666 o limiar do inferno



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666


O Limiar do Inferno

Jay Anson

CÍRCULO DO LIVRO S.A.

Caixa postal 7413

01051 São Paulo, Brasil

Edição integral


Título do original: “666”

Copyright © 1981 by The Estate of Jay Anson


Tradução:

Gilberto Domingos do Nascimento


Layout da capa:

Tide Hellmeister

Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da

Companhia Melhoramentos de São Paulo, Indústrias de Papel

Venda permitida apenas aos sócios do Círculo

Composto pela Artestilo Compositora Gráfica Ltda.

Impresso e encadernado pelo Círculo do Livro S.A.

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Então houve o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, e veio Satanás também entre eles.

Então o Senhor disse a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao Senhor e disse: De rodear a Terra, e passear por ela.

Jó, 2:1-2

Prólogo

A casa do assassinato, local da tragédia de 1973, foi reti­rada de seu alicerce.

Seattle (10 de setembro de 1978). — Uma casa de madeira, branca e amarela, local de um duplo e brutal assassinato, cinco anos atrás, foi colocada numa carreta, ontem, e transportada para Puget Sound.

Bem cedo, esta manhã, os residentes litorâneos obser­varam a casa de dois andares ser guinchada e colocada numa enorme barcaça e rebocada para o mar. Realmente, a mudança da casa, feita logo após a meia-noite, quando as estradas por onde ela passaria poderiam ser interditadas, era algo pouco comum.

A casa em estilo vitoriano, na Bremerton Road, 666, tinha estado vazia desde 1973, quando James Beaufort cometeu ali um duplo assassinato. A brutalidade do cri­me abalou essa pacata área residencial da cidade. O advogado de Beaufort negou que seu cliente fosse forte o suficiente para cometer tais assassinatos. Porém, de modo surpreendente, durante o julgamento, Beaufort confessou ambos os crimes aos jurados.

Beaufort, que anteriormente fora vereador da cidade, testemunhou que havia alugado a moradia para Patrícia Swenson, secretária em seu escritório. Beaufort tinha pe­dido o divórcio para poder casar-se com a srta. Swenson, mas sua esposa o recusou. Logo após, Beaufort surpreen­deu seu cunhado, Edgar Sutton, sozinho com a srta. Swen­son. Movido por um ataque de ciúme, assassinou os dois.

“Achei que ele estivesse persuadindo Patrícia a dei­xar-me”, declarou Beaufort. Desde 1974 ele está cumprindo uma pena de vinte anos na Penitenciária Federal da Ilha McNeil.

“A casa era um belo exemplo da arquitetura de mea­dos do século XIX”, disse um porta-voz da Imobiliária Spatz, que havia alugado a casa para Beaufort. “Mas aqueles assassinatos fizeram com que a casa se tornasse impossível de alugar. Os clientes interessados achavam que a casa era assombrada.

“Havia também o problema com os curiosos. As pessoas, em seus carros, paravam em frente da casa e ficavam espiando, ou desciam para tirar fotografias. Os prováveis inquilinos argumentavam que não teriam sossego se a alugassem.”

Segundo a Imobiliária Spatz, várias ofertas de com­pra foram recebidas durante os últimos anos. Porém, todas foram recusadas pelo proprietário, que está registrado no cadastro imobiliário como um tal sr. Coste.

A própria imobiliária não tem o endereço do proprie­tário, e ninguém, no escritório, se lembra de tê-lo encon­trado pessoalmente. Alegam que tratava de negócios pelo correio e por telefone e acrescentaram que o lote núme­ro 666 da Bremerton Road está à venda agora.

A polícia declarou que, desde os assassinatos, a casa tem sofrido pequenos atos de vandalismo. Um grande por­tal com vidro colorido e as ornamentadas janelas da sacada foram fechados com tábuas para evitar maiores danos. Várias vezes, os vizinhos perceberam uma tremulante luz vermelha no interior da residência e chamaram os bom­beiros. Mas nunca encontraram qualquer evidência de fu­maça ou danos provocados por fogo.

O sr. Coste não informou à Imobiliária Spatz onde será o novo local da casa. A companhia encarregada de transportar a estrutura não pôde ser encontrada, para maiores esclarecimentos.

1

Terça-feira, 10 de abril de 1979.



Dez dias no Caribe eram precisamente o que Keith Olson precisava. Ele passara a maior parte do inverno renovando uma velha casa de fazenda em Dobbs Ferry e, agora, queria uma pausa antes do próximo trabalho. Então, ele e sua esposa, Jennifer, voaram para as Bahamas para tomar sol e pescar em alto-mar.

Contudo, Keith estava um tanto ansioso para voltar ao trabalho. A primavera sempre fora uma época agitada para a Carpintaria Olson. Os gelados invernos no vale Hudson deixavam um bocado de telhados e calhas em péssimo estado. E, do jeito que os preços dos imóveis subiam, nesses dias, mais e mais pessoas preferiam con­sertar ou renovar suas casas, acrescentando mais um cô­modo ou remodelando o sótão ou o porão. Geralmente, em maio e junho, Keith tinha bem mais trabalho do que podia executar. Agora, se pelo menos sua esposa pu­desse dedicar-se a sua carreira novamente. . .

Dois anos antes, Jennifer trabalhava como decoradora de ambientes em Manhattan. Mas, quando se casou com Keith, fechou seu escritório e saiu da cidade. Agora, ela e Keith moravam na cidadezinha de New Castle, logo aci­ma de Ossining. Mas, com o passar do tempo, Jennifer descobriu que não estaria totalmente satisfeita se não esti­vesse realizando pelo menos um projeto de decoração, esco­lhendo amostras de papel de parede ou criando alguma idéia com tecidos ornamentais.

O fato de ficar sem fazer nada o dia todo a deixava deprimida e irritada. Por esta razão, desde o Natal de 1978 procurava algum trabalho de decoração para fazer. Chegou até a colocar um anúncio no jornal local, ao qual ninguém respondeu. Aqui, no alto Westchester, não era assim tão fácil encontrar esse tipo de trabalho. E, à medida que o inverno chegava, Jennifer se desencorajava cada vez mais. Keith notou, porém, que o sol tropical a ajudara, animando-a um pouco.

O avião aterrissou no Aeroporto Internacional J. F. Kennedy um pouquinho depois das quatro horas. Keith não se preocupou em encontrar um carregador para retirar suas malas da alfândega. Ele tinha jogado futebol na es­cola e, agora, aos trinta e três anos de idade, ainda con­servava as formas de um vigoroso zagueiro, com ombros fortes e largos e um tronco bem-constituído. Carregou a bagagem para a área de recolhimento e caminhou até o estacionamento onde ele e Jennifer haviam deixado seu carro — um seda azul. Aí ajeitou toda a bagagem no porta-malas e rumou para a Whitestone Bridge, sentido norte, em direção à Saw Mill River Parkway.

Estavam quase chegando a casa quando Jennifer virou-se para ele e disse:



  • Você não se importaria se David viesse jantar co­nosco amanhã à noite?

  • Tão cedo? — perguntou Keith. — Parece que estamos alimentando o sr. David praticamente a cada duas semanas. — Lá nas Bahamas, ele e Jennifer tinham se queimado demais para fazer amor e, naturalmente, ti­nham jantado fora todas as noites. Agora, Keith queria pelo menos algumas noites a sós com Jennifer, em sua própria casa, sem garçons, sem agitação. . .

  • Mas não vemos David desde março — lembrou-lhe Jennifer.

  • É mesmo — gargalhou Keith —, 31 de março. Mas, claro, convide-o. Não me importo.

Mas no começo, quando ele e Jennifer se casaram, Keith não se sentia muito bem diante da amizade de Jen­nifer com o negociante de antigüidades de Manhattan.

Com um metro e oitenta de altura, David M. Carmichael era cerca de cinco centímetros mais alto que Keith.

E a atraente aparência de David fazia com que Keith sentisse ligeiramente a ameaça de, mesmo temporariamente, ser relegado a segundo plano. David tinha quarenta e dois anos — nove anos mais velho que Keith, doze mais que Jennifer. Mas os anos a mais só serviram para melhorar sua aparência. Sua vasta cabeleira tornara-se charmosamente grisalha, e ele se mantinha em forma, passando no mí­nimo uma hora por dia no clube de tênis. Um homem elegante, usava sempre ternos sob medida, gravatas de seda e sapatos caros. E, como negociante de antigüidades, de peças do século XVIII, sentia-se perfeitamente à von­tade no rico e sofisticado mundo que Jennifer costumava freqüentar.

A primeira vez em que Keith se encontrou com Da­vid foi quando Jennifer o arrastou a Nova York para um leilão na Sotheby Parke Bernet. Nas salas de exibição, os três viram um abajur de vidro esverdeado. Para Keith, aquilo lembrava as lâmpadas que pendiam numa sorveteria alemã, lá em Ossining; e Jennifer realmente parecia gostar daquilo. Ele lhe disse, então, que se ela quisesse o abajur como presente de casamento, no dia 7 de maio, ele arris­caria um lance de até quatrocentos dólares.

Jennifer e David se olharam como que assustados, mas nenhum dos dois disse qualquer coisa. Então, mais tarde, Keith examinou o catálogo de venda. Aquele extraor­dinário abajur era uma peça assinada por Louis Comfort Tiffany — estimada entre quinze mil e dezoito mil dó­lares. Para Keith, o mundo da arte e as antigüidades eram um labirinto resplandecente com que David e sua esposa estavam bem familiarizados, mas onde ele se perdia fa­cilmente.

Um pouco antes das seis horas, Keith estacionava na entrada da garagem, na Sunset Brook Lane, 712. Jennifer foi direto para a cozinha para preparar alguns bifes para o jantar. Keith carregava as malas novamente — uma sob o braço esquerdo e as outras duas, uma em cada mão —, e, com certo esforço, subiu as escadas em direção ao quarto.

Que bom estar em casa, pensou ele. Haviam comprado essa velha casa de tijolos vermelhos dois anos atrás, um pouco antes de se casarem. Então, Jennifer vendeu seu pequeno apartamento no East Side e trouxe a maior parte da mobília para New Castle. Os móveis dos dois formavam uma combinação engraçada — o oratório de carvalho de Jennifer e sua mobília de estilo moderno, ao lado das velhas e rústicas mesas e cadeiras de Keith. Mas a sua habilidade com cores e tecidos fez com que tudo aquilo combinasse, sem deixar a casa muito feminina e suntuosa, para que Keith se sentisse à vontade.

De repente, ele ouviu a voz de Jennifer vindo da co­zinha. — Keith! — ela chamou. — Desça aqui. — Parecia preocupada.



  • Estou indo — respondeu ele, saindo rapidamente do quarto e descendo as escadas em dois saltos. Mas, quan­do entrou na cozinha, tudo parecia na mais perfeita ordem.

  • O que houve? — perguntou ofegante.

  • Olhe. — Jennifer apontava a janela sobre a pia. Eles possuíam cerca de um acre de terra. Mas, mesmo assim, a sua casa parecia ainda mais isolada, pois a Sunset Brook Lane era quase toda coberta de árvores e vegetação. Atrás da casa havia unia vala que ia dar num pequeno riacho, onde samambaias e flores silvestres cresciam todo verão. E sua cozinha tinha uma ampla vista do poente. Keith e Jennifer sempre gostavam de jantar na mesa da cozinha para apreciar o pôr-do-sol.

Mas agora, quando olhava pela janela, ele não podia acreditar em seus olhos. Bem do outro lado da vala, onde a Sunset Brook Lane fazia uma espécie de retorno, erguia-se uma casa de dois andares. Ela não estava lá quando ele e Jennifer saíram de férias.

— Lá se foi nossa vista — murmurou Jennifer tristemente.

Mas Keith estava assombrado. — É impossível! Não há jeito de construir uma casa tão rapidamente. O terreno nem mesmo estava limpo há dez dias!


  • Tem certeza? — perguntou Jennifer. Ela e Keith raramente usavam o atalho oeste da Sunset Brook Lane, a não ser que estivessem indo em direção à Taconic Parkway.

  • Tenho certeza — insistiu Keith. — Passei ali há duas semanas, quando ia para Dobbs Ferry. Não havia nenhum sinal de alicerce, nenhuma escavadora. E, além disso, aquele terreno é de Clyde Ramsey. Ele nunca quis construir ali.

O clarão do fim da tarde ofuscava seus olhos. Os carvalhos e os bordos ainda estavam sem folhas, e o sol poente escorregava por detrás da varanda principal da nova casa. Parecia estar a apenas uns cem metros de distância, bem na beira da vala. E, de acordo com sua silhueta, Keith podia concluir que era uma casa com água-furtada, uma ampla varanda, à esquerda. Ele não via nenhuma cortina ou veneziana — evidentemente, os novos inquilinos ainda não tinham se mudado.

Keith deu uma olhada no relógio sobre o fogão. Ele marcava seis e dez. Dentro de quinze minutos o sol estaria se pondo. — Jennifer, você se importa se eu for até lá para dar uma olhada? Simplesmente não posso imaginar como é possível construir uma casa em tão pouco tempo.

— Desde que você desfaça as malas primeiro. Sua roupa vai mofar toda se você não a tirar de lá.

Keith concordou e subiu novamente para o quarto. Na noite anterior, uma série de temporais tropicais havia lavado as ilhas Bahamas. Agora, ao abrir a mala, sentira a umidade em seu interior. Seus ternos estavam totalmente amarrotados; porém, se eles fossem para o tintureiro, Keith não sentiria sua falta. Não era um homem de usar paletós e gravatas.

Depois de colocar a mala no fundo do armário, Keith mudou de roupa rapidamente, vestindo blue jeans e sapa­tos esporte. O tempo, em abril, ainda estava um pouco frio em New Castle, fazendo com que Keith procurasse sua jaqueta acolchoada que costumava usar quando ia esquiar com Jennifer em Vermont. Seria idiotice arriscar-se a pegar um resfriado logo agora, com a chegada da época de mais trabalho.

Quando desceu novamente, Jennifer estava junto à pia, preparando os bifes. Ela estava com um bronzeado maravilhoso, e os raios de sol haviam realçado seus cabe­los castanhos cor de mel. O sol já havia desaparecido por detrás da nova casa, mas a luz do céu poente brilhava por entre seus cabelos, tornando-os suavemente dourados. Ela não era a mulher mais bonita que ele já vira, mas, com toda a certeza, era uma das finalistas.

Seria essa a razão de seu ciúme? — perguntou Keith a si mesmo. Aborrecia-lhe um pouco o fato de Jennifer ter sido casada antes, quando tinha vinte e cinco anos. Seu divórcio acontecera há cinco anos. Mas, mesmo assim, Keith não gostava de ser comparado a alguém que ele nunca conhecera. E, pata agravar, havia ainda David, um dos melhores amigos de Jennifer, simpático, educado, in­dependente e que ganhava muito mais dinheiro do que ele.

Keith beijou sua esposa e fitou seu rosto por ins­tantes. Seus olhos tinham pequenos anéis amarelados ao redor das pupilas, como dois pequenos eclipses solares. Ele não devia se preocupar com Jennifer, pensou con­sigo mesmo. Ela e David eram apenas velhos amigos que se conheciam há anos.

— Não vou demorar. Só quero dar uma olhada na casa, antes de escurecer.

Jennifer concordou com um sorriso. — Tente desco­brir quem é o dono. Talvez ele queira que eu a decore, assim que estiver tudo pronto.

Keith destrancou a porta da cozinha e saiu. Jennifer esperou que ele se distanciasse o suficiente, até cruzar a vala. Então, pegou o telefone na parede da cozinha e discou para Manhattan. Não houve resposta, porém. Será que David estava trabalhando até tarde, na galeria?

Jeniffer reconheceu o nítido sotaque inglês da secre­tária de David, a srta. Rosewood. — David M. Carmichael, boa tarde!



  • Olá, aqui é Jennifer Olson. David está, por favor?

  • Ah, sra. Olson, um momento. Deixe-me ver se ele pode atendê-la. — E, então, um profundo silêncio; a srta. Rosewood deixou-a na linha, esperando.

Era sempre ligeiramente desagradável ser tratada como uma estranha por alguém que a conhecia há tanto tempo. Mas a britânica srta. Rosewood era muito discreta e pro­tegia seu patrão com implacável lealdade — principalmente agora que David estava solteiro novamente.

— Jennifer! — Era a voz de David. — Como vai?



  • Maravilhosa, David, e você? Por que está tra­balhando até agora? Estou ligando numa hora imprópria?

  • Não, absolutamente — gargalhou David. Então ele abaixou a voz. — Há um produtor de Beverly Hills que quer comprar um presente para sua esposa, para co­memorar seus dez anos de casamento. Ela prefere um jogo de poltronas que custa sessenta e cinco mil dólares. Mas ele está mais interessado numa escrivaninha Luís XVI que custa oitenta e cinco mil. Ele acha que a escrivaninha é algo mais prático.

  • Tomara que ele a convença — disse Jennifer. — Mas escute; Keith e eu acabamos de voltar das Bahamas. Eu quero que você nos veja antes que eu comece a des­cascar. Você está livre para jantar amanhã?

David deu uma olhada em sua agenda. Na noite de quarta-feira teria que jantar com um dos administradores do Metropolitan Museum. Mas, claro, poderia cancelá-lo. Preferia Jennifer — e Keith também, é claro.

  • Parece perfeito — disse David. — A que horas?

  • Bem. . . — Jennifer fez uma pausa. — Por volta das seis e meia está ótimo.

  • Combinado; às seis e meia — confirmou David. Isso significava então que ele teria que deixar a galeria ali pelas quatro horas, pegar um táxi para casa, tomar um banho e barbear--se. . .

Da casa dos Olsons, no número 712, a Sunset Brook Lane partia em direção ao norte, fazendo novamente uma curva acentuada ao sul, para formar um U invertido. Se Keith quisesse chegar até a nova casa pela estrada, teria que atravessar a pequena ponte de concreto, no começo da alameda. Uma caminhada de uns setecentos metros, apro­ximadamente. Seria bem mais prático atravessar a vala que separava a nova casa de sua cozinha.

Soprava uma leve brisa. A pele do rosto de Keith — queimada há apenas uma semana — estava toda ressequi­da. No fundo da vala, onde as samambaias cresciam no verão, o riacho corria suavemente. Aparentemente, não chovia desde aquele incrível aguaceiro que caíra uma noite antes de deixarem o Aeroporto Kennedy.

Atravessando sobre as pedras que se elevavam acima da superfície da água, Keith parou. Do outro lado do riacho, o ar parecia mais pesado. Sugeria aquela mesma sensação que Keith experimentava sempre antes de uma tempestade.

Keith levantou a cabeça. A casa assomava-se acima, cobrindo o sol. Keith encolheu os ombros num gesto de indiferença e começou a escalar o íngreme barranco. Al­cançou logo o outro lado da ravina. Bem à sua frente, numa estreita faixa de terra que tinha sido aplainada com escavadoras, a nova casa de madeira assomava imponente e ameaçadora. Era amarela, com vigamento azul, e o telhado da água-furtada era de telhas de ardósia. Não poderia haver um sótão ali, apenas um pequeno espaço, bastante raso, que só atrairia esquilos e ratos.

A casa fora colocada em diagonal com a Sunset Brook Lane, de modo que a porta da frente dava para o sul. Keith espiava, assombrado, o ornamentado vigamento sob o telhado da varanda. Já não se viam mais ornamentações tão espalhafatosas como aquela.

Não havia nenhuma garagem, mas bem em frente à varanda principal, uma larga faixa de terra conduzia até a estrada, recoberta com pedregulho. Ali, Keith supôs, seria onde o proprietário teria de estacionar seu carro. Agora, porém, não havia nenhum automóvel. Como tam­bém não havia cortinas nem persianas nas janelas. As tábuas recortadas, cuidadosamente preparadas, imitavam pequenas telhas semicirculares, mas, definitivamente, pre­cisavam de uma nova mão de tinta. Keith podia ver arranhaduras e lascas por todo lado. Mesmo a uns seis metros de altura, nas paredes.

Então, Keith percebeu rastros de pneus enormes. Al­gum veículo de grande porte tinha deixado as marcas de seus pneus sujos de barro na Sunset Brook Lane. Agora ele compreendia. A casa não fora construída ali, e sim, transportada de algum lugar para lá.

Chegou mais perto, enquanto examinava as fileiras in­feriores de ripas, na parede da casa, bem junto ao alicerce de concreto, que ainda estava fresco. Sim, ali estavam as marcas dos cavaletes que haviam sido usados como su­porte, quando a casa fora retirada do seu alicerce original. Quem executara esse serviço certamente sabia o que estava fazendo. Keith quase se arrependeu de ter estado ausente, em férias. Teria adorado presenciar a instalação dessa tre­menda estrutura de dois andares sobre seu novo alicerce.

Mas, dentre todos os lugares, por que justamente aqui? Para começar, praticamente não havia quintal. E, bem ao lado da varanda principal, o terreno precipitava-se inclinadamente em direção ao riacho no fundo da vala. E, além de ter todos esses inconvenientes, o que teria levado o proprietário a escolher um pedaço de terra tão estreito e desajeitado?

Keith deu uma caminhada ao redor da varanda para ter uma idéia da vista da casa, da estrada. Uma sólida sacada projetava-se da parede que fazia frente para a Sunset Brook Lane. Coberta com ardósia, a sacada continha três vidraças separadas, cada uma medindo aproximadamente um metro de largura por dois de altura. Aparentemente, a casa tinha sido colocada de maneira que a janela da sacada pudesse captar a luz da tarde. Talvez o dono desse lugar também gostasse de apreciar o pôr-do-sol.

Ao chegar à varanda da frente, Keith observou os painéis em ambos os lados da porta de entrada. Cada painel era constituído de pequenos pedaços de vidro sextavado, ligados por filetes de chumbo. Os pedaços de vidro sextavado eram perfeitamente claros. Mas as extre­midades superior e inferior de cada painel traziam uma faixa vermelha de um tipo de vidro brilhante.

Sobre a porta havia uma ventarola semicircular com o mesmo tipo de vidraça dos painéis da porta de entrada. Na parte inferior da ventarola, havia um grande disco de vidro vermelho cor de sangue. Desse disco, tiras de chumbo imitavam os raios do sol. Parecia o sol poente, a ponto de mergulhar no horizonte. E bem no centro do círculo vermelho, em grandes algarismos negros, estava o número da casa: 666.

Keith e Jennifer moravam no n.° 712. Uma casa desse lado da Sunset Brook Lane poderia ter qualquer número até 640 — que era o número da casa da sra. Woodfield, cerca de quatrocentos metros estrada abaixo. Olhando mais detalhadamente, Keith notou que os números também eram feitos de chumbo, circundando o disco de vidro vermelho. Seria essa a razão pela qual a casa fora transportada para esse exato local, para que não fosse preciso mudar a nu­meração?

Então, ouviu um suave clique. Bem à sua frente, a porta dianteira moveu-se ligeiramente. Que estranho, pen­sou Keith. Não sentiu nenhuma brisa. Mas, afinal, se a porta estava destrancada é porque havia alguém lá dentro. Keith teria que se encontrar com seu novo vizinho, mais cedo ou mais tarde; e agora poderia ser uma hora tão boa como qualquer outra.

Apertou a campainha, mas não ouviu nenhum ba­rulho no interior da residência. Aparentemente, a eletrici­dade ainda não tinha sido ligada. Empurrou a porta com a mão, e ela se moveu silenciosamente, nas dobradiças.

Bem do seu lado esquerdo, uma íngreme escadaria com um velho corrimão levava até o segundo andar. Em frente, um pequeno e estreito corredor dava para os fun­dos da casa.

— Olá, alguém em casa? — chamou Keith. Mas ninguém respondeu.

Entrou num lugar que devia ser a sala de estar. Mas o andar térreo estava completamente vazio, sem nenhuma mobília. Também não havia lâmpadas. Alguém, provavel­mente muito previdente e cauteloso, tinha tirado as insta­lações do teto, tanto no hall como na sala de estar, de modo que a única luz do lugar vinha de fora, pelas janelas.

Na parte posterior da sala de estar havia um pequeno nicho, com uma lareira numa parede e uma porta na parede adjacente. Keith empurrou a porta e viu que ela dava para a cozinha, na parte posterior da casa. Lá dentro havia uma geladeira de aparência moderna e uma pia de aço inoxidável.

Voltou para onde estava. O assoalho de carvalho da sala de estar parecia bastante antigo. Mas as paredes, onde Keith esperava encontrar uma forração no mínimo interes­sante, eram feitas com os piores compensados possíveis. Keith balançou a cabeça, desapontado. Será que o proprie­tário não se importava nem um pouco com o interior? Se preferisse material pré-fabricado, poderia, pelo menos, usar lambris mais decentes.

Porém, numa parte do andar térreo, havia uma for-ração um pouco melhor — na escada. A princípio, Keith pensou que as duas portas de correr, embaixo da escadaria, fossem de algum armário de roupas. Mas, no lugar das maçanetas, as portas tinham enormes argolas de ferro, todo batido e gasto. Keith puxou as portas, que se abriram, escondendo-se por entre a forração de madeira. Então de­parou com um estranho cômodo sextavado.

Keith entrou. Bem à sua frente estavam os três painéis da sacada que tinha visto do lado de fora. Mas a pessoa que havia projetado esse cômodo deveria ter hexágonos na cabeça. O chão, talvez com uns três metros de diâmetro, era de mármore branco e creme, formando um mosaico de hexágonos entrelaçados. O mesmo padrão era repetido em ambos os lados das portas de correr e sob as janelas com filetes de chumbo. Até nas janelas.

Cada parte da janela da sacada era feita de pequenos pedaços de vidro sextavado e transparente, tendo cerca de um metro e meio de extensão, ligados por filetes de chum­bo. A maioria dos pedaços de vidro tinha pequenos arra­nhões, os quais chegavam a dar idéia de alguma espécie de desenho, mas eram fracos demais para que Keith pudesse identificá-los. Aqueles pequenos arranhões eram quase tão transparentes quanto o próprio vidro. Agora, o sol estava quase sobre o horizonte, entrando pela janela da sacada e criando uma espécie de deslumbramento.

Keith subiu até o segundo andar. O corrimão era feito de um bom e velho mogno, mas as escadas não tinham nada de especial, apenas tábuas velhas e mancha­das, com uma lasca aqui e ali. No topo da escada estava o banheiro e, do lado direito, algo como um vestíbulo ou pequeno dormitório. Mais para a direita — no sen­tido da varanda principal — estava o dormitório central. Uma de suas paredes era acabada com o mesmo material que forrava o lado da escada, no andar térreo. As outras paredes, entretanto, eram forradas com aquelas mesmas chapas rechonchudas e moles.

Olhando das janelas do quarto principal, Keith tinha uma boa visão de sua própria casa, que estava apenas a uns dez metros de distância. A nova casa ficava num terreno ligeiramente mais elevado, de maneira que era fácil ver, dali, o interior de seu próprio quarto, no se­gundo andar. Nada bom; eles não poderiam esquecer de abaixar a persiana durante a noite.

Estava para descer as escadas quando, de repente, ouviu um agudo som metálico: clang! Como se alguém tivesse deixado cair um parafuso dentro de um balde. Keith voltou-se. Bem atrás dele estava o banheiro, e, dentro, uma antiga banheira de ferro fundido, sobre seus quatro pés, em forma de garras. Foi até a beirada da banheira e deu uma olhada. No fundo, sobre o esmalte enferrujado, jazia uma moeda marrom-escura, mais ou menos do tamanho de uma daquelas de cinqüenta cents. Ela era grande demais para sair pelo ralo. Keith de­bruçou-se sobre a borda da banheira e apanhou a moe­da. Para sua surpresa, ela estava um pouco quente, como se estivesse encostada numa lâmpada antes. Mas não havia nenhuma lâmpada na casa — na verdade, nem mesmo tinham ligado a eletricidade ainda.

De onde teria caído aquela moeda? Keith olhou para o teto sobre a banheira, mas ele estava perfeito. Será que a moeda estava na beirada da banheira e escor­regou por causa de seus passos? Mas, ainda assim, quem teria tido a idéia de colocá-la ali?

Então, levou a moeda até a janela do banheiro, para poder examiná-la à luz do sol poente. Enquanto Keith segurava a moeda, parecia que o calor se refugiava dentro dela. Agora, Keith já não tinha tanta certeza se ela tinha estado aquecida realmente. Em uma das faces, estavam es­critas as iniciais se, em grandes letras maiúsculas, e, entre elas, algo que lembrava a forma de um cabo de guarda-chu­va, Keith ficou imaginando o que se queria dizer; South Carolina?

Tinha que ser uma moeda estrangeira, pensou. Na outra face, havia o gasto perfil de um homem com um pescoço longo e grosso. Um círculo de letras contornava o perfil, mas estavam tão gastas que Keith não conseguia distingui-las. De fato, a moeda não estava em boas con­dições. Tinha aquela aparência esverdeada e rústica que o bronze adquire após ter passado algum tempo enter­rado, e as bordas estavam denteadas em vários pontos.

Mas, mesmo assim, não havia por que deixá-la na banheira. Keith colocou a moeda no bolso de sua jaqueta.

Do topo da escada ainda deu uma olhada pela janela. Agora, o sol estava bem na linha do horizonte. Em pou­cos minutos estaria escurecendo — hora de voltar para casa, antes que Jennifer começasse a ficar preocupada.

Keith estava descendo as escadas, mas parou no meio do caminho. Deixara a porta da frente totalmente aberta ao entrar. Agora, ela estava fechada novamente. Aí ouviu um leve ruído, um sussurro, talvez um suspiro, vindo do corredor atrás dele.

Voltou-se, e vislumbrou os raios avermelhados de uma luz que escapava pelas portas de correr. Curioso, Keith voltou até o corredor e deu uma olhada dentro do cômodo sextavado.

Fora da janela da sacada, o sol vermelho-fogo estava bem na linha do horizonte. Apenas há poucos minutos atrás, as vidraças da janela da sacada estavam completa­mente transparentes. Agora, elas estavam em brasa, com a mesma cor do sol que morria.

Entrou no cômodo, ofegante. De algum modo, o vidro da janela parecia captar os vermelhos raios solares e amplificá-los. O chão, os lambris, todo o cômodo, de fato, estava banhado com aquele incomum brilho aver­melhado. Keith olhou para suas mãos, agora vermelhas. Sua jaqueta, azul à luz do dia, estava toda purpúrea.

Então percebeu figuras humanas, de tamanho natu­ral, em cada uma das três janelas. Dessa vez não eram arranhaduras, mas linhas precisas, cuidadosamente grava­das no vidro. E agora que as vidraças refletiam aquele brilho vermelho, o molde a elas sobreposto era clara­mente visível.

A figura da janela do lado esquerdo vestia uma túnica com mangas compridas e uma estranha espécie de sapato e meia ao mesmo tempo. Lembrava um pouco aquelas estatuetas de metal que Jennifer trouxera, certa vez, da Inglaterra. Keith, entretanto, percebeu tratar-se de uma figura masculina. Gracioso e simpático, ele estava olhando para a direita, com um largo sorriso, estendendo a mão esquerda para a mulher desenhada na janela do meio.

Como o Cavalheiro Sorridente, ela também parecia estar vestida com trajes da Idade Média. Ele fazia sinal para que ela fosse até ele, e ela, com um tímido sorriso, aceitava o convite.

Agora, Keith podia entender a razão de todas aque­las partículas de vidro em cada janela. Se uma simples parte daquela vidraça desenhada, cerca de dois metros por um, se quebrasse, um artista teria que desenhar um painel inteiro para poder substituí-la. Mas aquelas partículas eram bem mais fáceis de se substituir. E, se algum garoto atirasse uma pedra na janela, o proprietário teria que encomendar apenas dois ou três hexágonos, no máximo. Bastante inteligente! E aqueles desenhos eram realmente uma obra de mestre. Uma pena não ter a oportunidade de sempre poder apreciar aquilo tudo, a não ser em deter­minadas horas do dia, como naquelas. . .

E, então, seus olhos pousaram numa terceira jane­la, a do lado direito. Tanto o Cavalheiro Sorridente quanto a Donzela Desejosa estavam desenhados de perfil. O outro homem estava desenhado de frente. Sua boca contorcia-se em aflição, e grandes pingos de lágrimas esti­lizadas rolavam de seus olhos. Obviamente, aquele tipo não tivera sorte no amor — o Cavalheiro Sorridente estava-lhe roubando a mulher. Mas, em lugar de tomar uma atitude para detê-la, ele permanecia ali, parado, cho­ramingando. Bobo, idiota!

Mas havia algo estranhamente familiar naquele rosto. Keith chegou mais perto. O rosto do Bobo enquadrava-se em um dos hexágonos, como se uma máscara sextavada tivesse sido colocada sobre sua cabeça. As lágrimas eram estilizadas, mas o rosto atrás delas era quase fotograficamente real...

Lá fora, o sol ia desaparecendo no horizonte. Ainda assim, a figura desenhada, diante dos olhos de Keith, era mais clara do que nunca. De repente, Keith percebeu por que aqueles traços lhe eram tão familiares. Eles forma­vam os mesmos olhos, a mesma boca e o mesmo nariz que ele via todas as manhãs, no espelho do banheiro. Era o próprio rosto de Keith que o fitava daquele hexágono de vidro.

Aterrorizado e confuso, Keith afastou-se daquela in­crível janela. Do lado de fora, o sol já tinha desaparecido no horizonte. O crepúsculo caía. Mesmo assim, as vidra­ças ainda refletiam aquele brilho vermelho, pulsando le­vemente, como se possuíssem vida própria.

Temeroso de tirar os olhos daquela fantástica janela, Keith se afastava de costas, procurando a saída para o corredor. Mas, ao invés disso, suas mãos encontravam apenas madeiras sólidas.

Será que as portas haviam se fechado, aprisionando-o ali? Ele se contorcia, quase em pânico. Mas não, apenas tinha ido de encontro a um dos lambris. As duas portas ainda continuavam abertas, como as deixara. Dan­do graças a Deus por poder sair dali, mergulhou pela saída do cômodo e correu para a porta da frente. Mas, quando chegou ao fim da escada, Keith deu uma olhada pela janela do vestíbulo, ao lado da porta da frente, e quase caiu de susto. Uma figura transparente e decapi­tada estava parada na varanda, bloqueando sua saída.

Retrocedeu, totalmente aterrorizado, e a aparição tam­bém desapareceu, instantaneamente. Aí Keith deu outra olhada e entendeu. Era seu próprio reflexo na janela do vestíbulo.

Deu um passo à frente outra vez, e a figura deca­pitada prontamente reapareceu. Um passo para trás, e a figura sumiu. Keith olhou à sua direita, onde a última luz do dia brilhava pela janela, no pé da escada, ilumi­nando seus ombros e tronco, menos sua cabeça.

Tudo não passou de uma travessura da luz! Keith podia sentir sua pulsação voltando ao normal, quando abriu a porta da frente, dirigindo-se para a varanda. . .

Mas, e o rosto do Bobo Lacrimejante, lá atrás, no cômodo sextavado? Aquilo não era reflexo! Keith tinha a certeza de que o rosto desenhado no vidro era seu próprio rosto, mas, agora, nem pensava em voltar lá, para vê-lo novamente.

Ao fechar a porta atrás de si, Keith ouviu o barulho da trava da fechadura. A porta estava trancada; não podia girar a maçaneta mais dó que um quarto de volta. Satis­feito, saiu da varanda, em direção ao outro lado da vala.

Agora estava escurecendo rapidamente, e Jennifer tinha ligado o holofote sobre a porta da cozinha. De repente, Keith teve a desagradável sensação de estar sen­do observado. Voltou-se repentinamente e olhou cada uma das janelas sem cortinas. Mas não havia ninguém lá.

Dentro do bolso da jaqueta, apertava a pesada moeda de bronze. Quando, finalmente, encontrasse o proprietá­rio daquela casa, ele lhe devolveria a moeda junto com um lembrete para não deixar a porta da frente destran­cada! Enquanto isso, porém, decidiu não comentar nada com Jennifer sobre o fato de ter visto seu próprio rosto naquele painel de vidro. Até que tivesse uma oportuni­dade de dar uma olhada naquelas janelas durante o dia.

Mas Keith sabia que não teria tempo de voltar ali no dia seguinte. A primeira coisa que teria que fazer na quarta-feira de manhã seria visitar o escritório em Cappaqua e se inteirar das contas e chamadas telefônicas gravadas na secretária eletrônica. Depois, ele, Marc e Jason teriam que começar um novo serviço em Peekskill. E, naquela noite, Jennifer queria que ele estivesse em casa cedo para se arrumar, colocar uma gravata e engraxar os sapatos...

Claro, sempre havia uma chance de David não estar disponível para um convite assim, tão em cima da hora. Mas uma chance muito remota, admitiu Keith. Quando Jennifer o convidava para jantar, David Carmichael sempre estava disponível.

2

Quarta-feira, 11 de abril de 1979.



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