A bíblia da feitiçaria o manual Completo dos Feiticeiros Janet e Stewart Farrar



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V Equinócio da Primavera, 21 de Março
“O Sol”, como declara Robert Graves, “se arma no Equinócio da Primavera”. Luz e sombra estão em equilíbrio, mas a luz está dominando a escuridão. Este é basicamente um festival solar, recém-chegado na Antiga Religião na Europa Celta e Teutônica. Embora a influência Teutônica – os “invasores solsticiais” de Margaret Murray – tenha adicionado Yule e o Meio de Verão aos Quatro Grandes Sabás dos Celtas pastoris, a nova síntese ainda abraçava apenas seis Festivais. “Os Equinócios”, diz Murray, “nunca foram observados na Bretanha” (exceto, como sabemos agora, pelos povos Megalíticos pré-Celticos – vide página 14 – do original).

Ainda que os Equinócios estejam agora inquestionavelmente conosco; pagãos modernos, quase universalmente, celebram os oito Festivais, e ninguém sugere que os dois Equinócios são uma inovação imaginada por Gerald Gardner ou pelos românticos da Renovação Druida. Eles são uma parte genuína da tradição pagã tal como esta existe hoje, mesmo se suas sementes foram sopradas a partir do Mediterrâneo e germinaram no solo dos séculos ocultos, juntamente com muitos outros elementos frutíferos. (Aos puristas Wicca que rejeitam qualquer coisa que se origine da Grécia ou Roma clássicas, do Antigo Egito, da Qaballah Hebraica ou da Aradia Tuscan (Toscana - ?), seria melhor que parassem de celebrar os Equinócios também). A importação de tais conceitos é sempre um processo complexo. A compreensão popular sobre o Equinócio da Primavera nas Ilhas Britânicas, por exemplo, deve ter sido importada principalmente com a Páscoa Cristã. Porém a Páscoa trouxe em sua bagagem, por assim dizer, as sugestões pagãs do Mediterrâneo sobre o Equinócio da Primavera.

A dificuldade que enfrentam as Witches em decidir simplesmente como celebrar o Sabá do Equinócio da Primavera não é a de que as associações ‘estrangeiras’ são de fato estranhas às associações nativas mas que elas se sobrepõe com estas, expressando temas que tem há muito tempo se agregado aos Sabás nativos mais antigos. Por exemplo, o tema do casamento sacrificial nas terras do Mediterrâneo tem fortes ligações com o Equinócio da Primavera. O austero ritual da deusa frígia Cybele, no qual a auto-castração, morte e ressurreição de seu filho/amante Attis era marcado por adoradores castrando-se a si mesmos para se tornarem seus sacerdotes, era de 22 a 25 de Março. Em Roma esses ritos aconteciam no ponto onde agora se ergue [a Basílica de] São Pedro na Cidade do Vaticano. De fato, em locais onde o culto de Attis era difundido, os cristãos locais costumavam celebrar a morte e ressurreição de Cristo na mesma data; e pagãos e cristãos costumavam brigar cruelmente devido a qual dos seus deuses era o verdadeiro protótipo e qual era a imitação. Na pura cronologia, não deveria ter havido disputa, porque Attis veio da Frígia muitos séculos antes de Cristo; mas os cristãos tinham o argumento irreplicável de que o Demônio astutamente forjou falsificações à frente da verdadeira Vinda de forma à iludir a humanidade.

A Páscoa – a morte aceita por Jesus, sua descida ao Inferno e ressurreição – pode ser vista como a versão cristã do tema do casamento sacrificial, pois ‘Inferno’ é nesse sentido a visão do monoteísmo patriarcal sobre o inconsciente coletivo, o aspecto feminido odiado, a Deusa, no qual o Deus sacrificado é mergulhado como o prelúdio necessário ao renascimento. A “Angústia do Inferno” [vivida por] Cristo, como descrita no Evangelho apócrifo de Nicodemo, envolvia o seu resgate das almas dos justos da senda (?) de Adão “que adormeceram desde o início do mundo” e a ascensão dos mesmos para o Céu. Despido do dogma teológico, isto pode ter um significado positivo – a reintegração dos tesouros enterrados do inconsciente (‘a dádiva da Deusa’) com a luz da consciência analítica (‘a dádiva do Deus’).

A primavera, também, era uma estação especial em tempos clássicos e pré-clássicos para uma forma do casamento sacrificial que era também mais gentil e mais positivo do que o culto de Attis – o Hieros Gamos, ou casamento sagrado. Neste, a mulher identificava a si mesma com a Deusa, e o homem mergulhava na Deusa através dela, doando da sua masculinidade mas não a destruindo, e emergindo da experiência espiritualmente revitalizado. O Grande Rito, seja simbólico ou real, é obviamente o hieros gamos das witches; e então, como agora, ele chocou muitas pessoas que não o compreenderam (1). Para um profundo comentário Junguiano sobre o hieros gamos, vide a obra Mistérios da Mulher de M. Esther Harding).

Mas no Norte, onde a Primavera chega mais tarde, estes aspectos realmente pertenciam ao Bealtaine ao invés de ao Equinócio não observado; e é em Bealtaine, como veremos, que posicionamos nosso ritual correspondente ‘Caça ao Amor’(?). Talvez seja significativo que a Páscoa (devido ao método lunar complexo de datá-lo) reflita esta sobreposição ao cair em qualquer [dia] começando logo após o Equinócio até um pouco antes de Bealtaine. A Páscoa [Easter], pelo jeito, tomou este nome da deusa Teutônica Eostre, cujo nome é provavelmente ainda uma outra variante de Ishtar, Astarte e Aset (o nome egípcio correto ‘Isis’ sendo a forma grega). Os ritos de primavera de Eostre trazem uma aparência familiar àqueles da Ishtar babilônica. Outra peça de ‘bagagem’ pagã !


(1) Os oponentes mais selvagens do hieros gamos e tudo o que ele defendia eram naturalmente os profetas hebreus. Suas críticas contra “prostituição” e “meretrício seguindo a deuses estranhos”, com o que abunda o Antigo Testamento, eram políticas, e não éticas. O culto à Deusa que os rodeava, e ao qual as famílias hebraicas comuns ainda se apegavam por séculos juntamente com o culto oficial de Yahweh, era uma ameaça direta ao sistema patriarcal que eles estavam tentando impor. Pois à menos que cada mulher fosse uma propriedade exclusiva de seu marido, e virgem no casamento, como se poderia ter certeza da paternidade ? E a paternidade inquestionável era a pedra fundamental de todo o sistema. Dessa forma eis a pena de morte bíblica por adultério, para noivas descobertas como não-virgens e até mesmo para as vítimas de estupro (à menos que elas não fossem nem casadas nem noivas, em cujo caso elas tinham que se casar com o estuprador); a crueldade com que os hebreus, “segundo a palavra do Senhor”, massacraram a população inteira das cidades conquistadas de Canaã, homens, mulheres e crianças (exceto para algumas virgens atraentes, as quais “a palavra do Senhor” os permitiam raptar como esposas); e mesmo a reescritura Levítica do mito da Criação para dar sanção divina à superioridade masculina (é interessante que a Serpente e a Árvore eram ambas símbolos da Deusa universalmente reconhecidos). Desta antiga batalha política, o Cristianismo (excedendo até mesmo o Judaísmo e o Islã) herdou o ódio pelo sexo, o ascetismo deformado e o desprezo por mulheres que o tem molestado [desde_ ?] os caminhos de São Paulo e que ainda está longe do seu fim. (Vide novamente os Papéis do Paraíso de Merlin Stone).
Mas se no aspecto de fertilidade humana o Equinócio de Primavera deve se curvar perante Bealtaine, ele pode apropriadamente reter o aspecto de fertilidade de vegetação, mesmo se no Norte ele marque um estágio diferente deste. Ao redor do Mediterrâneo, o Equinócio é o tempo de germinação; no Norte, é tempo de semear. Como um festivel solar, também, ele deve partilhar com os Sabás Maiores o eterno tema de fogo e luz, que tem sobrevivido fortemente no folclore da Páscoa. Em muitas partes da Europa, em particular a Alemanha, as fogueiras da Páscoa são acesas com o fogo obtido pelo sacerdote, em locais tradicionais no topo da colina muitas vezes conhecidos localmente como ‘Montanha da Páscoa”. (Restos de costumes mais antigos em maior escala –vide sob Bealtaine, pág.82 – do original). Tão distante quanto a luz iluminar, acredita-se que a terra será frutífera e os lares seguros. E, como sempre, as pessoas saltam por sobre as brasas que estão apagando, e o gado é conduzido sobre elas.

O Livro das Sombras diz que para este festival, “o símbolo da Roda deve ser colocado sobre o Altar, ladeado com velas queimando, ou fogo de alguma forma”. Então, assumindo que este seja um dos elementos tradicionais genuínos que foram dados à Gardner, podemos apreender que as witches Britânicas, ao absorver os Equinócios ‘não-nativos’ em seu calendário, usaram o símbolo da roda de fogo que também se apresenta em muitos costumes folclóricos de meio de verão através da Europa.

Uma pista de que a roda de fogo solar é uma genuína tradição equinocial, e não meramente uma escolha para ‘preencher vazio’ [da parte] de Gardner, pode ser encontrada no costume de carregar trevos no Dia de São Patrício – que cai em 17 de Março. Segundo a explicação costumeira, o trevo tornou-se o emblema nacional da Irlanda porque São Patrício uma vez usou seu formato de três folhas para ilustrar a doutrina da Trindade. Mas o Oxford English Dictionary diz que esta tradição é ‘tardio’; e de fato a primeira referência impressa à esta se deu em uma obra de botânica do século dezoito. E o Dicionário Inglês-Irlandês de Dinneen, definindo seamróg, diz que seu uso como um emblema nacional na Irlanda (e, incidentalmente, em Hanover, na pátria dos “invasores solsticiais”) é provavelmente “uma sobrevivência do trignetra, um símbolo da roda ou sol cristianizada”, e adiciona que a variedade de quatro folhas “é acreditada como trazendo sorte, relacionada à um antigo símbolo apotropaico (?) inserido em um círculo (símbolo do sol ou da roda)”.

O trevo do Dia de São Patrício se tornou padronizado como o trevo amarelo menor (Trifolium dubius ou minus), mas nos dias de Shakespeare ‘trevo’ (‘shamrock’) significava madeira marrom amarelada, Oxalis acetosella; e Dinneen define seamróg como “um trevo, trefoil, clover, um feixe de grama verde”. A obra Complete Herbal de Culpeper diz que “todas as madeiras marrom amareladas (Sorrel) estão sob o domínio de Venus”. Assim as folhas tríplices verde primavera na abotoadura da lapela do irlandês no equinócio nos remete de volta não apenas ao Deus Sol mas também, através da moderna tela da Trindade, à Deusa Tríplice. (Artemis, a Deusa Grega Tríplice da Lua, alimentou suas gazelas (?) com trevos).

E com relação à afortunada variedade de quatro folhas - qualquer psicólogo Junguiano (e os Senhores das Torres de Vigia !) lhe dirão que o círculo dividido em quatro é um símbolo arquetípico de totalidade e equilíbrio. A roda de fogo solar, a cruz Celta, o trevo de quatro folhas, o Círculo Mágico com suas quatro velas cardinais, o hieróglifo egípcio niewt significando ‘cidade’, o pãozinho de Páscoa hot-cross (???), a basílica Bizantina – todos conduzem a mesma mensagem além do tempo, muito mais antiga do que o cristianismo.

O ovo de Páscoa é, também, pré-cristão. Ele é o Ovo do Mundo, disposto pela Deusa e aberto pelo calor do Deus Sol; “e o chocar do mundo era celebrado a cada ano no Festival do Sol na Primavera” (Graves, A Deusa Branca, págs. 248-9). Originalmente, ele era um ovo de serpente; o caduceu de Hermes retrata as serpentes acasaladas, Deusa e Deus, que o produziram. Mas sob a influência dos mistérios Órficos, como Graves salienta, “uma vez que o galo era a ave Órfica da ressurreição, sagrada ao filho de Apolo, Esculápio o curador, os ovos de galinha tomaram o lugar dos ovos de serpente nos mistérios Druídicos posteriores e eram pintados de escarlate em honra ao Sol; e se tornaram ovos de Páscoa”. (Ovos decorados cozidos em uma infusão de flores eram rolados pelas encostas de morros na Irlanda no Domingo de Páscoa).

Stewart escreveu em O Que Fazem as Bruxas: “O Equinócio de Primavera é óbviamente uma ocasião para decorar o quarto com narcisos silvestres e outras flores de primavera,e também para honrar uma das mulheres mais jovens nomeando-a como a Rainha da Primavera do coven e mandá-la de volta para casa mais tarde com uma braçada de flores”. Nós nos mantivemos com este pequeno costume agradável.

A Preparação
Um símbolo da roda é colocado no altar; pode ser qualquer coisa que se considere adequada – um disco recortado pintado de amarelo ou dourado e decorado com flores de primavera, um espelho circular, uma bandeja redonda de latão ou bronze; a nossa é um prato de bateria de 14 polegadas, muito bem polido e com um buquê de narciso silvestre ou prímula em seu orifício central.

A túnica do Sumo Sacerdote (se houver) e acessórios devem apresentar o simbolismo do Sol; qualquer metal que ele porte deve ser de ouro, dourado, latão ou bronze.

O altar e o ambiente devem ser decorados com flores de primavera – particularmente aquelas amarelas como o narciso silvestre, prímula, gorse ou forsítia (?) (ambas plantas com flores amarelas). Um buquê deverá estar pronto para ser entregue à Rainha da Primavera e uma coroa de flores para sua coroação.

O caldeirão é colocado no centro do Círculo,com uma vela apagada dentro dele. Uma vela pequena está pronta no altar para a Donzela transportar o fogo para o Sumo Sacerdote.

Uma vara fálica está pronta sobre o altar.

Uma quantidade de cordas, sendo a metade do número de pessoas presentes, está preparada sobre o altar, amarradas juntas em seu ponto central em um único nó. (Caso haja um número ímpar de pessoas, adicione uma antes de dividir por dois; por exemplo, para nove pessoas pegue cinco cordas).

Se voces gostarem, podem levar um prato com ovos cozidos, com as cascas pintadas (tudo em escarlate, ou decorados como quiserem), sobre o altar – um para cada pessoa e mais um para o sidhe ou oferenda à terra. Estes poderão ser distribuidos durante a festa.
O Ritual
O Ritual de Abertura procede como de costume, porém sem a Runa das Feiticeiras.

O Sumo Sacerdote fica em pé ao Leste, e a Suma Sacerdotiza no Oeste, um olhando para o outro tendo ao meio o caldeirão. A Suma Sacerdotiza porta a vara fálica em sua mão direita. O resto do coven se distribui ao redor do perímetro do Círculo.

A Suma Sacerdotiza diz :
“Nós acendemos este fogo hoje

Na presença dos Sagrados,

Sem malícia, sem ciúmes, sem inveja,

Sem temor de nada sob o Sol

Exceto os Altos Deuses.

A Ti invocamos, Oh Luz da Vida,

Sejais Tu uma chama brilhante perante nós,

Sejais Tu uma estrela guia acima de nós,

Sejais Tu um suave caminho sob nós,

Acendei em nossos corações

Uma chama de amor pelos nossos vizinhos,

Aos nossos inimigos, aos nossos amigos, à todos os nossos parentes,

À todos os homens por toda a terra.

Oh piedoso Filho de Cerridwen,

Desde a criatura mais humilde que existe

Até o Nome que é o maior de todos”.
(2) Adaptado por Doreen Valiente de duas bênçãos escocesas gaélicas na obra Carmina Gadelica de Alexander Carmichael (vide Bibliografia – no original). Carmichael, que viveu de 1832 a 1912, reuniu e traduziu uma rica coletânea de orações e bênçãos gaélicas, comunicadas de boca em boca nas Highlands e Ilhas da Escócia. Como Doreen diz, “Esta bela poesia antiga é realmente puro paganismo com uma fina camada cristã”. A Carmina Gaelica de seis volumes, embora um tesouro para possuir, é cara; felizmente uma seleção das traduções em Inglês foi publicada como um recente livro de bolso, O Sol Dança (vide Bibliografia). As duas fontes que Doreen usou aqui serão encontradas nas páginas 231 e 49 do volume I de Carmina Gadelica, e nas páginas 3 e 11 de O Sol Dança; Carmichael as obteve de esposas de praticantes (?) em North Uist e Lochaber, respectivamente.
A Suma Sacerdotiza segura o vara fálica no alto e caminha vagarosamente deosil ao redor do caldeirão para ficar de frente ao Sumo Sacerdote. Ela diz:

Oh Sol, estejais Tu armado para conquisar a Escuridão!”

