5. o elemento Latino-Americano em outras Literaturas



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5. O Elemento Latino-Americano em outras Literaturas

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Estuardo Núñez




  1. IDEALIZAÇÃO INICIAL

A chegada do homem europeu à América - Colombo às Antilhas, Cortés ao México, Pizarro ao Peru, num espaço de 40 anos - suscitou um longo processo de assimilação de conhecimentos dispersos a respeito das realidades americanas, vistas sob prismas diferentes e isolados, sem maior ilação, sobre dados geográficos, físicos e sociais e conhecimentos históricos um tanto fragmentários e superficiais.

As primeiras notícias sobre a América, entre elas as das Cartas de Cristóvão Colombo, não conseguiram separar o americano do asiático. Até começos do século XVI, a crença geral na Europa era a de que se havia chegado às ilhas das costas do Catai ou da Índia.

Mas, alguns anos depois, já no começo do século XVIII, outros relatos de experiências dos descobridores e conquistadores começam a esboçar uma realidade independente, isto é, começa-se a considerar os elementos americanos como originários de um continente novo. Desenharam-se então os primeiros mapas ou portulanos, que delineiam um novo corpo da realidade terrestre, que irá se elaborando lentamente em toda a sua amplitude pelos descobrimentos e conquistas posteriores. Surgem assim para os europeus os contornos das costas brasileiras, a Flórida e o Canadá, a existência de impérios importantes como os dos astecas e dos incas. Américo Vespúcio, que viaja de 1498 a 1508, consegue “isolar” cosmograficamente o novo continente.

A nova terra principia a receber atributos de terra prometida, de paraíso terrestre, e se constrói imaginariamente sobre o quadro de uma idade de ouro, geradora da lenda do Eldorado, da lenda de Jauja e de outras elucubrações próprias da fantasia do Renascimento.

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Assim sendo, o americano começa a deixar de ser um conceito nebuloso e impreciso, como transparece no poema Das Narrenschiff (1494) de Sebastian Brant, baseado nos relatos de Colombo, para alcançar, já meio século depois, uma realidade mais precisa, embora de contornos ainda não exatos. Relatos posteriores, como os do Padre Bartolomeu de las Casas ou do italiano Girolano Benzoni apresentam o homem americano como “gente humana”, como gente dócil à religião, que começa a sofrer a exploração e a expoliação dos primeiros conquistadores hispânicos.

Uma lúcida crítica do começo de nosso século esclareceu, baseada em firmes argumentos, a evolução singular dos conceitos de Montaigne a respeito do Novo Mundo, na duas etapas da redação de seus Ensaios. Até a edição de 1580, os conceitos emitidos no ensaio Os canibais (Ensaios, livro I, cap. 31), baseavam-se nas reflexões provocadas, por um lado, pela leitura dos resultados da expedição de Villegaignon às costas do Brasil, através dos relatos de André Thévet (1558) e Jean de Lery (1578). Este testemunho vem ao encontro de uma experiência direta que teve Montaigne em Ruão, onde funcionava a corte de Carlos IX, à cuja presença foram trazidos três indígenas do Brasil. Este encontro, mais as leituras, estimulam o interesse de um europeu despertado para uma nova inquietude pelo conhecimento do mundo récem-descoberto. Thévet dizia: Este país recebeu o nome de Índia por sua semelhança com aquele país da Ásia, por terem estes povos ocidentais costumes, ferocidade e barbarismo semelhantes a alguns povos do Levante, mostrando assim toda a ignorância reinante quanto ao caráter peculiar e típico da América. Montaigne, com sua exaltada curiosidade, acolhia ainda semelhante conceito.

Cumpre acrescentar que, quando escreveu sobre os canibais, Montaigne já conhecia também a obra de Girolano Benzoni A história do mundo novo, em sua primeira edição (Veneza, 1565) ou em sua versão francesa de 1579.

Numa segunda etapa, quando Montaigne amplia seus ensaios para a edição de 1588, seu conhecimento já se nutrira com o conteúdo de outras fontes, quanto às características do mundo novo, daquele “mundo menino” que em sua imaginação se enriquecia com novos aspectos, um pouco mais coerentes e completos. Já agora, em seu ensaio a respeito de Os veículos (Ensaios, livro II, cap. 6), distingue claramente não só a realidade do Brasil mas também a do Peru e a do México. Nesta segunda etapa, a partir de 1588, já não é induzido apenas pela curiosidade ou inclinação pitorescas, mas “toma partido a favor dos antigos habitantes das Terras Novas, contra seus bárbaros conquistadores, em nome do direito e da humanidade”.

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Na apologia destes habitantes une-se seu amor pela natureza humana a um evidente interesse renascentista pelo homem em “seu estado de inocência”.

Diz Montaigne: Não há nada de bárbaro nessas nações; o que acontece é que cada um chama barbárie a tudo que é diferente de seus costumes (livro I, cap. 30).

Mas, afora o livro de Benzoni, houve outros que ilustraram o interesse americanista de Montaigne e foram, sem dúvida alguma, os que escreveu Francisco López Gómara, ou seja a Historia general de las Indias, aparecida em Saragoça em 1552, cuja tradução francesa foi editada em Paris em 1584. Completava essa obra a Historia de don Hernán Cortés, do mesmo autor, cuja tradução italiana é de 1566. Presume-se também que o autor dos Ensaios tenha conhecido a obra de Bartolomé de las Casas, Brevísima relación de la destrucción de las Indias, de 1552, em suas várias versões ou extratos em francês. Assim sendo, Montaigne pode falar com toda propriedade de outras regiões da América, como o Peru e o México, e ocupar-se igualmente da crueldade com que foram tratados os indígenas peruanos e mexicanos pelos conquistadores espanhóis. Montaigne concebe a América como um “mundo menino”, que ainda não tem um século de vida e ao qual estão sendo ensinadas as coisas mais elementares da cultura; afirma que “este outro mundo entrará na luz quando o nosso a abandonar” e expressa a seguir seu temor de que se tenha procurado sua ruína e declínio pelo contágio com os europeus.

É interessante notar como, ao falar da magnificência de Cuzco e México, o ensaísta francês costuma distinguir claramente algumas características diferenciais entre o México e o , Peru, e se aperceba da unidade cosmológica do homem do novo mundo, de suas crenças, de sua maneira de ser, de suas reações e de suas obras materiais, principalmente aquelas que, como os “caminhos do Inca” no Peru, considera um portento da ação coordenada do esforço e do engenho.

O fenômeno de incorporação do elemento americano dá-se também na literatura da .Itália renascentista; Américo Vespúcio foi um dos promotores desta incorporação, com sua obra esclarecedora, além de Ramusio, principalmente, com sua Colección de viajes e Benzoni com sua História do mundo novo.

Destes dois volumes se originarão os ingredientes exóticos da poesia pastoral, principalmente da Arcádia de Sannazaro e da poesia de Tasso, entre cujas estrofes se pode adivinhar um certo ar mexicano um tanto suavizado pela graça italiana.

Não é necessário falar de Espanha e Portugal, mais vinculados ao elemento americano por razões de proximidade geográfica e vinculação direta e pela existência dos muitos cronistas espanhóis que escreveram suas impressões sobre a América, e de mestiços como o Inca Garcilaso de la Vega, cuja obra pesa necessariamente sobre os criadores hispânicos. Ademais, há o caso excepcional de um grande poema épico, como La Araucana, escrito por um espanhol na América, modelo de seu gênero e mostra significativa do tema americano vivo, incorporado à literatura.

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Ao nome de Alonso de Ercilla y Zúñiga podem unir-se os de Lope de Vega em muitas de suas comédias, como El nuevo mundo descubierto por Colón e E1 Arauco domado; Pedro Calderón de la Barca com La Aurora en Copacabana e o próprio Miguel de Cervantes que recolhe alguns ecos americanos em La Galatea e em Los Trabajos de Persiles y Segismunda, o de Gabriel Lasso de la Vega, em seu Cortés valeroso (Madri, 1588), o de Antonio Saavedra, com El peregrino indiano, o de Martín Barco de Centenera, com seu extenso poema La Argentina (1603).

É especialmente significativo na Inglaterra o primeiro impacto americano, onde a imaginação se nutre de vagos elementos do Novo Mundo, latentes na Utopia (1516) de Tomas Morus (1478-1535), cuja fantasia geográfica cria um reino, cidade ou ilha ideal com as características atribuídas às sociedades americanas e se difunde por todo o ambiente europeu. Sua inspiração se nutre com os relatos de Colombo e Vespúcio e com as notícias sobre as descobertas de novas terras americanas, que o levam à concepção da idéia de uma ilha em que o homem vive com felicidade, sob uma organização social baseada num esquema racional. A Utopia é talvez um romance em embrião contendo crítica encoberta à sociedade inglesa e apresentando estruturas sociais sugeridas pelas notícias das que se encontraram entre os incas e os astecas. À sombra de Morus prosperam outras utopias em The New Atlantic (1616), de Francis Bacon (Nova Atlântida era uma maneira de denominar a América), em A Cidade do Sol, de Thomas Campanella, publicada em 1602, imaginariamente situada no Ceilão, mas conformada por elementos ideais americanos, em sua organização.

Além disso, os viajantes ingleses, como Drake, Frobisher, Cavendish, Raleigh, contribuem com seus escritos para o conhecimento do novo continente. Estes elementos chegam, sem dúvida, a Shakespeare; percebe-se algum de seus eco em A Tempestade (1612), obra que se ambienta em parte numa ilha ideal como a de Morus e em parte na República de Platão. O nome da personagem, Miranda, e o assunto da obra, originam-se de um relato sul-americano acontecido durante a conquista do Rio da Prata e recolhido pelo francês Charlevoix e pelo português Magalhães.

Nesta primeira fase da difusão do específico da América no mundo europeu, pode-se apreciar uma idealização inicial do elemento americano, com base em algumas notícias certas ou falsas, desconexas ou isoladas. Revela-se nesta idealização uma ânsia européia de superar sua própria realidade e forjar um mundo ideal na realidade distante, talvez uma espécie de refúgio contra suas próprias misérias e restrições. É a etapa em que paulatinamente se forja um conjunto de testemunhos sobre o elemento americano, que enriquece a curiosidade e o afã expansivo do homem europeu, mas em que o verossímil não cede ainda lugar ao real.

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  1. O INTERESSE PELO EXÓTICO

a) Viajantes reais e imaginários


Durante o século XVII os criadores franceses de motivos assuntos exóticos americanos têm como seu representante típico um escritor de ficção que se assina simplesmente Huet, e deixa um manuscrito de um romance intitulado O Falso Inca (em Ms. de 1667); também são narrativas romanescas as que nos deixou Madame de Calpranède, A Princesa Alcidiana (Paris, 1661), e Martín Le Roy Gomberbille, A Jovem Alcidiana (1651). A estes acrescentam-se os relatos de aventureiros corsários e piratas, bucaneiros e flibusteiros das Antilhas, como Oexmelin, Ravenau du Lussan, etc., de missionários, jesuítas (principalmente franceses e alemães, como Magnin), e de comerciantes e marinheiros de St. Malo, homens de aventuras incríveis entre os povos de “inocentes selvagens”. Tais relatos servem de incentivo e exemplo para promover uma revolta contra as formas caducas de civilização e governo em uso na Europa. Trata-se de um certo “rousseaunismo” anterior a Rousseau e à formulação de seu ideário de reforma social.

Tanto os viajantes reais como os “imaginistas” contribuíram para aperfeiçoar e promover o interesse pelo conhecimento da América, a tal ponto que, nos séculos XVII e XVIII, aumenta o interesse europeu pelas expedições. Enquanto a França recebia calorosamente notícias e relatos dos marinheiros que percorriam as Antilhas ou davam a volta ao mundo, a Inglaterra acompanhou com grande interesse as viagens de Raleigh, Anson, bem como as tramas fictícias de narrações como Robinson Crusoe de Daniel Defoe (1719), que obteve grande difusão na Europa e no mundo. Sobre esta sorte dos viajantes reais se encarapitaram com êxito outros viajantes imaginários como Francisco Correal, Voyage aux Indes occidentales (Paris, 1722). Dentro do âmbito inglês persistiu uma grande inquietação por captar o elemento tópico latino-americano. Na própria França, que até esse momento tivera a primazia européia dos temas americanos, este interesse não seguiu um movimento ascendente. O impulso provinha da corte inglesa de Carlos II, muitos de cujos cortesãos haviam estado no exílio na Espanha, onde foram tomados de amor pelo idioma castelhano e sua literatura. Chegaram a ser comuns as obras com temas de Espanha e suas colônias, e as traduções de obras literárias e históricas.

Robert Howard (1626-1698), com a colaboração de seu cunhado John Dryden, escreveu Indian Queen (1664), uma tragédia da Rainha Zempoalla, que produziu grande sensação na estréia, pelo conjunto de elementos cênicos, inclusive vestidos de plumas, com batalhas e sacrifícios em cena. O tema é mexicano, mas se passa no Peru, onde Montezuma é general do Inca peruano.

Impressionado com o êxito da obra de Howard, John Dryden (1631-1700) estreou a tragédia O imperador índio ou a conquista do México pelos espanhóis (1665). Antes e depois produziu cinco peças com temas tomados de fontes hispânicas.

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A parte dos já conhecidos relatos sobre a conquista do México c do Peru, de Gómara e Las Casas, Dryden acrescentou outras fontes à sua cultura americanista, tais como os Comentarios de Garcilaso o Inca, cuja versão abreviada apareceu em Londres em 1625.

Em todas estas obras - como também nas que se produziram no século seguinte - incorporaram-se noções falsas ou deformadas a respeito dos fatos históricos e geográficos, costumes, usos e psicologia dos personagens do novo mundo. A arbitrariedade se manifesta em todos os aspectos. Contudo, a América ainda está muito longe da inteligência européia e só parece estudada pela metade. Cronistas, navegadores, piratas e narradores daquilo que viram ou não viram nem viveram, não ofereceram uma imagem completa mas superficial, fragmentária, imaginária, deformada e sem proporção aproximada das coisas americanas. Em geral só se detiveram em territórios costeiros, em aspectos superficiais, sem penetrar na essência do vasto mundo americano.

Já no século XVIII haveria de mudar um pouco a atitude. Um daqueles navegadores de gabinete, um daqueles fabuladores de viagens não realizadas, chegou a ter, desde o momento de sua primeira aparição, o caráter de um best-seller, com difusão não só limitada a seu país, a Inglaterra, como também por toda a Europa. O escritor foi Daniel Defoe (1660-1731), e seu livro de fama singular, cujo título original era The life and adventures of Robinson Crusoe, apareceu em Londres em 1719.

Robinson Crusoe contém mais elementos da América do que se pensa e sem dúvida os difundiu com eficácia por toda a Europa. Nas páginas iniciais do romance, o personagem principal desenvolve sua ação na costa do Brasil, entregue às tarefas de um sedentário e monótono emprego. Mas seu impulso de corre-mundo o leva a uma curta viagem por mar, que termina em naufrágio e no refúgio solitário encontrado em “sua ilha”, situada nas costas venezuelanas orientais, entre a desembocadura do Orenoco e a ilha de Trinidad. Nessa ilha um tanto convencional vão somar-se elementos, paisagens, usos e ressonâncias de outras terras americanas de diferentes latitudes, situadas inclusive do outro lado do continente sul-americano, isto é, na costa ocidental, que corresponderam ao vice-reino do Peru, enseadas das costas peruanas e ilhas limítrofes, como as de Lobos e mais ao sul, a de Juan Fernández, em frente ao Chile. Há em tudo isso uma mistura de ficção e realidades um tanto diversas que confluem tanto no romance como na mente do homem europeu do começo do século XVIII, e determinam sua concepção daquilo que era ou que se entendia ser a América colonizada por espanhóis e portugueses. Defoe havia lido, com interesse e curiosidade naturais de um homem de seu tempo, o relato do corsário inglês Woodes Rogers, A cruising voyage round the world (Londres, 1712), de quem se sabe historicamente ter desembarcado e entrado na Baía de Guayaquil e em outros portos Pacífico.

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Ali se consigna a história do encontro e resgate de um marinheiro escocês (Alexander Selkirk) descoberto numa ilha abandonada do grupo de Juan Fernández, depois de vários anos de incomunicabilidade. A história pode também ter-lhe sido contada no porto de Bristol em que Defoe esteve em 1713, ou mesmo no de Londres, onde pode ter arribado Sellcirk depois de seu resgate. No entanto, há outras leituras que, segundo Chinard, poderiam ter servido de fontes para Defoe, e são nada menos que as dos viajantes franceses no Mar das Antilhas e nas costas sul-americanas, como Esquemelin de Oexmelin, Ravenau de Lussan e Jacques Massé, considerando-se que o primeiro e o último relatam em seus livros experiências semelhantes à de Selkirk. Predominava então uma copiosa bibliografia sobre estas matérias de aventuras e viagens em inglês, que constituíam leitura predileta de considerável público. É preciso considerar não só os livros franceses antes mencionados, como também livros de viagem em inglês que, por razões profissionais e de interesse pessoal, Defoe viu-se obrigado a conhecer, como The discovery of the Empire of Guiana, de Sir Walter Raleigh (Londres, 1596), que sobe o Orenoco em busca do Eldorado, e outro mais recente, de William Dampier, A new voyage round the world - Description of Chile and Peru in 1679 (Londres, 1690-99, 4 vols.), dos quais deve ter tomado os elementos ambientais da natureza tropical que translada a “sua ilha”. Defoe preferiu um ambiente tropical, perto do delta do Orenoco, ou seja, no lugar do paraíso terrestre, segundo os sonhos de Colombo, e muito próximo do Eldorado, segundo a ilusão de tantos conquistadores ambiciosos como Orellana e viajantes como Raleigh. Destarte, o personagem e a fábula são tomados do que aconteceu na ilha chilena, no ocidente sul-americano, mas a paisagem corresponde ao trópico da costa oriental da América do Sul, na ilha venezuelana.

A contribuição do Robinson foi talvez mais importante e eficaz que os próprios livros de viajantes que lhe serviram de fonte, e de tal forma contribuiu para enriquecer o conceito europeu sobre a América meridional, por causa de sua extraordinária difusão em todo o ambiente europeu e, embora tenha trocado realidades - como aquelas Ihamas dos Andes peruanos, animais das alturas, que povoam a ilha tropical de Robinson -, converteu-se num breviário para a inquietação dos europeus racionalistas e ilustrados que apareceram, depois da morte de Defoe, na segunda metade do século.

Outro contemporâneo de Defoe e Dryden, Jonathan Swift (1667-1745) agrega à sua sátira corrosiva o elemento exótico como condutor adequado a vencer a censura. Seus Travels into several remote nations of the world by Lemuel Gulliver ou Gullivers’ travels (1726) encobrem a crítica social à corrompida aristocracia inglesa com uma trama nebulosa de personagens apequenados, vagando por reinos dos quais se reconhece o parentesco com algumas sociedades da América cuja organização ideal foi difundida por viajantes cronistas e criadores de utopias.

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Swiff cria a trama clandestina dentro de uma moldura inocente de países ideais e distantes, recurso literário que teria acolhida imediata em toda a Europa graças à versão francesa de 1727, antes e depois das Cartas Persas de Montesquieu, que situa também a sátira contra a sociedade francesa mas num fictício ambiente oriental.
b) América como pretexto literário
O ecumenismo temático, que desde os tempos de Shakespeare parecia ser privativo da literatura de criação inglesa, começa a ter igualmente peso dentro da literatura francesa, na primeira metade do século XVIII. Manifesta-se essa corrente universalista na incorporação de temas orientais (o turco, o egípcio, o chinês, o indiano) e americanistas (o brasileiro, o asteca, o inca) e adquire principalmente vigência dominante no gênero teatral. São significativos alguns títulos bastante expressivos de obras de êxito teatral.

Ferrier escreve uma tragédia Montézume (1702), Marivaux estréia uma comédia Île des esclaves (1723), Lesage e D'Orneval, La sauvagesse (1732), M. Fuselier um “balé heróico” intitulado Les indes galantes (1735), cuja fama seria capitalizada por Rameau, autor da partitura. Seguindo a mesma tônica literário-musical, estréiam em Paris os italianos Riccoboni e Romagnesi Les sauvages em 1736, em que parodiavam a Alzira de Voltaire do mesmo ano, coincidindo em estrutura e data com Les indes dansantes de Bonn.

É de 1744 a tragédia Fernand Cortez ou Montézuma de Piron; de 1746, La Péruvienne, comédia de Boissi; de 1758, La Colombiade de Mme du Bocage; de 1763, a tragédia Manco-Capac, de Lebranc de Guillet, e de 1764, La jeune indienne, comédia de Chamfort, e finalmente, de 1777 - ano de publicação romance Les incas, de Marmontel - é a tragédia Zuma (contração do nome Montezuma) de Lefèvre.

Esta enumeração é significativa pois demonstra o auge do latino-americano somente no teatro e num período de meio século e com temas quase sempre astecas ou incas. Como complemento do gênero narrativo temos o Telêmaco de Fénelon (1699), em que se acumulam elementos utópicos, extraídos de algumas fontes de assuntos da América, facilmente identificáveis (Benzoni, os jesuítas das Cartas edificantes, e talvez Gómara e Garcilaso de la Vega, o Inca); e Manón Lescaut do Abade Prévost (1733), romance localizado num ambiente distante, na América setentrional, isto é, a Luisiânia, Nova Orleãs e Mississippi. Este romance revela uma nova faceta até então inexplorada, o tema de amor vinculado ao exotismo, que há de ter muitos cultores, até culminar em Paulo e Virguia (1787), de Bernadin de Saint-Pierre.

A incidência de temas americanos na literatura francesa da época do Iluminismo é de grande importância, sobretudo na obra de um dos mais brilhantes escritores desse período, Voltaire. tanto no teatro, com Alzira ou os americanos (1736), como na narrativa de ficção, com Cândido (1758).

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Esta obra teatral de Voltaire tem seus antecedentes em outra tragédia do mesmo autor, intitulada Zaide (1732), cuja ação se desenrola no ambiente das Cruzadas e na Jerusalém medieval ocupada pelos turcos, e que alcançou extraordinário êxito por ocasião de sua estréia. Conforme César Miró provou num sugestivo ensaio, Alzira não é senão a transposição do mesmo tema de Zaire ou de Zulime, com o ambiente alterado, ou seja, em lugar do tema turco ou árabe, é adotado o tema americano, situando-se a ação desta vez num cenário peruano e mais especialmente na cidade dos reis. O essencial não era a fidelidade histórica, mas agradar o gosto do público francês e europeu mediante o uso de um cenário exótico. Tampouco interessava o assunto em si, pois pouco importava repetir o mesmo tema, sempre e uma vez que o ambiente sofresse variação, dentro de seu exotismo. Para o público tanto fazia que o tema fosse asiático ou americano. Não havia um critério muito estrito nem um gosto muito acentuado pela América, pois os mesmos efeitos e satisfações eram alcançados com o tema oriental. Assim sendo, Voltaire, como bom dramaturgo respeitoso para com o gosto do público, não demonstrava maior preocupação pelos fatos reais do mundo americano, pois seu interesse se concentrava na criação cênica, no plano dramático e no desenvolvimento do assunto trágico que, no fundo, era o confronto entre duas raças, o contraste entre duas concepções da vida e do mundo. Pouco importava que a cor local fosse a do Oriente asiático ou da América setentrional ou meridional.

O mesmo processo assinalado no teatro de Voltaire, com relação ao tema do exotismo americano, pode-se perceber também no gênero narrativo, cultivado por ele com a mesma maestria. Desta vez sua obra Cândido precede outro relato intitulado Zadig, estória oriental que se passa num cenário árabe.

O personagem Cândido tem por ambiente um cenário de fantasia, tomado da lenda do Eldorado; para isto Voltaire parece ter-se informado a respeito de vários temas históricos do Peru índio, como é o caso dos “orelhões” da nobreza incaica, como é também o caso dos jardins de ouro e de prata, e de outros cenários fabulosos que, por seu turno, levam a pensar que Voltaire se inspirou na lenda de Jauja.



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