A biblioteca Desaparecida Histórias da Biblioteca de Alexandria – Luciano Canfora



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FONTES
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GIBBON
"O fato é na verdade surpreendente", escreveu Edward Gibbon a propósito do relato do incêndio dos livros por ordem de Omar. A fonte usada por Gibbon era o Specimen historiae arabum de Gregório Abul-Faraj, médico judeu do século XIII, dito Bar Hebraeus na tradução latina do século XVII do grande orientalista do Corpus Christi College, Edward Pococke (1649). "A afirmação isolada de um forasteiro", prosseguia o autor de Decline and fali, "que seis séculos mais tarde escrevia nos fins da Idade Média, é amplamente contrabalançada, pelo silêncio de dois analistas anteriores, ambos cristãos e nascidos no Egito, sendo que o mais antigo deles, o patriarca Eutíquio [876-940], fez um extenso relato da conquista de Alexandria." Gibbon prosseguia observando o silêncio sobre os acontecimentos por parte "de Abulferde, Murtadi e uma multidão de muçulmanos". E comentava: "O rígido decreto de Ornar repugna aos sadios e ortodoxos preceitos dos casuístas muçulmanos, os quais declaram formalmente que nunca é lícito queimar os livros religiosos dos judeus e cristãos, adquiridos por direito de guerra", e recorria à autoridade de Hadrianus Reland, o eminente arabista holandês do final do século XVII, no De jure militari Mohammedanorum, segundo o qual "não se devem queimar os livros dos judeus e cristãos pelo respeito ao nome de Deus".

Gibbon não questionava a opinião, bastante arraigada nas fontes árabes — a começar pelo importante índice (al-Fihrist) do filho de "al-Warraq" ("o livreiro"), no qual são enumerados todos os livros árabes ou as traduções em árabe que passaram pelas mãos do autor até o ano de 988 —, de que João Filopão teria realmente vivido até a época da conquista árabe. Essa datação coincide com a que parece deduzível de uma declaração do próprio Filopão no comentário ao livro IV da Física de Aristóteles: "Digo que agora estamos em 10 de maio do ano 333 desde o início do reinado de Diocleciano" (Commentaria in Aristotelem Graeca, vol. XVII, Berlim, 1888, p. 703). Infelizmente, porém, não se trata de uma indicação unívoca, visto que o número do ano é 333 em diversos códigos, até excelentes como o Laurenciano 87.6 do século XII, mas consta como 233 no manuscrito Marciano grego 230 do século XIV ou XV, escrito, segundo Vitelli, encarregado da edição berlinense, "de forma bastante negligente". No primeiro caso a data é 617, no segundo, 517 d.C. E, de fato, Fabricius — a cuja autoridade Gibbon se reportava — baseava-se justamente nessa passagem do comentário ao livro IV da Física, para concordar com as fontes árabes que apresentam Filopão em vida e dialogando com Amr no ano de 640 d.C. Em outra parte da sua obra, porém, e precisamente no XVI livro, entre os dezoito que compõem Contra Proclo sobre a eternidade do mundo, Filopão diz: "E agora, em nossa época, no ano 245 do reinado de Diocleciano". A esse respeito, Fabricius, invocando o sentido geral do trecho, observa que essa indicação temporal devia ser interpretada "paulo laxius" [com um pouco menos de rigor] e sugeria a tradução: "Nam et non longe a nostris temporibus anno 245 Diocletiani" [Com efeito, ainda não distante do nosso tempo, no ano 245 do reinado de Diocleciano] (Bibliotheca graeca, vol. X, p. 644, da edição atualizada por Harles). Realmente, as citações presentes em Simplício (comentário ao De caelo de Aristóteles) das Réplicas a Aristóteles sobre a eternidade do mundo (obra não conservada, mas atribuída a Filopão) já no século XVIII levaram os estudiosos a preferir a data menos recente a considerar o encontro com Amr como fruto de uma confusão das fontes árabes.

A obra de João Filopão, bastante conhecida pelos árabes, contribuiu muito para a difusão do pensamento de Aristóteles na cultura árabe dos primeiros séculos. Aqui deve se encontrar a raiz da conexão, instituída pelas fontes históricas árabes, entre Filopão e Amr. O diálogo em que João retoma sumariamente o episódio inicial da Carta de Aristeu (o encontro entre Ptolomeu e Demétrio nas dependências da biblioteca) é citado por Ibn al-Qifti. (Uma tradução inglesa desse trecho, a cargo de Hussein Mones, foi publicada por Edward A. Parsons, The Alexandrian library, Nova York, 1952, pp. 389-92.) O nome de Filarete aparece em alguns manuscritos que contêm a tradução latina do Livro de Filopão sobre as pulsações (Fabricius, Bibliotheca graeca, X, p. 652).

O propósito do iluminista Gibbon era apologético. Ele justificava os árabes por um crime nunca cometido e atribuía a ruína da biblioteca às destruições causadas por César na guerra de Alexandria e principalmente pelo terrível bispo Teófilo, "eterno inimigo da paz e da virtude, homem audaz e perverso, cujas mãos foram alternadamente manchadas pelo sangue e pelo ouro" (trad. ital. Einaudi, p. 1032), o destruidor do Serapeum. Gibbon, na esteira de Tertuliano (Apologético, 18, 8) e principalmente de Amiano Marcelino (XXII, 16), na verdade confundia a biblioteca real com a do Serapeum: "Não repetirei aqui'', escreve ele, “todos os danos sofridos pela biblioteca de Alexandria: o incêndio involuntariamente ateado por César para se defender, ou pelo perigoso fanatismo dos cristãos que se empenhavam em destruir os monumentos da idolatria." "Mas", prossegue ele, "se os volumosos livros dos polemistas, arianos ou monofisistas, realmente foram aquecer os banhos públicos, o filósofo admitirá sorrindo que foram de fato consagrados ao benefício da humanidade.''



É admirável como Gibbon imediatamente relaciona a consideração sobre o destino das grandes bibliotecas antigas com a história da tradição dos textos clássicos; e como o espírito voltairiano o leva, mesmo perante o triste espetáculo dos estragos do fanatismo e da loucura humana, a concluir com um balanço ao final positivo: estranho otimismo, que tem algo de teleológico no pouco apreço que demonstra pelo que se perdeu. Com efeito, ele prossegue: "Lamento sinceramente outras bibliotecas mais preciosas, que foram levadas no desmoronamento do império romano; mas, quando começo seriamente a calcular o decorrer dos séculos, os danos da ignorância e as calamidades da guerra, maravilho-me mais com os tesouros que restaram do que com as perdas sofridas". E aqui Gibbon esboça, em rápidos traços, um perfil do qual pretende derivar o sentido da história da tradição, da natureza das perdas e dos critérios ou características que comandaram a preservação: "Muitos fatos curiosos e interessantes estão enterrados no esquecimento, as obras dos grandes historiadores de Roma só nos chegaram mutiladas, e não dispomos de uma série de belas passagens da poesia lírica, lâmbica e dramática dos gregos. Mesmo assim, deveríamos nos alegrar, ao lembrar que os estragos do tempo e dos homens pouparam as obras daqueles clássicos, os quais, pelo voto da antigüidade [e, em nota de rodapé, pensa nas listas classificatórias estabelecidas por Quintiliano], foi atribuído o primeiro lugar em gênio e glória". Assim, no âmbito da tradição remanescente, Gibbon valoriza em especial a sobrevivência de autores — como Aristóteles; Plínio, o Velho; Galeno — que também têm a função de repositório do saber anterior: "Leram e compararam", observa ele, "as obras de seus antecessores, e não temos motivo razoável para crer que alguma verdade importante ou descoberta útil na arte ou na natureza tenha sido subtraída à nossa curiosidade" (p. 2112).
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OS DIÁLOGOS DE AMR
O emir dos Agareus, Amr ibn al-As, é protagonista, na tradição oriental e árabe, de diversos diálogos com personagens notáveis: com o imperador bizantino, que lhe contestava a pretensão árabe de ocupar a Síria; com o patriarca jacobita do Egito, Benjamim, cuja amizade soube astutamente conquistar; como João I, patriarca jacobita da Síria; e com João Filopão. As informações referentes ao encontro com o patriarca egípcio podem ser encontradas no primeiro volume (1903) da Patrologia orientalis (pp. 494-8). O diálogo com o patriarca siríaco João (mencionado no início do capítulo XVI) foi extraído de um manuscrito siríaco do British Museum (Additional 17193), cuja transcrição foi concluída no ano de 874, descoberto e apresentado pelo abade François Nau, o co-editor da Patrologia orientalis, que publicou o texto, a tradução e os comentários no Journal Asiatique de março-abril de 1915 (série XI, volume 5, pp. 225-79). O abade Nau demonstrou que o patriarca João mencionado no cabeçalho do diálogo deve ser João I, que ocupou o cargo de 635 até dezembro de 648, ou seja, na época em que Amr conquistava a Síria, encontrando o apoio dos exasperados súditos do império (a queda de Antioquia se dá em 638).

O texto encontrado no código misto Additional 17 193 se apresenta como um relatório do diálogo, redigido pelo próprio João poucos dias depois do encontro com Amr. No início, vem indicada a data, que corresponde a 9 de maio do ano de 639. (Portanto, o manuscrito foi escrito pouco mais de duzentos anos após o diálogo nele apresentado.) O caráter histórico do encontro de Amr com o patriarca jacobita da Síria é prontamente admitido por Nau, que aí vê uma hábil manobra do emir, em 639, ainda empenhado na conquista da Mesopotâmia, onde as comunidades jacobitas (monofisistas de observância siríaca) tinham grande influência; Amr, portanto, queria contar com o apoio de seu líder espiritual.

Além do tema cristológico, Amr também colocava no diálogo a questão da "unicidade" do livro, segundo uma orientação que foi considerada análoga à expressiva e dogmática sentença de Ornar. "O ilustre emir", narra em seu texto, "perguntou-nos se um único evangelho é considerado verdadeiro por todos os que se declaram cristãos e portam tal nome pelo mundo"; à resposta afirmativa do patriarca, Amr havia objetado que, nesse caso, não eram concebíveis as diversas "fés" entre as quais se dividiam os cristãos; a resposta do patriarca mostrara uma visão de grande tolerância: o Pentateuco também é considerado um livro sagrado por homens que professam religiões diferentes, como os judeus, os cristãos e os muçulmanos. Depois disso, Amr abordara a questão de outro ponto de vista: colocou a seu interlocutor, questões concretas e empíricas (por exemplo: como dividir a herança de um homem que deixa muitos herdeiros?) e perguntou se no Evangelho dos cristãos havia uma resposta a perguntas do gênero. Recebendo a resposta de que o Evangelho trata apenas de “doutrinas celestes e preceitos vivificantes", aconselhou paternalmente: "Então fazei assim: ou me demonstrai que vossas leis estão contidas no Evangelho e que, portanto, vós vos governais baseados nele, ou aderi imediatamente à lei muçulmana". A resposta do patriarca foi uma defesa da pluralidade: "Nós cristãos também temos leis [entenda-se, além do Evangelho], que, aliás, concordam com os preceitos do Evangelho e os cânones dos apóstolos e as leis da Igreja".

A exigência de Amr, porém, não prenunciava a alternativa destrutiva de Ornar, como sugere Nau. Pelo contrário, pelo que conta o historiador Miguel Siríaco, o emir, logo após o diálogo, dispôs-se a pedir ao patriarca que mandasse traduzir o Evangelho dos cristãos para o árabe, talvez eliminando aquelas extravagâncias sobre a divindade de Cristo; aos protestos de João, rendeu-se amavelmente dizendo: "Vai, e escreve-o como quiseres" (Chronique ecclésiastique, II, pp. 431-2). Portanto, não surpreende que, num tal clima conciliador, o Evangelho "muçulmano" de Barnabás apresente a variante de que foi Judas a ser crucificado, em lugar de Cristo, ou seja, de acordo com o Corão, que diz: "Eles não o crucificaram, um homem que se assemelhava a ele foi posto em seu lugar" (sura IV, 156).

Do diálogo entre Amr e o patriarca da Síria participa também um erudito judeu, convocado por Amr, que queria conferir no original hebraico uma passagem do Gênese (19, 24), na qual aparece duas vezes a palavra “o Senhor'' ("Fez, pois, o Senhor da parte do Senhor chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo"). Um prato cheio para a disputa cristológica. Indagado se o texto se apresentava na Lei exatamente dessa forma, o erudito judeu teria respondido, segundo o relato do patriarca: "Não sei exatamente".
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ARISTEU ATUALIZADO
No diálogo entre João Filopão e Amr, o historiador árabe de origem egípcia Ibn al-Qifti (1172-248) atribui a João uma longa intervenção sobre a origem e a história da biblioteca de Alexandria. Boa parte dessa intervenção é tirada livremente da Carta de Aristeu. Com uma modificação importante. De fato, na Carta de Aristeu Demétrio tranqüiliza o soberano, comunica-lhe que "breve" (§ 10) será alcançada a quantidade prevista de 500 mil rolos, e coloca como problema digno de especial atenção apenas o caso da "lei hebraica"; no diálogo entre Ptolomeu e Zamira, conforme citado por Ibn al-Qifti, à pergunta do rei — que acaba de saber que os livros reunidos são 54 mil — "Quantos ainda faltam?" Zamira dá uma resposta muito mais alarmante: é considerável a lista dos povos cujos livros ainda têm de ser adquiridos pela biblioteca, para que fique "completa" (índia setentrional, Pérsia, Geórgia, Armênia, Babilônia, Musil, território de Rum [= Bizâncio]").

A essa adaptação do relato de Aristeu corresponde, ponto por ponto, o início do De mensuris et ponderibus do bispo Epifânio, que em idade avançada tornou-se bispo metropolitano da ilha de Chipre, vivendo entre 315 e 403 d.C. Esse curioso texto, que foi definido como uma "biblische Realencyklopàdie" (Altaner e Stuiber, Patrologie, Freiburg-Basiléia-Viena, 19667, p. 316), apresenta no início um denso estudo sobre a tradução grega do Antigo Testamento, que, como muitas vezes acontece, permite-se uma digressão sobre a biblioteca de Alexandria. De fato, depois de lembrar Ptolomeu Filadelfo, sob cujo reinado os 72 tradutores realizaram sua obra, Epifânio continua:

O segundo soberano de Alexandria depois de Ptolomeu, isto é, o chamado Filadelfo, foi um amante do belo e da cultura. Fundou uma biblioteca na mesma cidade de Alexandre, no bairro chamado Brúquion (bairro agora completamente abandonado), e confiou sua direção a um tal Demétrio Falereu, com a ordem de reunir os livros de toda a terra. [...] Dando andamento ao trabalho e a partir de então recolhendo os livros de todas as regiões, um dia o rei perguntou ao responsável da biblioteca quantos livros haviam sido reunidos. Ele respondeu: "São mais ou menos 54.800. Mas ouvimos dizer que existe uma grande quantidade deles entre os etíopes, indianos, persas, elamitas, babilônios, assírios, caldeus, romanos, fenícios, siríacos". [Aqui Epifânio insere um comentário seu entre as palavras de Demétrio, e esclarece que "naquela época os romanos ainda não se chamavam assim, mas latinos". A seguir continuam as palavras de Demétrio.] "Mas também em Jerusalém, na Judéia, existem livros sagrados que falam de Deus etc." (Patrologia graeca, vol. 43, col. 250 e 252).

O relato de Epifânio continua com a correspondência entre Ptolomeu e Eleazar. Essas cartas também estão alteradas em comparação com o texto de Aristeu: entre outras coisas, o cabeçalho da carta do rei não está endereçado diretamente a Eleazar, mas aos judeus em geral. Ibn al-Qifti, por sua vez, omite qualquer referência a eles.

As duas listas de povos merecem algumas considerações. Epifânio mistura lugares da tradição bíblica (elamitas, assírio-babilônios etc.) e lugares "efetivos" (Roma, Etiópia, Índia). O cronista árabe inclui na lista lugares relacionados com o mundo dominado ou em contato com os árabes (Geórgia, Armênia). A lista inicial é, assim, atualizada.

Ibn al-Qifti utiliza o texto de Epifânio: é dele que retira a quantidade — absolutamente isolada mesmo na vasta tradição que remonta a Aristóteles — de 54 mil rolos para a biblioteca de Alexandria na época do Filadelfo. Em alguns casos modifica seu modelo, em outros o interpreta. Por exemplo, é o caso da referência aos "romanos". Para Epifânio, esses romanos são os habitantes do Lácio ou da Itália, e por isso observa que antigamente se chamavam "latinos". Esse esclarecimento não deve ter significado muita coisa para Ibn al-Qifti que interpretou no sentido corrente em sua época, isto é, "romeus", bizantinos (ou seja, gregos). E quase paradoxal que, ao final de um processo tão longo de reelaborações, essa última reencarnação da carta de Aristeu pelo cronista árabe medieval considere faltantes em Alexandria justamente os livros dos gregos.

O livro de Epifânio em grego sobreviveu apenas em parte; a obra completa foi conservada na tradução siríaca (Altaner e Stuiber, p. 316). É uma obra que teve prestígio e difusão na cultura árabe. Entre outras coisas, foi muito aproveitada pelo autor do prefácio à versão árabe do Pentateuco (cujo texto se encontra em tradução latina no livro publicado em Oxford, em 1692, Aristeae Historia LXX interpretum, p. 131).
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GÉLIO
Para os dados referentes à destruição da biblioteca de Alexandria, Gibbon, como muitos estudiosos depois dele, remetia ao testemunho de Amiano Marcelino (XXII, 16, 13), o historiador antioquense admirador de Juliano, o Apóstata. Mas Amiano, além da confusão — sobre a qual já falamos — entre a biblioteca do palácio e a biblioteca do Serapeum (consegue contornar esse problema falando de várias bibliotecas presentes no Serapeum: "bybliothecae inaestimabiles"), não pode ser considerado uma fonte independente. Ele transcreve uma referência que aparece nas Noites áticas de Aulo Gélio (VII, 17). Eis o que narra Gélio:

O primeiro a pôr à disposição da leitura pública os livros das artes liberais foi, diz-se, o tirano Pisístrato. Posteriormente, com dedicação e cuidado, os próprios atenienses os aumentaram. Mas, a seguir, toda aquela profusão de livros foi roubada e levada para a Pérsia por Xerxes, quando ocupou Atenas e incendiou toda a cidade, com a exceção da acrópole. Depois de muito tempo, todos aqueles livros foram devolvidos a Atenas pelo rei Seleuco, dito Nicanor.

Posteriormente, muitíssimos livros foram recolhidos ou confeccionados no Egito pelos soberanos Ptolomeus, até chegar a 700 mil rolos. Mas, no decorrer da primeira guerra de Alexandria, durante o saque da cidade, todos esses milhares de rolos foram queimados, com certeza não espontânea nem intencionalmente, mas por acaso, por obra dos soldados auxiliares.

Por seu lado, escreve Amiano que os "700 mil rolos, reunidos pelos soberanos Ptolomeus com incansável esforço, foram queimados na guerra de Alexandria, durante o saque da cidade, sob a ditadura de César". As palavras são iguais às de Gélio, só que Amiano modifica, ou melhor, interpreta as palavras bello priore Alexandrino dum diripitur ea civitas [na primeira guerra de Alexandria, quando a cidade foi saqueada], que se tornam bello Alexandrino dum diripitur civitas sub dictatore Caesare [na guerra de Alexandria, quando a cidade foi saqueada, sob a ditadura de César].

Mas parece possível inferir do sumário no início do capítulo que Gélio, originalmente, não incluía a breve referência sobre a biblioteca de Alexandria. (São sumários do autor, que Gélio coloca no final do prefácio geral, todos juntos, para oferecer ao leitor um índice completo da sua obra, e que depois reaparecem progressivamente, cada qual no começo do respectivo capítulo.) Assim, o sumário promete discutir: "Quem foi o primeiro a instituir uma biblioteca pública e quantos livros havia em Atenas nas bibliotecas públicas antes das derrotas sofridas diante dos persas". Esse sumário prescinde, pois, da segunda parte do capítulo, referente a Alexandria, a qual está ligada à primeira de maneira canhestra, a ponto de dar a impressão ao leitor de que Ptolomeu é cronologicamente posterior a Seleuco.

O autor dessa segunda parte tinha também uma idéia singularmente precisa sobre os responsáveis pelo incêndio da biblioteca, sem dúvida identificando-os com alguns milites auxiliarii. Sabe-se — através do Bellum Alexandrinum — que, durante o conflito alexandrino, o príncipe Mitrídates Pergamense veio com suas tropas em defesa de César. O interpolador decidiu que a dolorosa destruição dos livros não poderia ser obra dos romanos.

É desnecessário repetir que ele também fala em um inexistente “saque de Alexandria ". E, fato não menos desmerecedor, prescinde totalmente das informações exatas sobre as circunstâncias e o momento em que o incêndio se desenvolveu, facilmente deduzíveis do Bellum Alexandrinum, além das diversas fontes que retomam Lívio (acima, capítulo XII).
5

ISIDORO DE SEVILHA
Das duas partes que compõem o capítulo de Gélio — a primeira sobre Atenas e a segunda sobre Alexandria — Amiano utiliza, com ligeiras modificações, apenas a segunda.

Isidoro de Sevilha, pelo contrário, num capítulo de suas enciclopédicas Etynologiae justamente intitulado "De bibliothecis" (VI, 3), utiliza (VI, 3, 3) somente a primeira. Eis o texto:



Sobre as bibliotecas. Biblioteca é nome de origem grega; o termo deriva do fato de que ali se conservam livros. Efetivamente biblion se traduz como livros e théke como depósito. A biblioteca do Antigo Testamento, depois que os livros da Lei foram queimados pelos caldeus, foi reconstruída por Esdras, inspirado pelo Espírito Santo; corrigiu todos os volumes da Lei e dos Profetas, que haviam sido adulterados pelos gentios, e fixou todo o Antigo Testamento em 22 livros, de modo que o número dos livros correspondesse ao das letras. Entre os gregos, por sua vez, pensa-se que Pisístrato, o tirano de Atenas, foi o primeiro a instituir uma biblioteca; essa biblioteca, posteriormente ampliada pelos atenienses, Xerxes — após incendiar Atenas — levou-a para a Pérsia; muito tempo depois, Seleuco Nicanor trouxe-a de volta para a Grécia. Disso nasceu, em todos os soberanos e em todas as cidades, a mania de providenciar os livros dos diversos povos e, através de tradutores, de traduzi-los para o grego. Eis a razão pela qual Alexandre Magno ou talvez seus sucessores empenharam-se em construir bibliotecas que incluíssem todos os livros. E principalmente Ptolomeu, chamado Filadelfo, profundo conhecedor de literatura, competindo com Pisístrato na dedicação às bibliotecas, canalizou para a sua biblioteca não somente as obras dos gentios, mas também as sagradas escrituras. De fato, na Alexandria daquela época, encontravam-se 70 mil volumes. [Segue um capítulo "De interpretibus", que abre com a história, que remonta a Aristeu, de Eleazar e os 72 tradutores do Antigo Testamento.]

Assim, Isidoro, após discorrer, nas pegadas de Gélio, sobre Pisístrato e sua biblioteca, prosseguiu com Alexandria e seus rolos, mas já não reproduzindo a seqüência do capítulo de Gélio. Pode ser uma casualidade. Mas não é improvável que o Gélio utilizado por Isidoro, no início do século VII, ainda não incluísse a parte sobre Alexandria, no capítulo 17 do VII livro.

Nesse caso, como Amiano já a conhece, três séculos antes de Isidoro? A rigor, Amiano poderia ter recorrido não a Gélio, mas simplesmente à fonte a que também recorreu o interpolador de Gélio.

Ainda que as duas passagens aqui tratadas, a de Gélio e a de Isidoro, apresentem um elemento comum tão visível (a história da biblioteca de Pisístrato), elas remontam, porém, segundo a visão moderna corrente, a duas fontes diversas (ambas desaparecidas): Gélio ao De bibliothecis de Varrão; Isidoro ao De viris ilustribus de Suetônio. Isso é ainda mais surpreendente se se considerar que nem em Gélio nem em Isidoro aparecem referências às fontes utilizadas.

Mas a razão pela qual se procuram ascendentes tão nobres para os dois autores é razoavelmente clara: tende-se a aumentar o prestígio de seus testemunhos. Quanto à informação de Gélio sobre a biblioteca de Alexandria, por exemplo, um especialista como Carl Wendel comenta que "é a única que pode pretender validade histórica", assim assegurando que "no momento do incêndio a biblioteca do Museu chegara a 700 mil rolos" (em: Milkau-Leyh, Handbuch der Bibliothekswissenschaft, III, l, Wies-baden, 1955, p. 69). Mais recentemente, porém, Peter Marshall Fraser — voz respeitável, mas isolada — afirmou que a quantidade mencionada por Gélio e Amiano é "certamente menos qualificada a receber crédito do que as outras" (Ptolemaic Alexandria, Oxford, 1972, II, p. 493, nota 224).

Wendel, simplificando sem discutir especificamente o ponto de vista atual, considerava que tanto Gélio como Isidoro se remetiam ao tratado de Varrão. Por que Varrão? Como se sabe, César confiara formalmente a ele uma "cura bibliothecarum" (Suetônio, Vida de César, 44). Varrão, erudito consciencioso e grande colecionador de livros, preparou-se para cumprir a tarefa que lhe fora confiada fazendo uma série de estudos sobre a questão, cujo fruto foi justamente o De bibliothecis. Os modernos se basearam nesse dado. Tais são as passagens, que dificilmente poderíamos considerar lógicas. Plínio (Naturalis historia, XIII, 68-70) cita Varrão a respeito dos materiais de escrita em uso no mundo greco-romano; cita-o, a rigor, a propósito de uma teoria absurda (se é que foi corretamente transcrita) que, a seguir, contesta energicamente: a teoria segundo a qual se teria começado a utilizar a folha de papiro somente a partir "da época da vitória de Alexandre Magno"! Visto que o próprio Isidoro também dedica vários capítulos do VI livro (9-12) aos materiais de escrita (de ceris, de cartis, de pergamenis, de libris conficiendis [sobre a preparação de ceras, papéis, pergaminhos, livros]), deduziu-se que ele dependeria de Varrão por intermédio de Suetônio. (Isidoro, por razões muito diferentes, cita Suetônio em outras passagens.) Esta é a tese, por exemplo, de Dahlmann, no verbete "Marcus Terentius Varro" da enciclopédia Pauly-Wissowa, Suplemento VI, [1935], col. 1221. Reifferscheid, editor das Reliquiae de Suetônio (1860), chega a incluir esses capítulos entre os "restos" de Suetônio (p. 130).

Na realidade, num ponto essencial, Isidoro diz exatamente o contrário de Varrão: "Cartarum usum primum Aegyptus ministravit" [O Egito providenciou o primeiro uso do papel] (VI, 10, 1).

Procedendo-se com gulosa liberalidade para a recuperação, pelo menos parcial, do texto de Varrão, conclui-se que todas as informações relativas aos livros e bibliotecas recorrentes em escritores posteriores a Varrão devam ser remetidos a ele: portanto, também o capítulo de Isidoro intitulado "De bibliothecis" (VI, 3) (Dahlmann). Chega-se ao paradoxo de atribuir esse capítulo não a Isidoro, mas a "Suetônio segundo Isidoro": é o que faz Marshall na edição oxfordiana de Gélio (I, Oxford, 1968, p. 272).

Na realidade, a passagem de Isidoro apresenta pontos de contato com outros tipos de textos. Antes de mais nada com o Apologético de Tertuliano (18, 5), em que de fato sele:

Ptolomeu, dito Filadelfo, profundo conhecedor de literatura, rivalizando, creio eu, com Pisístrato na dedicação às bibliotecas [até aqui o texto coincide com Isidoro VI, 3, 5], entre outros documentos cuja conservação fora recomendada pela antigüidade ou pela curiosidade, por sugestão de Demétrio Falereu, gramático estimadíssimo naquela época, a quem confiara uma tarefa formal, também encomendou livros aos judeus etc. [e continua parafraseando a célebre passagem da Carta de Aristeu].

Da mesma forma, na carta XXXIV (A Marcella), Jerônimo reproduz o mesmo texto logo no início, ao tratar do beato Pânfilo, que queria constituir uma biblioteca sagrada: "cum Demetrium Phalereum et Pisistratum in sacrae bibliothecae studio vellet aequare" [querendo igualar Demétrio e Pisístrato no amor pela biblioteca sagrada].

Portanto, mais uma vez, o episódio central em torno do qual giram as outras referências às bibliotecas antigas é a tradução do Antigo Testamento, novamente evocada segundo o relato de Aristeu, aliás, bastante conhecido por Tertuliano. E exatamente o que observa também Isidoro (VI, 3 e 4: "De bibliothecis", "De interpretibus"). Assim como Tertuliano, Isidoro inclui a referência geliana a Pisístrato (não a da destruição do Museu, que desconhecia) num contexto cujo principal acontecimento é a tradução do Antigo Testamento, na esteira de Aristeu; reflete, portanto, uma tradição que parece dever muito pouco a Varrão e Suetônio.

No "De bibliothecis" de Isidoro (VI, 3) podem-se reconhecer pelo menos três paralelos: Gélio VII, 17, 1-2 (= VI, 3, 3); Tzetzes, De comoedia, p. 43, 11-3 Koster (= VI, 4: traduções de todos os outros povos, não apenas de livros hebraicos); Tertuliano, Apologético 18, 5 ( = VI, 5: tradução do Antigo Testamento). A semelhança entre as três referências deve-se provavelmente à sua fonte imediata.



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