A biblioteca Desaparecida Histórias da Biblioteca de Alexandria – Luciano Canfora



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A Biblioteca Desaparecida

- Histórias da Biblioteca de Alexandria –
Luciano Canfora
Tradução: FEDERICO CAROTTI
1986
Companhia Das Letras

A grande biblioteca de Alexandria, fundada por Ptolomeu Filadelfo no início do século III a.C., é para nossa cultura mito e modelo. Foi com ela que o livro, até então mero instrumento auxiliar do ensino oral, foi promovido a objeto de autoridade e prestígio, valioso em si. Somente em Alexandria saber e livro se tornariam sinônimos.

A história da biblioteca alexandrina, que existiu por mais de mil anos, porém, é ainda hoje obscura, não por falta de dados, mas, ao contrário, pelo excesso de fontes contraditórias. Até mesmo os documentos relativos à sua destruição, que a tradição sustenta ser obra dos árabes, no século VII d.C., dão margem a dúvidas.

Mais do que uma história sistemática, A Biblioteca Desaparecida é a análise de inúmeros mistérios ligados a uma enorme coleção de livros, histórias de volumes perdidos e reencontrados, de furtos e falsificações, brigas entre bibliotecários e disputas entre colecionadores.

Através desse mosaico de acontecimentos delineia-se pouco a pouco a imagem de uma cultura que fez da conservação do passado seu principal dever e que, graças ao empenho de gerações de estudiosos, conseguiu reconstruir o pensamento de Aristóteles (que em vida publicara apenas alguns diálogos secundários); traduzir a Bíblia para o grego, divulgando-a em todo o Ocidente; preparar edições dos poetas gregos — ainda hoje a base do nosso conhecimento do mundo clássico —, mas que, em sua tentativa de unificar e tornar universalmente conhecidos todos os livros do mundo, foi constantemente frustrada pelas recorrentes destruições.

Tendo por base um sólido trabalho filológico, que lhe permite dominar um campo extremamente vasto de pesquisa, Canfora contrapõe à narração história a análise das fontes. Desse procedimento resulta um livro que é, como era costume em Alexandria, criação original e resumo de infinitos livros.




Ptolomeu Filadelfo quer reunir todos os livros do mundo; o califa Omar pretende queimá-los todos, salvo o Corão. Entre esses dois sonhos, nasceu e foi destruída a monumental biblioteca de Alexandria, cidade que por mais de mil anos serviu de capital cultural do Ocidente.

Para narrar a história dessa imensa coleção de livros, Luciano Canfora retoma uma antiga técnica dos bibliotecários de Ptolomeu: a montagem e a reescritura das fontes, fundidas numa prosa aparentemente romanceada, mas na realidade baseada, quase frase por frase, em textos antigos. A história da maior biblioteca do mundo se confunde assim com a história dos livros que acumulou e dos livros que a descreveram — como uma última crônica de um erudito bibliotecário de Alexandria.




Nunc adeamus bibliothecam, non illam quidem multis instructam libris, sed exquisitis.

Agora chegamos à biblioteca, não aquela composta de muitos livros, mas de livros escolhidos.

Erasmo


ÍNDICE
I. A tumba do faraó....................... 9

II. A biblioteca sagrada..................... 13

III. A cidade proibida....................... 17

IV. O fugitivo............................. 20

V. A biblioteca universal................... 24

VI. "Deixo os livros para Neleu"............. 29

VII. O banquete dos sábios................... 33

VIII. Na gaiola das musas..................... 39

IX. A biblioteca rival....................... 46

X. Aristóteles reaparece, e se perde........... 52

XI. O segundo visitante..................... 58

XII. A guerra.............................. 64

XIII. O terceiro visitante...................... 69

XIV. A biblioteca........................... 74

XV. O incêndio............................ 78

XVI. Diálogo entre João Filopão e o emir Amr ibn Al-As prestes a incendiar a biblioteca....... 80

Notas................................. 95
FONTES
1. Gibbon................................. 103

2. Os diálogos de Amr....................... 108

3. Aristeu atualizado........................ 113

4. Gélio................................... 114

5. Isidoro de Sevilha......................... 117

6. Lívio................................... 122

7. Conjeturas.............................. 127

8. Hecateu................................ 134

9. A biblioteca inencontrável................. 136

10. O soma de Ramsés........................ 149

11. Qades.................................. 153

12. Estrabão e a história de Neleu............... 159

13. A vulgata bibliotecária..................... 168

14. Os incêndios............................. 174

15. Epílogo................................. 177

Sobre algumas personagens históricas........ 181



I

A TUMBA DO FARAÓ
Sob o reinado de Ptolomeu Sóter, Hecateu de Abdera esteve no Egito. Subiu o Nilo até Tebas, a antiga capital das cem portas, cada uma delas tão ampla — segundo o que constava a Homero — que permitia a passagem de duzentos soldados, incluídos carros e cavalos. Ainda existiam, bem visíveis, os muros do templo de Amon. Muros com 24 pés de espessura, 405 cúbitos de altura, com um perímetro de dezenas e dezenas de estádios. Por dentro, tudo fora saqueado, desde que sobre o Egito abatera-se Cambises, o louco rei dos persas, um verdadeiro flagelo, que até deportara para a Pérsia os artesãos egípcios, pensando em utilizá-los para os palácios de Susa e Persépolis. Um pouco mais adiante, estavam as tumbas reais. Delas restavam apenas dezessete. No vale das rainhas, os sacerdotes mostraram-lhe a tumba das concubinas de Zeus, as nobres princesas consagradas à prostituição antes do matrimônio, em devoção ao deus. Mais além, deparou com um imponente mausoléu. Era a tumba de Ramsés II, o faraó que combatera na Síria contra os hititas. Helenizado, seu nome seria Osimandias.

Hecateu entrou. O ingresso era um portal de sessenta metros de comprimento e vinte de altura. Atravessou-o e se encontrou num peristilo com a forma de um quadrado, tendo cada lado cerca de vinte metros de comprimento: o teto era um bloco único de pedra num azul profundo cravejado de estrelas. Esse céu estrelado era sustentado por colunas de aproximadamente oito metros. Mais que colunas, eram, na realidade, figuras esculpidas, uma diferente da outra, todas extraídas de blocos monolíticos. À medida que prosseguia, Hecateu ia anotando a planta do edifício. Agora estava novamente diante de um portal: semelhante ao da entrada, mas totalmente decorado com relevos e dominado por três estátuas, todas elas extraídas de blocos de pedra negra.

Entre as três, a maior (a maior estátua existente no Egito, garantiram-lhe os sacerdotes) a tal ponto ultrapassava as outras duas que estas chegavam-lhe aos joelhos. A estátua gigantesca, cujos pés mediam quase quatro metros, representava Ramsés. Aos seus joelhos, de um lado a mãe, de outro a filha. Na sala do céu estrelado, o teto tinha oito metros de altura; aqui, quase se perdia de vista, e a inesperada mudança da altura do céu, de sala para sala, desconcertava ainda mais o visitante. O que particularmente impressionou Hecateu foi que a enorme estátua de Ramsés era extraída de um bloco único, não apresentando sequer um arranhão ou mancha. "Esta obra", anotou, "é admirável não só pelas dimensões, mas principalmente pela técnica com que foi trabalhada e pela natureza da pedra." Na base, havia uma inscrição que Hecateu fez com que traduzissem para o grego: "Sou Ramsés, rei dos reis", dizia ela. E prosseguia um tanto obscuramente: "Se alguém quiser conhecer quão grande sou e onde me encontro, que supere uma de minhas obras". A frase não era unívoca. "Quão grande", obviamente, podia referir-se às dimensões. Tal interpretação podia ser corroborada pelo fato de que aquelas palavras se encontravam justamente aos pés da gigantesca estátua, e de qualquer maneira não destoavam muito da outra curiosidade que o faraó prometia satisfazer: "onde me encontro". Mas "quão grande" também podia ter um valor metafórico, isto é, não se referir à estatura, mas, por exemplo, às "obras" mencionadas logo a seguir. E também a outra expressão, "onde me encontro", exatamente como convite ou desafio a descobrir o sarcófago, dava a entender que sua localização era oculta e permitida apenas sob certas condições. Em todo caso, o visitante curioso, a partir daí, era desafiado, convidado a uma prova. Ela também formulada de maneira ambígua: "que supere uma de minhas obras" (nikãto ti tõn emõn ergõn), isto é, realize — ao que parece — empreendimentos ainda maiores do que os meus. Se tal era a interpretação correta, trata-se essencialmente de uma proibição. A enorme estátua se apresentava ao visitante ainda no início de seu caminho, e o desencorajava na busca do sarcófago. Mas seria a única interpretação possível? Contudo, Hecateu e seus acompanhantes continuaram. Isolada na enorme sala, sobressaía-se uma outra estátua, com cerca de dez metros de altura, representando uma mulher com três coroas. Aqui, o enigma foi-lhe imediatamente esclarecido: era — disseram-lhe os sacerdotes — a mãe do soberano, e as três coroas significavam que fora filha, mulher e mãe de um faraó.

Da sala das estátuas passava-se para um peristilo ornamentado de baixos-relevos representando a campanha do rei na Bactriana. Ali, os sacerdotes também deram informações histórico-militares: naquela campanha — disseram eles —, o exército do rei contava com 400 mil infantes e 20 mil cavaleiros, divididos em quatro formações, cada uma delas comandada por um dos filhos do rei. A seguir, elucidaram os baixos-relevos. Mas nem sempre concordavam nas explicações. Por exemplo, diante da parede onde se representava Ramsés empenhado num cerco, tendo ao lado um leão, "uma parte dos intérpretes", anotou Hecateu, "declarou se tratar de um verdadeiro leão, que, domesticado e criado pelo rei, enfrentava a seu lado os perigos nas batalhas; outros, pelo contrário, consideravam que o rei, inquestionavelmente corajoso, mas ao mesmo tempo ávido por louvores a ponto de beirar a vulgaridade, fizera-se representar com o leão para indicar a audácia de sua alma". Hecateu se dirigiu à parede seguinte, onde estavam os inimigos vencidos e os prisioneiros, todos representados sem mãos e sem órgãos genitais: pois efeminados — explicaram-lhe — e sem força perante os perigos da guerra. Na terceira parede estava representado o triunfo do rei retornado da guerra e os sacrifícios por ele realizados em agradecimento aos deuses. Ao longo da quarta parede, por sua vez, destacavam-se duas grandes estátuas sentadas, que a recobriam parcialmente. Lá, bem junto às estátuas, havia três passagens.

Este é o único caso em que Hecateu indica explícita e pormenorizadamente o tipo de acesso de um aposento ao seguinte. Por essas três passagens entrava-se numa outra ala do edifício, onde se celebravam, não mais as gestas guerreiras, e sim as obras de paz do faraó.
II

A BIBLIOTECA SAGRADA
Hecateu contou terem lhe explicado o complicado percurso que levava até o sarcófago de Ramsés. Conseguira eludir a proibição do faraó, ou vencera a prova implícita naquela frase aparentemente esconjuratória? Ou será que agora a frase já perdera sua eficácia, e era exposta apenas como curiosidade aos visitantes do mausoléu?

Eis seu relato:

As três passagens conduziam a uma sala com colunas, construída em forma de odeão, tendo sessenta metros de comprimento. Essa sala estava repleta de estátuas de madeira, representando alguns litigantes com o olhar voltado para os juízes. Os juízes estavam esculpidos ao longo de uma das paredes, em número de trinta, e sem mãos; no meio, estava o juiz supremo com a verdade pendendo do pescoço e os olhos fechados, e no chão, a seu lado, um monte de rolos. Explicaram que essas figuras pretendiam significar com sua postura que os juízes não devem receber doações, e que o juiz supremo só deve ter olhos para a verdade.

Prosseguindo, entrava-se num perípato circundado por todos os tipos de vãos, ornamentados com relevos representando a maior variedade de finos alimentos. Ao longo do perípato distribuíam-se baixos-relevos coloridos, num dos quais aparecia o rei oferecendo à divindade, ouro e prata extraídos das minas durante o ano em todo o Egito. Sob esse relevo estava indicado o rendimento total, expresso em minas de prata: 32 milhões. Em seguida havia a biblioteca sagrada, por cima da qual estava escrito LUGAR DE CURA DA ALMA. Seguiam-se as imagens de todas as divindades egípcias, a cada uma das quais o rei oferecia dádivas apropriadas, como se quisesse demonstrar a Osíris e aos deuses inferiores que vivera toda a vida de modo piedoso e justo em relação aos homens e aos deuses.

Havia também uma sala, construída suntuosamente, com uma parede que coincidia com a biblioteca. Nessa sala havia um conjunto de mesas com vinte triclínios e as estátuas de Zeus e Hera, e ainda a do rei. Parece que ali estivera sepulto o corpo do rei. Disseram que essa sala possuía, por toda a volta, uma notável série de vãos, onde estavam admiravelmente pintados todos os animais sagrados do Egito. Quem subisse por esses vãos ver-se-ia diante da entrada da tumba. Ela se encontrava no teto do edifício. Nele, podia-se observar um círculo de ouro com 365 cúbitos de comprimento e um cúbito de altura. Nesse círculo, estavam descritos e dispostos os dias do ano, um para cada cúbito: para cada dia, estavam indicados o nascer e o pôr dos astros e os sinais que, segundo os astrólogos egípcios, derivam de tais movimentos. Disseram que esse friso fora depredado por Cambises na época em que se apoderou do Egito.

Esta é a descrição de Hecateu na transcrição feita, dois séculos mais tarde, pelo siciliano Diodoro. Portanto, Hecateu, no decorrer da visita, parece ter chegado até a biblioteca. A partir daí, seus acompanhantes apenas descreveram ou fizeram imaginar o restante. De fato, após a biblioteca, suas indicações tornam-se menos precisas. Por exemplo, não se esclarece como é a passagem da biblioteca para a grande sala dos triclínios; diz-se apenas que há uma parede em comum. Mas é a própria natureza da biblioteca que não fica imediatamente evidente: digno de atenção é o detalhe, narrado com grande precisão, de que um relevo — o dos deuses egípcios e do faraó que oferece dádivas — "segue-se" à biblioteca.

Tudo isso foi narrado por Hecateu num livro quase romanesco, intitulado Histórias do Egito, que escreveu ao final de sua viagem. Visto que não chegou até nós, temos de nos contentar com aquilo que foi transcrito por Diodoro. Hecateu, em seu livro, mesclou o antigo e o moderno, colocou no mesmo plano a antiga realidade egípcia e a nova realidade ptolomaica, as antigas e as novas normas, vigentes em sua época sob o primeiro Ptolomeu. Numa longa digressão, falou também dos hebreus no Egito e de Moisés, assim tocando num assunto da atualidade na vida do novo reino greco-egípcio. E, para que tudo ficasse ainda mais claro, incluiu em seu relato uma seção inteiramente dedicada a mostrar como os melhores legisladores gregos vieram ao Egito para trazer inspiração e doutrina. Que melhor garantia, pois, da efetiva continuidade entre o antigo e o novo Egito? Seu trabalho foi muito apreciado pelo soberano, que lhe confiou uma missão diplomática. Por conta de Ptolomeu, Hecateu foi a Esparta.

Fig. 1. Ramesseum de Tebas, reconstrução baseada em Diodoro; segundo Jollois e Devilliers


Nesse ínterim, seu livro se tornava uma espécie de "guia" de viagem. Em sua época, Diodoro ainda o tratava como tal. Um guia que não deixava de ter algumas surpresas. Numa visita ao mausoléu de Ramsés, nem tudo na descrição de Hecateu ficaria claro. Por exemplo, na explicação dos relevos do segundo peristilo, uma observação poderia parecer um pouco estranha, a menos que se quisesse acreditar num autêntico exagero: como Ramsés poderia ter combatido na Bactriana? E o que seria aquele conjunto constituído por um perípato, uma biblioteca e um refeitório coletivo, que parecia quase um corpo em si na planta do mausoléu? O visitante escrupuloso que ali entrasse teria uma desilusão: não encontraria a sala da biblioteca.
III

A CIDADE PROIBIDA
"Teu marido está no Egito." A velha alcoviteira atormentava, por encargo de um apaixonado, o sossego de uma jovem, bela e temporariamente única senhora de Cós, e não encontrava melhor arma do que acenar-lhe a imagem do país mais tentacular do mundo: "Egito!", espicaçava ela, "não há no mundo coisa que não esteja entre os tesouros daquele país: ginásios, espetáculos, filósofos, dinheiro, rapazes, o recinto sagrado dos deuses irmãos, o rei, homem muito generoso, e mais o Museu, vinho, e toda a abundância que se pode desejar, e mulheres, mais numerosas do que as estrelas que estão no céu, e belas, belas como as deusas que foram a Paris para o famoso julgamento".

Antes de citar o último e decisivo fator, aquele que deveria vencer as resistências e induzir a mulher a se entregar, ela também, a uma distração, a vulgar alcoviteira parece perder-se numa enumeração quase desvairada, apenas aqui e ali pontilhada de elementos alarmantes: assim, dos ginásios passa para os filósofos e, logo a seguir, conseqüência quase natural após ter nomeado esses ambíguos freqüentadores de adolescentes, menciona os "rapazes"; mas depois passa, divagando, para o templo de Ptolomeu e Arsinoé, para o rei Ptolomeu, até o Museu, para assestar, por fim, o golpe que crê definitivo: o vinho e as mulheres; mulheres tão numerosas e belas que não resta margem de dúvidas quanto ao recreativo emprego do tempo desse marido distante, que há dez meses não envia notícias.

Nas festas de Adônis, em Alexandria, abria-se ao público o palácio real e uma torrente humana era admitida em alguns parques do imenso bairro. E os cantos que as mulheres, naquela ocasião, entoavam em honra a Adônis ("com as cabeleiras soltas, as vestes desalinhadas e os seios descobertos, levá-lo-emos às ondas que espumam na praia"), se conhecidos pela senhora de Cós, talvez a tivessem preocupado ainda mais. Aquela festa era uma das raras ocasiões em que se abria o palácio.

"A cidade tem a forma de uma clâmide", dizem os antigos viajantes a respeito de Alexandria. Nesse retângulo quase perfeito, entre o mar e o lago Mareótis, o bairro do palácio ocupa um quarto, talvez até um terço, do total. E um palácio que veio se ampliando com o tempo: já Alexandre o quisera grandioso, e, a seguir, cada soberano lhe acrescentou um novo edifício ou um novo monumento.

Todo o bairro de Brúquion foi progressivamente ocupado pelo palácio em expansão. O palácio se projetava sobre o mar, protegido por um dique. Era uma autêntica fortaleza, concebida também como defesa extrema em casos de excepcional perigo. Foi o que se viu na "guerra de Alexandria", quando César, com poucos homens, por vários dias, conseguiu resistir ao assédio das armadas egípcias, entrincheirado no palácio. O modelo persa do palácio inacessível (exceto, por privilégio hereditário, aos descendentes das sete famílias que haviam vencido a conjura dos magos) passara, através de Alexandre, para a realeza helênica. No Egito, na corte ptolomaica, a ele se somava o remoto modelo faraônico.

O que quer que houvesse nos palácios do bairro real devia ser vagamente conhecido no exterior. Por exemplo, sabia-se que lá também devia estar o "Museu", arrolado pela alcoviteira de Cós entre as maravilhas de Alexandria, talvez ignorando o que seria ele. Lá ainda se encontravam preciosas coleções de livros de propriedade do rei, os "livros régios", como os chamava Aristeu, um escritor judeu com uma certa familiaridade com o palácio e a biblioteca.



IV

O FUGITIVO
Teria preferido encontrar qualquer um, menos o mordaz Crates. Ainda mais naquela miserável situação, e numa cidade pouco amistosa como Tebas. Todavia, não podendo evitá-lo, foi ao seu encontro. Crates, porém, surpreendeu-o com amável tratamento. Começou falando-lhe, em geral, sobre a condição do exilado: uma condição — disse-lhe ele — isenta de qualquer dificuldade, uma verdadeira ocasião para se libertar de tantos aborrecimentos e imprevistos da política; coragem, Demétrio — concluiu ele —, tem confiança em ti mesmo e nessa nova condição em que vieste a te encontrar.

Demétrio, que governara Atenas por dez anos e deixara que a cidade fosse ocupada por centenas de estátuas em sua honra, agora tivera de se esconder em nada menos que Tebas, para não cair nas mãos do "cerca-cidades", o novo senhor de Atenas, assim chamado numa irônica alusão à sua obstinada e freqüentemente inútil atividade poliorcética. Ficou quase incrédulo diante da insólita cortesia de seu interlocutor. Tranqüilizou-se por um instante e, dirigindo-se aos amigos, um pouco por gracejo e um pouco a sério: "maldita política", exclamou, "que até hoje me impediu de conhecer esse homem!". Evidentemente, absteve-se de seguir seu conselho, que, no entanto, como ficou claro muitos anos depois aos que ainda se lembravam do estranho encontro, tivera o significado de uma autêntica advertência divina. Deixou Tebas tão logo lhe foi possível, e se apresentou em Alexandria. E aqui, na corte de Ptolomeu, viveu sua última estação como conselheiro do rei.

Já em sua época, Filipe da Macedônia quisera Aristóteles como preceptor de Alexandre. Ptolomeu, primeiro monarca do Egito, para seu filho predileto queria Teofrasto, o sucessor de Aristóteles. Mas Teofrasto não saíra de Atenas; mandara-lhe um estudante razoavelmente bom, Estrabão, que depois (mas isso ele não podia prever) se tornaria seu sucessor. Portanto, para a dinastia macedônia dos Lágidas, que, mais do que qualquer outra, gabava-se de uma descendência direta de Filipe (Ptolomeu deixava que dissessem que seu verdadeiro pai era Filipe, e Teócrito chega a tecer detalhes sobre essa insinuação no Encômio a Ptolomeu), a relação com a escola de Aristóteles era, em certo sentido, hereditária. O próprio pai de Aristóteles havia sido o médico pessoal do rei macedônio.

Isso explica por que Demétrio optou sem hesitação por Alexandria. Ele também havia pertencido à escola: fora aluno de Aristóteles e amigo de Teofrasto, e quando governou Atenas favoreceu sob todas as formas aquela associação fechada, um tanto malvista, de metecos. Agora que seu protetor Cassandro sofrerá um derrota que comprometia também a ele, Demétrio refugiava-se junto aos Ptolomeus, que, ademais, eram parentes de Cassandro e seu pai Antipater, "regente" da Macedônia desde a morte de Alexandre. Levou ao Egito o modelo aristotélico, e foi esta a chave de seu sucesso. Esse modelo, que havia colocado o Perípato na vanguarda da ciência ocidental, era agora adotado em grande estilo e sob proteção real em Alexandria. A tal ponto que se disse posteriormente, num anacronismo apenas aparente, que "Aristóteles ensinara aos reis do Egito como se organiza uma biblioteca". Disse-se também que Demétrio havia recomendado a Ptolomeu "constituir uma coleção dos livros sobre a realeza e o exercício do mando e lê-los", e que até fora ele a dar início — tendo se tornado íntimo do soberano a ponto de ser definido como "o primeiro de seus amigos" — à legislação lançada por Ptolomeu.

Intrigante como era, porém, não resistiu, tendo chegado a tais alturas, ao impulso de dirigir pessoalmente a política dinástica do soberano. Ptolomeu tinha filhos de primeiras núpcias com Eurídice, e quatro filhos de Berenice, uma viúva experiente e de grande fascínio, originária de Cirene. Berenice chegara a Alexandria junto com Eurídice. A convivência dos três na corte fora excelente. Mas Ptolomeu começou a preferir um de seus quatro filhos com Berenice, a ponto de querer associá-lo ao trono. Era isso que preocupava Eurídice. Demétrio se intrometeu nessa questão delicada, tomando o partido de Eurídice — talvez também por ser Eurídice filha de Antipater. Talvez tivesse pensado que dificilmente Ptolomeu acabaria por se ligar dinasticamente a uma família de senhores locais, em vez dos donos do reino macedônio. E começou a alertar o soberano, tocando numa tecla que lhe parecia eficaz: "Se deres a um outro", repetia-lhe, "depois ficarás sem nada". Mas não conseguiu chegar a lugar algum com seus argumentos um pouco mesquinhos. Ptolomeu já estava decidido a associar-se ao filho predileto. Eurídice compreendeu que não havia mais nada que pudesse fazer e, desesperançada, deixou o Egito.

Pouco depois, no início do ano 285 a.C., o jovem Ptolomeu foi oficialmente colocado ao lado do pai, e dividiu com ele o reinado por três anos, até a morte do Só ter. Tornando-se o único soberano, pensou em se livrar de Demétrio: mandou prendê-lo, ou talvez apenas mantê-lo sob vigilância, antes de tomar uma resolução definitiva sobre ele. Assim, Demétrio estava novamente por baixo, como no tempo de sua miserável estada em Tebas, quando as palavras inutilmente previdentes de Crates apenas divertiam, mas não o afetavam.

Isolado, sob estrita vigilância, num vilarejo do interior, um dia estava cochilando. Sentiu de repente uma dor lancinante na mão direita, que, durante o sono, pendia ao lado. Quando percebeu que fora mordido por uma serpente, já era tarde demais. Evidentemente, o incidente fora arquitetado por Ptolomeu.



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