A bíblia da feitiçaria o manual Completo dos Feiticeiros Janet e Stewart Farrar



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A BÍBLIA DA FEITIÇARIA



O Manual Completo dos Feiticeiros

Janet e Stewart Farrar

INTRODUÇÃO

A feitiçaria moderna, na Europa e nos EUA, é um fato. Ela não é mais uma relíquia subterrânea da qual a camada restante, e até mesmo a própria existência, é acirradamente disputada pelos antropologistas. Ela não é mais o passatempo bizarro de um punhado de excêntricos. Ela é a prática religiosa ativa de um número substancial de pessoas. Sobre o quão grande é este número não existe certeza, porque a Wicca, além do coven individual, não é uma religião hierarquicamente organizada. Onde organizações formais de fato existem, como nos Estados Unidos, isto se aplica à razões legais e tributárias, não para uniformidade dogmática ou o número de membros. Porém os números são, por exemplo, suficientes para manter uma variedade de periódicos ativos e para justificar a publicação de um corpo literário sempre crescente, em ambos os lados do Atlântico; portanto uma estimativa razoável seria a de que os adeptos da Wicca em atividade chegam agora à dezenas de milhares, no mínimo. E toda evidência sugere que o número está crescendo com regularidade.

A Wicca é ao mesmo tempo uma religião e uma Arte – aspectos que Margaret Murray distinguiu como “uma feitiçaria (Arte) ritual” e “feitiçaria operativa”. Como uma religião – tal como em qualquer outra religião, seu propósito é colocar o indivíduo e o grupo em harmonia com o princípio criativo Divino do Cosmos, e suas manifestações, em todos os níveis. Como uma Arte, seu propósito é atingir fins práticos por meios psíquicos, para propósitos bons, úteis e de cura. Em ambos os aspectos, as características distintas da Wicca são a sua atitude orientada na Natureza, sua autonomia em pequenos grupos sem qualquer vazio entre o sacerdotado e a “congregação”, e sua filosofia de polaridade criativa em todos os níveis, desde Deusa e Deus até Sacerdotiza e Sacerdote.

Este livro está relacionado ao primeiro aspecto – Wicca como uma religião, ritualmente expressada.

As feiticeiras, como um todo, gostam de ritual – e elas (*) são pessoas naturalmente alegres. Como os adoradores de outras religiões, elas crêem que o ritual apropriado as eleva e enriquece. Mas seus rituais tendem à ser mais variados do que em outros credos, variando desde o formal até o espontâneo e também diferenciando de coven para coven, segundo suas preferências individuais e as escolas de pensamento (Gardneriana, Alexandrina, ‘Tradicional’, Celta, Dianica, Saxônica, e daí para frente) nas quais eles se basearam.

(* Sendo a Tradição Mágica essencialmente feminina, eu traduzi Witch/es como Feiticeira/s, apesar de que uma tradução “normal” seria no masculino devido ao costume imposto pela sociedade em se dar preferência à este gênero ao se referir à coletividade humana).

Mas ao passo que o reavivamento Wicca do século vinte amadurece (e em muitos covens passa para sua Segunda geração), a animosidade entre escolas que frustrava seus primeiros anos tem diminuído considerávelmente. Os dogmáticos ainda se criticam entre si nos periódicos – mas seu dogmatismo é condenado de forma crescente por outros correspondentes como sendo inútilmente separatista; e a maioria dos covens comuns está simplesmente entediada com isso. Os anos lhes tem ensinado que seus próprios caminhos funcionam – e se (como nosso próprio coven) eles tem amigos de outros caminhos, estes também vieram à compreender que aqueles caminhos também funcionam.

Desta maior tolerância mútua surgiu um entendimento mais amplo da base comum da Wicca, seu espírito essencial que pouco tem à ver com os detalhes da forma. Também, com a troca de idéias através da palavra escrita e através do contacto pessoal mais aberto, há um corpo crescente de tradição compartilhada do qual todos podem usufruir.
É como uma contribuição para este crescimento que oferecemos nosso presente livro. Para ser válido, e útil, qualquer contribuição desse tipo deve ser um ramo brotando de modo saudável a partir do tronco mãe da nossa história racial, tanto quanto as formas específicas da prática Wicca como ela agora sustenta (em nosso caso as formas Gardneriana/Alexandrina); e isso é o que temos trabalhado para realizar.

Afortunadamente, existe uma estrutura que é comum para todos os caminhos Wicca, e deveras à muitos outros: as Oito Celebrações.


O moderno calendário da feiticeira (qualquer que seja sua ‘escola’) tem sua raiz, como aquele de seus antecessores através dos séculos incontáveis, nos Sabás, celebrações sazonais que marcam pontos vitais no ano natural, pois a Wicca, como temos sublinhado, é uma religião e Arte orientada à Natureza. E uma vez que, para as feiticeiras, a Natureza é uma realidade de níveis múltiplos, seu ‘ano natural’ inclui muitos aspectos – agrícola, pastoral, vida selvagem, botânica, solar, lunar, planetária, psíquica – sendo que as marés e ciclos destes todos afetam ou refletem entre si. Os Sabás são os caminhos das feiticeiras para celebrar, e colocá-las em sintonia, com essas marés e ciclos. Pois homens e mulheres também são parte da Natureza de múltiplos níveis; e as feiticeiras se esforçam, consciente e constantemente, para expressar aquela unidade.
Os Sabás das feiticeiras são oito:

IMBOLG, 2 de Fevereiro (também chamado Candlemas, Oimelc, Imbolc).

EQUINÓCIO DA PRIMAVERA, 21 de Março (Alban Eilir).

BEALTAINE, 30 de Abril (Beltane, May Eve, Noite de Walpurgis, Cyntefyn, Roodmass).

PLENO VERÃO, 22 de Junho (Solstício de Verão, Alban Hefin; algumas vezes também chamado Beltane).

LUGHNASADH, 31 de Julho (August Eve, Lammas Eve, Véspera do Dia da Senhora).

EQUINÓCIO DE OUTONO, 21 de Setembro (Alban Elfed).

SAMHAIN, 31 de Outubro (Hallowe’en, Véspera do dia de Todos os Santos, Calan Gaeaf).

YULE, 22 de Dezembro (Solstício de Inverno, Alban Arthan).
Dentre estes, Imbolg, Bealtaine, Lughnasadh e Samhain são os ‘Sabás Maiores’; os Equinócios e Solstícios são os ‘Sabás Menores’. (As datas reais dos Equinócios e Solstícios podem variar em um dia ou dois no uso tradicional, e também de ano a ano em fato astronômico, ao passo que os Sabás Maiores tendem à envolver ambos “Véspera” e o “Dia” seguinte). Os Sabás Menores solar-astronômicos são ao mesmo tempo mais antigos e mais novos do que os Sabás Maiores naturais-de fertilidade – mais antigos no sentido em que eles foram a preocupação altamente sofisticada dos misteriosos povos Megalíticos que antecederam aos Celtas, Romanos e Saxões nas margens do Atlântico Europeu por milhares de anos; mais novos, no sentido que os Celtas – talvez a maior influência única ao dar à Antiga Religião o formato ritual verdadeiro no qual ela tem sobrevivido no Ocidente – não eram de orientação solar e celebravam apenas os Sabás Maiores, até o que Margaret Murray denominou como os “invasores solsticiais” (os Saxões e outros povos que se estenderam na direção oeste com a queda do Império Romano) se reuniu e interagiu com a tradição Celta. E ainda assim eles trouxeram apenas os Solstícios: “Os Equinócios, diz Murray, “nunca foram observados na Bretanha”. (Para algumas reflexões sobre como eles subsequentemente entraram no folclore Bretão, vide página 72 (do original) – e lembre-se de que, desde Murray, mais coisas se tem aprendido sobre astronomia Megalítica, que pode muito bem ter deixado enterradas as memórias do povo para serem revividas mais tarde).

Tudo isso é refletido no fato de que são os Sabás Maiores que tem nomes Gaélicos. Dentre as várias formas que as feiticeiras utilizam, nós escolhemos as Gaélico Irlandesas, por motivo pessoal e histórico – pessoal porque vivemos na Irlanda, onde aquelas formas possuem significados vivos; histórico, porque a Irlanda foi o único país Celta que nunca foi absorvido pelo Império Romano, e portanto é na mitologia Irlandesa e em sua antiga linguagem que os contornos da Antiga Religião podem ser muitas vêzes mais claramente discernidos (1). Mesmo a Igreja Celta permaneceu obstinadamente independente do Vaticano por muitos séculos (2).


(1) A Irlanda virtualmente escapou dos horrores da perseguição à feitiçaria. Dos séculos quatorze ao dezoito apenas um punhado de processos por feitiçaria estão registrados. “Na Inglaterra e na Escócia durante o período medieval e períodos posteriores de sua existência, a feitiçaria era uma ofensa contra as leis de Deus e do homem; na Irlanda Céltica as relações com o invisível não eram consideradas com tal aversão, e deveras possuíam a sanção de costume e antiguidade” (St John D. Seymour, Feitiçaria e Demonologia Irlandesa, p.4 – e Seymour era um teólogo cristão escrevendo em 1913.) Nem existe qualquer evidência de tortura sendo usada para extrair provas nos poucos processos Irlandeses por feitiçaria, exceto pelo açoitamento em 1324 de Petronilla of Meath, serviçal da Dama Alice Kyteler, por ordens do Bispo de Ossory, e que “parece ter sido conduzido ao que pode ser considerado uma maneira puramente não oficial” (ibid.,pp.18-19).
(2) Existe uma pequena comunidade russa Ortodoxa na Irlanda, baseada nos exilados da Russia; de modo interessante, “ela atraiu um grande número de Irlandeses convertidos, alguns dos quais consideram-na como a Igreja Irlandesa que existia desde antes da chegada de São Patrício até os anos que seguiram à invasão de Henrique e o estabelecimento das ligações com Roma” (Sunday Press, Dublin, 12 de Março de 1978).
Mais ainda, a Irlanda é ainda predominantemente agrícola e uma comunidade de dimensões humanas, onde as memórias do povo ainda florescem as quais em outros lugares morreram na selva de concreto. Arranhe a camada superior do Cristianismo Irlandês, e voce chega de uma vez à rocha sólida do paganismo. Mas o uso das formas Gaélico Irlandesas é apenas a nossa escolha, e não gostaríamos de impô-la à ninguém.

Por que escrevemos este livro, com suas sugestões detalhadas para rituais de Sabá, se não desejamos “impor” padrões à outras feiticeiras – o que nós muito certamente não fazemos ?

Nós o escrevemos porque oito anos dirigindo nosso próprio coven nos convenceu de que tal tentativa é necessária. E achamos que isso é necessário porque o Livro das Sombras, a antologia de Gerald Gardner de rituais herdados que – com o auxílio de Doreen Valiente – ele anexou junto à elementos modernos a fim de preencher os vazios e fazer um todo funcional, é surpreendentemente inadequado em um aspecto: os Oito Sabás.

O reavivamento da Wicca moderna, que se expande tão rápidamente, tem um débito enorme com Gerald Gardner, a despeito do tanto que ele possa ter sido criticado em certos aspectos. Seu Livro das Sombras é a pedra de fundação da forma Gardneriana da Wicca moderna, e também de seu ramo Alexandriano; e ele tem tido considerável influência sobre muitos covens Tradicionais. Doreen Valiente, também, merece a gratidão de cada feiticeira; algumas de suas contribuições ao Livro das Sombras se tornaram suas passagens mais estimadas – a Investidura, por exemploa declaração única e definitiva da filosofia Wicca. Mas por alguma razão, os rituais que o Livro determina para os Oito Sabás são deveras muito incompletos – nada tão completo e satisfatório como o resto. O resumo que Stewart deu à eles no Capítulo 7 de O Que As Feiticeiras Fazem (vide Bibliografia) pareceria incluir tudo o que Gardner teria que falar sobre eles. Tudo mais foi deixado à cargo da imaginação e criatividade dos covens.

Algumas feiticeiras podem sentir que isto é suficiente. A Wicca é, por fim, uma religião natural e espontânea, na qual todo coven é uma lei para si mesmo, e as formas rígidas são evitadas. Nada é exatamente o mesmo para dois Círculos em operação – e muito correto também, ou então a Wicca iria se fossilizar. Então por que não deixar estes rituais incompletos de Sabás como eles estão, usá-los como um ponto de partida e deixar cada Sabá tomar seu próprio curso ? Todo mundo conhece a “sensação” das estações ...

Nós sentimos que existem duas razões porque isso não é suficiente. Primeiro, os outros rituais básicos – traçar o Círculo, Atrair a [Influência da] Lua (?), a Investidura, a Lenda da Descida da Deusa, e outros – são todos substanciais, e tanto os novatos quanto os veteranos consideram-nos vivos e satisfatórios. A flexibilidade que uma boa Suma Sacerdotiza e um bom Sumo Sacerdote trazem à eles e os adornos planejados ou espontâneos que eles adicionam, meramente aperfeiçoam os rituais básicos e os mantém vibrantes e vívidos. Se eles voltassem para o esboço inicial, as pessoas comuns seriam capazes de fazer este tanto com eles?


