A biblioteca Desaparecida Histórias da Biblioteca de Alexandria – Luciano Canfora



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XII

A GUERRA
Ao anoitecer, uma pequena embarcação aproximara-se desapercebida do palácio. Pouco depois, um homem, com a aparência de um mercador de tapetes, pedira para ser levado à presença de César. Disse chamar-se Apolodoro e vir da Sicília. Ao ser recebido, desenrolou seu fardo sob os olhos divertidos do general romano. Dele, estirada em todo seu comprimento, aliás, não excessivo, surgiu Cleópatra, que, para se disfarçar, vestira justamente um "saco de linho, daqueles usados para transportar tapetes. Quando o saco se abriu, narra Plutarco, César ficou fascinado "com a desfaçatez da mulher", que de fato, sem constrangimento, entabulou com ele uma charmante conversa em grego.

Embora hóspede do rei Ptolomeu, César assumiu de bom grado o papel de mediador na disputa que se desenrolava entre os dois régios irmãos, filhos daquele "Aulete" que tanto o ajudara no início de sua não fácil carreira. E, embora não propriamente tranqüilo, visto o destino que pouco antes coubera a Pompeu, aceitou que o acordo restabelecido fosse sancionado por um faustoso festim. Durante o festim, porém, nem tudo estava tranqüilo no imenso palácio. Áquila, o influentíssimo general de Ptolomeu que já havia arquitetado a fatal armadilha contra Pompeu, tramava numa sala afastada, junto ao eunuco Potino, o pérfido tutor do rei, com o fito de aproveitar a confusão e a excitação do festim para liquidar também a César. Mas o barbeiro de César, seu fidelíssimo escravo, o homem mais medroso do mundo, não se sentia tranqüilo. Toda aquela festa montada para despertar a admiração do hóspede não o agradava de forma alguma. Começou a escutar deslizando pelos corredores e salas, até chegar atrás da porta que escondia Áquila e Potino. Entendeu imediatamente, correu para avisar César. César mandou cercar aquela ala do palácio e tentou surpreender os dois em flagrante. Potino foi pego e morto, mas Áquila conseguiu fugir e inflamar, tão logo saiu, a insurreição de Alexandria contra o hóspede preso no palácio com suas poucas tropas.

Talvez César nunca tenha se encontrado numa situação estrategicamente mais infeliz. "Não confiando nos muros da cidade", escreveu Lucano no poema sobre a guerra civil, "entrincheira-se por trás das portas do palácio: assim ruge uma nobre fera em estreita jaula e raivosa quebra os dentes mordendo as barras." "O audaz", prossegue Lucano, "que pouco antes na Tessália não temera o exército do Senado e Pompeu, agora tremia por um complô de escravos, deixando-se cobrir de dardos no recinto de um palácio.''

Na verdade, como primeira manobra para conquistar o palácio, Áquila mandara cortar as adutoras de água. A seguir, com seu exército sui generis, cheio de desertores romanos da época de Gabínio, que combatiam como leões por muito valorizarem a sobrevivência de uma zona franca e hospitaleira como o reino do Egito, tentou um ataque de tropas também pelo mar. Mas César, apesar da escassez de homens, conseguiu deter o ataque: "mesmo sitiado", escreve Lucano, "lutou como um sitiador". Depois disso, um incêndio, ateado pelos homens de César aos sessenta navios ptolomaicos ancorados no porto e que se espalhou para outras zonas da cidade, afrouxou o torniquete do cerco ao palácio e obrigou os assediadores a acorrerem para onde se propagava o incêndio.

A única descrição disponível da dinâmica do incêndio é a de Lucano. Sitiado no palácio, César "ordena que se joguem tochas embebidas em piche sobre os navios prontos para o ataque". Como o palácio dispõe de um paredão sobre o mar (contra o qual Áquila inutilmente lançava seus navios), é de se imaginar que as tochas embebidas em piche foram atiradas contra os navios exatamente desse lado do palácio. "O fogo não tarda a se alastrar", prossegue Lucano, "sobre as amarras e os tabuados gotejando cera”. Enquanto os primeiros navios começam a afundar, envolvidos pelas chamas, "o fogo se espalha para além dos navios. As casas próximas às águas também se incendiaram. O vento "favorece o desastre; as chamas, impelidas pelas lufadas, correm pelos tetos com a velocidade de um meteoro". "A desgraça chama de volta a massa dos sitiantes do palácio para a defesa da cidade." César aproveita a pausa oferecida pelo incêndio, e segue para Faros. Assim dominará o acesso marítimo à cidade, enquanto aguarda os desejados reforços.

Desenvolvendo-se a distância do palácio, o incêndio, portanto, arrastou os sitiantes para longe. O fogo, evidentemente, atingiu em primeiro lugar a zona do porto: os arsenais, e ainda os armazéns-depósitos "do trigo e dos livros". Nesses edifícios, imediatamente vizinhos às instalações portuárias, encontravam-se "por acaso", no momento do incêndio, cerca de 40 mil rolos de livros de ótima qualidade. As duas detalhadas informações devem-se, respectivamente, a Dião Cássio e a Orósio, dois autores que — como, aliás, também Lucano — retiram o seu material de Tito Lívio. César, pelo contrário, no relatório por ele mesmo redigido sobre as fases iniciais da guerra de Alexandria, embora relembre o incêndio dos navios e estenda-se sobre sua relevância estratégica, não menciona em momento algum a destruição de mercadorias (trigo, livros) guardadas nos depósitos do porto. E um lugar-tenente seu, que continuou os Comentários após a morte de César, chega a exaltar o valor do material de construção usado em Alexandria, justamente por ser refratário aos incêndios.

Por estar fora de hipótese que os depósitos do Museu se encontrassem no exterior do palácio e estivessem guardados no porto junto aos armazéns de trigo, é quase supérfluo observar que, por conseguinte, os rolos incendiados não tinham relação alguma com a biblioteca real. Quanto a rolos do Museu, Orósio certamente não diria, parafraseando Lívio, que se encontravam ali "por acaso". Portanto, eram mercadorias. Mercadorias destinadas ao rico e exigente mercado exterior: Roma, por exemplo, e outras metrópoles cultas, para as quais trabalhavam os impudentes livreiros de Alexandria, que Tiranião, em seu pouco apreço por eles, equiparava aos de Roma.

2. Planta da Alexandria ptolomaica, reconstrução de Gustav

Parthey.
XIII

O TERCEIRO VISITANTE
Assim, a biblioteca permaneceu incólume durante o conflito, o primeiro que se consumou nas ruas da capital ptolomaica. Não houve um "saque" de Alexandria. César obteve a vitória definitiva quando finalmente lhe chegaram os reforços, fora dos muros da cidade. Liquidado Ptolomeu, afogado no Nilo, no trono colocou Cleópatra, e ao lado, em trajes de marido oficial, o outro irmão, Ptolomeu XIV. Na verdade, o príncipe consorte era ele mesmo, ao qual Cleópatra prudentemente deu um filho, jocosamente chamado pelos alexandrinos de "Cesarzinho" (Kaisarion). Ou, pelo menos, convenceu-o de que era dele.

Sabe-se quanto essa estranha idéia de César de querer ser o rei do Egito, não podendo fazê-lo abertamente em Roma, inquietou seus inconformados inimigos, assim como a uma parte de seus próprios seguidores. Na verdade, se se olham as coisas de um ponto de vista que não o dos senadores e cavaleiros romanos, para os quais o resto do mundo era apenas uma vaca a ser ordenhada e o capricho de César por Cleópatra um incidente aborrecido, é preciso reconhecer que havia séculos o Egito não tinha tanta importância e prestígio como agora com a rainha. A qual, justamente por isso, alguns anos depois, quando César foi tirado do caminho, precisou aparecer igualmente charmante a Antônio. Ele, como se sabe, era intelectualmente muito menos exigente e complicado do que César; mesmo assim, empenhou-se em fazer boa figura junto a ela. As más línguas diziam que decidira presenteá-la, entre outras coisas, com 200 mil rolos da biblioteca de Pérgamo. E a calúnia (pois o era) queria talvez ridicularizar o ignorante em letras, que doava livros (a rigor, do Estado romano) à rainha em cujas terras se encontrava a maior e mais celebrada biblioteca do mundo.

Quando Cleópatra foi derrotada, justamente em razão do risco que se correra, percebido e expresso por Horário num poema de franca e autêntica exaltação, o Egito recebeu um estatuto especial, sob dependência direta de Otaviano. O príncipe restaurador da república quis assegurar que o palácio de Alexandria nunca mais viria a se tornar o centro de um perigoso poder pessoal para alguém. Por outro lado, dizia-se que César, temendo o mesmo risco, teria preferido transformar o Egito não numa província, mas em seu protetorado pessoal. E a experiência posterior, na verdade, dera-lhe razão. O primeiro prefeito do Egito, aquele Cornélio Galo que vencera Antônio na escaramuça final fora de Alexandria, mal havia se instalado na nova província e já recobria pirâmides e obeliscos com epígrafes trilíngües louvando suas glórias. Uma, enorme, quis simplesmente inscrevê-la na ilha sagrada de Elefantina, de simbólica relevância, na primeira comporta do Nilo, onde os faraós reuniam os exércitos para suas campanhas. Afinal, logo foi preciso convencê-lo a matar-se voluntariamente. O que fez em 26 a.C.

No ano seguinte, no séquito do novo prefeito do Egito — Hélio Galo —, um visitante excepcional iniciava uma longa permanência egípcia, que durou quase cinco anos. Era o estóico Estrabão, já conhecido entre os doutos pela sua Continuação de Políbio, publicada havia pouco.

Originário de Amasséia no Ponto, a cidade natal de Mitrídates, com quem sua família mantinha antigas ligações, quando muito jovem estudara em Alexandria sob a orientação do peripatético Senarco, e depois em Roma, onde esteve próximo a Tiranião (que lhe relatara a complicada odisséia dos textos de Aristóteles). Agora que, como bom estóico, dispunha-se a complementar a história com a geografia, à qual pretendia dedicar um amplo tratamento, começava, ele também, pelo Egito, reservando sua descrição não ao primeiro livro (como Diodoro), mas ao último. Ainda estava em Alexandria no ano 20, quando por ali passou uma embaixada indiana trazendo como presente a Augusto, naquele momento em Samos, uma serpente gigante. O que Estrabão não deixou de anotar em sua Geografia.

Na biblioteca do Museu estudou — consultando obras que não se encontravam em nenhum outro lugar — o complexo problema da corrente do Nilo que preocupara a ciência grega desde a época de Tales e Heródoto, e sobre o qual Diodoro limitara-se a transcrever alguns capítulos de Agatárquides de Cnido. Sem dúvida, a biblioteca de Alexandria não era mais o epicentro da cultura científica mundial. Contudo, com o fim da monarquia e o abrandamento das últimas convulsões dinásticas, ocorrera uma espécie de renascimento. A imponente obra de Dídimo era, à sua maneira, uma prova disso. Dídimo nascera em Alexandria e lá vivera: não sentiu necessidade de ir a Roma, e praticamente ignorou a doutrina de Pérgamo. Foi em Alexandria, na "grande biblioteca", como ainda era chamada, que encontrou e explorou os infinitos materiais eruditos necessários para compilar cerca de 4 mil rolos de comentários, que, segundo Sêneca, estavam arrolados sob seu nome. Inúmeros e prolixos comentários de Homero a Demóstenes, dos líricos aos cênicos, historiadores e oradores. Na verdade, epítomes de muitos outros autores, que, ao deles beber, o incansável "Calquêntero" julgava, não sem razão, cumprir sua tarefa de exegeta. Mais ou menos contemporâneos de Dídimo também foram Trifão e Abrão. E ainda Teão, que compunha comentários não mais apenas sobre os antigos, mas também sobre os modernos (Calímaco, Licofrão, Teócrito, Apolônio de Rodes etc.): um fenômeno que permite entender como as dimensões da biblioteca, a esse ritmo, estavam destinadas a crescer indefinidamente. O filho de Dídimo, Apião, também tinha a mesma profissão do pai e contava com um admirador de alto nível como o imperador Tibério, que o chamava de "címbalo do mundo", querendo dizer que sua fama ressoava por toda parte. Sinal da mudança dos tempos, Apião compôs não só as Histórias egípcias à maneira de Hecateu e Maneton, como também um virulento Contra os judeus, no qual já se respirava o clima anti-semita denunciado por Filão que depois desembocou na destruição do bairro judaico.

Com a nova ordem do Estado, a biblioteca, ao contrário de outras épocas, já não era propriedade particular da casa reinante, e sim uma instituição pública da província romana (agora, o "sacerdote do Museu" era indicado diretamente por Augusto). Um rival de Dídimo, que Estrabão conhecera em Roma, Aristônico de Alexandria, até viria a compor mais tarde um tratado ilustrativo Sobre o Museu de Alexandria.

Na descrição de Alexandria, Estrabão incluiu uma descrição precisa do Museu. Ei-la: "Do palácio também faz parte o Museu. Este inclui o perípato, a êxedra e uma grande sala, onde os doutos que são membros do Museu fazem as refeições em conjunto. Nessa comunidade, o dinheiro também entra num fundo comum; têm um sacerdote que é chefe do Museu, numa época indicado pelos soberanos, agora por Augusto". A seguir, Estrabão cita e descreve "o chamado Soma": um recinto circular onde o primeiro Ptolomeu havia colocado a tumba de Alexandre, à qual foram sucessivamente acrescentadas as tumbas dos vários Ptolomeus. "Parte do palácio é também o chamado Soma ('o corpo'): é um recinto circular, onde se encontram as tumbas dos reis e a de Alexandre." Parece claro que, para Estrabão, o Museu e o Soma são contíguos. Detém-se bastante sobre o Soma. Conta como Ptolomeu foi o primeiro a conseguir pôr as mãos no cadáver de Alexandre e lhe deu sepultura em Alexandria: lá — especifica ele — ainda se encontra o corpo do rei macedônio (mas não diz exatamente onde), não no sarcófago original de ouro, mas num de alabastro, após a tentativa de profanação de Ptolomeu "clandestino".

A biblioteca não é mencionada por Estrabão, pela simples razão de não ser um edifício ou uma sala em si.
XIV

A BIBLIOTECA
A chave está na tumba de Ramsés. Nem ali os escavadores modernos encontraram a biblioteca. Mas Hecateu não mentiu: foi apenas entendido mal. Embora o leiamos no compêndio de Diodoro, uma indicação era reveladora: "depois da biblioteca estão as imagens de todos os deuses egípcios". Como poderia uma sala estar "depois" de um relevo? "Biblioteca" (bibliothéke), porém, significa antes de mais nada "estante": estante em cujas prateleiras se colocam os rolos, e, portanto, evidentemente, o conjunto dos rolos, e apenas por extensão a sala (quando começaram a ser construídas) em que eram colocadas "as bibliotecas". Assim, a "biblioteca sagrada" do mausoléu não é uma sala, mas uma estante, ou mais de uma estante, escavada ao longo de um dos lados do perípato.

Ela se encontra precisamente entre o baixo-relevo pintado que representa o rei oferecendo aos deuses o fruto das minas e as figurações dos deuses egípcios. Assim como no rodapé do relevo com a oferenda minerária está marcada a cifra que indica o montante da oferenda, da mesma forma sobre a "biblioteca" há uma inscrição: "Local de cura da alma".

Assim se compreende a indicação relativa à suntuosa sala com os triclínios. Nela, que é circular, diz-se que, num certo ponto, "há a parede em comum com a biblioteca". Especificação aparentemente estranha, já que é evidente que todos os ambientes que se sucedem no mausoléu têm uma parede em comum com aqueles imediatamente próximos. Mas, uma vez entendido o gênero de "biblioteca" de que se trata, a especificação dada só agora adquire sentido, ou melhor, mostra-se necessária: a suntuosa sala tem a parede em comum com o perípato no ponto em que se escavou a biblioteca.

Recapitulando. Ao longo do perípato do mausoléu de Ramsés existem muitos vãos ornamentados com representações de todos os tipos de alimentos finos. Avançando pelo perípato, "encontra-se" o baixo-relevo com o rei oferecendo os produtos das minas; em seguida está a biblioteca, e então as imagens dos deuses egípcios com o rei prestando homenagem a Osíris. Enfim, na sala suntuosa contígua ao perípato correspondente à biblioteca, está sepultado, num local um tanto anômalo, o corpo do soberano.

Portanto, a misteriosa frase do faraó ("se alguém quiser saber onde estou etc.") — que os sacerdotes haviam traduzido para Hecateu — desafiava o visitante a descobrir o acesso para a sala que continha o sarcófago. Lá se entrava, pode-se imaginar, através de uma passagem aberta na parede divisória que Diodoro chama de ”parede em comum". Assim, o desafio lançado ao visitante não era o de superar os empreendimentos bélicos do faraó, mas vencer a dificuldade posta pelo seu complexo edifício (ergon também significa isso, desde a primeira linha do prefácio de Heródoto) e se orientar no desvendamento de seu segredo. E, como o sarcófago se encontrava a uma grande altura, no teto da sala, o faraó não dizia apenas “onde eu jazo", mas também “como eu sou alto".

O perípato e o refeitório coletivo também são elementos constitutivos do Museu. Nos arredores do Museu está o Soma de Alexandre; na sala do mausoléu está o Soma de Ramsés. E clara a identidade entre os dois edifícios.

Assim, não foi por acaso que Hecateu dedicou tanta atenção ao mausoléu de Ramsés. Mas não se limitou a descrevê-lo. Em sua descrição, espalhara aqui e ali alusões à moderna realidade ptolomaica. Por exemplo, quando falava da representação do soberano lutando na "Bactriana". Aqui, o faraó — que nunca combateu na Bactriana e cuja vitoriosa batalha figurada no baixo-relevo é a de Qades, na Síria — parece de súbito identificar-se com os reis ptolomaicos e suas pretensões de domínio até o Indo e a Bactriana, ou mesmo com o próprio Alexandre. Ao qual bem se adaptam as palavras dos sacerdotes sobre a extraordinária coragem somada à ânsia de louvores "nos limites da vulgaridade". Outro sinal é a distinção entre as divindades egípcias e as outras divindades. Num mausoléu egípcio do século XIII a.C. tal distinção não teria sentido. Esse sincretismo, simbolizado pela genérica "divindade" a que o soberano oferece os proventos das minas, condiz mais com os novos soberanos gregos do Egito. Em alguns casos, Hecateu chega a permitir, com sua descrição do mausoléu de Ramsés, que se complete a lacônica topografia do Museu de Alexandria traçada por Estrabão. Por exemplo, as salas que no mausoléu contornam a grande sala circular também deverão ser incluídas na planta do Museu: são as residências de seus "componentes".

O caminho quase iniciático permitido a Hecateu na tumba do faraó começou sob o céu estrelado do primeiro peristilo; continuou, através de um adensamento de imagens e símbolos, até as palavras ambíguas do faraó apostas na base do colosso; culminou na revelação dos sacerdotes sobre o que se ocultava nelas, isto é, o local do sarcófago. Descrevendo seu percurso, Hecateu, o íntimo de Ptolomeu, quis talvez revelar, ou insinuar, a fonte da planta da cidade “proibida''. Assim como a Aristeu parecera ter revelado o caráter inefável dos livros hebraicos da lei.


XV

O INCÊNDIO
Portanto, nada falta na planta do Museu de Alexandria esboçada por Estrabão. As estantes (bibliothékai), evidentemente, estavam dispostas — como a "biblioteca sagrada" de Ramsés — ao longo do perípato, nos vãos que o flanqueavam.

É o que também se deduz da comparação com um edifício cujo modelo só poderia ser o Museu de Alexandria: a biblioteca de Pérgamo — aí tampouco a "biblioteca" consistia numa sala propriamente dita. E, na mesma Alexandria, a biblioteca "filha", a do Serapeum (Templo de Serápis, deus inventado para unir gregos e egípcios num culto comum; introduzido no Egito por Ptolomeu I), também tinha as prateleiras dos livros sob os pórticos, em livre consulta — esclarecia Aftônio — "para os amantes da leitura".

De resto, o perípato não era uma ruela, mas um grande passeio coberto. Cada cavidade deve ter abrigado um determinado gênero de autores, anunciado por inscrições adequadas, como as que especificavam as divisões dos Catálogos de Calímaco. Com o tempo, colocar-se-iam rolos em outros ambientes, construídos ao redor dos dois edifícios principais do Museu.

Por isso, um incêndio que destruísse aqueles rolos também reduziria os dois edifícios a cinzas. Mas não há a mínima notícia de tal catástrofe. Estrabão os visitou, trabalhou lá e os descreveu, mal haviam se passado vinte anos desde a campanha de César em Alexandria.


XVI

DIÁLOGO DE JOÃO FILOPÃO COM O EMIR AMR IBN AL-AS PRESTES A INCENDIAR A BIBLIOTECA
"Conquistei a grande cidade do Ocidente", escrevia Amr ibn al-As ao califa Omar, depois de içar a bandeira de Maomé sobre os muros de Alexandria, "e não me é fácil enumerar suas riquezas e belezas. Limitar-me-ei a lembrar que conta com 4 mil palácios, 4 mil banhos públicos, quatrocentos teatros ou locais de diversão, 12 mil lojas de frutas e 40 mil judeus tributários. A cidade foi conquistada pela força das armas e sem tratado. Os muçulmanos estão impacientes em saborear o fruto da vitória.

Era a sexta-feira da lua nova de Moharram, no vigésimo ano da Hégira, correspondente a 22 de dezembro de 640 da era cristã. De Constantinopla, o imperador Heráclio, que poucos anos antes tivera de reconquistar a cidade dos persas, agora com o físico debilitado, ordenava desesperadas contra-ofensivas para recuperar a metrópole. Segundo o cronista Teófanes, morreu de hidropisia poucas semanas mais tarde, em fevereiro de 641. Por duas vezes os generais bizantinos chegaram a pisar de novo no porto de Alexandria, e por outras tantas foram expulsos por Amr. O qual, embora o califa tivesse rejeitado qualquer idéia de destruição e saque, exasperado pelos repetidos ataques do inimigo, manteve a promessa de tornar Alexandria "acessível por qualquer lado como a casa de uma prostituta" e mandou destruir as torres e uma boa parte dos muros. Mas deteve o saque a que tendiam seus homens e, no mesmo lugar em que os acalmara com palavras, ergueu a mesquita da Clemência.

Amr não era um guerreiro inculto. Ao ocupar a Síria, quatro anos antes, convocou o patriarca e colocou-lhe questões sutis, quando não embaraçosas, sobre as sagradas escrituras e a suposta natureza divina de Cristo. Chegara a pedir que se verificasse no original hebraico a exatidão da tradução grega de uma passagem do Gênese, à qual o patriarca recorrera na intenção de sustentar seus pontos de vista.

Na época em que ocupou Alexandria, ainda vivia, segundo Ibn al-Qifti na História dos sábios (mas, por outro lado, há quem duvide), o velhíssimo João Filopão, o infatigável — como é conhecido pelo seu belo cognome — comentador de Aristóteles. João era cristão (pertencia à irmandade cristã dos "filopões"), mas aristotélico, pelo que escorregara com extrema facilidade para a heresia. Compôs um tratado Sobre a gnosi, no qual pretendia que as três pessoas da trindade fossem apenas uma única natureza, ainda que — dizia ele — em tripla hipóstase. Até os ignorantes compreendiam o caráter monofisista dessa hipótese, mal encoberta pela terminologia aristotélica; e de fato, ao acabar sustentando que em Cristo havia apenas a natureza divina, João, por assim dizer, se via sem saída. Vivia isolado havia anos, como convém aos hereges, cultivando estudos de gramática e matemática, mas nunca descurando os infindáveis comentários sobre Aristóteles.

Amr começou a freqüentar esse velho, deliciando-se principalmente com suas argumentações contra a incrível confusão cristã da trindade. Era para ele como uma continuação (mas com um interlocutor que lhe parecia quase que de seu lado) da cerrada discussão mantida com o patriarca da Síria. A disputa cristológica o seduzia, e talvez o divertisse, a julgar pela pergunta que colocara ao patriarca, isto é, se o Cristo que os cristãos pretendiam divino havia, quando se encontrava no ventre de Maria, governado o mundo dali dentro, tal como se esperaria de um deus. Pergunta a que o venerável jacobita (Cristão monofisista da Igreja copta do Egito), posto na defensiva, dera uma resposta frágil, lembrando que mesmo Deus (o pai) não havia perdido suas funções dirigentes nem ao se empenhar com Moisés, na conhecida conversa que durou quarenta dias e quarenta noites. (Conversa de cuja garantida historicidade nem um muçulmano como Amr poderia duvidar, visto ser citada no Pentateuco, livro sagrado também para ele.) Mas, a seguir, o próprio patriarca tivera de admitir que o Pentateuco não menciona a trindade, sequer indiretamente, e tentara explicar o embaraçoso silêncio daquele livro sumamente verídico com o argumento, na verdade de dois gumes, de que teria sido imprudente falar nela na época, quando os povos ainda se inclinavam demasiado infantilmente ao politeísmo. (Imprudente reconhecimento do perigo politeísta implícito na crença da trindade.)

Evidentemente Amr estava bem protegido contra tais extravagâncias; a palavra do profeta advertia: "Deus não tem filhos", dizia, "Se tivesse um filho, seria o primeiro a adorá-lo", e ainda "Não digais que há uma trindade em Deus, ele é uno", e assim por diante. Mas é fácil imaginar como o deliciavam os argumentos de Filopão, entre outras coisas porque brotavam, por assim dizer, do próprio campo inimigo. Sua rigorosa lógica o atraía. Logo não lhe foi mais possível se separar de João.

Um dia, finalmente, João ousou abordar em sua conversa cotidiana o assunto que havia tempos aflorava-lhe aos lábios, mas sem nunca ser formulado. "Tu selaste", disse-lhe, "todos os depósitos de Alexandria, e justamente todas as mercadorias da cidade são tuas. Não faço objeções. Mas existem coisas que nem tu nem teus homens saberiam usar: eu gostaria de pedir que as deixasses aqui." Amr perguntou quais eram, e ele respondeu: "Os livros do tesouro real. Vós pusestes as mãos neles, mas sei que não sabereis usá-los". Surpreso, Amr indagou quem havia reunido aqueles livros, e João começou a lhe contar a história da biblioteca.

Quais eram e onde então se encontravam os livros de Alexandria são questões que requerem alguns esclarecimentos. Trezentos e cinqüenta anos antes, Alexandria fora conquistada e perdida pela rainha Zenóbia, árabe de Palmira, que se pretendia descendente de Cleópatra. Quando o imperador Aureliano reconquistou Alexandria, fora justamente o bairro de Brúquion que sofrerá os danos mais graves. Segundo Amiano, talvez exagerando, o bairro havia sido totalmente destruído. Poucos anos depois, Diocleciano procedeu a um verdadeiro saque da cidade. O Museu, que na primeira era imperial conhecera momentos de renovado esplendor, e ainda havia pouco recuperara o antigo brilho graças à insigne obra do matemático Diofanto, deve ter sofrido danos enormes. O Serapeum foi destruído em 391, durante o ataque aos templos pagãos. O último expoente conhecido do Museu foi Teão, o pai da Hipácia, a estudiosa de crônicas e musicóloga massacrada em 415 pelos cristãos, convencidos em sua ignorância de que era uma herética. Mais recentemente, houve a década da ocupação persa, sob Cosroes, arduamente combatida por Heráclio. Os livros, evidentemente, também mudaram, e não só no conteúdo. Não eram mais os delicados rolos de antes, cujos restos tinham acabado no lixo ou estavam enterrados sob as areias, mas sim elegantes e sólidos pergaminhos encadernados em grandes códigos, enxameados de erros devido ao crescente esquecimento do grego. Agora predominavam os textos dos pais da Igreja, as atas dos concílios, as "sagradas escrituras" em geral.

Mas João, no arrebatamento das palavras, diminuía as distâncias, e acabava apresentando à imaginação de seu ouvinte a história daqueles livros como se ainda fossem aqueles originariamente recolhidos, mil anos antes, pelo rei Ptolomeu. "Deves saber", dizia-lhe, "que, quando Ptolomeu Filadelfo subiu ao trono, tornou-se adepto do conhecimento e homem bastante douto. Procurava livros e mandava que os conseguissem a qualquer preço, e oferecia aos mercadores as condições mais favoráveis para induzi-los a trazerem seus livros para cá. Fez-se tudo o que ele queria e logo foram adquiridos" (aqui João enunciou um montante que não parecesse muito exagerado ao interlocutor) "54 mil."

Nesse ponto, João se lembrou de um livro que conhecera um grande destino entre os escritores gregos — copiado, resumido, reorganizado inúmeras vezes, tanto pelos judeus como pelos cristãos: o relato de Aristeu. E também ele recorreu ao livro. Assim, dando retoques ao antigo relato, prosseguiu: "Quando o rei foi informado a respeito, disse a Demétrio" (Ibn al-Qifti, ao mencionar as palavras de João, chama-o sempre de Zamira), "Crês que existam outros livros na terra que ainda não temos? E Demétrio; Sim, há uma grande quantidade deles na índia, na Pérsia, na Geórgia, na Armênia, na Babilônia e também em outros lugares. O rei se admirou ao ouvi-lo e respondeu: Então continua a procurá-los. E assim continuou até sua morte". (Nessa reelaboração árabe, o mundo aparece muito maior, e muito mais distante o objetivo da coleta total dos livros, do que no original de Aristeu.) "Pois bem, esses livros", resumiu João passando para a conclusão, "continuaram a ser conservados e guardados pelos soberanos e seus sucessores até nossos dias." Amr compreendeu que João lhe dissera algo muito importante; calou-se por algum tempo, e então, depois de pensar na resposta, disse ao amigo: "Não posso dispor desses livros sem a permissão de Ornar. Mas posso escrever a ele e lhe contar as coisas extraordinárias que tu me disseste". E assim fez.

Uma carta levava em média doze dias de navio para ir de Alexandria a Constantinopla, um pouco mais, devido ao longo trajeto por terra, para chegar à Mesopotâmia, e outros tantos eram necessários para a resposta. Assim, por cerca de um mês, o destino da biblioteca ficou vinculado à resposta de Ornar, agora aguardada com ansiedade não só por João, mas também pelo próprio emir.

Naqueles dias de espera, João, autorizado por Amr, foi visitar a biblioteca na companhia do inseparável Filarete, um médico judeu seu aluno, autor do tratado Sobre as pulsações (que muitos, erroneamente, acreditavam escrito pelo próprio João). Sentia que, para ele, podia ser a última despedida, despedida que lhe pareceu ainda mais triste pelas condições a que o edifício estava reduzido: deserto e em avançado estado de abandono, com um grupo de soldados na porta. Enveredando pelas estantes, tocava os pergaminhos em silêncio; agora já lhe era impossível lê-los. Com a orientação táctil que, com o tempo, substitui o enfraquecimento da vista, encontrou um manuscrito e o estendeu a Filarete. Pediu-lhe que lesse o capítulo final. Era a Explicação da criação de Teodoro de Mopsuéstia, contra o qual, anos e anos antes, polemizara cerradamente nos sete livros Sobre a cosmogonia, tratado também conhecido pelos latinos como De opificio mundi. Considerou novamente seus argumentos contrários e se satisfez com eles. Reafirmou-se uma vez mais na convicção de que estava certo quando sustentara (como ainda sustentava) a conciliabilidade da ciência natural com o relato bíblico da criação. Finalmente, um pouco mais tranqüilo, pediu para voltar para casa.

Ao chegar, encontrou Amr à sua espera. O emir estava ali havia um bom tempo, impaciente em lhe colocar a pergunta que fazia vários dias vinha se formando em sua mente. Tentou formulá-la do modo menos agressivo. Começou com frases de circunstância sobre a visita que, sabia, João fizera naquela mesma manhã. A seguir, chegou ao ponto. "Na tua explicação sobre os livros", disse, "falaste-me que sempre haviam permanecido no tesouro do palácio, desde os remotos tempos do rei Ptolomeu até nossos dias. Agora, um funcionário grego que abraçou lealmente nossa causa veio me visitar com grande discrição e declarou que não seria verdade, que pelo contrário, segundo ele, todo esse patrimônio de livros antigos de que me falaste teria sido queimado no incêndio de Alexandria, provocado pelo primeiro imperador romano, muitos séculos antes do nascimento do profeta. Disse ainda nosso leal servidor que em alguns templos de Alexandria ainda se conservam as estantes semiqueimadas que sobreviveram àquele terrível incêndio." Aqui se deteve, notando a perturbação de ambos. Mas o que diria, se prosseguisse, já estava claro sem necessidade de outras palavras, ou seja, que com um ardil, para chamar as coisas pelo nome certo, tinham-lhe pedido a salvação de livros na realidade sem o valor que lhe quiseram fazer crer.

Após um breve silêncio, penoso para os três, João pediu que saíssem e solicitou a Filarete que guiasse seus passos até o templo de Serápis, ou melhor, ao que dele ainda restava. Um insólito vigor parecia inflamar o corpo do velho, retesado para essa última e inesperada batalha, que quase lhe parecia ter desejado, mesmo que inconscientemente. A área para onde os três se dirigiam fora, tempos atrás, o coração do bairro egípcio de Rhakotis. Ali o patriarca Teófilo comandara o ataque dos fiéis de Cristo contra o templo de Serápis, que, garantia Amiano, só perdia em esplendor para o Capitólio: mármores, ouro, alabastro, marfim de primeira qualidade, tudo fora destruído, e o pergaminho dos livros se revelara um combustível incomparável. Agora havia muito tempo lá reinava o silêncio, e o bairro em torno não mais se recuperara das chamas devastadoras. Filarete, que rapidamente compreendera o propósito de João, guiou o grupo até os armaria librorum. E foi o primeiro a falar. Filarete sabia latim, e lera vários livros nessa língua quando esteve em Vivarium, na Calábria, na biblioteca fundada por Cassiodoro (ambiente mais respirável para um judeu do que o outro renomado centro ocidental, Sevilha — mas que também gostaria de visitar —, onde se encontrava o bispo Isidoro, o autor do Contra iudaeos). "Essas estantes", disse citando uma passagem de Paulo Orósio, "foram esvaziadas por homens de nossa época, exinanita a nostris hominibus nostris temporis". Então enveredou por uma explicação pormenorizada, que tentou tornar a mais clara possível para a compreensão de Amr. Orósio, explicou ele, o historiador português devoto de santo Agostinho, mencionara sua visita ao Serapeum — onde se impressionara com a visão daqueles míseros restos de estantes — precisamente numa digressão incluída no relato da guerra de Júlio César contra Alexandria. E havia esclarecido, para além de qualquer dúvida, que não se tratava absolutamente dos vestígios do incêndio cesariano: fosse porque esses vestígios se referiam a acontecimentos muito mais recentes (e na época de Orósio bastante vivos na memória das testemunhas), fosse porque o Serapeum nada tinha a ver com o palácio, onde estavam as preciosas coleções dos Ptolomeus. Com isso, prosseguiu ele, Orósio refutava um erro grosseiro de Amiano, um siríaco presunçoso e obscuro, grego de nascimento, mas metido a escrever histórias num latim rebuscado, que, copiando suas fontes sem compreendê-las, acabara por atribuir a Júlio César o saque de Alexandria e a destruição do Serapeum.

Amr ouvia, admirado, as palavras claras e concretas do judeu, tão diferentes do tom insinuante e inconsistente de seu cioso informante. Enquanto isso, Filarete, que muito raramente podia dar vazão à sua doutrina e, portanto, dificilmente a interromperia por iniciativa própria, prosseguia com informações cada vez mais minuciosas. Disse ter visto, ao viajar pelo Ocidente, mais de um manuscrito das Histórias de Orósio, e ter notado que, quando Orósio fala dos livros casualmente depositados nas proximidades do porto, proximis forte aedibus condita, e, por isso, destruídos quando César mandara incendiar os navios, em alguns códigos lê-se o número de 40 mil, e em outros de 400 mil. Assim também em Aulo Gélio, que citava o episódio num fantasioso pequeno capítulo das Noites áticas sobre as bibliotecas antigas, alguns códigos registravam 60 mil, outros 700 mil. Acalorando-se na demonstração e esquecendo a pouca familiaridade de Amr com o assunto que lhe apresentava, mencionou a prova que não hesitava em definir como definitiva: Orósio — prosseguiu — apenas reproduzira o relato indiscutivelmente respeitável de Tito Lívio, o historiador contemporâneo de César e de Augusto, cuja obra sozinha ocupava, quando completa, quase 150 rolos. Portanto, bastaria localizar o livro de Lívio sobre a guerra de Alexandria, e imediatamente se esclareceria se Orósio escrevera 40 ou 400 mil. Mas justamente esse livro parecia impossível de localizar (talvez ninguém mais tivesse um Lívio completo).

No entanto, um dia a solução subitamente lhe saltara aos olhos, ao ler Sêneca, no tratado Sobre a tranqüilidade da alma. Ali, o estóico cuja sabedoria freqüentemente beirava a loucura investia longamente contra a mania dos ricos de acumular por pura ostentação milhares de livros em suas casas; depois disso, prosseguia com essas palavras, que a Filarete, ao lê-las, pareceram reveladoras: "Para que servem inúmeros livros e coleções inteiras se ao longo da vida o dono mal consegue ler seus títulos? Queimaram em Alexandria 40 mil rolos. Pois bem, outros elogiam a admirável prova da opulência real, pulcher-rimum regiae opulentiae monumentum, como também faz Lívio, ao dizer que aqueles rolos eram o fruto refinado da nobreza e solicitude dos soberanos, qui elegantias regum curaeque egregium id opus ait fuisse. Todavia — protestava Sêneca nesse tratado —, aquilo não era nobreza nem solicitude, mas luxo cultural, ou melhor, sequer cultural, pois esses livros haviam sido adquiridos "não para o estudo, e sim por ostentação". Orósio — concluiu Filarete triunfante — lera e parafraseara a mesma passagem liviana visada por Sêneca: de fato, definia aqueles rolos com as mesmas palavras, singulare profecto monumentum studü curaeque maiorum. Portanto, em seu Lívio, Orósio teria lido, tal como Sêneca, quadraginta milia librorum, "40 mil rolos".

Amr deixara havia algum tempo de acompanhar a cerrada argumentação do apaixonado orador. João sugeriu que talvez já bastasse. No caminho de volta, ninguém retomou o inesgotável assunto.

Os dias transcorriam na espera da resposta de Ornar. Amr continuava a freqüentar seus doutos amigos com a costumeira assiduidade. E, contudo, parecia-lhes, apesar de seus esforços de cordialidade, menos espontaneamente afável do que antes. Havia como que uma sombra entre eles, sombra que João, certa vez, tentou dissipar. "Parece-me", disse ele, "que não estás totalmente convencido com as explicações do meu caro Filarete. Deixa, então, que eu retorne a um assunto que, como terás entendido, é-nos mais caro do que nossa própria vida." Amr não teve dificuldade em admitir que João, como se costuma dizer, lera seus pensamentos, e de bom grado apresentou sua dúvida: consistia em que, das complicadas e minuciosas exposições de Filarete, mesmo assim ficara claro que César, na guerra travada em Alexandria, havia provocado a destruição de 40 mil rolos de textos.

"Nós também", João respondeu com doçura, "freqüentemente nos perguntamos de que livros se trataria. Mas, na maioria das vezes, tivemos de lamentar o silêncio dos historiadores. Pensa que até Apião, nascido e vivido aqui em Alexandria na feliz época do imperador Adriano, não diz uma única palavra sobre o incêndio do Museu quando, nas Guerras civis, fala sobre a guerra alexandrina. O mesmo pode-se dizer de Ateneu, também ele egípcio, cujos intermináveis livros não passam de um amontoado de erudição extraída de milhares de obras (entre elas, até o texto de Ptolomeu, dito Fiscão, sobre o palácio de Alexandria). Somente Dião Cássio, testemunha em sua época da insana ameaça de Caracala de incendiar o Museu para vingar Alexandre Magno, envenenado (pensava ele) a mando de Aristóteles, diz alguma coisa mais precisa. Com efeito, ele afirma que durante o incêndio queimaram o arsenal e os depósitos de trigo e de livros.'' "O que", interveio Filarete, "coincide exatamente com o que, como te disse, narra Orósio: isto é, que os livros queimados se encontravam por acaso nos edifícios próximos ao porto, proximis forte aedibus condita", acrescentou, certo de que a citação latina aumentaria a eficácia do argumento, "e os edifícios próximos ao porto", deduziu, "devem ser justamente os depósitos de que fala Dião!"

Amr disse que estava impressionado com essas novas informações, mas — acrescentou —, a questão levantada por ele continuava sem resposta. "Então devo pensar", respondeu Filarete, "que não ouviste todo o meu raciocínio durante a visita aos restos do Serapeum.'' O tom petulante de Filarete irritava bastante Amr, que, mesmo assim, obrigou-se a não reagir, dizendo a si mesmo que no fundo fora ele a provocar a nova discussão. "Disse, portanto", prosseguiu Filarete, "que a melhor exposição do que narrava Lívio (e que, repito, se estivesse guardado e acessível resolveria todas as nossas dúvidas) está no tratado de Sêneca De tranquillitate animi. E não deve ter te escapado, espero eu, que, nas palavras de Sêneca a que me referi, nada leva a crer que aqueles livros fossem livros da biblioteca real. Parece claro, pelo contrário, que se trata de uma generosa doação dos Ptolomeus, destinada a algum dos grandes senhores romanos da época, contra cuja vã ostentação se lança o filósofo estóico. Por que, então, falaria de nobreza e solicitude por parte dos soberanos do Egito, e por que esclareceria que aqueles rolos foram recolhidos não para fins de estudo, mas de ostentação, se não se tratasse justamente de doações destinadas a pessoas ricas e incompetentes? E então, concluiu, "junta esses indícios, e ter ás a resposta à tua pergunta: aqueles livros estavam por acaso no porto, como diz Orósio, nos depósitos próximos aos de trigo, como diz Dião, porque eram doações dos soberanos do Egito a algum ricaço de Roma, como diz Sêneca, o qual afirma se basear em Lívio, fonte reconhecida tanto de Orósio como de Dião.''

Isso disseram os dois amigos a Amr. Quase como se tivessem combinados antes, nenhum dos dois mencionou aquela passagem de Plutarco na Vida de César, na qual, não se sabe bem porquê, o biógrafo afirma que o fogo, "desenvolvendo-se a partir do arsenal", destruíra "a grande biblioteca". Não que quisessem esconder um argumento à primeira vista desfavorável a eles: bem sabiam que Plutarco era contestável, que a biblioteca, se assim se quiser chamar o Museu, não estava de forma alguma perto dos arsenais, que provavelmente Plutarco entendera mal uma fonte que falava — tal como faz Dião Cássio — em "depósitos de livros" {bibliothékas) e imaginara um apocalíptico incêndio do Museu. Já haviam exigido muito da atenção e da paciência de Amr. Inútil, pensaram, confundir-lhe as idéias.

Enquanto se concediam uma pausa e Amr retraçava mentalmente, com absorta admiração, o rigoroso raciocínio, o enviado de Omar, que acabara de desembarcar em Alexandria, alcançou o emir na casa de João. Sua entrada despertou os três do diálogo interior que cada um havia prosseguido quase naturalmente. Ao longo de suas discussões, naqueles dias de espera, eles haviam, por assim dizer, voltado ao passado, arrastados pela própria busca a que se dedicavam. Agora, voltavam de súbito ao presente. Amr leu a mensagem: "Quanto aos livros que mencionaste", escrevia Omar, "eis a resposta: se seu conteúdo está de acordo com o livro de Alá, podemos dispensá-los, visto que, nesse caso, o livro de Alá é mais do que suficiente. Se, pelo contrário, contêm algo que não está de acordo com o livro de Alá, não há nenhuma necessidade de conservá-los. Prossegue e os destrói". E fácil imaginar a decepção e o desconforto dos dois, e talvez fosse melhor dizer dos três. Porém, o que mais podiam esperar de um devoto carola como Omar — pensava Amr —, de alguém que fora capaz, ao que parece, de impedir que o profeta, moribundo, ditasse um segundo livro, sempre em honra ao conceito de que tudo já estava no Corão?

Assim, a mesma intensidade da fé — pensava João por sua vez — pode levar a resultados opostos: no banquete dos sábios, como conta Aristeu, os 72 doutores judeus atenderam a todas as mais extravagantes perguntas do rei invocando a coerência da vontade divina; agora o califa, em sua esquemática resposta, tudo reduz à coerência com o livro de Deus (que ele chama de Alá); mas — constatava desolado —, aqueles ajudaram o desenvolvimento de uma biblioteca já imensa, ao passo que este bárbaro aprova, em virtude de um grosseiro silogismo, a destruição daquele tesouro.

Não era possível, nem de bom gosto, continuar por mais tempo. Em silêncio, evitando formalidades inúteis, Amr deixou para sempre a casa de João. Fiel à resposta do califa, iniciou o trabalho de destruição. Distribuiu os livros entre todos os banhos de Alexandria, para que fossem usados como combustível das estufas que os tornavam tão confortáveis. "O número desses banhos", escreve Ibn al-Qifti, "era bem conhecido, mas eu o esqueci." (Como sabemos por Eutíquio, eram 4 mil.) "Conta-se", continua ele, "que foram necessários uns seis meses para queimar todo aquele material.''

Foram poupados apenas os livros de Aristóteles.



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