36º encontro anual da anpocs



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36º ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS
Aguas de Lindoia - SP
21 a 25 de Outubro de 2012 Aguas de Lindoia -

Resumo expandido:

O trabalho que se propõe apresentar é o resultado de uma breve pesquisa de campo conduzida entre a comunidade quilombola de Serra da Guia, no município sergipano de Poço Redondo, e a cidade lacustre de Ganvié, na República do Benin. As populações desta vivem em palafitas, acima da água doce; a atividade principal é a pesca, além da venda de produtos agrícolas. A economia de subsistência ou de auto-abastecimento funciona razoavelmente bem. As características locais fazem de Ganvié um dos maiores cartões postais do país africano, ao ponto de ser chamada a “Veneza africana”. Na Serra da Guia vive uma população de descendentes de africanos isolados em espaços próprios (quilombolas), isto é, uma população em total desvantagem econômica, política, cultural e social sobre outras do Brasil. É limitada a umas cem famílias cuja ínfima parte sobrevive de atividades como a fabricação de vassouras e cestos, e de criação de animais como bodes e carneiros. Há muito pouco gado e cavalos. A maior parte dos habitantes tem que sair para Poço Redondo ou cidades pequenas vizinhas à procura de trabalho. Trata-se, em ambos casos, de populações marginalizadas, objeto de estudo de projetos financiados pelo Conselho de Desenvolvimento em Ciências Sociais (CODESRIA, Dakar, 2007), pelo INCRA/SE (2009-2010) sobre demarcação de territórios quilombolas, e pelo CNPq através do Edital Pró-África de 2009, onde foram realizadas visitas exploratórias a populações lacustres e semi-lacustres no sul da República do Benin, com a finalidade de realizar um estudo comparativo de etno-desenvolvimento entre o Brasil e o Benin. Do projeto inicial foi elaborado um relatório antropológico para o INCRA sobre demarcação do território quilombola, onde são relevantes para o estudo o critério da auto-atribuição da identidade quilombola, onde a noção de pessoa desempenha uma função de primeira ordem. Será reavaliada a noção de pessoa a partir de depoimentos das populações sobre interações com outras populações. Assim, o trabalho de Mauss (1909?) serve como inspiração para o estudo de ambas populações. A questão da identidade contrastiva de Barth, sem dúvida ligada à noção da pessoa será debatida a partir de depoimentos. O objetivo será descrever um pouco o modo de vida das populações envolvidas, com o intuito de apreciar aspectos comuns e diferenças em torno de grupos temáticos centrais como o parentesco e a organização social, a história da ocupação, a religião, a educação, a saúde, e as políticas publicas para o desenvolvimento. O método comparativo impõe-se como ferramenta necessária, e o trabalho inspira-se em autores como Radcliffe-Brown (1951), quem nos oferece aspectos interessantes da metodologia comparativa em antropologia social; Barth (2000) sobre metodologia comparativas, já que, em certa medida, Ganvié e Serra da Guia apresentam quadros de familiarização com a realidade do pesquisador, um beninense, conhecedor da população lacustre e também dos quilombolas, graças à sua incursão na localidade, em função de trabalho acadêmico pela Universidade Federal de Sergipe; uma espécie de “comparatismo explícito”, e aliás, “prático” (Neiburg & Goldman, 2002). Outra referência fundamental é Norbert Elias (2000), já que as relações de poder se caracterizam pelo domínio da “gente da terra” sobre os “aquáticos”, onde aparece uma série de preconceitos sobre estes últimos. No caso brasileiro, os interesses de fazendeiros tendem a aniquilar o direito dos quilombolas à terra. Em contrapartida, o Governo Federal estabelece os critérios do pertencimento e auto-identificação como fundamentais para remediar a essa situação, o que implica na perda parcial dos seus bens, em proveito da comunidade e da conseqüente indenização do proprietário. As opiniões se dividem e alguns proprietários de terra não assumem a identidade quilombola. Leach (1944, 1997) sobre os sistemas políticos e a questão das fronteiras parece bem sugestivo, tanto no âmbito beninense quanto no brasileiro. Também inspira para a análise, Geertz (1983) sobre o saber local como decisivo para uma correta interpretação do universo etnográfico; pois, além da comparação, exige uma espécie de contextualização da unidade de observação (Kuper, 2002). No caso da Serra da Guia, fala-se em um grupo unido por interesses comuns como o direito à terra para plantação de produtos de sobrevivência, à criação de animais, o direito à água potável, à saúde, ao transporte e a educação. No Benin, há reivindicação de condições mínimas sociais como a falta de iluminação à noite, a despoluição do meio ambiente e sobretudo o saneamento (dejetos são jogados à água, banheiros a céu aberto, pois tudo é feito na água). Ao silêncio das autoridades locais no Benin se opõe o empenho das autoridades locais do Brasil. Os problemas são similares, mas a maneira de resolvê-los é diferente.

Referências bibliográficas mínimas:

BARTH, Fredrik. “Metodologias comparativas na análise dos dados antropológicos” In: Barth, F. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000. pp. 187-200.

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ELIAS, Norbert. 2000 (1976). “Ensaio teórico sobre as relações estabelecidos-outsiders”. In: Elias, N. e Scotson, J. Os estabelecidos e os outsiders. Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, pp. 19-50.

ELIAS, Norbert e SCOTSON, J. 2000 (1965). Os estabelecidos e os outsiders. Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Cap. 7, “Observações sobre a fofoca”, pp. 121-133.

GEERTZ, Clifford. 1983. “Local Knowledge: Fact and Law in Comparative Perspective,” In: Geertz, C., Local Knowledge. Further Essays in Interpretative Anthropology, New York: Basic Books, pp. 167-236.

KUPER, Adam. 2002. “Comparison and contextualization: reflections on South Africa”, in Gingrich A. and Fox, R. Anthropology, by comparison. London: Routledge, pp. 143-166.

LEACH, Edmund, R. 1944 [1997]. Sistemas políticos da Alta Birmânia. São Paulo: Edusp. Prefácio, Nota Introdutória à reimpressão de 1964 (pp. 47-57) e Introdução (pp. 65-79).

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MAUSS, Marcel 1909? “Uma categoria do entendimento humano: a noção de pessoa, do eu” Sociologia e Antropologia

NEIBURG, Federico & GOLDMAN, Marcio. 2002. “Da nação ao império: a guerra e os estudos de ‘caráter nacional’”. In: Antropologia, Impérios e Estados Nacionais. Benoit de l´Estoile, Federico Neiburg e Lygia Sigaud (orgs). Rio de Janeiro: Relume-Dumará/Faperj. Capitulo 7. pp. 187-218.



RADCLIFFE-BROWN, A. R. 1951. "The Comparative Method in Social Anthropology", Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, 81, pp 15-22.

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