12 de junho de 2009 o saxofonista Casé



Baixar 224.75 Kb.
Página1/7
Encontro26.02.2018
Tamanho224.75 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7

12 de junho de 2009

O saxofonista Casé


Dia 1º de dezembro de 1978, a notícia sobre o saxofonista encontrado morto num quarto de hotel estava nos principais jornais de São Paulo. Ele era Casé, um mito no meio musical. Inovador, dono de talento extraordinário e técnica irretocável, tornou-se referência para críticos e grandes instrumentistas do Brasil e do exterior. Não quis fama nem fortuna nos 46 anos de vida resumidos neste blog. Deixou poucas gravações. Algumas podem ser ouvidas aqui, na Rádio Casé.


Visite o blog Nova Ilusão

Casé

Como toca este rapaz!

O saxofonista José Ferreira Godinho Filho- Casé

num ensaio biográfico de Fernando Lichti Barros

28 de abril de 2009


Capítulo 1

Como toca este niño!

A orquestra de Sylvio Mazzucca atravessava uma fase esplendorosa. Cumpria rotina agitada, entre bailes, estúdios de gravadoras e televisão. E havia ainda a Rádio Bandeirantes. Todos juntos, ou subdivididos em grupos, os instrumentistas participavam de diferentes programas apresentados ao vivo. Para a contratação da big band dispensava-se a figura do intermediário. Aos interessados bastava subir ao sexto andar do prédio onde funcionava a emissora, na rua Paula Souza, em São Paulo, e bater à porta da sala do maestro, um homem de bigode e óculos de armação grossa, que ele vivia ajeitando sobre o nariz. Com o mambo Tequila nas paradas de sucesso, a orquestra fechou o ano de 1958 com uma agenda de bailes iniciada no dia 4 de novembro e só interrompida mais de quatro meses depois, em 15 de março – tudo isso sem deixar de fazer os programas da Bandeirantes.

Para atuar num deles, comandado pelo maestro espanhol Joaquim Almella, escalava-se um octeto - dois trompetes, um trombone, saxofones alto e tenor, piano, baixo e bateria. Composto por integrantes da nata dos profissionais de São Paulo, o grupo não fazia ali o som dos seus sonhos. Mesmo nos bailes, enquanto rodopiavam os casais, havia repertório e arranjos mais interessantes a executar, repartidos entre os ritmos latinos, as vertentes do samba e os standards de jazz, o baião e os primeiros sinais da bossa nova e do rock'n´roll. Nota por nota, os músicos construíam um painel do que então se ouvia no Brasil. Mas para eles o programa de Almella se aproximava de uma sessão de tortura. Restava armar-se de profissionalismo e enzimas digestivas para enfrentar aquele osso do ofício. Era o que faziam os instrumentistas - à exceção de um deles, o rapaz pequeno e calado do sax alto.


Os arranjos rococós do maestro pareciam remetê-lo aos horrores da Espanha franquista. Para sobreviver à missão, apelava para a caricatura: transformava-se no pior saxofonista da mais insuportável bandinha de um lugarejo qualquer. Guinchava a cada quatro compassos, interpretava como músico de quinta categoria, expelia um timbre desprezível. Convencido das limitações do rapaz, Almella não o deixava solar no arranjo de uma fantasia pela qual tinha clara predileção. O maestro em pessoa encarregava-se daquele momento solene todas as vezes que a peça era incluída no roteiro.
Um dia, de surpresa, a produção anunciou a fantasia. Pegou Almella desprevenido, sem o seu instrumento. Nervoso, ele se viu obrigado a convocar o tal músico, de tão poucos recursos. Mostrou-lhe a partitura, explicou-a em detalhes. Com o sax apoiado na coxa direita, ajeitando a palheta, o rapaz se limitava a responder: “Sim, senhor; sim, senhor”. Ensaiou desafinando, abusando do som trêmulo - o perfeito instrumentista das retretas interioranas.

Sob os auspícios do conhaque Palhinha, o programa entra no ar com a grande audiência de sempre – e chega a hora do arranjo de Almella. O maestro se planta diante da estante do moço magrinho, certo de que seria preciso auxiliá-lo durante a leitura. Mas o rapaz, pobre músico de coreto, levanta-se e começa a tocar de verdade. Um sopro cheio, seguro, a interpretação irretocável, um resultado muitas vezes superior ao sugerido pela partitura. Atônito, o espanhol vai-se afastando, olhos arregalados, a boca semiaberta. Aproxima-se do também saxofonista Lambari e sussurra: “Como toca este niño!”. Lambari resolve, então, contar a verdade ao chefe desavisado: “Maestro, ele é o Casé. Na revista Down Beat está na lista dos melhores do mundo.”


Capítulo 2

Jazz para americanos

Alastrava-se no meio profissional a fama do moço mirrado, de modos contidos. Músicos de outros estados viajavam a São Paulo para vê-lo de perto. Os estrangeiros em turnê pelo Brasil ficavam igualmente impressionados com o talento, a técnica esmerada, a musicalidade que lhe saía pelos poros. Nenhum elogio, porém, era capaz de abalar aquela modéstia pétrea. Poucos ouviam sua voz, e raríssimos eram testemunhas de suas frases rápidas, frequentemente inconclusas, por vezes repletas de um sutil senso de humor. Carreira solo? Sucesso? Bobagens: a ele nada seduzia. Nem mesmo os salamaleques e as propostas para deixar o Brasil, feitas por jazzistas de nomeada. Em outubro do mesmo ano em que causou espanto ao incauto maestro Almella, Casé emprestou um instrumento ao saxofonista Al Belleto, da orquestra de Woody Herman. Após os shows no Teatro Paramount, os músicos de Herman saíam em busca de locais onde pudessem beber, ouvir boa música e, melhor ainda, dar canja.

Um dos muitos pontos de agitação musical ficava na avenida Nove de Julho, no bar do Hotel Claridge, que mais tarde passaria a se chamar Cambridge. Para lá rumaram com Casé vários instrumentistas da orquestra. Deram de cara com um trio formado pelo pianista Walter Wanderley, o baterista Rubinho Barsotti e, revezando-se ao contrabaixo, Chu Viana e Azeitona. Estava feita a cama para começar a jam session. Em poucos compassos a desenvoltura de Casé ao sax alto deixou surpresos os solistas americanos. Dias depois, na canja repetida no Club de Paris, na Vila Buarque, os estrangeiros teriam uma surpresa ainda maior. O saxofonista Marty Flax convidou Casé ao palco. Só que não havia um alto dando sopa por ali – apenas um tenor, especialidade de Jay Miglioti e Joe Romano, dois grandes músicos com quem o brasileiro dividiria a cena. Com rigoroso domínio de linguagem, Casé não demorou a impressionar os dois jazzistas. Foi o assunto da banda de Herman no dia seguinte.


Capítulo 3

Música no ar

Fervilhava o Centro de São Paulo. Havia música no ar, fosse ela feita por pequenos conjuntos, por orquestras inteiras ou por solitários pianistas. Circulavam por lá garçom, músico, taxi-girl, dondoca, boêmio, pé-de-valsa, entre outros seres de hábitos noturnos. Na década de 1940, e mais ainda nas de 50 e 60, dançava-se em cabarés, gafieiras e salões de baile – o Wonder Bar, que mais tarde virou Maravilhoso, o OK, Chuá, Tropical, Salão Verde, Lido, Cuba, Avenida, Lilás, 28, Taçaimba, Centro do Professorado Paulista, Som de Cristal, Caçamba. No mesmo período nasceram, multiplicaram-se e desapareceram bares e boates com boa música – Oásis, Nick Bar, Michel, Excelsior, Lord, Caprice, Captain’s, Feitiço Afrikan, Arpège, Clube de Paris, Teteia, Farney’s, Stardust, Afrikan Clube de Paris, Baiúca, L’Amiral.

Por esse circuito passaram artistas como Dick Farney, Johnny Alf, Dolores Duran, Cauby Peixoto, Edith Piaf, Sarah Vaughan, Lucho Gatica, Josephine Baker, Pedro Vargas e Tommy Dorsey. Com eles, um grande contingente de músicos. Antes ou depois do trabalho era obrigatório dar uma passada na esquina da São João com a Ipiranga. Lá ficava o bar conhecido como Ponto dos Músicos, uma referência para quem estivesse à procura de novidades, de serviço, o lugar certo para a troca de impressões, para um trago e conversas que se prolongavam pela madrugada. No Ponto, no fim da década de 50, Casé se torna personagem central de numerosas histórias. São atribuídas a um temperamento por muitos tido como meio lunático, extravagante, capaz de desprezar excelentes propostas de trabalho por pescarias no Interior. A possibilidade muito próxima de se banhar de glória foi inúmeras vezes desprezada. Melhor era passar horas e horas à margem de um córrego qualquer. Um silêncio de monge, goles de bebida barata, pensamento perdido na correnteza. Talvez fosse um jeito de voltar no tempo.


Capítulo 4

Enxada, sapato e partitura

Os dias corriam devagar em Guaxupé. Cercada por morros e riachos, a cidade vivia sua modesta rotina sul-mineira. A casa para onde se mudou a família de José Ferreira Godinho, em frente da Prefeitura, a não mais que cem metros da praça da Matriz, tinha três quartos, cozinha, banheiro, sala de jantar, sala de visitas, varanda e um quintal amplo, com pés de laranja, limão, banana e uva. Sobrava espaço para abrigar a pequena família, que acabava de deixar a vizinha Passos de Minas naquele ano de 1927.

Recém-casado, Godinho chegou com a mulher, Isabel, e Clóvis, o filho de colo, decidido a não mais se dedicar à agricultura. Puxar enxada era uma atividade pela qual já havia passado, ajudando o pai, João Sobrinho, numa pequena propriedade de São João Batista da Glória, também no sul de Minas. Definitivamente, não fazia parte dos seus planos render-se à vontade paterna e engrossar o exército dos trabalhadores rurais que atuava por ali, capinando entre pés de café. Godinho havia mudado de ramo. Agora, aos 20 anos, era sapateiro. Sapateiro e músico. Com o trompete, que aprendera sozinho, escondido do pai, animaria festas, e durante o dia seria funcionário da fábrica de sapatos Irmãos Furlan.


Na cidade, entroncamento da Companhia Mogiana, o cotidiano se mexia com a chegada e partida de trens carregados de passageiros das imediações. Gente de Muzambinho, Monte Belo, Arceburgo, Juruá, que invadia o comérgio local, tido como o mais ativo da região. Além disso, para sacudir Guaxupé, só mesmo os atos de inauguração, as cerimônias religiosas ou eventos especialíssimos. Um deles havia sido realizado em 1928, ano seguinte ao da chegada dos Godinhos à cidade: Carlos Costa Monteiro, o Carluta, rico produtor de café, levou para lá o Peñarol, que perdeu por 2x1 para a brava equipe da Associação Atlética local. Outra cena de impacto se daria no ano do nascimento de Casé, com a chegada de soldados paulistas durante a Revolução de 32. Acampados no Grupo Escolar, eles conseguiram por pouco mais de uma semana alterar o ritmo da população – principalmente à noite, quando os moradores deixavam de sair às ruas.
Isabel, mãe de Clóvis aos 17, teve nos doze anos seguintes outros seis filhos em Guaxupé. José Ferreira Godinho Filho, o Casé, foi o terceiro, nascido em 26 de julho e registrado em 13 de agosto de 1932. Antes dele nasceu Sebastião, depois viriam Dalva, Walter, Pedro e Marluce. Marly, a caçula, nasceria em Espírito Santo do Pinhal, em 1941. Godinho, ou Nhô, como era conhecido na cidade, dava duro para sustentar a família. Passava o dia na fábrica de sapatos, e o resto do tempo dedicava aos arranjos de fox, sambas e marchas para o grupo que liderava. Nhô se garantia no pistom, o amigo Nenzinho no saxofone. O conjunto ainda tinha trombone, banjo, bateria, percussão, dois cantores e eventualmente um sanfoneiro bom de ouvido. Era sucesso garantido. O grupo chegou a tocar numa quermesse por 22 noites seguidas. No Carnaval, Godinho arregimentava mais músicos e os repartia para tocar em até três clubes.
O dinheiro curto obrigava o marido de Isabel a se desdobrar. Podia não comprar presentes de Natal, mas sabia defender o estômago dos oito lá de casa. Foi assim que, contratado para tocar numa festa de vários dias, organizada por ciganos de passagem por Guaxupé, não titubeou quando sentiu cheiro de carne assada. No intervalo entre uma e outra seleção, correu para casa. Minutos depois lá estava ele de volta ao palco, enquanto a mulher e os filhos se empanturravam de frango, boi e peru.

No dia-a-dia, porém, imperava a austeridade na casa de Godinho, administrada com mão-de-ferro por Isabel. Ai daquele que ousasse romper o silêncio enquanto ela, musical como o marido e os filhos, estudava flauta transversal. Armava-se com uma cinta e acabava com qualquer ruído feito pelos meninos ou pelo gato rajado que perambulava pelos cômodos. Embora remoto o perigo da rua, dona Isabel não facilitava. Brincar lá fora a convite da garotada da vizinhança?


– Ninguém sai – era a determinação mais ouvida.
Melhor, para ela e o marido, era que as crianças aprendessem a tocar. Poderiam integrar a orquestra e ajudar a cobrir as despesas da casa. Foi assim que eles se iniciaram, sob a pedagogia dura de Godinho: a cada nota errada, uma lambada na mão. O primeiro a estudar foi Clóvis. Em pouco tempo dominou com extrema facilidade o sax e a requinta, um clarinete pequeno. Num fim de tarde modorrento Godinho foi ver quem batia palma na varanda da casa. Eram músicos da cidade. Queriam saber de onde vinha aquele som ao mesmo tempo limpo e vigoroso.
– É o Clóvis – respondeu o anfitrião.
Godinho levou-os até o quarto. Lá estava o menino, equilibrando-se num caixote para alcançar com os olhos a partitura aberta sobre uma estante. Tocando em pé para não raspar o instrumento no chão, Clóvis logo integraria o conjunto do pai.

A segurança de Clóvis ao sax, ao clarinete e o que mais pusessem em suas mãos – o bandoneón, por exemplo – enfeitiçaria para sempre quem o ouvisse. E quem mais ficou marcado pela sua genialidade foi mesmo Casé, que passaria a vida inteira elogiando o irmão. Clóvis assombrava. Foi assim desde o nascimento, quando Malvina, mãe de Godinho, viu o neto recém-nascido, respirou fundo e avisou:


– Esse menino não é nosso.
Os elogios a Clóvis e à orquestra não bastavam para sossegar Godinho. Havia algo que o incomodava. Ele se esforçava o quanto podia para adiantar o serviço e, assim, poder animar bailes na região. Mas tanta eficiência, segundo se queixava discretamente em casa, havia se tornado tema de mexericos nos corredores da fábrica.
Aguentou o quanto pôde. Um dia, no fim de 1939, anunciou a decisão a Isabel: iriam embora, e não mais morariam numa única cidade. Morariam em várias. Seriam artistas do Circo Teatro Irmãos Martins, cuja temporada em Guaxupé estava próxima do fim.
Capítulo 5

Do circo à Usina

Por quase três anos a família Godinho levou vida de saltimbanco. Depois de Guaxupé, a primeira parada do circo se deu, por coincidência, em Passos, a terra natal de Clóvis. Ao lado do pai ao trompete e de Sebastião à bateria, o menino integrava a orquestra do Irmãos Martins. Casé logo reforçaria a seção de sopros, convencido pelo pai a empunhar o sax, e não trombone, como queria inicialmente.
Dramas, comédias, as intervenções do palhaço Baratinho – tudo era pontuado pela trilha sonora feita ao vivo. De ônibus ou de trem, de cidade em cidade, a trupe atravessava o interior de Minas e São Paulo. À frente seguia o caminhão transportando lona, cenários, figurinos, madeiras e ferragens das arquibancadas e os móveis dos artistas, que montavam o circo em mutirão. Nas temporadas, de dois a três meses de duração, alojavam-se em casas alugadas. Em todo lugar, fosse em São Paulo ou na pequena Monte Sião, os espetáculos arrancavam aplausos entusiasmados graças à receita infalível: primeiro a orquestra, depois os palhaços e malabaristas, finalmente o drama.
Do Irmãos Martins, Godinho transferiu-se com a família para o Circo Bandeirantes. Tentou estimular as filhas a integrarem o elenco. Dalva, a mais velha, chegou a participar de um ensaio andando sobre garrafas. “Não quero. Não vou mais”, comunicou ao chegar em casa. Tudo bem: permeado por um repertório bem escolhido, o espetáculo continuava.

Três anos após a saída de Guaxupé, a família estacionou com o Bandeirantes em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Ao término de um espetáculo, surgiu nos bastidores um homem que piscava os olhos incessantemente. Estava em busca de reforços para a orquestra da poderosa Usina Junqueira, instalada perto dali, em território paulista. Queria falar com Godinho. Por determinação da patroa, Sinhá Junqueira, o homem já havia ido a Barretos, Alfenas, Muzambinho, Cássia, Poços de Caldas, São Paulo e Rio, sempre com a tarefa de contratar músicos competentes. Fez a proposta: Godinho e a família iriam de mudança para a usina, importante núcleo produtor de açúcar e álcool localizado no município de Igarapava, divisa de São Paulo com Minas, para integrar, com os filhos mais velhos, a jazz band regida pelo maestro Décio Nogueira. Morariam sem pagar aluguel na vila de 800 habitantes. Convite interessante, mas recusado.


Meses depois, a caravana atravessou o Rio Grande pela ponte onde se viam perfurações de balas, resquícios da Revolução de 32. Após a estreia em Igarapava, Godinho foi visitar a Usina. Pensando bem, ficar por ali não seria mau negócio. Era um lugar com boa organização, escola, farmácia, ambulatório médico, armazém de secos e molhados, alfaiatarias, bares, correio, campo de futebol, quadra de basquete, bar, capela, dois clubes - um para os diretores, outro para os operários – e até telefone no escritório da administração. Uma barreira de eucaliptos protegia das rajadas de vento os dez alqueires da área residencial, perto do rio.
As crianças poderiam frequentar regularmente a escola. Godinho seria registrado como seleiro, mas teria como principal incumbência tocar nas recepções oferecidas por dona Sinhá, e eventualmente levar a outras cidades, por intermédio da orquestra, o nome da usina pintado a óleo no bumbo da bateria. Duas casas foram oferecidas a Godinho – uma para a família, outra para a oficina de consertos e fabricação de sapatos. Inicialmente, nada disso entusiasmou Isabel. Ela gostava da vida itinerante do circo, mas o argumento de Dalva a convenceu:
– Vamos parar num lugar, ter uma casa decente, um endereço.
Em 1942, a família instalou-se na casa n° 12 da Rua 1. Três anos de tranquilidade e disciplina: auxiliado por Sebastião, Godinho ficava na oficina, enquanto Isabel administrava a casa e distribuía funções à molecada - Casé ia bem cedo à padaria, Walter ajudava na faxina, Dalva cozinhava, e assim por diante. Ao fim de cada safra, os empregados da usina passavam uma temporada de relativa calmaria, dedicando-se ao plantio e à manutenção de equipamentos. Godinho reservava a noite para a criação de arranjos e a longas conversas com amigos – um deles o vizinho João Ribeiro, trombonista da orquestra, por vezes acompanhado pelo filho Altayr.
Para a admiração de todos – a começar por Casé –, Clóvis realizava proezas inimagináveis. Estudava na varanda de casa. De vez em quando, para variar, deixava o sax de lado. Se pegasse, por exemplo, o trompete, fazia-o soar como se ele e o instrumento fossem velhos conhecidos – e isso não se restringia aos sopros.
O baixista da Grande Orquestra, Ladislau, mineiro de Muzambinho, resgistrado como encanador, era músico de grande sensibilidade. Compunha peças complexas, como o Dobrado Sinfônico. Um dia, escalado para tocar numa missa solene, não pôde comparecer. Houve um princípio de pânico, até que alguém se lembrou de Clóvis. O menino foi levado às pressas para a igreja. Do alto dos seus 16 anos, pegou pela primeira vez o contrabaixo acústico. Em poucos minutos, passou a tocar com inexplicável desenvoltura.
Capítulo 6

Paletó e calça curta

Em 1945, Godinho foi a São Paulo à procura de couro mais barato para a sapataria. Levou Clóvis, que em três tempos foi convidado a fazer parte da orquestra da Rádio Record. Daí a semanas, adeus Usina Junqueira: a família estava em novo endereço, na Rua Mesquita, Vila Monumento, São Paulo.

Clóvis tinha 17 anos. Para trabalhar na Record precisou do alvará do Juizado de Menores, providência repetida ao se transferir para a Rádio Tupi. Uma das formações era liderada pelo maestro Francisco Dorce, autor de arranjos que privilegiavam metais e madeiras.

Uma tarde, no auditório da Tupi, enquanto os instrumentistas se acomodavam atrás das estantes, Clóvis chegou. Não estava só. Trazia o irmão para submeter-se a um teste. Acabrunhado, entre mais de trinta músicos de primeira linha, Casé passou a tocar a melodia contida na partitura apresentada por Dorce. Foi um choque. Leitura à primeira vista, um som arrebatador, ao término do qual se fez um silêncio reverencial. Perto do candidato estavam profissionais respeitados, do porte de Renato Cauchioli.
Talvez por herança do bombardino, que começou a tocar ainda na infância, nas bandas de coreto de São Miguel Arcanjo, interior de São Paulo, Cauchioli era admirado pela maciez do som que tirava do trombone. “Esse menino é um músico maravilhoso”, pensou, ao ouvir Casé pela primeira vez.
Dorce imediatamente contratou o recém-chegado, que se tornou o primeiro sax alto da orquestra. Daquele momento em diante, quem passaria a puxar o naipe seria, com autorização do Juizado de Menores, um menino de 13 anos. Usava paletó e calça curta.

Com Clóvis, passou a protagonizar uma série de feitos incomuns, sempre comentados pelos músicos da cidade. Falava-se que eles não brincavam, como se esperava de meninos daquela idade. Enquanto estudavam na casa da Vila Monumento, os irmãos menores se divertiam com traquinagenss como a de encaixar Marly, a caçula, num pneu que empurravam ladeira abaixo.


Numa tarde de sol, Waltinho, Pedro, Sebastião e a molecada do bairro suam a camisa no treino que antecede o jogo contra a arquirrival equipe da Vila Teodoro. Embora o desfecho seja previsível – pancadaria da grossa, com resultado justo ou não -, o clássico exige preparação séria. E aí, surpresa!, um novo jogador se apresenta. Ele mesmo: Casé. Imediatamente admitido a adentrar as quatro linhas, intriga os parceiros nem tanto pelo despreparo físico e completa falta de intimidade com a redonda. Na verdade, o que desperta curiosidade é o traje escolhido pelo atleta para a estreia em campo: calção e paletó. Poucos minutos depois é convidado a desistir de uma vez por todas do esporte-rei.

A infância de Casé e Clóvis se dividia entre o trabalho e os estudos. Em raras escapulidas, Clóvis nem surpreendia quando entrava em casa acompanhado por bichos achados na rua. Alguns chegaram a gozar períodos de pensão completa. Por isso mesmo o rapaz continuou investindo com entusiasmo no amparo a animais sem-teto. Teve, porém, a missão interrompida por dona Isabel. Era compreensível: não haveria na casa vaga apropriada para os dois últimos apadrinhados do filho - um cabrito e, mais adiante, um macaco.


Tempos depois, Casé as adoções zoológicas voltaram a ser assimiladas. Um dia, Casé apareceu com uma cachorra marrom na casa do Cambuci para onde a família se mudara, no n° 133 da rua Teixeira Mendes. “O que é isso?”, quis saber dona Isabel. “É a Guiomar.” Novamente a fauna cresceu. Ao todo, sete gatos e sete cachorros. Um deles, Marquês, foi cuidadosamente treinado por Casé para capturar passarinhos. Situação de mal-estar com a vizinhança só houve no dia em que o cão dizimou o galinheiro do Colégio Marista. O adestrador jurou inocência.
Capítulo 7

‘Chama o Clóvis’

Clóvis, já rapazote e mais atuante, despertava elogios incontidos. Músico nenhum chegava aos pés dele no final da década de 40, na São Paulo em que se anunciava ruidosamente uma série de espetáculos de Francisco Canaro. Conhecido em toda a América do Sul, Canaro trocou Buenos Aires por São Paulo para exibir, no clube OK, sua orquestra típica – e põe típica nisso. Seis bandoneóns levavam o público ao delírio. Antes e após o show, a música ficava por conta de um grupo de brasileiros, Clóvis entre eles.



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal