1.º Colóquio Internacional sobre la Investigación de las Religiones de Antecedentes Africano en América



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1.º Colóquio Internacional sobre la Investigación de las Religiones de Antecedentes Africano en América

25 – 27 de Mayo del 2008

Instituto Cubano de Antropología

Casa de África - Oficina del Historiador de la Ciudad de la Habana

Ano Velho - Ano Novo

Cerimônia Religiosa em um Centro de Umbanda.

Mari de Nasaré Baiocchi – Universidade Federal de Goiás – Brasil

maribaiocchi@cultura.com.br

Ponencia

Neste ensaio apresento o Centro Pai Jerômino e, principalmente a “CERIMÔNIA do ANO NOVO”. A Cerimônia, um rito de passagem, realiza-se anualmente.

Dois são os objetivos principais da pesquisa: Realização de uma documentação sobre a prática religiosa em terreiros de Umbanda no sentido de apreender o universo religioso e retomar a reflexão sobre o sincretismo.

O Centro Pai Jerônimo – Terreiro de Xangô, foi fundando oficialmente em 1973 1 sob a presidência do senhor Firmino Martins e dirigido por Dona Brasilina Caldas Martins, Mãe de Santo. Após seu falecimento em 1989, o Centro passa à sua filha Celene Martins, hoje Mãe de Santo.

Apesar do Centro Pai Jerônimo de Angola, praticar várias outras Cerimônias, optamos por esta, principalmente pela ampliação de suas representações na participação do ritual: Pretos Velhos, Oguns, Meninos, Cablocos, Baianos, Exus e Pombas-Giras.

Existem infinidades de crenças e representações simbólicas das religiões de tradição africana. A Umbanda no século XX expande-se no território nacional. Através da simbologia, nos terreiros, nos cânticos, nominação, ocupação espacial, revive a África. Por outro lado os “encantados” representam a ancestralidade e os heróis que os identificam nas cerimônias e rituais. Apresentam-se através dos médiuns e revivem os guardiões “guerreiros do bem” (Oguns), os “protetores crianças” (Meninos), os “ancestrais” (Pretos Velhos, pais fundadores).

Os “caboclos” prestam um tributo ao autoctone “índios” e a natureza, “os baianos” protegem as pessoas. Os Exus intermediários dos encantados, possuem grande poder. As Pombas-Giras são parceiras dos Exus. E, Oxalá, o criador de tudo, o acima de tudo. Senhor da natureza e da vida.

A Umbanda é uma religião nascida no Brasil e de tradição africana. No Estado de Goiás conta com centenas de Centros e membros. Os Centros reúnem-se sob a egide da Federação de Umbanda do Estado de Goiás – FUEGO.

Ressalto uma nova postura de pesquisadores e estudiosos, principalmente antropólogos, que procuram sobre novo prisma epistemológico reconhecer que na religiosidade praticada por grupos sociais distintos têm diferenças mais formais do que da própria essência. A crença em alguma divindade ou encantado, documentada em livros (O Ramo de Ouro: Frazer), obviamente, faz parte do universo cultural humano.


O SINCRETISMO COMO SISTEMA
O sincretismo, como fenômeno e processo já é antigo, haja vista na Etiópia (África), os sincretismos cristão-africano e afro-cristão contam com cerca de um milênio e meio de desenvolvimento, enquanto que no baixo curso do Congo, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe este processo durou cerca de cinco séculos e na região austral do continente um pouco mais de 300 anos.2

O sincretismo religioso portanto, é um processo, que se verifica à escala histórica universal. Se na África elementos do Islamismo. Cristianismo e Judaísmo se encontram com as religiões tradicionais, realizando o processo do sincretismo, aqui, no Brasil, as religiões tradicionais africanas (sincretizadas) repetem-no, porém, com o catolícismo romano e as religiões indígenas (se assim podemos afirma).

A discussão do sincretismo não é de exclusividade da antropologia brasileira embora marque, em geral, as primeiras publicações dessa ciência no Brasil. Em 1985, os soviéticos entraram na discussão apresentando análise sobre as religiões sincréticas no continente africano, notadamente, o sincretismo do Islão com as religiões tradicionais que se processou na Etiópia, Somália, África Ocidental, Nigéria Setentrional e Central e Mali.3

O sincretismo vai ser abordado como modo de reproduzir o histórico ao nível das relações sociais. O sincretismo será visto como um sistema que se estabelece, um corpo de ações variáveis, conscientes e inconscientes. (Baiocchi: 1990).4 Esta formulação faz parte de reflexões para compreender como se pratica o sincretismo e porque indivíduos de várias partes do mundo o elaboram de vários modos diferentes.

O “sincretismo” nome genérico, utilizado por vários autores no campo da antropologia no Brasil para designar o fenômeno religioso resultante do encontro das religiões trazidas inicialmente pelos escravos negros provenientes da África com o catolicismo oficial e, posteriormente, com o espiritismo segundo a modificação de Alan kardec, e ainda com as religiões indígenas. Sincretismo, nesta concepção, caracterizaria uma mistura de elementos culturais diversos que se puseram em contato ao longo de um processo histórico5 e/ou, para subsistir durante o período escravista os deuses negros foram designados a se dissimular por trás da figura de um santo ou virgem católica. Esse foi o ponto de partida do casamento entre o cristianismo e a religião africana...6

Deve-se a Nina Rodrigues7 os primeiros trabalhos em torno do “sincretismo”. Tendo levantado em sua época, toda uma discussão envolvendo intelectuais notáveis, Sílvio Romero, entre outros.

Após Nina Rodrigues, os estudos e polêmicas se estabelecem, Nunes Pereira8 nega o sincretismo como “deturpação das crenças ancestrais”.

O sincretismo passou pela concepção adotada pela “teoria do branqueamento” quanto Arthur Ramos9 vê o fenômeno como uma forma de “purificação gradativa” de elementos considerados inferiores até a ascenção às formas religiosas consideradas superiores.

Já Roger Bastide10 tenta explicar o sincretismo através da análise da estrutura da mentalidade do afro-brasileiro. Partindo Bastide das explicações de L. Lévy-Bruhl (princípio da participação), de Durkheim (princípio da classificação) e de M. Griaule (princípio da analogia), para o modo como o real é pensado e, como os três princípios constituem pontos de vistas complementares; acrescenta o do “corte” que tem um papel central. Para Bastide é no interior dos cortes que se exercem as participações e é entre esses cortes que se exercem as analogias e, a partir deste princípio para o negro, o catolicismo e a religião africana são correspondentes e verdadeiros em seus respectivos ritos. Bastide, apesar de manter o termo sincretismo em suas análises das religiões afro-brasileiras, não aceita a identificação ou assimilição de elementos católicos aos africanos.

A contribuição da Arthur Ramos11 nos estudos de sincretismo passa pela formulação do “sincretismo intertribal” e “sincretismo entre nações”, isto é, as nações africanas trocaram entre si, traços culturais. Contribui para esta assertiva o comportamento nos navios negreiros e mercados de escravos, em ambos, o colonizador e traficante fazia questão de quebrar os laços familiares separando pais, filhos, etc. A separação física das nações de origen levou ao encontro cultural – ao sincretismo no novo mundo.

No sincretismo verificado no Brasil não houve um amálgama de símbolos nem de dinâmica litúrgica e ritual entre a religião afro-brasileira e a religião católica. O que carateriza a aproximação entre essas religiões é um processo histórico que reflete a luta dos africanos para manterem sua liberdade e independência, “desde então travou-se uma luta de símbolos no âmbito do catolicismo nesse contexto, e que resultou no que poderíamos chamar de uma africanização da religião católica que se produz no Brasil e nas Américas. No Brasil essa luta foi caracterizada inicialmente nas instituições que chamamos de Congadas ou Congado, que são formas afro-brasileiras de dramatizar e relembrar a ancestralidade africana originária do Imperio do Congo por ocasião das festas em homenagem a São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aparecida, Santa Efigênia e outros santos que contextualmente são caracterizados e identificados como ancestrais da comunidade negra.
CERIMÔNIA DO ANO NOVO
É um ritual de passagem que promove a mudança de um ano para outro, conferindo novas atribuições, direitos e graças (dádivas). Existem representações simbólicas (vestimentas, alimentos, etc.) com significados especiais. A dimensão simbólica não está imediatamente vinculada a função social. Reafirmam-se valores, a sacralidade.

A Cerimônia do Ano Novo é realizada pelo Centro Pai Jerônimo – Terreiro de Xangô no dia 31 de dezembro de cada ano.

Realiza-se a Cerimônia em uma chácara.12 Dona Brasilina com 46 anos de atividade religiosa assim se expressa sobre a escolha do local: “as forças das águas e da mata são mais fortes do no terreiro, porque ali estão reunidos as forças. As forças das águas, os orixás das águas, os caboclos, juntos a força é maior. O trabalho é mais forte. Caminha mais depressa. Força do ar, da terra e matas, das águas. Tudo junto quebra todas as barreiras, abre os caminhos para um Ano Novo”. A noção de “força vital” (Munanga; 1986)13 é evocada.

A Cerimônia de Ano Novo, realiza-se em espaço aberto, onde os elementos naturais – terra, ar, água, vegetal, fogo – dão a “força” e/ou “passam a força” para os participantes: mortais (médiuns e visitantes) e espíritos (entidades, guias, mentores, orixás). Os mortais – médiuns, sendo chamados de “cavalo” ou “burro” recebem os “do espaço”; Pretos Velhos, Caboclos, Baianos, Cangaceiros, Meninos, Exús e Pombas-Giras. Os Oguns (Megê e Merê) e Iemanjá, respectivamente “povo das matas” e “povo das águas”, comparecem para proteger a todos e possibilitar bom trabalho. Iniciam-se os trabalhos com Ogum (linha das batalhas) e terminam com Janaina (linha das águas).

Em confraternização convivem por sete horas, os “encantados” e os “mortais”.

A particiapação dos “mortais” nos cinco anos apresentou uma média de 50 a 80 pessoas entre adultos e crianças.

A Mãe de Santo assim explicava a importância da Cerimônia de Ano Novo: “Nessa Cerimônia as pessoas têm oportunidade de participar com mais “intensidade da corrente”, “da força”. Os adultos conversam e comunicam-se com todas as entidades, já as crianças somente com os “meninos”, após o que saem e aguardam o término da festa em outro lugar. Alegria e, concentração, acompanham a Cerimônia para não “quebrar a corrente, a força”. Cada Pessoa quer oportunidade para “agradecer” e “abrir caminhos”.

A Cerimônia representa um momento de oferendas para os “encantados”, de agradecimentos e pedidos, ao mesmo tempo “arremate” de todos os trabalhos realizados durante o ano.




1 Entrevista realizada em 1974 com a Mãe de Santo Brasilina Caldas Martins.

2 As Religiões Sincréticas. Cap. V. In “As religiões da África – Tradicionais e Sincréticas” – Ed. Progresso, Moscovo. 1987.

3 Ibid.

4 Comunicação apresentada na XVII Reunião da Associação Brasileira de Antropologia – ABA. GT Religião. Florianópolis – SC (abril/1990) e 42.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC (Julho/1990).

5 Dicionário de Ciências Sociais. Fundação Getúlio Vargas – MEC, 1986 - RJ

6 Roger Bastide. As Religiões Africanas no Brasil. V. 2. 2.ª ed. 1971. São Paulo.

7 Nina Rodrigues. In Os Africanos no Brasil.

8 Nunes Pereira, A. In. A Casa das Minas. Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia, 1947. RJ.

9 Arthur Ramos O Negro na Civilização Brasileira e outras obras.

10 Roger Bastide. Op. Cit.

11 Arthur Ramos, In. Introdução a Antropologia Brasileira.

12 A Cahácara situa-se a 22 Km do centro da capital, Goiania, no municipio de Hidrolândia, a margen esquerda do córrego ou rio das Pedras.

13 Munanga Kabengele. Os Bassanga de Shaba – Um grupo étnico do Zaire. Ensaio de Antropologia Geral. FFLCH – USP, 1986.


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