A adoção da tecnologia Bt no milho e o futuro das sementes



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A adoção da tecnologia Bt no milho e o futuro das sementes
A milhocultura brasileira terá na próxima safra de verão um cenário até então inimaginável: a taxa de utilização de sementes de milho geneticamente modificadas deverá atingir aproximadamente 50% das lavouras.

Por Itavor Nummer Filho, Departamento de Produto e Tecnologia – SUL –

Du Pont do Brasil – Divisão Pioneer Sementes

A milhocultura brasileira experimentará na próxima safra de verão um cenário até então inimaginável no que se refere à adoção de novas tecnologias, quando a taxa de utilização de sementes de milho geneticamente modificadas, tolerantes a insetos lepidópteros, deverá atingir aproximadamente 50% das lavouras.


Na iminência de confirmar a adoção desta tecnologia em níveis nunca registrados e em tão curto espaço de tempo, o milho se firma em 2° lugar em área nas culturas geneticamente modificadas cultivadas no mundo, atrás apenas da cultura da soja com tolerância a herbicidas.
Na safrinha 2009, que está para ser colhida, da área total cultivada com sementes híbridas, aproximadamente 12% foi plantada com híbridos geneticamente modificados para tolerância à Broca da Cana de Açúcar - BCA (Diatraea sacharallis) e a Lagarta do Cartucho do Milho - LCM (Spodoptera frugiperda). Este foi o pontapé inicial dado pelo agricultor brasileiro rumo à utilização legal da tecnologia Bt (assim chamada em função do Bacillus thuringiensis, de onde foi extraído o gene que confere a resistência às plantas) que, há exatos 10 anos, teve sua primeira tentativa de regulamentação no País.
Em 2007 foram cultivados 114,3 milhões de hectares de lavouras geneticamente modificadas no mundo, dos quais aproximadamente 30% eram tolerantes às larvas de lepidópteros (Bt). No Brasil, em 2007, foram cultivados 15 milhões de hectares com organismos geneticamente modificados, representando aproximadamente 30% do total de hectares cultivados no País.
De forma muito simplificada, a obtenção de plantas de milho transgênico inicia-se com a identificação do gene de interesse (genes da família cry1 no caso dos milhos Bt registrados no Brasil) no organismo doador (a bactéria do Bacillus thuringiensis, existente no solo). Em laboratório, por meio de engenharia genética, este gene sofre uma transferência e “colagem” em uma linhagem de milho que, após autofecundações, passa a expressar a característica de resistência, ou seja, a produção de uma proteína denominada “crystal” ou “Cry” que passará a se chamar de linhagem doadora.
Esta linhagem doadora será responsável pela transferência da característica que confere resistência aos lepidópteros para as demais linhagens do programa de melhoramento das empresas (linhagens elite). Inúmeros cruzamentos convencionais (várias etapas de retrocruzamentos) são realizados com intuito de transferir o gene de resistência e recuperar as características originais da linhagem que está sendo convertida. Após o término deste processo de conversão, as linhagens elite, com gene de resistência, estarão prontas para dar origem aos híbridos conhecidos comercialmente.
O valor da tecnologia Bt

Muitos fatores contribuíram, de forma direta e indireta, para incrementar o apelo à utilização do milho Bt frente aos híbridos convencionais, nos quais as aplicações de inseticidas estão ocorrendo cada vez em maior quantidade.


Em trabalhos realizados pela Pioneer, comparando 8 híbridos Bt com seu isohíbrido (mesmo híbrido sem Bt) em 255 ensaios (em média), realizados no último verão em todo o Brasil, houve uma diferença de rendimento de 8,7% a favor dos híbridos com característica Bt, o que em números absolutos representou aproximadamente 700 kg de milho por hectare (11,5 sacos/ha.). Em termos de grãos ardidos, houve uma redução na incidência de 40%, o que representa uma diminuição média de 4,6% para 2,8%.
Os insucessos nas estratégias de controle químico se devem não só à falta de observância das corretas técnicas de aplicação de defensivos, mas também à utilização de produtos menos específicos, de menor custo e que são mais dependentes de condições climáticas. A utilização de produtos do mesmo modo de ação, ou a utilização de subdoses aumenta a probabilidade da seleção de populações resistentes o que se comprova pelo relato de agricultores que chegam a realizar mais de 6 pulverizações e, ainda assim, apresentam perdas de produtividade e problemas de grãos ardidos acima do tolerado na comercialização.
O crescimento populacional das pragas, favorecido pelo aumento da janela de permanência do milho nas lavouras e o desconhecimento e desuso das práticas do manejo integrado de pragas (MIP) na cultura do milho, completam a lista de situações que impelem os agricultores a utilizar híbridos Bt no próximo cultivo de verão.
Quais as ações de manejo que permitem explorar ao máximo as vantagens desta tecnologia e principalmente garantir sua continuidade?
Em primeiro lugar, considerar o milho Bt como ferramenta do MIP e não como a solução isolada.Os resultados que a tecnologia nos proporcionou durante a Safrinha de 2009, associados às experiências de outros países, como a vizinha Argentina, que regulamentou a tecnologia há, pelo menos 8 anos, mostraram o quanto subestimamos os danos que estes insetos produzem.
A redução da área foliar pelo processo de alimentação da LCM e a perfuração dos colmos realizada pela BCA, que, além de prejudicar o acúmulo e a translocação de fotoassimilados, favorece a colonização destes colmos por fungos oportunistas (Fusarium sp. e Colletotrichum sp.) são fatores catalisadores da redução de produtividade, especialmente quando associados a outras fontes de stress (stress hídrico, enfermidades ou dano causado por outros insetos, por exemplo).
Ficou evidente também, com o incremento populacional permitido pela menor taxa de aplicação de inseticidas a capacidade de controle e supressão de ovos ou larvas neonatas destas pragas que os inimigos naturais são capazes de eliminar.
Entre os híbridos existe um nível diferenciado de tolerância aos danos causados pelos insetos. As perdas de produtividade entre eles podem variar frente a um mesmo nível de ataque, pois, tanto a ecologia da cultura, quanto do inseto a ser controlado, ao interagir com o ambiente e o manejo realizado pelo produtor, determinará o efetivo funcionamento ou não da tecnologia.
O que isto significa?
Significa que o produtor ao utilizar híbridos de milho Bt, em hipótese alguma, deverá se eximir da responsabilidade de monitorar tanto a pré-cultura, quanto a lavoura, pois a existência de lagartas remanescentes na palhada (em sistemas de plantio direto) ou ocorrência de forte pressão de lagartas podem levar o agricultor a realizar aplicação de inseticida para complementação do controle.
No caso de Lagartas do Cartucho, tanto para híbridos Bt, quanto para híbridos não Bt, sugerem-se pulverizações quando 17% das plantas apresentarem de 4 a 7 lesões alongadas, entre 1,3 a 2,5 cm de comprimento nas folhas do cartucho e a presença de lagartas vivas de 3º instar (até 10 mm), como pode ser visto no esquema abaixo.
Uma condição importante para a continuidade da tecnologia é a adoção da área de refúgio, definida em 10% da área total da lavoura, onde se deve cultivar híbridos não Bt. Nas áreas de refúgio, pode ser feita a pulverização com inseticidas desde que estes não tenham como principal ingrediente da formulação, o Bacillus thuringiensis. Esta prática possibilita o cruzamento de indivíduos possivelmente tolerantes à toxina Bt com indivíduos susceptíveis, gerando assim uma população descendente de indivíduos susceptíveis.

O direito de não optar pela tecnologia Bt
O plantio do milho geneticamente modificado está regulamentado pela Lei de Biossegurança e pela Resolução Normativa n. 4, conhecida como Norma de Coexistência, que define que o produtor que for plantar qualquer híbrido de milho geneticamente modificado deverá respeitar uma distância mínima de 100 metros entre sua lavoura e a lavoura de milho convencional vizinha ou 10 linhas de milho convencional de mesmo ciclo e porte, mais 20 metros. Maiores detalhes sobre a Norma de Coexistência pode ser obtida no site

(http://www.pioneersementes.com.br/ProdutosBiotecnologiaMilhoBTRefugioCoexistencia.aspx)


E para o futuro, o que podemos esperar?
Em um prazo de 4 a 5 anos todas as empresas de semente de milho híbrido estarão oferecendo aos produtores uma solução pronta, no que se refere à proteção das sementes contra pragas (principais e secundárias), nematóides e fungos de solo - será a vez do tratamento industrial de sementes ou “Abra e Plante” - que só se faz possível graças ao advento das plantas geneticamente modificadas e de novas moléculas de inseticidas, nematicidas e fungicidas que estão sendo testadas por estas empresas, no que diz respeito à eficiência e longevidade das sementes.
As áreas de refúgio e/ou coexistência, onde ocorrem insetos secundários e não se utilizam plantas geneticamente modificadas, continuarão demandando o uso de inseticidas, mas a tecnologia Bt promoverá uma redução substancial de pulverizações nas lavouras de milho em geral, uma vez que deveremos sentir um incremento considerável nas populações de inimigos naturais.
Novas características agronômicas deverão ser introduzidas nos híbridos em um futuro bem próximo, como: - a tolerância à seca, a eficiência no uso do nitrogênio, a tolerância a outros insetos, etc., todas elas visando o incremento na produtividade e estabilidade da cultura.
As vantagens direcionadas para o consumidor final acontecerão no início da próxima década, onde presenciaremos o surgimento de híbridos de milho especiais, com mais vitaminas, maiores teores de óleos, proteínas e energia para segmentos específicos. Para atender as necessidades dos mercados e dos produtores e como forma de reduzir a complexidade de produção e armazenamento, estas características serão combinadas, substituindo, progressivamente, híbridos com apenas uma característica.

É de se esperar que os produtores brasileiros vislumbrem com maior clareza o valor das tecnologias oriundas de organismos geneticamente modificados (OGM) e as tecnologias complementares, como o tratamento industrial de sementes (Abra e Plante) da mesma forma que ocorreu com os produtores dos EUA e da Argentina.


O uso de produtos de eficiência comprovada no tratamento de sementes aumentou em igual proporção à adoção dos OGM’s nestes países, pois além de complementar o controle de insetos secundários e possibilitar a redução de estresses, em função dos plantios mais antecipados, serve como uma garantia ao produtor que, desta maneira, amplia a proteção à sua lavoura nas fases iniciais e reduz erros de dosagens e riscos de manipulação de produtos.

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