Segundo, em nossa civilização urbana, infelizmente não é verdade que todo mundo conhece a “sensação” das estações, exceto muito superficialmente. Até mesmo muitos moradores do campo, com seus carros, eletricidade, televisão e supermercados padronizados de cidade (ou mesmo vila) comercial, estão notávelmente muito isolados do verdadeiro âmago da Natureza. O conhecimento arquirtípico das marés físicas e psíquicas do ano, que criaram tais conceitos como a rivalidade fraternal entre o Rei do Carvalho e o Santo Rei e sua união sacrificial com a Grande Mãe (apenas para tomar um exemplo) perfeitamente compreensível para nossos antepassados – conceitos que, junto com seu simbolismo, estão tão surpreendentemente espalhados no tempo e no espaço que eles devem ser arquetípicos: este conhecimento está virtualmente perdido para a consciência moderna.

Os arquétipos não podem ser erradicados, assim como ossos e nervos não podem; eles são também parte de nós. Mas eles podem ficar tão profundamente enterrados que se exige um esforço deliberado para reestabelecer uma comunicação saudável e produtiva com eles.

A percepção de muitas pessoas sobre os ritmos sazonais está hoje limitada à tais manifestações superficiais como cartões de Natal, ovos de Páscoa, banho de sol, folhas de outono e sobretudos. E para ser honesto, os rituais de Sabá do Livro das Sombras não vão muito mais fundo.

Para retornar à nós mesmos. O nosso é um coven Alexandriano – se devemos amarrar uma etiqueta em volta de nossos pescoços, pois não somos sectaristas por temperamento e princípio e preferimos simplesmente nos denominar ‘witches’ (feiticeiras/os). Temos muitos amigos Gardnerianos e Tradicionais e consideramos seus métodos tão válidos quanto os nossos. Fomos iniciados e treinados por Alex e Maxine Sanders, fundamos nosso próprio coven em Londres no Yule de 1970 e dali para frente seguimos nosso próprio julgamento (em um período enfrentando uma ordem de dispensar o coven e retornar à Alex para ‘instruções complementares’). Vimo-nos referidos como Alexandrianos “reformados” – o que tem alguma verdade, no sentido em que aprendemos a separar o inegável trigo do lamentável joio. Outros covens e feiticeiras solitárias, se separaram do nosso, no processo normal de crescimento, e desde que nos mudamos da Londres lotada para os campos e montanhas da Irlanda em Abril de 1976 ainda criamos outros; portanto nossa experiência tem sido variada.

Nosso coven é organizado sobre as linhas Gardneriana/ Alexandrina habituais; nominalmente, ela se baseia na polaridade do psiquismo da masculinidade e feminilidade. Ele consiste, na extensão em que é possível, de “sociedades operativas”, cada uma formada de um witch feminino e um witch masculino. Os sócios operativos podem ser um casal, um par de amantes, amigos, irmão e irmã, pais e filhos/as; não importa se a sua relação seja de tipo sexual ou não. O que importa é seu gênero psíquico, de forma que na operação mágica eles sejam os dois polos de uma bateria. A sociedade operativa senior é, naturalmente, a de Suma Sacerdotiza e Sumo Sacerdote. Ela é prima inter pares, a primeira entre os iguais; o Sumo Sacerdote é seu igual complementar (de outra forma, sua “bateria”não iria produzir qualquer eletricidade), mas ela é a líder do coven e ele o “Príncipe Consorte”.

Esta questão da ênfase matriarcal na Wicca tem sido a causa de considerável discussão, mesmo entre feiticeiras – com tudo, desde as pinturas nas cavernas até Margaret Murray, sendo usado como munição nas tentativas de provar o que costumava ser feito, o que é a ‘verdadeira’ tradição. Tal evidência, honestamente examinada, é de fato importante – mas nós não achamos que ela seja a resposta completa. Deve-se dar mais atenção ao papel da Antiga Religião nas condições de hoje; em resumo, à quais trabalhos são os melhores agora, tanto quanto àqueles fatores que são atemporais. E tal como a observamos, a ênfase matriarcal é justificada em ambas estas considerações.

Primeiro, o aspecto atemporal. A Wicca, por sua verdadeira natureza, está especialmente relacionada com o desenvolvimento e o uso das “dádivas da Deusa” – as faculdades psíquica e intuitiva – e num grau pouco menor com a “dádiva do Deus”- as faculdades lógico-linear conscientes. Nenhum pode funcionar sem o outro, e a dádiva da Deusa deve ser desenvolvida e exercitada em ambos witches masculino e feminina. Mas permanece o fato de que, em geral, a mulher tem um começo mais rápido com a dádiva da Deusa, tal como o homem em geral tem um começo mais rápido com a musculatura. E dentro do Círculo a Suma Sacerdotiza (embora ela chame para si a sua Suma Sacerdotiza para invocar) é o canal e a representante da Deusa.

Isso não é apenas um costume Wicca, é um fato da Natureza. “Uma mulher,” diz Carl Jung, “pode se identificar diretamente com a Mãe Terra, mas um homem não pode (exceto em casos psicóticos)”.(Obras Coletadas, volume IX, parte 1, 2a edição, parágrafo 193). Nesse ponto, a experiência Wicca apoia totalmente aquela da psicologia clínica. Se a ênfase Wicca é sobre a dádiva da Deusa (apoiada e energizada pela dádiva do Deus), então na prática ela deve ser também sobre a Sacerdotiza (apoiada e energizada pelo Sacerdote). (Para um estudo mais profundo sobre este relacionamento mágico, leia quaisquer dos romances de Dion Fortune – especialmente A Sacerdotiza do Mar e Magia da Lua).

Segundo, os aspectos do “agora” – as exigencias do nosso presente estado de evolução. Um livro inteiro poderia ser escrito sobre isso; aqui, podemos simplesmente super-simplificar a história considerávelmente – mas sem, acreditamos, distorcer sua verdade básica. De modo geral, até tres ou quatro mil anos atrás a raça humana vivia (como os outros animais embora em um nível muito complexo) através da “dádiva da Deusa”; em termos psicológicos, a atividade humana era dominada pelos

Da mente subconsciente, a consciência estando ainda no [plano] total secundário. A sociedade era geralmente matrilinear (o conhecimento descendendo através da mãe) e muitas vezes também matriarcal (governado pela mulher), com a ênfase sobre a Deusa, a Sacerdotiza, a Rainha, a Mãe (3). “Antes da civilização se estabelecer, a terra é uma divindade universal... uma criatura viva; uma mulher, porque ela recebe o poder do sol, é portanto animada e fertilizada... O elemento mais antigo e mais profundo em qualquer religião é o culto ao espírito da terra em seus muitos aspectos”. (John Michell, O Espírito da Terra, pag.4). À isso deve ser adicionado - certamente ao passo que a consciência da humanidade aumentou – também o aspecto da Rainha do Céu; pois, para a humanidade nesta fase, a Grande Mãe foi o útero e o nutridor de todo o cosmos, matéria e espírito do mesmo modo (4).