A Suma Sacerdotiza entrega a vara fálica ao Sumo Sacerdote e então caminha para um dos lados.

O Sumo Sacerdote segura no alto a vara fálica em saudação e a repõe sobre o altar.

A Donzela acende a vela pequena em uma das velas do altar e a entrega ao Sumo Sacerdote. A Donzela então vai para um dos lados.

O Sumo Sacerdote carrega a vela pequena até o caldeirão e acende a vela do caldeirão com esta. Ele devolve a vela pequena para a Donzela, que a apaga com um sopro e a recoloca sobre o altar, pegando por sua vez as cordas.

A Donzela entrega as cordas ao Sumo Sacerdote.

A Suma Sacerdotiza organiza a todos ao redor do caldeirão, homem de frente para mulher tanto quanto for possível. O Sumo Sacerdote distribui as pontas das cordas conforme as instruções dela, retendo uma extremidade da última corda para si e entregando a outra extremidade desta para a Suma Sacerdotiza. (Caso haja um número ímpar de pessoas, com mais mulheres do que homens, ele mesmo segura duas extremidades de corda ou, com mais homens que mulheres, entrega duas extremidades de corda para a Suma Sacerdotiza; em qualquer caso, ele deve estar ligado à duas mulheres ou ela à dois homens).

Quando todos estiverem segurando uma corda, todos puxam as cordas bem esticadas, com o nó central sobre o caldeirão. Eles então começam a circular deosil na Dança da Roda, para a Runa das Feiticeiras, aumentando a velocidade, sempre mantendo as cordas esticadas e o nó sobre o caldeirão.

A Dança da Roda continua até que a Suma Sacerdotiza grite “Abaixem!” , e todo o coven senta em circulo ao redor do caldeirão. O Sumo Sacerdote recolhe as cordas (sendo cauteloso para não deixa-las cair sobre a chama da vela) e as recoloca sobre o altar.

O caldeirão é então movido para o lado da vela do Leste, e o Grande Rito é encenado.

Após o Grande Rito, o Sumo Sacerdote nomeia uma witch feminina como a Rainha da Primavera e a faz ficar de pé em frente ao altar. Ele a coroa com a coroa de flores e lhe aplica o Beijo Quíntuplo.

O Sumo Sacerdote então convoca a cada homem por sua vez para aplicar na Rainha da Primavera o Beijo Quíntuplo. Quando o último homem o tiver realizado, o Sumo Sacerdote oferece à Rainha da Primavera o seu buquê.

O caldeirão é recolocado no centro do Círculo e, iniciando com a Rainha da Primavera, todos pulam o caldeirão, à sós ou em casais – não se esquecendo de fazer um pedido.

Terminados os saltos sobre o caldeirão, a festa começa.
VI Bealtaine, 30 de Abril
Na tradição celta, os dois maiores festivais de todos são Bealtaine e Samhain – o início do Verão e o começo do Inverno. Para os celtas, como também para todos os povos de cultura pecuária, o ano tem duas estações, não quatro; divisões mais sutis eram mais de interesse de cultivadores agrícolas do que criadores de gado. Beltane, a forma anglicizada, corresponde à palavra Bealtaine (pronunciada ‘b’yol-tinnuh’, rimando aproximadamente com ‘winner’) do irlandês-gaélico moderno, o nome do mês de Maio, e à palavra Bealtuinn (pronunciada ‘b’yal-temn’, com o ‘n’ como ‘ni’ em ‘onion’) do escocês-gaélico, significando Dia de Maio.

O significado original é ‘Bel-fire’- o fogo do deus celta ou proto-celta variadamente conhecido como Bel, Beli, Balar, Balor ou o Belenus latinizado – nomes que podem ser retrocedidos até o Baal do Oriente Médio, que simplesmente significa ‘Senhor’ (1). Alguma pessoas sugeriram que Bel é o equivalente britânico-celta do Cernunnos gaulês-celta; isso pode ser verdadeiro no sentido em que ambos são divindades arquetípicas do princípio masculino, esposos da Grande Mãe, mas nós sentimos que a evidência aponta para eles sendo diferentes aspectos daquele princípio. Cernunnos é sempre representado como o Deus de Chifres; ele é acima de tudo uma divindade da natureza, o deus dos animais,o Pan celta. (Herne o Caçador, que assombra o Grande Parque Windsor com sua Caçada Selvagem, é um Cernunnos inglês mais recente, como seu nome sugeste). Ele é também algumas vezes visto como uma divindade ctônica (do submundo),o Plutão celta. Originalmente, o Deus de Chifres era sem dúvida o totem animal tribal, cuja união com a Grande Mãe teria sido o principal ritual de fertilidade do período totêmico. (Vide a obra de Lethbridge Feiticeiras; Investigando uma Religião Antiga, págs. 25-27).


(1) De interesse familiar para nós: o nome de solteira de Janet era Owen,e a tradição da família owen afirma descender dos senhores de Canaã de Shechem, que por si mesmos afirmavam serem da semente de Baal.
Bel, por outro lado, era ‘O Brilhante’, deus de luz e fogo. Ele possuía qualidades como o Sol (escritores clássicos o igualavam à Apolo) mas ele não era, estritamente falando, um Deus-Sol; como temos destacado, os Celtas não eram orientados pelo Sol. Nenhum povo que cultuasse o Sol como um deus o daria um nome feminino – e grian (gaélico irlandês e escocês para ‘Sol’) é um nome feminino. Assim existe Mór, um nome irlandês personalizado para o Sol, como na saudação “Mór dhuit’ – ‘Que o Sol te abençôe’. Pode parecer uma diferença sutil, mas um símbolo de deus não é sempre considerado como a mesma coisa que o próprio deus por seus adoradores. Os cristãos não adoram um cordeiro ou uma pomba, nem os antigos egípcios adoravam um babuíno ou um falcão; embora os dois primeiros sejam símbolos de Cristo e do Espírito Santo, e os outros dois de Thot e Horus. Para alguns povos, o Sol era um deus, mas não para os Celtas com seu Sol feminino, muito embora Bel/Balor, Oghma, Lugh, e Llew possuíssem atributos solares. Uma oração popular tradicional gaélico-escocesa (vide Miscelânea Céltica, de Kenneth Jackson, item 34) se refere ao Sol como “mãe feliz das estrelas”, se erguendo “como uma jovem rainha em flor”. (Para maior evidência de que o calendário ritual dos Celtas pagãos era orientado para o ano da vegetação natural e da criação de gado, e não para o ano solar e a agricultura, vide o Ramo Dourado de Frazer, págs. 828-830).

Simbólicamente, ambos os aspectos de Cernunnos e o de Bel podem ser vistos como modos de visualizar o Grade Pai que impregna a Grande Mãe (2). E estes são os dois temas que dominam o festival May Eve/May Day através do folclore celta e britânico: fertilidade e fogo.


(2) Sempre existe sobreposição. O gigante Cerne Abbas recortado na relva Dorset é uma figura de Baal, como mostrado por seu bastão e falo Hercúleos, e seu nome local, Helith, é claramente o Grego helios (Sol); ainda assim ‘Cerne’ é claramente igual a Cernunnos. E o Baal Hammon de Carthage era também um Baal ou Bel verdadeiro (sua consorte Grande Mãe tinha o nome de Tanit – compare à Dana irlandesa e à Don, de Gales); ainda assim ele possuia chifres.
Os fogos de Bel eram acesos nos topos das colinas para celebrar o retorno da vida e da fertilidade ao mundo. Nas Highlands escocêsas até recentemente no século dezoito, Robert Graves nos conta (A Deusa Branca, pág.416), o fogo era aceso ao se prefurar uma tábua de carvalho, “mas apenas no acendimento do fogo (need-fire_?) de Beltane, ao qual era atribuída virtude miraculosa . . . Este originalmente culminava no sacrifício de um homem representando o deus-Carvalho”. (É interessante que em Roma as Virgens Vestais, guardiãs do fogo sagrado, costumavam atirar manequins feitos de juncos dentro do Rio Tiber na lua cheia de Maio como sacrifícios humanos simbólicos).

Na Irlanda pagã ninguém podia acender um fogo de Bealtaine até que o Ard Ri, o Alto Rei, tivesse acendido o primeiro na Colina Tara (Tara Hill). Em 433 AD, São Patrício demonstrou uma perspicaz compreensão do simbolismo quando ele acendeu um fogo na Colina Slane, a dez milhas de Tara, antes que o Alto Rei Laoghaire acendesse a sua; ele não poderia ter feito uma declaração mais dramática da usurpação da liderança espiritual sobre toda a ilha. São David fez um gesto histórico similar em Gales no século seguinte.

Incidentalmente, muito do simbolismo de Tara como o foco espiritual da antiga Irlanda é imediatamente reconhecível por qualquer um que tenha operado em um Círculo Mágico. Tara é Meath (Midhe, ‘centro’) e era o assento dos Altos Reis; seu plano de terreno é ainda visível como grandes aterros gêmeos circulares. O Salão de Banquete ritual de Tara tinha um vestíbulo central para o próprio Alto Rei, circundado por quatro vestíbulos com a frente voltada para dentro que eram distribuídos entre os quatro reinos provinciais; ao Norte para Ulster, ao Leste para Leinster, ao Sul para Munster, e ao Oeste para Connacht. Eis o porque as quatro províncias são tradicionalmente conhecidas como ‘quintos’, devido ao Centro vital que as completa, como o Espírito completa e integra a Terra, o Ar, o Fogo e a Água. Mesmo as ferramentas elementais do ritual estão representadas, nos Quatro Tesouros da Tuatha Dé Danann: a Pedra do Fál (Destino) que gritou alto quando o legítimo Alto Rei sentou nela, a Espada e Lança de Lugh, e o Caldeirão do Dagda (o Deus Pai).

Todos os quatro eram símbolos masculinos, como se poderia esperar numa sociedade guerreira; mas as fundações matrilineares arquetípicas ainda brilharam na inauguração de um rei menor, regente de uma tuath ou tribo. Este era “um casamento simbólico com a Soberania, um rito de fertilidade para o qual o termo técnico era banais rígi ‘casamento real’ “. O mesmo costumava ser verdadeiro com os Altos Reis: “A legendária Rainha Medb, cujo nome significa ‘intoxicação’, era originariamente uma personificação de soberania, pois nos foi dito que ela foi a esposa de nove reis da Irlanda, e em qualquer outro lugar, que sómente aquele que tivesse se casado com ela poderia ser rei. Sobre o Rei Cormac foi dito . . . ‘até que Medb tivesse dormido com o rapaz, Cormac não foi rei da Irlanda’”. (Dillon e Chadwick, em Os Reinos Celtas, pág.125).

É fácil perceber, então, porque Tara teria que ser o ponto de ignição para o fogo de Bel regenerativo para a comunidade; e o mesmo teria sido verdadeiro com relação aos focos espirituais correspondentes em outras terras. A Irlanda meramente veio a surgir como o país onde os detalhes da tradição tem sido mais claramente preservados.

(Sobre o total simbolismo complexo de Tara, a obra de Reese Herança Celta apresenta uma leitura fascinante para feiticeiras e ocultistas).

Uma característica do festival do fogo de Bealtaine em muitas terras era pular a fogueira. (Nós dizemos ‘era’, mas ao discutir costumes populares sazonais o tempo passado (do verbo) difícilmente prova ser inteiramente justificado). Jovens pularam fogueira para trazer para si maridos ou esposas; proporcionando aos viajantes a garantia de uma viagem segura; mulheres grávidas a assegurar um parto confortável, e assim por diante. O gado era conduzido por cima de suas cinzas – ou através de duas fogueiras destas – para assegurar uma boa produção de leite. As propriedades mágicas do festival do fogo formam uma crença persistente, como nós também veremos sob os do Meio de Verão, Samhain e Yule. (Ambos os gaélicos escocês e irlandês, incidentalmente, tem um dizer, ‘apanhado entre dois fogos de Bealtaine’, o que significa ‘apanhado em um dilema’).

Falando sobre gado – o dia seguinte, 1o de Maio, era um dia importante na antiga Irlanda. Naquele dia as mulheres, crianças e boiadeiros levavam o gado para os pastos de verão, ou ‘booleys’(buaile ou buailte), até Samhain. A mesma coisa ainda acontece, nas mesmas datas, nos Alpes e outras partes da Europa. Outra palavra gaélico irlandesa (e escocêsa) para pasto de verão é áiridh;e Doreen Valiente sugere (Feitiçaria para o Amanhã, pág.164) que “há apenas uma possibilidade de que o nome ‘Aradia’ é celta em origem”, conectado à esta palavra. Na feitiçaria do norte da Itália que, como Leland (vide Bibliografia – no original) mostrou, deriva de raízes etruscas, Aradia é a filha de Diana (ou, como os próprios etruscos a chamam, Aritimi, uma variante do grego Artemis). Os etruscos floresceram na Tuscany (Toscana_?) aproximadamente do oitavo ao quarto século antes de Cristo, até os romanos conquistarem a última de suas cidades-estados, Volsinii, em 280 AC. Do quinto século em diante, eles tiveram muito contacto com os celtas gauleses, algumas vezes como inimigos, algumas vezes como aliados; assim pode muito bem ser que os celtas trouxeram Aradia para lá. ‘Filha’, no desenvolvimento dos panteões, muitas vezes significa ‘versão posterior’ – e na lenda de Aradia, Aradia aprendeu muito de sua sabedoria através de sua mãe, o que corresponderia com o fato indubitável que a brilhante civilização etrusca era admirada e invejada pelos seus vizinhos celtas. É interessante que, em ambos escocês e irlandes, áiridh ou uma leve variante desta também significa ‘valor, mérito’.

E no caso em que qualquer um pense que Aradia chegou à Bretanha apenas através das pesquisas de Leland do século dezenove – na forma ‘Herodias’ela aparece como um nome inglês de deusa das feiticeiras no Canon Episcopi do décimo século.

Voltemos ao Bealtaine. O carvalho é a árvore do Deus do Ano Crescente (que vai amadurecendo – N.doT.); o pilriteiro, nesta estação, é a árvore da Deusa Branca. O forte tabu folclorico relativo à quebrar galhos de pilriteiro ou de trazê-los para dentro de casa é tradicionalmente suspenso na Véspera de Maio, quando galhos deste podem ser cortados para o festival da Deusa. (Fazendeiros irlandeses, e mesmo construtores de estradas que fazem terraplanagem, ainda são relutantes em cortar pilriteiros solitários; um pilriteiro ‘encantado’ (?) colocou-se no meio de um pasto na fazenda em que vivíamos em Ferns, Condado de Wexford, e exemplos respeitados similares podem ser vistos por todo o país).

Contudo, se voce quiser flores para seu ritual (por exemplo, como arranjos nos cabelos das feiticeiras), voce não poderá estar certo de encontrar pilriteiros floridos tão cedo quanto na Véspera de Maio, e voce provavelmente terá que se contentar com as folhas novas. Nossa própria solução é usar [a planta] blackthorn, cujas flores aparecem em Abril, à frente das folhas. O blackthorn (sloe) é também uma árvore da Deusa nesta estação – mas ela pertence à Deusa em seu aspecto sombrio, devorador, como o amargo de seu fruto de outono poderia sugerir. Ela costumava ser considerada como ‘a árvore das feiticeiras’ – no sentido malévolo – e azarenta. Porém temer o aspecto sombrio da Deusa é não perceber a verdade de que ela consome apenas para dar um novo nascimento. Se os Mistérios pudessem ser resumidos em uma sentença, ela poderia ser esta: “No âmago da Mãe Brilhante está a Mãe Sombria, e no âmago da Mãe Sombria está a Mãe Brilhante”. O tema sacrifício-e-renascimento do nosso ritual de Bealtaine reflete esta verdade, também, para simbolizar os dois aspectos em equilíbrio, nossas mulheres portam pilriteiro em folha e blackthorn em flôr, entrelaçados.

