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UFPB-PRG XII Encontro de Iniciação à Docência



2CCHLADLEMMT01

KING LEAR E LADY MACBETH: REPRESENTAÇÃO DA LOUCURA EM CENA

Leonardo Monteiro de Vasconcelos(1) Tassia de Moura Gomes(1) Elinês de Albuquerque V. e Oliveira (3)

Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes/Departamento de Estrangeiras e Modernas

Monitoria




RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo analisar de forma panorâmica duas representações da loucura presentes no universo trágico de William Shakespeare. Neste artigo serão trabalhadas as personagens Lady Macbeth e King Lear, impressões de diferentes manifestações literárias da loucura, tomando como ponto de partida as estreitas relações entre a sanidade e os sentimentos humanos: a loucura como meio para determinados fins, a loucura pela busca e perda do poder e a loucura resultante da culpa inconsciente. Em um primeiro momento o foco será Lady Macbeth, personagem símbolo das conseqüências de uma ambição desenfreada e da impossibilidade de controlar a culpa reprimida. Já no segundo momento as luzes se voltam para Lear, o rei ancião que decide dividir seus domínios entre as três filhas, de acordo com a extensão do amor que elas lhe demonstrem. Por acreditar apenas no afeto fingido do discurso das filhas mais velhas, Lear abre mão de todo o poder que tinha e, corroído pelo arrependimento, termina por perder todo o apoio e sanidade que lhe restavam. Assim, esta comunicação pretende abordar essas personagens e seus comportamentos de maneira a integrar a literatura shakespeariana a outros campos do conhecimento.

Palavras chave: tragédia, loucura, comportamento.
1. Introdução

A loucura, segundo o dicionário Aurélio é definida como estado ou condição de louco; insanidade mental. Loucura essa, encontrada em algumas das peças mais famosas de William Shakespeare como MacBeth, King Lear e Hamlet, porém representadas de maneiras diferentes. Há a loucura fingida, a loucura dos bobos e a loucura verdadeira. Os personagens de King Lear e Lady Macbeth deixam bem claros o que o ato de querer se desfazer de suas obrigações a ambição e levam as pessoas a cometerem os maiores erros de suas vidas.

O estudo das personagens que ora nos interessam foi baseado, em sua maior parte, nos ensaios de Sigmund Freud que tiveram como base a literatura Shakespeariana. Pretende-se mostrar como se desenvolve as duas formas distintas de loucura. A saber, a loucura verdadeira e a loucura alcançada por arrependimento de suas ações, assim como a loucura gerada por conseguir algo que ambiciona. (Raffaeli; Schimdt, 2008, p.1).

2. Rei Lear

A peça Rei Lear, escrita entre Othelo e Macbeth no ano de 1606, é classificada junto com Hamlet como uma das melhores peças do dramaturgo inglês William Shakespeare. Com duplo enredo, a peça aborda temas como a traição e a loucura. Loucura que ora vem disfarçada sob a pele de um mendigo ou de um bobo. No entanto, é a verdadeira loucura interpretada por Lear, que revela o lado mais obscuro do ser humano. Críticos consideram que a loucura de Lear, o protagonista da peça, já é apresentada desde a primeira vez que decide dividir seu reino entre suas três filhas, Goneril, Regan e Cordelia. Outros dizem que a sua loucura resulta do sentimento de culpa por ter renegado a sua filha Cordelia. E, “segundo Freud o desejo reprimido de cometer incesto com Cordelia é a causa da loucura de Lear.” (Bloom,1998, p.606).



O clímax da peça é alcançado quando Lear, homem vaidoso e egoísta, numa noite tempestuosa, se depara com o desprezo e abandono de suas filhas, Regan e Goneril. Esta tempestade traz grande dramaticidade à peça, pois representa o momento de mudança drástica na vida do rei. Lear luta “com o furor dos elementos e ordena aos ventos que atirem a terra dentro do mar ou cubram o continente com ondas gigantescas para que as coisas mudem ou deixem de existir” (ato II, cena I). A incapacidade de controlar os elementos da natureza e de compreender o porquê das traições, o leva a acreditar que a natureza se tornara cúmplice de suas filhas para vê-lo destruído:
Arrota as tuas entranhas! Vomita, fogo! Alaga, chuva!A chuva, o vento, o trovão e o fogo não são minhas filhas. Elementos, eu não os acuso de ingratidão;nunca lhes dei reinos ou chamei de filhos,nunca me deveram obediência alguma. Portanto, podem despejar sobre mim o horror do seu arbítrio. Olhem, aqui estou eu, seu escravo, um pobre velho, débil, doente, desprezado. Mas continuo a chamá-los de cúmplices subservientes que se uniram a minhas duas desgraçadas filhas para lançar os batalhões do céu contra esta cabeça tão velha e tão branca.Oh!Oh! É revoltante!” 1
Enquanto luta descontroladamente contra o estado deplorável em que se encontra, vemos um lado de Lear, jamais revelado antes. A solidariedade com o sofrimento alheio. Lear diz não ter se preocupado o bastante com os menos afortunados quando rei da Bretanha. E que agora deve saber a sensação de viver em condições subumanas:
...Pobres desgraçados nus, onde quer que se encontrem sofrendo o assalto desta tempestade impiedosa, com as

cabeças descobertas e os corpos esfaimados, cobertos de andrajos feitos de buracos, como se defendem vocês de uma intempérie assim? Oh! Eu me preocupei bem pouco

com vocês! Pompa do mundo, é este o teu remédio; expõe-te a ti mesmo no lugar dos desgraçados, e logo aprenderás a lhes dar o teu supérfluo, mostrando um céu mais justo.” (ato III, cena IV).
Esses pobres descritos por Lear eram conhecidos na época de Shakespeare como bedlamitas, “ex-pacientes do hospital de Bedlam” (Resende, 2008, p.127). Frequentavam as ruas das cidades, quase desnudos e eram explorados por espertalhões para conseguir esmolas. Este tipo de “louco” nos é apresentado nesta peça como Tom o’Bedlam, disfarce adotado por Edgar, filho do conde de Gloucester, que foge da fúria de seu pai, logo após ter sido traído por seu meio irmão Edmundo. Os loucos conhecidos como Tom o’Bedlam “se vestiam com roupas coloridas, cobria-se com guirlandas de flores, e carregando sua cornucópia, dançavam, cantavam e, brincando, pediam esmolas.” (Resende,2008, pag. 129). Lear, no entanto, entra em cena como um verdadeiro Tom o’Bedlam, enfeitado com flores do campo, no ato IV, cena VI. Segundo Edgar, “ninguém com a mente sã se enfeitaria assim”. Cordelia o descreve da seguinte forma:
Ai, é ele! Foi encontrado agora mesmo, louco como um mar de tempestade. Cantava alto, coroado de fétidas ramagens, urtigas, folhas secas, agrião, cicuta, joio, campainhas e todas as ervas daninhas em nosso trigo de sustento.”(IV. 4)
Por fim, a loucura de Lear é sempre questionada. O que realmente o terá levado a tal estado? Decepção por ter sido traído por suas filhas? A culpa por ter cometido uma injustiça com sua filha mais nova, Cordelia? Ou será que com os desgastes de uma vida inteira, ele teria surtado de vez? As perguntas ficam. As respostas são muitas. Como afirmou-se anteriormente que esta seria uma leitura panorâmica, a partir deste momento direcionaremos nosso olhar para outro tipo de loucura que aparece na obra de Shakespeare: estamos falando da peça Macbeth, e, mais particularmente, de Lady Macbeth.
3. Lady Macbeth

Macbeth é, provavelmente, a última tragédia escrita por Shakespeare (BRADLEY, 1971.p, 277). Por ser uma peça curta é carregada de intensidade que “deixa uma impressão não de brevidade, mas sim de velocidade” 2 (IDEM, p,278,tradução nossa). Loucura, insanidade são temas recorrentes no estudo em Macbeth, envolvendo a personagem Lady Macbeth. Mas o que leva a personagem chegar a um ato de loucura? “Na interpretação das motivações de Lady Macbeth – personagem que, segundo Freud, é um exemplo típico de personalidade que entra em derrocada ao alcançar o que ambiciona” (Raffaeli; Schimdt, 2008, p.1). Embora seja uma personagem que fica pouco tempo em cena e não possua um número grande de falas, Lady Macbeth exerce um papel preponderante no desenvolvimento da trama.

Personagem ambiciosa, “protótipo da mulher forte e resoluta, mostra-se determinada a alcançar a coroa não importando os meios e, para isso, nutre e direciona a ambição de seu marido.” (Raffaeli; Schimdt, 2008, p.1). De característica resoluta, Lady Macbeth acaba suicidando-se no final da peça. A entrada de Lady Macbeth ocorre no ato I, cena V. Lendo uma carta que havia recebido de Macbeth, seu marido, relatando seu encontro com as bruxas na qual estas afirmavam que ele iria ser coroado rei. Contudo, Lady Macbeth percebe que isso não se realizará se não houver derramamento de sangue. Temendo que o marido poderá não realizar tal feito, Lady Macbeth toma para si a responsabilidade de o induzir ao crime para que o marido fique com a coroa. Para Raffaeli e Schimidt(2008): “Antevendo o que se seguirá, pede aos espíritos malignos que a destituam de sua feminilidade para executar o regicídio, insistindo na metáfora do leite como um elemento benéfico que deve ser expurgado ou transformado em algo negativo.”


Vinde vós, espíritos que sabem escutar os pensamentos mortais,

liberai-me aqui de meu sexo e preenchei me, da

cabeça aos pés, com a mais medonha crueldade,

até haver ela de mim tomado conta. Que o meu

sangue fique mais grosso, que se obstrua o acesso,

a passagem, para o remorso, que nenhuma visitação

compungida da Natureza venha perturbar meu fe-

roz objetivo ou estabelecer mediação entre este

meu objetivo e seu efeito. Vinde vós aos meus seios

de mulher e sugai meu leite, que agora é fel, vós,

espíritos servis e assassinos, seja onde for que, em

vossa visível matéria, atendeis às vis turbulências da

Natureza”i (ato I, cena V, grifo nosso)
Raffaeli e Schimidt afirmam que “Segundo Freud, existem pessoas que adoecem quando um desejo muito ansiado se realiza” (Raffaeli e Schimidt, p.7). Percebe-se, então, que no inicio da ação, Lady Macbeth não apresenta nenhum conflito que denuncie sua mudança de comportamento ao longo da peça. Então o que ocorre para que haja uma mudança tão brusca na personagem?
Entretanto, existe uma contradição em Lady Macbeth, aponta Freud: ao se “dessexuar” em função de seus intentos homicidas, esquece-se que a sua feminilidade teria um papel-chave na perpetuação de sua linhagem, o “de preservar a finalidade de sua ambição, lançada através de um crime” (Freud, 1986 apud Raffaeli; Schimdt, 2008 ).
Em sua outra aparição (ato III, cena I), Lady Macbeth ainda apresenta grande controle da situação. A posteriori, na cena do Banquete, ela demonstra todo o controle do qual é detentora, enquanto Macbeth vê o fantasma de Banquo . Depois ela retorna no último ato como sonâmbula ( sleepwalking scene), na famosa cena de lavagem das mãos.
É a partir deste momento que nos questionamos, qual o motivo que levou Lady Macbeth a tal fim. “A desilusão que ela demonstrou em seu solilóquio teria sido provocada pela extrema tensão a que foi submetida ao se dar conta do crime que cometera, desestruturando sua personalidade.” (Raffaeli; Schimdt, 2008, p.8) Ou há algum outro motivo além do já citado?
Macbeth é uma peça de ocasião, escrita para a coroação de James I.[... ] Apresentava notáveis analogias com a situação real. A ‘virginal’ Elizabeth, que nunca tivera filhos e que certa vez se descrevera a si própria como um tronco estéril, numa angustiosa exclamação pelo nascimento de James, foi obrigada por essa mesmo esterlidade a fazer o rei da escócia seu sucessor. Ele era filho de Mary Stuart” ( MENDES, 2006, 98).
Podemos perceber que ao longo da peça a questão da sucessão do trono é levantada constantemente. Possuir herdeiros ou não é uma questão de perpetuar a família no seio real por várias gerações. “Dessa forma, a punição pelo desregramento moral dos personagens principais seria a esterilidade - que torna vã toda ambição, pois não pode ser perpetuada pela progênie -,dado que Lady Macbeth ainda padecia do “assexuamento que exigira dos espíritos do assassinato” (Freud, 1986 apud Raffaeli; Schimdt ) ao se tornar rainha.( Raffaeli; Schimdt, p.12)”


4. Conclusão

Ao fim desta breve análise sobre a loucura dos personagens Rei Lear e Lady Macbeth, pode-se afirmar que Shakespeare ao usar deste expediente dramático antecipa-se a Freud ao ligar o tema da loucura com o desejo do poder. Por outro lado, pode-se inferir também, que a loucura de ambos os personagens cumpre uma função córica, uma espécie de “punição” por seus atos ao longo da ação trágica. Em outros momentos de sua obra, Shakespeare voltará a explorar o tema da loucura, como, por exemplo, em Hamlet, em que tanto o príncipe da Dinamarca quanto Ofélia serão considerados “loucos” por seus pares. Através da loucura levada à cena, Shakespeare questiona sobre as várias máscaras existentes na alma humana, usando o artifício da loucura como uma miríade de desdobramentos cuja interpretação encontra-se longe de ser esgotada.


REFERÊNCIAS

BLOOM, H. Shakespeare: A Invenção do Humano. Nova Iorque, 1998. p. 603 -607

BRADLEY, A. C. Shakesperean tragedy. Macmillan, London:1971


LEÃO, Liana de Camargo; SANTOS, Marlene Soares dos. Shakespeare sua época e sua obra. Curitiba, 2008. p. 126 -129.
MENDES, Eliana Rodrigues Pereira. Macbeth: entre o ideal e a ambição. Reverso. nº 53. Belo Horizonte, 2006. p. 97-100.
RAFFAELLI, Rafael; SCHIMIDT, Beatriz. Freud e Lady Macbeth. Cadernos de pesquisa interdisciplinar em ciencias humanas. nº93. Florianopolis, 2008.

1 Todos os excertos de King Lear citados no presente trabalho foram traduzidos por Millôr Fernandes da edição L&PM, 2008

2 It leaves an impression not of brevity but of speed

3 Todos os excertos de Macbeth citados no presente trabalho foram traduzidos por Beatriz Viégas-Faria da edição L&PM, 2000.

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1) Bolsista, (2) Voluntário/colaborador, (3) Orientador/Coordenador, (4) Prof. colaborador, (5) Técnico colaborador.



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