A arte de escolha: Estou no caminho certo



Baixar 21.76 Kb.
Encontro14.02.2018
Tamanho21.76 Kb.

A arte de escolha: "Estou no caminho certo?"  Prof.ª Maria Cláudia Tardin Pinheiro  Assistente do Curso de Administração da FMJ


A arte de escolha: “Estou no caminho certo?”

Mestra Maria Cláudia Tardin Pinheiro*


A autora pretende levantar uma reflexão com este texto sobre o momento de escolha, prática que todos exercitam consciente ou inconscientemente no dia-a-dia e que muito pode aturdir um indivíduo, assim como pode ser encarado por ele com naturalidade e atenção, apesar de diversos riscos estarem envolvidos.

Uma das questões que mais atormenta os seres humanos, principalmente na cultura ocidental, é a imprevisibilidade e instabilidade da vida. Essa característica, que pode ser observada na realidade dos fatos, é interpretada na cultura ocidental de forma desfavorável, haja vista a preocupação constante que permeia as pessoas, incentivando-as a se voltarem a uma busca externa (de bens materiais, status, prestígio, reconhecimento alheio, de companhia de pessoas, de uma “cara-metade” amorosa, dentre outras). Busca essa que, possivelmente, tenta ocultar a percepção interna do sentimento de invalidez diante dos aspectos da vida prática que entra em conflito com o imperativo de perfeição humana dessa mesma cultura.

Existem acontecimentos no cotidiano das pessoas que não podem ser alterados, não importando tudo o que se faça para evitar tal rumo.

Nessas situações é comum observar duas formas de se lidar com os imprevistos: aceitando-os ou rejeitando-os.

Acredita-se que o melhor a ser feito é a aceitação dos fatos, não com acomodação pura e simples, mas com compreensão e reflexão sobre a sua própria responsabilidade no ocorrido, além da percepção da influência ambiental e de terceiros como variáveis, também, intervenientes. No entanto, a eficácia desse processo de aceitação só se dá no aquietar da mente, não permitindo que divague gerando culpa, pensamentos auto e heterodestrutivos além de pessimistas. Com a mente equilibrada é possível lidar com um imprevisto, persistindo em seu objetivo ou reformulando-o.

A mente humana é geradora dos pensamentos que interpretam a realidade do mundo, podendo gerar possibilidades intermináveis de escolha ou acreditando não poder fazer muitas coisas ao seu alcance e à sua felicidade.

Em relação a este ponto, Bertani Marinho (1994) cita que “...nosso comportamento não é emitido segundo a realidade do que podemos fazer, mas de acordo com a realidade do que acreditamos poder fazer”.

Isso pode ocasionar grandes problemas, pois, quando o medo da vida é muito forte, seja ele consciente ou inconsciente, acaba gerando atitudes de intolerância às mudanças. O indivíduo não aceita a mudança imprevista na vida resistindo de duas maneiras: buscando o controle de tudo (estabelecendo relações manipulativas com as pessoas, sempre ocultando verdades ou desejos através de disfarces, mentiras, de teatros onde se dramatizam papéis de vítima, de perseguidor e de salvador, diminuindo o contato íntimo com o outro, com chantagens, caras “feias” ou emburradas, agressões morais e até físicas) e acionando inconscientemente o bloqueio mental (atitude defensiva e estressante, em que a pessoa está constantemente enxergando um obstáculo em seu caminho. Encobre o medo neurótico de não corresponder à imagem idealizada de si mesma, que o outro legitima e espera também que ela cumpra).

Uma das maiores dificuldades encontradas na vida é a exigência da perfeição que se faz a si mesmo e ao outro, aparecendo camuflada nas inúmeras críticas destrutivas e fofocas de outros e nos sentimentos de culpa e martírios mentais descrentes e autopunitivos.

A cada instante o homem escolhe como viver, como interpretar o que lhe aconteceu e lhe acontece. Infelizmente, pelo que se pode constatar no cotidiano, são poucas as pessoas que lidam bem com os fatos da vida e suas escolhas pessoais.

Viver não é fácil, até porque não se tem uma educação, desde tenra infância, que facilite lidar com as perdas, dores e, muitas vezes, a aceitação dos prazeres. Por menos lógico que possa parecer, diversas pessoas sentem-se culpadas pela felicidade que desfrutam num mundo onde tantos sofrem.

O filósofo Jean-Paul Sartre coloca que o homem é angústia, pois percebe que depende de si mesmo, pelas decisões que toma a cada momento, a responsabilidade perante sua própria vida e a dos outros. O autor acredita que cada atitude de uma pessoa influencia a dos demais, assim como também é influenciada pelos outros.

Ele afirma que “o importante não é o que fazem de nós, mas o que nós próprios fazemos daquilo que fazem de nós”. (in Gomes, 1980)

Todo homem escolhe seu projeto de vida subjetivamente, decidindo e escolhendo o que ele irá fazer e o que vai permitir que façam por ele.

O difícil de escolher para muitas pessoas é a consciência de que se é livre para fazê-lo e como fazê-lo. Até quando você permite que outra pessoa direcione suas decisões diárias, essa autorização é sua!

Liberdade é responsabilidade para Sartre “... o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; é, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer...” “o homem é responsável por esta sua paixão (a liberdade).” “...está condenado a cada instante a inventar o homem”. (id. ibid., 1980)

A autora deste texto acredita que a maior criação de uma pessoa é sua própria vida, ou seja, escolher como viver, com quem morar, o que ouvir, estudar, em que trabalhar, como cobrar pelo seu trabalho, aceitar ou não a opinião e ajuda alheia, como se vestir, se cuidar etc.

A sabedoria da vida está em conhecer-se, buscar ultrapassar suas dificuldades, amar-se, compreender-se, discernir de uma forma clara e objetiva suas metas, aprender a aceitar os acontecimentos mundanos não gastando energias mentais e físicas com lamúrias e desesperanças (atitude essa que enfraquece a motivação e criatividade humana) e por meio da resiliência (capacidade de enfrentar retrocessos e criar retomadas) estabelecer comportamentos pró-ativos, com otimismo.

Quantas vezes as pessoas se questionam durante seu modo de sentir, pensar e agir, se estão no caminho certo?

O fato de se questionar é bom, pois implica que o indivíduo está consciente do que está escolhendo fazer. A maioria das pessoas sente-se perdida e não percebe sua inconsciência e falta de autocontrole. Desta forma, é muito mais difícil tomar atitudes que vão de encontro à realização de seus objetivos e ter criatividade para resolver seus problemas.

Toda decisão envolve risco. Opta-se por um ou mais ganhos em detrimento de uma ou mais perdas. Cada escolha envolve a formação de representações sobre a situação vivida e a almejada. Esse processo criativo de imaginação, escolha e decisão envolve “mortes psíquicas”, isto é, abdicação de algumas coisas (às vezes até algum modo de ser e agir, estranhando os conhecidos sua mudança comportamental) e reclamando uma tomada de atitude coerente com o projeto mental imaginado. As pessoas baseiam-se, muitas vezes, em suas crenças, em suas subjetividades na hora de escolher seus caminhos, e não propriamente na realidade que invade suas vidas e que também pode ser analisada de outros ângulos. Portanto, torna-se de grande importância elas pararem para se ouvirem e perceberem suas motivações intrínsecas.

Muita gente não está atenta aos seus reais objetivos e segue metas que estão na moda, em evidência ou, às vezes, são escolhidas por pessoas estimadas e íntimas dela mas que não representam o que deseja no seu íntimo.

Quando uma pessoa se deparar com a questão “Estou no caminho certo?”, é importante perceber seus desejos com clareza e objetividade e, da mesma forma, expô-los aos demais na busca de suas realizações.

Tal como na vida particular, no trabalho esses posicionamentos são idênticos.

Em relação a uma escolha em negócios é aconselhável uma investigação minuciosa sobre o negócio, suas estratégias, as atitudes dos concorrentes, as necessidades e demandas do mercado, a situação econômica, política e social momentânea. Não basta seguir a intuição ou o que se acha que é certo. A leitura de jornais, revistas e livros da área e inter-relacionados, a realização de pesquisas formais ou informais (conversas com os clientes, fornecedores, vendedores, funcionários e outros sobre o que se deseja conhecer), além de avaliar a oportunidade, ou seja, saber reconhecer a hora conveniente de agir, são atitudes importantes neste ramo.

Em seu livro “Óbvio Adams”, Robert Updegraff chama atenção sobre a necessidade de se enxergar o óbvio como uma atitude de resolução de conflitos simples, clara e eficaz. Só que não é fácil achar o óbvio como pode induzir a palavra.

O autor ensina alguns métodos para se chegar a tal acrescentando que não são cem por cento seguros.



Nada é absolutamente certo em nosso mundo, tão complexo e em permanente mutação. Mas (em relação aos métodos que recomenda) constituem métodos de checagem bastante práticos (1996, p.66)**

A experiência passada é importante. Mas, é fundamental uma mente aberta a viver às novas possibilidades do presente e seus riscos, isenta de preconceitos.

Na vida não há garantias de nada. Podem-se perceber possibilidades. Certezas só existem nas crenças de humanos que temem reconhecer suas fragilidades, negando-as com essas certezas ilusórias e querendo ter controle sobre tudo o que vivem, inclusive sobre os demais. Não se pode ter controle total das situações. A perfeição humana não existe, e é no erro ou na falha que se evolui, inclusive na ousadia do desejo.

Bibliografia

1) GOMES, João Paulo dos Santos. As idéias de Sartre e a Psicanálise. Revista Tempo Psicanalítico, v. III(2): 38-51, 1980, R.J.

2) MARINHO, Bertani. A auto-imagem e o Processo de Auto-Realização. Revista Insight Psicoterapia, Ano IV(40): 21-24, maio de 1994, S.P.

3) UPDEGRAFF, Robert R.. Óbvio Adams. S.P., Cultura Editores Associados, 1996.




* A autora é psicóloga, Mestre em Psicologia, consultora de Recursos Humanos e professora de graduação e pós-graduação na Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro e na Faculdade Moraes Júnior.

** op.cit.


Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal