectativas do leitor e as questões inovadoras a que o texto apresenta uma ou mais respostas, como também mostrar como as compreensões variam no tempo. Dessa forma, o sentido de um texto é construído historicamente, descartando-se a idéia de sua atemporalidade. É a partir do confronto desses dois pólos que a distância estética pode ser estabelecida.

Partindo desses princípios, as grandes obras são as que permanentemente provocam nos leitores, de diferentes momentos históricos, a formulação de novas indagações que os levem a se emanciparem em relação ao sistema de normas estéticas e sociais vigentes. O efeito libertador provocado pela literatura é fruto do seu caráter social, pois, para Jauss, a interação do indivíduo com o texto faz com que o sujeito reconheça o outro, rompendo, assim, o seu individualismo e, conseqüentemente, promovendo a ampliação dos seus horizontes proporcionada pela obra literária:

A experiência da leitura logra libertá-lo das opressões e dos dilemas de sua práxis de vida, na medida em que o obriga a uma nova percepção das coisas. O horizonte de expectativas da literatura distingue-se daquele da práxis histórica pelo fato de não apenas conservar as experiências vividas, mas também antecipar possibilidades não concretizadas, expandir o espaço limitado do comportamento social rumo a novos desejos, pretensões e objetivos, abrindo, assim, novos caminhos para a experiência futura.14

Nesse sentido, Alliende e Condemarín salientam o papel social da leitura, literária ou não, porque o homem leitor pode ampliar as possibilidades de amadurecimentos individual e intelectual e, por conseguinte, compreender melhor a si e o mundo. Em contrapartida, “as pessoas que não lêem tendem a ser rígidas em suas idéias e ações e a conduzir suas vidas e trabalho pelo que se lhes transmite diretamente. A pessoa que lê abre o seu mundo, pode receber informações e conhecimentos de outras pessoas de qualquer parte”.15 Com essas afirmações, os autores confirmam a premissa de que a leitura conduz a uma práxis concreta, sustentados na correlação existente entre as práticas de leitura de um povo e seu desenvolvimento material e social.

Entretanto, a transformação do homem, via prática da leitura, só é realizada na medida em que ele estiver aberto a viver novas experiências, despojado de uma postura autoritária e disposto a aprender, a fim de conscientizar-se de sua transitoriedade. Essa abertura leva o homem a ter mais conhecimento sobre o mundo, ter mais vivência, pois, de acordo com Hans-Georg Gadamer, “a pessoa a que chamamos experimentada não é somente alguém que se fez o que é através das experiências, mas também alguém que está aberto a experiências”.16

A estética da recepção, portanto, é o instrumental teórico adequado para fundamentar, a partir dos conceitos de recepção, horizonte de expectativas, distância estética e lógica da pergunta e da resposta, a análise das narrativas infantis, que constituem o corpus dessa dissertação, a fim de se compreender o processo de produção/recepção da obra literária infantil tendo como referência o leitor, isto é, com base nos conceitos selecionados da estética da recepção é possível delinear o horizonte de expectativas de crianças de diferentes classes sociais em contexto escolar, materializado em normas literárias e concepções de mundo presentes nas narrativas infantis reproduzidas de textos literários conhecidos/lidos, uma vez que uma das tarefas da teoria recepcional, em conformidade com Zilberman,17 é a reconstrução desse horizonte, objetivando explicitar a relação da obra literária com o seu público. Resta, ainda, delinear o espaço percorrido pelo livro na sociedade, tarefa da sociologia da leitura.



    1. O livro literário no contexto social

A sociologia da leitura, como a estética da recepção, centra o seu foco de atenção no terceiro eixo do circuito literário, o leitor, contudo não se propõe investigar a relação entre leitor e texto buscando o delineamento do horizonte de expectativas, pois o que interessa são as questões extrínsecas da leitura, isto é, a abordagem está centrada na relação entre o livro e os seus mediadores sociais.

Esse campo teórico objetiva, portanto, estudar o público encarando-o não mais como elemento passivo, mas como ativo, já que a sua mudança de gosto e preferência influencia a circulação e a produção da obra literária. Nesse sentido, a análise sociológica considera todos os fatores sociais que interferem no processo de formação do gosto e que funcionam como mediadores de leitura, como também as características dos consumidores conforme sua condição social, cultural, etária, sexual, profissional, entre outros.

Sendo o seu objeto de estudo o público, a sociologia da leitura não se restringe à análise e descrição da recepção de textos literários, o que representa incluir também como objeto de estudo textos considerados marginais e subliterários. Pelo fato de o enfoque não buscar contrapartida na estética, Regina Zilberman afirma que sua contribuição para a Teoria da Literatura fica restrita, entretanto sua importância não é reduzida por essa razão, uma vez que “suas pesquisas permitem compreender o fato literário no cotidiano de sua existência, caracterizado por sua circulação e consumo.18

O primeiro trabalho produzido a partir desse enfoque foi o livro Die Soziologie der literarischen Geschmacksbildung,19 de L. L. Schücking, publicado em 1923, que procurou atingir o objetivo anteriormente descrito. Outros trabalhos deram continuidade ao estudo do público leitor, todavia, sobressaem-se os produzidos pela Escola de Bordéus, liderados por Robert Escarpit e sua equipe, bem como os de Arnold Hauser e Pierre Bourdieu.

Robert Escarpit situa o estudo da formação do público leitor no âmbito da sociologia da literatura, o que significa buscar compreender o fato literário associado ao contexto social em que está inserido e com o qual estabelece um diálogo. Não é propósito desse teórico realizar um trabalho de análise estética, pois o critério utilizado para definir literatura não é qualitativo e sim denominado por ele de “atitude ao gratuito”, que resulta numa definição de literatura como todo texto que não possui uma finalidade pragmática, cujo efeito provoca uma espécie de catarse do ponto de vista cultural.

Essa definição inicial apresenta um teor generalizante que não situa com clareza a abordagem sociológica da literatura, no entanto, em Lo literário y lo social, o Autor aprofunda o conceito de literatura em relação às questões sociológicas, fundamentando com mais precisão a proposta da Escola de Bordéus:

o que nós denominamos literatura no século XX é a instituição que permite à sociedade impor suas estruturas além da mera linguagem, toda manifestação de uma literatura viva, caracterizada pela liberdade do escritor é, em nosso tempo, antiliteratura numa certa medida. Dito de outro modo, a literatura como fato histórico concreto, de antiguidade não superior a duzentos anos, leva consigo sua própria negação e conduz a sua própria superação.20

Importa, então, para Escarpit, utilizar como procedimento metodológico mais adequado o estudo dos dados de cunho objetivo, os quais serão explorados de modo sistemático sem a interferência de idéias preconceituosas. No entanto, o estudioso observa que a análise não deve se limitar aos dados estatísticos, pois outras informações fornecidas pelos estudos das estruturas sociais, tais como, regimes políticos, instituições culturais, classes sociais, profissões, organização do tempo livre, nível de analfabetismo, condições sociais do escritor, do livreiro, do editor, problemas lingüísticos, história do livro, complementam de forma decisiva a interpretação pretendida, culminando com a compreensão do público-leitor num contexto social mais abrangente. Outro procedimento é o estudo de casos concretos realizado por meio dos métodos da literatura geral ou da literatura comparada, como, por exemplo, o êxito de uma obra, a evolução de um gênero ou de um estilo, a abordagem de um tema, a história de um mito, no qual a significação dos dados contribui para explicitar os fenômenos observados objetivamente.21

Embasados nessa perspectiva, através de um método empírico, os estudos realizados pela referida escola tratam o fenômeno literário a partir de três instâncias – a produção, a circulação e o consumo. As questões da produção são analisadas a fim de identificar e caracterizar os fatores “que interferem na atividade do escritor como homem de seu tempo com responsabilidade social definida”.22 A análise da circulação das obras, por sofrer intervenção na sua publicação e distribuição de diversos mediadores, como, por exemplo, o circuito letrado (editores, livreiros e críticos literários) e o circuito popular (bibliotecas populares, imprensa, rádio, cinema, bancas de revistas e vendedores ambulantes), torna-se necessária para se compreender o papel desempenhado individualmente pelos organismos sociais participantes.

E, finalmente, o consumo é examinado a partir da descrição das diferentes modalidades existentes de público, cujas expectativas interferem na formatação do texto; das razões dos êxitos, classificados por Escarpit em semiêxito, êxito normal e o best seller, e dos fracassos das obras sob os pontos de vista comercial e social, além da análise do processo de formação do leitor, cujo resultado depende das circunstâncias sociais e materiais que tornarão o indivíduo, mediante a qualidade da relação leitura/vida, conhecedor ou consumidor da literatura.

Outro aspecto que tem sido temática de análise da sociologia da leitura é o papel dos mediadores sociais, tais como a biblioteca, a editora, a escola, a livraria, a imprensa, o sistema de distribuição, os eventos culturais, a igreja e a família. Esse enfoque é objeto de estudo de Arnold Hauser em Sociologia del publico,23 encarado pelo teórico como fundamental, tendo em vista que “artista e público não falam a mesma língua desde o princípio. A obra de arte tem que ser traduzida a um idioma próprio para que resulte geralmente compreensível e para que a maioria possa gozá-la”.24 Em defesa dessa concepção, argumenta que existe entre o produtor e o receptor da obra um grande abismo e são as instâncias de mediação as responsáveis pela ponte ou idioma que garante a permanência ou não do diálogo entre autor e leitor via obra, através dos tempos. Para explicitar sua concepção de mediadores de leitura o autor diz o seguinte:

Qualquer que seja a constituição de uma obra de arte, normalmente passa por muitas mãos antes de chegar do produtor ao consumidor. A sensibilidade e capacidade associativa, o gosto e o juízo estético do público são influenciados por uma larga série de intermediários, intérpretes e críticos, professores e peritos, antes de constituírem-se em pauta mais ou menos obrigatórias e critérios direcionados para obras que, todavia, necessitam de uma concessão qualitativa, de um selo acadêmico, e problemáticas segundo a opinião pública.25

Os mediadores de leitura assumem o papel responsável pela constituição ou não do dialógo entre autor/obra/leitor, porque a obra de arte é definida por Hauser como sendo uma construção dialética, como conversa que se estabelece entre autor e público mediante uma ação recíproca. Sendo assim, o público deixa de ter uma atitude passiva para assumir a de interlocutor, contribuindo “ao nascimento de uma forma enquanto objetividade que responde/reage à subjetividade espontânea do artista, forma cuja estrutura dialógica é inconfundível”.26 Enfim, a obra de arte situada numa perspectiva dialógica só existe a partir da recepção, a qual só se concretiza por meio das instâncias mediadoras.

O autor salienta, ainda, que, por mais espontâneo e irresistível que seja o modo de o artista comunicar-se com o público, é necessária a presença de tradutores e intermediários para que a recepção seja compreendida de maneira correta e apropriada, pois, quanto mais desenvolvido o estilo, mais modernas as obras consideradas e menos conhecedores em arte os receptores, tanto maiores, diversas e importantes terão de ser as mediações.27 Ressalta, entretanto, que as instâncias mediadoras podem ter uma função útil ou inútil de mediação, visto que elas podem aproximar o artista do público, reforçando a relação e, ao mesmo tempo, podem distanciar ou alienar.

Dada a importância atribuída às instâncias mediadoras, Aguiar28 salienta que um contato freqüente e próximo do sujeito com esses organismos possibilita-lhes uma maior chance de tornar-se um leitor. Todavia, a concretização desse contato é definida, de acordo com Pierre Bourdieu,29 pelas condições econômicas e educacionais permitidas pela classe dominante, ou seja, a transformação do indivíduo num leitor passa, necessariamente, pelo acesso aos bens culturais e, para se adentrar ao meio considerado culto, é necessário ter um certo nível de poder econômico para adquirir o código, a fim de circular no habitat natural do capital cultural. Logo, a definição da distribuição das parcelas do poder econômico, como também do que é o capital cultural cabe à classe dominante ou burguesa, por conseguinte, é ela quem dita as regras das trocas sociais.

O acesso ao capital cultural, via poder econômico, contudo, não é a garantia de que o sujeito esteja em condições de usufruí-lo, uma vez que a comunicação com a obra de arte é destinada a alguns eleitos que possuam aptidões para entender o apelo da arte. Tais aptidões são, na verdade, instrumentos adquiridos por meio do mecanismo denominado arbítrio cultural, utilizado por instâncias como a família e a escola para impor a aprendizagem dos códigos que determinam quais obras serão consideradas naturalmente dignas de serem apreciadas como arte:

A obra de arte considerada enquanto bem simbólico (e não em sua qualidade de bem econômico, o que ela também é) só existe enquanto tal para aquele que detém os meios para que dela se aproprie pela decifração, ou seja, para o detentor do código historicamente constituído e socialmente reconhecido como a condição da apropriação simbólica das obras de arte oferecidas a uma dada sociedade em um dado momento do tempo.30

O fato de estar desprovido desse código leva o indivíduo a perceber a obra de arte a partir do seu referencial cotidiano remetendo a sua percepção a uma ótica funcional, conforme afirma Bourdieu:

Na verdade, aqueles que não contam com os meios de acesso a uma percepção “pura” envolvem em sua apreensão da obra de arte as disposições que sustêm sua prática cotidiana, e por esta via, estão fadados a uma estética funcionalista que não passa de uma dimensão de sua ética, ou melhor, de seu ethos de classe.31

Desse modo, “os bens culturais enquanto bens simbólicos só podem ser apreendidos e possuídos como tais por aqueles que detêm o código que permite decifrá-los”,32 ou seja, só é possível apropriar-se desses bens quando se detém antecipadamente os instrumentos adequados. Tal situação é o resultado do processo de reprodução cultural e social, tendo em vista que as leis que regem a transmissão cultural condicionam o retorno do capital cultural às mãos dele mesmo, reproduzindo, assim, a estrutura de distribuição desigual desse capital entre as classes sociais.

Nesse processo, a escola funciona como um dos mecanismos mais eficientes no processo de manutenção do sistema de reprodução cultural e social, pois, para o sociólogo francês:

dentre as soluções historicamente conhecidas quanto ao problema da transmissão do poder e dos privilégios, sem dúvida, a mais dissimulada e por isto mesmo a mais adequada a sociedades tendentes a recusar as formas mais patentes da transmissão hereditária do poder e dos privilégios, é aquela veiculada pelo sistema de ensino ao contribuir para a reprodução da estrutura das relações de classe dissimulando, sob as aparências da neutralidade, o cumprimento dessa função.33

O sistema de ensino é ainda mais eficiente no processo de reprodução da estrutura de distribuição do capital cultural entre as diferentes classes sociais à medida que o modelo de cultura que repassa é o mais semelhante ao da classe dominante e o modo de imposição é o mais próximo da maneira de inculcação familiar burguesa. A escola constitui-se, então, como instrumento de manutenção do status quo mais adequado quando a cultura instituída enquanto tal é a pertencente à classe dominante, a qual já é sedimentada no sujeito pela educação familiar antes de chegar ao sistema formal de educação, excluindo, assim, os que recebem outro tipo de educação familiar que é depositária de outra modalidade de bagagem cultural.

Pierre Bourdieu caracteriza, então, com lucidez, a prática do sistema de ensino que está a serviço do processo de reprodução cultural e reprodução social ao afirmar o seguinte:

Pela prática de uma pedagogia implícita que exige a familiaridade prévia com a cultura dominante e que procede pela técnica de familiarização insensível, um sistema de ensino propõe um tipo de informação e formação que constitui a condição do êxito da transmissão e da inculcação da cultura. Eximindo-se de oferecer a todos explicitamente o que exige de todos implicitamente, quer exigir de todos uniformemente o que não lhes foi dado, a saber, sobretudo a competência lingüística e cultural e a relação de intimidade com a cultura e com a linguagem, instrumentos que somente a educação familiar pode produzir quando transmite a cultura dominante. Em suma, uma instância oficialmente incumbida de assegurar a transmissão dos instrumentos de apropriação da cultura dominante que não se julga obrigada a transmitir metodicamente os instrumentos indispensáveis ao bom êxito de sua tarefa de transmissão, está destinada a transmitir por seus próprios meios, quer dizer, mediante a ação de educação contínua, difusa e implícita, que se exerce nas famílias cultivadas, os instrumentos necessários à recepção de sua mensagem e necessários para assegurar a essas classes o monopólio dos instrumentos de apropriação da cultura dominante, e, por esta via, o monopólio desta cultura.34

No âmbito das trocas sociais em que a literatura também está inserida, Bourdieu35 propõe uma análise sociológica ou socioanálise, cujo eixo está centrado nas relações entre o campo literário e outros campos, tais como o econômico, o político, e o religioso. Em vista disso, a proposta de análise permite compreender que o consumo do texto literário não depende somente do acesso material, mas também dos jogos de poder estabelecidos dentro do campo literário que, com suas regras próprias, determinam, por exemplo, o que é literário ou não literário, o que é tradicional ou vanguarda. O consumo de um desses tipos de texto implica situar o leitor numa determinada categoria, visto que cada tipo de texto requer o domínio de um código de decifração que é adquirido na educação familiar e na escolar. Sendo assim, a formação do leitor, numa sociedade estratificada como a atual, depende do entrelaçamento dos inúmeros campos de poder que irão configurar a possibilidade ou a impossibilidade da realização desse processo.

Michael Apple36 salienta que a forma adotada pela escola para manutenção da reprodução social manifesta-se por meio de sua organização curricular, a qual explicita um discurso de neutralidade, mas estabelece como parâmetro para todas as camadas sociais o modelo de sociedade da classe dominante. Desse modo, a escola apresenta por detrás desse discurso um currículo oculto, que prega a homogeneização como ponto central para a negação das diferentes vozes que constituem a diversidade social, promovendo, assim, a exclusão do aluno oriundo das camadas populares, de culturas distintas, ou seja, de todo aquele que não se enquadra no perfil determinado pelos padrões sociais vigentes.

A sociologia da leitura, portanto, tem seu trabalho voltado para a distribuição, a circulação e o consumo de livros, ou seja, para os aspectos externos da leitura. Tal abrangência possibilita examinar o papel social do autor, a história das obras junto aos distintos públicos, os processos de produção e popularização do livro, as políticas de leitura, as práticas individuais e coletivas de leitura e, principalmente, os modos de aproximação dos leitores ao livro através dos mediadores sociais, como, por exemplo, a escola, a qual constitui o espaço social selecionado para a realização da pesquisa de campo, tendo em vista a importância e a visibilidade que apresenta enquanto mediador de leitura literária na sociedade brasileira. Além disso, a validade das respostas para as perguntas da investigação também depende da compreensão da interferência do contexto social na circulação da obra literária infantil.




  1   2   3


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal