2. a ilha do pico: revisão dos conhecimentos



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2. A ILHA DO PICO: REVISÃO DOS CONHECIMENTOS





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este capítulo apresenta-se uma resenha dos principais elementos disponíveis sobre a ilha do Pico, dando-se particular ênfase aos dados relevantes para o estudo agora efectuado, mas que não constituem, por si só, o objecto de investigação primordial. Neste contexto, passam-se em revista os conhecimentos disponíveis nos domínios do vulcanismo histórico, sismicidade, magnetismo, gravimetria e geodesia, entre outros.

A temática associada à geologia e à história vulcânica da ilha do Pico serão objecto de abordagem detalhada nos capítulos subsequentes, pelo que só marginalmente estes tópicos serão aflorados no presente capítulo.

2.1. CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ILHA DO PICO

A ilha do Pico está separada da ilha do Faial por um canal com cerca de 6 km de largura e uma profundidade média de 95 m, a Norte do alinhamento Ponta da Espalamaca-Ilhéus da Madalena, enquanto que a Sul daquele alinhamento a profundidade média das águas é de cerca de 140 m (IH, 1942). A ilha de São Jorge está localizada a Norte da ilha do Pico, a cerca de 18 km, separadas por um canal com profundidades na ordem dos 1200 m.

A ilha do Pico, que apresenta um alinhamento geral segundo o azimute N108º, possui um comprimento máximo de 46,35 km, entre a Ponta do Arieiro (Madalena) e a Ponta da Ilha (Manhenha). A sua largura máxima, medida perpendicularmente ao máximo comprimento, é de 16,05 km, entre a Ponta Negra (Cabrito) e a Lage do Cavalo (Ponta de São Mateus). O perímetro da ilha é de cerca de 119 km.

A ilha do Pico ocupa uma área planificada de 446,4 km2 e o seu ponto mais elevado localiza-se no topo do cone do Piquinho (ou Pico Pequeno), a 2351 m. No sector oriental da ilha as maiores altitudes são atingidas no marco geodésico de Caveiro (1076 m) e na região do Topo (1022 m).




Administrativamente, a ilha do Pico compreende as freguesias de Calheta do Nesquim, Lajes do Pico, Piedade, Ribeiras, São João, Ribeirinha, Bandeiras, Candelária, Criação Velha, Madalena, São Caetano, São Mateus, Praínha, Santa Luzia, Santo Amaro, Santo António e São Roque do Pico, distribuídas por três concelhos de acordo com a repartição geográfica indicada na Figura 2.1. Os aglomerados populacionais da ilha dispõem-se ao longo do litoral, onde, de acordo com o XIII Recenseamento Geral da População (INE, 1992), residiam 15 129 pessoas, distribuídas pelos concelhos de Lajes do Pico (5508), Madalena (5962) e São Roque do Pico (3659).

Fig. 2.1. Organização administrativa da ilha do Pico.

Em termos genéricos e à semelhança das restantes ilhas do arquipélago, o clima da ilha do Pico é temperado oceânico e caracteriza-se por temperaturas amenas (com pequenas amplitudes térmicas anuais), precipitação regular ao longo de todo o ano, elevada humidade relativa do ar, céu em geral nublado e frequentes ventos fortes. De acordo com Cruz (1997), que apresenta uma caracterização detalhada do clima da ilha do Pico, a precipitação média anual atinge maiores valores em altitude (variando entre 4547 mm/ano e 3168 mm/ano, para cotas entre 750-800 m), enquanto que junto ao litoral Norte, a cotas inferiores a 100 m, a precipitação média anual oscila entre 1002 mm/ano e 1895 mm/ano. Na costa Sul da Montanha, as precipitações são sensivelmente idênticas, embora não atingindo o valor máximo anteriormente indicado (Cruz, 1997).

No que respeita à distribuição mensal da precipitação verifica-se que, genericamente, é durante a estação invernosa que ocorre a precipitação mais significativa, verificando-se que desde finais de Setembro a finais de Março ocorre cerca de 75% da precipitação anual. A pluviosidade é controlada por factores geográficos, sendo mais elevada nas vertentes Norte da ilha relativamente às encostas viradas a Sul, em grande parte devido ao facto das correntes de SW (predominantes na estação invernosa) apresentarem uma elevada capacidade pluviogénica. Deste modo, foi possível estimar precipitações anuais na ordem de 7500 mm/ano a cotas de 2000 nas vertentes viradas a NE da Montanha do Pico (Cruz, 1997).

Dois fenómenos climáticos assumem uma importância acrescida na ilha do Pico, atendendo às altitudes atingidas: a queda de neve e a presença de nevoeiros. No primeiro caso, esta é mais significativa entre Janeiro e Março e dá-se sobretudo a cotas superiores aos 1500 m. É essencialmente no troço da Montanha de cotas superiores a 2000 m que a cobertura de neve pode persistir por um período de tempo considerável, variável consoante o rigor do inverno e a exposição do relevo (Cruz, 1997). O nevoeiro, por seu turno, é mais frequente no Verão, nomeadamente no mês de Junho e, no caso da ilha do Pico, resulta de um complexo sistema de circulação do ar, em virtude da influência provocada pelo relevo da Montanha (Cruz, 1997). Para além das zonas mais elevadas da Montanha, é usual a existência de nevoeiros ou cobertura nebulosa na zona oriental da ilha, designadamente nas zonas mais elevadas do Planalto da Achada, sobretudo na parte final do dia.

No que diz respeito à temperatura, esta varia regularmente ao longo de todo o ano, observando-se os valores mais elevados em Julho e Agosto (Temp. média de 22ºC-23ºC) e os mais baixos em Janeiro e Fevereiro (Temp. média de 13ºC-14ºC). Segundo Cruz (1997), a temperatura média anual é de 17,4ºC e a taxa de variação da temperatura com a altitude é de –0,6ºC/100 m. Os ventos predominantes na ilha são os do quadrante SW (Figura 2.2), embora nos meses de Outubro a Dezembro sejam mais comuns ventos do quadrante S e nos meses Maio e Julho haja uma predominância de ventos do quadrante NE. De acordo com dados disponibilizados pelo INMG, relativos ao período 1983-1993 e medidos no Aeródromo do Pico, as velocidades médias mensais variam entre 11,4 km/h (em Julho) e 20,9 km/h (em Janeiro). Os valores mais elevados de velocidades médias, por seu turno, são atingidos com ventos do quadrante SW (28,3 km/h e 27,4 km/h, em D
ezembro e Fevereiro, respectivamente) e do quadrante NW (27,3 km/h, em Janeiro).

Fig. 2.2. Distribuição por quadrantes da frequência mensal dos ventos que ocorrem na ilha do Pico (período 1983-1993). Fonte: INMG.

2.2. DESCOBERTA E POVOAMENTO

Não se conhece a data exacta da descoberta da ilha do Pico, nem o nome ou nomes dos seus descobridores, mas, de acordo com Costa (1997), pode deduzir-se que no ano de 1439 a existência da ilha do Pico, conjuntamente com a do Faial, seria já do conhecimento da Coroa Portuguesa. De facto, apesar das primeiras viagens de reconhecimento do arquipélago açoriano (com o objectivo de lançar gado nas várias ilhas) terem ocorrido entre 1431 e 1432, a primeira referência das autoridades portuguesas sobre as ilhas dos Açores corresponde a um documento datado de 2 de Julho de 1439, no qual se autoriza a colonização das 7 ilhas já conhecidas, com exclusão das ilhas de Flores e Corvo, não descobertas à data (Costa, 1997).

Se não é possível datar com precisão a descoberta da ilha do Pico, a mesma dificuldade existe quando se pretende definir com rigor a data inicial do seu povoamento. Ainda segundo Costa (1997) terá havido um natural intervalo de tempo entre a descoberta e o povoamento desta ilha, atendendo a que os primeiros povoadores dos Açores se estabeleceram nas ilhas de Santa Maria e São Miguel, descobertas primeiro e localizadas mais perto da metrópole.

Embora a partir de 1470 tenha ocorrido um processo de consolidação do povoamento das ilhas dos grupos oriental e central do arquipélago (Costa, 1997), o povoamento da ilha do Pico esbarrou com algumas dificuldades em atrair e fixar os habitantes, devido a factores como a difícil abordagem marítima (orla marítima de desenho retalhado e alcantilado), a natureza geológica dos terrenos (designadamente uma predominância de terrenos pedregosos) e os recursos de água disponíveis.

Estas dificuldades consubstanciavam-se na inexistência de um ancoradouro naturalmente seguro para o desembarque, a pobreza dos solos existentes na quase totalidade da ilha do Pico e a predominância de formações lávicas, muito permeáveis, que, facilitando a rápida infiltração das águas, se traduzia no reduzido número de ribeiras e riachos existentes. Por consequência, o abastecimento de água no passado, questão fundamental para a fixação da população, era sazonal e regulado precisamente pela época de maior pluviosidade (Costa, 1997). Tal circunstância terá obrigado não só as populações a servirem-se de várias estratégias com vista à obtenção de água, como condicionou decisivamente a localização inicial do povoamento da ilha do Pico (Costa, 1997).

O conjunto de vicissitudes encontrado pelos primeiros povoadores está bem patente no texto de Frei Agostinho de Mont’Alverne (1962): “O primeiro homem que se acha haver entrado nesta ilha, para a povoar, foi um Fernão Álvares Evangelho, que vindo-a buscar pela parte do sul, saltando em terra com um cão, o mar se lavantou de sorte que a barca tornou para a caravela em que veio, que não apareceu senão passado um ano, sustentendo-se dos porcos que matava, que os havia na terra, com muito gado de toda a sorte, que o Infante Dom Henrique, quando se descobriram as ilhas, de toda a sorte mandou botar. Passado o ano, tornou a caravela buscar a ilha, por aquela parte do sul, vindo com melhor maré, ele os encaminhou para o porto onde hoje é a freguesia das Ribeiras; nele saltaram e povoaram, sendo os primeiros povoadores Fernão Álvares e Jordão Álvares; este povoou-a onde saltaram, o outro pela Ribeira do Meio”.

Assim, só a partir de finais do século XV se consolida o povoamento da ilha do Pico, atendendo a que o Faial foi povoado a partir de 1450 e que, durante algum tempo, a ilha do Pico “não a querendo pouorar de gente” foi utilizada unicamente “para creação de gado aos moradores da dita Ilha do fayal” até que “acharmos alguem que a queira pouorar” (Arruda, M.M.V. in: Costa, 1997).

Como se deduz das informações anteriormente apresentadas, e segundo Costa (1997), o povoamento da ilha do Pico inicia-se, então, por volta do ano de 1482, pelo lado Sul, na zona das Ribeiras, a que se seguiu um outro núcleo na zona da Ribeira do Meio. A constituição do primitivo núcleo habitacional na costa Sul da ilha do Pico leva à formação do município das Lajes do Pico, em 1503, data em que as crónicas da época referem a existência da vila das Lajes (Costa, 1997). O povoamento da zona Norte da ilha desenvolve-se a partir do ano de 1510 e, perante o aumento da população e a sua dispersão pela ilha do Pico, é criada, no ano de 1542, a Vila de São Roque do Pico (Costa, 1997). A existência de dois concelhos na ilha do Pico prolonga-se até à criação da Vila da Madalena, por alvará de Março de 1723, face à sua crescente importância económica e à estreita relação com a ilha do Faial.

No que à origem dos povoadores diz respeito, a maioria dos cronistas sustenta que os primeiros habitantes terão vindo da ilha do Faial, sendo de considerar, neste contexto, um importante contributo flamengo no povoamento da ilha do Pico. Segundo Costa (1997), é natural que muitos dos primeiros povoadores (portugueses e flamengos que já se encontravam noutras ilhas) tivessem vindo directamente da ilha Terceira, e não do Faial, atendendo à rota usual das caravelas (percurso segundo orientação de sudeste) e ao facto do povoamento se ter iniciado pela zona das Lajes do Pico.

2.3. VULCANISMO HISTÓRICO

Desde a descoberta e povoamento da ilha do Pico, está referenciada nos acervos históricos a ocorrência de três erupções vulcânicas (Figura 2.3), que deram origem aos popularmente designados “Mistérios” da Praínha (1562-64), Santa Luzia (1718), São João (1718) e Silveira (1720). A erupção de 1718, para além dos dois focos eruptivos subaéreos atrás indicados, apresentou uma fase submarina localizada no mar, a Sul de São João. Mais recentemente, é indicada a ocorrência de uma outra erupção submarina, a Norte de C
achorro (Santa Luzia), no ano de 1963, cuja ocorrência e natureza, como discutido posteriormente, não é consensual.



Fig. 2.3. Localização das erupções vulcânicas históricas da ilha do Pico e respectivas manchas cartográficas.

A principal fonte bibliográfica sobre essas erupções é a obra de António Lourenço da Silveira Macedo intitulada “História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta”, um original datado de 1871 que foi reproduzido e completado, com outros acervos históricos, por Ernesto do Canto, na sua notável obra “Arquivo dos Açores”. Diversos autores, de entre os quais se destacam Agostinho (1935), Machado (1956 e 1962), Zbyszewski (1963), Weston (1964), Forjaz (1980a), Mitchell-Thomé (1981), França et al. (1995) e Cruz et al. (1995) apresentam abordagens complementares, em grande parte fundamentadas nas obras anteriormente citadas. Na presente abordagem, é dado particular destaque e atenção à análise dos elementos constantes nos textos de A. Macedo, de modo a permitir uma caracterização detalhada das erupções vulcânicas que ocorreram na ilha do Pico após o seu povoamento.



2.3.1. Erupção de 1562/64 – Praínha

A erupção vulcânica ter-se-á iniciado na noite de 20 para 21 de Setembro de 1562 (Machado, 1962), sendo acompanhada de explosões, tremores de terra e relâmpagos. A data indicada para o início desta erupção, ou seja, as duas horas da madrugada do dia 21 de Setembro, segunda-feira, está igualmente indicada nas descrições de Macedo (1981a) e Anónimo (1986).

De acordo com os dados coevos, o início da erupção teve lugar numa pequena elevação, o Pico do Cavaleiro, onde as correntes de lava nasciam e fluíam para Norte, em direcção “…ao mar para a parte da serra Ventosa” (Macedo, 1981a). Na sequência da erupção da Praínha edificaram-se neste local, a uma cota aproximada de 800 metros, os designados “Cabeços do Mistério” (Foto 2.1), um conjunto de cinco cones de escórias e de spatter, com um total de sete crateras, alinhados segundo uma orientação geral WNW-ESE.

A partir dos dados reportados por Macedo (1981a) foi possível caracterizar a evolução inicial da erupção. Assim, no dia 23 de Setembro caiu grande quantidade de cinzas na ilha de São Jorge, durante cerca de meia hora, enquanto que na ilha do Pico, reporta-se a queda de “pedra como nozes” (piroclastos da dimensão lapilli). No dia 24 de Setembro começaram a correr grandes rios de lava em direcção ao mar, enquanto que no dia 26 de Setembro, “ao sabbado á noite se abriram dois fogos muito grandes na serra Ventosa” e grande quantidade de cinzas caiu na ilha de São Jorge.

A fase inicial da erupção está, igualmente, bem documentada em Fructuoso (1978): “arrebentou o fogo, fazendo cinco bocas muito grandes; sendo uma dellas a principal e maior, de que manou uma grande ribeira de polme, que corrêo para a banda do norte, por espaço de legoa e meia até cair pela rocha abaixo, e fazer um grande caes abaixo da rocha, aonde se espraiou aquelle polme”. Assim, depois de saírem da boca eruptiva, as escoadas lávicas movimentaram-se para Norte, numa extensão de cerca de 3 km, precipitando-se no oceano, sobre a arriba, muito declivosa. Daqui resultou a formação da arriba fóssil e da fajã lávica (cf. Capítulo 3) da Ponta do Mistério, devido ao avanço da linha de costa, na sequência dos volumes de lava emitidos e a sua acumulação na base da falésia costeira (Foto 2.2).

Há diversos aspectos relacionados com esta erupção que se desconhecem ou que estão mal referenciados nos documentos antigos: é o caso da existência de vítimas ou de prejuízos elevados. De facto, nos dados reportados, para além de não se mencionar a morte de pessoas ou animais, não se referem igualmente os potenciais prejuízos causados pela queda de cinzas e pelos “grandes” sismos ocorridos. Com efeito, apenas Fructuoso (1978) indica que as escoadas lávicas destruíram diversas “fazendas” (quintas), enquanto que Weston (1964) menciona a destruição de milhares de arbustos e árvores de grande porte, incendiadas pelas escoadas lávicas. Macedo (1981a), fornece importante informação adicional, ao escrever: “tendo devastado (as escoadas) extensas planícies de terras e casas na freguesia de Nossa Senhora d’Ajuda da Prainha do Norte, onde ficou um extenso mysterio, tendo sido destruida a egreja parochial”.

Do mesmo modo, não há menção histórica explícita às correntes de lava emitidas dos Cabeços do Mistério e que fluíram para Sul, em direcção à Silveira e que levantamentos de campo efectuados por diversos autores mostraram existir (cf. Figura 2.3). Finalmente, não é possível datar com precisão o fim desta erupção. De acordo com Macedo (1981a) do Pico do Cavaleiro “ha oito ou nove mezes corriam quarenta e tantas ribeiras de fogo ao mar, que todas nasciam deste pico, e correram assim nesta fortaleza passante de dois annos”, o que tornaria esta erupção na mais prolongada dos Açores (Machado, 1962 e Weston, 1964).

Na sequência da elevada actividade vulcânica e sísmica que caracterizou a fase inicial da erupção, muitos dos moradores da Ilha do Pico, temerosos que esta fosse coberta pelos rios de lava, abandonam a ilha procurando refúgio nas ilhas vizinhas de São Jorge, do Faial e da Terceira, pelo que a ilha do Pico ficou em parte despovoada, principalmente nas comarcas do Norte (Fructuoso, 1978).

Elemento particularmente importante na erupção da Praínha, foi a ocorrência de sinais sísmicos precursores cerca de um mês antes da erupção, tal como se deduz dos acervos consultados. Assim, os precursores sísmicos terão tido início no dia 23 de Agosto de 1562, dia em que quatro abalos foram sentidos na ilha do Pico e na vizinha ilha de São Jorge (Macedo, 1981a e Machado, 1962). Na ilha do Pico, a terra tremeu todos os dias até ao dia 17 de Setembro, e num só dia houve 24 sismos sentidos.

Segundo Macedo (1981a), no dia 20 de Setembro, véspera da erupção, a terra tremeu fortemente na ilha do Pico, enquanto Fructuoso (1978) reporta que a erupção começou “tremendo primeiro a terra em um terço de hora deseseis vezes, com continuos, horrendos abalos, e tão grandes estrondos”. Tal como se deduz da afirmação de Fructuoso (1978), é provável que, à semelhança do que acontece noutros sistemas vulcânicos basálticos idênticos, aquela actividade sísmica tenha sido de baixa magnitude, apesar de intensa e contínua.

Um último aspecto que parece estar retratado nos documentos coevos, para além da grande quantidade de rios de lava observados, é a fluidez das lavas emitidas, facto que os dados de campo confirmam. Com efeito, segundo os relatos dos marinheiros espanhóis da nau “Nossa Senhora da Luz” (Anónimo, 1986), os habitantes terão abandonado a ilha do Pico, pois a lava ia “corriendo y creciendo tanto que casi que andava tanto como ellos”, indicando, igualmente, que do local onde se iniciou a erupção ”lleno de bocas de fuego, y de aquella laguna (de fogo) se reparte doze riberas de fuego que corre por la mar ardiendo que parece agua”.


  1. Erupção de 1718 – Foco de Santa Luzia

A partir dos elementos compilados é possível traçar uma cronologia dos principais acontecimentos ocorridos na ilha do Pico naquele mês de Fevereiro de 1718. A principal dificuldade reside no facto de, nas descrições históricas, se abordarem quase em simultâneo os fenómenos ocorridos nos três focos principais da erupção de 1718 (Santa Luzia, São João e no mar, junto à costa Sul), pelo que, por vezes, não é possível discernir, com rigor, a que fase eruptiva se referem os dados reportados.

Assim, depois de “se sentirão por muitos dias grandes tremores de terra, e uns estrondos tão espantosos…a que elles chamão trovões secos” (Anónimo, 1881), a erupção de Santa Luzia teve início cerca das 6 horas da manhã no dia 1 de Fevereiro de 1718, acompanhada, horas antes, de fortes abalos sísmicos. Nas primeiras horas da erupção, esta foi essencialmente explosiva, com a emissão de grande quantidade de piroclastos a partir de “quatro boccas na falda da montanha do Pico, entre as freguesias de Santa Luzia, e das Bandeiras” (Macedo, 1981a).

De facto, durante o dia 1 de Fevereiro, na freguesia de São Mateus, “deitando este fogo tantas cinzas … foi precizo aos seus moradores desampararem o logar, porque o presumiam mais perto de si” (Macedo, 1981b). A população, assustada face à queda de grandes quantidades de cinzas na zona, organiza uma procissão em direcção à freguesia de São João, “cujo transito lhes custou muito a respeito das grandes gretas (fendas), com que estava aberta a terra, por onde passavão” (Macedo, 1981b).

É sobretudo a partir da noite deste dia que a fase efusiva da erupção se desenvolve, em que “n’aquella noite (1 de Fevereiro) começou o fogo a correr, e em menos de seis horas chegou o fogo ao mar” (Macedo, 1981a), percorrendo a escoada lávica uma distância de cerca de 8900 m, desde as bocas eruptivas até à costa Norte da ilha do Pico (cf. Figura 2.3).

Na madrugada do dia dois tendo cessado a violência do fogo da parte do norte” (Macedo, 1981a) inicia-se uma nova fase da erupção de 1718, desta vez na vertente Sul da Montanha do Pico sobranceira à freguesia de São João (cf. Figura 2.3), mantendo-se, contudo, durante alguns dias, a actividade vulcânica simultânea nos dois locais. Desconhece-se a duração exacta da actividade vulcânica na parte Norte da Montanha, sendo certo que “em poucos dias se extinguio o incendio d’aquella parte” (Macedo, 1981a) e que no dia 3 de Fevereiro de 1718 “sahirão do alto de hum monte situado nas fraldas do mesmo Pico, tres rios de fogo, que correndo para a parte do Norte…com largura de dez até doze braças foy descendo para o mar…com tanta porção de matéria, que gastou tres dias n’este curso” (Anónimo, 1881). Segundo Weston (1964), esta fase teria demorado duas ou três semanas, o que não tem confirmação directa nos acervos históricos consultados.

Os danos causados por esta erupção incluem a destruição, pelas escoadas lávicas, de “grande quantidade de vinhas, e duas, ou tres adegas, mas não fez damno em povoação alguma” (Anónimo, 1881). Não se conhecem, em concreto, os prejuízos causados pela queda da elevada quantidade de piroclastos, designadamente em São Mateus.

O centro emissor de 1718 (Santa Luzia) constitui hoje a Lomba de Fogo, que se desenvolve desde os 850 m até cerca de 1250 m de altitude, segundo uma crista arqueada de orientação aproximada de N40W. Esta elevação linear constitui uma crista assimétrica de spatter (“salpicos de lava” - Nunes, 1996), sensivelmente entre os 850 e os 1100 m, cota a partir da qual estão perfeitamente alinhadas 7 crateras de explosão, em pequenos cones de escórias coalescentes (Foto 2.3).


  1. Erupção de 1718 – Foco de São João

Como se referiu, esta fase da erupção de 1718 teve início no dia 2 de Fevereiro, antecedida pela abertura de numerosas fendas no terreno, entre as freguesias de São Mateus e de São João, e acompanhada de “horriveis estrondos, e convulsões, que pela proximidade d’esta villa se tornavam mais sensiveis que da primeira vez” (Macedo, 1981a).

N’este dia 2 de fevereiro se viram seis ribeiras de fogo em materias fluidas, que sahiam pelos meados da terra” (Macedo, 1981b) em direcção ao mar (Foto 2.4) provocando, alguns dias mais tarde, a destruição da igreja de São João. Nos dias 24 e 27 de Fevereiro ocorrem novas explosões nas bocas eruptivas, “continuando a terra a tremer com violentas convulsões e horriveis estrondos…o que obrigou o consternado povo daquella freguezia a abandonal-a” em direcção à Silveira (Macedo 1981a).

O foco eruptivo destes fenómenos está actualmente melhor expresso no Cabeço de Cima, um cone de escórias de morfologia complexa localizado a uma cota de cerca de 250 m, entre os lugares de Terra do Pão e Companhia de Cima.

A erupção de São João entrou numa fase de declínio até 15 de Agosto, cessando a actividade eruptiva durante oito dias, mas reacendendo-se no princípio de Setembro, acompanhada de sismos (Macedo, 1981b). Segundo Macedo (1981a), terão “cessado os tremores e acção do fogo no princípio de novembro do corrente anno”, o que perfaz uma duração de cerca de 9 meses para esta fase da erupção de 1718. Contudo, de acordo com Macedo (1981b), esta actividade ter-se-á prolongado até ao dia 15 de Janeiro de 1719, ou seja, durante aproximadamente 349 dias.

Os principais prejuízos reportados incluem a destruição de algumas casas e da igreja do povoado de São João, bem como de terras de cultivo e de vinhas. Macedo (1981b) refere, a propósito, que “deixou o fogo as terras infructiferas, por cuja razão se padeceram muitas fomes”, certamente na sequência da queda de piroclastos nos terrenos agrícolas envolventes.

2.3.4. Erupção de 1718 – Foco no mar, a Sul de São João

A fase submarina da erupção de 1718 teve início no dia 11 de Fevereiro, com foco no “mar 50 braças fóra da terra, em altura de fundo de 40 braças diante da egreja do Glorioso S. João Baptista” (Macedo, 1981b). Com base nestes elementos, tomando-se como referência que 1 braça = 2,2 m (Kurt, 1975) e sabendo-se que “No local da antiga igreija, no sítio da Arruda, foi levantado um pequeno monumento em memória das erupções de 1718” (Madruga, M.A. in: Ávila, 1988), é possível localizar, com alguma precisão, o centro emissor desta actividade submarina, o qual define, em conjunto com os focos subaéreos da erupção de 1718 (Lomba de Fogo e Cabeço de Cima), um alinhamento tectónico de orientação geral NW-SE (Figura 2.3).

Segundo Macedo (1981a), esta actividade submarina deu origem a “um grande ilheu”, provocou a morte a numerosos peixes e terá sido responsável, ainda, pela destruição de campos e casas na freguesia de São João. Contudo, não é claro nos dados reportados por este autor, se tais destruições se deverão a uma actividade sísmica associada a esta fase da erupção de 1718 ou se, pelo contrário, as casas e campos terão sido soterrados pelos produtos piroclásticos emitidos. O facto de não ter sido observada qualquer cobertura de piroclastos submarinos nesta zona inviabiliza esta última hipótese, pelo que, provavelmente, tais destruições se deverão aos focos eruptivos localizados em terra ou, como se referiu antes, a potenciais sismos mais energéticos.

Não é possível indicar o fim desta fase eruptiva, embora Weston (1964) sugira que os fenómenos no mar tenham seguido o mesmo padrão evolutivo dos focos localizados em terra. Contudo, os dados mais credíveis apontam, unicamente, para que no dia 24 de Fevereiro houvesse ainda actividade submarina nesta região (Macedo, 1981b).

As únicas mortes entre a população que podem ser directamente relacionadas com o vulcanismo histórico da ilha do Pico tiveram lugar na sequência dos fenómenos eruptivos de 1718, não sendo claro se na dependência directa da actividade submarina e/ou da fase subaérea com foco em São João. Será contudo importante referir que pelo menos uma destas mortes pode ser considerada como acidental, na medida em que, resultante de uma acção despropositada, poderia ter sido evitada. Segundo Macedo (1981b) a primeira vítima tratou-se de “um homem temerario, que indo d’esta freguezia a vel-o (o promontório), descendo ao pé d’elle para colher uns peixes, ficou lá sepultado”, enquanto que a segunda vítima, “uma escrava que foi buscar agua a uma fonte do mar tambem morreu a respeito dos horríveis cheiros que a suffocaram”.

2.3.5. Erupção de 1720 – Silveira

O início da erupção de 1720 e os respectivos sinais precursores, estão claramente retratados em Macedo (1981a): “começando a sentir-se violentos terramotos ao principio de junho; amiudando-se e augmentando progressivamente de intensidade atè o dia 10 (de Julho), em que rebentou fogo com horriveis estampidos por cinco boccas no logar do Soldão suburbio da villa das Lajes d’aquella ilha pelas 9 horas da noute”. De acordo com Weston (1964), os percursores sísmicos ter-se-iam iniciado cinco meses antes da erupção, na medida em que desde Fevereiro de 1720 a ilha do Pico era abalada por uma longa série de sismos sentidos em toda a ilha.

A erupção terminou no dia 18 de Dezembro do mesmo ano, não tendo provocado vítimas entre a população, que fugiu atempadamente para a vila das Lajes do Pico. Apesar disso, esta erupção causou prejuízos significativos na região envolvente, tendo as correntes de lava destruído 30 casas, assim como quintas, vinhas e pomares ao longo do seu percurso (Maria, 1981). As cinzas, sopradas para terra pelo vento, causaram a destruição de searas, árvores de fruto e pastos por toda a ilha do Pico, ao mesmo tempo que muitos animais morreram sufocados e os habitantes andavam “todos atordoados pelos vapores sulphures” (Macedo, 1981a).

Segundo Maria (1981), as cinzas desta erupção atingiram a ilha de São Jorge, onde terão provocado prejuízos consideráveis, o que indicia uma predominância de ventos do quadrante Sul durante, pelo menos, parte da erupção.

O centro emissor de 1720 materializa-se, actualmente, por um cone de escórias situado a uma cota de cerca de 350 m, o Cabeço do Fogo, que apresenta no topo 3 crateras de explosão principais, dispostas segundo um alinhamento de direcção N63W.

2.3.6. Erupção de 1963 – no mar, a Norte de Cachorro

Segundo Weston (1964), os sismógrafos instalados na ilha do Faial evidenciaram um tremor vulcânico constante entre os dias 12 e 15 de Dezembro de 1963, período durante o qual não ocorreram abalos mais energéticos. No dia 15, alguns habitantes da ilha do Faial, e diversas pessoas na ilha do Pico, terão visto sinais de uma erupção submarina ao largo do Cachorro, sinais estes descritos como “bolas ou nuvens de vapor” subindo do mar, regularmente. Ainda segundo Weston (1964), as testemunhas oculares idóneas localizadas na ilha do Faial observaram o fenómeno a cerca de 13 km de distância, estando o tempo e a visibilidade bons naquela altura.

Os dados acima reportados são os únicos disponíveis sobre os fenómenos que terão ocorrido em 1963 ao largo da costa Norte da ilha do Pico. Machado e Forjaz (1965) mencionam igualmente a existência de tremor contínuo nos sismógrafos da Horta, nos dias 13 e 14 de Dezembro e no início de Janeiro de 1964, que associam, em primeira instância, a um aumento de actividade fumarólica nos Capelinhos.

Não se questionando a veracidade dos elementos reportados, parece, contudo, muito escasso o conjunto de dados fornecidos para que se possam tirar conclusões definitivas sobre a real ocorrência de um fenómeno eruptivo: não se menciona a emissão de material magmático juvenil, não são dadas indicações claras acerca das dimensões e forma das nuvens de vapor, não se conhece o estado do mar nem as características do vento naquele mês de Inverno, a duração do fenómeno foi de apenas alguns minutos e, apesar do “bom tempo”, o fenómeno foi observado de uma distância que se poderá considerar demasiado grande.

Assim, face aos dados disponíveis, poderão invocar-se outras teorias igualmente plausíveis que permitam explicar os fenómenos observados ao largo de Cachorro, associando-os, por exemplo, a uma origem atmosférica. Weston (1964) reforça a importância dos fenómenos de Dezembro de 1963, estabelecendo uma correlação entre aqueles e a crise sísmica e vulcânica que se desenvolveu mais tarde na ilha de São Jorge, em Fevereiro de 1964, o que, por si só, não justifica a atribuição de uma origem vulcânica aos fenómenos atrás descritos. Permanece, pois, a dúvida relativamente aos fenómenos que terão ocorrido em 1963, no mar, a Norte de Cachorro.

A Tabela 2.1 resume os principais elementos compilados da bibliografia consultada e que permitem caracterizar as erupções vulcânicas ocorridas na ilha do Pico após o seu povoamento. Embora estes dados sejam, em capítulos seguintes, complementados com outros elementos, pode concluir-se, numa primeira aproximação, que:



  • todas as erupções vulcânicas que ocorreram na ilha do Pico apresentaram evidentes sinais precursores, fazendo-se preceder pela ocorrência de sismos sentidos pela população; outros precursores incluem a abertura de fendas no solo;

  • pode dizer-se que todas estas erupções apresentaram uma explosividade baixa a moderada, sendo as fases efusivas claramente predominantes;

  • mesmo tendo em conta as mortes, perfeitamente acidentais, que ocorreram durante a erupção de 1718, conclui-se que as erupções vulcânicas da ilha do Pico provocaram um número insignificante de vítimas entre a população da ilha, sendo, contudo, de assinalar a morte de alguns animais no decurso das mesmas;

  • os principais prejuízos materiais causados por estas erupções resultaram da queda de cinzas e de lapilli (com a destruição, designadamente, das colheitas e de terrenos de pastagem) e do fluxo das escoadas lávicas, o qual, numa acção muito mais localizada, provocou, contudo, a destruição total e permanente dos terrenos afectados, incluindo construções edificadas. Se bem que não perfeitamente documentada nos acervos históricos, é natural que a actividade sísmica que antecedeu e que acompanhou a actividade vulcânica, tenha sido responsável, igualmente, por algumas destruições no parque habitacional da ilha do Pico;

  • a erupção de 1718 evidenciou um padrão evolutivo caracterizado pela abertura de centros emissores localizados, sucessivamente, às cotas de 1050, 200 e -90 m, padrão usual e que traduz a diminuição das pressões internas no plumbing system do edifício vulcânico e a consequente extrusão de lavas a cotas sucessivamente mais baixas, ao longo de um mesmo acidente tectónico;

  • a duração dessas erupções foi muito variável, desde alguns dias até vários meses.

Tabela 2.1. Resumo das principais características do vulcanismo histórico da ilha do Pico.

Erupção/Fase Vulcânica

Início

Fim

Duração

Sinais Precursores

e sua antecedência

Vítimas


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