A biblioteca Desaparecida Histórias da Biblioteca de Alexandria – Luciano Canfora



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LÍVIO
Sêneca (De tranquillitate animi, 9, 5) atribui a Lívio uma expressão ("regiae opulentiae monumentum etc.''), com que o historiador comentava a perda de 40 mil rolos no incêndio ateado por César em Alexandria. Essa expressão também reaparece em Orósio, com poucas modificações, no relato do mesmo episódio (VI, 15, 31). Isso permite reconhecer que a base do relato de Orósio sobre o incêndio (acima, cap. XVI) encontra-se em Lívio.

O número 40 mil também coincide. Pretendeu-se indevidamente corrigir essa cifra na passagem de Sêneca, e a que foi proposta por Picianus parece ter gozado de excessivo crédito. Carl Wendel (Handbuch der Bibliothekswissenschaft, III, l, p. 69, nota 5) também a aprovou incondicionalmente. A correção se devia ao que se poderia ler em Orósio. Contudo, numerosas testemunhas das Historiae adversus paganos, entre elas o eminente Laurenciano 65.1 — que Carl Zangemeister coloca no alto da lista dos códigos orosianos a serem preferidos — apresentam "XL milia librorum".

Mas existem outras coincidências, que dizem respeito a outras formulações da mesma frase:

ORÓSIO: "Ea flamma cum partem quoque urbis invasisset quadraginta milia librorum proximis forte aedibus condita exussit" [Este fogo, tendo invadido também parte da cidade, queimou acidentalmente 40 mil livros que estavam guardados em construções vizinhas];

FLORO, Epitoma de Tito Lívio, II, 13, 59: "ac primum proximorum aedificiorum atque navalium incêndio infestorum hostium tela submovit" [e afastava as flechas dos inimigos assaltantes por meio do incêndio dos navios e dos edifícios próximos];

LUCANO, Bellum civile, X, 498-505: "Sed quae vicina fuere tecta mari, longis rapuere vaporibus ignem [...] Illa lues paulum clausa revocavit ab aula, urbis in auxilium, populos" [Mas os tetos vizinhos ao mar pegaram fogo devido às longas labaredas ... Essas calamidade aos poucos atraiu as pessoas da corte fechada para socorrer a cidade].



Proximae aedes, próxima aedificia, vicina tecta refletem, evidentemente, a expressão que devia aparecer em Lívio, fonte dos três autores. A dinâmica do incêndio, que afasta os sitiadores do palácio, também é apresentada de modo semelhante em Floro ("infestorum hostium tela submovit") e Lucano ("clausa revocavit ab aula populos").

O que eram os "vicina tecta mari" esclarece-nos Dião Cássio (XLII, 38, 2), que especifica que o incêndio atingiu "entre outras coisas, o arsenal e os depósitos de trigo e livros"; a expressão coincide com a de Floro ("proximorum aedificiorum atque navalium incêndio") — se "navalia'' é xò vaúpiov, os "próxima aedificia" são "os depósitos de trigo e livros". Essa coincidência adicional permite identificar melhor os "próxima aedificia" (e confirma ainda que, nessa passagem do relato das guerras civis, Dião também segue Lívio).

A expressão usada por Dião Cássio refere-se inequivocamente a alguns "depósitos"; é por isso, de fato, que o trigo e os livros são mencionados em conjunto, e é claro que são depósitos muito próximos. O fato de que em outras passagens (XLIX, 43, 8; LIII, 1, 3) Dião Cássio defina como as bibliotecas fundadas por Augusto não deve nos induzir em erro (Dziatzko, Pauly-Wissowa, verbete "Biliotheken", col. 411, 60); sabe-se que não designa um edifício, mas sim as estantes. (Daí ser evidente o uso do termo no plural: não se entende por que Wendel, p. 75, nota 6, atribui o uso de à um rebuscamento retórico de Dião.) Gustav Parthey, na dissertação berlinense de 1837, "premiada pela Academia das Ciências" (Das alexandrinische Museum, pp. 32-3), esclareceu rigorosamente o uso do termo "depósitos" em Dião, XLII, 38, 2. Parthey, que estudara longamente a topografia de Alexandria, além de ser um experiente arabista, compreendera que a biblioteca não podia ter sido afetada pelo incêndio de César. Por isso conclui que o Museu, durante a guerra de Alexandria, havia permanecido intacto e que os livros, por sua vez — por obscuras razões, transportados para os depósitos próximos ao porto —, tinham ficado à mercê das chamas. Sublinhava com razão de Orósio (VI, 15) e propunha, sem pretender de forma alguma resolver a questão, que César havia mandado evacuar o conteúdo do Museu e transportar os livros para o porto, a fim de transferi-los para Roma. Era uma hipótese apresentada com muitas ressalvas (Parthey a atenuava muito ao acrescentar: "ou por qualquer outra razão que outros queiram aventar"), mas na realidade muito frágil: a seqüência dos acontecimentos entre a chegada de César a Alexandria e o incêndio por ele ateado aos navios atracados no porto, tal como se apresenta nos últimos capítulos do III comentário De bello civili, parece excluir que César, bloqueado e em sério perigo, tivesse oportunidade de conceber tais planos napoleônicos. (Parthey talvez também estivesse sugestionado pela devastação cultural efetuada por Napoleão no Egito.) Na verdade, não é necessário pensar que os rolos queimados nos depósitos próximos ao porto fossem do Museu: como sabemos (acima, capítulo XVI), o contexto em De tranquillitate animi 9, 5, de Sêneca, mostra claramente que se tratava de um gênero de livros totalmente diverso. E curioso observar — a respeito dos inúmeros equívocos surgidos na interpretação moderna desse fato — que, por exemplo, a hipótese apresentada por Parthey torna-se certeza em Dziatzko, que escreve: "No ano 47 a.C, foi queimada a maioria das coleções de livros. César queria transportá-los para Roma (Parthey, p. 32)" (col. 413,1-5).

A tradição remanescente, derivada de Lívio — a que também pertence Dião —, permite-nos formular uma idéia clara sobre o relato de Lívio acerca do fato. A coincidência Orósio-Floro-Lucano permite atribuir a Lívio a expressão proximae aedes; a coincidência Floro-Dião remete mais um detalhe a Lívio, qual seja, as aedes eram os arsenais e os depósitos portuários.

A identificação de uma parte dessas aedes como depósitos de livros condiz com o pormenor, apresentado por Orósio, de que os livros queimados encontravam-se ali por acaso ("forte") — estavam justamente dispostos em depósitos, da mesma forma que as outras mercadorias. Assim, esse detalhe essencial também deve ser atribuído a Lívio.

O encaixe dessas peças, portanto, leva a concluir que Lívio, ao falar de livros queimados durante o incêndio, não os apresentava como tesouros da biblioteca destruídos pelo fogo (que não houve) no Museu, e sim como rolos-mercadorias casualmente envolvidos no incêndio do porto e de suas proximidades. Assim, é com razão que a periocha [sumário] do livro CXII, tão densa de episódios egípcios, não menciona em absoluto uma destruição do Museu. E quase supérfluo acrescentar que a coincidência Floro-Lucano ("tela hostium submovit", "populos revo-cavit ab aula") também remonta a Lívio — o qual, por conseguinte, não enquadrava o incêndio num imaginário "saque" de Alexandria.


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CONJETURAS
Na origem da multiplicidade de opiniões contraditórias sobre o destino dos livros de Alexandria, encontra-se a idéia não muito clara da topografia do Museu. Foram dois os pontos da discussão: a) a biblioteca era um edifício em si ou se identificava com o Museu? b) ficava ou não no interior do palácio real?

A rigor, poder-se-ia dizer que se trata de duas questões de fácil resposta, e que talvez nem devessem surgir, visto que: a) Estrabão (XVII, 1, 8) enumera os edifícios que constituíam o Museu e não menciona um edifício próprio para a biblioteca; b) não só Estrabão na passagem ora citada, mas também Tzetzes no De comoedia (p. 43 Koster) situam claramente a biblioteca do Museu "dentro do palácio", em oposição à do Serapeum, que estava '' fora''. Assim, se a discussão surgiu (não poderia ser resolvida com uma visita ao local, pois dele nada restou), é porque em algumas fontes (Gélio, Plutarco, Amiano Marcelino) aflora a referência a um "incêndio'' da "grande biblioteca''. A credibilidade atribuída a essas informações — na realidade discutíveis, como se disse — traz algumas conseqüências:

a) Visto que a propagação do incêndio é muito clara a partir das formas remanescentes e consta que ele foi ateado no porto e se desenvolveu ao redor do porto, tentou-se situar a biblioteca (contra as explícitas indicações de Estrabão e Tzetzes)perto do porto.

b) Visto que o Museu enquanto tal continuou tranqüilamente a prosperar, e uma série contínua de fontes literárias e documentais — a começar pelo próprio Estrabão — confirma sua feliz e ininterrupta existência, acabou-se por pensar numa biblioteca (tomada pelo fogo) distinta do edifício do Museu.

Naturalmente, era estranho que a biblioteca se incendiasse, e o Museu, não. Assim se desfazia, por outras vias, a "distância" entre o Museu e a biblioteca! As tortuosas formulações que se lêem num belo ensaio do início do século, a introdução de John William White aos Scholia on the Aves of Aristophanes (Londres, 1914), que na realidade é uma história da biblioteca de Alexandria, são um sinal da confusão reinante sobre esse ponto: "A biblioteca, a mais importante entre todas as possíveis coleções", escreve White, "provavelmente se situava perto do Museu, se é que não fazia parte dele" (p. XIII); e um pouco adiante: "a grande biblioteca ligada ao Museu" (p. XXX).

Na verdade, Gustav Parthey já indicara o caminho certo havia um bom tempo: observara que as descrições topográficas de Estrabão, onde era possível uma verificação in loco, se demonstravam muito precisas; percebera a tendência dos eruditos do século XVIII — especialmente Bonamy nas suas diversas intervenções nos Mémories de Académie des Inscriptions et Belles Lettres de 1731 e 1732 — de "deslocar a biblioteca em direção ao mar" (justamente para facilitar o seu incêndio), e mostrara conclusivamente o quanto era insensato pensar "que os livros fossem conservados num edifício e os eruditos vivessem num outro lugar" (Das alexandrinische Museum, pp. 20-1).

Apesar disso, a visão que veio se afirmando entre os modernos, e que foi estabelecida em obras que, por sua autoridade, acabam por desencorajar a crítica, é a de uma biblioteca bem distinta do Museu, destruída por um incêndio que, porém, não chegou a ele — destruição que, entre outras coisas, seria univocamente testemunhada por todas as fontes. Deve-se dizer ainda que esse dogma se consolidou mais entre os estudiosos de textos do que entre os arqueólogos. Assim, por exemplo, Christian Callmer, o arqueólogo sueco a quem se deve o trabalho mais completo sobre as bibliotecas antigas, cautelosamente observa que na realidade não sabemos nada sobre o "plano arquitetônico" da biblioteca de Alexandria, enquanto acrescenta numa nota que a única descrição remanescente é a de Estrabão ("Antike Bibliotheken", Acta Instituti Romani Regni Sueciae, 1944, p. 148). Pelo contrário, Carl Wendel apresenta, no Handbuch, a seguinte descrição:

Quando César, na guerra de Alexandria (48-47), mandou incendiar os navios inimigos, o fogo também atacou partes da cidade e destruiu os canteiros navais, os depósitos do trigo e a grande biblioteca. Se esse dado é mencionado tanto por Sêneca (que se remete a Lívio), como por Dião Cássio, Gélio e Plutarco, não pode ser posto em dúvida pelo fato de o próprio César no Bellum civile e seu colaborador que escreveu o Bellum Alexandrinum passarem em silêncio pelo penoso incidente, ou pelo fato de escritores posteriores como Orósio e Amiano Marcelino confundirem a biblioteca do Museu com a do Serapeum. Também é errôneo invocar o local do Museu, que — fazendo parte do palácio real — não estava nas proximidades do porto, como argumento contra a tese do incêndio; tampouco deve servir de inspiração para teorias infundadas como aquela (apresentada por Parthey), segundo a qual uma parte da biblioteca se encontrava naquele momento num depósito do porto, pois César pretendia transportá-la para Roma. É uma violência contra as fontes pensar em atribuir o incêndio não à biblioteca do Museu mas a algum outro depósito de livros situado numa outra parte da cidade ou no porto. A boa tradição menciona um fato que nada tem de impossível, e tem todo o direito de pretender que a consideremos boa (III, 1, pp. 75-6).

Evidentemente, a esse ponto é fácil contrapor que Sêneca, Dião, Gélio, Orósio e Amiano não falam num incêndio da biblioteca (esta palavra só se repete em Plutarco), mas sim de rolos (cuja quantidade é transmitida de várias formas: de 40 mil a 700 mil); que se pretende explicar o silêncio de César e do autor do Bellum Alexandrinum como um encobrimento de um episódio desagradável, por outro lado não se compreende por que Cícero também se tornou seu cúmplice (ao não falar nunca do incêndio, nem após a morte do ditador); que, uma vez "salvo" o Museu do incêndio (Wendel também admite que permaneceu intacto), é difícil afirmar que a biblioteca, pelo contrário, foi vítima do fogo sem sermos obrigados a deslocá-la para uma outra parte da cidade.

Fraser, o autor da monumental Ptolomaic Alexandria (Oxford, 1972), não por acaso um atento estudioso da topografia da cidade, trouxe bom senso a essa discussão. Ele reconduziu a questão ao ponto de partida, isto é, ao silêncio de Estrabão a respeito de um edifício-biblioteca distinto dos outros edifícios do Museu; observou que falta um edifício com essas características em Pérgamo (que se conservou o suficiente para permitir reconstruir sua planta) e que a cidade só pode ter reproduzido Alexandria; por fim, manifestou, com a habitual cautela, uma preferência pela idéia de que a chamada "biblioteca" — segundo a primeira e predominante acepção do termo — era, na realidade, o conjunto das estantes situadas nas dependências do Museu (I, pp. 334-5; II, pp. 479-80 e 493-4).

Os textos documentais (Papiro Merton, 19, e Papiro de Oxirrinco 2192) e literários (Suetônio, Vida de Cláudio 42, 5) que atestam a ininterrupta vitalidade do Museu de Alexandria foram compilados e comentados por Bertrand Hemmerdinger. Este infere que, conseqüentemente, não ocorreu tal catastrófica perda de livros durante a campanha de César, e rejeita, sem discuti-las, as fontes que falam a respeito ("Que César n'a pas brülé La bibliothèque d'Alexandrie", Bolletino dei Classici, III, 6, 1985, pp. 76-7).

Apesar do predomínio da idéia apresentada por Wendel, na verdade a opinião contrária nunca desapareceu totalmente; pelo contrário, afastaram-se da opinião dominante especialistas em helenismo e livros antigos como Schubart (Das Buch bei den Griechen und Rõmern, 1921), Pasquali (no verbete "Biblioteca" da Enciclopédia Italiana, VI, 1930), Pfeiffer (Storia delia filologia clássica, 1968, trad. ital. Nápoles, 1973, p. 339). Entre outras coisas, sempre ressurgia a pergunta importuna: então como a atividade erudita continuou a florescer no Museu logo após a pretensa catástrofe? (Por exemplo, as atividades de Dídimo, concluídas na época de Augusto, provavelmente já haviam começado antes da chegada de César, e prosseguiram sem interrupções.) Para resolver a incômoda questão, apressava-se (Wendel) em dar crédito às referências de Plutarco sobre a doação de Antônio a Cleópatra dos livros de Pérgamo (Vida de Antônio, 58, 3), ainda que o próprio Plutarco (cap. 59) afirme imediatamente que não acredita absolutamente nela. Ao utilizar esse trecho de Plutarco, recorre-se a vários expedientes. Merece atenção o emprego feito por White (p. XXX). Plutarco diz que, segundo o libelo de Calvísio contra Antônio, o triunvirato depredou os livros de Pérgamo para doá-los a Cleópatra, mas acrescenta que a informação lhe parece pouco confiável; White a menciona da seguinte maneira: Antônio doou 200 mil rolos a Cleópatra, assim ressarcindo a biblioteca de Alexandria, mas o fato foi tão escandaloso que Calvísio o atacou num libelo!

A contínua persistência de dúvidas quanto à confusa tradição sobre o incêndio de César também explica o tom polêmico de Wendel na página acima citada. A mais apaixonada defesa da tese contra o incêndio, mas pouco argumentada e pouco conclusiva, deve-se ao antiquário americano Edward Alexander Parsons, no livro The Alexandrian library, glory of the Hellenistic world (1952) (pp. 288-319).

A discussão está viciada desde a base. O ponto de partida deveria ser a coincidência entre Sêneca (Tranquillitate anitni, 9, 5) e os melhores códigos de Orósio quanto ao número de 40 mil rolos. Em vez disso, contesta-se o próprio dado presente em Sêneca. White (p. XXXIV, nota) o liquida imaginando que Sêneca lançou um número casual que, "para qualquer romano de sua época, deveria parecer suficientemente grande como patrimônio de uma biblioteca", e invoca a esse respeito o estranho argumento de que existiam muitas bibliotecas em Roma, mas de pequenas dimensões. Wendel, que com acerto lembra que Sêneca depende de Lívio, mais expeditamente corrige o texto de Sêneca, pois de outra forma a memorável destruição da biblioteca acabaria por se invalidar. De fato, o que seriam esses até preciosos 40 mil rolos diante dos 490 mil que, segundo Tzetzes (p. 43 Koster), a biblioteca já possuía na época de Calímaco?

Por outro lado, é claro que, estabelecido o nexo Lívio-Sêneca-Orósio a respeito da "modesta" quantidade de 40 mil rolos, as hiperbólicas cifras de Gélio (e de seu derivado Amiano), que falam em 700 mil rolos queimados, perdem qualquer credibilidade. E revelam o que provavelmente são: uma conjetura que se desenvolveu segundo o seguinte esquema: a) a biblioteca foi destruída; b) os rolos eram 700 mil; c) portanto, foram queimados 700 mil rolos.

Se esses 40 mil rolos destruídos pelo incêndio (por se encontrarem "por acaso" nos depósitos do porto) também pertenciam à biblioteca real (ou porque, de fato, como sugeria Parthey, César mandara transportá-los, ou por qualquer outra razão que ignoramos), eles constituíam apenas uma parcela mínima da enorme dotação da biblioteca de Alexandria.

Assim, convém afastar da história da tradição dos textos antigos a terrível ruptura que teria representado a perda de uma tal biblioteca, se realmente tivesse ocorrido.
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HECATEU
Diodoro apresenta a descrição do mausoléu de Ramsés (Osimandias) feita por Hecateu de Abdera como uma confirmação de sua observação direta do monumento (I, 47, 1). O paradoxo é que, como prova disso, apresenta não a sua descrição, mas a de Hecateu.

Esse incrível procedimento surge claramente quando a descrição extraída de Hecateu é inserida no contexto: "Não apenas o que os sacerdotes deduzem dos seus registros", escreve Diodoro a respeito dos monumentos da Tebaida, "mas também o que escrevem muitos dos gregos vindos a Tebas sob Ptolomeu de Lago e que compuseram histórias egípcias, um dos quais, Hecateu, concorda com as coisas ditas por mim. [Contudo, até agora, Diodoro ainda não "disse" coisa alguma, ainda não apresentou sua descrição.] Na verdade diz [e o sujeito desse "diz" é Hecateu!] que, do mausoléu do rei chamado Osimandias às primeiras tumbas onde estariam sepultadas as concubinas de Zeus, a distância é de dez estádios; e que na entrada deste mausoléu há um portal de pedra trabalhada etc.".

Dessa ordem invertida infere-se: a) que a partir desse ponto Diodoro começa a copiar textualmente Hecateu; b) que na época em que Diodoro chega a Tebas o mausoléu ainda estava de pé; c) que Diodoro se limitará a relatar o que encontrava em Hecateu, porque na realidade não viu o interior do mausoléu.

O mausoléu de Ramsés (Ramesseum) é o único monumento da região de Tebas descrito por Diodoro. Essa descrição acaba por se tornar a única base de informações quando os vestígios dos monumentos escasseiam ou se tornam confusos. Isso já ocorre, infelizmente, a partir do perípato, isto é, quando se passa para a segunda parte do edifício: aquela que, além do mais, pelas palavras de Hecateu (Diodoro), parece evidenciar que o monumento lhe foi descrito, e não mostrado (acima, capítulo II).




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A BIBLIOTECA INENCONTRÁVEL
Os arqueólogos procuraram em vão a biblioteca do Ramesseum.

A identificação do mausoléu com o edifício descrito por Diodoro foi atestada e documentada por dois engenheiros do estado-maior de Napoleão durante a campanha do Egito, Jean-Baptiste Prosper Jollois e René Edouard Devilliers (Description de L’Egypte, II, Paris, 1821). Eles denominavam o edifício de "Memnônio", mesmo sabendo da inexatidão do termo, e tiveram o mérito de confrontar cuidadosamente a descrição de Diodoro com os restos ainda visíveis. Depois da sala das colunas — observam eles —, não existem resquícios significativos; mesmo assim, perguntavam-se onde situariam a "biblioteca sagrada" mencionada por Diodoro (I, 49, 3). Mas a solução por eles proposta era duvidosa: por um lado consideravam, na esteira de Diodoro, "La salle servant de bibliothèque" [a sala que serve de biblioteca] como adjacente à "salle qui renfermait vingt tables entourées de lits" [sala que continha vinte mesas cercadas de leitos] (p. 301); por outro, afirmavam que "les petites chambres obscures" [os pequenos quartos escuros] chamados oikémata "entouraient Ia bibliothèque" [cercavam a biblioteca] (p. 300), ainda que, segundo Diodoro, os oikémata, na realidade, circundem a sala dos vinte leitos e não a biblioteca.

Em 1828-9, Jean-François Champollion, comandando uma expedição arqueológica franco-toscana, muito bem equipada, da qual também participava Ippolito Rosel-lini, percorreu todo o Egito. Não só confirmou a identificação do mausoléu com o de Diodoro, como também tentou definir melhor a localização da "salle des livres" [sala dos livros]. Ele observou na porta de passagem que "du promenoir conduit à la salle suivant" [do perípato conduz à sala seguinte] duas figuras divinas, esculpidas aos pés dos umbrais, particularmente alusivas aos livros e à leitura: Thoth, deus do saber (o Hermes Trismegisto dos gregos) e sua irmã Seshat (Champollion dizia "la déesse Saf, compagne de Thoth" [a deusa Saf, companheira de Thoth], padroeira dos arquivos. Os relevos também incluem personagens do séquito que acompanha as duas divindades: um conselheiro de Thoth representa o sentido da visão por contar com um olho enorme, um acompanhante de Seshat representa a audição e conta com uma orelha, além de trazer consigo o material de escrita, "comme pour écrire tout ce qu'il entend" [como que para escrever tudo o que ouve]. "Je me demande", continuava Champollion na longa carta escrita em Tebas em 18 de junho de 1829, 'Vil est possibile de mieux annoncer, que par de tels basreliefs, 1'entrée d'une bibliothègue?' [Eu me pergunto se é possível anunciar melhor, a não ser por tais baixos-relevos, a entrada de uma biblioteca] (Lettres et journaux, a cargo de Hermine Hartleben, II, Paris, 1909, p. 324). Contudo, ao reconsiderar o texto de Diodoro diante dos restos do monumento, constatava logo a seguir: "Ia salle de Ia bibliothèque est presque entièrement rasée" [a sala da biblioteca está quase inteiramente destruída] (p. 327).

Depois de Champollion, repetiram-se os esforços para localizar qualquer vestígio dessa biblioteca no interior do mausoléu, ou seja, para indicar mais precisamente sua localização baseando-se em Diodoro e nos frágeis indícios que sobreviveram no local. O resultado foi modesto; no máximo parecem surgir alguns vestígios do lado de fora do mausoléu. Karl Richard Lepsius, discípulo de Rosellini e autor de Denkmàler aus Aegypten und Aethiopien (1849-59), encontrou a sudoeste do palácio de Ramsés as tumbas dos dois "bibliotecários", que julgou pertencerem à época de Ramsés II, e conseqüentemente relacionou-os com a biblioteca "descrita" — como disse ele — “por Diodoro". Lepsius tinha em mente uma grande e rica biblioteca, onde justamente trabalhavam bibliotecários. A idéia de que "a biblioteca sagrada" mencionada por Diodoro fosse uma ala inteira do mausoléu — assim compreendendo várias salas — afirmou-se de modo cada vez mais incontestado. É um lado que também se encontra em publicações populares de grande sucesso, como por exemplo Egito, do egiptólogo e romancista Georg Ebers, traduzido para o italiano por Curioni.

Anos depois, J. E. Quibell, que fez escavações em Tebas em 1895-6 a cargo do "Egyptiam Research Account", procurou desesperadamente restos de papiros no Ramesseum — mas foi grande a desilusão diante da descoberta de apenas dois minúsculos fragmentos.

Quibell ofereceu uma nova e cuidadosa planta do Ramesseum, na qual discriminava, entre outras coisas, as poucas paredes que sobreviveram (assinaladas por um traçado mais escuro) entre as hipotéticas (fig. 4). Baseando-se nessa planta e numa nova inspeção do monumento, Godefroy Goossens (Chronique d'Egypte, julho de 1942, p. 182) propôs uma identificação pormenorizada da biblioteca sagrada: "Ensuite venait un promenoir", escreveu seguindo Diodoro, "et de nombreuses chambres, servant entre autre de cuisines" [A seguir vinha um perípato e diversos aposentos, servindo, entre outras coisas, de cozinhas]. Na realidade, esse perípato (“promenoir") acaba sendo — na reconstrução de Goossens — a seqüência de três ambientes que ele denomina "petites hypostyles" [pequenos hipostilos]:



Na primeira sala estava o relevo com a oferenda de minério, na segunda a biblioteca. Mas logo depois a primeira salinha se converte em "le promenoir", ao passo que a "biblioteca" passa a incluir tanto a segunda quanto a terceira salinha: "A la suite de ce promenoir on trouvait la 'bibliothèque', done la deuxième petite hypostyle: l'officine de l'âme et une salle oú le roi était figure présentant des offrandes à Osiris et à tous les dieux de 1'Egypte [...] Cette salle contigue à Ia bibliothèque [desta forma a biblioteca volta a ser apenas a sala n? 2], salle três riche, contenant 20 lits ecc." [Após esse perípato encontrava-se a ' 'biblioteca", isto é, o segundo pequeno hipostilo: o gabinete da alma e uma sala onde o rei era representado fazendo oferendas a Osiris e a todos os deuses do Egito... Esta sala contigua à biblioteca, sala muito rica, contendo vinte leitos etc.]. Além do mais, num primeiro momento diz-se que essa "sala contígua" possui o relevo do faraó fazendo oferendas a todos os deuses, e depois que contém vinte leitos; Diodoro, ao contrário, situa muito claramente o relevo com a oferenda do faraó a todos os deuses antes da sala com os leitos e "em seguida" à biblioteca. Alteração dos dados de Diodoro que se mostra muito mais extraordinária naquela parte do mausoléu onde falta qualquer verificação in loco: "La dernière partie du temple est détruite", observa Gossens com justeza, "on ne peut donc mettre le texte de Diodore en rapport avec la disposition réelle" [A última parte do templo está destruída, assim não se pode confrontar o texto de Diodoro com a disposição efetiva].

Mas não é só. Champollion, na carta de Tebas, especifica que o relevo com a oferenda do faraó a todos os deuses encontrava-se na parede que divide a sala 1 da sala 2 (p. 327). Isso desmente definitivamente a idéia de Goossens, que situa esse relevo na sala dos leitos (sala 3).

Visto que, por outro lado, o próprio Champollion coloca nos umbrais da porta de entrada da sala 2 um relevo que parece ser o das oferendas minerais do faraó (o que é confirmado pela descrição de Goossens que, de fato, situa esse relevo na sala 1), surge a questão de onde estaria a biblioteca, que para Diodoro se encontra entre os dois relevos. A sensação de que a descrição de Diodoro sobre o mausoléu, a partir do perípato, é largamente fantasiosa foi expressa, com maior clareza do que outros, por Philippe Derchain "Le tombeau d'Osymandyas", Nachrichten der Akademie der Wissenschaften zu Gòttingen, 1965, pp. 165-71).


3. Ramesseum de Tebas, planta segundo Jollois e Devilliers.
Segundo Derchain, a descrição que se lê em Diodoro seria tributável — não está claro se total ou parcialmente — à imaginação dos informantes que guiaram Hecateu no decorrer de sua visita; seria — escreve ele — uma descrição "théorique" (p. 166), moldada por uma construção de conteúdo religioso, a chamada "casa da vida" (cuja função já foi muito discutida); em todo caso, conclui ele, a sagrada biblioteca deveria ser eventualmente procurada numa ala lateral do Ramesseum, e o "perípato" seria simplesmente um corredor externo. A hipótese teve poucos adeptos.

Uma tentativa de seguir novas trilhas foi feita por H. W. Helck numa intervenção na Festschrift Jantzen (Wies-baden, 1969, p. 74) e por Vilmos Wessetzky ("Die ágyp-tische Tempelbibliothek", Zeitschrift für àgyptische Sprache und Altertumskunde, 100, 1973, pp. 54-9). Na base dessa nova proposta está a idéia de que a palavra TtEpí-rca-coc; em Diodoro I, 49, 1, não deve ser entendida na acepção de local por onde se passeia (significado que, em contrapartida, impõe-se na passagem de Diodoro, na qual se lê: "em seguida se encontra um perípato"), mas no sentido de "ato de passear". Isso permite aos dois estudiosos imaginarem que o visitante (Hecateu) foi levado a passear pela sala repleta de colunas, e que pelo espaço entre as colunas e a parede teve a impressão de atravessar um corredor; além disso, julgam que se deve identificar a biblioteca nos pequenos espaços que flanqueiam aquilo que, para Champollion, Gossens e muitos outros, era o "promenoir" (fig. 5).





4. Planta do Ramesseum, reconstrução de Quibell.

Helck audaciosamente traduz por: "dentro desse espaço reservado para a biblioteca" estavam os relevos (p. 74). Mesmo aberrante, essa tradução não era totalmente nova: tanto Jollois e Devilliers (p. 276) como Derchain (p. 168) haviam entendido dessa forma. Wessetzky não os acompanha nessa tradução temerária e informa-nos que a palavra quer dizer "ao lado'' e não "em", e que assim os relevos devem estar do lado de fora, mas não extrai daí as deduções necessárias para a topografia da biblioteca.

Essa tese foi abandonada a seguir, e o mais recente estudioso do Ramesseum, Rainer Stadelmann (no verbete "Ramesseum" do Lexikon der Aegyptologie, V, 1983, pp. 94 e 98), volta a pensar na saleta indicada por Champollion — mas reconhece a biblioteca já na saleta hipostila no 1 —, sem esconder, contudo, que elas não têm qualquer relação com uma biblioteca: seriam os costumeiros "espaços para o embarque sagrado". De biblioteca não há nenhum sinal, observam Jean-Claude Goyon e Hassan El-Achirie, alguns anos antes (1974), no VI volume da primeira verdadeira "publicação" do Ramesseum (Cairo, 1974, pp. I-III). A decoração da sala R — aquela que Champollion chamara de "la salle des livres" —, totalmente consagrada às oferendas para as diversas divindades, revela a verdadeira utilidade da sala: devido ao seu claro significado religioso, deveria ser definida antes como "La salle des litanies" [a sala das litanias].

5. Localização da Biblioteca do Ramesseum: 1. hipótese de Helck; 2. hipótese de Wessetzky; 3. sala das colunas.

Dessa forma, a discussão voltou ao ponto inicial, mas agora sem a confiança, que animava Champollion, de ter identificado real e definitivamente a biblioteca graças aos relevos nos umbrais. É de se estranhar que não tenha tido a devida ressonância a constatação de que não há traços das palavras "Local de cura da alma" no umbral daquela porta que — com as imagens de Thoth e Seshat — deveria levar à "biblioteca". E não faltou quem, como Helck, mesmo sem conhecer esse texto sobre os escombros remanescentes, começasse a se interrogar sobre a palavra egípcia que corresponde à fórmula grega citada por Diodoro.

Enfim, como escreveu Fritz Milkau, há vários anos, no Handbuch der Bibliothekswissenschaft (III, P, 1955, pp. 10-1), "a biblioteca do Ramesseum não quer ser encontrada". Milkau não duvidava da existência da "sagrada biblioteca", formulando, pelo contrário, a hipótese de que havia uma ' 'biblioteca do templo'' e que provavelmente seria comum a existência delas nos templos. Contudo, assinalava obstinadamente os fracassos das pesquisas anteriores e definia a pequena biblioteca (da qual falaremos agora) do templo de Hórus em Edfu como "a única biblioteca egípcia de cuja existência não cabe duvidar".

Carl Wendel, por sua vez, propenso a dar muito crédito aos dados tradicionais, tendia a rejeitar os prudentes pontos de interrogação de Milkau. A informação de Diodoro — observa no ensaio de síntese escrito para o Realle-xikonfür Antike und Christentum — "não deve ser posta em dúvida somente por não ter sido possível estabelecer com segurança o local da biblioteca nas ruínas do mausoléu perto de Tebas". Questão — pode-se observar — mal colocada, visto que como sabemos (acima, capítulo XVI), a descrição de Diodoro foi mal interpretada: Diodoro não fala de uma sala-biblioteca, mas sim de uma “estante" ao longo do perípato.

Wendel prossegue invocando o paralelo do templo de Hórus em Edfu: "O vestíbulo do templo de Hórus", escreve ele, "que compreende também uma biblioteca embutida ("Bibliothek-Einbau"), foi de fato concluído pelo Evergeta II Fiscão, mas o conjunto do edifício ptolomaico deve ter sido copiado de uma planta de um edifício egípcio antigo anterior. Ali, uma inscrição nas paredes da pequena sala menciona duas doações de livros por parte do rei, totalizando 36 títulos, enquanto duas pequenas cavidades na parede dão a entender que ali estavam colocadas as prateleiras para os rolos; uma representação da deusa da escrita Seshat completa as referências sobre as finalidades do conjunto" (II, 1954, col. 232). Assim, enquanto procura confirmações de uma sala-biblioteca, traz como exemplo uma biblioteca que consistia em uma estante inserida numa cavidade da parede.

A posição da "biblioteca" no templo de Edfu também permite compreender a expressão de Diodoro (I, 49, 4), segundo a qual a biblioteca do perípato do Ramesseum em relação à sala dos triclínios. No tempo de Edfu, efetivamente, as duas "bibliotecas" — ou seja, as duas cavidades em que, numa época, estavam colocadas as estantes — são cavadas na parede divisória entre a grande sala na entrada e o aposento seguinte (figura 6, a e b). Tal parede divisória é constituída por seis intercolúnios, fechados à altura de meia parede "em cortina". Dentro dessas paredes fica a "biblioteca" de fato (sobreviveram suas duas cavidades), e o catálogo dos rolos está indicado na parede externa (Hans Wolfgang Müller, "Architte tura dell'antico Egitto", em Lloyd-Müller-Martin, Archittetura mediterrânea pré-romana, trad. ital., Electa Editrice, Milão, 1972, pp. 172-3). Portanto, também a "biblioteca" do templo de Edfu é ópiÓT — como diz Diodoro a respeito da biblioteca do Ramesseum — em relação à grande sala hipostila: ònò-zoixoc, justamente porque é a mesma parede divisória que serve para a sala hipostila e é, ao mesmo tempo, a parede onde está cavada a biblioteca. Deve ser este o sentido da expressão usada por Diodoro sobre a "biblioteca sagrada" e sua òu.ótoixo; em relação à sala dos triclínios.

Assim, as duas "bibliotecas" — a do templo de Hórus em Edfu e a do Ramesseum — devem ter tido estruturas e funções análogas, devido à admirável repetição dessas estruturas arquitetônicas. Pois bem, Milkau insistia na noção de "Tempelbibliothek" como um acessório usual do templo. Exatamente por isso, exatamente porque deviam ser em essência rolos referentes ao culto, o número não devia ser muito grande. Perto da cavidade do templo de Hórus, estão relacionados 37 títulos: isso nos da uma idéia das dimensões. Sob esse aspecto, também não faz sentido pensar numa sala-biblioteca, ou, pior, numa biblioteca com várias salas.



6. Plantado templo de Horus e Edfu.

O templo de Hórus em Edfu foi inteiramente reconstruído na época ptolomaica, acredita-se que a partir de uma planta original. Assim, que um mausoléu como o de Ramsés, tendo no seu interior uma ala tão semelhante ao Museu, tenha servido de modelo aos arquitetos do palácio ptolomaico parece ser um fenômeno análogo e totalmente plausível. E também concorda com a idéia de miscigenação com os vencidos, defendida, sobretudo, pelo próprio Alexandre, que foi quem iniciou o palácio (Diodoro, XVII, 52, 4). Que outra escolha mais óbvia, a não ser a de adotar o modelo da arquitetura faraônica, e especialmente a ligação palácio-biblioteca-soma?



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