7 De Setembro (Pátria Amada)



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7 De Setembro (Pátria Amada)

Curta-Metragem (Baseado em fatos reais)

Faltavam poucos dias para começar as aulas no verão de 1980. Waldete entra em casa suada e cansada, porém com uma expressão feliz após recorrer várias escolas públicas inutilmente onde tentara a transferência escolar dos seus filhos. Sua preocupação maior era com Jorge que acabara de ter alta da clínica de reabilitação, ele precisava de um colégio onde não tivesse barreiras arquitetônicas para circular independentemente em sua cadeira de rodas, após passar quase 1 ano internado, Jorge agora precisava voltar a estudar e se adaptar a sua nova condição.

_ Consegui bolsa pra vocês meus filhos! Exclamou Waldete na presença de seus 3 filhos. Edinho, o mais novo que acabara de completar 8 anos de idade, se antecipou:

_ Eu quero a minha azul!

_Cala a boca moleque, isso não é o que você está pensando não! Retrucou Marquinhos, o seu filho do meio prestes a completar 13 anos.

As suas pernas doíam após ter andado bastante em visitas as escolas públicas nas intermediações da favela em que morava com seu marido Oscar e seus filhos em Senador Camará, zona oeste do Rio de janeiro. Eles recentemente haviam mudado de uma favela da Pavuna para outra em Senador Camará e o pensamento era, favela nova, vida nova. Ela não entendia porque tanta burocracia para transferir seus filhos de uma escola para outra. Sentia fome e sede quando resolveu entrar numa escola particular na sua última esperança de conseguir educar seus filhos. Uma senhora serena e gentil veio atende-la. Ela se chamava Dna. Dulce e era mãe de Lúcia que era dona e diretora do colégio. Waldete dentro da sua humildade pediu encarecidamente que lhes conseguissem bolsas de estudo para seus filhos. Então ela contou das suas condições financeiras e do acidente que seu filho mais velho sofrera. Vítima de bala perdida há quase 1 ano nessa infindável guerra de polícia e bandido. Jorge agora tinha 16 anos e estava de volta em casa e se locomovia em uma cadeira de rodas e o que Waldete mais queria no momento era educar seus filhos e apesar de cursarem séries diferentes, melhor seria que Marcos e Jorge estudassem no mesmo horário e pudessem ir juntos a escola para que Marcos auxiliasse Jorge, principalmente no portão de entrada do colégio onde haviam 4 degraus de escadas. A bondosa Dna. Dulce conseguiu bolsa para os dois filhos mais velhos de Waldete que de tanta satisfação e gratidão, não deixou transparecer sua preocupação com o seu filho Edinho, mas como ele só tinha 8 anos, talvez um ano letivo perdido pudesse ser recuperado mais na frente, mas mesmo assim ela seguiria procurando vagas em outros colégios públicos.

As aulas começaram e o pequeno Edinho parece que perderia mesmo aquele ano, era impossível vagas assim em cima da hora. Era uma época antes de sair uma lei que assegurava vaga em qualquer colégio público para o estudante em casos como esse de mudança.

Três meses se passaram e os meninos iam bem no colégio, era mês de junho, fazia uma noite agradável e soprava uma brisa fresca. Marquinhos pedalava a cadeira de seu irmão, enquanto um pé se firmava em uma das ferragens na parte traseira da cadeira, o outro pé ia no chão pegando cada vez mais impulso e os dois se divertiam eufóricos com isso toda vez que voltavam do colégio, até porque na volta o terreno parecia contribuir com um suave declínio, e naquele momento a brisa fresca das primeiras noites de inverno lhes tocavam as jovens faces sorridentes. Como era bela a vida!

Mas essa alegria durou pouco, até chegarem em casa e perceberem o clima de preocupação e tristeza de seus pais.

Oscar tinha sido despedido naquele dia e estava desolado em um canto da sala enquanto Waldete tentava consolá-lo.

_Deus proverá Oscar! Dizia ela com um gosto amargo na boca. O emprego de Oscar era algo informal, não tinha carteira assinada e assim, sem direitos trabalhistas. Um pouco mais de um mês se passou e Oscar nada de conseguir trabalho, já não tinha comida na mesa, a fome rondava aquela família e o aluguel da pequena casa de meia água já estava atrazado.

Jorge chamou Marquinhos até o quintal e o convidou para dar um passeio pelas ruas, enquanto Marcos sem entender ainda a intenção de seu irmão, seguia empurrando simplesmente sua cadeira pelas ruas nas direções indicadas por Jorge que varria com seus olhos os terrenos baldios e todos os canto das ruas em busca de alguma coisa que pudesse ser vendida como ferro velho. Até que não demorou muito quando encontraram uma máquina de costurar muito velha e enferrujada em um terreno baldio, esta foi para o colo de Jorge e ainda conseguiram algumas panelas de alumínio em outro terreno que faziam de lixão. Foram direto para o ferro velho e arrecadaram alguns trocados que deu para a família almoçar e jantar durante 2 dias. Outra vez, Marquinhos e Edinho se muniram com algumas ferramentas que tinham em casa. Com martelo e serra, foram a um local próximo aonde havia um casarão em ruínas onde algumas pessoas estavam retirando os vergalhões ali existentes, o que se sabia era que aquele terreno viraria uma pracinha. Edinho martelava o concreto enquanto Marquinho se esforçava para serrar os vergalhões com aquela serra sem arco, mas ele a envolvera com um pedaço de pano, assim machucava menos as mãos. Um homem que também retirava os vergalhões com uma grande marreta e serrava com facilidade com seu arco e serra, se aproximou dos meninos e olhando para suas ferramentas comentou:

_ Assim fica difícil!

_ Quem não tem cão, caça com gato! Respondeu Marquinhos.

Outro dia um amigo dos meninos conseguiu uma bolsa com compras escondido de sua mãe e deu a Jorge, e essas compras duraram mais uma semana. Semana em que o carrinho de rolimã de Marquinhos estava sendo transformado por ele mesmo em carrinho de compras e agora lá estava ele em frente ao supermercado Guanabara abordando as freguesas que saiam com bolsas cheias:

_Vai carreto aí senhora?

Na semana seguinte Jorge faz sua primeira viagem de trem sozinho, sem acompanhante, apenas com o auxílio de alguns transeuntes que por muitas vezes lhe ofereceriam ajuda para subir a rampa enorme e íngrime demais da estação de Senador camará onde haviam também alguns degraus, para finalmente chegar a plataforma.

Aproximadamente uma hora de viagem, o trem para na estação final, central do Brasil. Jorge segue a multidão pela plataforma até chegar a um saguão enorme, e mais a direita desce uma rampa e sobe outra que vai dar na entrada do metrô. Um funcionário do metrô foi chamado para auxilia-lo a descer na escada rolante. Após duas estações, Jorge sobe a superfície da rua Uruguaiana levado pela escada rolante, mas dessa vez sozinho, abriu os dois braços na entrada da escada e agarrou os corrimãos que subiam na mesma velocidade das escadas, então foi só fazer o encaixe e lá estava ele subindo em direção a Uruguaiana.

Passava um pouco das onze horas daquela manhã de inverno onde um sol suavemente caloroso se fazia presente. Jorge tocava sua cadeira pela rua Uruguaiana onde observava a multidão de pessoas que iam e viam, algumas apressadas, outras nem tanto. Ficou feliz ao perceber que estava reconhecendo também, outras ruas por ali. Lembrou das vezes que seu pai lhe levara para conhecer a cidade onde até pouco tempo ele trabalhara. As ruas estavam repletas de camelôs, uns autorizados e outros não. Foi o que percebeu quando houve corre-corre em toda a sua volta, os camelôs fugiam apressados com suas mercadorias e tabuleiros. Eram fiscais da prefeitura reprimindo os que não tinham a licença. Aproximadamente quarenta minutos depois, quase todos voltavam a seus lugares impróprios. Jorge até que achou graça de tudo aquilo!

Um homem branco magro de cabelos sarará estava voltando a arrumar a sua mesa que era sustentada apenas por um cavalete de madeira que se fechava e abria com o mesmo sistema de um guarda-chuva, e enquanto ele arrumava ordenadamente as suas bijuterias, percebeu a aproximação de uma cadeira de rodas, e sentado nela um menino branco de cabelos cacheados que ao chegar bem perto dele, lhe falou meio afobado de uma proposta.

-Eu percebi que os deficientes visuais a fiscalização não perturba.

-E daí? Indagou o comerciante tentando entender.

-Daí que eu também sou deficiente e se você quiser eu assumo a sua loja como se fosse minha, e daí a gente combina um preço.

O sarará coçou a cabeça, olhou para Jorge e sorrindo se apresentou.

-Meu nome é Aluízio e o seu?

-Jorge. Os dois apertaram as mãos e combinaram que Jorge deveria estar ali naquele ponto de segunda a sexta, das 10:00 da manhã até as 5:00 da tarde, assim daria tempo para Jorge chegar em casa e ainda ir pro colégio.

Aloísio deu dinheiro para Jorge fazer um lanche e voltar no dia seguinte no horário marcado, mas antes de lanchar ele precisava ir ao banheiro, então entrou em bares e lancharias, mas nenhuma a sua cadeira passava e justamente em uma das mais sofisticadas do centro, na casa Manon onde também não tinha banheiro adaptado Jorge cansou da agonia e resolveu fazer um lanche e ir logo pra casa. A princípio não entendeu porque um senhor que não lhe parecera brasileiro lhe atendeu com uma cara muito feia, pra só depois se dar conta enquanto mordia o primeiro pedaço do lanche, uma funcionária da casa agachada enxugando a sua urina que vazava no salão da lancharia, e algumas pessoas assistiam aquela cena trágica e cômica enquanto lanchavam em suas mesas.

O colégio Brasil Croácia onde Jorge e Marquinhos estudavam tinha uma quadra de futebol e um grande pátio que a direção costumava permitir toda tardinha, que jogassem ping pong e algumas vezes até tinha campeonato. E foi numa dessas tardes que Edinho foi com seus dois irmãos jogar também, e logo que viu a banda do colégio que ensaiava na quadra de futebol, para o desfile de 7 de setembro. Se apaixonou pela banda e desejou muito em desfilar pelo colégio e comemorar uma data importante para o seu país.

Aproximou-se de um senhor negro forte e simpático de sorriso largo, uma boca grande que com um apito, dava as instruções para os instrumentos! E eufórico o pequeno Edinho perguntou-lhe:

– Como que eu faço para tocar na banda?

– Você precisa ensaiar na banda, mas agora não dá mais tempo. Respondeu o homem de olhar terno.

– Como assim?

– Essa garotada que está aí, já está ensaiando a duas semanas! Respondeu Seu Arlindo, assim apresentado depois, apontando para um grupo de adolescentes que descansavam com seus instrumentos durante um intervalo, onde podia se ver alguns bebendo água mineral, outros sentados as sombras dos muros enquanto outros simplesmente conversavam em pé.

- Eu sei tocar tarol! Exclamou o pequeno aprendiz.

- É mesmo! Retrucou de volta o mestre. E vendo nisso uma pequena coincidência, uma vez que realmente estava precisando de um tocador de tarol, pois o menino que estava na vaga não estava se saindo muito bem e já havia faltado alguns ensaios. Seu Arlindo pegou um tarol e colocou a alça sobre o pescoço do menino que tinha os olhos vidrados no couro do instrumento e as pernas bambas. Então o mestre apitava e menino tocava, o mestre apitava e o menino tocava e seguiu-se assim por algum tempo até que o mestre disse chega. O pequeno Edinho não tocava nada, mas levava um tremendo jeito pra coisa e tamanho era seu entusiasmo que seu Arlindo resolveu dar-lhe uma chance.

- Você pode vir nos próximos ensaios, mas antes você tem que deixar o dinheiro do uniforme na secretaria. Avisou o mestre.

Edinho chegou em casa radiante e não tardou muito em começar a construir um carrinho de frete igual a do seu irmão Marquinho, ele estava decidido que iria assim como ele iria pras portas dos mercados e cabeceiras de feiras para ganhar dinheiro e pagar o uniforme da banda. Seu carrinho não ficou muito bom como o do irmão, pois aproveitou algumas peças que estavam descartadas pelo quintal de um outro carrinho de Marquinho.

No dia seguinte fazia uma tarde típica de calor carioca e o pequeno Edinho já se encontrava na porta do supermercado Guanabara.

- Vai carreto aí senhora? E assim ele ia de freguês em freguês que saia com bolsas do mercado. Finalmente um homem que fazia compras com sua filhinha, aceitou seus serviços e enquanto Edinho enchia o seu carrinho com as sacolas, o homem deu a mão a filha, que aparentava ter a mesma idade do menino do carinho e apontou o caminho.

Mas no meio do caminho o eixo da roda dianteira quebrou e sacou fora deixando esparramar algumas sacolas pelo chão.

A menina lhe encarava com olhar de espanto e admiração quando o pequeno Edinho corou-lhe as faces. O homem nada falou, apenas juntou as sacolas que haviam caídas e as levou consigo enquanto o pequeno Edinho agora puxava o seu carrinho com a metade das compras e a roda que caíra.

- Quanto eu lhe devo? Perguntou o homem após chegarem em sua casa.

- Não! Nada!

- Nada não! Vamos ali ao meu quintal. O homem reconstruiu todo o carrinho do pequeno Edinho reforçando-lhe toda a estrutura e lhe dando rodas e eixos novos e ainda lhe pagou o carreto. Um Homem generoso! Mas quem não seria com um pequeno homem de tamanha boa vontade e coragem?

A semana foi passando e de carreto em carreto, após muitos “Vai carreto aí senhora” Edinho conseguiu juntar o dinheiro do uniforme, e um dia antes do ensaio euforicamente, ele estava lá na secretaria do colégio Brasil Croácia.

- Vim pagar o uniforme. Dizia ele para uma atendente.

- De qual turma você é? Pergunta a atendente.

- Como assim, de que turma?

- Você não estuda aqui?

- Não!

- Então não pode tocar na banda. Lamentou a atendente! O pequeno Edinho chegou em casa muito triste nesse dia.



- Mais de um mês se passou e Waldete, mãe dos meninos fazia as unhas das professoras, diretora e também da dona do colégio quando comentou da tristeza do filho por não tocar na Banda do colégio e quando Lúcia, a dona do colégio soube cedeu mais uma bolsa escolar para aquela família. Porém não dava mais tempo para ele ensaiar o tarol mas ainda dava tempo para ele desfilar se quisesse.

Chega o dia 7 de setembro, os tambores rufando e agora a rua do colégio estava repartida em duas colunas de gente de um lado e do outro assistindo os desfiles dos colégios e o Brasil Croácia estava lá triunfante com seus alunos em formação militar e o pequeno Edinho com um olhar cintilante numa das primeiras filas com seu uniforme branco e uma boina que lembrava a de um marinheiro. Pará-rá-rá-rá-rá Pará-rá-tim-bum! Cabeça erguida, mirando o horizonte, passo firme adiante, olhos reluzentes e muito orgulho no coração, no auge dos seus oito anos de idade e alheio a toda situação trágica e miserável da grande maioria do povo de seu país. Pará-rá-rá-rá-rá Pará-rá-tim-bum! Cabeça virada a direita mirando as pessoas que se encontravam num pequeno palanque onde estavam os jurados e também dona Dulce, Lucia e Waldete que assistiam emocionadas o desfile daquele pequeno brasileiro prodígio. Feliz orgulhoso e alheio as lembranças da falta de emprego do pai, do irmão caído no chão vítima de bala perdida, do cansaço de sua mãe, do concreto que teve que quebrar para extrair o alimento, do desrespeito pelo seu ensino público, ele só queria desfilar pelo seu país. Salve 7 de setembro, oh pátria amada! Pará-rá-rá-rá-rá Pará-rá-tim-bum!


Dedicado ao meu irmão Odimar, Dona Dirce e toda sua maravilhosa família!

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