A biblioteca Desaparecida Histórias da Biblioteca de Alexandria – Luciano Canfora



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IX

A BIBLIOTECA RIVAL
Entrementes, os herdeiros de Neleu tinham de se precaver diante de perigo mais sério e mais próximo: a biblioteca de Pérgamo. Desde que ao trono subira Eumenes, o filho de Atalo, iniciara-se a caça aos livros, com métodos semelhantes aos praticados, já havia um século, pelos Ptolomeus. A rivalidade entre os dois centros teve conseqüências deletérias. Multidões de falsários entraram em cena. Ofereciam rolos de falsos textos antigos remendados ou até falsificados, que se hesitava recusar (quando a falsificação não era imediatamente visível), com o receio de que a biblioteca rival se aproveitasse disso. Não raro, tratava-se de hábeis manipulações, nas quais se misturavam o genuíno e o espúrio, não sem uma certa qualidade por parte dos solertes falsários.

Em Pérgamo, por exemplo, foi adquirida uma coleção completa de Demóstenes, aparentemente mais completa do que a reunida em Alexandria. Entre outras coisas, continha uma preciosidade: uma nova Filípica, que vinha preencher uma lacuna desagradável da coletânea corrente. Era a Filípica que Demóstenes pronunciara não propriamente na iminência da célebre e infeliz batalha de Queronéia (No verão de 338 a.C., em Queronéia, na Beócia, Filipe derrotou as forças aliadas de Tebas e Atenas), mas poucos meses antes: era a declaração de guerra, o último rugido do leão da liberdade grega antes da derrota. Uma aquisição extraordinária, portanto, que diminuía o valor das coletâneas correntes, ainda mais que se haviam conservado apenas doze discursos políticos de Demóstenes. Ou talvez apenas onze, se fosse válida a teoria de alguns críticos de Calímaco, segundo os quais o discurso Sobre Aloneso não era de Demóstenes, e sim de um certo Egesipo, amigo de confiança do orador. Em suma, era como encontrar um novo canto de Homero ou uma outra tragédia de Ésquilo.

O sucesso foi grande. Quem quisesse um Demóstenes recorria, desde então, à edição de Pérgamo, que afinal acabou permanecendo a canônica. Além do mais, a nova Filípica era acompanhada por um documento, uma Carta de Filipe dirigida aos atenienses: coisa insólita, na verdade, mas que não preocupou os doutos de Pérgamo exultantes com a admirável aquisição; pelo contrário, alegrou-os ainda mais, pois assim os novos textos eram, na realidade, dois. Não tardou a reação de Alexandria. Assim como o bom Aristófanes bizantino não fizera senão ir às suas estantes para desmascarar o poeta falsário, da mesma forma houve agora quem julgou que essa Filípica não lhe parecia totalmente nova, e nos tesouros da biblioteca localizou a fonte. Esse pretenso novo discurso de Demóstenes encontrava-se "ao pé da letra" no sétimo livro das Histórias filípicas de Anaxímenes de Lâmpsaco. Mas a descoberta da falsificação não afetou o sucesso da edição "completa" de Pérgamo. Até em Alexandria foi levada em consideração, procurava-se por essa edição, e os doutos do Museu, ainda na época de Augusto, ao comentarem Demóstenes, também comentavam a pseudo-Filípica, mas ressaltando previamente que não era autêntica. Um deles, que brilhava pela produtividade, mas não pela inteligência, o famoso Dídimo, dito "entranhas de bronze", escreveu um tanto comicamente: "alguns sustentam que o discurso não é autêntico porque se encontra tal e qual nas Filípicas de Anaxímenes"! Dificilmente a vitória de uma reconhecida falsificação poderia ser mais completa.

Outras vezes, os próprios eruditos se divertiam em forjar falsificações. O que, aliás, continuaram a fazer por divertimento, até épocas muito recentes. Um certo Cratipo escreveu uma obra histórico-erudita na qual se fazia passar por ateniense, contemporâneo e íntimo de Tucídides; uma obra estranha que, com juízos e conhecimentos posteriores, propunha-se narrar, como anunciava o título, Tudo o que Tucídides não disse. O livro não foi levado a sério em Alexandria; além do mais, Cratipo, que não deixou de abordar, apoiando-se nas descobertas arqueológicas de Polêmones de Ilio, o problema da tumba de Tucídides, citava um autor recente, um certo Zópiro. Assim se traía, ou talvez intencionalmente destruía a ficção. E Dídimo, que fizera um estudo específico sobre a questão, tratou a ambos — Zópiro e Cratipo — como eruditos, a seu dizer, "delirantes". Mas isso não impediu que Dióniges de Halicarnasso (cuja erudição era de matriz pergamense) e, mais tarde, Plutarco utilizassem Cratipo como se fosse realmente o que pretendia ser: um contemporâneo de Tucídides, informado das razões secretas pelas quais o historiador ateniense se cansara, a certa altura, de incluir discursos diretos em suas Histórias.

Mas, para desacreditar os rivais, não existiam apenas essas armas. Inventavam-se histórias inverossímeis: como, por exemplo, a posta em circulação em Pérgamo, segundo a qual o Evergeta teria roubado dos atenienses os "originais" dos três trágicos com um vulgaríssimo ardil. História incrível, visto que indubitavelmente não podiam ser os originais, e sim o texto “oficial" que o orador Licurgo mandara preparar na época de Demóstenes; um texto que Aristóteles, estudioso do teatro, certamente conhecia e que, por conseguinte, devido à relação privilegiada com os peripatéticos, devia ter chegado a Alexandria muito antes que Ptolomeu Evergeta viesse ao mundo. O conflito se exacerbou quando o Egito interrompeu a exportação de papiro. Pretendia ser um modo rápido, ainda que deselegante, de dobrar a biblioteca rival, tirando-lhe o mais cômodo e usual material de escrita. A reação em Pérgamo foi o aperfeiçoamento da técnica, de origem oriental, do tratamento do couro (por isso chamado de "pergaminho"): material destinado a prevalecer séculos mais tarde, quando mudou a forma do livro. Mas o conflito era bem mais profundo. A orientação dos estudos em Pérgamo era muito diferente da de Alexandria. Influenciados pelo pensamento estóico, os eruditos de Pérgamo colocavam perguntas aos textos antigos — e desenvoltamente davam respostas — de arrepiar os cabelos dos eruditos de Alexandria. Com sua teoria da anomalia, os pergamenses deixavam no texto qualquer esquisitice. Critério laxista, mas, a bem da verdade, menos nocivo do que o arbítrio de quem condenava frases inteiras de textos célebres, por exemplo da Coroa demostênica, com o argumento de serem "vulgares" demais para se poder realmente atribuí-los ao grande orador. Enquanto os alexandrinos, estudando o léxico e fazendo cuidadosos cotejos, haviam penosamente chegado a conclusões que julgavam irrefutáveis (como quando Aristarco, depois de tanto trabalho, concluíra que Saicanão podia significar "refeição" no quinto verso da Ilíada, por ser um termo usualmente relativo aos homens, não às feras), os doutos de Pérgamo não se incomodavam com sutilezas e tudo justificavam invocando a panacéia da anomalia. A eles interessava o saber "oculto", o que estava "dentro" dos antigos textos, principalmente em Homero: a "alegoria", como diziam, encerrada naqueles poemas, que os alexandrinos, pelo seu lado, tinham se esforçado pacientemente em explicar verso por verso, palavra por palavra, obstinando-se a cada vez que julgavam não fazer sentido.

É claro que, em alguns casos, seria difícil tomar partido: entre o implacável Zenódoto, que considerara uma falsificação em bloco os 125 versos da Ilíada que descrevem o escudo de Aquiles, com o argumento desarmante de que no poema não existem casos semelhantes, e o fantasioso Crates, principal expoente da escola de Pérgamo, que julgava demonstrar que, na verdade, com aquele escudo, Homero pretendia algo totalmente diferente, nada menos que a descrição dos dez círculos celestes. Tudo isso, evidentemente, agradava muito aos estóicos, cujo pensamento se difundia cada vez mais entre os cultos. Mesmo um gênio como Possidônio raciocinava sobre Homero nesses termos, e acreditava ter descoberto no andamento dos dois poemas a teoria das marés.

Portanto, ao contrário do que acontecia em Alexandria, em Pérgamo não se preocupavam muito com o autêntico Aristóteles. Nem nas minúcias. Assim, na disputa sobre o local de nascimento do poeta Alcman, os pergamenses inclinavam-se por Sarde (aliás, Aristarco também), contra a tese da origem espartana; mas o fato de terem a própria autoridade de Aristóteles a seu lado deixava-os totalmente indiferentes. A cobiça de seus soberanos e bibliotecários quanto aos cimélios que se dizia estarem em Scepsi, nas mãos dos descendentes de Neleu, nascia mais por uma razão de prestígio: o fato de ter por perto esse tesouro, e principalmente o desejo de pôr as mãos no espólio que escapara aos Ptolomeus.

Mas os herdeiros de Neleu, que — dizia Tiranião desconsolado — "eram uns ignorantes", pensaram que bastaria esconder seu tesouro para salvá-lo e evitar vê-lo acabar na biblioteca do palácio. Assim, escavaram um buraco muito profundo sob a casa, lá depositaram os valiosos rolos e não se preocuparam mais com eles. Consideravam-nos bens a serem entesourados, e não livros para serem estudados. Não previram os efeitos da umidade e das traças.


X

ARISTÓTELES REAPARECE, E SE PERDE
O último soberano de Pérgamo, ao morrer, deixou seu reino em herança para o Senado e o povo romano. Daí resultou uma revolução que pôs o reino em estado de guerra e dificultou aos romanos a aquisição da inesperada herança. Os revoltosos, chefiados por um tal Andrônico que se pretendia um rebento ilegítimo da família real, souberam escolher um momento no mínimo oportuno: em Roma, o Senado tinha de enfrentar Tibério Graco, e na Sicília não se conseguia aplacar a revolta de centenas de milhares de escravos. Quando finalmente cessara a tempestade e o ex-reino de Pérgamo enfim se tornara a "província romana da Ásia", um descendente de Neleu (não sabemos quem) desenterrou os rolos e vendeu por muito ouro a um bibliófilo originário de Téos, um tal Apeliconte, esses livros que em sua época haviam sido negados aos mais generosos soberanos helenistas.

Apeliconte, que também era cidadão honorário de Atenas, ufanava-se de ser ainda filósofo, evidentemente peripatético (embora a escola não mais existisse em Atenas). Na realidade, um maníaco por antigüidades, e também um tanto desonesto. Em Atenas, por exemplo, ele havia roubado, sempre para atender a essa sua mania, alguns manuscritos autógrafos de decretos áticos depositados no arquivo do Estado. Por esse furto, pouco faltou para que fosse condenado à pena capital. Mas a grande história freqüentemente se encarrega de imprimir desenvolvimentos inesperados às pequenas vicissitudes dos indivíduos. Para sorte de Apeliconte, instalou-se no poder em Atenas uma personagem que também havia freqüentado os peripatéticos, o "tirano" Atenião, e foi-lhe fácil cair em suas boas graças. Entre outras coisas, utilizando com serena imperícia os rolos que adquirira, ele remendara uma edição, a primeira edição, do Aristóteles que se julgava perdido: uma edição deplorável — lembrava Tiranião, que a tivera nas mãos —, na qual o estulto bibliófilo suprira com a fantasia tudo o que as traças haviam roído no papiro e apagado no texto. Mas ganhara prestígio com a infeliz empreitada, especialmente junto a Atenião, que aprendera filosofia com o pobre Erimneu, última sombra do finado Perípato.

Atenião provavelmente não tinha direito à cidadania, visto que — dizia-se — sua mãe era escrava. Mas era também um bom demagogo. Quando Mitrídates, o último grande soberano helenista capaz de enfrentar os romanos, demoliu as defesas romanas na Ásia e invadiu a Grécia, Atenião prontamente ofereceu-se a ele. Enviava constantes mensagens a Atenas, prometendo que Mitrídates restauraria a democracia; garantia que o domínio romano na Ásia agora terminara. Quando a situação lhe pareceu madura e segura, decidiu voltar a Atenas. Mas uma tempestade arremessou seu navio contra a ponta sul de Eubéia, perto de Caristo. Espalhou-se a notícia do desastre, e de Atenas saiu um cortejo de navios para resgatar o herói, por cuja vida se temera, com uma liteira com pés de ouro para acolher o novo Alcibíades. A sua chegada no Pireu, repetiu-se a cena, muitas vezes relembrada pelos historiadores, do retorno do Alcmeônida: uma imensa multidão — escreveu uma testemunha excepcional como Possidônio — afluíra ao molhe, "para admirar o paradoxo do destino: Atenião, o cidadão sem direitos, levado à cidade numa liteira de luxo, com os pés apoiados em tapetes de púrpura, ele que antes não vira púrpura nem nos mantos".

Aumentava a multidão atrás do séquito: todos se empenhavam em tocar o novo chefe, mesmo que apenas em seu trajes. Finalmente, chegaram ao pórtico de Atalo. Ele subiu à tribuna diante de uma multidão extraordinária. Começou correndo a vista ao redor e depois, com o olhar fixo à frente, quando agora se fazia o máximo silêncio em volta, por fim disse: "Atenienses! Sinto que deveria revelar-vos aquilo de que tenho conhecimento, mas a enormidade da revelação me impede...". Um estrondo se elevou da praça. Todos os presentes gritavam em uníssono e imploravam que ousasse, que finalmente falasse. Não se fez de rogado. "Pois bem", disse ele, "anuncio-vos aquilo que nunca teríeis esperado, nem mesmo em sonhos: neste momento, o rei Mitrídates é senhor de toda a Ásia, da Capadócia à Cilícia. Os reis da Pérsia e da Armênia como sicários o seguem." A seguir a notícia mais • saborosa: "O pretor romano Quinto Ópio se rendeu, segue acorrentado ao carro do rei. Mânio Aquílio, o cônsul que chacinou os escravos da Sicília, é arrastado a pé sob forte escolta; ao seu lado, na mesma corrente, foi amarrado um enorme bárbaro danubiano. Os romanos estão tomados pelo pânico: alguns se disfarçam de gregos, outros se jogam súplices por terra, outros simplesmente negam ser romanos. Do mundo inteiro chegam mensageiros a Mitrídates para pedir-lhe a destruição de Roma! Aqui fez uma pausa, para que os presentes pudessem dar vazão ao entusiasmo.

Quando retornou o silêncio, Atenião desferiu o golpe que havia reservado, a proposta conclusiva: "Qual é, pois", perguntou para seduzir ainda mais o público, "a minha proposta, atenienses?". Reconhecia-se Demóstenes, de quem realmente se apropriava, com aquelas palavras, de uma famosa expressão. "Eis", respondeu a si mesmo, "a minha proposta. Chega de templos fechados! E de ginásios abandonados! E do teatro deserto! Mudos tribunais e a Pnix deserta." E prosseguiu — garante Possidônio — por um bom tempo nesse tom, até a multidão aclamá-lo ali mesmo, imediatamente, como "comandante supremo". Então se regozijou, mas lembrando-se da inveterada cultura democrática dos seus ouvintes: "Agradeço-vos", disse, "aceito. Mas sabei que de agora em diante sois vós que governais a vós mesmos. Sou apenas vosso guia. Se me sustentardes, minha força será vossa força". E imediatamente propôs uma lista de arcontes (Colina de Atenas onde se reunia a assembléia do povo), aprovada antes mesmo que terminasse de lê-la. Porém, poucos dias depois — observa Possidônio —, esse peripatético que parecia um ator no palco proclamou-se "tirano", nas barbas dos ensinamentos de Aristóteles e de Teofrasto: máxima demonstração — observa o filósofo — do princípio jamais refutado de não se dar uma espada a crianças. De fato, logo ficou clara a natureza do regime. “As pessoas de bem'' — assim se expressa Possidônio — fugiam descendo pelos muros da cidade. Mas Atenião lançava a cavalaria ao encalço delas, e quem não fosse trucidado no local era reconduzido acorrentado para a cidade. O novo "tirano" confiava missões ao fiel Apeliconte. Enviou-o a Delos, mantendo-o como conselheiro. A conduta de Apeliconte em Delos foi catastrófica: o comandante romano pegou-o de surpresa, e ele teve de fugir às pressas, enquanto seus homens eram aniquilados. Nesse meio tempo, a situação se precipitava. Silas apertou o cerco a Atenas e venceu-a em 19 de março de 86 a.C.

Embora os derrotados invocassem seu grandioso passado, quis puni-los exemplarmente com um saque que, diante dos protestos de alguns, assim justificou friamente: "Não estou aqui para aprender história antiga". Entre as primeiras vítimas estava Apeliconte. Quando sua casa foi invadida pelos legionários e ele compreendeu que era o fim, sentindo-se um dos últimos mártires do pensamento grego, esperou dignamente a morte entre seus livros. Sua rica biblioteca — que, segundo Possidônio, compreendia não só Aristóteles, mas também muitos outros autores — passou a fazer parte do espólio pessoal de Silas.

Anos depois, numa das villae do ditador, os poucos íntimos a que era permitido entrar podiam admirar uma autêntica raridade: os velhos e esfarrapados rolos de Neleu de Scepsi. Ao bibliotecário pessoal de Silas cabia a tarefa de desenrolá-los sob os olhos dos visitantes, e ficava ali olhando enquanto se faziam, talvez, algumas cópias. Mas esse bibliotecário não era incorruptível. Sabe-se, por outro lado, que os estudiosos estão dispostos a mais de uma baixeza para deitar as mãos sobre o livro desejado.

Em Roma vivia Tiranião, que chegara à capital como prisioneiro de guerra, sendo libertado e logo se tornando, graças à sua elevada cultura, amigo de Ático, Cícero e seu círculo. Estudioso sério e bibliófilo (constituíra uma biblioteca particular com milhares de rolos), era um devoto do pensamento aristotélico e bastante ciente de que, muito ao contrário do que fizera o imprudente Apeliconte, poderia tornar frutíferos aqueles preciosos originais. Aparecia freqüentemente na villa, conversava com o bibliotecário (Silas já morrera havia um bom tempo), falava com ele sobre filosofia e gramática. Começou a fazer ofertas; acabaram por lhe emprestar os rolos e pôde dedicar-se ao que tanto almejara. Era calmo, não tinha pressa. Não podia imaginar que o venal bibliotecário já prestara serviço semelhante a muitas outras pessoas, especialmente a alguns livreiros inescrupulosos que passaram a vender desenfreadamente cópias e cópias, servindo-se de péssimos copistas. Em Roma, entre os ricos, estourara a mania de encher a casa de livros. "Para que servem", trovejava um filósofo estóico, “coleções inteiras de livros se ao longo da vida o dono mal consegue ler os títulos? Dedica-te a poucos autores, não vagueies entre muitos!

Tiranião estava desconsolado. Deixou de lado e confiou todo o trabalho às mãos do mais respeitável peripatético em circulação, o grande lógico Andrônico de Rodes, a quem coube também a ingrata tarefa de subdividir em livros os Tratados do mestre. Nesse ínterim, os originais haviam voltado à biblioteca de Silas, havia algum tempo nas mãos de seu filho Fausto, genro de Pompeu. Eram consultados em sua casa, freqüentada pela elite cultural de Roma. Há uma carta de Cícero a Ático, escrita na villa de Fausto Silas: "Estou na biblioteca de Fausto", escreve com ímpeto singelo, “e me deleito", e vem-lhe à mente o gabinete de Ático, onde há um banquinho exatamente sob o busto de Aristóteles, e gostaria de ali estar naquele momento, sentado no banquinho à sombra do Estagirita, e de passear com o amigo na casa dele, em vez de [estar sentado] in istorum sella curuli [numa cadeira curial].

Mas Fausto era um megalomaníaco (em Jerusalém, quando Pompeu violou o Templo, quis ser o primeiro a irromper) e também um perdulário. Afundado em dívidas, teve de vender tudo, inclusive a biblioteca paterna. E assim os rolos de Aristóteles desapareceram para sempre. Não consta que, de Alexandria, tivessem-nos procurado alguma outra vez. Lá pairavam outras inquietações, enquanto o país se via transtornado pela crescente desordem dinástica. Na mesma carta a Ático, escrita na villa de Fausto, Cícero mencionava notícias sobre uma volta do rei egípcio ao trono e pedia confirmação.


XI

O SEGUNDO VISITANTE
Um cidadão romano matou um gato numa rua de Alexandria — talvez tivesse perdido a cabeça. Depois retirou-se para casa, não sem certa inquietação. Passadas algumas horas, a casa estava cercada. Se não conseguisse fugir — coisa, aliás, impossível no momento —, a morte seria inevitável: a praxe dispensava qualquer formalidade. Diodoro, que presenciou a cena, viu chegarem, coisa inaudita, oficiais enviados pessoalmente por Ptolomeu, e implorarem à multidão que poupassem a vida do romano. Mas tudo foi inútil. A calma só voltou quando o cadáver, irreconhecível, jazia, único sinal humano, na rua deserta.

Diodoro não ignorava as razões do súbito acesso de loucura. Estava em Alexandria havia um bom tempo. Observara o culto do povo por aqueles animais semiferozes que também começavam a aparecer na Sicília (ele era de Agírio) e na Itália meridional, mas eram mantidos a distância dos animais domésticos, sendo o terror destes. Agora sabia, e sabia se orientar: por exemplo, gritar "Já estava morto!" se por acaso se deparasse pela rua com a carcaça de um gato, não rir se visse alguém se inclinar à passagem do felino, e assim por diante. Não era o que mais o perturbava. O que lhe parecia incrível era a cegueira dos assassinos. Linchar um cidadão romano (e ainda por cima por um motivo desses), enquanto em Alexandria encontravam-se os representantes de Roma, finalmente dignando-se em tratar com Ptolomeu, "o flautista" [Aulete] (como era chamado pelo povo), a concessão de um reconhecimento oficial e o título de "amigo e aliado" do povo romano.

Fazia vinte anos, desde que subira ao trono, que pendia sobre a cabeça do "flautista" a ameaça de perder o trono por culpa daquele idiota criminoso que fora seu predecessor. Cujo único gesto, em seu curtíssimo reinado, fora, após a tentativa de profanação da tumba de Alexandre, deixar o reino do Egito como herança aos romanos. O louco, que pelos alexandrinos fora estigmatizado como "o clandestino", em Roma gozava de uma boa imagem: por ter sido prisioneiro de Mitrídates e em 86 a.C. ter conseguido fugir para o campo de Silas, com o qual chegara a Roma. Ali sempre deram mostras de levar o seu testamento muito a sério: um expediente para chantagear o "Aulete" e extorquir-lhe dinheiro, do que muitos se aproveitaram, personagens miúdas e menos miúdas também (que, em todo caso, trabalhavam para os graúdos). E agora que finalmente tinham-se dignado a reconhecer seu direito, além do caráter infundado daquele absurdo testamento, só faltava aquele gato, com o triste e inevitável epílogo do incômodo incidente.

Mas, por sorte, César era homem de palavra, palavra corroborada pelos 6 mil talentos pagos por Ptolomeu. Entretanto, agora eram os alexandrinos que começavam a não suportar mais aquele soberano incompleto e acabaram por expulsá-lo. E foram necessários três anos para que Gabínio, com a permissão de Pompeu, o reconduzisse ao trono, bem naquela época em que Cícero pedia a Ático a confirmação do que se passara.

Diodoro, que era de Agírio, no centro da Sicília, fora ao Egito para compilar uma grande obra histórica. Bem sabia que, como dizia Políbio, os historiadores se dividem em duas categorias: os que mergulham na experiência concreta e dela extraem o material para suas obras (era para eles que Políbio reservava todo o seu apreço) e os que, mais comodamente, mudam-se "para uma cidade bem guarnecida de biblioteca", e lá, numa mesa, diria Ariosto, viajam "com Ptolomeu". Diodoro pertencia a estes últimos. Entende-se que, em vista do prestígio das idéias de Políbio entre o público grego e romano, era preciso mostrar um pouco de experiência. E, com efeito, Diodoro inventa uma série de viagens jamais realizadas: "Viajamos", escreve o filósofo na introdução, "por grande parte da Ásia e da Europa, enfrentando todos os tipos de sofrimentos e perigos, com o propósito de sermos testemunhas de tudo ou da maior parte do que narramos. Bem sabemos", continua ele, "quantos erros de geografia cometeu grande parte dos historiadores, certamente não os primeiros que aparecem, mas alguns dos de primeira grandeza". Na verdade, essas palavras duras e rigorosas, ele as retoma integralmente de Políbio. Viagens, fizera uma só: a para o Egito.

E sem dúvida, para quem procurava uma cidade com bibliotecas, Alexandria era uma escolha mais do que sensata. Naturalmente, havia Roma, muito mais próxima, mas lá era preciso entrar nas graças de algum grande senhor ou de algum erudito que tivesse a casa cheia de livros, como Silas, ou Lúculo, Varrão ou Tiranião. Mas o Egito o atraía também por outras razões. Formara uma opinião própria sobre a importância desse país. Dos livros com que se nutrira, tirara a conclusão de que lá começara a história. Lá nasceram os deuses, lá se originara a vida e se fizeram as mais antigas observações dos astros. Para um apaixonado pela astrologia estoicizante, como ele, o Egito de Nequepso e Petosíris ou de Hermes Trismegisto era a terra ideal. Portanto, que melhor decisão senão a de ir exatamente para lá, onde havia profusão não só de livros, mas também de sacerdotes prontos a narrar e mostrar, aos curiosos como ele, os antiqüíssimos anais conservados nos templos? Alexandria o fascinou com sua riqueza: pareceu-lhe que nessa cidade tão populosa havia mais ricos do que em todas as outras metrópoles. É claro que também teve de ir a Roma, familiarizando-se com a língua, para a parte romana de sua obra. Que devia ser universal e, por isso — segundo sua visão do mundo —, tripartite: Grécia, Roma, Sicília. A estada em Roma — garante ele — foi longa e confortável, como era de se esperar na cidade "excelsa", "que estendeu seu domínio até os confins do mundo". E assim se desincumbe da convencional homenagem.

Sua maneira de trabalhar era muito elementar. Não fazia outra coisa senão resumir e, em alguns casos — quando, por exemplo, o assunto já lhe parecia muito explorado na fonte -, copiar livros já conhecidos. Dessa forma, reuniu quarenta grandes rolos, ou melhor, 42, visto que o I e o XVII, dadas suas dimensões, tiveram de ser divididos em dois. Concluiu o trabalho na volta, vários anos mais tarde, e deu-lhe o título de "Estante de história" — Biblioteca histórica —, merecendo o divertidíssimo elogio póstumo de um cientista como Plínio, para quem esse título representava quase que uma guinada na história da historiografia: "Entre os gregos", escreveu, "foi Diodoro que deixou as extravagâncias de lado e intitulou sua história de Biblioteca'.

Utilizou obras bastante comuns, ou até óbvias, como Éforo para a história grega e Megástenes para a indiana. Para suas necessidades, bastava uma biblioteca como a que surgira fora do palácio, a dita “filha", concebida justamente para os estudiosos estranhos ao Museu, ou — como pomposamente dizia o reitor Aftônio — “para pôr toda a cidade em condições de filosofar". Fora montada, parece que já pelo Filadelfo, no recinto do templo de Serápis, no primitivo bairro egípcio de Rhakotis onde nascera Alexandria, e lá foram colocadas duplicatas vindas do Museu. Na época de Calímaco, a "filha" já dispunha de 42 800 rolos. Ao contrário do Museu, para lá não afluíam de todas as partes dezenas e dezenas de milhares de rolos, dos quais, a seguir, pelo trabalho dos doutos e copistas, brotavam os selecionadíssimos exemplares definitivos: possuía apenas cópias, ótimas cópias, das boas edições elaboradas no Museu.

O Museu, Diodoro sequer o cita. Nem quando descreve a planta de Alexandria, especialmente o palácio, usando as mesmas expressões (coisa singular) — e dispostas na mesma seqüência — depois empregadas por Estrabão (que, pelo contrário, também falou do Museu). Suas leituras prediletas foram de um gênero específico, no mínimo abundante no Egito da época: romances histórico-utópicos como a Escritura sagrada de Evêmero, o "romance" de Tróia e o das Amazonas de Dioniges "braço de couro", e ainda os relatos misteriosóficos sobre Osíris, sincreticamente identificado com o benévolo Dioniso dos gregos, e principalmente as Histórias do Egito de Hecateu de Abdera. Gostava muito de Hecateu. Quase todo o primeiro livro da Biblioteca é calcado nele, e Hecateu reaparece no último livro, o quadragésimo, como fonte rica de informações, não isenta de admiração, sobre Moisés e o povo judeu. A leitura de Hecateu fortaleceu sua convicção sobre a maior antigüidade dos egípcios (embora seu Éforo pensasse de outra forma a esse respeito). Dele extraiu a idéia da identidade profunda e essencial, no campo da justiça, entre gregos e egípcios, e ainda mais o mito da antiga sabedoria egípcia que depois veio a inspirar os legisladores das outras nações — idéia que também era uma réplica ao predomínio greco-macedônio sobre o Egito. E muitas outras idéias singulares: entre elas, a da estreita relação entre o número dos habitantes e as dimensões dos edifícios, de onde — concluía ele — bom político será, como Moisés, quem souber promover o aumento demográfico do seu povo.

Diodoro foi também a Tebas. Seguindo as indicações do livro de Hecateu, dirigiu-se aos vales das tumbas reais. Mas, constatou que, "na época" — como escreve — “em que chegamos a esses lugares", as dezessete tumbas remanescentes vistas por Hecateu também "estavam em grande parte arruinadas". O mausoléu de Ramsés ainda existia, e Diodoro quis descrevê-lo. Não podendo entrar nele, limitou-se a retomar, o mais fielmente possível, a descrição de Hecateu. Copiou-a cuidadosamente, sem se incomodar com as extravagâncias e obscuridades. E o único caso, o do mausoléu de Ramsés, em que Diodoro, que mesmo no livro egípcio a cada passo recorre a Hecateu, cita explicitamente o nome de seu autor. Sinal talvez da relevância que Hecateu, em seu livro, mostrava atribuir à visita a Tebas, e particularmente à planta daquele mausoléu.



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