A bíblia da feitiçaria o manual Completo dos Feiticeiros Janet e Stewart Farrar



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“A Lança para o Caldeirão, a Lança para o Graal, o Espírito para a Carne, o Homem para a Mulher, o Sol para a Terra”.


O Sumo Sacerdote deposita a vara e o chicote sobre o altar e se une ao resto do coven. A Suma Sacerdotiza pega o ramo de heather (um tipo de planta) e fica de pé próximo ao caldeirão. Ela diz :

“Dançai vós perante o Caldeirão de Cerridwen, a Deusa, e sejais vós abençoados com o toque desta água consagrada; ao mesmo tempo que o Sol, o Senhor da Vida, se ergue em sua força no sinal das Águas da Vida!”

O coven, conduzido pelo Sumo Sacerdote, começa à se mover deosil ao redor do Círculo, fora das duas velas. Assim que cada pessoa passa por ela, a Suma Sacerdotiza o(a) asperge com água com o seu ramo de heather. Quando ela tiver aspergido a todos, ela se une ao círculo de pessoas em movimento.

A Suma Sacerdotiza então ordena que todos– a sós ou em dupla à cada vez – passem entre as velas de meio do verão e que façam um desejo enquanto passam. Quando todos tiverem passado, a Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote passam juntos entre as velas. Então eles se viram para trás e pegam as duas velas e as devolvem ao altar a fim de deixar espaço livre para a dança.

A Suma Sacerdotiza e o Sumo Sacerdote então conduzem o coven em uma dança espontânea e alegre, até que a Suma Sacerdotiza decida que está na hora da etapa festiva do Sabá.
VIII Lughnasadh, 31 de Julho
Lughnasadh (pronunciado ‘loo-nus-uh’) significa ‘a comemoração de Lugh’. Em sua pronúncia simplificada, Lúnasa, isto é irlandês gaélico para o mês de Agosto. Como Lunasda ou Lunasdal (‘loo-nus-duh’, ‘-dul’), isto é escocês gaélico para Lammas, 1o de Agosto; e o equivalente Manx é Laa Luanys ou Laa Lunys. Na Escócia, o período de uma quinzena antes de Lunasda até uma quinzena depois é conhecido como Iuchar, enquanto que na Península Dingle (?) de County Kerry a segunda quinzena é conhecida como An Lughna Dubh (o festival de Lugh obscuro) – sugerindo “que eles são ecos de um cálculo lunar através do qual Lughnasa teria sido celebrado em conjunção com uma fase da lua”. (Máire MacNeill, O Festival de Lughnasa, pág.16).

Através das Ilhas Britânicas (não apenas na ‘orla Celta’ mas também em lugares tais como County Durham e Yorkshire), os costumes populares de Lughnasadh se anexaram quase inteiramente ao Domingo anterior ou Domingo posterior ao 1o de Agosto – não meramente através da cristianização mas porque eles envolviam grandes ajuntamentos de pessoas, muitas vezes em montanhas ou grandes colinas, o que era possível apenas nos dias de lazer que a cristandade tinha convenientemente providenciado.

Do que sobreviveu de Lughnasadh nestas ilhas, a Irlanda oferece uma verdadeira mina de ouro, parcialmente porque, como já destacamos, na Irlanda a cultura rural tem sido muito menos deteriorada pela cultura urbana do que em qualquer outra parte, mas também por outra razão histórica. Durante os séculos quando a religião católica era proscrita ou perseguida, o campesinato irlandês, privado de seus templos de adoração, agarrou-se o mais fervorosamente possível aos lugares sagrados em céu aberto, que era tudo o que lhe foi deixado. Assim, atendendo à um apelo muito mais antigo que o cristianismo, os sacerdotes e as pessoas escalaram juntos as sagradas alturas ou buscaram os poços mágicos, para marcar aqueles pontos de mutação no ano da Mãe Terra que eram importante para eles por demais para não serem reconhecidos meramente porque suas igrejas não tinham teto ou eram requeridas por um credo forasteiro. Em altitudes tais como em Croagh Patrick eles ainda praticam.

O livro de Máire MacNeill, citado acima, reune uma surpreendente riqueza destes sobreviventes – setecentas páginas de costumes, folclore e lendas de raiz que não se deveria deixar faltar por qualquer estudante sério dos Oito Festivais.

Quem foi Lugh? Ele foi um deus de fogo e luz do tipo Baal/Hércules; seu nome pode ser originário da mesma raiz do latim para lux, significando luz (o que também nos oferece Lucifer, ‘o portador da luz’). Ele é realmente o mesmo deus que Baal/Beli/Balor, porém uma versão porterior e mais sofisticada sobre ele. Em mitologia, a substituição histórica de um deus por uma forma posterior (seguindo-se à invasão, por exemplo, ou um avanço revolucionário na tecnologia) é muitas vezes relembrado como a matança, cegueira ou castração do mais velho por parte do mais novo, ao passo que a continuidade essencial é reconhecida ao transformar o mais novo no filho ou neto do mais velho. (Se a divindade substituída for uma deusa, ela muitas vezes ressurge como a esposa do recém-chegado). Portanto Lugh, na lenda irlandesa, foi o líder dos Tuatha Dé Danann (‘os povos da Deusa Dana’), os últimos mas não únicos (?) conquistadores da Irlanda no ciclo mitológico, enquanto que Balor era rei dos Fomors, aos quais os Tuatha Dé derrotaram; e na batalha Lugh cegou Balor. Ainda de acordo com a maioria das versões, Balor era seu avô, e Dana/Danu era a esposa de Balor. (Neste caso, o casamento rebaixou (?) Balor, não Dana).

Outras versões fazem de Lugh o filho de Balor. O folclore da nossa própria ilha [também_?] o faz, aparentemente; como Máire MacNeill (ibid., pág.408) registra : “De Ballycroy em Mayo vem um dizer proverbial em tempestades (no original consta como thunder-storms literalmente – N.do T.) :



‘Tá gaoth Lugha Lámhfhada ag eiteall anocht san era.’

‘Seadh, agus drithleógai a athar. Balor Béimeann an t-athair.’

(O vento do Longo-braço de Lugh está voando no ar hoje à noite.’

‘Sim, e as centelhas de seu pai, Balor Béimann.’)”
Lugh, então, é Balor em toda parte novamente – e certamente associado à uma revolução tecnológica. Na lenda da vitória dos Tuatha Dé, Lugh poupa a vida de Bres, um líder inimigo capturado, em troca de conselhos sobre aragem, plantio e colheita. “A história certamente contém um mito de colheita no qual o segredo da prosperidade agrícola é arrancado de um deus poderoso e relutante por Lugh” (Macneill, ibid., pág.5).

A inteligência superior e a versatilidade de Lugh são indicadas por seus títulos Lugh Lámhfhada (pronunciado ‘loo law-vawda’) e Samhioldánach (‘sawvil-dawnoch’, com o ‘ch’ como em ‘loch’), “igualmente habilidoso em todas as artes”. Seu equivalente galês (neto de Beli e Don) é Llew Llaw Gyffes, variadamente traduzido como “o leão com a mão firme” (Graves) e “o luminoso com a mão hábil” (Gantz).

Significativamente, Lugh é muitas vezes a divindade padroeira de uma cidade, tal como Carlisle (Luguvalium), Lyon na França, Leyden na Holanda e Legnica (Alemão, Liegnitz) na Polônia. As cidades eram desconhecidas dos primeiros celtas; suas primeiras cidades (Continentais) eram para conveniência comercial em negócios com as civilizações mediterrâneas, das quais elas as copiaram; para fortalezas [para] exigir tributos das rotas de comércio; ou mais tarde, como resultado da absorção do Celta Galês nos padrões do Império Romano. Sobre os Celtas Bretões, um escritor tão recente quanto Strabo (Estrabão_?) (55 AC – 25 DC) poderia ainda dizer: “Suas cidades são as florestas. Eles cercam uma grande área de árvores derrubadas e erguem cabanas para abrigar a si mesmos e seus animais, nunca com a intenção de permanecer muito tempo nestes lugares”. Então na época em que os celtas começaram a nomear cidades, Balor foi sobrepujado por Lugh – à parte do fato que uma grande proporção da população daquelas cidades seria composta por artesãos, naturalmente devotos à Lugh Samhioldánach.

Falando de conquistas – elas ocorreram naturalmente com a chegada do cristianismo, também. Um exemplo fundamental é São Miguel, que era uma forma posterior do Lúcifer que ele ‘derrotou’. T.C.Lethbridge, em Feiticeiras: Investigando uma Antiga Religião, mostrou como muitas igrejas paroquiais de São Miguel coincidem com locais onde Lugh, o Lúcifer Celta ou ‘portador da luz’, teria sido cultuado (igrejas pré-Reforma, isto é; construtores de igrejas pós-Reforma parecem Ter perdido todo o senso de magia dos locais). (1) E Miguel, na tradição mágica, rege o elemento fogo.


(1) Sobre todo o assunto pertinente à magia dos lugares, não apenas locais de culto mas também (por exemplo) sobre tais coisas como fogos de Bealtaine, a obra de Tom Graves Agulhas de Pedra é práticamente leitura essencial para feiticeiras que desejam não meramente sentir mas compreender e experimentar construtivamente o seu relacionamento com a Terra como um organismo vivo.
Que Lugh também é um tipo do deus que se submete à morte e ressurreição em um casamento sacrificial com a Deusa, isso é mais claramente percebido na lenda da sua manifestação gaulesa (?), Llew Llaw Gyffes. Esta estória aparece como parte de O Romance de Math o Filho de Mathonwy no Mabinogion; Graves oferece a tradução de Lady Charlotte Guest sobre este texto em A Deusa Branca.

Graves também declara (ibid., pág.178): “A forma anglo-saxônica da Lughomass, missa em honra do Deus Lugh ou Llew, era hlaf-mass, ‘missa do pão’, com referência à colheita de milho e ao assassinato do Rei do Milho.” Os Tailltean Games, realizados na Irlanda em Lughnasadh, eram origináriamente jogos funerários, tradicionalmente em honra de Tailte falecida mãe de criação de Lugh; mas como Graves ressalta (pág.302), esta tradição “é mais recente e corrompida”. Os jogos da vigília eram claramente para honrar o próprio Lugh sacrificado. E à menos que se compreenda o significado do tema casamento sacrificial, se poderia ficar confuso com a aparente contradição que uma antiga tradição irlandesa também se refere aos feitos das núpcias (?) de Lugh em Tailtiu; de certa forma, isto é também um obscurecimento de uma estória semi recordada, pois aquele que se casa com a Deusa na colheira já é o seu consorte do Ano Minguante. Como Máire MacNeill corretamente declara (ibid., pág.424): “Lughnasa, eu sugeriria, era um episódio no ciclo de uma estória de casamento divino mas não necessáriamente a [ocasião_?) nupcial.”

Então em Lughnasadh nós temos o paralelo de outono para o casamento sacrificial em Bealtaine com o Deus do Ano Crescente. À nível humano, é interessante que os ‘casamentos nas florestas verdes’ de Bealtaine’ foram comparados aos ‘casamentos de Teltown’ (i.e., Tailltean) em Lughnasadh, casamentos experimentais que poderiam ser dissolvidos após um ano e um dia pelo casal retornando ao local onde a união foi celebrada e partindo em direções opostas um ao outro para o Norte e o Sul. (o handfasting [união de um casal_?] Wicca tem a mesma provisão: o casal pode dissolver a união após um ano e um dia retornando à Suma Sacerdotiza que os uniu e informando-a). Teltown (Tailteann no irlandês moderno, Tailtiu no irlandês antigo) é uma vila em County Meath, onde a tradição relembra um ‘Morrinho do Dote da Noiva [?]” e um ‘Casamento Vazio’. A Feira de Tailltean parece ter se tornado nos séculos mais recentes um mero mercado de casamento, com garotos e garotas mantidos separados até que os contratos fossem assinados; porém sua origem deve ter sido muito diferente.

Ela deriva, de fato, do óenach, ou reunião tribal, dos tempos pagãos – da qual o óenach de Tailtiu era a mais importante, sendo associada com o Grande Rei, cujo assento real de Tara dista apenas 15 milhas. (MacNeill, ibid.,págs.311-338). Essas reuniões eram uma mistura de assuntos tribais, corrida de cavalos, competições atléticas e ritual para assegurar boa sorte; e Lughnasadh era uma ocasião favorita para esses eventos. O óenach Leinster de Carman, a deusa de Wexford (MacNeill, ibid. págs.339-344), por exemplo, era mantida às margens do Rio Barrow durante a semana que começava com a celebração de Lughnasadh, para garantir à tribo “milho e leite, mast (vara de pesca_?) e peixe, e para ficar livre da agressão de qualquer forasteiro”. (Gearóid Mac Niocaill, A Irlanda Antes dos Vikings, pág.49) “Tais tradições profundamente enraizadas não poderiam ser descartadas e tiveram necessáriamente que ser toleradas e cristianizadas o máximo possível. Portanto em 784 o óenach de Teltown (Tailtiu) foi santificado pelas relíquias de Erc of Slane”. Mac Niocaill também diz (pág.25) que Columcille – melhor conhecido fora da Irlanda como São Columba é acreditado por ter conquistado Lughnasadh “convertendo-a em uma ‘Festa dos Lavradores’, não aparentemente com qualquer grande sucesso”.

O comportamento ritual do Rei, como a personificação sagrada da tribo, era particularmente importante. Em Lughnasadh, por exemplo, a dieta do Rei de Tara tinha que incluir peixe provindo do Boyne, carne de caça de Luibnech, bilberries (?) de Brí Léith próximo de Ardagh, e outros ítens obrigatórios (Mac Niocaill, pág.47). (Os bilberries são significativos; vide abaixo).

Uma lista formidável dos tabus que cercam o Rei Sagrado Romano, o Flamen Dialis, é dada por Frazer (O Ramo Dourado, pág.230). Graves (A Deusa Branca, pág.130) salienta o que Frazer omite – que o Flamen, uma figura do tipo Hércules, devia sua posição ao seu casamento sagrado com a Flamenica; ele não poderia se divorciar dela, e se ela morresse, ele deveria renunciar. É o papel do Rei Sagrado curvar-se ante a Rainha-Deusa.

Isso nos faz retornar diretamente à Lughnasadh, ao que Graves segue: “Na Irlanda este Hércules era chamado Cenn Cruaich, ‘o Senhor do Monte’, mas após sua sucessão por um rei sagrado mais benigno era lembrado como Cromm Cruaich (‘O Inclinado do Monte’)”.

Crom Cruaich (a pronúncia moderna comum), também chamado Crom Dubh (‘O Inclinado Negro’), era um deus sacrificial particularmente associado com Lughnasadh; o último domingo em Julho é ainda conhecido como Domhnach Chrom Dubh (‘o Domingo de Crom Dubh’) muito embora ele tenha sido cristianizado. Naquele dia em todo ano, milhares de peregrinos escalam a montanha sagrada da Irlanda, cujo cume pode ser visto através da nossa janela [do quarto] de estudo (?) – o Croagh Patrick de 2.510 pés (Cruach Phádraig) em County Mayo, onde se diz que São Patrício jejuou por quarenta dias e derrotou uma hoste de demônios. (2) A observância costumava ser de três dias, começando em Aoine Chrom Dubh, a sexta feira precedente. Esta ainda é a mais espetacular peregrinação da Irlanda.


(2) Enquanto estávamos escrevendo isso, o mais respeitado jornal da Irlanda até mesmo sugeriu que Domhnach Chrom Dubh deveria substituir o 17 de Março (o atual Dia de São Patrício) como a data nacional da Irlanda. O Dia de São Patrício de 1979 foi celebrado em meio à uma nevasca; nós assistimos a parada de Dublin e nos sentimos profundamente tristes pelos majorettes (?) molhados e gelados, vestidos com pouco mais que túnicas trançadas e sorrisos corajosos. Dois dias depois, o The Irish Times, com uma manchete entitulada “Por que 17 de Março?”, perguntava: “Não seria melhor para todos se o feriado nacional fosse celebrado quando o nosso clima é mais ameno? Existe um dia que é, se não históricamente, ao menos no sentido lendário, apropriado e do ponto de vista climático mais aceitável. Este é o último domingo de Julho, Garland Sunday ou Domhnach Chrom Dubh”. Citando a obra de Máire MacNeill O Festival de Lughnasa para sustentar este argumento, ele terminava: “Se qualquer interesse, portanto, quiser patrocinar outra data, e uma válida, para recordar nosso Santo, os arquivos folclóricos oferecem uma pronta resposta.” A dádiva da Irlanda para a continuidade pagã-cristã é claramente indestrutível; somos tentados à nos perguntar se, nesta época de mudança religiosa, isto funcionará em ambos os modos !
O sacrifício do próprio Crom parece ter sido encenado em tempos muito antigos através do sacrifício de substitutos humanos em uma pedra fálica rodeada por doze outras pedras (o número tradicional de companheiros do rei-herói sacrificial). O Livro de Leinster do décimo-primeiro século diz, com desagrado cristão:

“Em uma fileira se erguem

Doze ídolos de pedra;

Amargamente para encantar o povo

A figura de Crom era de ouro”.

Isso era em Magh Sléacht (‘O Plano de Adoração’), geralmente considerado como sendo à volta de Killycluggin em Country Cavan, onde existe um círculo de pedras e os restos fragmentados de uma pedra fálica esculpida com decorações da Idade do Ferro – para manter a tradição de que São Patrício derrubou a pedra de Crom.

Mais tarde parece que o sacrifício teria sido o de um touro, sobre o que existem muitas pistas, embora apenas uma possa ser específicamente relacionada à Crom Dubh. Isto provém da costa norte da Baía de Galway. “Ela fala da tradição de um animal [do qual a carne servia de alimento] que teve sua pele retirada e que foi tostado até as cinzas em honra de Crom Dubh em seu dia de celebração, e que isso teve que ser feito por todos os chefes de família”. (MacNeill, idib, pág.407) Muitas lendas falam da morte e ressurreição de um touro sagrado (ibid, pág.410). E, aceitando que Croagh Patrick deve ter sido uma montanha sacrificial, muito antes de São Patríco a ter conquistado, não podemos evitar de cogitar se existe significado no fato que Westport, a cidade que domina suas abordagens, tem por seu nome gaélico Cathair na Mart, ‘Cidade dos Bifes’.

Mas subjazendo à todas as lendas que temos mencionado até então existe um tema de fertilidade mais antigo, que brilha através de muitos dos costumes de festivais ainda lembrados. Balor, Bres e Crom Dubh são todos formas do Deus Mais Antigo, à quem pertence o poder para produzir. Juntamente vem seu filho/outro self (alter ego ?), o brilhante Deus Jovem, Horus para seu Osíris – o Lugh com vários talentos, que arranca dele à força os frutos daquele poder. Mesmo a lenda colorida de São Patrício ecoa esta vitória. “São Patrício deve ser um personagem tardio nas lendas mitológicas e deve ter substítudo um ator anterior. Se restaurarmos Lugh ao papel tomado por São Patrício, as lendas imediatamente vão adquirir um novo significado”. (MacNeill, ibid, pág.409).

Nas lendas de sua fertilidade-vitória (e também sem dúvida, como Máire MacNeill ressalta, uma vez no ritual encenado de Lughnasadh), Crom Dubh é muitas vezes enterrado até o pescoço no solo por três dias e então liberado uma vez que os frutos da colheita tenham sido garantidos.

Um sinal do sucesso do rito é dado através – dentre todas as coisas – do humilde bilberry (whortle-berry, blaeberry). Domhnach Chrom Dubh tem outros nomes (incluindo Domingo das Coroas de Flores_? e Domingo do Alho), e um deles é Domingo de Fraughan, do gaélico fraochán ou fraochóg para o bilberry. Naquele dia ainda, os jovens vão colher bilberries, com várias festividades tradicionais, embora infelizmente o costume pareça estar desaparecendo. As formas da tradição tornam muito claro que os bilberries eram considerados como uma dádiva recíproca do Deus, um sinal de que o ritual de Lughnasadh foi bem sucedido; sua profusão ou o contrário disso era tomado como uma previsão sobre as proporções da colheita. O fato de que os dois rituais são complementares ainda subjaz em nossa localidade pelo fato que, enquanto os adultos escalam o Croagh Patrick no Domhnach Chrom Dubh, as crianças estão escalando as montanhas da península Curraun, logo ao se cruzar a baía, para colher bilberries.

Um outro sítio de Fraughan Sunday é Carrigroe próximo à Ferns em Country Wexford, uma montanha de 771 pés de altura ao lado da qual se localizava nossa primeira casa irlandesa. Com memória viva, grandes agrupamentos de pessoas costumavam se reunir lá para colher flores, que seriam colocadas na Cama do Gigante, uma plataforma na rocha que forma o cume. (Nossa Ilustração 11 foi fotografada naquela rocha). A associação com fertilidade é específica na piada feita para nós por mais de um vizinho – que metade da população de Ferns foi concebida na Cama do Gigante; embora sem dúvida aquele ritual particular se tornou mais privativo que público!

(Incidentalmente, as memórias populares do significado mágico daquela pequena montanha estão guardadas em um ditado local não escrito, passado para nós independentemente por pelo menos dois vizinhos, sendo que ambos esclareceram que eles estavam comentando sobre nossa presença lá como feiticeiros: “Por tanto quanto o Carrigroe perdure, [sempre] haverá pessoas que sabem”. Nós certamente achamos isto mágicamente sobrecarregado).

Através da Bretanha e Irlanda, não obstante o cristianismo, os atos de amor nas florestas verdes da Véspera de Maio que tanto chocaram os Puritanos encontraram seu alegre eco não apenas entre os bilberries mas [também] nos campos de milho de Lammas (Lughnasadh); sobre cujo tema, se voces apreciam canções em seus Sabás, a obra de Robert Burns Foi em uma noite de Lammas

“Espigas (?) de milho, e ramos (?) de cevada,

E espigas de milho são boas (?);

Eu nunca esquecerei aquela noite alegre,

Entre as espigas com Annie”

- é tanto apropriada como agradável.



(N.doT.: - Esta estrofe está provávelmente em Inglês arcaico, daí as dúvidas).
As Três Machas – a Deusa Tríplice em seu aspecto de batalha – aparece como a padroeira triuna do festival de Lughnasadh, trazendo-nos de volta ao tema sacrificial. Outra indicação é que foi em Lammas que o Rei William Rufus sucumbiu devido à flecha ‘acidental’ de Sir Walter Tyrell em New Forest em 1100 – uma morte que, como Margaret Murray e outros tem convincentemente discutido, foi de fato seu sacrifício ritual voluntário ao fim de seu prazo como Rei Divino e foi assim compreendido e honrado pelo seu povo. (O verso infantil “Quem Matou Cock Robin?” é tida como comemorativo à este evento).

Mas e quanto ao tema do casamento sacrificial como um conceito único, ao invés de dois temas separados de sacrifício e sexualidade? Isso desapareceu inteiramente na tradição irlandesa ?

Não muito. Em primeiro lugar, aquela tradição tal como chegou à nós é principalmente uma tradição de Deus-e-Herói, embora com a Deusa pairando poderosamente ao fundo; e esta chegou até nós na maior parte através de monges cristãos medievais que anotaram um corpo de lenda oral (embora surpreendentemente de forma solidária) – escribas cujo condicionamento talvez tenha tornado difícil à eles reconhecer indícios da Deusa. Mas os indícios lá estão – principalmente no tema recorrente da rivalidade dos dois heróis (deuses) acerca de uma heroína (deusa). Este tema não está confinado aos celtas irlandeses; ele aparece, por exemplo, na lenda de Jack o Tinkard(?), que pode ser considerado como um Lugh Cornish (referente à língua celta – N.do T.). E significativamente – tanto com o Rei do Carvalho quanto com o Rei do Holly, estes heróis são muitas vêzes bem sucedidos opcionalmente.

E o que é o enterro de Crom Dubh até o pescoço por três dias na Mãe Terra, e sua liberação quando sua fertilidade (dela) está assegurada, senão um casamento sacrificial e um renascimento ?

Assim, em nosso próprio ritual de Lughnasadh, nós nos ativemos àquele tema. Quando nosso coven experimentou pela primeira vez a encenação da Caça-ao-Amor do Casamento Sacrificial, no Bealtaine de 1977, achamos que foi bem sucedida; ela retratou o tema vívidamente mas sem austeridade. Nós não vimos razão porque ela não poderia ser repetida, com modificações apropriadas à estação da colheita, em Lughnasadh; e eis o que fizemos.

Devido à Suma Sacerdotiza em Lughnasadh invocar a Deusa em si e detém esta invocação até após a ‘morte’ do Rei do Holly, achamos muito mais apropriado no Ritual de Abertura que o Sumo Sacerdote declare a Investidura para ela; ele cita a Deusa, ao invés da Suma Sacerdotiza falar como a Deusa.

Normalmente, nós gostamos de dar um papel ativo no ritual para tantas pessoas quanto possível; porém será notado que neste rito de Lughnasadh, os homens (à parte do Sumo Sacerdote) praticamente nada tem a fazer entre a Caça-ao-Amor e a dança circular final. Isso é para manter a tradição que rodeia a morte do Rei do Milho; em muitos lugares isso era um mistério entre as mulheres da tribo e sua solitária vítima sagrada, que à nenhum outro homem era permitido testemunhar. Em nosso Sabá, os homens podem sempre ter sua própria [vítima] de volta durante as ‘punições’ da encenação da festa ! (???)

A Declamação do Sumo Sacerdote “Eu sou uma lança empenhada em batalha...” é novamente retirada da Canção de Amergin – desta vez de acordo com a designação de Graves para a segunda metade do ano.



A Preparação

Um pãozinho é colocado sobre o altar; o mais adequado é um filão macio ou ‘bap’.

Um cachecol ou pedaço de gaze verde de pelo menos uma jarda quadrada é colocado próximo ao altar.

Se música de fita cassette for usada, a Suma Sacerdotiza poderá desejar dispor de uma parte de música para o ritual principal, mais outro de um ritmo insistente – até mesmo primitivo – para sua (dela) Dança do Milho uma vez que esta, diferentemente da Dança do Meio de Verão, não é acompanhada por canto.

O Sumo Sacerdote deve ter uma coroa de Holly combinada com espigas de uma colheita de grãos. As mulheres podem portar coroas de colheitas de grãos de milho, talvez entrelaçadas com papoulas vermelhas. Grãos, papoulas e bilberries, se disponíveis, são particularmente adequados para o altar, com outras flores sazonais.

O caldeirão, decorado com ramos de grãos , está próximo à vela do Leste, o quadrante do renascimento.



O Ritual

No ritual de abertura, a Invocação (?) da Lua é omitida. O Sumo Sacerdote aplica na Suma Sacerdotiza o Beijo Quíntuplo e então ele próprio imediatamente conduz a Investidura,substituindo “ela, dela” por “eu, mim, meu”.

Após a Runa das Feiticeiras, o coven se espalha ao redor do Círculo e inicia um bater de palmas suave, ritimado.

O Sumo Sacerdote pega o cachecol verde, segura-o em sua extensão como uma corda com uma extremidade em cada mão. Ele começa à se mover na direção da Suma Sacerdotiza, fazendo como se fosse jogar o cachecol por sobre seus ombros e puxá-la para si; mas ela vai para trás se distanciando dele, de forma provocativa.

Enquanto o coven prossegue com seu bater de palmas ritimado, a Suma Sacerdotiza continua à esquivar-se do Sumo Sacerdote perseguidor. Ela acena para ele e o provoca mas sempre caminha para trás antes que ele possa capturá-la com o cachecol. Ela se move para dentro e para fora do coven, e as outras mulheres se interpõe no caminho do Sumo Sacerdote para ajudá-la à se esquivar dele.

Após um certo tempo, digamos após duas ou três ‘voltas’ pelo Cïrculo, a Suma Sacerdotiza permite que o Sumo Sacerdote a capture jogando o cachecol por sobre sua cabeça para trás de seus ombros e puxando-a para si. Eles se beijam e se separam, e o Sumo Sacerdote passa o cachecol para outro homem.

O outro homem então persegue sua parceira, que se esquiva dele, acena para ele e o provoca exatamente da mesma forma; o bater de palmas prossegue por todo o tempo. (Vide Ilustração 12). Após um certo tempo ela, também, se permite ser capturada e beijada.

O homem então passa o cachecol para outro homem, e o jogo de perseguição continua até que todos os casais no recinto tenham tomado parte.

O último homem devolve o cachecol para o Sumo Sacerdote.

Uma vez mais o Sumo Sacerdote persegue a Suma Sacerdotiza; mas dessa vez o compasso é mais lento, quase majestosamente, e ela se esquivando e acenando mais solenemente, como se ela o estivesse tentando ao perigo; e dessa vez os outros não intervém. A perseguição continua até que a Suma Sacerdotiza se posiciona de frente ao altar e à dois ou três passos deste; o Sumo Sacerdote pára com suas costas para o altar e a captura com o cachecol.

Eles se abraçam solenemente mas sem reservas; mas após alguns segundos depois do beijo, o Sumo Sacerdote deixa o cachecol cair de suas mãos, a Suma Sacerdotiza o libera e dá um passo para trás.

O Sumo Sacerdote cai de joelhos, senta sobre seus calcanhares e abaixa sua cabeça, queixo sobre o peito.

A Suma Sacerdotiza abre seus braços, sinalizando para que cesse o bater de palmas. Ela então convoca duas mulheres pelos seus nomes e as posiciona uma em cada lado do Sumo Sacerdote, olhando para dentro, de modo que as três fiquem numa altura superior à dele. A Suma Sacerdotiza pega o cachecol, e todas as três o esticam entre si por sobre o Sumo Sacerdote. Elas o abaixam lentamente e então o soltam, de forma que cubra a cabeça dele como uma mortalha.

O coven agora se espalha ao redor do perímetro do Círculo, olhando para dentro.

A Suma Sacerdotiza pode então, se o desejar, mudar a música do cassette para seu tema de dança preferido ou sinalizar para que um outro alguém o faça.

Ela então pega o pãozinho do altar e o segura por um momento bem acima da cabeça inclinada do Sumo Sacerdote. Ela então vai para o meio do Círculo, segura o pãozinho bem ao alto na direção do altar e invoca:

Oh Mãe Poderosa de todos nós, que traz toda fartura, daí-nos frutos e grãos, rebanhos e manadas, e filhos para a tribo, que possamos ser poderosos. Pela rosa do teu amor, (3) descei vós sobre o corpo de tua serva e sacerdotiza aqui.”
(3) O Livro das Sombras diz “by thy rosy love” (pelo teu amor róseo – neste caso, auspicioso). Doreen Valiente questionava esta “frase muito sem sentido” com Gardner na ocasião, sugerindo que isto poderia ser uma corrupção de “by thy rose of love” (pela tua rosa de amor) ou “by the rose of thy love” (pela rosa do teu amor) – a rosa sendo um símbolo da Deusa tanto quanto a flor nacional da Bretanha. Nós seguimos a segunda de suas sugestões.
Após um momento de pausa, e suavemente a princípio, ela inicia sua Dança do Milho, todo o tempo carregando o pão como um objeto sagrado e mágico. (4) (Vide Ilustração 13).
(4) Como a Dança do Meio do Verão, a Dança do Milho pode ser delegada pela Suma Sacerdotiza para outra mulher se ela desejar. Nesse caso, ela entregará o pão para a dançarina após a invocação e o receberá de volta após a dança, antes de ela tomar seu lugar de frente ao Sumo Sacerdote.
Ela termina sua dança ficando de pé olhando para o Sumo Sacerdote (que ainda está imóvel e ‘morto’) com o pão entre suas mãos, e dizendo:



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