1-Introdução



Baixar 114.75 Kb.
Encontro27.04.2018
Tamanho114.75 Kb.

Bakunin e a gênese histórica da idéia de divindade na consciência dos Homens

Bakunin and the historical genesis of the idea of divinity in the consciousness of Men



Jonathan Fonseca dos S. Nascimento1

Resumo: Este trabalho tem o objetivo de analisar a maneira como o pensador revolucionário russo M. Bakunin (1814-1876) explica a gênese da ideia de divindade na consciência dos homens, o modo do qual o autor, diz que teria surgido as tradições religiosas na remota antiguidade, em que contexto isto teria ocorrido, quais as condições em que o homem se encontrava e os desdobramentos históricos dessas crenças. Analisando os costumes dos antigos. O núcleo deste trabalho serão duas de suas obras de sua maturidade, O princípio do Estado e Deus e o Estado.

Palavras-chave: Ateísmo, sentimento religioso, antiteologismo

1- O ateísmo militante de Bakunin, o Antiteologismo

O objetivo deste trabalho é compreender a gênese da ideia de divindade juntamente com outros pontos importantes do pensamento de Bakunin. Trataremos do início de toda religiosidade nestas duas obras de maturidade de Bakunin; Deus e o Estado e O princípio do Estado. Compreender a concepção de que Bakunin tem desta gênese da religião, e o papel que ela desempenhou históricamente, veremos que tem uma visão bem particular, ao mesmo tempo que bem atual. Uma das características do pensamento bakuniniano no tema religiosidade, é o humanismo2 e o evolucionismo3 expresos em sua obra, que no pensamento bakuniniano tomam uma nova forma. Toda evolução, segundo Bakunin, têm este por um de seus princípios: “todo desenvolvimento implica necessariamente uma negação da base ou ponto de partida”4. Isto deve ser levado a cabo, também com relação à evolução da Humanidade. Por conseguinte o desenvolvimento humano é a negação progressiva de sua animalidade, pela constituição de sua Humanidade. A religião, no primeiro momento de consciência dos homens na História, na mais remota antiguidade teria contribuido para o desenvolvimento das abstrações do homem, ou seja, teria sido necessária, assim como hoje, seguindo a evolução humana, se faz necessária a sua abolição. Esta concepção de evolução está vinculada ao ateísmo de Bakunin, que pode ser considerado um ateísmo militante. O seu ateísmo recebeu o nome, do próprio Bakunin, de antiteologismo, e pode ser distinguido de outros ateus, inclusive de Marx, pela sua visão de necessidade de se combater as religiões, ao passo que Marx achava que elas sucumbiriam por si só com a abolição das classes. Esta é uma das razões das quais, o grande estudioso argentino do ateismo e do anarquismo Angel Cappelletti chama o ateísmo militante de Bakunin (antiteologismo) de “anti-teísmo”, tal como quando diz:

“Puede definirse simplemente la actitud de Marx, a este respecto, como 'ateísmo'; la de Bakunin, como 'antiteísmo' o, según él mismo dice, 'antiteologismo'(...) En la práctica, Bakunin cree em la necessidad de una lucha directa contra la religion, anque no limite la lucha, como habian hecho los jóvenes hegelianos, a la mera critica teologica. Marx, em cambio, no considera nunca la lucha antirreligiosa sea un propósito substancial del movimiento revolucionário[...]”5.

Por este motivo que Bakunin, em sua “fase anarquista” passa a ver como indissolúvel ao combate contra o poder do Estado, também o combate a religião. Ela se situa nesse meio termo, entre o que Bakunin chama de o período da escravidão animal do homem, e a “realização da liberdade humana”. Isso, para Bakunin, é próprio da evolução natural da Humanidade. Então significa que a religião serviu a muito tempo, e na modernidade mais do que nunca serve de entrave para que as pessoas possam constituir a sua Humanidade, assim como um suporte indispensável para a dominação. Confiram as palavras de Bakunin sobre a evolução Humana:

“[...]ele partiu da escravidão animal e atravessando a escravidão divina, termo transitório entre sua animalidade e sua Humanidade, caminha hoje rumo à conquista e à realização da liberdade humana.”6.

Esse fato também foi observado por Henri Arvon, quando afirma sobre o ateísmo bakuniniano: “Entre a escravatura animal dos homens, que se situa no início da história, e a humanidade que é o seu objetivo, intercala-se a escravatura divina (…). Ora é tanto mais urgente pôr um final na escravatura divina quanto esta justifica e condiona todas as outras escravaturas”7. É por isso que, de acordo com Bakunin, o homem criou Deus quando a pouco havia emergido de seu estado de animalidade, por um ato de fantasia da mente, que Bakunin chamou de “ato de loucura”, pois, a religião surge do absurdo, e toda a sua base é sob o absurdo8. Deste modo a origem da ideia de divindade, como constataremos, é um fruto do medo e temor e da “fantasia crédula do homem” que não alcançou o controle de suas capacidades intelectuais. Ou seja, um resultado das abstrações da mente humana. O que é um pouco inusitado talvez, é a importância que Bakunin atribui a religião, por mais que ela seja um veneno, para ele, ela foi necessária e contribuiu para o desenvolvimento do homem primitivo, com relação a capacidade de abstração. A ideia de divindade, foi o primeiro modo do homem, buscar explicar a realidade, foi um primeiro despertar da consciência, ainda que uma “consciência sem-razão” e suas abstrações influenciaram ainda em demasia a Filosofia em seu surgimento9, e desde o seu período clássico a Metafísica, que para Bakunin era como que uma irmã da Teologia. Foi um ato inevitável, na mais remota antiguidade os homens criarem para si deuses e nas palavras do autor, até mesmo “inelutável”. Ou seja, foi um fato inelutável e natural, porém, segundo Bakunin, isso não significa que seja algo que sempre será necessário. Esta é a razão que se faz necessário a sua abolição, pois, ela hoje serve de entrave para que o homem possa constituir a sua humanidade, enquanto estiver sob o jugo da escravidão divina. Como afirma Arvon, no capítulo “a religião, um mal necessário”:

“Pela religião, o homem animal, ao sair da bestialidade, dá um primeiro passo para a humanidade, mas, enquanto continuar religioso, nunca atingirá a sua finalidade, porque toda religião o condena ao absurdo e, desviando-lhe a direcção dos passos, fá-lo procurar o divino, e não o humano.”10.

Do mesmo jeito que antes foi inelutável e necessário, na modernidade, passa a ser necessário e natural, que o homem se livre dessas ideias, que para Bakunin são como um veneno. Porém, religião, é algo totalmente anti-humano e anti-natural, para o mesmo. Desta forma, já que todo desenvolvimento implica numa negação da base ou ponto de partida; o desenvolvimento natural do Mundo e da Humanidade implica naturalmente em pôr abaixo à essas fantasias da mente humana. A religião hoje nos parece algo natural, porque esta loucura, como frisa o filósofo, tornou-se a alma e o pensamento da sociedade11. E somos envenenados com isso desde os nossos primeiros momentos de vida. Por isso, nos é importante saber a origem de toda a religiosidade, já que é tão importante combatê-la quanto o é o combate do Estado, para que saibamos dos pontos comuns entre elas. Se não em nada adianta fazer a crítica, seja lá a que religião for, pelo que expressa Bakunin, além de que, se não temos essa compreensão acabamos a cair mergulhados no sentimento religioso novamente, que como dissemos se tornou a alma da sociedade, assim como, afirma Bakunin, em Federalismo, Socialismo e Antiteologismo:

“É-nos indispensável perceber isto por nós mesmos, pois de nada adiantará dizermo-nos ateus; enquanto não tivermos compreendido a gênese histórica, natural, da ideia de Deus na sociedade humana, nós nos deixaremos sempre mais dominar pelos clamores desta consciência universal da qual ainda não compreendemos o segredo, isto é, a razão natural, e, à vista da fraqueza natural do indivíduo contra o meio social que o cerca, correremos semre o risco de recair, cedo ou tarde, na escravidão do absurdo religioso”12.

De acordo com Bakunin, a religião é um suporte indispensável para a dominação, tanto por uum aspecto podemos dizer psicológico, pois age na consciência dos homens, também pelo aspecto político, já que a igreja/religião e o Estado estiveram intimamente relacionados, assim também os líderes religiosos são possuem uma posição social elevada. A parte as teocracias, onde os sacerdotes seja lá de qual deus, são os soberanos. É sobre a origem da ideia de divindade, o que Bakunin também chama de as “ ideias divinas”, justamente o ponto que seguiremos, vislumbrando a análise da qual Bakunin faz com relação ao estado em que possivelmente os homens se encontravam ao criarem para si deuses.

2- A origem do sentimento religioso, a criação das divindades

Bakunin trata em seus escritos da maturidade, da origem de diversas religiões porque para ele é fundamental falarmos das religiões, para que também possamos tratar de questões filosóficas e política13. Neste trablho iremos analisar as obras Deus e o Estado e O Princípio do Estado que estão entre os seus principais escritos do autor sobre esse tema, e onde o seu trabalho filosófico e antropológico é profundo. Para começamos a falar a respeito da teoria de Bakunin no que diz respeito às divindades, logo temos contato com o termo “sentimento religioso”. O começo do “sentimento religioso”, é o que Bakunin está querendo dizer como origem das tradições religiosas, e o “sentimento religioso” é o instinto que há contido em todos os animais, que no homem devido as suas faculdades culminou na criação da ideia de divindade, que é o próprio teísmo, e também na criação das religiões. Bakunin em seus escritos trata tanto do politeísmo de diversas nações antigas, e trata do monoteísmo judaico, cristão, islãmico, fala sobre as filosofias espiritualistas, mas como foi dito aqui trataremos da origem de todo teísmo, ou seja, no caso o politeísmo, e quais foram as condições em que os homens criaram a ideia de divindade. Bakunin cita boa parte das crenças religiosas, ou pelo menos as que tiveram ou têm mais adeptos no mundo, ou as que outrora foram religiões oficiais. O que mais para frente veremos que o autor vai dizer que foram os diferentes graus de politeísmo, depois o desenvolvimento do monoteísmo até chegarmos no Cristianismo. Logo percebemos que é melhor tratar do tema com uma metodologia ordenando as teorias desde a origem do sentimento religioso e os seus desdobramentos. O que no autor não está tão sistematicamente organizado, sendo assim começaremos falando sobre o que Bakunin diz que são os erros e loucuras mais antigas entre os homens, no que diz respeito as religiosidades. Notamos em seus escritos que nos é elementar que busquemos compreender como teria se dado a origem das crenças religiosas, para que possamos fazer qualquer tipo de inferência relevante sobre a sociedade ou a política, e não só isso, mas que para que não mergulhemos, ou tenhamos “recaídas” neste chamado sentimento religioso. É por esta razão que esta seção tratará das religiões antigas, o que também é chamado de politeísmo. O que está em questão é a origem de todo teísmo e de todas as religiões, como lemos nas palavras de Bakunin:

“[..]devemos nos esforçar para compreender a gênese histórica, a sucessão das causas que desenvolveram e produziram a ideia de Deus na consciência dos homens[...]”14.

É de grande relevância para que passemos a saber como o “sentimento religioso” penetrou na vida social e nos hábitos das pessoas, segundo Bakunin. Vemos em, O princípio do Estado e em Deus e o Estado que o homem criou a religião ainda em suas condições primitivas, quando ainda não haviam desenvolvido as suas capacidades intelectuais, não conhecia nem a si mesmo, o funcionamento do seu corpo, e nem o funcionamento da natureza. Esse fator de ignorância, que o homem primitivo acarretava na remota antiguidade, somado com o seu medo e relação de dependência da natureza, foram as causas que impulsionaram este homem primitivo, a cometer este “ato de loucura”, a divinização de si mesmo, divinização de certos aspectos da humanidade ou da natureza pela fantasia da mente pouco desenvolvida dos homens, que não tinham domínio sobre as suas faculdades intelectuais. Foi inocente, pois, o homem não sabia que as divindades eram fantasias da mente humana, e que ela viria a ser uma das principais causas de sua escravidão, a causa da imolação diária da humanidade. Este “ato de loucura” para ele se torna uma “loucura histórica e coletiva” porque Bakunin, nos faz perceber que foi nesse ato absurdo que nasce a ideia de divindade, e depois, esta loucura passa a ser compartilhada pela tribo, por isso loucura coletiva. Esta mesma loucura que passa a ser compartilhada pela tribo, depois passa a se tornar tradição, é por isso que loucura coletiva e histórica, depois as suas origens se perderam, e a tradição passa a ser vista como sagrada. De acordo com Bakunin, toda a religião tem a origem no absurdo e na iniquidade, e surgiu, com o homem mais próximo de sua animalidade do que de sua humanidade. A seguir, a firmação de Bakunin, de que a humanidade partilhou por muito tempo dos mesmos instintos animais, de “seus primos próximos” os gorilas, como exemplo, dessas “representações instintivas” do homem primitivo, ao afirmar:

“[...]O homem primitivo, o selvagem, pouco diferente do gorila, partilhou, sem dúvida, durante muito tempo de todas as sensações e representações instintivas do gorila[...]”15.

Para compreendermos mais sobre essa origem, é necessário que compreendamos o fator de animalidade que está presente nesta origem do sentimento religioso. Assim como a religião nasce do temor, e da relação de dependência da Natureza16 ou do que podemos chamar de Infinito17.O politeísmo é a religião do medo, segundo Bakunin, como afirma Arvon, em: “O homem acredita depender de Deus uma vez que depende da Natureza. Como explicar de outra maneira o politeísmo?”18. Este medo instintivo, de acordo com Bakunin, está presente em todos os animais, com isso, o autor afirma que todos os animais na natureza tem um certo potencial religioso, mas que só no homem chegou a culminar na religião. Este temor da Natureza está presente em todos os animais, mas o que difere o homem dos outros animais, é justamente o grau de reflexão, da qual ele é capaz, ele tem a capacidade de fazerem abstrações mais profundas, e generalizá-las, assim como de serem reflexivos sobre esse medo. Vejamos as palavras do filósofo:

“Como os animais de todas as outras espécies não possuem essa força de abstração e de generalização da qual só o homem é dotado, eles não figuravam essa totalidade dos seres que denominamos natureza, mas a sentem e têm medo dela. Esse é o verdadeiro começo do sentimento religioso”19.

Desse modo, o homem projetou esse medo e dependência da Natureza de um modo cada vez mais humano, e como dissemos isso teria ocorrido na mais remota antiguidade, quando o homem a pouco havia emergido de sua completa animalidade. Só que no homem esse medo provavelmente seria ainda mais intenso, diz Arvon sobre esse tocante, já que o homem é mais frágil que muitos outros animais, e a sua infância dura por mais tempo. Esse medo e o potencial reflexivo existe em todos os animais, só que no homem ele se manifesta em um grau muito mais elevado, e se distingue no homem pela sua capacidade de linguagem e de generalização abstrata. Dessa forma, esse temor, dependência da Natureza, juntamente com a profundidade de sua reflexão, e sua capacidade de nomear as coisas, foram as causas definitivas da consolidação e desenvolvimento das tradições religiosas, como aforma Arvon: “Não é a reflexão, mas o grau da reflexão, ou melhor, a capacidade de a fixar e de a conceber como um pensamento abstracto, de a generalizar dando-lhe um nome”20. Esse temor à Natureza ou ao Infinito é um terror instintivo, e foi por ele, nestas condições que dissemos que o homem engendrou a a origem do “sentimento religioso”.Esta análise também foi feita por Angel Cappelletti, com relação ao temor instintivo orgirinário da religião em sua obra Bakunin y el Socialismo Libertário, quando diz:

“Pero em los animales superiores, más se acercan al hombre por su organización, se manifiesta, sobre todo, em el miedo pánico que se apodera de ellos frente a ciertos fenómenos naturales (terremotos, tempestades, bestias feroces, etc). El miedo domina la vida animal y por eso todos los animales que viven em libertad son feroces: viven en un miedo incesante y penetrados siempre por un sentimiento de peligro, lo cual equivale a decir que viven bajo una influencia omnipotente que los rodea y envuelve por doquier. Este temor es el inicio de la religion”21.

Não sabiam nada sobre o funcionamento de seus corpos e da natureza. São nessas condições que Bakunin diz que surge o sentimento religioso, ou seja o princípios das tradições religiosas, que nasceram no homem primitivo e que persiste até os dias de hoje. Desse modo, em princípio, no seu estado primitivo, tudo o que lhe parecia apavorante e inexplicável, neles mesmo, ou na natureza, os homens nomearam deues, assim como afirma Arvon sobre o que Bakunin diz sobre esta etapa da História: “Na origem existem tantas divindades quanto os fenômenos naturais inexplicáveis e por isto mesmo inquietante”22. Eis um dos pontos em que, o ateísmo de Bakunin se aproxima do ateismo de Feuerbach, pois para ambos os deuses são criações da mente humana, de uma fantasia, de fundo plenamente antropomórfico, que por fim o homem acaba por adorar a si mesmo.

Em Deus e o Estado, assim como em O princípio do Estado, Bakunin deixa claro que as religiões e os deuses no geral, todos são frutos da “fantasia crédula” do homem, um fruto da abstração, da consciência pouco desenvolvida do homem primitivo, ainda “sem-razão” como diz Arvon. Este é um dos trechos onde Bakunin nos mostra que o homem foi artífices das divindades:

“Todas as religiões com seus deuses, seus semideuses e seus profetas, seus messias e seus santos, foram criadas pela fantasia crédula do homem, que ainda não alcançou o pleno desenvolvimento e a plena posse de suas faculdades intelectuais[...]23.

Em razão disso, por ingenuidade, por um ato inocente e loucura, o homem passou a adorar a si mesmo, e é isso o que toda religião busca, se não é o que busca na verdade é o que ela sempre encontra somente, para Bakunin. Ele adora a si mesmo, de modo que atribui a seus deuses as características humanas, só que divinizadas e imortalizadas, que na verdade é ele mesmo. Sendo assim, ao adorar a si mesmo, só o que conseguir encontrar é o completo vazio, fruto de sua abstração. Essa abstração e vazio, que faz parte de toda religião, é uma das características inerentes à todas elas que é a negação da humanidade, pelo respeito e exaltação da divindade. Bakunin afirma ao se adorar qualquer divindade, na verdade as pessoas estão justamente adorando si mesmos em seu deus. Como o filósofo afirma em O princípio do Estado:

“Quando o espírito humano criou Deus, procedeu com a mais completa ingenuidade; não possuía ainda nenhum conhecimento dele mesmo e, sem duvidar de maneira nenhuma, pôde adorar-se em seu Deus-Nada24.

Realmente, segundo Bakunin, foram nessas condições em que o homem se encontrava quando criou o seu primeiro deus, esse foi o ato de surgimento da “loucura coletiva” que é a religião, e o que Bakunin chama de “sentimento religioso”. Esse tema é discorrido com profundidade principalmente nesses dois textos de 1871, esses homens primitivos ainda muito próximos de sua inocência animal criaram deus. O estudioso de ateísmo e materialismo, P. Piva confirma à isso e sobre as abstrações que Bakunin diz que são a origem das religiões, dizendo: “Tanto o deus da religião quanto o da teologia eram considerados por ele um ‘absurdo’, uma ‘miragem’, um ‘veneno’, em outros termos, um ser imaginário criado pela fantasia especulativa do homem”25. Segundo Bakunin, o homem a princípio chamou de deus tudo aquilo que parecia temeroso na natureza; trovão, vento, tempestade. Após passar alguns séculos, o homem procurava deus em todos os lugares, e disse ter encontrado nas obras de pau e pedra que eles mesmos foram os artífices, citado por Bakunin como a época do fetichismo, da qual desenvolveremos mais a frente. Assim depois de terem criado esses objetos se ajoelharam diante deles e voluntariamente se declararam seus escravos e os adoraram como os seus criadores.

O que nos é importante saber é que, para Bakunin o homem criou deus por um ato de abstração, ou melhor, na marcha do desenvolvimento de sua capacidade intelectual e do aprimoramento da capacidade de abstração, em determinado tempo na História, em um tempo remoto na Antiguidade, o homem criou deus. Os deuses foram criados na mais remota antiguidade, na medida em que os homens cada vez mais aumentavam a sua capacidade de abstração. Foi assim que o “sentimento religioso” que origina a ideia de divindade, começa o que será uma série de evoluções das “ideias divinas”. Assim quando descobriam certo aspecto da natureza, fossem no interior deles próprios, ou nos fenômenos naturais, algo que parecesse pavoroso ou inexplicável, eles atribuíam isso aos seus deuses. Os deuses, segundo Bakunin, ou a própria ideia de deus, foram os próprios homens que criaram a partir de suas abstrações. Agora vamos ver um pouco de como Bakunin analisa a relação entre religião, História e Filosofia, ou, podemos dizer a religião na “História Universal” e na “História do pensamento”.

3- A religião na História e no desenvolvimento da Filosofia

Neste ponto nos é importante saber os desdobramentos históricos, o impacto e conseqüências que essa ideia de divindade trouxe para as sociedades, para o desenvolvimento do “pensamento universal”, assim como as influências que as “ideias divinas” exercem até hoje. Todo o pensamento humano esteve submetido a esse temor e sentimento religioso como seu ponto de partida, isto não foi diferente com os grandes gênios da antiguidade, tanto poetas, filósofos e reformadores religiosos. As religiões foram evoluindo, conforma a capacidade de abstração do homem evoluía, se transformando, e ainda se transformam conforme o contexto histórico do homem. Deste modo, esse temor instintivo originário das religiões esteve presente no homem nas mais distintas partes do mundo, apesar que, para Bakunin, isso longe de provar a veracidade das “ideias divinas”, só faz mostrar o quanto o homem partilha dos mesmos sentimentos em diferentes partes do mundo, em diferentes tempos históricos e sob os mais distintos climas. Isto está presente no pensamento bakuniniano, assim como Capi Vidal identificou em seu artigo “Actualidad del Ateísmo de Bakunin”, onde nos diz:

“Naturalmente, no es necesario aclarar el hecho de que los dioses (todos los dioses y el conjunto de las creencias sobrenaturales) son fantasías del ser humano, ficciones de origen socio-histórico. Ese es un punto de partida necesario, desde luego, pero la afirmación de Bakunin amplia una filosofía vital sobre la existencia humana refiriéndose a la dignidad del hombre, a la posibilidad de construir su libertad y desarrollar su racionalidad (inherente a su personalidad)”26.

Apesar desse sentimento religioso ter surgido na mais remota Antiguidade e perdurar até os días de hoje, na obra Deus e o Estado, Bakunin afirma que esse sentimento não se instaurou na humanidade com tanta facilidade. Esse sentimento religioso a partir de determinado tempo na antiguidade se tornou algo fortíssimo e entretanto, para Bakunin por esse sentimento ser antinatural não se instaurou assim tão facilmente. Foram necessários muitos séculos e mais muitos séculos para cada uma de suas transformações e mais muitos séculos até a transformação dessa ideia de Deus na ideia do Deus monoteísta. Vejamos as palavras de Bakunin:

“[...]não se realizou de uma só vez. Foram necessários não sei quantos séculos para desenvolver e para fazer penetrar essa crença nos hábitos sociais dos homens[...]”27.

Bakunin chamava as religiões orientais, que seriam as religiões mais antigas de as religiões “panteístas do Oriente”, e diz que essas religiões eram religiões de cunho naturalista. Essas são consideradas as primeiras religiões, e foram as religiões que influenciaram o desenvolvimento do politeísmo, inclusive do politeísmo grego, de acordo com Bakunin, graças ao seu contato com o Oriente. Bakunin ao afirmar isso, estava se baseando no que os estudos da época apontavam, o que não foi desmentido ainda hoje, com relação a influência das religiões do Oriente para a formação da religião grega. Sobre isto, nos diz Cappelletti:

Basándose em los relatos de los viajeros que desde el siglo XVIII recorriron las islas de Oceanía y em los de aquellos que em siglo XIX exploraron Africa, conjectura Bakunin que 'el fetichismo debe ser la primera religión, la de los pueblos salvajes que han alejado poco del estado natural'”28.

Na obra Deus e o Estado o autor deixa claro que a Grécia pelo contato com o Oriente criou o seu mundo divino. Para Bakunin antes da história política, a religiosidade já se teria desenvolvido prodigiosamente, assim os pensadores gregos (que para Bakunin foram os maiores pensadores da História) encontraram esse mundo divino já instaurado e o usaram como ponto de partida. Assim os gregos fizeram diversas especulações, e moldaram em suas mentes a idéia pura de um deus uno, indivisível, eterno e puro espírito (absolutamente espiritualista).

Diz Bakunin em Deus e o Estado:

“Que um gênio sublime, como o divino Platão, tenha podido estar absolutamente convencido da realidade da ideia divina, isso demonstra o quanto é contagiosa, o quanto é todo-poderosa, sobre os maiores espíritos929.

Os gregos antigos quando iniciaram a Filosofia já tinham esse mundo divino dado, assim o tomaram como o maior foco de suas especulações. Nesse período ainda era impossível até mesmo para os maiores pensadores desconfiar que os próprios homens que criaram deus. E todos os grandes filósofos que vieram depois de Platão e Aristóteles, esforçaram-se para sempre deixar o que Bakunin chama de ideias celestes, que são as ideias transcendentes e divinas no trono mais alto possível. Diz Bakunin que até mesmo quem ele considera como maior gênio filosófico desde os pilares da Filosofia, e para Bakunin é Hegel também se contamina com essas ideias, ao ponto de tentar restituir o lugar mais alto a essas “ideias divinas”. E para Bakunin, mesmo ao tentar fazer isso, com o teor de sua Filosofia “que matou definitivamente o Bom Deus”30. O autor, nos diz alguns filósofos, entre os mais ilustres, que acha importante mencionar, para ilustrar do que está tratando, que é justamente que esses grandes gênios da humanidade, tiveram como ponto de partida as “ideias divinas” e muitos deles também a tomaram como a finalidade última, essa especulação sobre o divino. Entre eles:

“Grandes filósofos; desde Heráclito e Platão até Descartes, Spinoza, Leibniz, Kant, Fichte, Schelling e Hegel, sem falar dos filósofos hindus”31.

Todos esses filósofos, segundo Bakunin, escreveram “densas brochuras” tentando resolver o “mistério de Deus” e todos só conseguiram deixar mais inexplicável do era o problema antes deles. Descobriram grandes conhecimentos, segundo o filósofo, e falaram “passagens belíssimas”, porém tudo permeado pelo sentimento religioso. Eles foram os grandes gênios da humanidade, do pensamento universal, mas para Bakunin eles teriam sido muito mais úteis se não estivessem contaminados pelo sentimento religioso. Bakunin, não despreza a genialidade de todos esses, pensadores e reformadores, mas percebe que eles tiveram como ponto de partida para seus pensamentos e ações a ideia de divindade, o que implica na afirmação da incapacidade de homem para a justiça, para a liberdade, fazendo dele um nada. Na verdade como veremos, nem mesmo esses considerados grandes gênios da humanidade, não poderiam desconfiar que foi o espírito humano quem criou deus, e dessa forma, a religião passou a fazer uma parte integrante, se não a mais importante da moralidade e conduta. O que certamente sempre acarreta algumas implicações efetivas no plano político e social.

4- A religião na vida social da Antiguidade.

Algumas das consequências políticas e sociais que Bakunin diz sobre os deuses da antiguidade, é que inclusive o Deus dos judeus, e todos os deuses de qualquer mitologia na antiguidade em diversos locais do mundo, eram deuses exclusivamente nacionais, e que ao adorá-los adorava-se o Estado e a moral ensinada por suas religiões eram a salvação, grandeza e glória do Estado. Aí também está se tratando do que era liberdade e moralidade para os antigos e para as suas religiões politeístas. Vamos para uma citação de cada um desses dois textos que tratam desse assunto. Nos aponta Bakunin, em O princípio do Estado:

“[...]deveríamos renunciar a este sonho magnífico para cair na estreiteza moral da Antiguidade, que ignora até mesmo o nome Humanidade, a ponto que todos os deuses foram deuses exclusivamente nacionais, acessíveis unicamente aos cultos privilegiados[...]”32.

Sobre este mesmo assunto em Deus e o Estado:

“Os deuses pagãos — e aí está o seu caráter principal — eram antes de tudo, deuses exclusivamente nacionais”33.



Como a moral das religiões antigas eram a de adoração e exaltação do Estado, logo se via que todos deviam se abdicar de sua liberdade individual, e se sacrificar pela coletividade. Vemos o inverso no cristianismo, e esse é o principal erro dos sistemas morais ensinados durante a História, segundo Bakunin é o de terem sido uma moral exclusivamente “socialista” ou de terem sido uma moral exclusivamente individualista. Moral entendendo literalmente como regras de convivência social. Nas religiões antigas do Oriente, no Egito, a dos fenícios e a dos assírios o deus sempre já se parecia bem terrível, déspota e esmagador dos homens. Estas são as primeiras religiões, e que depois influenciaram, como dissemos, o culto dos gregos. Isto vem para confirmar a ideia que o politeísmo é a religião do medo, como esclarece Arvon, ao afirma: “[...] o fetichismo deve ter sido a primeira religião, a de todas as hordas selvagens, ou sejam, as que menos afastadas do estado de Natureza. O fetichismo não é mais do que a religião do medo”34. Bakunin chama essas religiões antigas do Oriente de religiões “panteístas do Oriente”, e a esse Panteísmo é que vem em sua sucessão o Politeísmo. O Panteísmo dessas religiões diz respeito as religiões naturais da Antiguidade.

Nestes dois textos Bakunin faz uma análise dos deuses dessas religiões antigas, nos dois textos inclusive em algum dado momento toma a Grécia antiga como exemplo para explicar melhor sobre o que é esse deus. Como já foi dito de suas características e seus atributos, por séculos e séculos se permaneceu nesse Politeísmo de caráter moral unicamente “socialista”, e que seu culto simbolizava o culto do Estado. Essa adoração nas religiões antigas sempre apoiou a moral do Estado, que é uma transformação da moral divina. Para falar novamente da Grécia antiga:

“O Olimpo, imagem da federação das cidades gregas, é um tipo de República fracamente governada pelo pai dos deuses, Júpiter, que, ele próprio obedece os decretos do destino”35.

Esta citação também diz respeito a que todas as cidades gregas tinham e se orgulhavam em ter o seu próprio deus-tutelar, e seu próprio culto ao deus padroeiro da sua Cidade-Estado. Os deuses das mitologias criadas pelos poetas, afirma o autor não tinham um caráter absoluto, muito mais se assemelhavam ao caráter mortal, pelo fato de que eles representam apenas uma parte do homem ou da natureza. Sendo assim, nessa pluralidade de deuses cada deus tinha um caráter próprio e eles se completavam.



5- Antiguidade e Universalidade não atestam nenhuma verdade

Dessa forma se torna evidente que um dos argumentos para defender a ideia de divindade é dizer que é algo tão antigo e que todos os povos ao longo da História, inclusive nos dias de hoje é quase que universalmente aceita essa ideia, ou seja, estamos tratando do argumento de que a antiguidade e a universalidade de uma crença são, como diz Bakunin as provas mais “vitoriosas” da verdade de uma crença, seja religiosa ou científica. É por isso que, Bakunin, se utiliza da mais rigorosa lógica e da experiência histórica para expor os seus propósitos, tal como observou Vidal em seu artigo “Actualidad del ateismo de Bakunin” quando afirma: El anarquismo y el ateísmo de Bakunin se producen, con lógica, de forma conjunta; se trata de la renuncia a toda teología religiosa y política, a la Iglesia y al Estado, ambas instituciones centralistas y trascendentes”36. Depois de muito tempo, aponta Bakunin, que esses teóricos da ideia de deus abandonaram a demonstração teórica da existência de deus e passaram a só se apegar à prática. Não se dúvida mais da existência de deus, e para Bakunin esses teóricos erram e tratam a isso como algo que é atestado a sua verdade por ser universalmente aceito e por ser algo muito antigo e que todas as nações da Terra acreditaram e acreditam. Eis os critérios que passaram a se utilizar para tornar a ideia de deus uma verdade inquestionável. Diz Bakunin em Deus e o Estado:

“para esses pensadores e para a sua lógica, pois o consentimento geral, a adoção universal e antiguidade de uma ideia foram sempre consideradas como a prova mais vitoriosa de sua verdade”37.

Depois do que vimos, que para Bakunin, esses argumentos não eram nada e nada válidos, pelo contrário se tornam até mais dúbio. De acordo com Bakunin, quanto mais antiga é uma crença, isso não faz com que ele seja mais inquestionável, isso faz com que ela seja mais dúbia, isso confirmado por Bakunin diz, nos seguintes termos: “Bem, a religião é uma loucura coletiva, tanto mais poderosa por ser tradicional e porque sua origem perde-se na antiguidade mais remota”. (BAKUNIN, 2011, p. 107). Os religiosos se usam desses argumentos para dizerem que a totalidade dos homens não poderia se enganar em sua convicção. Só que para Bakunin, isso só mostra o aspecto semelhante que há na natureza humana em qualquer local do mundo e em toda a história, não que eles descobriram uma verdade indubitável. Além de que esses argumentos tentam fazer com que essa ideia de divindade seja vista como algo que está inerentemente em nossa natureza, e que por estes motivos não devemos nem sequer duvidar, até porque todos os povos e em todos os tempos ate hoje se acreditou na ideia de divindade. Assim como era de se esperar que as pouquíssimas exceções, são as pessoas que duvidam dessa crença, ou que não dão assentimento ao absurdo divino. Essas pessoas sempre foram tidas como anomalias, monstros cruéis e sempre foram maltratadas e isoladas da sociedade. O que é confirmado por Alex Bonomo, quando diz de Bakunin as seguintes palavras:

“Ele acreditava que toda a História do homem é seu afastamento progressivo da animalidade pela criação da Humanidade: a partir daí, a antiguidade das ideias, longe de mostrar o seu acerto, a torna, pelo contrário, suspeita.”38.

Essas “provas” dos religiosos são demasiado insuficientes perante a Ciência e a Lógica, para se dar assentimento a qualquer crença ou religiosidade, deve se abdicar da Ciência, da Lógica e da Razão, ainda mais do que isso, para Bakunin a ideia de divindade implica na abdicação da razão e justiça humanas. Porém os religiosos e filósofos espiritualistas e idealistas, apresentam essas “provas” como provas suficientes e irrecusáveis de verdade. Muitos filósofos ilustres também querem dar suporte a essa ideia, embora seja sobre tal maneira evidente que a antiguidade e universalidade de uma crença não atestam a sua veracidade. Bakunin nos aponta um dos maiores erros históricos que no passado era tratado da mesma forma, que parecia ser uma verdade tão antiga, tão universal, logo tão verdadeira, o que não tem essa consequência lógica, veja as palavras de Bakunin:

“Até o século de Galileu e de Copérnico, todo mundo acreditava que o Sol girava em torno da Terra. Todo mundo não estava errado? O que há de mais antigo e universal do que a escravidão?”39.

Pela mesma linha de raciocínio, Bakunin nos leva a ver que em todos os povos e em todos os tempos sempre houve trabalhos forçados, escravidão e coisas do gênero. E nem por isso se deve falar, para Bakunin com certeza não, que isso seja algo natural no homem. Assim como as teorias astronômicas geocêntricas que duraram desde a Antiguidade até o período medieval e o mesmo serve para a antiguidade da ideia e crença em deus. Essa Física e Astronomia já ultrapassada por ser amplamente equivocada, por mais que seja bem estruturada, que seja antiga e tenha o consentimento universal, não fará com que os fatos objetivos se alterem, o Sol não se moveram e erro não se converterá em verdade. Essas teorias acarretam muitos erros principalmente os pontos mais fundamentais e todos tinham a convicção de que era a Suprema Verdade.

Assim como em todos os tempos até os dias de hoje, todos os tipos de religiosos e filósofos espiritualistas, sejam pagãos de qualquer tempo e em qualquer região do mundo, sejam nas religiões judaico-cristãs, sejam os filósofos espiritualistas tem a convicção na existência de Deus, tem a convicção de veracidade da ideia de divindade. E, segundo Bakunin, eles têm cometido e repetido o mesmo erro historicamente. Dessa forma, chegamos no ponto que nos torna pertinente tratarmos de algumas características que podemos dizer, que segundo Bakunin, fazem parte do que seria a essência de toda religião. Pois, todas elas estiveram mergulhadas em algumas ideias que são intrínsecas as crenças em divindades.



6- Conclusão: a essência de toda religião

Por conseguinte, entramos na parte em que Bakunin diz o que é, segundo ele, a essência de toda e qualquer religião. Uma das características que Bakunin observa como existente em todas as religiões, essa que é tão própria de todas as religiões é que todas as religiões são sanguinárias, e tem por culto principal o sacrifício, toda religião quer sacrificar a humanidade para cessar o furor da divindade ou para simplesmente agradá-la. De uma maneira mais clara, os homens sempre foram e ainda são assim, quanto mais eles respeitam o divino, tanto mais eles desprezam a humanidade e o que há de humano nela, conforme Bakunin:

“Todas as religiões são cruéis, todas são fundadas sobre o sangue, visto que todas repousam principalmente sobre a ideia de sacrifício, isto é, Sobre a imolação perpétua da humanidade à insaciável vingança da divindade.”40.

Para qualquer religião a natureza do homem é miserável. Enquanto que para os materialistas com a concepção próxima a de Bakunin, o homem é um produto do meio em que ele vive. Dessa forma, a religião nos ensina uma moral anti-humana, que Bakunin diz que é uma moral divina, onde sacrifica-se o homem em prol da divindade, onde o homem não é nada e a divindade é tudo, onde só ensina-se que a divindade tem todos os atributos positivos em grau infinito e o homem será sempre o seu inverso mais radical. Deste modo, Deus será sempre o senhor absoluto, e o homem o eterno escravo, uma servidão semelhante à um cão na presença de seu dono. Assim como quanto mais se espera em qualquer divindade o paraíso, ou morada celeste, mais os homens fazem a Terra ser um inferno, como observou Arvon:

“[...]donde resulta que Deus é o espoliador absoluto, e que sendo o antropomorfismo a própria essência de toda religião, o Céu, mansão dos deuses imortais, não passa de um espelho infiel que voltaa enviar ao homem crente a sua própria imagem invertida e aumentada(...). Ao efectuar esta tranformação, ela altera radicalmente a natureza destes poderes e destas qualidades, falseia-os, corrompe-os, ao dar-lhes um sentido diametralmente oposto ao seu primitivo sentido(...). É assim que o respeito do céu se traduz em desprezo pela Terra e a adoração da divindade em descrédito pela humanidade”41.

Isso é o que qualquer religião faz, tanto as antigas, quanto depois as religiões monoteístas Vejamos duas citações da obra Deus e o Estado que tratam desse tema; ao se adorar o divino sempre se desprezará o humano.

Mais para frente, após falar de ciência e de autoridade, voltando às religiões:

“Eis-nos de volta a essência de toda religião, isto é, a difamação da humanidade pela maior glória da divindade”42.

Quando deus surge, ele deve ser tudo, deve ser adorado, ele deve ser a perfeição, o amor, a justiça, a bondade, entre outros atributos em grau infinito. E o homem deve ser o difamado, o iníquo, o incapaz, entre outras coisas. Bakunin nos diz essas coisas com clareza, nas obras Deus e o Estado e O princípio do Estado. Após ter criado a divindade, o homem nessa passar de séculos a colocou como criadora, legisladora, a razão infinita e absoluta, e o próprio homem se autoproclamou nada. A religião é loucura coletiva, para Bakunin. Tudo o que os homens religiosos e filósofos espiritualistas dizem que é Deus o homem será sempre o inverso mais radical, assim como para tudo que dizem sobre os Céus, o Paraíso, as recompensas celestes sempre será da mesma forma na Terra o seu inverso mais radical. Essas são algumas de suas consequências práticas que são fatais e inevitáveis:

“É o que denominamos de ficções religiosas; a cada uma dessas ficções corresponde, sabemo-lo muito bem, alguma realidade monstruosa; assim o amor celeste nunca teve outro efeito senão o ódio terrestre; a bondade divina nunca produziu senão o mal, e a liberdade de Deus significou a escravidão aqui embaixo”43.



Ao compreendermos essas informações que estão nestes textos, vemos que Bakunin deixa claro que a divindade, que desde os homens primitivos se adoraram, e que também a que as religiões cultuam nos dias de hoje não passa da adoração do seu EU exaltado, divinizado e imortalizado. Atribuído à essa divindade todas as qualidades positivas, Bondade, Justiça, Sabedoria, Poder, não só simplesmente isso, mas todas essas características em grau infinito. Entre esses deuses um representava o que é bondade, outro o que é maldade, e assim por diante, ou seja, não havia a contradição lógica que só existe no Deus das religiões judaico-cristãs que é a de ser um Deus que é Bondade e Maldade, Beleza e Feiúra, que é o Ódio e o Amor. Os deuses dos poetas ainda não eram a negação absoluta do real, mas sim segundo Bakunin, o seu exagero fantástico. Para uma consideração decisiva sobre o tema das religiões antigas e da essência das religiões, vamos para mais uma citação de O princípio do Estado que mostra como a idéia de divindade a adoração a divindade, tem por consequência a negação do que há de humano em si e nas demais pessoas. Afirma o autor:

“Após ter divinizado o seu próprio EU nesse estado de abstração ou de vazio absoluto, ajoelhou-se diante dele, adorou-o e proclamou-o a causa e autor de todas as coisas; foi o começo da Teologia.” 44.

Em seus argumentos, Bakunin, tenta o mais severamente respeitar e se utilizar da Lógica, sendo assim é fora de dúvida que as consequências lógicas e as consequências de qualquer religiosidade são estas. O sacrifício da humanidade, a abdicação da Ciência e da Lógica são algumas da principais consequências práticas e lógicas destas crenças, que na verdade são todas nocivas e são a própria degradação e sacrifício da humanidade, é a redução a completo absurdo, próprio de toda religião. O “veneno” e imolação” da humanidade sãp próprios da religião, Arvon nos diz com relação a visão que Bakunin tinha sobre o amor divino, que para o autor seria uma das principais causas de nossa escravatura. Tal como quando afirma Arvon:

“O amor verdadeiro, real, expressão de uma necessidade mútua e igual, não pode existir senão entre iguais. O amor do superior pela inferior é o esmagamento, a opressão, o desprezo (…) uma grandeza fundada no rebaixamento de outrem. O amor do inferior pelo superior é a humilhação, os terrores e as esperanças de um escravo que espera de seu senhor tanto a desgraça como a felicidade.

Tal é a natureza do chamado amor de Deus pelos homens e dos homens por Deus. É o despotismo de um e a escravatura de outros.”45.

Todos os líderes religiosos, também os líderes políticos, e pior ainda, para Bakunin, se for uma mesma liderança religiosa e política, todos esses sacrificam (imolam) o povo. Tanto em um sentido literal, de matar e com a violência, quanto em um sentido “figurado” tirando a liberdade, o privando do conhecimento científico, entre outras coisas, forçando ao máximo as pessoas a se manterem em uma animalidade sem saída.

Tendo entendido qua a crença em divindades e em qualquer tipo de religiosidade, tem por consequência inevitável afirmar a completa incapacidade do homem em ele próprio poder guiar-se, a incapacidade completa também de conhecer e compreender as coisas, incapacidade de tomar decisões justas, de agir com justiça. Ao aderirmos e ao darmos acepção a qualquer crença, como já dito, para Bakunin necessariamente a pessoa se abdicar da ciência, razão, lógica e justiça. Bakunin afirma que somente os partidários da escravatura é que dão concessão a qualquer tipo de religião, os que se preocupam com Deus e o divino, sempre só ficarão somente na preocupação do Deus, das coisas abstratas e eternas, e nunca se voltarão para a realidade e o convívio social e natural que está ao seu redor.

Referências bibliográficas

Mikhail Bakunin:

BAKUNIN, M. Deus e o Estado. Tradução: Plínio Coelho. São Paulo: Hedra, 2011.

BAKUNIN, M. O Princípio do Estado e outros ensaios. Tradução: Plínio Coelho. São Paulo: Hedra, 2008.

BAKUNIN, M. Socialismo, Federalismo e Antiteologismo. Tradução: União Popular Anarquista (UNIPA). Rio de Janeiro, 2012. In: http://uniaoanarquista.files.wordpress.com/2012/09/sc3a9rie_bafsat.pdf



Bibliografia Crítica:

ARVON, H. Bakunin: ou a vida contra a ciência. Tradução Franco de Sousa. Lisboa: Ed. Estudio cor, 1971.

CAPPELLETTI, A. Bakunin y el Socialismo Libertário. Cidade do México: Leega/Minerva, 1986.

Bibliografia Complementar:

BONOMO, A. “Introdução”, in: Deus e o Estado. São Paulo, 2008.



VIDAL, C. “Actualidad del Ateísmo de Bakunin”. In: http://reflexionesdesdeanarres.blogspot.com.es/2012/10/actualidad-del-ateismo-de-bakunin.html.

PIVA, P. J. L. Ateísmo e Revolta: Os manuscritos do padre Jean Meslier. Editora Alameda. São Paulo, 2006



1 Graduando em Filosofia ds Universidade São Judas Tadeu. Orientador: Prof. Dr. Paulo Jonas de Lima Piva. Email: pjlpiva@hotmail.com

2 Sob notável influência de Feurbach

3 Sob notável influência de Darwin

4 BAKUNIN, 2011, p. 38. Parte importante para todo o pensamento de Bakunin, pois, esta convicção que tinha com relação a transformação e progressiva evolução, tem implicações fundamentais para seu pensamento anti-religioso, político, e até mesmo educacional. Esse tipo de implicação, para Bakunin, é inerente no funcionamento do mundo, também do corpo humano e da vida social.

5 CAPPELLETTI, 1886, p. 180-1

6 BAKUNIN, 2011, p. 50

7 ARVON, 1971, p. 98-9

8 Ver seção 2

9 Ver seção 3

10 ARVON, 1971, p. 173

11 Ver seção 6

12 BAKUNIN, UNIPA, 2012, p. 41

13 BAKUNIN, 2008, p. 42-3

14 BAKUNIN, 2011, p. 52

15 BAKUNIN, 2008, p. 44

16 Termo empregado por Arvon

17 Termo empregado por Cappelletti

18 ARVON, 1971, p. 97

19 BAKUNIN, 2008, p. 43

20 ARVON, 1971, p. 181

21 CAPPELLETTI, 1986, p. 187

22 ARVON, 1971, p. 97

23 BAKUNIN, 2011, p. 53

24 BAKUNIN, 2008, p. 47

25 PIVA, 2006, p.20

26 VIDAL, “Actualidad del ateismo de Bakunin”, 2012

27 BAKUNIN, 2011, p. 106

28 CAPPELLETTI, 1986, p. 188

29 BAKUNIN, 2011, p. 110-11

30 BAKUNIN, 2011, p. 111

31 BAKUNIN, 2011, p. 43

32 BAKUNIN, 2008, p. 29

33 BAKUNIN, 2011, p. 108

34 ARVON, 1971, p. 180

35 BAKUNIN, 2008, p. 49

36 “Actualidad del ateismo de Bakunin”

37 BAKUNIN, 2011, p. 48

38 BONOMO,“Introdução”, in: Deus e o Estado. 2008, p. 15

39 BAKUNIN, 2011, p. 49

40 BAKUNIN, 2011, p. 56

41 ARVON, 1971, p. 173-4

42 BAKUNIN, 2011, p. 69

43 BAKUNIN, 2008, p. 48

44 BAKUNIN, 2008, p. 47

45 ARVON, 1971, p. 177



Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal