1 José roberto garcia (Uniso) resumo



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A Escola Profissional Mixta de Sorocaba

Uma contribuição para o estudo de seu alunado e grade curricular(1929-1942)1
José roberto garcia (Uniso)
RESUMO
Esta pesquisa tem como objetivo fornecer subsídios para entender a origem, a instalação, a evolução e as mudanças ocorridas no ensino de uma das oito escolas profissionais mais antigas do estado de São Paulo - a Escola Profissional Mixta de Sorocaba – durante o período de 1929-1942. O trabalho não pretendeu estudar exaustivamente a instituição, limitando-se a priorizar dois aspectos: (a) identificar a origem do alunado da instituição, e, o perfil ocupacional dos responsáveis pelos alunos; e, (b) caracterizar os cursos realizados no período escolhido. A periodização estipulada – 1929-1942 - abrange desde o início de funcionamento da instituição e se estende até o surgimento, e a equiparação da instituição, de uma nova organização para o ensino profissional no país, organização essa promovida pelo Decreto-Lei Federal número 4.073, de 30/01/1942, que promulgou a “Lei Orgânica do Ensino Industrial”, buscando-se entender que trabalhador estava sendo formado pela instituição. Para o desenvolvimento deste trabalho foram efetuadas consultas periódicas aos arquivos históricos existentes no acervo disponibilizado pelo Centro de Memória da instituição. Dentre os documentos pesquisados destacam-se os diários oficiais; os livros de registros de matrículas; os boletins; os livros dos diplomados.
Palavras-Chaves
Ensino técnico – Sorocaba (SP). Ensino profissional – Sorocaba (SP).


ABSTRACT

This research has the objective to provide information to understand the origin, the installation, the evolution and the changes occurred in the teaching in one of eight oldest professional schools in São Paulo state – The Professional Mixta School of Sorocaba – during the period 1929 – 1942. This work didn’t intend to study exhaustively the institution, limited in prior two aspects: (a) identify the origin of the student and the occupational profile of the responsible for the students; (b) characterize the lessons during the chosen period. The chosen date – 1929-1942 – include since it begun of working of the school and go on until it emerge, and the equalization of the institution, a brand new organization to the professional instruction in the country, organization promoted by Decree-Federal Law Nr. 4.073 of 30/01/1942, that confirm the “Industrial Teach Organic Law”, figuring out how to understand the method that the worker was being degreed by the institution. For the development of this work periodic consults were made to the historic files supplied by the Memory Center of the institution. Among the researched documents stand out the official diary; registration book, school report; book of the degreed.


Key Words
Technical Teaching – Sorocaba (SP). Professional Teaching – Sorocaba (SP).


  1. Introdução

A proposta de fornecer subsídios para entender a origem, a instalação, a evolução e as mudanças ocorridas no ensino de uma das oito escolas profissionais mais antigas do estado de São Paulo - a Escola Profissional Mixta de Sorocaba – durante o período de 1929-1942, aconteceu através de buscas e análises nos documentos existentes no muito bem elaborado Centro de Memória, detentor e guardião do ensino ministrado pela instituição. Neste sentido, o Centro de Memória tem passado por constantes atualizações, e assim deve acontecer sempre que for necessário, em função do surgimento e descoberta de novos documentos que a ele são anexados.


As análises em diários oficiais forneceram informações sobre os decretos que permitiram a instalação e as mudanças de denominações e de endereços da instituição; em livros de registros de matrículas foram encontrados dados referentes à data de nascimento do aluno, ao curso em que está ingressando, à profissão e nacionalidade do responsável, ao endereço de residência, ao turno do curso escolhido. Os boletins contêm os dados dos alunos, notas, faltas, disciplinas, número e data de matrícula, e, no curso de Ferroviários os pagamentos efetuados pela Estrada de Ferro Sorocabana, que permitiram elaborar a grade curricular dos cursos. Dados sobre a data da diplomação, o curso concluído e a média final foram extraídos dos livros dos diplomados. A pesquisa, nos livros de visitas dos inspetores e dos movimentos mensais, pode contribuir para identificar o pensamento dos gestores da escola, visto que os dados constantes desses documentos são enviados aos organismos estaduais responsáveis pela instituição e pelo ensino nela praticado.
Jornais da época, que forneceram algumas informações e curiosidades, anais da Câmara de Vereadores, almanaques e livros históricos, podem retratar os esforços empreendidos pelos políticos, alguns favoráveis e outros contrários, à instalação da instituição. Estes documentos foram pesquisados, entre outros locais, na Biblioteca Pública Municipal, na Biblioteca Pública Infantil Municipal, no Museu Histórico de Sorocaba, no Instituto Histórico e Geográfico de Sorocaba, e no Gabinete de Leitura Sorocabano.
Para efeitos da identificação da origem dos alunos, a cidade de Sorocaba foi analisada em função de cinco regiões, regiões essas que até os anos de 1950-1960 eram a principal referência dos moradores e dos visitantes: “Centro”, “Além Linha”, “Além Ponte”, “Cerrado”, “Pinheiros/Lageado”. Para aqueles alunos matriculados que não identificaram o endereço de procedência adotou-se a nomenclatura “Sem Declaração”. Com relação aos alunos oriundos de outras cidades, a origem está sendo identificada pelo nome da cidade onde residiam, e, a identificação da nacionalidade dos pais pelo nome do país de origem, dados esses existentes, também, no Livro Registro de Matrículas.
A periodização estipulada – 1929-1942 - abrange desde o início de funcionamento da instituição e se estende até o surgimento, e a equiparação da instituição, de uma nova organização para o ensino profissional no país, organização essa promovida pelo Decreto-Lei Federal número 4.073, de 30/01/1942, que promulgou a “Lei Orgânica do Ensino Industrial”.



  1. Sorocaba e a Escola Profissional Mixta

Percebe-se, pelos estudos realizados, que diversos membros da elite sorocabana tiveram participação na nascente indústria ferroviária e nas instituições que visavam a qualificação dos cidadãos através da instrução popular2, demonstrado o forte poderio político da época, período em que sempre existiam representantes da região no Senado; e, econômico, através de cafeicultores, citricultores, comerciantes e industriais conhecidos nacionalmente. Ressalta-se que este poderio está expresso em 1929, ano da instalação da escola, através da política, inclusive com Julio Prestes então governador do Estado; da economia, sendo Sorocaba o segundo maior centro industrial do Estado, atrás somente da Capital; e, da densidade demográfica, sendo a 5ª cidade mais populosa do Estado. Com este quadro, a instalação da escola parece compor um modelo que deveria ser implementado em locais previamente estabelecidos e com objetivo muito bem delineado, ou seja, escolas de nível secundário, que funcionariam no período diurno, para a minoria, e outras, diurnas e noturnas, para os filhos dos trabalhadores. Assim, a instalação acontece no momento em que se consolida uma nova proposta de qualificação, baseada na especialização do trabalhador em uma única operação, na sua moralização e ajuste à sociedade de classes, e, em cursos que pudessem fornecer, em curto espaço de tempo, mão-de-obra preparada às indústrias. Observa-se, ainda, a grande importância da instituição para a região, e, para esse modelo de ensino, pelo funcionamento de uma estação de rádio – em 20/04/1930 foi realizada a primeira transmissão de que se tem notícia - que permitia a comunicação com os gestores do ensino no estado; pelo Gabinete Dentário; a partir de 1934, pelo Dispensário de Puericultura; pelo Núcleo da Corporação Escolar de Bandeirantes; pelo internato instalado a partir de 1951; e, além destes, em 1939, pelos 716 alunos e alunas que representavam 10% das matrículas de todas as escolas profissionais existentes no país. Neste sentido, segundo Schwartzman (1984, p. 232), “em 1939 já havia cerca de sete mil alunos nestes estabelecimentos em todo o país.”


Escola Profissional Mixta de Sorocaba, denominação original da instituição, criada pela Lei nº 1860, de 30 de Dezembro de 1921, só foi instalada em 1929. Um dos possíveis motivos para a demora de quase oito anos da instalação da escola pode ser a reforma da instrução pública ocorrida em 1925. Neste sentido, segundo Moraes (1990, p. 226), “a omissão maior situava-se na não instalação das inúmeras escolas criadas. A lei ‘pecava por omissão’. Se o problema era de verbas, bastava adotar o regime norte-americano do ‘self-government’, ou seja, oficializar a seção industrial das escolas, ‘dando-lhes a amplitude precisa para vir a constituir a verdadeira fonte de receita necessária à manutenção da casa’.” De outra forma, o diálogo entre políticos e moradores locais, normalmente pautado por pedidos efetuados por estes, revela a forma como se fazia política: se efetivamente a decisão de instalar a escola foi motivada pelo diálogo, a política serviria para atender pedidos efetuados por eleitores, muitas vezes influentes em suas regiões; ou, se a decisão de instalação era fato consumado antes de o pedido ser feito, a política serviria para determinar o momento e a forma de como essa decisão seria transferida às populações. Em qualquer situação está implícita a necessidade de dar maior visibilidade à obra e ao autor da mesma.
A instituição teve ao longo de sua existência várias denominações diferentes, chegando, inclusive, a perder o nome de seu patrono. Neste aspecto, a supressão do nome Fernando Prestes, assim como o da praça matriz da cidade, está ligada com a revolução de 30 e a necessidade dos novos governantes em aniquilar politicamente grupos que possuíssem respaldo popular e que pudessem atrapalhar os novos projetos para a nação. Por outro lado, a expressão “Mixta” trazida pela instituição durante muitos anos, como parte de seu nome, pode indicar a necessidade de transformação cultural exigida pela nova ordem capitalista. Neste sentido, mesmo considerando-se as razões de ordem cultural no que diz respeito às relações homem/mulher, pode-se entender que as inovações relacionadas à mulher, trazidas para o ensino profissional, visavam discipliná-la e prepará-la como mulher independente, operária e consumidora, em função de um novo modelo de trabalhador, e de mercado, que também estava sendo formado, trabalhador este que passaria, a partir daquele momento, a maior parte do seu tempo fora do lar. Para atingir tal objetivo, paradoxalmente, seria necessário manter regras culturais existentes, impedindo que alunos e alunas se relacionassem no interior da escola, mantendo, para isto, entradas ou prédios independentes. Assim, a instituição foi instalada na Rua Barão do Rio Branco, esquina com a Rua Álvaro Soares, ruas centrais da cidade, contendo dois andares e que anteriormente havia abrigado uma empresa beneficiadora de algodão, pertencente a Mateus Maylasky, e, posteriormente um hotel. A casa possuía duas entradas, sendo uma reservada ao setor masculino, pela Rua Barão do Rio Branco, e a outra, reservada ao setor feminino, pela Rua José Bonifácio, atrás da escola. Em 1930, a seção feminina foi transferida para a Rua Monsenhor João Soares, no “sobradão” do “Barão de Mogi Mirim enquanto a masculina permaneceu no prédio original.” (MORAES; ALVES, 2002, p. 150).



  1. A caracterização dos cursos e a grade curricular

Através das análises efetuadas, para os cursos noturnos masculinos e femininos, percebeu-se que as disciplinas teóricas não tinham avaliação alguma, sugerindo que as aulas eram estritamente práticas enfatizando à área de trabalho escolhida. Assim, nomes de disciplinas como “Prática”, “Oficina”, ou o próprio nome do curso, como “Desenho” ou “Plástica” recebiam avaliações. Mesmo para os cursos diurnos, as disciplinas oferecidas, como a Matemática, em substituição à Aritmética, Ginástica, Higiene e Geografia e História, entre outras, que só foram aparecer em 1935 ou depois, sugerem ser elas suporte ou apoio às disciplinas práticas. Quando comparadas às disciplinas oferecidas pelo, por exemplo, Liceu Sorocabano, escola também secundária, onde apareciam, 30 anos antes, Português e Latim, Francês e Inglês, Aritmética e Geometria, Álgebra e Trigonometria, História, Elementos de Ciências Naturais (Química, Física e História Natural), Escrituração Mercantil, Geografia e Cosmografia, Educação Moral e Cívica, compreendendo o estudo das Constituições Estadual e Federal, e Conhecimentos Práticos do Direito Pátrio, pode-se afirmar que o objetivo da Escola Profissional Mixta de Sorocaba era o de instruir os seus alunos, sem se preocupar com a formação integral. Neste sentido, o ensino ministrado convergia para uma das características marcantes da formação do trabalhador taylorista, qual seja, a separação entre a teoria e a prática. Percebeu-se, também, que no processo de ensino-aprendizagem a instituição fez uso das séries metódicas, fornecendo aos alunos folhas de instrução que continham etapas, modelos e medidas de como desenvolver as tarefas solicitadas.


As grades curriculares dos cursos estavam constituídas com as seguintes disciplinas:

Seção masculina
Curso: Ferroviário; Características do curso: segundo Weinstein (2000, p. 96), “o curso de quatro anos – dois anos de formação teórica e dois anos de aplicação prática do conhecimento – usava os recursos da Escola Profissional de Sorocaba e as oficinas da própria ferrovia.” O curso, segundo Laurindo (1961), foi criado pelo Decreto nº 6.537, em 04/07/1934; extinto pelo Decreto nº 18087, de 20/04/1948, ministrado no período diurno, constava de duas partes: (a) de preparação geral, a cargo da Escola Profissional ou do Núcleo do Ensino Profissional, e, (b) de formação profissional especializada, custeada pela Estrada de Ferro Sorocabana; as matérias de preparação geral eram: Português, Geografia e História do Brasil, Aritmética e Noções de Álgebra e Trigonometria, Elementos de Física e Mecânica, Educação Física; a formação profissional especializada constava de: Trabalhos práticos em oficinas de aprendizagem, e, Aulas técnicas especializadas. O custeio efetuado pela EFS era pago proporcionalmente aos dias freqüentados e ao desempenho efetuado, cujo valor base era específico para o ano do curso e crescente para os anos seguintes; o curso teve início em 1931, e seria, preferencialmente, para os filhos dos trabalhadores da EFS; Quantidade de alunos: 866; Quantidade de egressos: 134; Características dos alunos: média de idade de ingresso no 1º ano: 14,4; a menor idade registrada no 1º ano: 11 anos em 1932; a maior idade registrada de ingresso no 1º ano: 20 anos em 1931.


Disciplinas:

1º ano

2º ano

3º ano

4º ano

Oficina

Oficina

Oficina

Oficina

Português

Português

Português

Desenho

Aritmética

Aritmética

Matemática

Aula Técnica

Desenho

Desenho

Desenho

Organização Ferroviária

Aula Técnica

Aula Técnica

Aula Técnica

Higiene*

Ginástica*

Física Mecânica

Eletrotécnica







Ginástica*

Ginástica*










Higiene*




Fonte: Boletins dos alunos Abner Versolato (anos de 1935, 36, 37 e 38); Ady Pedrazzi (4º ano, 1935); Affonso Focaccio (anos de 1937, 38, 39 e 40); Almir Blazeck (4º ano, 1935); Antonio Jesus Kohler (3º ano, 1935); Archimedes Gardelli Lisboa (anos de 1936, 37, 38 e 39); Aristides Muraro (1º ano, 1939, 2º ano, 1940); Ary Franco (1º ano, 1934); Flávio Antunes Galvão (1º ano, 1934); Florzino de Oliveira (2º ano, 1934); João Praxedes de Sá (4º ano, 1935); Nelson Petrochi (1935, 36, 37 e 38); Paulo Paes de Almeida (1936, 37, 38 e 39); e, Livro de Médias. *A partir de 1935. Quadro preparado pelo autor.

Em 1934, no 2º ano, a disciplina “Desenho” está indicada como “Desenho Geométrico”; a partir de 1938 outras modificações foram percebidas: no 2º ano aparecem “Aritmética e Geometria” e “Técnicas Mecânicas” substituindo, respectivamente, “Aritmética” e “Aula Técnica”; no 3º ano aparece “Matemática” em substituição a “Aritmética”.



Curso: Vocacional; Características do curso: segundo Laurindo (1961), constituía-se em estágio preliminar diurno, com duração de 1 ano, para os candidatos às escolas profissionais secundárias; seu objetivo era o de encaminhar os alunos para o curso profissional que mais convinha às suas aptidões e dar maior desenvolvimento e solidez à cultura geral; o aluno, depois de um mês de observação, escolhia o ofício que desejava aprender, podendo no segundo semestre do ano letivo, por indicação do professor ou mestre, ou à vista das provas clínicas e antropométricas, mudar de ramo de trabalho; não havia exigência para idade máxima, diferentemente do curso Pré-Vocacional, cuja idade máxima para ingresso era de 14 anos; o curso foi iniciado em 1934, previsto pelo Código de Educação (Decreto nº 5.884, de 21/04/1933), e o Decreto nº 6.942, de 05/02/1935, normatizou-o; Quantidade de alunos: 877; Características dos alunos: média da idade inicial do ingressante: 13,2; a menor idade registrada: 9 anos em 1936; a maior idade encontrada foi: 33 anos, em 1937; Disciplinas oferecidas: Oficina, Português, Matemática, Geografia e História, Desenho e Plástica. A disciplina “Oficina” era composta por módulos bimestrais abrangidos, em 1934, por entalhação, ferraria, fundição; em 1935 e 36, era oferecido Tornearia, Ferraria e Fundição; a partir de 1937, Mecânica, Ferraria e Fundição; “Geografia e História” foi oferecida a partir de 1937.

Foram consultados os boletins de Alverico Castelhano (1937); Donato Hypólito (1938); Delmiro Oliveira Almeida (1936); Dorival Bonas (1935); Antonio Abud (1934); Aristides de Almeida (1936); Agostinho Ramos Videira (1936); Jacob Ebert Neto (1941).



Curso: Marcenaria; Características do curso: diurno; existente desde o início da instituição, com duração de 3 anos; Quantidade de alunos: 418; Quantidade de egressos: 38; Características dos alunos: média de idade do 1º ano – 14,8; menor idade (1º ano) – 10 anos, em 1929 e 1932, e, 11 anos em 1933; maior idade (1º ano) – 25 anos, em 1932.


Disciplinas:

1º ano

2º ano

3º ano

Oficina

Oficina

Oficina

Português

Português

Português

Matemática

Matemática

Matemática

Desenho

Desenho

Desenho

Plástica

Plástica

Técnicas**

Técnicas*

Técnicas**




Geografia e História*







Fonte: Boletins dos alunos Delmiro Oliveira Almeida (anos de 1937, 38, 39); Demerval Fogaça (anos de 1932, 32, 34); Donato Hypólito (anos de 1939, 40, 41); Abílio Rodrigues (anos de 1934, 35, 36); Edson Martins (1933, 34, 35); Carlos C’e (1º ano, 1936); Affonso Scarpa (1º ano, 1935); e, Livro de Médias. *Disciplinas oferecidas a partir de 1937; **Disciplinas oferecidas a partir de 1935. Quadro preparado pelo autor.

Curso: Mecânica; Características do curso: diurno; iniciado com a instalação da escola; duração de 3 anos; as empresas ferroviárias de São Paulo, segundo Weinstein(2000, p. 96), “eram as maiores empregadoras de mecânicos qualificados para serviços de operação e manutenção”; Quantidade de alunos: 795; Quantidade de egressos: 101; Características dos alunos: média de idade do 1º ano – 13,8; menor idade (1º ano) – 11 anos, em 1934; maior idade – 19 anos em 1935.

Disciplinas:

1º ano

2º ano

3º ano

Oficina

Oficina

Oficina

Português

Português

Português

Matemática

Matemática

Matemática

Desenho

Desenho

Desenho

Plástica

Plástica

Técnicas**

Geografia e História*

Técnicas**

Física Mecânica***

Técnicas

Física Mecânica

Plástica

Fonte: Boletins dos alunos Antímio de Moraes (1º ano, 1939); Antonio Abud (1º ano, 1936); Aristides de Almeida (anos de 1937, 38, 39); Armando Lungowitcz (3º ano, 1934); Armando Notari (2º ano, 1934, 3º ano, 1935); Eduardo Ferri (anos de 1940, 41 e 42); Ítalo Aldo Biagione (3º ano, 1936); Jamil José (1º ano, 1937); e, Livro de Médias. *Disciplina oferecida a partir de 1937; **Disciplinas oferecidas a partir de 1935, eliminadas a partir de 1937; ***Disciplina oferecida a partir de 1937. Quadro preparado pelo autor.
Curso: Cutalhe, Entalhação e Tornearia; Características do curso: diurno; oferecido somente em 1931, e, possivelmente, absorvido pelo curso de mecânica; duração de 3 anos; Quantidade de alunos: 63; Quantidade de egressos: 4; Característica dos alunos: média de idade: 13,7 anos; menor idade: 12 anos; maior idade: 21 anos; Disciplinas oferecidas: Oficina, Português, Aritmética, Desenho, Plástica e Técnicas.

Curso: Fundição e Ferraria; Características do curso: diurno; oferecido em 1931, 1932, 1933, e, possivelmente, absorvido pelo curso de mecânica; duração de 3 anos; iniciado em 1931; Quantidade de alunos: 198; Quantidade de egressos: 4; Característica dos alunos: média de idade: 14,1 anos; menor idade: 11 anos, em 1931, 1932 e 1933; maior idade: 22 anos, em 1931 e 1932; Disciplinas oferecidas: Oficina, Português, Aritmética, Desenho Geométrico, Plástica e Técnicas.

Curso: Química (Agrícola); Características do curso: diurno, oferecido em 1929,31 e 32; noturno, oferecido em 1929, 31, 32 e 33; Quantidade de alunos: 95; Quantidade de egressos: 9; Característica dos alunos: média de idade: 17,9 anos; menor idade: 12 anos, em 1931 nos períodos diurno e noturno; maior idade: 36 anos, em 1929 no período diurno; Disciplinas oferecidas: Não foram encontrados boletins dos alunos para a elaboração da grade curricular do curso, bem como, nos “Livro de Médias” pesquisados este curso não estava presente.

Curso: Aperfeiçoamento EFS – Estrada de Ferro Sorocabana; Características do curso: segundo Laurindo (1961, p. 144), as aulas dos cursos de aperfeiçoamento eram ministradas, no período noturno, das 19 as 21 horas e eram freqüentadas por operários de 18 a 50 anos; neste caso, o curso era destinado aos trabalhadores da ferrovia, com duração de 2 anos, tendo sido iniciado em 1931; segundo Cunha (2000, p. 79), o curso de aperfeiçoamento foi uma das novidades trazidas para as escolas de aprendizes artífices pelo regulamento de 1918, podendo nele matricular-se não só os operários que já se encontrassem no mercado de trabalho, mas, também, todos os maiores de 16 anos, isto é, os que não podiam ingressar nos cursos diurnos, por terem ultrapassado o limite de idade. Ainda segundo Cunha, o curso, quando de sua criação, era ministrado em apenas duas horas diárias e não apresentava um currículo escolar especial, podendo, porém, o diretor oferecer aos alunos, sempre que possível, um curso prático de tecnologia. Quantidade de alunos: 486; Quantidade de egressos: 76; Característica dos alunos: média de idade: 23 anos; menor idade: 11 anos, em 1935; maior idade: 50 anos, em 1940; Disciplinas oferecidas: Oficina, Português, Aritmética, Desenho Geométrico, porém, as notas eram controladas apenas para a disciplina “Oficina”.

Foram consultados os boletins de Aldo Tozzi (1936); Alfredo Ferreira Nobre (1934); Francisco Lofler Junior (1939); Francisco Lopes (1934); Jacob Ebert Filho (1939).



Curso: Matemática Aplicada; Características do curso: noturno; existente desde o início da instituição, com duração de 3 anos; Quantidade de alunos: 521; Quantidade de egressos: 19; Características dos alunos: média de idade do 1º ano: 16,4 anos; menor idade (1º ano): 12 anos, em 1936, 1937, 1939, 1940 e 1941; maior idade: 36 anos em 1936; Disciplinas oferecidas: 1º, 2º e 3º anos: até 1936 “Matemática”; a partir de 1937, “Oficina”; a partir de 1941, “Prática”.

Foram consultados os boletins de Alvoralino Teixeira (1937, 38, 39), Diogo Moncayo (1941, 42, 43), e Armando Lungowtcz (2º ano, 1935).



Curso: Desenho e Pintura; Características do curso: noturno; existente desde o início da instituição, duração de 3 anos; Quantidade de alunos: 564; Quantidade de egressos: 60; Características dos alunos: média de idade do 1º ano – 17 anos; menor idade (1º ano) – 11 anos, em 1929, 1932 e 1940; maior idade – 43 anos, em 1936; Disciplinas oferecidas nos 1º, 2º e 3º anos: até 1936, “Desenho”; a partir de 1937, “Oficina”; a partir de 1941, “Prática”.

Foram consultados os boletins de Domingos Bolzani (1937, 38, 39), Argemiro Rodrigues (1934, 35, 36), Arnaldo Faria (1937, 38, 39), Armido Ventrella (1º ano, 1934), e, Arnaldo de Almeida Ribeiro (3º ano, 1934).



Curso: Tecelagem; Características do curso: diurno, oferecido em 1931 e 32 (18 alunos); noturno, oferecido desde o início da instituição (319 alunos); com duração de 3 anos; Quantidade total de alunos: 337; Quantidade de egressos: 37; Características dos alunos: média de idade do 1º ano – 19,2; menor idade (1º ano) – 10 anos, em 1937; maior idade – 40 anos, em 1941; Disciplinas oferecidas nos 3 anos do curso noturno: “Oficina”.

Foram consultados os boletins de Agenor Oliveira (2º ano, 1934), Antenor Silva (1º ano, 1934), Aristides de Barros (1937, 38, 39), Carlos Athayde (2º ano, 1933, 3º ano, 1936); Ítalo Adami (1º ano, 1937 e 38, 2º em 1939 e 3º em 1940).



Curso: Plástica; utiliza elementos com características físicas, sensoriais e expressivas dos materiais, superfícies, volumes e espaços, para criar formas reais ou imaginarias do que há na natureza e na sociedade; articula-se com o curso de Desenho; Características do curso: noturno; existente desde o início da instituição, com duração de 3 anos; Quantidade de alunos: 261; Quantidade de egressos: 19; Características dos alunos: média de idade do 1º ano – 16,6 anos; menor idade (1º ano) – 11 anos, em 1940; maior idade – 29 anos, em 1934. Disciplinas oferecidas nos 3 anos do curso: “Plástica”.

Foram consultados os boletins de Hugo Brinelli (3º ano, 1934), Ângelo Ceilante (1935, 36, 37).



Seção feminina
As grades curriculares dos cursos femininos estavam constituídas com as seguintes disciplinas:

Curso: Vocacional; Características do curso: segundo Laurindo (1961), a aluna fazia estágios de duração idêntica, e rotativos, nas oficinas de costura, rendas e bordados, flores e chapéus, para a escolha da profissão, adquirindo ainda conhecimentos gerais nos diversos ramos, inclusive noções de economia doméstica. Com duração de 1 ano, diurno, iniciado em 1934; Quantidade de alunas: 456; Características das alunas: média da idade inicial do ingressante no 1º ano: 12,8; menor idade no 1º ano: 11; maior idade no 1º ano: 19; iniciado em 1934; Disciplinas oferecidas: Oficina, Plástica, Técnicas, Português, Matemática, Geografia e História, Desenho, Arte Culinária, Economia Doméstica, Serviços Domésticos e Puericultura e Higiene. As disciplinas “Oficina” e “Puericultura e Higiene” foram substituídas, a partir de 1938, por “Arte Culinária”, e, posteriormente por “Serviços Domésticos”; “Oficina” era composta por módulos bimestrais abrangidos por Bordados, Flores, Confecções e Costura; a disciplina “Geografia e História” passou a fazer parte do currículo em 1937.

Foram consultados os boletins de Alice de Paula (1934); Dayse Poldo (1938); Hilda Carolino (1936); Antonia Fernandez Garcia (1937); Alzira Góes (1938); Dayse Papst (1936); Diamantina Luz (1939); Eduvirges Raszl (1941); Íris Azzali (1936); Irka Piedade Rodrigues (1935); Irma Hansen (1937); Izabel Gutierres (1938); Jacira de Almeida (1937); Josephina Elias (1938); Julia Tayar (1938).



Curso: Rendas e Bordados; Características do curso: diurno; existiu desde o início da instituição até 1938; em 1932 foram oferecidos os cursos Rendas, Bordados e Flores, Flores e Costura, e, Flores; até 1938, Flores e Chapéus; a partir de 1939 foi oferecido o curso Bordados. O curso tinha a duração de 3 anos; Quantidade de alunas: 480; Quantidade de egressas: 79; Características dos alunos: média de idade do 1º ano: 14,9; menor idade no 1º ano: 11 anos; maior idade no 1º ano: 21 anos.

Disciplinas:

1º ano

2º ano

3º ano

Oficina

Oficina

Oficina

Português

Português

Português

Geografia e História

Matemática

Matemática

Matemática

Desenho

Desenho

Desenho

Economia Doméstica*

Puericultura e Higiene

Economia Doméstica*

Puericultura e Higiene

Técnicas

Puericultura e Higiene

Plástica

Química***

Técnicas**

Técnicas**

Práticas Costura***




Química***

Práticas Laboratório***




Práticas Laboratório***

Plástica****

Fonte: Boletins da aluna Aracy Silveira (3º ano, 1932); Dayse Papst (anos 1937, 1938, 1939); Dinorah Pereira (1938, 39, 40); Felícia Bálsamo (1º ano, 1937; 2º ano, 1938); Irka Piedade Rodrigues (1º ano, 1936); Irma Hansen (1º ano, 1938); Izabel Ferraz (3º ano, 1934); Izabel Rodrigues de Campos (2º ano, 1934, e 3º ano, 1935); Julia Francisa Benevides Romero (1º ano, 1941); Julia Tayar (1939, 1940, 1941); e Livro de Médias. As disciplinas “Geografia e História”, no 1º ano, e “Plástica”, no 2º ano, passaram a fazer parte dos currículos, respectivamente, em 1937 e em 1939; * foram substituídas, após 1938, por “Artes Domésticas” e, após 1940, por “Serviços Domésticos”; ** a partir de 1940; *** a partir de 1941; ****substituída, a partir de 1940, por “Técnicas”. Quadro elaborado pelo autor.

Curso: Confecção; Características do curso: diurno; duração de 3 anos; iniciado em 1931; os cursos foram oferecidos como Corte e Costura (1929), Confecção (1931, 32,33,34, 37 a 41); Quantidade de alunas: 551; Quantidade de egressas: 81; Características dos alunas: média de idade do 1º ano – 14,0; menor idade - 1º ano – 11 anos em 1932 e 1935; maior idade – 1º ano – 23 anos em 1932.

Disciplinas:

1º ano

2º ano

3º ano

Oficina

Oficina

Oficina

Português

Português

Português

Geografia e História

Matemática

Matemática

Matemática

Desenho

Desenho

Desenho

Economia Doméstica*

Puericultura e Higiene

Economia Doméstica*

Puericultura e Higiene

Plástica****

Puericultura e Higiene

Plástica

Química***

Técnicas**

Técnicas**

Práticas Laboratório***




Química***

Práticas Costura***




Práticas Laboratório***




Fonte: Boletins das alunas: Alice de Paula (anos 1935, 1936, 1937); Carlina Berti (3º ano, 1938); Dayse Poldo (1º ano, 1939, 2º ano, 1940); Diamantina Luz (1940, 41 e 42); Eduvirges Raszl (1º ano, 1942); Firmina Moraes (1º ano, 1935); Irene Tardeli (1940, 41 e 42); Íris Azzali (1937, 1938, 1939); Irka Piedade (1937,38, 39); Jacira Stersa (1936, 37 e 38); Josephina Elias (1º ano, 1939); Judith Fogaça de Almeida (1º ano, 1938); e Livro de Médias. As disciplinas “Geografia e História”, no 1º ano, e “Plástica”, no 2º ano, passaram a fazer parte dos currículos, respectivamente, em 1937 e em 1939; * foram substituídas, após 1938, por “Artes Domésticas” e, após 1940, por “Serviços Domésticos”; ** a partir de 1940; *** a partir de 1941; ****substituída, a partir de 1940, por “Técnicas”. Quadro elaborado pelo autor.

Curso: Corte e Confecção; Características do curso: diurno, matrículas existentes apenas nos anos de 1935 e 1936; noturno; iniciado em 1931; o curso Costura, somente noturno, foi oferecido entre 1929 e 1931; Confecção foi outro nome encontrado nos boletins; duração de 3 anos; Quantidade de alunas: 75 (diurno) e 879 (noturno); Quantidade de egressas: 102; Características dos alunas: média de idade - 1º ano – 16,3 anos; menor idade - 1º ano – 10 anos em 1932; maior idade – 1º ano – 28 anos em 1935; Disciplinas oferecidas nos 1º, 2º e 3º anos: até 1939, “Oficina”; a partir de 1940, “Prática”.

Foram consultados os boletins de Alice de Oliveira (2º ano, 1934, 3º ano, 1935); Dolores G. Ramos (1939, 40, 41), Felícia Bálsamo (1º ano, 1935; 2º ano, 1936 e 1937; 3º ano, 1938), Francisca de Camargo (1º ano, 1934); Izaltina Pietro (1939, 1940, 1941); Jacira de Almeida (1938, 1939, 1940) .




Curso: Pintura; Características do curso: noturno; oferecido a partir de 1931, com duração de 3 anos; Quantidade de alunas: 430; Quantidade de egressas: 54; Características dos alunas: média de idade - 1º ano – 16,3 anos; menor idade - 1º ano – 12 anos; maior idade - 1º ano – 31 em 1940; Disciplinas oferecidas 1º, 2º e 3º anos – até 1939, “Oficina”; a partir de 1940, “Prática”.

Foram consultados os boletins de Alzira Pasini (1936, 37, 38), Anita Amélia Betti (1º ano, 1937; 2º ano, 1938); Dionísia Costilhas (1940, 41, 42); Iris Azzali (1º ano, 1940); Irka Piedade Rodrigues (1º ano, 1940); Ivone Tunis (1º ano, 1939); Izabel Ferraz (1935, 36, 37); Jacira Stersa (1º e 2º anos, 1936 e 37).



Curso: Desenho; Características do curso: noturno; oferecido apenas em 1929, com duração de 3 anos; incorporado pelo curso “Pintura”; Quantidade de alunas: 40; Quantidade de egressas: 0;Características dos alunas: média de idade do 1º ano – 17,1; menor idade - 1º ano – 11; maior idade – 1º ano - 26; Disciplinas oferecidas 1º, 2º e 3º anos – até 1939, “Oficina”; a partir de 1940, “Prática”.

Foram consultados os boletins de Dolores G. Ramos (1939, 40, 41), Felícia Bálsamo (1935 – 1º ano, 36 – 2º ano, 37 – 2º ano, 38 – 3º ano); Francisca de Camargo (1934 - 1º ano).



Curso: Bordados; Características do curso: Diurno, oferecido a partir de 1939, com duração de 3 anos; e, noturno, oferecido a partir de 1941; Quantidade de alunas: 84; Quantidade de egressas: 0; Características das alunas: média de idade do 1º ano – 15,1; menor idade – 1º ano – 12 anos em 1941 no curso noturno; maior idade – 1º ano – 22 anos em 1941 no curso noturno; Disciplinas oferecidas 1º, 2º e 3º anos – “Prática.

Foram consultados os boletins de Irene Tardeli (1º ano, 1942); Julia Francisca Benevides Romero (2º ano, 1942; 3º ano, 1943).





  1. Resultados obtidos com a pesquisa

A análise das 8.476 matrículas efetuadas durante o período analisado revela que 90% dos alunos não concluíam os cursos, motivados pela necessidade do trabalho e oferta de empregos existentes, principalmente disponibilizados pela ferrovia. Mesmo após o ano de 1934, com a introdução do curso “Vocacional”, o número de concluintes não aumentou. Neste sentido pode-se deduzir que o curso não foi criado como forma de evitar a evasão, mas de adequação do interessado ao curso que exigisse as características demonstradas pelo aluno. E, mais, o curso desenvolvido em cooperação com a Estrada de Ferro Sorocabana, como era o curso “Aperfeiçoamento de Ferroviários”, destinado aos funcionários da empresa, conseguiu diplomar apenas 15% dos alunos matriculados. Assim, apenas 817 alunos foram diplomados em seus respectivos cursos. Neste sentido, algumas questões se fazem pertinentes: apenas as necessidades financeiras, associadas ao surgimento de oportunidades de trabalho, explicariam tão alto índice de evasão? Ou, ainda, responderia a escola às expectativas dos discentes e suas famílias? Do total de matrículas, 65% eram do sexo masculino e 57,5% estudavam no período diurno; do total de diplomados, 61% eram deste mesmo sexo. As figuras 1 e 2 demonstram as quantidades de matrículas e diplomados no período estudado.




Figura 1 - Matrículas efetuadas no período


Figura 2 Diplomados no período

Com relação à origem dos alunos, 86% moravam em Sorocaba e mais de 6,5% vinham de outras cidades demonstrando a penetração regional conseguida pela instituição; o Centro da cidade era o maior fornecedor de alunos com 45,2%, Além Linha forneceu 23,8% e Além Ponte 13% dos matriculados. Outro dado bastante representativo diz respeito ao fato de que as mulheres representavam pouco mais de 1/3 das matrículas efetuadas. Estaria este número relacionado à cultura da época, ao “destino” das mulheres como os mais antigos diziam, ou seja, “elas não precisam estudar, nasceram para casar”? Com relação às alunas, 53,7% do total de matrículas “preferiram” os cursos diurnos. Estaria esta “preferência” relacionada com as restrições à presença de mulheres fora de casa à noite? A figura 3 apresenta, em quantidade, a origem dos alunos.




Figura 3 - Origem dos alunos – quantidade
As figuras 4 e 5 apresentam as matrículas efetuadas por curso e turno das seções feminina e masculina. Destaca-se a baixa preferência pelo curso “Tecelagem”, cabendo perguntar: porque este curso ofertado ao setor masculino da escola e supostamente condizente com uma fatia do mercado de trabalho local, era pouco demandado pelos alunos? Eram os profissionais relacionados à ferrovia melhores remunerados? Ou a oferta de vagas destinadas aos profissionais atuantes na indústria têxtil era inferior à oferta da ferrovia? Ou, ainda, questões culturais influenciavam minimamente nas escolhas? Outro fator que chama a atenção, na seção masculina, é a maior incidência de matrículas nos cursos diurnos. Questiona-se: seriam os alunos da escola provenientes de famílias com melhor renda, que poderiam dispensar o trabalho dos filhos? Ou haveria restrições no mercado de trabalho local para jovens? Ou, ainda, haveria impedimentos para se oferecer, no período noturno, alguns cursos que só apareceram no período diurno?

Figura 4 – matrículas por curso e turno
Figura 5 – matrículas por curso e turno

Com relação à nacionalidade dos responsáveis pelos alunos e alunas, os brasileiros representam, respectivamente, 62% e 57,3%, seguidos pelos italianos, com 15,7% e 17,6%, espanhóis, com 6,4% e 9,0%, portugueses, com 4,3% e 6,2%, sírios, com 1,6% e 3,3%, e, para a seção masculina, 1,2% eram alemães. Assim, respectivamente, 94,0% e 92,6% das matrículas, cujos responsáveis se declararam imigrantes, eram oriundos da Itália, Espanha, Portugal e Síria. Aqueles que não declararam a origem representam, respectivamente, 7,3% e 3,7%. Entre aqueles que não atingiram 1%, correspondentes à seção feminina, sobressaem-se os austríacos, com 0,97%, os russos, com 0,47%, e os alemães, com 0,33%.




Figura 6 – Nacionalidade dos responsáveis pelos alunos e alunas - quantidade
Sobre o perfil ocupacional dos responsáveis pelas alunas da instituição, foram declaradas 106 profissões diferentes. Desconsiderando aqueles que não forneceram a profissão, correspondentes a 8,4% do total, as primeiras 20 profissões concentram acima de 85% das matrículas efetuadas, ou seja, 2.322 matrículas (ver figura 7). As 422 matrículas restantes, correspondentes a 15% do total, estão distribuídas, ou diluídas, em mais de 80% do universo de profissões. Além disso, 44% do universo de 2.322 matrículas (1.029) estão concentradas em apenas seis das 20 profissões (Negociante/Comerciante, Funcionário Público, Proprietário/Capitalista, Professor, Dentista e Industrial), ou seja, as demais 56% das matrículas estão diluídas entre as 14 profissões restantes (70%), sendo que, destas, a profissão “Ferroviário” representa 20%, resultando 80% das matrículas sendo distribuídas entre 13 profissões. Visto de outra forma, 49% do total de matrículas estão concentradas em apenas sete das 104 profissões. Com relação aos alunos, os responsáveis declaram 123 profissões diferentes. Considerando aqueles que não forneceram a profissão, correspondentes a 11,8% do total, as primeiras 16 profissões concentram 85% das matrículas efetuadas, ou seja, 4.657 matrículas (ver figura 8). As 824 matrículas restantes, correspondentes a 15% do total, estão distribuídas, ou diluídas, em mais de 87% do universo de profissões. Além disso, 77,6% do universo de 4.012 matrículas (3.113), estando desconsiderados nestes valores aqueles que não forneceram a profissão, estão concentradas nas primeiras seis das 15 profissões (Ferroviário, Negociante/Comerciante, Operário, Lavrador, Funcionário Público, Carpinteiro). Visto de outra forma, 64,4% do total de matrículas estão concentradas em apenas seis das 122 profissões. Entre as primeiras 21 profissões aparecem, também, “Proprietário/Capitalista” e “Industrial”, respectivamente na 13ª e 21ª posições. Percebe-se, nas seções masculina e feminina, uma grande concentração de matrículas para um universo pequeno de profissões. Neste sentido e considerando que na época a ascendência dos pais sobre os filhos costumava ser grande, pode-se hipotetizar que o sexo dos discentes, tanto quanto as relações de gênero e as oportunidades de trabalho de então podem ter exercido influência na destinação das matrículas.

Figura 7 – Profissão dos responsáveis – seção feminina




Figura 8 – Profissão dos responsáveis – seção masculina

Dentre as alunas e alunos moradores do Centro, os descendentes de brasileiros representavam, respectivamente, 60,9% e 66,8%; de italianos 18,3% e 17,9%; de portugueses 6,2% e 4,1%; de espanhóis 5,9% e 4,1%; e as de sírios 4,2% e 2,0%. Por outro lado, considerando apenas descendentes de brasileiros e moradores do centro, 59,0% eram do sexo feminino e 42,6% do masculino; 18,0% e 28,0%, respectivamente, moravam no Além Linha; 10,8% e 12,7% moravam no Além Ponte; 5,6% e 7,9% moravam em outras cidades; 3,3% e 3,9% moravam no Cerrado; 2,24% e 4,4% não declararam bairro de moradia; e 1,0% e 0,5% moravam em Pinheiros/Lajeado. Dos descendentes de italianos, 59,1% e 44,9% moravam no Centro; 18,4% e 32,4% moravam no Além Linha; 10,7% e 8,9% moravam no Além Ponte; 5,9% e 6,0% moravam em outras cidades; 2,9% e 4,1% não declararam bairro de moradia; 2,5% e 3,5% moravam no Cerrado, e 0,6% e 0,4% moravam em Pinheiros/Lajeado. Dentre os descendentes de portugueses, 58,8% e 37,0% se declararam moradores do Centro; 26,0% e 34,0% do Além Linha; 5,7% e 11,3% do Além Ponte e outros 5,7% e 8,4% do Cerrado; 2,3% e 3,8% não declararam bairro de moradia, e, 1,7% e 5,5% moravam em outras cidades. Dos descendentes de espanhóis, 37,2% e 24,9% moravam no Centro; 34,9% e 39,1% moravam no Além Ponte, conhecido como o reduto dos espanhóis; 14,1% e 19,3% no Além Linha; 7,4% e 9,9% em outras cidades; 3,7% e 0,0% em Pinheiros/Lajeado, bairro próximo do Além Ponte; e 2,6% e 4,8% não declararam bairro de moradia. Dentre os descendentes de sírios, 71,0% e 50,6% se declararam moradores do Centro; 19,0% e 12,9% do Além Linha; 4,0% e 10,6% do Além Ponte e outros 4% e 14,1% de outras cidades; 2% e 2,6% não declararam local de residência.


Pode-se perceber que mesmo tendo sido significativas as mudanças ocorridas no sistema educacional do Estado de São Paulo, a inovação que mais repercutiu no treinamento dos operários surgiu no setor privado através dos cursos ferroviários. Neste aspecto, durante o período analisado pelo trabalho em tela foram registradas 1.352 matrículas – 866 para o curso de “Ferroviários” e 486 para o curso de “Aperfeiçoamento EFS” - correspondendo a 25% do universo de matrículas da seção masculina. Quando são consideradas as matrículas dos cursos de “Mecânica” e “Ferraria e Fundição”, também fornecedores de mão-de-obra para a ferrovia, o índice sobe para 47%. Os cursos de “Ferroviários” e de “Aperfeiçoamento EFS” foram oferecidos a partir de 1931.


  1. Conclusões



Um Estado bem constituído é fiador da civilização. A civilização se opera pelo desenvolvimento da cultura do povo. E ao lado da cultura intelectualista precisa florescer e preponderar à cultura técnica, a formação profissional à base do manualismo. Ninguém ignora que os povos que exercem a supremacia mundial firmaram o seu poderio pela exploração manufatureira e pelo apego aos trabalhos manuais e às indústrias. As escolas profissionais abrem suas portas para as gerações novas que precisam se adestrar nas habilidades manuais. Esta é a empolgante finalidade da educação cujo progresso São Paulo impulsiona com desvelo. (SILVEIRA, 1937).

A fala de abertura desta seção remete ao idealismo dos responsáveis pela educação profissional, porém, ao confrontar os dados de crescimento da cidade com os alunos atendidos, percebe-se que a instituição não conseguiu atender toda a demanda. Neste sentido, em 1929 a população urbana de Sorocaba estava estimada em 30.000 habitantes, assim, naquele ano, 1,97% dessa população teve acesso à escola profissional. Quando se considera o total da população - 55.000 habitantes - o percentual cai para 1,07%. No final do período estudado, em 1940, a população sorocabana estava estimada em 70.835, ou seja, havia crescido quase 29% enquanto a oferta de vagas na instituição, considerando a média de matrículas do período estudado, ficou próxima dos 20%.


Sem pretender esgotar o assunto, este trabalho se propôs fornecer subsídios para entender a origem, a instalação, a evolução e as mudanças ocorridas no ensino de uma das oito escolas profissionais mais antigas do estado de São Paulo: a Escola Profissional Mixta de Sorocaba.
O trabalho serve, também, como referencial para a compreensão do alunado atendido pela instituição; a origem desse alunado e dos responsáveis; suas profissões, traçando o perfil ocupacional desses mesmos responsáveis.
Percebe-se, também, a necessidade de se estudar temas como as exposições efetuadas pela instituição, o acompanhamento e destino dos egressos, além da busca por respostas às questões aqui formuladas, que contribuirão para o entendimento da efetiva representação da escola na sociedade local e regional.
REFERÊNCIAS

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BONADIO, Geraldo. Sorocaba – a cidade industrial. Sorocaba, SP: Linograf Gráfica, 2004. 300p.
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MORAES, Carmen Sylvia Vidigal. O Ideário Republicano e a Educação – uma contribuição à história das instituições. Campinas, SP: Mercado de Letras Edições e Livraria Ltda., 2006. 241p.
MORAES, Carmen Sylvia Vidigal; ALVES, Júlia Falivene (Org.). Contribuição à pesquisa do ensino técnico no estado de São Paulo: inventário de fontes documentais. São Paulo: Centro Paula Souza. 2002.
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WEINSTEIN, Bárbara. (Re)formação da classe trabalhadora no Brasil. São Paulo, SP: Cortez Editora; CDAPH-IFAN – Universidade São Francisco, 2000. 460p.
WERNECK, Bráulio. Almanach Illustrado de Sorocaba, 1914: repositório histórico, literário e recreativo, com ilustrações. Taquarituba, SP: Gril Gráfica, 2006. 270p.

1 Artigo desenvolvido com base na dissertação de mestrado do autor, defendida em 11/09/2007

2 O termo instrução popular diz respeito ao sistema educacional que teria como meta atingir a grande maioria da população do país pelo ensino primário e profissional.

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