1°MÓdulo regional de formaçÃo de educadores e educadoras em concepçÃo e prática sindical e em metodologia



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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG








Índice Sumário





Textos

Página

01

Matriz Pedagógica do I Módulo do Curso de Formação de Educadores e Educadoras em Concepção e Prática Sindical e em Metodologias

01

02

Projeto Político Pedagógico da Formação do MSTTR - CONTAG

06

03

Mística no Movimento Sindical


Sérgio Fritzen

27

04

Sistemas de Sociedade


33

05

Revolta dos Colonos, Revolução Farroupilha e Guerra do Contestado

Marilei Veroneze



50

06

GESTÃO DEMOCRÁTICA: Estado E Sociedade Civil

Marco Aurélio Nogueira



58

07

Relação Capital/Trabalho no Assalariamento Rural.

Marleide Barbosa De Sousa



67

08

Acesso A Tecnologias, Capital E Mercados, Quanto À Agricultura Familiar X Agricultura Patronal.

Zeke Beze



77

09

EXCLUSÃO DOS MEIOS DE PRODUÇÃO – Situação Dos Sem Terra No Brasil

Cleia Anice Da Mota Porto



82

10

Sistematização

89

11

Tempo Escola, Tempo Comunidade

93



1°Módulo Regional de Formação de Educadores e Educadoras em Concepção e Prática Sindical e em Metodologia

Data: 15 a 21 de julho de 2007

Local: Instituto de Formação Sindical Irmão Miguel

Endereço: Rua: Voluntários da Pátria, 595, 12° andar – Galeria Santa Catarina – Centro, Porto Alegre (RS).

MATRIZ PEDAGÓGICA
Objetivo Geral:


    • Viabilizar a formação de militantes do MSTTR, de modo que aprimorem sua capacidade multiplicadora e potencializadora da ação formativa em suas áreas de atuação.


Objetivos Específicos:


  • Socializar e aprofundar referenciais teóricos, políticos e ideológicos que fundamentam e alimentam os ideais e a luta sindical e popular.

  • Re-avaliar e fortalecer a luta sindical, numa visão e ação sindical transformadoras, estimulando processos de mudanças de atitudes, comportamentos e práticas individuais e coletivas, coerentes com as exigências de implementação do PADRSS.

  • Favorecer a experimentação, sistematização e apropriação de novas metodologias pedagógicas que realimentem a prática formativa do movimento sindical.

  • Contribuir para a constituição de uma rede de formadores/as que assumam e implementem o projeto de formação do MSTTR.

MATRIZ PEDAGÓGICA PARA O 1º MÓDULO DO PRIMEIRO CURSO DA ENFOC
Eixo Temático: ESTADO, SOCIEDADES E IDEOLOGIAS

Eixos pedagógicos: Pedagogia para uma nova sociabilidade e Memória e Identidade



Dia

Tema e sub-temas

Objetivos

15./07 (Domingo)

Manhã: Chegada dos educandos e das educandas, acomodação, credenciamento e entrega de material.

Acolhimento:



  • Café Regional

  • Mística de Abertura: Identidade Individual e Coletiva (árvore)

Criar um ambiente de integração e acolhimento aos participantes e de co-responsabilidade e comprometimento com os objetivos do curso.

Estimular a discussão sobre as identidades individual e coletiva e sua relação com os objetivos da ENFOC

Mística: Buscar refletir os sentimentos individuais e coletivos considerando as seguintes questões: Quem sou eu? O que faço? Qual é o meu sonho?


Tarde:

  • Apresentação dos/as participantes e da equipe; expectativas.

  • Acordo coletivo e formação de equipes de trabalho (apoio, relatoria, bem estar, animação, avaliação e sistematização).

  • Apresentação da Política Nacional de Formação do MSTTR

  • Pesquisa de Perfil dos Participantes (aplicação do questionário em sala de aula).

Refletir sobre o Itinerário Formativo da ENFOC, e pactuar os compromissos de participação e atuação nos estados considerando a estratégia multiplicadora.

Fazer um levantamento sobre o perfil dos participantes.





Dia

Tema e sub-temas

Objetivos

16.07

(Segunda Feira)



Manhã e Tarde:

  • Sistemas de sociedades: Patriarcalismo, escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo, comunismo:

  • Características de cada sistema social e seus vestígios no Brasil de hoje, considerando as relações de trabalho e relações sociais em cada sistema.

  • Conceito de trabalho (trabalho, ócio e alienação) e sua importância na construção das identidades e relações sociais.

  • Relações sociais de gênero, geração e raça.


Convidado: Cláudio Nascimento

Resgatar as características dos sistemas de sociedade e a realização do trabalho em cada um deles. Refletir sobre o TRABALHO como aspecto fundamental para se compreender a formação das identidades e das relações sociais.

Debater as visões e conceito de trabalho, sob a ótica de gênero, geração, rural e urbano.



17.07

(Terça Feira)



Dinâmica de Grupo – resgate do dia anterior

Manhã e tarde:

  • História da Região: Movimentos históricos e lutas pré-sindicalistas

  • Exposição dialogada com Marilei Veroneze

  • Opção 1: visita ao Museu Júlio de Castilhos ou Santander; Opção 2: Sessão de Cinema




Conhecer a história da região sul e, resgatar lutas e movimentos históricos, como Farroupilha, Contestado, Revolta dos Colonos.




Dia

Tema e sub-temas

Objetivos




18.07

(Quarta Feira)



Dinâmica de Grupo – resgate do dia anterior

Manhã:

  • Diálogos Pedagógicos: Memória e Identidade

  • Dinâmica e Orientações para memorial

Tarde:

  • Estado, modelo de Estado e conseqüências do Projeto Hegemônico no Campo

  • Oficinas de Leitura

Refletir sobre elementos da identidade individual e coletiva nos processos formativos.

Recuperar a trajetória do Estado Brasileiro, suas configurações, concepção e formação da hegemonia. Debater sobre a intervenção do Estado no âmbito do desenvolvimento e suas conseqüências para o campo.

Introduzir a discussão do PADRSS enquanto alternativa ao modelo dominante.


19.07

(Quinta Feira)



Dinâmica de Grupo – resgate do dia anterior

Manhã:

  • Conjuntura internacional e Nacional: refletir sobre os cenários em nível nacional e internacional, com Rafael Cedro (Assessor Internacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário).

Tarde:

  • Estado, modelo de Estado e conseqüências do Projeto Hegemônico no Campo – Exposição dialogada com Ricardo Franzói (DIEESE)



Conhecer cenários conjunturais e contexto sócio-político e econômico nacional e internacional com foco na integração da América Latina.




20.07

(Sexta Feira)




Dinâmica de Grupo – Resgate do dia anterior

Manhã e tarde:

  • Atual contexto da relação Estado e Sociedade Civil: a participação política dos trabalhadores e das trabalhadoras nas políticas públicas.

  • Mapeamento de experiências e exposição dialogada.

16:00 – Passeio no Guaíba

Refletir sobre a trajetória do Estado brasileiro e o contexto da atual relação com a sociedade civil.

Debater sobre a participação dos/as trabalhadores na formulação, gestão e controle social das políticas públicas, considerando as experiências do MSTTR.








Dia

Tema e sub-temas

Objetivos

21.07

(Sábado)



Dinâmica de Grupo – Resgate do dia anterior

Manhã:

  • Diálogos pedagógicos: tempo comunidade

  • Reflexão e encaminhamentos sobre as atividades a serem desenvolvidas no período inter-módulos.

Tarde:

  • Avaliação e sistematização

  • Encerramento (16 horas)

Resgatar a estratégia multiplicadora da PNF, refletir sobre os compromissos coletivos, a relação tempo escola/tempo comunidade.

Encaminhar atividades para o tempo comunidade.


PROJETO POLITICO-PEDAGOGICO

DA FORMAÇÃO DO MSTTR

APRESENTAÇÃO

Este texto é uma versão preliminar do projeto político pedagógico da Política Nacional de Formação da CONTAG.
O processo formativo desencadeado pela Escola de Nacional de Formação e o processo de discussão da Política de Formação tem apresentando a necessidade de reformulação e acréscimos a esta versão, o que deverá ser feito nos espaços coletivos da Coordenação Pedagógica e Política da ENFOC, como também nos espaços regionais e estaduais de Formação.
Portanto, o texto que se segue está aberto a contribuição dos diferentes sujeitos que compõem o movimento sindical de trabalhadores(as) rurais, para que possamos reformular a atual Proposta.

 

A CONTAG, FETAGs e STTRs, buscam permanentemente, construir diretrizes político-pedagógico-metodológicas e vivenciá-las por meio de processos formativos que favoreçam o diálogo entre os diferentes sujeitos e saberes. Esta sistematização sobre o Projeto Político-Pedagógico – PPP da formação do MSTTR, ainda em caráter preliminar, é – ao mesmo tempo:



  • Uma releitura da prática formativa vivenciada e das lições aprendidas.

  • Uma projeção orientativa para todas as ações formativas do próprio MSTTR.

Ao perseguirmos tais objetivos, temos consciência que será preciso ampliar nossos olhares, mudar atitudes, rever comportamentos individuais e coletivos, de modo a favorecermos o exercício de “novas” práticas, que por sua vez fortaleçam a luta sindical e possibilitem ações transformadoras e libertadoras.

É nessa perspectiva que deve ser compreendida a constituição da Escola Nacional de Formação da CONTAG – ENFOC, a ser considerada como uma das principais estratégias de socialização, reflexão e atualização do PPP do MSTTR.

Assim o Projeto Político-Pedagógico não se reduz à Escola, por ser mais abrangente do que ela. O PPP implica necessariamente:


  • Na constituição e consolidação de espaços e instrumentos que evidenciem uma forte interação e integração entre as instancias organizativas (CONTAG, FETAGs e STTRs).

  • No incentivo para uma maior coesão e efetiva capacidade de resposta dos (as) dirigentes, assessores (as) e lideranças do MSTTR às demandas, desafios e perspectivas que estão postos para quem vive, trabalha e produz no espaço rural brasileiro.

Em síntese, o presente documento parte do contexto histórico-político do MSTTR, perseguindo dois focos: o binômio formação-organização e o Projeto Alternativo (PADRSS). Em seguida aprofunda os principais aspectos da pedagógica que se pretende implementar e consolidar: pressupostos, vertentes e princípios norteadores. Aborda – enfim – a questão das estratégias e dos instrumentos de uma gestão compartilhada do PPP, entre os quais se destaca a Escola Nacional de Formação.

O documento se desdobra em 04 capítulos:

Capítulo I: Contextualização histórico-política do MSTTR.

Nessa parte será feito um resgate da história do MSTTR, no contexto das grandes transformações vivenciadas no espaço rural. Os focos desse resgate serão dois, tendo ambos uma forte dimensão político-pedagógica:



  • O binômio formação-organização, visto como indivisível e com pólos relacionados dialeticamente entre si.

  • A construção do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário – PADRSS - destacando sua concepção e significado para a formação e organização dos trabalhadores/as rurais.

Os dois focos são partes constitutivas do PPP da formação do MSTTR e apontam a necessidade de construir e/ou consolidar a pedagogia para uma nova sociabilidade. Esta pedagogia passará a ser objeto de estudo no capítulo seguinte.

Capítulo II: Pedagogia para uma Nova Sociabilidade.

Nesse capítulo trataremos dos principais aspectos da pedagogia de formação que o PPP do MSTTR pretende consolidar. Explicitaremos:


  • Seus pressupostos.

  • Suas vertentes (formação programada e formação na ação).

  • Princípios norteadores.

Tanto os pressupostos, como as vertentes e os princípios abordados remetem, obrigatoriamente, para a projeção de estratégias e instrumentos que favoreçam uma gestão compartilhada da Proposta Pedagógica do MSTTR, como veremos a seguir.

Capítulo III: Estratégias e Instrumentos para uma Gestão Compartilhada do PPP

Aqui serão abordadas, mais precisamente, as exigências do PPP no sentido de assegurar uma maior organicidade e corresponsabilidade entre as instâncias do MSTTR (STTR, FETAG, CONTAG).

A Escola Nacional de Formação se constituirá numa das estratégias que visa dinamizar, ampliar e sistematizar os processos formativos do MSTTR. Este será o objeto de estudo do capítulo final.

Capítulo IV: Linhas gerais da ENFOC e de seu funcionamento

Este capítulo final pretende abordar aspectos relacionados diretamente com a Escola Nacional de Formação da CONTAG (ENFOC), detalhando o desenho organizacional, com seus espaços políticos e administrativos, bem como, sua estratégia formativa.

O presente documento pretende tornar-se efetivamente um instrumento orientador e estimulador de novas práticas e experimentos pedagógico-metadológicos, estabelecendo um permanente diálogo com a ação do MSTTR. Desta forma, o texto deverá:


  • De um lado, se tornar uma oportunidade para questionar e rever visões, atitudes e comportamentos.

  • Do outro, receber critica e observações, para ser aprimorado, sempre avaliado, redimensionado e sistematizado, a partir das próprias experimentações que tiver estimulado e consolidado.

CAPÍTULO I – CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICO-POLÍTICA DO MSTTR1

As organizações sociais do campo - em especial, as Ligas Camponesas, o Máster, a ULTAB - nasceram questionando e denunciando as desigualdades, especialmente àquelas relacionadas a concentração de terra e de renda. A organização sindical dos Trabalhadores (as) Rurais - primeiro os Sindicatos, depois as Federações e por fim a CONTAG - deu continuidade às lutas contra o latifúndio e em defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras.

Com o passar do tempo, os (as) dirigentes, as lideranças e assessorias do MSTTR, perceberam que não bastava se contrapor ao latifúndio; era preciso explicitar a discordância acerca do modelo agropecuário brasileiro e propor alternativas concretas à lógica dos trabalhadores (as) rurais. Foi assim que levantou-se a bandeira da reforma agrária enquanto principal alternativa viável de distribuição de renda e promoção de igualdade social, econômica e política no campo.

Contrariamente a isto, o neoliberalismo – “ideologia que dá sustentação ao processo material concreto da reestruturação produtiva sob a lógica da globalização excludente” 2 , - ascendia em escala mundial. No Brasil, a diminuição do papel social do estado, o combate às organizações de trabalhadores (as), além do sucateamento das instituições como o INCRA, e as estruturas de Assistência Técnica estatal, dentre outras, foi percebida enormemente pelos trabalhadores (as) rurais.

À medida que o acesso à informação, inclusive no campo, se ampliava, a disputa de idéias ficava mais acirrada e desigual, o neoliberalismo se apresentava enquanto única alternativa para a humanidade, produzindo a morte do espanto e da rebeldia diante da sociedade da informação, tornando “naturais” as relações orientadas pela lógica do lucro e não das necessidades humanas.

Os trabalhadores (as) e suas organizações, sobretudo o MSTTR, passaram a elaborar uma proposta de desenvolvimento que fosse sustentável, includente e democrática, que resgatasse a cultura e a identidade da classe trabalhadora. Surgiu então o Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário – PADRSS, tendo como referencial político as demandas do campo e suas interfaces com a cidade.

Compreendia-se, também, que não bastava elaborar um Projeto ALTERNATIVO de sociedade. Era necessário, sobretudo, fazer com que ele fosse assumido por parcelas significativas da classe trabalhadora e que sua implementação acontecesse de fato. O momento atual exige que milhares e milhares de trabalhadores (as) tenham uma visão crítica da realidade e capacidade política e organizativa.

Neste contexto, o 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores (as) Rurais, em março de 2005, avaliou que o conjunto das conquistas alcançadas até então, já apontava para mudanças em vários aspectos, especialmente os relacionados à formação políticas de militantes do MSTTR, que embora pautada insistentemente pelos trabalhadores/as, não havia, até então ganhado dimensão estratégica e prioritária nas ações da CONTAG. Por este motivo os delegados/as, neste mesmo Congresso, decidiram pela elaboração imediata de estratégia pedagógico-metodológica que “articule a formação política e sindical, qualificação profissional, desenvolvimento local e educação do campo”, de forma permanente e continuada.

Foi neste mesmo Congresso que se decidiu pela constituição da Escola Nacional de Formação Política e Sindical – ENFOC, com missão de fazer formação política e ideológica, de forma sistemática e continuada, para dirigentes, assessores/as e lideranças de base do MSTTR, capaz de lhes dar condições efetivas para a disputa de idéias e de projetos que ocorre, no cotidiano da ação sindical.

1. O BINÔMIO FORMAÇÃO – ORGANIZAÇÃO SINDICAL.

Na história do MSTTR a formação e a organização se constituem num binômio indivisível. O resgate e o fortalecimento de um dos dois pólos deste binômio remete necessariamente ao outro. Ambos são espaços e instrumentos de lutas: eles foram gradativamente consolidando sua unidade, até confluírem - mais recentemente - na elaboração do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário/PADRSS. Nesse Projeto a dimensão formativo-organizativa é parte constitutiva de uma concepção política e pedagógico-metodológica que fundamenta e orienta toda a ação sindical, em suas várias instâncias: CONTAG, Federações e Sindicatos.



ASPECTOS DA ORGANIZAÇÃO SINDICAL

A organização das entidades sindicais de trabalhadores rurais recebeu em sua origem, forte influencia do Partido Comunista, da Igreja Católica, do sindicalismo urbano e do Estado. Apesar da grande mobilização política para a criação da CONTAG, em 1963, o Golpe Militar, no ano seguinte, arrefeceu a criação de mais entidades sindicais ligadas a setores progressistas.

Contudo, em 1968, os trabalhadores (as) rurais retomaram a direção da CONTAG e desencadeou um intenso processo de fundação de Sindicatos e Federações Estaduais por todo o país, enquanto estratégia organizativa e unificadora do MSTTR3.

A partir de 1979, a CONTAG já era muito diferente daquela entidade criada em 1963. Seja em abrangência territorial, representatividade e importância política, neste ano, 1.600 delegados de 23 estados, realizaram em Brasília o 3º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais. Dentre as deliberações deste congresso, destaca-se o debate sobre a criação de uma Central Sindical Única4, capaz de englobar todos os trabalhadores brasileiros e unificar suas lutas.

A sociedade brasileira – principalmente as organizações sociais - estava nesta efervescência política que vivia o mundo. Nesse contexto devem ser compreendidas a luta pela Anistia aos presos e exilados políticos, a pressão social pela redemocratização do país e pelas “Diretas Já!”. As oposições sindicais eram estimuladas no campo e na cidade, na perspectiva de retomar as entidades sindicais que estavam nas mãos de segmentos conservadores e atrelados ao Estado e/ou ao patronato.

Nesse contexto, constituíam-se outros partidos, legalizavam-se outros e, ocorriam debates, reuniões, encontros e articulações para a criação da Central Única dos Trabalhadores – CUT, com forte participação de dirigentes do MSTTR.

A aprovação da filiação da CONTAG à CUT, veio a ocorrer em 1995, durante o 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais, promovendo significativos avanços na organização e políticas do MSTTR. Destacam-se a ampliação das bandeiras de luta, da organização interna por secretarias, a construção de diagnostico quantitativo e qualitativo da realidade rural – Projeto CUT/CONTAG, além de uma maior interlocução entre as demandas e políticas do campo e da cidade.

Atualmente, o MSTTR é constituído por 4.100 Sindicatos de Trabalhadoras e Trabalhadoras Rurais - STTRs, 250 pólos/regionais e, 27 Federações Estaduais, que credenciam a CONTAG como a maior Confederação de Trabalhadores e Trabalhadoras da América Latina. Essas entidades, apesar das suas distintas origens e trajetórias, foram constituídas em bases políticas comuns, que as unificam. Destacam-se: o vínculo com as comunidades rurais, a forte ênfase no trabalho de base; a defesa da categoria, referenciada na luta pela terra; a organização de uma base sindical ampla em termos de categoria (agricultura familiar - proprietários, meeiros, parceiros, arrendatários - assalariados/as rurais); e, ainda, a priorização de políticas que favoreçam o desenvolvimento com inclusão social.

O MSTTR possui espaços internos dinâmicos e democráticos - realiza conselhos, congressos e plenárias - como instâncias deliberativas de políticas macro para a categoria; organiza coletivos nacionais, estaduais e municipais - como espaços de reflexão sobre as políticas de interesse da classe trabalhadora.

Apesar disto tudo, ainda se faz necessário romper com o permanente desafio da centralidade do poder presidencial, a pouca transparência interna, a inconsistente organicidade entre as entidades (CONTAG, Fetags e STTRs), dificultando a implementação e consolidação do PADRSS.

Tudo isso não diminui em importância os passos dados, sobretudo no que diz respeito à organização sindical. Nesta diversidade emergem novos sujeitos5, em especial as mulheres trabalhadoras rurais, que fazem opção de articular a luta feminista com a luta sindical e - mais recentemente - com a juventude trabalhadora rural, que juntamente com as mulheres dinamiza o sindicalismo rural, provocando debates até então não realizados pelo MSTTR: sobre a valorização integral dos sujeitos e suas especificidades; sobre a luta contra a opressão e subordinação vivenciadas pelas mulheres; sobre as discriminações e os preconceitos que historicamente atingem os jovens, idosos/as, negros/as e os diversos grupos étnicos que compõem as populações rurais.

Estes “novos sujeitos” foram desafiando cada vez mais o MSTTR nas dimensões subjetivas e objetivas das relações e em suas representações sociais, simbólicas, culturais, produtivas, reprodutivas, étnicas... Foram alterando consideravelmente a dinâmica política e organizativa das entidades sindicais, a exemplo da constituição das Comissões (Nacional, Estaduais e Municipais), da política de cotas, além da inclusão de novas abordagens na agenda política do MSTTR.

Essa nova situação foi exigindo das organizações dos trabalhadores (as) rurais mudanças na forma organizacional tradicional, para responder com rapidez e dinamismo aos desafios impostos pela luta sindical contemporânea. Constituíram-se, então, direções ampliadas na CONTAG e - gradativamente - nas Federações e Sindicatos6: por meio de Secretarias e Coordenações7 busca-se dar respostas cada vez mais específicas às demandas cotidianas dos trabalhadores (as) rurais.

Esta forma de organização sindical teve rebatimentos no exercício da gestão das organizações e das lutas sindicais: as políticas que antes eram encaminhadas, basicamente, apenas por 03 (três) pessoas (presidente, secretario geral e tesoureiro) passaram agora a serem desenvolvidas por um conjunto de diretores/as, composto em sua maioria, por 11 (onze) pessoas.

Na medida em que foi crescendo – ao longo da história do MSTTR – a organização, em seus vários níveis, cresceu e se multiplicou também a ação formativa, de modo que:


  • De um lado, os processos formativos se beneficiaram sempre mais com as várias formas de organização sindical.

  • Do outro, as novas formas organizacionais do MSTTR se consolidaram graças aos avanços nos processos formativos.

Desta maneira a organização e a formação foram se tornando um binômio indivisível, como dizíamos acima.

Destacaremos, a seguir, alguns aspectos mais específicos da formação.



ASPECTOS DA FORMAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS

Inicialmente era mais nas lutas imediatas que as lideranças acumulavam experiências e se capacitavam devido - principalmente - à ausência de um processo de formação mais sistemático que, com o passar do tempo, se impôs como uma tarefa inadiável e imprescindível pa­ra o avanço da organização e da luta da classe trabalhadora.

Para se entender a formação desenvolvida pela CONTAG após sua retomada pelos trabalhadores em 1968, se faz necessária uma maior compreensão do momento político que o país vivia após o Golpe de Estado ocorrido em março de 1964. Durante os anos duros, vários dirigentes sindicais foram mortos, cassados ou exilados. Os que conseguiram manter-se nas direções sindicais precisaram de muita criatividade para garantir – ao mesmo tempo - a luta cotidiana e a critica ao regime imposto pelos militares.

Naquele contexto, qualquer atividade desenvolvida pela CONTAG, algumas FETAGs e STRs, eram oportunidades únicas para estimular uma visão critica da realidade conjuntural. O jornal da CONTAG – O Trabalhador Rural8 – dedicava-se a difundir matérias sobre sindicalismo, papel das lideranças sindicais, noções de administração sindical, dentre outras, sempre com criatividade, recorrendo a poesias, repentes e musicas escritas por trabalhadores rurais que faziam uso de pseudônimos para fugir de represálias dos órgãos de repressão do governo militar.

O programa de ”educação sindical9” implementado no início dos anos 70, foi a primeira iniciativa de caráter formativo desenvolvido pelo MSTTR: atingindo um significativo número de dirigentes e assessores/as das Federações e dos Sindicatos, dentre os instrumentos pedagógico-metadológicos utilizados, valorizava de forma especial o sociodrama, que priorizava a expressão oral e corporal, para estimular uma visão critica daquele momento que o país vivia, sem chamar a atenção dos órgãos de controle e repressão do governo militar.

Mais adiante, a CONTAG desenvolveu com o DIEESE um amplo programa educativo para assalariados/as rurais, sobre negociação e acordos coletivos, campanhas salariais e política sindical, que se somam aos demais temas como: reforma agrária, crédito, comercialização, previdência, educação, dentre outras.

Estes processos formativos foram fundamentais para estimular/promover a resistência dos trabalhadores (as) rurais durante a ditadura militar, consolidar a organização interna do MSTTR e as lutas específicas dos trabalhadores (as) rurais, além da sua inserção nas lutas gerais da sociedade brasileira.

Mais foi a partir dos últimos anos da década de 80 e nos primeiros anos da década de 90 que a formação desenvolvida pelo MSTTR deu passos significativos, quanto à concepção, ao público prioritário, ou ainda, quanto às abordagens metodológicas utilizadas. Contribuíram para isso vários fatores: o crescimento no nível de organização sindical; o surgimento de outros sujeitos políticos no campo; a descentralização de políticas públicas, que impunham ao MSTTR, uma ação política mais articulada nos municípios, estimulando uma pratica sindical fortemente voltada para a base.

A formação sindical incorporou esses desafios e apontou ‘caminhos’ que possibilitaram o fortalecimento do MSTTR neste novo cenário. Nesse contexto, foi formulado e desenvolvido o Projeto de Pesquisa e Formação Sindical CUT/CONTAG, identificando potencialidades produtivas e organizativas dos trabalhadores (as) rurais, levando em conta a diversificação dos sujeitos e de suas organizações. Foram tipificadas e caracterizadas por região10 26 dinâmicas de desenvolvimento11, que possibilitaram ao MSTTR traçar estratégias políticas e organizativas de curto e médio prazo.

Outro instrumento decorrente desse momento histórico foi o Programa de Desenvolvimento Local Sustentável – PDLS, conjugando ações de formação programada com ações de formação na ação, com forte caráter e efeito capacitador, multiplicador e de mobilização.

Em 2005, o 9º CNTTR analisou como positivas as experiências formativas desenvolvidas pelo MSTTR, mas, apontou a necessidade de uma formação política e ideológica continuada e a constituição de uma Escola Nacional de Formação Política e Sindical da CONTAG, que articule e seja articulada por todos os processos formativos desenvolvidos pelo MSTTR, por meio de suas secretarias e coordenações específicas.

Tanto a formação continuada como a Escola passaram a ser vistas como instrumentos fundamentais na construção do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário.

Tentaremos, a seguir, aprofundar os principais componentes desse Projeto.



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