A biblioteca Desaparecida Histórias da Biblioteca de Alexandria – Luciano Canfora



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V

A BIBLIOTECA UNIVERSAL
Demétrio havia sido o plenipotenciário da biblioteca. Por vezes o rei passava os rolos em revista, como manípulos de soldados. "Quantos rolos temos?", perguntava. E Demétrio o atualizava sobre os números. Tinham-se proposto um objetivo, haviam feito cálculos. Haviam estabelecido que, para recolher em Alexandria ”os livros de todos os povos da terra", seria necessário um total de 500 mil rolos. Ptolomeu elaborou uma carta "a todos os soberanos e governantes da terra", na qual pedia que "não hesitassem em lhe enviar'' as obras de todos os gêneros de autores: "poetas e prosadores, retóricos e sofistas, médicos e adivinhos, historiadores e todos os outros mais". Ordenou que fossem copiados todos os livros que por acaso se encontrassem nos navios que faziam escala em Alexandria, que os originais fossem retidos e aos proprietários fossem entregues as cópias; esse fundo foi posteriormente chamado de “o fundo dos navios".

Vez por outra, Demétrio fazia uma exposição escrita ao soberano, que começava assim: "Demétrio ao grande rei. Em obediência à tua ordem de acrescentar às coleções da biblioteca, para completá-la, os livros que ainda faltam, e de restaurar adequadamente os defeituosos, dediquei grande cuidado, e agora faço-te um relatório etc.".

Num desses relatórios, Demétrio ilustrava a conveniência de adquirir também "os livros da lei judaica". “É necessário", prosseguia, "que esses livros, sob forma correta, tenham lugar em tua biblioteca." E, seguro de recorrer a um nome bem-vindo ao soberano, invocava a autoridade de Hecateu de Abdera, que em suas Histórias do Egito tanto espaço dedicara à história judaica. O argumento de Hecateu, conforme é citado por Demétrio, era um tanto curioso. Soava mais ou menos assim: "Não admira que, em sua maioria, os autores, poetas e a multidão de historiadores não tenham mencionado aqueles livros e os homens que viveram e vivem de acordo com eles; não por acaso se abstiveram, devido ao elemento sagrado neles contido".

Quando já se contavam 200 mil rolos, Demétrio voltou ao assunto durante uma visita do rei à biblioteca. "Dizem-me", assim se dirigindo ao soberano, "que as leis dos judeus também são livros dignos de transcrição e inclusão em tua biblioteca." "Está bem", respondeu Ptolomeu, "e o que te impede de providenciar essa aquisição? Como sabes, tens à tua disposição tudo o que é necessário , homens e meios." "Mas é preciso traduzi-los'', observou Demétrio, “estão escritos em hebraico, não em siríaco, como geralmente se crê; é uma língua totalmente diferente."

Quem menciona este diálogo garante tê-lo presenciado pessoalmente. Era um judeu da comunidade de Alexandria, a grande e laboriosa comunidade radicada no palácio, instalada no mais belo bairro — lamentava um anti-semita empedernido como o gramático Apião —, um bairro destinado aos judeus, dizia-se, pelo próprio Alexandre. Perfeitamente helenizada na língua e na cultura, essa empreendedora personagem soubera aproveitar-se de uma mimetização perfeita para entrar na corte e aí conquistar crédito e amizades. Um problema de sua comunidade, que lhe parecia muito agudo, era a utilização, então dominante, mas sempre combatida pelos ortodoxos, da língua grega nos ofícios da sinagoga. Podemos supor que conseguiu ser contratado, gozando na corte da proteção de correligionários ou simpatizantes, como adido à biblioteca. Do que escreve, deduzimos que soube manter oculta sua ligação com a comunidade judaica, e que continuou a falar e escrever sobre os judeus como um povo interessante, mas diferente.

Dos materiais de escrita e da confecção dos rolos fala com tal perícia e propriedade de linguagem que nos leva a imaginá-lo como zeloso e estimado "diaskeuastés" (curador de textos); portanto, sempre subindo na confiança de Demétrio e inspirador, junto a ele, da proposta respeitosamente insistente de também abrir as prateleiras da biblioteca do rei à lei judaica.

Mas é exatamente isso: temos de imaginar, pelo menos em parte, na medida em que nosso autor fala muito pouco de si. Diz que seu nome é Aristeu e tem um irmão chamado Filócrates: dois nomes genuinamente gregos, mas que também serão usuais entre os judeus da diáspora, cada vez mais impregnados daquilo que os ortodoxos desdenhosamente chamavam de "helenismo"; que é amigo dos dois chefes da guarda pessoal de Ptolomeu, Sosíbio de Tarento e André; que presenciou, nas dependências da biblioteca, o diálogo entre Demétrio e o soberano (diálogo, do qual acima mencionamos apenas o início); por fim, que participou da missão enviada por Ptolomeu a Jerusalém, para conseguir bons tradutores. Dá também a entender que era aquele Aristeu autor de um livro chamado Quem são os judeus, então em circulação, totalmente baseado — assegura ele — em informações de sacerdotes egípcios, exatamente como o excurso das Histórias do Egito de Hecateu de Abdera. E, enfim, também tenta dessa maneira — mas aqui é realmente difícil dar-lhe crédito — fazer-se passar por um "gentio". Em casos do gênero, como se sabe, é difícil avaliar se as expressões que falam em “colaboracionismo" são exageradas e injustas ou se, pelo contrário, contêm uma parcela de verdade. Evidentemente, se se raciocinasse pelo critério, que a alguns parece útil, dos resultados obtidos, teríamos de dizer que a iniciativa então amadurecida foi, para os judeus, das mais favoráveis. Mas também não se pode ocultar a vantagem que os dominadores acabavam tendo, por conhecerem melhor seus súditos.

Ao dizer que "também" os livros da lei hebraica mereciam ser traduzidos para o grego, Demétrio estava implicitamente afirmando que este não era o primeiro trabalho do gênero que se faria na biblioteca. "De cada povo", informa um tratadista bizantino, "recrutaram-se doutos que, além do domínio sobre sua língua, conheciam profundamente o grego; a cada grupo foram confiados os respectivos textos, e assim preparou-se "uma tradução grega de tudo." A tradução dos textos persas atribuídos a Zoroastro, com mais de 2 milhões de versos, era lembrada, mesmo séculos depois, como um empreendimento memorável. Na época de Calímaco, que compilava os catálogos dos autores gregos divididos por armários, Hermipo, seu aluno, pensou em imitá-lo, e talvez intimamente quisesse superá-lo, preparando os índices desses 2 milhões de versos, diante dos quais as poucas dezenas de milhares de hexâmetros da Ilíada e da Odisséia pareciam minúsculos breviários. Esses doutos foram os únicos, num certo período da história da biblioteca, a usufruir da visão deslumbrante, que viria a ser o sonho de escritores fantásticos, dos livros de todo o mundo. Ânsia de totalidade e vontade de domínio, não diversas do impulso que, segundo as palavras de um antigo retórico, levava Alexandre a tentar "ultrapassar os confins do mundo". E também se dizia que ele pretendera uma biblioteca de dimensões imponentes em Nínive, para a qual mandara preparar traduções dos textos caldeus.

Portanto, o objetivo almejado pelos Ptolomeus e executado pelos seus bibliotecários não era apenas a aquisição dos livros do mundo inteiro, mas também sua tradução para o grego. Naturalmente, podiam ser reelaborações e compêndios em grego, como, por exemplo, as Histórias egípcias de Maneton, um sacerdote oriundo de Sebenito (uma região do Delta) e atuante em Heliópolis. Maneton reelaborou dezenas e dezenas de fontes, rolos conservados nos templos, listas de soberanos e suas proezas, tal como fizera Megástenes, embaixador do rei Seleuco da Síria na corte indiana de Pataliputra, com tantas fontes indianas.

Com as armas dos macedônios, em poucos anos os gregos tornaram-se a casta dominante em todo o mundo conhecido: da Sicília à África do Norte, da península balcânica à Ásia Menor, do Irã à índia e ao Afeganistão, onde se detivera Alexandre. Os gregos não aprenderam a língua de seus novos súditos, mas compreenderam que, para dominá-los, era preciso entendê-los, e que para entendê-los era necessário traduzir e reunir seus livros. Assim nasceram bibliotecas reais em todas as capitais helênicas: não apenas como fator de prestígio, mas também como instrumento de dominação. Nessa obra sistemática de tradução e aquisição, coube um lugar de destaque aos livros sagrados dos povos dominados, por ser a religião, para quem pretendia governá-los, como que a porta de suas almas.


VI

DEIXO OS LIVROS PARA NELEU''


Quando morreu Teofrasto, num ano entre 288 e 284 a.C., descobriu-se em seu testamento uma cláusula bastante estranha: "Deixo todos os livros para Neleu". Aos outros alunos deixava como herança “o jardim e a alameda coberta, e os edifícios próximos ao jardim". (Isso lhe era possível graças a Demétrio, que, como senhor de Atenas, conseguira que Teofrasto, mesmo não sendo cidadão ateniense, entrasse finalmente em posse do terreno onde se situava a escola). Os livros, pelo contrário, destinavam-se apenas a Neleu. Por que esse privilégio, e que livros eram?

Neleu, natural da cidadezinha asiática de Scepsi, na Tróade, então era provavelmente o último aluno vivo de Aristóteles. Era filho daquele Corisco freqüentemente citado por Aristóteles em suas aulas, quando queria indicar, com um nome próprio, um sujeito concreto. Quando morreu Platão, Corisco deixara a Academia junto com Aristóteles, e com ele se retirara para Axo, não distante de Scepsi, junto a um dinasta local, ex-escravo e eunuco, tendo depois se tornado influente devido ás ligações estabelecidas com Filipe da Macedônia, de quem era a quinta-coluna no império persa. Mas alguém o traíra; o rei da Pérsia, capturando-o, massacrou-o sem conseguir arrancar-lhe uma única informação útil. Em honra de sua morte, Aristóteles compôs um hino que exprime emoção e admiração: o hino à virtude. O próprio Aristóteles tivera uma forte ligação com esse ambiente: o tutor que se encarregara dele após a morte do pai Nicômaco, Próxeno de Atarneu, era um conterrâneo de Hérmia e Corisco. Em suma, Neleu podia se gabar de laços hereditários de amizade com Aristóteles e com um ambiente que fora muito importante para ele. Portanto, Teofrasto tinha boas razões para supor que seu sucessor na direção da escola seria justamente Neleu. Foi por isso que decidiu legar-lhe pessoalmente aqueles bens inestimáveis que eram "os livros de Aristóteles".

Ao que parece, eram aqueles livros que foram se formando nas aulas de Aristóteles, com a ativa participação dos alunos, a partir de — e durante — seus ensinamentos. Eram exemplares únicos, testemunho, reelaborado e enriquecido ao longo do tempo, de uma reflexão em andamento, nunca confiada a livros destinados ao exterior. Preciosos exemplares reservados ao uso da escola, sendo justo que fossem confiados a um único e honrado responsável, o provável futuro escolarca.

Mas Neleu não foi eleito escolarca. Muitas coisas tinham mudado na escola desde que Demétrio fugira para o Egito. Com o governo parademocrático do ”Poliorceta", a vida para os antigos protegidos de Falereu não deve ter sido muito fácil. Tanto que, para dirigir a escola, o escolhido foi o próprio Estrabão, que na corte ptolomaica havia sido preceptor do herdeiro ao trono — uma ligação que deve ter pesado no momento da eleição. Neleu, ofendido, retirou-se para sua cidade natal, Scepsi, com seu precioso carregamento de livros. A escola sofreu muito com isso. Era um empobrecimento irreparável. Não que ignorassem, os princípios gerais do pensamento do mestre; pelo contrário, paráfrases havia de sobra, começando pelas bastante prolixas do próprio Teofrasto, que sempre envolvera em muitos véus aristotélicos aquilo que trazia de novo e próprio. Mas já não possuíam, devido à abrupta decisão de Neleu, os desenvolvimentos específicos, o encadeamento das deduções como viera se construindo em anos e anos de reflexão: devido àquele procedimento característico de Aristóteles que consistia em recomeçar, algum tempo depois, a partir de um mesmo assunto, uma nova reflexão que a rigor deveria minar a anterior, mas que por escrúpulo, devoção ou talvez até prudência os ouvintes e participantes do incessante trabalho haviam preferido justapor às camadas anteriores, criando uma devota confusão cujo deslindamento coube a outros, séculos depois, Por ora, os peripatéticos estavam reduzidos a "formular proposições gerais", restritos, como disse gracejando um especialista como o gramático Tiranião, a uma repetitiva pomposidade tão genérica quanto vazia. Razão pela qual homens como Epicuro — que aos vinte anos chegou a Atenas, no ano da morte de Aristóteles — e Zenão só encontraram pela frente a obra menos original do mestre, que ele próprio publicara em vida sob a forma canonicamente platônica do diálogo.

Mas não poderia passar desapercebida a desdenhosa retirada de Neleu para a Tróade, seqüestrando a palavra viva do mestre: principalmente porque se firmara na mente do Filadelfo o projeto da biblioteca universal. Ele tinha todos os motivos para esperar, para seu projeto, a colaboração do homem que havia sido seu preceptor e agora era o escolarca do Perípato. Mas ao excelente Estrabão não restou senão remeter o antigo pupilo, agora soberano, ao intratável Neleu. Foi imediatamente enviada uma missão em sua busca, na esperança de obter por dinheiro aquilo que os colegas de escola não tinham conseguido em nome da fé. Mas Neleu fez pouco dos emissários do rei do Egito. Vendeu-lhes algumas cópias de tratados de menor importância, diversos tratados de Teofrasto, que por certo não eram grande coisa, e principalmente livros que haviam sido de propriedade de Aristóteles. Jogou com as palavras, afirmando ter possuído de fato "a biblioteca de Aristóteles" — como sustentavam os enviados do rei —, mas, precisamente, sua biblioteca pessoal, os livros que o mestre possuíra; dos quais, de qualquer maneira — acrescentou ele —, estava pronto, mesmo que dolorosamente, a se separar.

Em Alexandria não se percebeu imediatamente o engano, e nos catálogos da biblioteca real fez-se o registro: "Reinante Ptolomeu Filadelfo, adquiridos de Neleu de Scepsi os livros de Aristóteles e Teofrasto''.


VII

O BANQUETE DOS SÁBIOS
Aristeu se aproveitara das circunstâncias. Ptolomeu mal acabara de autorizar a solicitação de efetuar a tradução da lei hebraica, e ele já lhe colocava uma questão premente: "A lei hebraica", disse, "que estamos prontos não só a mandar copiar, mas até a traduzir, é válida para todos os judeus; e agora, como vamos explicar que se proceda a um tal empreendimento bem no momento em que, no teu reinado, tantos judeus se encontram na prisão?". O momento fora bem escolhido, visto que também estavam presentes Sosíbio de Tarento e André, os dois chefes da guarda pessoal do rei, aos quais Aristeu expusera essa solicitação havia algum tempo, tendo obtido a concordância de ambos. A manobra pareceu tão hábil que se chegou a supor que Aristeu até provocara a iniciativa da tradução (de êxito certo, dadas as ambições do soberano) com o único fito de poder levantar imediatamente a questão da incoerência com o tratamento infligido aos judeus deportados.

Aristeu não deixou de apelar à generosidade do soberano, calando-se a seguir, à espera de uma reação. O diálogo que se seguiu por um instante pareceu reproduzir aquele que se desenrolara um pouco antes, a respeito dos rolos. "Quantos milhares julgas que são?", perguntou Ptolomeu dirigindo-se a André (referindo-se aos judeus, não aos rolos). E este, prontamente, pois nada indiferente à questão: "Pouco mais de 100 mil". "Pede pouco o bom Aristeu!", comentou Ptolomeu com ironia, dispondo-se por outro lado ao consentimento, em vista da disposição favorável de seus dois fidelíssimos. Os prisioneiros foram libertados sob indenização, paga aos senhores pelo "banco real". E foram contemplados não só os prisioneiros capturados pelo Sóter na campanha da Síria, mas todos os judeus já antes residentes ou deportados para o Egito antes ou depois dessa campanha. "E nossa convicção", determinava o édito de libertação, "que estes foram reduzidos à escravidão contra a vontade de nosso pai e contra qualquer conveniência, apenas pelo descomedimento da soldadesca." Dessa forma, a providência evitava censurar a conduta do soberano anterior.

A libertação dos judeus deportados foi, para Ptolomeu, como que uma credencial junto a Eleazar, sumo-sacerdote de Jerusalém. "Restituímos a liberdade a mais de 100 mil judeus", anuncia ele na mensagem em que solicita o envio de tradutores especializados; "os mais válidos recrutamos para o exército; os aptos a tomarem lugar ao nosso lado, demonstrando-se dignos da confiança que se exige em homens da corte, colocamo-los na burocracia". "Resolvemos fazer algo de bom a esses e a todos os outros judeus", prosseguia, "nas diversas partes do mundo, e a todos os que virão depois, e por isso decidimos mandar traduzir vossa lei do hebraico para o grego, para que tenha lugar em nossa biblioteca ao lado dos outros livros do rei." Eleazar respondeu com entusiasmo à oferta do rei, augurando bons votos a ele e à rainha Arsinoé, sua irmã e esposa, e a seus filhos, e saudando-o como "sincero amigo". A carta de Ptolomeu foi lida em público, informa Aristeu, que com o amigo André dirigia a delegação saída de Alexandria.

Com sua visita a Jerusalém, Aristeu teve interessantíssimas impressões, como, por exemplo, a visão do sumo sacerdote no esplendor do seu solene aparato. Judeu da diáspora, deve ter retirado do encontro com suas raízes motivos para uma autêntica emoção. Impressionaram-no as pequenas dimensões de Jerusalém, comparadas à enormidade de Alexandria, a cidade onde sempre vivera. Prudente e sensato como sempre, nisso se inspirou para uma reflexão até demasiado complacente para com a política interna dos Ptolomeus: se no Egito — pensou ele — o povo do campo, isto é, os locais, não tinha permissão de permanecer na cidade por mais de vinte dias, isso se compreende e se justifica pelo fato de que ao soberano interessa que não decaia a agricultura em conseqüência de um êxodo excessivo dos camponeses. Sua idéia é que judeus e gregos, juntos, estão destinados a governar, ao passo que os egípcios devem ser mantidos em seu lugar: exatamente como pensava Ptolomeu, ao escrever a Eleazar que muitos judeus haviam sido postos no comando de guarnições, com soldos mais altos "para incutir temor á raça egípcia".

O encontro dos dois povos dirigentes foi como que selado pela acolhida reservada por Ptolomeu à delegação dos 72 eruditíssimos judeus, escolhidos em número de seis para cada tribo de Israel. Por sete dias prolongou-se o banquete em honra deles, e para o soberano foi a ocasião para refinar sua educação política, através de uma sutilíssima casuística que não negligenciou nenhum, nem mesmo o mais negligenciável, problema relativo à realeza. Sinal de que o conselho de Demétrio de "providenciar os livros sobre a realeza e lê-los" não fora de forma alguma, infrutífero.

O rei atormentava os sábios comensais com torrentes de perguntas, na base de dez por dia. "Como conservar o reino?", Perguntava. "Como ter o assentimento dos amigos?" "Como conseguir aprovação, nos processos, justamente dos que se viam frustrados?" "Como transmitir o reino intacto aos herdeiros?" "Como enfrentar com equilíbrio, os imprevistos?" E assim por diante. E eles, a cada vez, excogitavam uma resposta que fosse simultaneamente respeitosa, original e em conformidade com sua idéia da manifestação da onipotência divina até mesmo no menor recôndito da existência humana. No primeiro dia encontrava-se no banquete um filósofo grego, Mnedemo de Erétria, um dialético que também freqüentara a Academia platônica antes de se ligar à escola megárica de seu mestre Estilpão. Mnedemo, que estava ali por parte do soberano de Chipre, não tinha nenhuma intenção de se juntar àqueles debates na verdade um pouco extravagantes. "Qual é o cúmulo da coragem?" Insistia Ptolomeu, e ainda: "Como ter um sono não agitado?" "E como conseguir pensar somente em coisas boas”? ''Como escapar à dor”? "E como conseguir dar ouvidos aos outros”? "Qual é a maior negligência”? "E como se dar bem com a própria esposa”? Nem diante desta pergunta os velhos sábios desanimaram. "Sabendo que o sexo feminino é veemente e audaz", respondeu um deles, "e sobretudo irrefreavelmente inclinado ao que deseja, mas pronto a se deixar desviar por um raciocínio errado, é preciso tratar a mulher com mente fria e jamais enfrentá-la de forma que provoque uma disputa com ela. Então o caminho segue reto, quando o piloto sabe o que quer. Mas invocando Deus dirige-se bem a vida em cada um de seus aspectos." "E como empregar o tempo livre?" "Deves ler", respondeu-lhe um dos velhos, talvez ignorando que falava com o possuidor dos livros do mundo inteiro, "principalmente relatos de viagem referentes aos vários reinos da terra. Dessa forma saberás cuidar melhor da segurança dos teus súditos; assim fazendo, alcançarás glória e Deus atenderá a teus desejos.''

"Vê", disse Ptolomeu dirigindo-se a Mnedemo, curioso por uma opinião sua, “cercados de improviso por todos os tipos de perguntas, responderam como exige a razão, todos baseando-se em Deus para seus argumentos." "Sim, Majestade", respondeu Mnedemo com muito oportunismo, evitando discordar, "posto que tudo dependa de uma força providencial e assumindo-se como premissa que o homem é criatura de Deus, efetivamente daí decorre que todo o vigor e a beleza de um argumento encontram seu princípio em Deus.'' "Exatamente isso", comentou Ptolomeu, sem entender que Mnedemo, no fundo, evitara expressar sua opinião. Então cessou a discussão — assim dizia a fonte que informou Aristeu —, "e todos se voltaram para a alegria".

Nesse ínterim, nos teatros de Alexandria (havia cerca de quatrocentos ainda na época em que lá se instalaram os árabes) sucediam-se em alegre promiscuidade dramalhões históricos, adaptados ao gosto dos diversos povos que se misturavam na variegada metrópole. Entre os gregos, muitos deles provenientes das cidades da Ásia, fazia sucesso um drama extraído da história de Giges, narrada por Heródoto. E é quase supérfluo lembrar que o elemento picante da história — quando Candaules, arrebatado pela beleza da esposa, obrigava o seu ministro a se esconder na alcova para observar a rainha se despir — garantia ao medíocre pastiche uma sucessão de réplicas. Não faltava quem por diversão imitasse alguma cena. Nos teatros freqüentados pelos judeus, faziam furor as chamadas "tragédias" de um bom encenador, um tal Ezequiel, que, numa série de quadros recitados por coros, dramatizavam os episódios mais famosos e comoventes do Antigo Testamento: a história de Moisés, a fuga do Egito, o cativeiro babilônico. O fascínio desses temas era muito diferente do das histórias de harém recolhidas por Heródoto, e mesmo alguns autores gregos ousavam encená-los. Por exemplo, Teodetes de Fasélides tentou, mas foi censurado.

Mas agora que os sábios de Jerusalém, a fina flor da doutrina rabínica, estavam em Alexandria, e além do mais pareciam não apreciar essa mistura de sagrado e profano, tentou-se impedir que os teatros encenassem a história sagrada. Além do mais, é claro que era recitada em grego, língua a que também estavam habituados os judeus que freqüentavam tais espetáculos. E parecia quase ofensivo que, enquanto se iniciava com tamanha solenidade sacra a desejada tradução grega do Pentateuco, circulassem pelos palcos essas sub-reptícias traduções pouco confiáveis. Não seria bom mostrar-se indulgente com a confusão reinante, acentuada pelo fato — como apontara Demétrio num relatório ao soberano — de já circularem traduções gregas não autorizadas, e de pouco valor, da "sagrada" escritura.

Contudo, ao contrário do que poderia se esperar, os 72 não foram levados ao Museu para executarem sua obra, e sim acomodados na ilhota de Faro, a sete estádios da cidade. A cada passo que avançava o trabalho, era Demétrio que ia até eles, com um pessoal adequado, para levar a cabo a transcrição definitiva das partes traduzidas e acordadas. Em 72 dias, os 72 intérpretes concluíram a tradução.


VIII

NA GAIOLA DAS MUSAS
Dentro do Museu, porém, a vida não era nada tranqüila. "Na populosa terra do Egito", escarnecia um poeta satírico da época, "são criados uns garatujadores livrescos que se bicam eternamente na gaiola das Musas." Timão, o filósofo cético a que se devem tais palavras, sabia que em Alexandria — diz ele vagamente "no Egito" — encontrava-se o fabuloso Museu: chama-o de "gaiola das Musas", referindo-se justamente â aparência de pássaros raros, distantes, preciosos, de seus moradores. Deles diz que "são criados", referindo-se também aos privilégios materiais concedidos pelo rei: o direito às refeições gratuitas, o salário, a isenção de impostos.

Chamava-os de charakitai, querendo dizer "que fazem garatujas" em rolos de papiro, com um deliberado jogo de palavras com charax, "o recinto", onde aqueles pássaros de viveiro de luxo viviam escondidos. E para demonstrar que eram dispensáveis, que todo o mistério e a reserva que os circundava na realidade encobriam o vazio, o nada, Timão desdenhosamente dizia a Arato, o poeta dos Fenômenos que costumava freqüentá-lo, que usava "as velhas cópias" de Homero, não aquelas "agora corrigidas", referindo-se ao esforço dedicado por Zenódoto de Éfeso, o primeiro bibliotecário do Museu, ao texto da Ilíada e da Odisséia. Por exemplo, no verso 88 do livro quarto da Ilíada, Zenódoto mudava o texto no ponto em que fala de Atenas misturando-se aos heróis troianos — "Pândaro igual aos deuses procurando, se jamais viesse a encontrar" — por lhe parecer impossível falar de uma deusa que "se esforça em encontrar o objeto que procura". No livro primeiro, propusera eliminar os versos 4 e 5, os famosos versos da "medonha refeição de cães e pássaros", por alguma outra razão que, por sorte, não pareceu convincente a ninguém além dele. Timão não estava totalmente errado em se sentir enfastiado com tudo isso.

Naturalmente, não era só esse tipo de excêntricas intervenções que os ocupava. Classificavam, dividiam em livros, copiavam, anotavam, enquanto o material crescia incessantemente, e eles próprios, com seus volumosos comentários, contribuíam para aumentá-lo. Poucos conheciam a fundo a biblioteca em todas as suas partes e artérias. Num dos periódicos concursos poéticos promovidos pelos Ptolomeus — já se estava na época do Evergeta —, foi preciso acrescentar um sétimo juiz ao júri; o soberano recorreu aos expoentes máximos do Museu, e eles lhe revelaram a existência de um douto chamado Aristófanes, originário de Bizâncio, que — disseram-lhe — "todo dia, o dia inteiro, não fazia outra coisa além de ler e reler atentamente todos os livros da biblioteca, seguindo pela ordem". Ordem que, portanto, Aristófanes conhecia perfeitamente. O que se viu logo depois, quando, para desmascarar alguns poetas plagiadores que estavam prestes a conquistar os melhores prêmios, abandonou a sessão do júri e, "confiando em sua memória" (assim explica Vitrúvio, ao narrar o episódio), foi diretamente a algumas estantes "bem conhecidas a ele", e pouco depois reapareceu, brandindo os textos originais que aqueles plagiadores haviam tentado impingir como seus.

Calímaco tentou uma classificação geral, com seus Catálogos subdivididos por gêneros, correspondentes aos outros tantos setores da biblioteca: Catálogos dos autores que brilharam em cada disciplina, tal era o titulo do enorme catálogo, que sozinho ocupava uns 120 rolos. Esse catálogo dava uma idéia da ordenação dos rolos. Mas certamente não era uma planta ou um guia, que só muito mais tarde, na época de Dídimo, seriam compilados. Os Catálogos de Calímaco serviam apenas a quem já tivesse prática. E, mesmo assim, por se basear no critério de arrolar somente os autores que haviam "brilhado" nos diversos gêneros, o repertório de Calímaco devia representar uma seleção, ainda que imensa, do catálogo completo. Épicos, trágicos, cômicos, historiadores, médicos, retóricos, leis, miscelâneas são algumas das categorias: seis seções para a poesia e cinco para a prosa.

Aristóteles pairava entre aquelas estantes, entre aqueles rolos bem-ordenados, desde que Demétrio ali transplantara a idéia do mestre: uma comunidade de doutos isolados do mundo exterior, guarnecida de uma biblioteca completa e um local de culto às Musas. A ligação se fortalecera com a longa permanência de Estrabão na corte. "O método e o gênio do Estagirita", escreveu um douto francês, "presidiam a distância à organização da biblioteca." Mas eram justamente as estantes destinadas a conter suas obras que davam pena de ver: praticamente apenas as obras divulgadas por Aristóteles em vida, se é que simplesmente não se insinuava alguma falsificação que depois seria dificílimo desalojar. Por outro lado, nada ou quase nada dos fundamentais Tratados, como eram chamadas na escola. Tratados cuja falta se fazia notar cada vez mais, agora que começavam a circular as listas, meras relações de títulos, redigidas no âmbito da escola, que evidenciavam, para além de qualquer dúvida ou ilusão, a burla de Neleu. Ou melhor, a própria profusão de listas aumentava o risco de conter falsificações, na medida em que — notava séculos depois um conhecedor inigualável como João Filopão — não faltavam obras homônimas, mas de outros autores (Eudemo, Fania, o próprio Teofrasto, para citar apenas os mais conhecidos), ou até obras de outros Aristóteles apressadamente confundidos com o Estagirita. Sem falar na ânsia do Evergeta em recolher todo o Aristóteles, rivalizando, ao que se dizia, com o rei da Líbia, apaixonado colecionador das obras de Pitágoras.

Mas a doutrina aristotélica, principalmente a crítico-literária, para não falar da técnica biográfica, inventada, pode-se dizer, pelos peripatéticos, era bastante conhecida — mesmo que pelas reelaborações de escola, a começar pelos tratados do próprio Demétrio, Sobre a Ilíada, Sobre a Odisséia, Sobre Homero. Ou melhor, nesse campo, a de Aristóteles era, a rigor, a única sistematização teórica, baseada — o que a tornava respeitável — não mais em nebulosas intuições, e sim numa coletânea de textos. Evidentemente, daqueles que puderam ser recolhidos. Totalmente diferente, em todo caso, do extravagante método de seu mestre Platão, que sem dúvida falava mal da poesia, mas não estava claro o quanto lera, pois, só para dispor dos poemas de Antímaco, tivera de esperar meses e meses até que lhe trouxessem um exemplar da Ásia Menor.

Aristóteles não se entregara a esses expedientes pueris e extremistas, tais como banir Homero da "cidade ideal". Sensatamente, classificara, de um lado, a Ilíada e a Odisséia e, de outro, os poetas do Ciclo épico, explicando de modo persuasivo por que aqueles dois poemas, construídos em torno de um único episódio, mostravam-se superiores em relação aos outros, meros encadeamentos de fatos sem um centro. Essa distinção fundamental, de que Demétrio certamente se apropriou em seus tratados homéricos, tornou-se um dogma para os doutos do Museu.

Zenódoto a aceitava sem sequer discuti-la; e, portanto, deduzia que o único autor dos dois celebrados poemas era Homero, e todo o restante cabia a outros. O mesmo valia, um século mais tarde, para Aristarco, o hipercrítico, que definia como simples "paradoxo" a teoria dos que — como Senão — "separavam" o autor da Ilíada do da Odisséia. E Calímaco, que, no entanto, como artista, não tolerava certas teorias de Aristóteles, apressava-se em ostentar num epigrama sua fé nesse ponto da doutrina: "odeio o poema cíclico, não suporto um caminho que me leva daqui e dali". Era, em versos, a teorização aristotélica sobre a ausência de uma verdadeira unidade naquela miscelânea puramente acumulativa em que consistiam os poemas cíclicos.

Por outro lado, por trás desse zelo doutrinai um pouco ostensivo, havia a intolerância. A intolerância em relação à doutrina do "uno e contínuo": “os Telquínios", escrevia Calímaco numa composição polêmica, "chiam contra mim como cigarras, porque não compus um único poema contínuo de milhares e milhares de versos". " Telquínios", "raça boa de roer o fígado", maléficos demônios: são impropérios contra rivais e adversários também atuantes no Museu. Não mencionado, mas muito presente, aquele Apolônio diretor da biblioteca até a morte do Filadelfo, autor de um grande poema em quatro livros, com milhares de versos cada um, concentrado em torno da história de Jasão e Medéia, mas dotado de todo o necessário pano de fundo narrativo, incluindo de ponta a ponta a viagem completa dos Argonautas em busca do velocino. Embora Calímaco não tivesse regateado mostras de devoção ao Filadelfo — cantara suas núpcias com a irmã Arsinoé e, posteriormente, a apoteose da rainha —, Apolônio continuara a gozar da confiança do soberano, preservando o prestigioso cargo de "bibliotecário". Ocupando-se dos Catálogos, Calímaco, em certo sentido, trabalhava sob suas ordens, o que certamente não aumentava seu bom humor. Como erudito, era aceito (ainda que, mais tarde, Aristófanes tenha precisado escrever um tratado inteiro de crítica a seus Catálogos, e que algumas idéias suas no campo minado das atribuições de tragédias ou orações às vezes parecessem realmente arbitrárias), mas como poeta era moderno demais, por vezes desnecessariamente sensual, como ao escolher para tema do hino a Palas justamente o episódio de Tirésias, vendo-a banhar-se: mais próximo, dir-se-ia, de certa poesia erótica dos judeus do que da cansativa moderação da Medéia de Apolônio. Tampouco se recusava, por um gosto quase ostensivo pela novidade, a se inspirar em certa literatura hebraica recentemente traduzida para o grego: versículos de Isaías cravejados num epigrama em dísticos elegíacos.

A resolução de todas essas tensões, em todo caso, vinha de cima. O senhor do viveiro das Musas, de qualquer forma, era o soberano. Quando o sofista Zoilo, segundo Vitrúvio, foi a Alexandria para recitar seus indignos ataques contra os poemas de Homero (vangloriando-se de ser seu "fustigador"), foi o próprio Ptolomeu em pessoa que o condenou à morte “por parricídio". O Museu, incluídos os doutos que lá viviam e os livros que aí se acumulavam, era seu, era um dos instrumentos de seu prestígio. A mudança do soberano, portanto, podia significar transformações profundas na gaiola. Com a ascensão do terceiro Ptolomeu ao trono, cuja esposa, Berenice, era uma princesa de Cirene, iniciou-se uma nova fase para Calímaco, conterrâneo da nova rainha e cantor da sua beleza. De Cirene foi chamado à corte o onisciente Eratóstenes, muito ligado a Calímaco; foi-lhe atribuída, além da educação do herdeiro ao trono, a direção da biblioteca. Tendo rompido com a corte, Apolônio abandonara o cargo, retirando-se para Rodes. A separação certamente não foi pacífica, pois Calímaco se inspirou na fuga de Apolônio para insultá-lo com um poema virulento, "cheio de veneno e sujeira".

Rigorosamente selecionados pelo soberano, protegidos por ele, livres de preocupações materiais: tal era a condição dos doutos do Museu. Quando saíam do Museu, continuavam no palácio. Por razões que permaneceram obscuras, Aristófanes de Bizâncio, que durante anos vivera entre aquelas prateleiras, lendo e relendo rolos, organizou uma fuga. Disseram que para chegar a Pérgamo, onde nesse ínterim surgira um centro rival. Mas o plano foi descoberto, e o grandioso erudito foi preso.



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