(3) O Antigo Egito foi um exemplo de caderno à respeito do estágio de transição; ele era matrilinear porém patriarcal, ambas realeza e propriedade passando diretamente através da linha feminina. Todos os Faraós masculinos ocupavam o trono porque eles eram casados com as herdeiras: “A rainha era rainha por direito de nascença, o rei era rei por direito de casamento” (Margaret Murray, O Esplendor que era o Egito, pag.70), daí o hábito Faraônico de casar irmãs e filhas para manter o direito ao trono. A herança matrilinear era a regra em todos os níveis da sociedade e persistiu até o fim; este foi o porque de primeiro Júlio Cesar e depois Antônio desposaram Cleopatra, o último Faraó – esta era a única maneira pela qual eles poderiam ser reconhecidos como regentes do Egito. Otávio (Augusto César) também se ofereceu para casar com ela, após a derrota e morte de Antônio, mas ela preferiu o suicídio (ibid.págs.70-71).Roma confrontou o mesmo princípio um século depois na outra margem de seu Império, na Bretanha, quando o escárnio dos Romanos sobre este (seja grosseiro ou deliberado) provocou a revolta furiosa dos Icenicos (?) Celtas sob Boudicca (Boadicea). (Vide Feiticeiras de Lethbridge, págs. 79-80).
(4) Os Ciganos Kalderash (um dos três principais grupos Romenos) mantém que O Del, O (masculino) Deus, não criou o mundo. “A terra (phu), isto é, o universo, existia antes dele; ela sempre existiu. ‘Ela é a mãe de todos nós’ (amari De) e é chamada De Develeski, a Divina Mãe. Nisto reconhece-se um traço do matriarcado primitivo”. (Jean-Paul Clébert, Os Ciganos, pág.134).
Devemos enfatizar que esta interpretação não é um modo de voltar ao passado a fim de introduzir qualquer idéia de ‘inferioridade intelectual feminina’. Pelo contrário, como aponta a Pedra de Merlin (Os Papéis do Paraiso, pág.210), as culturas de adoração à Deusa produziram “invenções nos métodos de agricultura, medicina, arquitetura, metalurgia, veículos com rodas, ceramica, texteis e a linguagem escrita”- nas quais as mulheres desempenharam uma participação completa (às vezes, como com a introdução da agricultura, a lider). Seria mais verdadeiro dizer que o intelecto em desenvolvimento foi uma ferramenta para criar o máximo possível encima daquilo que era natural, ao invés de (como se tornou mais tarde) ferramenta muitas vezes usada para distorcê-la ou esmagá-la.

Mas a longa escalada da consciência estava acelerando – e súbitamente (em termos de escala de tempo evolutiva) a mente consciente foi lançada em sua ascenção meteórica para a ditadura sobre as questões e o meio ambiente da humanidade. Inevitávelmente, isso foi expresso no monoteísmo patricarcal – a regra do Deus, o Sacerdote, o Rei, o Pai. (No berço da civilização do Mediterrâneo, os portadores dessa nova perspectiva foram os povos Indo-Europeus patrilineares, adoradores de Deus que conquistaram ou se infiltraram nas culturas indígenas matrilineares, de adoração à Deusa; pois quanto à historia da tomada do controle, e seu efeito na religião e a subsequente relação entre os sexos, Papéis do Paraíso de Ms Stone, acima citado, vale a pena ser lido). Foi um estagio necessário, embora trágico de forma sangrenta, na evolução da humanidade, e este envolveu, de forma igualmente inevitável, um certo afastamento – muitas vezes uma vigorosa supressão da parte do Estabelecido- do livre exercício da dádiva da Deusa.

Isso é uma super-simplificação suficiente para deixar um historiador de cabelo em pé, porém alimento para a reflexão. E aqui tem mais. Aquele estágio da evolução já passou. O desenvolvimento da mente consciente (certamente dentre os melhores exemplos disponíveis para a humanidade) alcançou o seu ápice. Nossa próxima tarefa evolucionária é a de reviver a dádiva da Deusa em todo o seu potencial e combinar os dois – com perspectivas inimagináveis para a raça humana e o planeta em que vivemos. Deus não está morto; ele é um viúvo (grass-widower-?), aguardando a readmissão de seu Consorte exilado. E se a Wicca deve desempenhar seu papel nisto, uma ênfase especial sobre aquilo que é para ser redespertado é uma necessidade prática, de forma à restaurar o equilíbrio entre as duas Dádivas (5).
(5) Enquanto este livro ia ser impresso, nós lemos o livro novamente publicado de Annie Wilson A Virgem Sábia. Em sua Seção Quatro, “O Coração da Matéria”, ela lida em profundidade com esta questão da evolução da consciência e tem algumas coisas muito perspicazes para dizer sobre suas implicações psicológicas, espirituais e sexuais (no sentido mais amplo). Ela também conlui que uma nova síntese, de potencial excitantemente criativo, é não apenas possível mas urgentemente necessário se nós, no Ocidente, “devemos equilibrar nossa aguda desigualdade”. Essa é uma leitura muito útil para ter uma maior compreensão sobre a natureza, função e relacionamento entre homem e mulher.
Pois o equilíbrio é, e deve ser, o porquê enfatizamos ambas qualidades essenciais do homem e da mulher num trabalho em sociedade na Wicca e a recomendação de a Suma Sacerdotiza ser reconhecida como “primeira entre os iguais’ em seu próprio relacionamento com seu Sumo Sacerdote e o coven – um delicado equilíbrio com algumas associações, mas a nossa experiência própria (e nossa observação sobre outros covens) nos convence de que vale a pena buscar esse modo.

Alguém poderia também salientar que nesse tempo de agitação espiritual, e reavaliação religiosa em larga escala, o Catolicismo, o Judaismo, o Islã e muito do Protestantismo ainda se agarram obstinadamente ao monopolio masculino do sacerdotado como sendo ‘determinado por meio divino’; a Sacerdotiza ainda é banida, para o grande empobrecimento espiritual da humanidade. A Wicca pode também ajudar à recuperar este equilíbrio. E toda Sacerdotiza Wicca ativa sabe por sua própria experiência o quão grande é o vazio a ser preenchido – deveras, há ocasiões onde é difícil não ser engolfado por este (e mesmo ocasiões, que isso seja sussurrado, onde sacerdotes e ministros de outras religiões vêm à ela em caráter não-oficial para pedir auxílio, frustrados devido à sua própria falta de colegas femininas).

Após esta divagação necessária - voltemos à estrutura do coven.

O ideal de um coven, consistindo inteiramente de associações operativas é, naturalmente, raras vezes alcançado; sempre haverá um ou dois membros sem um par.

Um membro feminino é nomeado como a Donzela; ela é de fato uma Suma Sacerdotiza assistente para propósitos rituais –embora não necessariamente na esfera da liderança e autoridade. O papel da Donzela varia de coven para coven, mas a maioria acha útil ter uma, para desempenhar um papel particular nos rituais. (A Donzela geralmente – em nosso coven, de qualquer forma – tem seu próprio parceiro de trabalho simplesmente como qualquer outro membro do coven).

Neste livro, nós admitimos a estrutura acima – Suma Sacerdotiza, Sumo Sacerdote, Donzela, alguns pares operativos e um ou dois membros sem par.

Com relação aos Sabás – em nosso coven nós iniciamos, como se poderia esperar, adotando o Livro das Sombras ao passo que cada um ingressava, aplicando imediatamente um pouco de criatividade ao material limitado que este oferecia e deixando-a se desenvolver dentro de uma celebração do coven. (Sejamos bem claros quanto à isto, senão toda esta análise séria irá confundir alguém; todo Sabá deveria se desenvolver dentro de uma celebração). Porém ao longo dos anos passamos à considerar isso inadequado. Oito boas celebrações, cada uma começando com um pouco de ritual parcialmente herdado e parcialmente espontâneo, não eram suficientes para expressar o prazer, o mistério e a magia do ciclo do ano, ou a vazante e o fluxo das marés psíquicas que subjazem neste. Elas eram como oito pequenas melodias, agradáveis mas separadas, quando o que nós realmente queríamos era oito movimentos de uma sinfonia.

Então começamos à cavar e estudar, à buscar indícios sazonais em tudo, desde a Deusa Branca de Roberto Graves até Fasti de Ovid[io] (?), desde livros sobre tradições folclóricas até as teorias sobre os círculos de pedra, desde a psicologia Junguiana até a sabedoria sobre o clima. Férias arqueológicas na Grécia e Egito, e afortunadas visitas profissionais ao Continente, auxiliaram à ampliar nossos horizontes. Acima de tudo, talvez, o fato de nos movermos em meio ao campo, rodeados por plantas, árvores, colheitas, animais e clima de interesse prático para nós, nos trouxe face a face com a Natureza manifesta em nossas vidas diárias; seus ritmos começaram à ser verdadeiramente os nossos ritmos.

Nós tentamos descobrir o padrão anual por trás de tudo isso e aplicar o que aprendemos aos nossos rituais de Sabá. E tal como o fizemos, os Sabás começaram à ter vida para nós.

Nós sempre tentamos extrair um padrão, não impor um; e extraí-lo não é tão fácil. É uma tarefa complexa, porque a Wicca (6) é uma parte integral da tradição pagã ocidental; e as raízes desta tradição se espalharam amplamente, desde as terras Nórdicas até o Oriente Médio e o Egito, desde os estepes até o litoral do Atlântico. Enfatizar um fio da teia (digamos os Celtas, os Nórdicos ou os Gregos) e usar suas formas e símbolos particulares, porque voce está sintonizado com eles, é razoável e até mesmo desejável; mas isolar aquele fio, tentar rejeitar os outros como estranhos à este, é algo tão irreal e fadado ao fracasso quanto tentar apagar os genes dos pais de um bebê vivo. A Antiga Religião é também um organismo vivo. Seu espírito não é afetado pelo tempo, e a seiva que corre em suas veias não se altera – mas à qualquer tempo e lugar ele está em um estado particular de crescimento. Voce pode entrar em sintonia com aquele crescimento, encorajar e contribuir com ele e influenciar seu futuro; mas voce estará buscando problemas e desapontamento se voce distorcê-lo ou representá-lo de forma equivocada.


(6) Como a maioria das feiticeiras modernas, chamamos a Arte de “Wicca”. Isto se tornou um uso bem fundamentado e muito apreciado, e existem todas as razões para que assim continue – mas devemos ser também honestos e admitir que esta é efetivamente uma nova palavra, derivada de forma errada. O Inglês Antigo para ‘witchcraft’ era wicca-craeft, e não wicca. Wicca significava ‘um feiticeiro do gênero masculino’ (feminino wicce, plural wiccan), do verbo wiccian, “enfeitiçar, praticar feitiçaria”, o que o Oxford English Dictionary diz é “de origem obscura”. Para o OED, a trilha parece terminar aqui; mas a afirmação de Gardner que Wicca (ou, como ele a soletra, Wica) significa “a Arte do Sábio” é apoiada por Margaret Murray, que escreveu o tópico sobre Witchcraft na Encyclopaedia Britannica (1957). “O significado real desta palavra “witch” está aliado com ‘wit’, saber”. Robert Graves (A Deusa Branca, pág.173),discutindo sobre o salgueiro que na Grécia era consagrado à Hecate, diz: “Sua conexão com as feiticeiras é tão forte na Europa do Norte que as palavras ‘witch’ e ‘wicked’ (mau) são derivadas da mesma palavra antiga para salgueiro, que também expressa ‘wicker’ (vime). Para completar o quadro, ‘wizard’ (feiticeiro) realmente significava ‘um sábio’, sendo derivada do Inglês Médio Recente wys ou wis, ‘sábio’. Mas ‘warlock’, no sentido de ‘um witch masculino’, é Inglês Médio Recente de influência Escocesa e inteiramente depreciativo; sua raiz significa ‘traidor, inimigo, demônio’; e se os muito poucos witches masculinos modernos que se denominam warlocks se dessem conta de sua origem, eles se uniriam à maioria e compartilhariam o título de ‘witch’ com as suas irmãs.
Nós já salientamos que os Oito Sabás refletem dois temas distintos, com raízes históricas diferentes embora interativas: o tema solar e o tema da fertilidade natural. Eles não são mais separáveis, mas cada um deve ser compreendido caso ambos devam ser encaixados em nossa “sinfonia”.

À nós parecia que uma chave para esta compreensão seria reconhecer que dois conceitos da figura de Deus estavam envolvidas. A Deusa está sempre lá; ela muda seu aspecto (em ambos seus ciclos de fecundidade como a Mãe Terra e em suas fases lunares como a Rainha do Céu), mas ela está sempre presente. Entretanto o Deus, em ambos os conceitos, morre e é renascido.

Isto é fundamental. O conceito de um Deus sacrificado e renascido é encontrado em toda parte, voltando aos menores vestígios da pré-história; Osiris, Tammuz, Dionísio, Balder e Cristo são apenas algumas de suas formas posteriores. Contudo você procurará em vão através da história da religião por uma Deusa sacrificada e renascida – temporáriamente perdida de vista, talvez, como Perséfone, mas sacrificada, nunca. Tal conceito seria religiosamente, psicológicamente e naturalmente impensável (7).
(7) Nós cruzamos com apenas uma exceção aparente à esta regra. Na pág.468 de O Ramo Dourado Frazer diz: “Na Grécia, parece que a grande deusa Artemis tinha sua própria efígie anualmente enforcada em seu bosque sagrado de Condylea entre os montes Arcadianos, e lá dessa forma ela era conhecida pelo nome de O Enforcado”. Mas Frazer perdeu a idéia principal. “Artemis Enforcada” não é sacrifício – ela está no aspecto da Deusa Aranha Arachne/Ariadne/Arianrhod/(Aradia?), que desce para nos auxiliar por meio de seu fio mágico, e cuja teia espiral é a chave para o renascimento. (Vide James Vogh, O Décimo-Terceiro Zodíaco).
Daremos uma olhada, então, nestes dois temas de Deus.

A figura do Deus-Sol que domina os Sabás Menores dos solstícios e equinócios, é comparativamente simples; seu ciclo pode ser observado mesmo através de uma janela de um flat elevado. Ele morre e é renascido em Yule; começa à fazer o tecido (?) de sua jovem maturidade, e a impregnar a Mãe Terra com ele, através do Equinócio da Primavera; brilha no ápice de sua glória no Meio do Verão; resigna-se com o poder decrescente, e a influência que diminui sobre a Grande Mãe, através do Equinócio de Outono; e novamente enfrenta a morte e o renascimento na maré de Yule.

O tema da fertilidade natural é muito mais complexo; ele envolve duas figuras de Deus – o Deus do Ano Crescente (que aparece vez e outra na mitologia como o Rei do Carvalho) (8) e o Deus do Ano Decrescente (o Santo Rei). Eles são os gêmeos claro e escuro, cada um sendo o “outro self” do outro, eternos rivais, eternamente conquistando e sucedendo um ao outro. Eles competem eternamente pelo favor da Grande Mãe; e cada um, no ápice de seu reino de meio-ano, é sacrificialmente desposado com ela, morre em seu abraço e é ressucitado para completar o seu reinado.
(8) Sem dúvida, também relacionável ao Homem Verde ou Máscara Folhada cujas representações gravadas aparecem em tantas igrejas antigas.
‘Luz e escuridão’ não representam ‘bem e mal’; elas significam as fases expansiva e de contração do ciclo anual, uma tão necessária quanto a outra. A partir da tensão criativa entre as duas, e entre elas por um lado e a Deusa por outro lado, a vida é gerada.

Este tema de fato excede nos Sabás Menores de Yule e Meio de Verão. Em Yule o Santo Rei termina o seu reinado e cai para dar lugar ao Rei do Carvalho; no Meio de Verão o Rei do Carvalho é por sua vez substituido pelo Santo Rei.

Este é um livro de rituais sugeridos, não uma obra de análise histórica detalhada; assim sendo, aqui não é o lugar para explicar em profundidade simplesmente como nós extraímos o padrão acima. Porém acreditamos que qualquer pessoa que estude a mitologia Ocidental com uma mente aberta chegará inevitávelmente às mesmas conclusões gerais; e a maioria das feiticeiras provavelmente reconhecerá o padrão de imediato.

(Muitas delas poderão questionar muito razoávelmente: “Onde se encaixa o nosso Deus de Chifres nisto?” O Deus de Chifres é uma figura de fertilidade natural; as raízes de seu simbolismo remontam à épocas totêmicas e de caça. Ele é o Rei do Carvalho e o Santo Rei, os gêmeos complementares vistos como uma entidade completa. Nós sugeriríamos que Rei do Carvalho e o Santo Rei são uma sutileza que, desenvolvida na ampliação do conceito do Deus de Chifres como vida vegetal, tornou-se mais importante para o homem. Eles não o aboliram – eles meramente aumentaram nossa compreensão sobre ele.

No início de cada Seção deste livro, oferecemos maiores detalhes sobre o histórico de cada Sabá e explicamos como o utilizamos para criar o nosso ritual.

Mas para auxiliar à tornar mais claro o padrão geral, tentamos resumí-lo no diagrama da pág.26 (do original, que será traduzido à parte). Isto é apenas um resumo, mas o achamos muito útil, e esperamos que outras pessoas também o julguem útil.

Um ou dois comentários sobre ele são necessários. Primeiro, os ‘aspectos da Deusa’- Nascimento, Iniciação, Consumação, Repouso e Morte – são aqueles sugeridos na obra de Grave Deusa Branca. (Os escritos de Robert Graves, e aqueles de Doreen Valiente, tem sido de mais utilidade para nós em nossa pesquisa do que talvez quaisquer outros). Deve ser novamente enfatizado que estes não significam o nascimento e a morte da própria Deusa (um conceito impensável, como destacamos) mas a face que ela mostra ao Deus e aos adoradores dela no decorrer do ano. Ela não sofre a experiência muito embora ela presida sobre estas.

Segundo, o posicionamento do casamento e renascimento sacrificial do Rei do Carvalho e do Santo Rei, em Beltaine e Lughnasadh respectivamente, podem parecer um pouco arbitrários. Porque este é um ciclo de fertilidade, o espaçamento real de seus ritmos varia de região para região; então naturalmente, devido aos calendários de uma croft(???) de uma Highland Escocesa e um vinhedo Italiano (por exemplo) não mantém o mesmo compasso um em relação ao outro. Os dois sacrifícios aparecem em vários tempos na Primavera e no Outono; assim ao planejar um ciclo coerente de Sabás, uma escolha teve que ser feita. Bealtaine parecia a escolha óbvia para o casamento do Rei do Carvalho; mas o do Santo Rei (mesmo nos confinando aos Sabás Maiores, como parecia se encaixar) poderia ser ou Lughnasadh ou Samhain – sendo que em ambos, traços deste devem ser encontrados. Uma razão pela qual nós estabelecemos para Lughnasadh era a de que Samhain (Hallowe’en) já está tão carregado de significados e tradições que incorporar o sacrifício, casamento e renascimento do Santo Rei em seu ritual iria sobrecarregá-lo ao ponto de haver confusão. Cada Sabá, não importa o quão complexas sejam suas implicações, deve ter um tema central e uma mensagem clara. Novamente, o sacrifício do Santo Rei é também aquele do Rei do Milho – um tema popular obstinadamente indestrutível, como muitos costumes simbólicos indicam; (9) e Lughnasadh, não o Samhain, marca a colheita. Finalmente, nós tentamos sempre que possível incluir em nossos rituais sugeridos a essência dos ritos do Livro das Sombras; e aquilo para Lughnasadh, secreto como é, realmente aponta para esta interpretação. Esta é a única ocasião quando a própria Suma Sacerdotisa invoca a Deusa dentro de si mesma, ao invés de o Sumo Sacertdote o fazer por ela, talvez uma indicação de que neste Sabá ela está muito mais poderosamente no comando, e o Deus Sacrificial ainda mais vulnerável ? Para nós pareceu que sim.


(9) Leia Lar da Colheita de Thomas Tryon – um romance aterrador mas perspicaz, agora transformado em um filme muito bom.
Nota : Temos no original uma página com o resumo tal como acima mencionado.
Ao decidir como disponibilizar witches masculinos para os papéis de Deus Sol, Rei do Carvalho e Santo Rei, fomos governados por duas considerações: (1) que a Suma Sacerdotiza, como representante da Deusa, tem apenas um ‘consorte’ – seu parceiro de invocação, o Sumo Sacerdote – e que qualquer ritual que simbolize seu casamento deve ser com ele; e (2) que não é praticável ou desejável para o Sumo Sacerdote finalizar qualquer ritual simbólicamente ‘morto’, uma vez que ele é o líder masculino do coven sob a Suma Sacerdotiza e deve, por assim dizer, ser restaurado à disponibilidade no curso do ritual.

Em Bealtaine e Lughnasadh, portanto – os dois ritos de casamento e renascimento sacrificiais – nós temos o Sumo Sacerdote representando os papéis de Rei do Carvalho e Santo Rei, respectivamente. Em cada caso o ritual implica em seu casamento com a Grande Mãe, e sua ‘morte’; e antes de o drama ritual terminar, ele é renascido. O Deus Sol não é representado, como tal, nestes Sabás.

No Meio de Verão e Yule, contudo, todos os três aspectos do Deus estão envolvidos. No Meio de Verão o Deus Sol está no ápice de seu poder, e o Santo Rei ‘assassina’ o Rei do Carvalho. Em Yule,o Deus Sol passa pela morte e renascimento, e o Rei do Carvalho por sua vez ‘assassina’ o Santo Rei. Nessas duas ocasiões, a Deusa não é desposada, ela preside; e em Yule, adicionalmente, ela dá a luz ao Deus Sol renovado. Então para estes dois, nós temos o Sumo Sacerdote atuando como o Deus Sol, ao passo que o Rei do Carvalho e o Santo Rei são ritualmente escolhidos por sorteio (à menos que a Suma Sacerdotiza prefira nomeá-los) e coroados para seus papéis pela Donzela. Nós fomos cautelosos em incluir em cada ritual a dispensa formal do ator do Rei assassinado de seu papel (assim restaurando-o a seu lugar no coven para o resto do Sabá), e também uma explicação sobre o que acontece com o espírito do Rei assassinado durante seu meio ano vindouro de obscurecimento.

Este livro é sobre os Sabás. Mas os Esbás (reuniões não-festivas) e os Sabás tem uma coisa em comum: todos eles são realizados dentro de um Círculo Mágico, que é ritualísticamente construído , ou ‘lançado’, no início da reunião e ritualísticamente dispersado, ou ‘banido’, ao final. Estes rituais de abertura e fechamento, mesmo dentro da tradição Gardneriana/Alexandrina, tendem à variar em detalhes de coven para coven e podem também variar de ocasião para ocasião no mesmo coven, conforme o trabalho à ser feito e a decisão intuitiva ou consciente da Suma Sacerdotiza. Não obstante, cada coven tem seus rituais básicos de abertura e fechamento, contudo flexíveis; e este os utilizará em Esbás e Sabás da mesma forma. Geralmente o ritual de abertura inclui, em adição ao ‘lançamento’ real do Círculo, ‘Atraindo a Lua (???)’ (invocação do espírito da Deusa para dentro da Suma Sacerdotiza feita pelo Sumo Sacerdote) e a recitação da Investidura (o pronunciamento tradicional da Deusa à seus seguidores).

Outra característica comum dos oito Sabás, como estabelecido pelo Livro das Sombras, é o Grande Rito, o ritual da polaridade masculino-feminino encenado pela Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote.

Já que este livro consiste de nossas sugestões detalhadas para os rituais dos oito Sabás, ele seria portanto incompleto caso nós não apresentássemos também o nosso modo particular de conduzir o Ritual de Abertura, o Grande Rito e o Ritual de Encerramento. Assim, nós os incluimos como Seções I, II e III. Nós não sugerimos que os nossos são ‘melhores’ do que os de outros covens; mas eles estão pelo menos no mesmo estilo como os nossos rituais de Sabás sugeridos, portanto colocando os últimos em contexto ao invés de deixá-los sem cabeça nem pés. Também, esperamos que alguns covens achem útil ter uma forma para o Grande Rito simbólico, que o Livro das Sombras falha em fornecer.

Esperamos que não seja mais necessário neste último estágio nos defendermos contra a acusação de ‘trair segredos’ ao publicar nossas versões dos rituais de abertura, fechamento e o Grande Rito. Os rituais Gardnerianos básicos tem estado em ‘domínio público’ por muitos anos até agora; e assim tantas versões desses três em particular (alguns deturpados, e pelo menos um – por Peter Haining – desavergonhadamente negro) tem sido publicadas, que não fazemos qualquer pedido de desculpa por oferecer o que acreditamos serem versões coerentes e funcionais.

Além do mais, com a publicação de Feitiçaria para o Amanhã de Doreen Valiente, a situação da Wicca tem mudado. Sob o princípio de que ‘voce tem o direito de ser um pagão se voce quiser ser’, ela decidiu “escrever um livro que colocará a feitiçaria dentro do alcance de todos” (e ninguém é melhor qualificado para tomar aquela decisão do que o co-autor do Livro das Sombras). O Feitiçaria para o Amanhã inclui um Liber Umbrarum, seu Livro das Sombras completamente novo e muito simples para pessoas que desejam se iniciar e organizar seus próprios covens. Agora, assim como Gardner antes dela, ela está sento tanto elogiada como atacada por sua iniciativa. Para nós próprios, nós o recebemos de todo o coração. Desde que Stewart publicou O Que As Feiticeiras Fazem, há nove anos atrás, temos estado (e ainda estamos) abarrotados de cartas de pessoas pedindo para serem postas em contato com um coven em sua localidade. Nós não tivemos condições de prestar ajuda à maioria delas, especialmente porque estão espalhadas por todo o mundo. Futuramente iremos fazer referência ao Feitiçaria para o Amanhã para estas. A necessidade é genuína, ampla e crescente; e deixá-la insatisfeita por razões de um ‘segredo’ alegado é algo negativo e não realista.

De forma interessante, o que Doreen Valiente fez pela Wicca Gardneriana em Feitiçaria para o Amanhã, Raymond Buckland também o fez para outra tradição, Wicca Saxônica, em A Àrvore, O Livro Completo de Feitiçaria Saxônica (vide Bibliografia). Aquelem também, inclui um Livro das Sombras simples porém abrangente e procedimentos para auto-iniciação e a fundação de seu próprio coven. Nós achamos que muitos dos rituais em A Àrvore são admiráveis, embora nos sentíssemos menos felizes com relação aos oito ritos de Celebrações, que são até mesmo mais insuficientes do que aqueles no Livro das Sombras Gardneriano, e se resumem a pouco mais do que breves declamações faladas; eles estão baseados na idéia de que a Deusa rege o verão, de Bealtaine a Samhain,e o Deus o inverno, de Samhain a Bealtaine – um conceito ao qual nós não conseguimos nos sintonizar. Perséfone, é recolhida ao submundo no inverno, é apenas um aspecto da Deusa – um fato que sua lenda enfatiza ao fazer dela a filha da Grande Mãe.

Contudo, para cada um o seu próprio; é presunção ser muito dogmático, estando do lado de fora, com relação às outras tradições da Arte. O que importa é que qualquer um que deseje seguir o caminho da Wicca mas não consegue fazer contato com um coven estabelecido, agora tem duas tradições Wicca válidas abertas à ele(a) em formato impresso. O que ele(a) fizer dos rituais depende de sua própria sinceridade e determinação – mas isto seria igualmente verdadeiro se ele(a) se unisse à um coven estabelecido da forma normal.

Referindo-se novamente à O Que As Feiticeiras Fazem, há uma desculpa que Stewart gostaria de apresentar. Quando ele o escreveu, como um feiticeiro de primeiro ano, ele incluiu material que ele compreendeu como sendo ou tradicional ou originado de seus professores. Ele agora sabe que muito deste foi de fato escrito para Gardner por Doreen Valiente. Ela foi suficientemente gentil ao dizer: “Eu naturalmente aceito que voce não sabia disso quando voce o publicou; como poderia saber?” Então estamos alegres, por esta vez, de ter a oportunidade de contar exatamente o que aconteceu. E nós estamos gratos à ela por ter lido este manuscrito antes da publicação, à nosso pedido, para assegurar que nós nem a citamos sem reconhecimento e nem a citamos inadequadamente. (Uma desculpa similar, pelo jeito, ao vulto do já falecido Franz Bardon).

A ajuda de Doreen nos deu outra razão para incluir os rituais de Abertura, o Grande Rito e o de Encerramento tanto quanto as oito Celebrações; este nos capacitou à fornecer respostas definitivas à maioria (esperamos) das perguntas que as pessoas tem feito durante o quarto de século que se passou à respeito das fontes dos vários elementos no Livro das Sombras (ou pelo menos aquelas seções dele dentro do objetivo deste livro) e as circunstâncias de sua compilação. Acreditamos que já está na hora disso ser feito. A confusão e interpretações errôneas (algumas vezes inocentes, algumas vezes deliberadas) já duraram muito tempo, levando até mesmo à um distinto historiador do oculto como nosso amigo Francis King à chegar a conclusões erradas – se compreensível – sobre isto.

Esclarecer as fontes e origens não é ‘retirar o mistério dos Mistérios’. Os Mistérios não podem, devido à sua natureza, nem ao menos serem descritos em palavras; eles podem apenas ser experimentados. Mas eles podem ser invocados e ativados pelo ritual eficaz. Jamais se deve confundir as palavras e atos do ritual com o próprio Mistério. O ritual não é o Mistério – é um meio de contatá-lo e experimentá-lo. Alegar ‘preservar os Mistérios’ como uma desculpa para falsificar a história e ocultar o plágio está errado e é um prejuízo tanto para os próprios Mistérios como para àquelas pessoas para as quais voce ensina. Isso inclui, por exemplo, declarar ter copiado o Livro das Sombras da sua avó muitos anos antes de este ter sido realmente compilado, ou então ditar a obra de outros professores para fazer os estudantes acreditarem que é sua própria obra.

Os rituais neste livro são dados para trabalho dentro de um recinto, mas todos eles podem ser facilmente adaptados para trabalho ao ar livre onde isto seja felizmente possível. Por exemplo, velas podem ser acesas em lanternas ou vasos, e fogueiras acesas onde for adequado e seguro. (se voce trabalhar vestido de céu – isso é, despido – uma fogueira ajuda !)

Devido à cada um destes rituais ser realizado apenas uma vez ao ano, óbviamente ninguém vai sabê-los de cor do jeito que os rituais de Esbá são conhecidos. Assim as declarações pelo menos serão lidas do texto. A visão varia, então cabe à pessoa nesta incumbência se deverá, e quando, trazer uma das velas do altar – ou, se ele ou ela necessitar ambas as mãos, em chamar outro witch para segura-la. Para evitar repetição, nós não temos nos referido à isso exceto onde a experiência nos ensinou que isto é particularmente necessário; por exemplo, quando a Suma Sacerdotiza cobre seu rosto com um véu (em algumas ocasiões, incidentalmente, desde que o véu seja longo o suficiente, ela deveria segurar o texto dentro dele).

Acreditamos que seja de grande ajuda, sempre que possível, fazer uma breve reencenação antecipadamente. Isto precisará levar apenas cinco minutos, antes de o Círculo ser consagrado. Nenhuma declamação é lida; tudo o que se requer é que o Sumo Sacerdote ou Suma Sacerdotiza tenha o texto em sua mão, e que passe rápidamente pela sequência, explicando, “Então eu faço isso, e voce faz aquilo, enquanto ela fica em pé ali . . .” e assim por diante, para se assegurar que todos tem a sequência básica e quaisquer movimentos importantes bem claros. Isso não deprecia o próprio ritual; na verdade, isto o faz se desenvolver muito mais fácilmente quando chegar a hora e evita ‘SHEEPDOGGING – (ficar conduzindo/monitorando - ???)’ ou preocupação excessivos à respeito de possíveis falhas.


Nós adicionais a terceira parte do livro – “Nascimento, Casamento e Morte” – porque, novamente, sentimos que há necessidade disto. Ao longo do ritmo universal das estações, transcorre o ritmo das nossas vidas individuais. Toda religião sente a necessidade de um conhecimento sacramental dos marcos naquelas vidas – a recepção de novos filhos, a união do homem com a esposa, a despedida solene aos amigos falecidos. A Wicca não é uma exceção, embora o Livro das Sombras Gardneriano não ofereça rituais para qualquer desses acontecimentos. Assim nós damos as nossas próprias versões de Wiccaning ( Nascimento - ???), Casamento e Requiem, na esperança que outras pessoas possa achá-los úteis.
Adendo à Reimpressão de 1985
Desde que este livro foi publicado, nosso livro posterior O Caminho da Feiticeira surgiu (Robert Hale Ltd., 1984). Tanto quanto fornecer uma pesquisa geral sobre a prática da Arte, ele completa a tarefa que iniciamos aqui – a de estabelecer (novamente com a ajuda de Doreen Valiente) o formato e o texto exatos dos rituais de Gardner, a partir de seus manuscritos originais em posse de Doreen. Por exemplo, ele inclui sua própria versão mais completa do Grande Rito,e todas as passagens não rituais de seu Livro das Sombras.

Esperamos que os leitores considerem-no um volume útil e complementar ao presente.

Este livro foi escrito em Ballycroy, Co. Mayo, na costa Atlântica da Irlanda. Mas desde então, nosso trabalho tem exigido que nós mudássemos para mais perto de Dublin. Podemos receber correspondência através do endereço abaixo.

JANET FARRAR

STEWART FARRAR

Barfordstown Lodge,

Kells,

Co. Meath, Ireland.


Bealtaine de 1985.



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