Outro tabu suspenso na Véspera de Maio era aquele antigo tabu britânico de caçar a lebre. A lebre, tanto quanto sendo um animal da Lua, tem uma boa reputação pela [randiness_? e] fecundidade; também a tem o bode, e ambos figuram no aspecto sacrificial das tradições de fertilidade em May Day. A Caçada do Amor é uma forma difundida desta tradição; está subjacente na lenda da Lady Godiva e a da deusa teutônica Eostre ou Ostara de quem a Páscoa recebeu seu nome, tanto quanto os festivais populares como a cerimônia ‘Obby Oss’ de May Day em Padstow, Cornwall. (Sobre a tentadora e misteriosa figura da mulher da caçada do amor “nem vestida nem despida, nem a pé nem a cavalo, nem na água nem em terra seca, nem com nem sem um presente”, que é “facilmente reconhecida como o aspecto Véspera de Maio da deusa do Amor-e-Morte”, vide Graves, A Deusa Branca, pág.403 em diante).

Mas à parte da – ou melhor, em ampliação da – encenação desses mistérios de Deusa e Deus-Rei, Bealtaine para as pessoas comuns era um festival de sexualidade e fertilidade humana destituido de vergonha. Maypole, nozes, e a ‘toga de verde’ eram símbolos francos do penis, testículos, e a cobertura de uma mulher por um homem. Dançar ao redor do maypole (mastro enfeitado para o festival – N.doT.), procurar nozes na floresta, ‘casamentos de folhagem verde’(?) e ficar em pé toda a noite para assistir o nascer do sol de Maio, eram atividades inequívocas, eis o porque os Puritanos os suprimiram com tal horror pio. (O Parlamento tornou os maypoles ilegais em 1644, mas eles voltaram com a Restauração; em 1661 um maypole com 134 pés de altura foi erguido em Strand).

Robin Hood, a Jovem Marian e João Pequeno desempenharam um grande papel no folclore de May Day; e muitas pessoas com sobrenomes tais como Hodson, Robinson, Jenkinson, Johnson e Godkin devem sua ancestralidade à algum May Eve distante nas florestas.

Ramos e flores costumavam ser trazidos da floresta na manhã de Maio para decorar as portas e janelas da vila, e jovens carregariam guirlandas em procissão, cantando. As guirlandas eram geralmente de argolas cruzadas. Sir J.G.Frazer escreveu no início deste século: “Parece que uma argola envolta em rowan e marigold (tipos de planta) do brejo, e mantendo suspensas duas bolas entre esta, é ainda carregada em May Day por aldeões em algumas partes da Irlanda. As bolas, que são algumas vezes cobertas com papel dourado e prateado, são relatadas como tendo originalmente representado o sol e a lua”. (O Ramo Dourado, pág.159). Pode ser – porém Frazer, esplêndido pioneiro que era, muitas vezes parecia estar (ou, no clima de seu tempo, discretamente fingia estar) cego ante o simbolismo sexual.

Outro costume da manhã de Maio na Irlanda era ‘deslizar [a mão] nos poços’. Voce iria até o poço de um vizinho próspero (presumivelmente antes de ele se levantar e estar por perto) e deslizaria [a mão] na superfície da água, para adquirir a sorte dele para voce. Em outra variação deste costume, voce deslizaria [a mão] no seu próprio poço, para assegurar uma boa produção de manteiga para o ano – e também, como se pode advinhar, para antecipar-se a qualquer vizinho que estivesse atrás da sua sorte.

A memória popular sobrevive de maneiras curiosas. Um amigo de Dublin – um bom católico por volta de seus cinquenta anos – nos conta que quando ele era um garoto em County Longford ao norte, seu pai e sua mãe costumavam levar as crianças para fora na meia noite na Vespera de Maio, e toda a família dançaria despida em meio às jovens plantações. A explicação que era dada às crianças era que isso os protegeria de pegar resfriados pelos próximos doze meses; mas seria interessante saber se os próprios pais acreditavam que isso era o verdadeiro motivo ou se estavam sabendo da fertilidade das plantações e estariam dando às crianças uma ‘respeitável’ explicação no caso de elas falarem – particularmente aos ouvidos do sacerdote. Nosso amigo também nos conta que as sementes eram sempre plantadas por volta de 25 de Março para assegurar uma boa colheita; e 25 de Março costumava ser considerado como o Equinócio da Primavera (compare 25 de Dezembro para o Natal ao invés do solstício astronômicamente exato).

“Uma das superstições mais difundidas na Inglaterra era a de que lavar o rosto com o orvalho da manhã de Maio embelezaria a pele”, diz a Encyclopaedia Britannica. “Pepy faz referência à prática em seu Diário, e mais tarde em 1791 um jornal de Londres reportou que ‘ontem’, sendo primeiro de Maio, um certo número de pessoas entrou nos campos e banhou suas faces com o orvalho da grama com a idéia que isso as tornaria mais belas’”. A Irlanda tem a mesma tradição.

Mas retornemos à folhagem verde. Hoje, a superpopulação e não a baixa população é o problema da humanidade; e atitudes mais iluminadas relativas aos relacionamentos sexuais (embora ainda se desenvolvendo de maneira não uniforme) dificilmente seriam compatíveis com o método orgia folhagem-verde (?) de produção de uma nova safra de Hodsons e Godkins. Mas ambas a alegre franqueza e o obscuro mistério podem e devem ser expressados. Eis com o que todos os Sabás se relacionam.

Em nosso rito de Bealtaine, nós tecemos o tanto quanto pudemos do simbolismo tradicional, evitando sobrecarregá-lo e estragar o fio de sua lâmina com obscuridade – ou, pior ainda, tirar a graça dele. Deixamos o leitor discernir sobre o tecido. Mas talves seja válido mencionar que a declamação do Sumo Sacerdote, “Eu sou um gamo de sete cornos,” etc., consiste daquelas linhas da Canção de Amergin que pertence, segundo a designação de Robert Graves, às sete árvore-meses no ciclo do Rei do Carvalho.

Nós adicionamos um pequeno rito bem separado que nos foi sugerido pela leitura de Fasti de Ovid. Em 1 de Maio os romanos prestavam homenagem à seus Lares, ou deuses do lar; e pareceu apropriado para nós fazer o mesmo na noite quando o fogo de Bel é apagado e novamente aceso. Todas as casas, para ser honesto, possuem objetos que são efetivamente Lares. A nossa inclui uma Venus de Milo de um pé de altura adquirida pelos pais de Stewart antes de ele nascer; levemente desgastada, duas vezes quebrada em dois e emendada, ela veio a se tornar uma Guardiã do Lar muito amada e um verdadeiro Lar. Ela agora sorri Helenisticamente por sobre nossos ritos de Bealtaine. Outras witches podem também achar que esta pequena homenagem anual é um agradável costume para se adotar.

A Preparação

O caldeirão é colocado no centro do Círculo, com uma vela acesa dentro deste; isto representa o fogo de Bel (Bel-fire).

Ramos de pilriteiro e blackthorn decoram o altar, e ornamentos de ambas as plantas combinadas (com os espinhos retirados) são elaborados para as witches femininas. (Uma aplicação de spray de cabelo sobre as flores feita anteriormente ajudará a evitar que as pétalas caiam). O pilriteiro e o blackthorn devem ser colhidos na própria Véspera de Maio, e é costume pedir desculpas e explicar para cada àrvore [o motivo] enquanto voce corta as plantas.

Se folhas de carvalho puderem ser encontradas nesta estação na sua área, um ornamento destas é feito para o Sumo Sacerdote, em seu papel como Rei do Carvalho. (Uma coroa permanente de carvalho é um acessório útil para o coven – vide sob Yule, pág.145 – do original – N.doT.).

Um cachecol ou pedaço de gaze verde, pelo menos com uma jarda quadrada de tamanho, é colocado junto ao altar.

Tantos tocos de vela quanto o número de pessoas no coven são colocados junto ao caldeirão.

Os ‘bolos’ para consagração nesta ocasião devem ser um prato de nozes.

Caso voces estejam incluindo o rito para o Guardião da Casa, este (ou estes) é (são) posicionado(s) na borda do Círculo próximo à vela do Leste, com um ou dois joss-sticks (pedaços de madeira / palitos _ ?) num suporte prontos para serem acesos no momento apropriado. (Se o seu Guardião não for móvel, um símbolo deste pode permanecer em seu lugar; por exemplo, caso seja uma árvore em seu jardim, traga para dentro um ramo desta – novamente com a desculpa e a explicação apropriadas).



O Ritual

Após a Runa das Feiticeiras, as pessoas do coven se espalham ao redor da área do Círculo entre o caldeirão e o perímetro e começam um bater de palmas suave e rítmico.

O Sumo Sacerdote toma o cachecol verde, pega-o na sua extensão como se fosse uma corda e segura uma extremidade em cada mão. Ele começa a se mover na direção da Suma Sacerdotiza, fazendo como se fosse lançar o cachecol por sobre os ombros dela e puxá-la para ele; mas ela vai para trás se afastando dele, provocativamente.

Enquanto o coven continua com seu bater de palmas rítmico, a Suma Sacerdotiza continua à esquivar-se do Sumo Sacerdote perseguidor. Ela o chama com gestos e o provoca mas sempre se afasta para trás antes que ele possa capturá-la com o cachecol. Ela ondula para dentro e para fora do coven, e as outras mulheres passam pelo caminho do Sumo Sacerdote para ajudá-la à se esquivar dele.

Após um certo tempo, digamos após duas ou três ‘voltas’ no Círculo, a Suma Sacerdotiza permite que o Sumo Sacerdote a capture lançando o cachecol por sobre sua cabeça em seus ombros e puxando-a para ele. Eles se beijam e se separam, e o Sumo Sacerdote entrega o cachecol para outro homem.

O outro homem então persegue a sua parceira, que se esquiva deste, acena para ele e o provoca exatamente da mesma forma; o bater de palmas segue durante todo o tempo. (Vide Ilustração 12). Após um certo tempo ela, também, se permite ser capturada e beijada.

O homem então entrega o cachecol para outro homem, e o jogo de perseguição continua até que todos os casais no coven tenham participado.

O último homem então entrega o cachecol de volta para o Sumo Sacerdote.

Mais uma vez o Sumo Sacerdote persegue a Suma Sacerdotiza; mas desta vez o compasso é muito mais lento, quase imponente, e o esquivar e os acenos dela são mais solenes, como se ela o estivesse tentando para o perigo; e desta vez as outras não interferem. A perseguição continua até que a Suma Sacerdotiza se posicione entre o caldeirão e o altar, de face para o altar e a dois ou três passos deste. Então o Sumo Sacerdote pára com suas costas voltadas para o altar e a captura com o cachecol.

Eles se abraçam solenemente porém sem reservas; mas após alguns segundos do beijo, o Sumo Sacerdote deixa o cachecol cair de suas mãos, e a Suma Sacerdotiza o solta e dá um passo para trás.

O Sumo Sacerdote se ajoelha, senta-se sobre seus calcanhares e abaixa sua cabeça, queixo sobre o peito.

A Suma Sacerdotiza abre seus braços, assinalando para que cesse o bater de palmas. Ela então chama duas mulheres pelos nomes e as posiciona uma em cada lado do Sumo Sacerdote, olhando para o centro [no caso o S.Sacerdote] de forma que as três olhem por cima dele. A Suma Sacerdotiza pega o cachecol, e as três o esticam entre elas por sobre o Sumo Sacerdote. Elas o abaixam lentamente e então o soltam, de modo que ele cubra a cabeça dele como um manto.

A Suma Sacerdotiza manda as duas mulheres voltarem para seus lugares e chama dois homens pelos nomes. Ela os instrui para apagarem as duas velas do altar (não a vela da Terra), e quando eles assim o tiverem feito, ela os manda de volta para seus lugares.

A Suma Sacerdotiza então se vira e se ajoelha próximo ao caldeirão, de face para este. Ela gesticula para que o resto do coven se ajoelhe em volta do caldeirão com ela.

Apenas o Sumo Sacerdote permanece onde ele está em frente ao altar, ajoelhado porém ‘morto’.

Quando todos estiverem posicionados, a Suma Sacerdotiza apagará a vela dentro do caldeirão e ficará em silêncio por um momento. Então ela diz :

O fogo de Bel está extinto, e o Rei do Carvalho está morto. Ele abraçou a Grande Mãe e morreu por seu amor; então assim tem sido, ano após ano, desde que o tempo começou. Ainda mais se o Rei do Carvalho está morto – aquele que é o Rei do Ano Crescente – tudo está morto; os campos não tem produção, as árvores não tem frutos, e as criaturas da Grande Mãe não tem juventude (?). O que faremos, portanto, para que o Rei do Carvalho possa viver novamente ?

O coven responde :

Reacender o fogo de Bel!”

A Suma Sacerdotiza diz :

Que assim seja”.

A Suma Sacerdotiza pega um toco de vela, se levanta, vai até o altar, acende o toco de vela com a vela da Terra e se ajoelha novamente próximo ao caldeirão. Ela reacende a vela do caldeirão com seu toco de vela. (Vide Ilustração 7 – do original). Ela então diz :

Peguem um toco de vela cada um de vocês e o acendam com o fogo de Bel”.

O coven assim o faz; e finalmente a Suma Sacerdotiza acende um segundo toco de vela para si mesma. Chamando as duas mulheres originais para acompanhá-la, ela se levanta e se vira para olhar o Sumo Sacerdote. Ela gesticula para que as duas mulheres levantem o cachecol da cabeça do Sumo Sacerdote; elas assim o fazem (Vide Ilustração 8 – do original) e colocam o cachecol no chão.

A Suma Sacerdotiza manda as duas mulheres de volta para seus lugares e chama os dois homens. Ela os instrui para reacenderem as velas do altar com seus tocos de vela. Quando eles assim o tiverem feito, ela os manda de volta para os seus lugares.

Ela então entrega um de seus tocos de vela para o Sumo Sacerdote (que durante todo o tempo até agora não se moveu) e diz:

Volte para nós, Rei do Carvalho, para que a terra possa ser frutífera.”

O Sumo Sacerdote se levanta, e aceita o toco de vela. Ele diz :

Eu sou um gamo de sete cornos;

Eu sou uma grande enchente numa planície;

Eu sou um vento sobre as águas profundas;

Eu sou uma lágrima brilhante do sol;

Eu sou um falcão sobre um rochedo;

Eu sou amável entre as flores;

Eu sou um deus que faz a cabeça em chamas (?) com fumaça”

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote conduzem uma dança circular à volta do caldeirão, o resto do coven os seguindo, todos carregando seus tocos de vela. A atmosfera se torna alegre. Enquanto dançam, eles cantam :



“Oh, não conte ao Sacerdote ( /padre_?) sobre a nossa Arte,

Ou ele poderia chamá-la de pecado;

Mas nós estaremos nas florestas por toda a noite,

Conjurando o Verão para vir !

E nós lhe trazemos as novas de viva voz

Para as mulheres, gado e plantação (?) –

Agora o Sol está vindo do Sul

Com Carvalho, e Freixo, e Arbusto!” (3)
Eles repetem Com Carvalho, e Freixo, e Arbusto!” ad lib. (do Latim - à vontade_?) até que a Suma Sacerdotiza sopre seu toco de vela e o coloque no caldeirão. O resto faz o mesmo. Então todo o coven se dá as mãos e circulam cada vez mais rápido. De vez em quando a Suma Sacerdotiza chama por um nome ou nomes [dos componentes] de um par, e quem quer que seja chamado se desliga do círculo, salta o caldeirão e se reúne ao círculo. Quando todos tiverem saltado, a Suma Sacerdotiza grita “Abaixem! ” e todos se sentam.

Aquilo, à parte do Grande Rito, é o final do ritual de Bealtaine; mas se for para o Guardião da Casa ser homenageado, este ritual é feito de forma muito adequada enquanto o resto do coven estiver relaxando. O ritual do Guardião é naturalmente realizado pelo casal, ou pessoa, em cuja casa o Sabá estiver sendo realizado – que podem ou não ser a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote. Se for uma pessoa só, seu ou sua parceiro(a) de trabalho poderá lhe assistir; caso ele ou ela não tenha parceiro, a Suma Sacerdotiza ou o Sumo Sacerdote poderá fazer este papel.


(3) Esta (o único item substancial no ritual de Bealtaine do Livro das Sombras) é uma versão levemente modificada do verso 5 do poema de Rudyard Kipling Uma Canção da Árvore, da estória “Espada de Weland” em Puck of Pook’s Hill. Este é um dos mais felizes empréstimos de Gerald Gardner, e estamos seguros que a variação de Kipling não importa.
O casal se aproxima da vela do Leste, enquanto o resto do coven se mantém sentado mas voltam suas faces para o Leste acompanhando-os.

Uma pessoa do casal acende a tocha (? / vela ?) em frente ao Guardião, enquanto o outro diz:



“Guardião desta Casa, vigiai-a durante o ano por vir, até que novamente o fogo de Bel seja extinto e reacendido. Abençoe esta casa, e seja abençoado por ela; permiti que todos os que vivem aqui, e todos os amigos que aqui são bemvindos, prosperem sob este teto. Que assim seja!”

Todos dizem:



“Que assim seja!”

O casal se reune ao coven.


Bealtaine e Samhain são ‘Noites das Travessuras’ tradicionais – que Doreen Valiente denominou “os tempos de intervalos, quando o ano estava oscilando sobre suas juntas, as portas do Outro Mundo estavam abertas, e qualquer coisa poderia acontecer”. Então quando tudo estiver feito, o Grande Rito celebrado, e o vinho e as nozes partilhados, esta é a noite para os castigos (nesse contexto, ‘castiguinhos’ conforme o tipo de brincadeira – N.do T.). Ao impor pequenas tarefas ou ordálias bizarras, a criatividade da Suma Sacerdotiza poderá sair de controle – sempre sendo lembrado, naturalmente, que é privilégio do Sumo Sacerdote planejar uma punição para ela.
Um comentário final; se voces estiverem realizando seu festival de Bealtaine ao ar livre, o fogo de Bel que é aceso deve ser uma fogueira. Este deve ser deixado pronto com um [tipo de] acendimento que pegue rápido. Mas o velho fogo de Bel que a Suma Sacerdotiza apaga deve ser uma vela, protegida se necessário dentro de uma lanterna. Isso não seria praticável, à menos que o Sabá fosse um acontecimento em larga escala, apagar uma fogueira no meio do ritual.

Caso voces morem em uma área onde a atividade da feitiçaria é conhecida e respeitada – ou pelo menos tolerada – e possam fazer uso de um topo de colina, o súbito esplendor de um fogo de Bealtaine na escuridão poderá estimular algumas memórias folclóricas (atavismos_?) interessantes.

Mas se voce acender de fato uma fogueira – nesta ou em qualquer outra ocasião, tenha um extintor de incêncio ao alcance da mão em caso de emergência. Feiticeiras que provocam incêndios em matas ou florestas perderão rápidamente qualquer respeito que tenham conquistado no local; e muito certamente seu direito também.
VII Meio do Verão, 22 de Junho
A significação do Deus-Sol do Sabá do Meio do Verão é, literalmente, tão clara quanto o dia. No Solstício de Verão, ele está em sua forma mais alta e mais brilhante, e seu dia está na sua mais longa extensão. As feiticeiras, naturalmente e corretamente, saúdam-no e honram-no no pico de seu ciclo anual, invocando-o para “pôr para longe os poderes da escuridão” e para trazer fertilidade para a terra. O Meio do Verão é talvez o mais celebrado de todos os Festivais, no sentido de que ele regozija na total efusão da abundância do ano, o apogeu da luz e calor.

Mas o ciclo do Sabá, mesmo nas alturas de sua alegria, sempre leva em conta o que se encontra por trás e à frente. Como os antigos gregos declaravam: “Panta rhei, ouden menei” (1) – “Tudo flui, nada é estático”. A vida é um processo, não um estado; e os Sabás das feiticeiras são essencialmente um meio de se colocar em sintonia com aquele processo.


(1)  Heráclito, c.513AC.
Assim no Meio do Verão, o aspecto do ‘processo’ é refletido no outro tema de Deus – aquele do Deus do Carvalho e do Rei do Holly. No Meio do Verão, o Rei do Carvalho, Deus do Ano Crescente, é derrubado pelo Rei do Holly, seu gêmeo, o Deus do Ano Minguante, porque o irradiante pico do verão é também, por sua verdadeira natureza, o início do reinado do Rei do Holly, com sua inexorável progressão rumo ao nadir escuro do meio do inverno, quando ele por sua vez morrerá nas mãos do ressucitado Rei do Carvalho.

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ERRATA : Holly é o nome de uma planta. Assim, deste ponto para trás, onde estiver “Santo Rei” leia-se “Rei do Holly (a planta)”. N.do T.

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A morte do Rei do Carvalho no meio do verão tem tomado muitas formas na mitologia. Ele foi queimado vivo, ou cegado com uma estaca de mistletoe (um tipo de planta), ou crucificado numa cruz em T; e nos tempos antigos o ator humano representando o Rei do Carvalho era assim sacrificado de verdade. Sua morte era seguida de uma vigília de sete dias. Mas o próprio Rei do Carvalho, como Deus do Ano Crescente, retirou para as estrelas circumpolares, a Corona Borealis, a Caer Arianrhod celta – aquela roda giratória dos céus que os antigos egípcios chamavam ikhem-sek, ‘não-conhecendo-destruição’, porque suas estrelas nunca desapareciam abaixo do horizonte mesmo no meio do inverno. Aqui ele aguardava seu renascimento igualmente inevitável.

Robert Graves sugere que a estória bíblica de Sansão (um herói folclórico do tipo Rei do Carvalho) reflete este padrão; após ser destituído de seus poderes, ele é cegado e enviado para trabalhar em um moinho giratório. (Alguém poderia também sugerir que Dalila, que preside sobre sua queda, representa a Deusa como Morte-em-Vida e que, ao rebaixá-la à vilã, o patriarcalismo hebreu esqueceu ou suprimiu a sequela – de que no devido curso, como Vida-em-Morte, ela seria destinada à presidir sobre sua restauração).

Graves salienta, mais ainda, que “uma vez que na prática medieval São João Batista, que perdeu sua cabeça no Dia de São João” (24 de Junho), “encampou o título e os costumes do Rei do Carvalho, era natural deixar Jesus, como o piedoso sucessor de João, encampar o Rei do Holly . . . ‘Dentre todas as árvores que estão na floresta, a holly porta a coroa’. . . A identificação do pacífico Jesus com o holly ou o holly-carvalho deve ser lamentada como poéticamente inepta, exceto na extensão em que ele declarou que ele viera para trazer não a paz mas a espada”. (A Deusa Branca, págs.180-181).

Qualquer ritual significativo de Sabá de Meio de Verão deve abraçar ambos os temas-de-Deus, pois os solstícios são pontos importantes a respeito deles. Mas e sobre a Deusa ? Qual é o seu papel no drama do Meio do Verão ?

A Deusa, como temos ressaltado, não é parecida ao Deus no sentido em que ela nunca está sujeita à morte e ressurreição. De fato, ela nunca muda – ela meramente apresenta faces diferentes. No solstício de Inverno ela apresenta seu aspecto Vida-em-Morte; embora seu corpo-Terra pareça frio e estático, ainda assim ela concede o nascimento ao novo Deus-Sol e preside sobre a substituição do Rei do Holly pelo Rei do Carvalho com sua promessa de vida renovada. No solstício de verão ela apresenta o seu aspecto Morte-em-Vida; seu corpo-Terra é exuberantemente fecundo e sensual, saudando sua consorte do Deus-Sol no zênite de seus poderes – ainda assim ela sabe que este é um zênite transitório, e ao mesmo tempo ela preside sobre a morte do Rei do Carvalho e o entronamento de seu gêmeo obscuro (porém necessário, e portanto não malévolo). No Meio do Verão a Deusa dança a sua magnífica Dança da Vida; mas mesmo enquanto ela dança, ela sussurra para nós : “Panta rhei, ouden menei”.

O Meio do Verão é tanto um festival de fogo quanto um festival de água, sendo o fogo o aspecto-Deus e a água o aspecto-Deusa, tal como o ritual deve esclarecer. O Meio do Verão é também algumas vezes chamado Beltane, porque fogueiras são acesas como ocorre na Véspera de Maio; tem sido sugerido que São Patrício foi amplamente responsável por isto na Irlanda, porque ele trocou a ‘noite da fogueira’ da Irlanda para a Véspera de São João a fim de diminuir a importância das implicações pagãs da Véspera de Maio (2). Ele pode deveras ter trocado a ênfase, mas ele dificilmente poderia ter alterado o nome, porque Bealtaine significa Maio em irlandês; o uso do nome para Meio do Verão pode ter surgido apenas em países de língua não-gaélica (?).


(2) Através da maior parte da Irlanda, a noite para a fogueira comunal do Meio de Verão é 23 de Junho, a véspera do Dia de São João. Porém em alguns lugares ela é tradicionalmente em 28 de Junho, a véspera do Dia de São Pedro e São Paulo, algumas vezes conhecido como ‘Noite da Pequena Fogueira’. Nós não conseguimos encontrar a razão para esta curiosa diferença, mas possivelmente isso teria algo a ver com o antigo calendário Juliano. Em 1582 o Papa Gregório XIII varreu dez dias para tornar o calendário astronômicamente correto, e é o calendário Gregoriano que o mundo ainda utiliza hoje. (Ele não foi adotado pela Inglaterra, Escócia e Gales até 1752 – em cuja ocasião onze dias tiveram que ser retirados – e foi generalizado na Irlanda por volta de 1782). Mas é notório que em muitas partes da Europa antigos costumes populares que escaparam do encampamento oficial do cristianismo tendem à se fixar no antigo calendário (vide, por exemplo, a página 124 – do original). [A véspera de] São Pedro e São Paulo está mais próxima do Solstício do Meio do Verão do que [a véspera de] São João se a reforma Gregoriana for ignorada. Assim talvez um costume pagão arraigado, que em alguns lugares ignorava aquela reforma, estava lá meramente apegado ao dia de santo importante mais próximo para torná-lo tão respeitável quanto se pudesse conseguir.
De qualquer forma, o Meio do Verão era um importante festival do fogo através da Europa, e mesmo entre os àrabes e Berbers (membros de certa tribo muçulmana – N.do T.) do norte da África; ela era menor, e teve um desenvolvimento tardio nos países celtas, porque eles não eram originalmente ou naturalmente de orientação solar. Muitos dos costumes sobreviveram nos tempos modernos e muitas vezes envolvem o giro, ou rolamento morro a baixo, de uma roda flamejante como um símbolo solar. Como em Bealtaine e Samhain (deveras, em todo Festival) a própria fogueira tem sido sempre considerada como possuindo grande poder mágico. Nós já mencionamos (em Bealtaine) o costume de saltar a fogueira e conduzir o gado entre estas. As cinzas da fogueira eram também espargidas sobre os campos. Na Irlanda um torrão de terra queimada da fogueira da Véspera de São João era um encantamento de proteção. Em países que cultivam flax (tipo de planta) acreditava-se que a altura alcançada ao se pular a fogueira seria uma previsão da altura que seria alcançada pelo flax em seu crescimento. Os marroquinos esfregavam uma pasta feita com as cinzas em seus cabelos para evitar a calvície. Outro costume propagado através da Europa era o de fortalecer os olhos ao se olhar o fogo através de feixes de larkspur (uma planta) ou outras flores seguras na mão.

O capítulo LXII do Ramo Dourado de Frazer é uma mina de informações sobre as tradições do festival do fogo.

Para as feiticeiras modernas, o fogo é uma característica central do Sabá do Meio de Verão tal como é o de Bealtaine. Porém uma vez que o caldeirão (que na Véspera de Maio contém o fogo de Bealtaine) é utilizado no Meio do Verão para a água com a qual a Suma Sacerdotiza asperge o seu coven – e é referido como ‘o caldeirão de Cerridwen’, reafirmando seu simbolismo de Deusa – nós acessamos outra tradição de longa existência ao sugerir fogueiras gêmeas para o rito do Meio do Verão (ou velas gêmeas como seu equivalente caso o festival seja dentro de um recinto). Mágicamente, passar entre elas é considerado como o mesmo que passar sobre uma única fogueira e, se voce estiver conduzindo gado através destas como um encantamento para uma boa produção de leite, isso é óbviamente mais prático !

Dentre todos os Sabás, o Meio de Verão em climas temperados é aquele [mais adequado] para se realizar ao ar livre caso as instalações e a privacidade o permitirem; para a observância da tradição de se estar vestido de céu, ele e o Lughnasadh podem ser comprovados como sendo únicos. Mas tal como em relação aos outros Sabás, nós descrevemos o nosso ritual como [apropriado] para celebração dentro de recinto – apenas porque a adaptação de um ‘script’de uso interno para uso ao ar livre á mais fácil do que fazer do outro modo.


Páginas com fotografias- (do original, na sequência) :

  1. O altar

  2. (verso da página) O Ritual de Abertura : Consagrando a Água e o Sal

3. (verso da página, à direita) Consagrando os bolos

4. O Grande Rito : “Ajudai-me à erguer o antigo altar”

5. Imbolg : A Deusa Tríplice – Donzela, Mãe e Anciã

6. Imbolg : O Leito de Brigid

7. Bealtaine : “Reacenda o fogo de Bel!”

8. Bealtaine : Renascimento do Rei do Carvalho

9. (Confronto _?) Meio do Verão : O Rei do Carvalho foi derrotado pelo Rei do Holly, e a Deusa realiza sua Dança do Meio do Verão ao Sol

10. A Vara e o Chicote seguros na ‘Posição de Osiris’


Em se falando de vestir-se de céu – uma tradição do Meio de Verão pode ser de interesse para qualquer mulher que esteja ansiosa para conceber e que possua um canteiro de vegetais. Ela deve passar pelo meio deste estando despida na Véspera do Meio do Verão e também apanhar um pouco de Erva de São João (?), caso haja disponível. (Caso o seu canteiro de vegetais seja de alguma forma semelhante ao nosso, sapatos poderiam ser considerados como uma variação permissível da nudez!) Esta é uma intrigante imagem-reflexo do antigo e difundido rito da fertilidade no qual as mulheres caminhavam nuas em meio aos campos para assegurar uma colheita abundante, muitas vezes enfatizando sua magia simpática (no sentido de sintonizar energias análogas – N.do T.) ao ‘montar’ (um discreto eufemismo) ‘vassouras’ fálicas. (Vide pág.86 a respeito de uma sobrevivência disto no século XX).

A Preparação
O caldeirão é colocado diretamente em frente ao altar, com um pouco de água dentro dele e decorado com flores. Um ramo de heather é posicionado ao lado deste, pronto para a Suma Sacerdotiza aspergir água com o mesmo. (À parte deste ramo, heather é uma boa planta, simbólicamente, para decorações do Círculo nesta noite; heather vermelha é a flor apaixonada do Meio de Verão, e heather branca representa a influência moderadora – a vontade controlando ou direcionando a paixão).

Duas coroas, uma de folhas de carvalho e uma de folhas de holly, são confeccionadas e posicionadas ao lado do altar. O Sumo Sacerdote (que representa o Deus Sol) também deve ser coroado, mas do início do ritual; sua coroa deve ter coloração dourada, e ele pode adicionar quaisquer outros acessórios ou ornamentos que acentuem o simbolismo solar.

A Suma Sacerdotiza e a Donzela podem portar coroas feitas de flores de verão.

As duas velas do altar, em seus suportes, podem ser usadas no momento apropriado como as ‘fogueiras’; ou duas outras velas em suportes podem ser mantidas à disposição. Ao ar livre, naturalmente, duas pequenas fogueiras serão deixadas preparadas para um rápido acendimento – uma à meio caminho entre o centro do Círculo e a vela do Leste, outra à meio caminho entre o centro e a vela do Oeste. (O Círculo ao ar livre será, naturalmente, muito maior, deixando espaço para a dança entre e ao redor das fogueiras).

Um cachecol de cor escura é deixado próximo ao altar, pronto para uso como uma venda.

Alguns canudos são deixados sobre o altar – tantos quanto for o número de homens no Sabá, exceto para o Sumo Sacerdote. Um deles é maior do que o resto, e outro mais curto. (Se a Suma Sacerdotiza, por seus próprios motivos, decidir nomear os dois Reis ao invés de sorteá-los, os canudos naturalmente não serão necessários).


O Ritual
Após a Runa das Feiticeiras, a Donzela recolhe os canudos do altar e os segura em sua mão de forma que todas as extremidades se projetem separadamente, mas ninguém pode ver quais são o maior e o menor. A Suma Sacerdotiza diz :

Que os homens façam o sorteio”.

Cada homem (exceto o Sumo Sacerdote) puxa um canudo da mão da Donzela e o mostra para a Suma Sacerdotiza. A Suma Sacerdotiza aponta para o homem que tirou o canudo maior e diz :



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