A bíblia da feitiçaria o manual Completo dos Feiticeiros Janet e Stewart Farrar



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XVI Muitas Mansões
As bruxas variam bastante em suas atitudes com relação à outros caminhos religiosos e ocultos, e mesmo com relação à tradições Wicca diferentes das suas próprias. Algumas, lamentavelmente, confundem rebelião juvenil com julgamento genuíno, e consequentemente condenam tudo e todos os cristãos (ou qualquer que venha a ser a religião de seus pais) indiscriminadamente. Outras insistem que o único caminho Wicca verdadeiro é o delas e que Gardnerianos, Alexandrinos, Seax-Wicca ou quaisquer outros são hereges.

Mas a maioria delas é mais construtiva e aceita o velho ditado ocultista de que todas as religiões genuínas (deixando de lado a definição de ‘genuína’ por enquanto) são diferentes caminhos para as mesmas verdades, e que a escolha do caminho deveria depender das necessidades do indivíduo, seu estágio de desenvolvimento, ambiente cultural e assim por diante.

Este ditado foi universalmente aceito no mundo antigo, antes do estabelecimento do monoteísmo patriarcal. Um sacerdote de Posseidon visitando um templo de Amon-Ra, ou uma sacerdotisa de Isis visitando um templo de Juno, seria reconhecido como um colega, servindo a mesma Divindade última através de símbolos diferentes. Mesmo a perseguição do Império Romano aos judeus e mais tarde aos cristãos foi política, não teológica; ele teria tolerado estas religiões exóticas muito alegremente, tal como fizera com dúzias de outras, se elas não tivessem rejeitado o sistema de tolerância mútua e reivindicado um rígido monopólio da verdade, e baeado sua resistência violenta ou passiva ao Império sobre aquela reivindicação. O Império poderia ser um cruel conquistador de povos, mas ele não atacava deuses estranhos nem empreendia genocídio contra os hereges. como fizeram os judeus e os cristãos (e o Império quando este se tornou oficialmente cristão) mais tarde fariam.

O paganismo é essencialmente tolerante, e assim são as bruxas sábias. Elas combaterão o fanatismo ou a intolerância ou a perseguição religiosa; elas criticarão o que consideram como aplicações deturpadas do espírito religioso; elas certamente atacarão o uso hipócrita das desculpas religiosas para racionalizar a crueldade ou a ganância, tal como um ditador que empreende a guerra em nome de Deus, um terrorista que explode oponentes religiosos, ou um guru que enriquece através de seu carisma ‘espiritual’. Mas elas não atacarão uma religião, ou seus seguidores, como tais. Se o fizessem, não seriam melhores do que os caçadores de bruxas.

O que nos traz de volta à questão: o que é uma religião ‘genuína’ ?

Uma religião genuína é aquela que faz uso de seu próprio conjunto de símbolos, sua própria mitologia (seja reconhecida como mitologia ou não) e suas próprias disciplinas pessoais, para desenvolver o indivíduo mentalmente, espiritualmente e emocionalmente, e colocá-lo(a) em harmonia com a Divindade e suas manifestações (humanidade, Natureza e o Cosmos como um todo). Ao que se deve adicionar que ela deve ser seguida voluntariamente pelo indivíduo por sua livre escolha, e não forçá-la à ninguém.

Como organizações, deve-se admitir que nem todas as religiões atendem adequadamente àquela definição; algumas tem ofendido grosseiramente contra ela. Mas como sistemas simbólicos, quase qualquer uma delas pode e de fato serve para alcançar os objetivos daquela definição para um indivíduo sincero que se sente em sintonia com seus símbolos particulares.

Nesse tempo de revolução religiosa, é vital para as bruxas reconhecer e agir sobre esta distinção, se elas quiserem desempenhar um papel construtivo naquela revolução.

Por exemplo, nós podemos e de fato criticamos duramente a atitude da hierarquia católica com relação à contracepção, divórcio, a ordenação de mulheres, a infalibilidade papal e muitos outros assuntos. Por outro lado, descobrimos que muitos católicos comuns (incluindo alguns poucos sacerdotes e freiras de nosso conhecimento) concordam privativamente conosco que em sua abordagem à Virgem Maria eles estão reconhecendo o aspecto feminino da divindade – isso é, a Deusa – não importa o quão cuidadosamente o dogma oficial tente circunscrevê-la e subordiná-la; muitos deles possuem um senso mágico inato e uma compreensão intuitiva dos funcionamentos do poder psíquico; e o folclore católico (seja na Irlanda celta ou Espanha latina) é insoluvelmente delineado com atitudes pagãs. Quando nós viemos pela primeira vez à Santa Irlanda, em 1976, nós francamente esperávamos passar por maus momentos por sermos bruxos conhecidos; para nossa surpresa, nós fomos quase universalmente aceitos e tornados amigos como uma parte natural do cenário. Os vizinhos católicos estavam aptos à reagir vigorosamente se alguém de fora fizesse considerações depreciativas sobre ‘suas’ bruxas. (Uma vez Stewart foi até mesmo convidado à participar como padrinho do novo bebê de um amigo católico; embora o cumprimento fosse devidamente apreciado, nós e o sacerdote juntos demos um jeito de persuadi-la que isso não seria inteiramente diplomático.)

Ainda assim nós nunca diminuímos a importância de nossas próprias crenças, nosso respeito pela fé dos nossos amigos católicos (mesmo nossa admiração por alguns aspectos dela) ou nossa crítica à muitas das decisões e atitudes oficiais da Igreja.

Similarmente, enquanto nós lamentamos o chauvinismo masculino do Islã, sua inclinação à súbitas ondas de fanatismo perigoso, e outros defeitos, viajar pelos países muçulmanos nos ensinou o respeito pela simples combinação do mundano com a espiritualidade do muçulmano comum, e pela praticabilidade diária de muito do ensinamento de Maomé; mais ainda, existe muito do pensamento de tais filósofos como os Sufis com o que qualquer ocultista ocidental se sentiria em sintonia. Com relação aos judeus, sua contribuição intelectual e artística para o melhor da cultura ocidental tem estado fora de quaisquer proporções com relação à seus números; sua coexistência não-proselitiva com outras religiões, e muitas vezes aquele mesmo equilíbrio mundano-espiritual, contrasta favoravelmente com algumas das características menos admiráveis do cristianismo; e eles nos deixaram como legado a mina de ouro da Cabala.

Mas para a maioria das bruxas, sua atitude com relação ao cristianismo é o maior problema, porque é em um ambiente cristão que a maior parte da Arte como nós a conhecemos, e tal como está presentemente se expandindo, tem que viver e operar.

Uma das pedras de tropeço, naturalmente, é a insistência dos cristãos de que Jesus era Deus Encarnado; que o carpinteiro de Nazaré, o homem que abriu mão de seu destino no Jardim de Getsêmane, era de fato o criador do Cosmos. Mesmo aceitando os Evangelhos como um relato razoavelmente preciso de suas palavras, não conseguimos achar que ele tenha até mesmo alegado ser Deus. A nós parece que esta alegação tenha sido imposta sobre ele posteriormente, e como sendo uma distorção de sua verdadeira mensagem (com a qual qualquer bruxa ou ocultista concordaria) de que a divindade reside em todos nós. Se isto brilhou através dele mais fortemente do que através de a maioria das outras pessoas na história, isso é um outro caso.

O caráter de Jesus é tal conceito carregado no ocidente, tão carregado com séculos de amor, fanatismo, projeção psicológica, política e distorção, que é difícil discutir sobre ele não apaixonadamente; mas sua natureza boddhisativa (vide págs.121-2) deve seguramente estar longe de dúvidas. Ele próprio parece até mesmo fazer alusão à isso nos Evangelhos como o fizemos (‘Antes que Abraão fosse, Eu sou’), e seus discípulos relataram a crença popular (‘Alguns dizem, Elias; e outros dizem, aquele dos antigos profetas se ergueu novamente’).

E relativo aos seus ensinamentos, mesmo os Evangelhos tornam claro que ele distinguia nitidamente entre sua pregação exotérica para as massas e seus ensinamentos internos para seus discípulos escolhidos. Uma interessante teoria oculta (vide Dion Fortune, Aspectos do Ocultismo, Capítulo III) é que ele deixou a reencarnação fora de seu ensinamento público, porque sua mensagem para as massas se concentravam na transformação da Personalidade como o passo imediato rumo à perfeição, e a maior parte do que podia ser compreendido por eles naquele tempo; mas que para os seus discípulos ele ensinou as verdades internas sobre a Individualidade reencarnante (como sugere São Jerônimo – vide pág.115).

Algo que seria muito frutífero seria para algum ocultista bem informado que também seja um estudioso bíblico reunir todos os Evangelhos disponíveis, oficiais, apócrifos e gnósticos, sem preconceitos e sob a luz do conhecimento moderno, reavaliar sua autenticidade relativa; corrigir onde for possível, com uma compreensão das manobras político-teológicas do Império Bizantino, quaisquer publicações e censuras primitivas dos textos originais; corrigir erros de tradução que foram feitos por ignorância sobre os termos técnicos usados pelas Escolas de Mistérios hebraicas, e portanto pelo próprio Jesus; e dessa forma compilar uma antologia da totalidade dos prováveis ensinamentos reais, ambos exotéricos e esotéricos (1). Uma tarefa para um estudioso genial, ou um time [de estudiosos] geniais. Contudo o quadro geral que surgiria poderia ser assustadoramente diferente daquele sobre o qual o cristianismo oficial foi construído.

Isso poderia até mesmo emprestar uma força à sensação de muitas bruxas de que uma reunião cristã do primeiro século deve ter tido uma familiaridade similar com um esbá das bruxas do século vinte – festa do amor, trabalhos de cura, treinamento psíquico e tudo mais.

Ao tentar buscar entendimento com os cristãos que criticam o tipo de trabalho que nós nos propomos à fazer, vale a pena ressaltar que Jesus disse aos seus seguidores para prosseguirem e fazerem apenas isto: ‘Curem os doentes, purifiquem [no sentido de tratar] os leprosos, ressuscitem os mortos, exorcisem os demônios’ (Mateus X:8). Ressuscitar os mortos pode estar alem da capacidade da maioria de nós, mas pelo menos as bruxas trabalham duro nos outros três (o que pode ser resumido em termos modernos como ‘Curem os doentes fisicamente e mentalmente’), embora com umas poucas exceções honráveis os cristãos parecem ter abandonado completamente a cura psíquica e ter confinado o ‘exorcisar os demônios’ à um punhado de exorcistas licenciados. (Exorcisar os demônios pode significar o exorcismo real ou trabalho psiquiátrico, que é na maior parte deixado para experts leigos; bruxas e ocultistas são praticamente as únicas pessoas que distinguem entre entidades atacando a psique a partir de fora, e as disfunções dentro da própria psique, e tentam solucionar ambos os problemas – com auxílio especializado caso necessário). Nós descobrimos que um monte de cristãos sensíveis param e pensam novamente quando conversamos com eles seguindo esta pauta.

Gostem disso ou não, a Arte tem uma contribuição à fazer ao mundo de hoje que muitas vezes transcende a tarefa primária de cuidar de si mesma; sobre este assunto, vide mais na Seção XXVI – ‘Em Sintonia com os Tempos’. E ela o fará melhor se nós não tratarmos como inimigos automáticos aqueles cujos caminhos são diferentes mas cujas metas finais possam ser mais como as nossas próprias do que algumas vezes achamos. Nós fazemos melhor em tentar compreendê-los e em ajudá-los à nos compreender.

Nós uma vez tivemos em nosso coven um jovem cristão que esteve atuando como missionário leigo mas que perdeu o ânimo e uma grande parte de sua fé. Nós o iniciamos e o treinamos como um bruxo, e ele se tornou um bruxo muito bom. Após um ano, ele nos disse que desejava voltar para a Igreja; ele disse que o nosso treinamento o tinha ajudado à compreender seu próprio cristianismo e eliminou os conflitos que o estavam paralisando. Nós o enviamos ao seu caminho com nossa bênção, um homem transformado, e ele continuou nosso amigo.



Sempre que somos tentados à reagir agressivamente com relação à alguém que está em um caminho diferente do nosso próprio, nós nos lembramos daquele jovem – e nos recordamos que, embora um outro caminho possa ser iluminado por símbolos diferentes, ele pode estar alinhado com o mesmo pico distante.

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