A biblioteca Desaparecida Histórias da Biblioteca de Alexandria – Luciano Canfora



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O SOMA DE RAMSÉS
Quanto ao soma de Ramsés, fica claro, por todo o mistério que o circunda, que ele se encontrava num local secreto. Tal sigilo sobre a sepultura de um faraó não surpreende. Diodoro registra outros casos, devido a outras razões. Por exemplo, após descrever o dispêndio de força humana e trabalho que foi necessário para a construção das pirâmides, observa ele: "Ainda que os dois reis [Chemnis e Quéfren] tenham mandado construí-las como túmulos para si, a nenhum deles coube tê-las como sepultura. O povo, de fato, devido aos sofrimentos suportados durante os trabalhos e à postura cruel e violenta desses soberanos, estava enfurecido e ameaçava esquartejar seus corpos e lançá-los fora das tumbas com insultos. Por isso, ambos quiseram ser sepultados de modo clandestino e em local oculto" (1,64, 4-6).

O risco de profanação póstuma da própria tumba é uma verdadeira obsessão para os faraós. Ainda Diodoro fala sobre o ritual que se desenrola com a morte de um faraó e que tem claras implicações com o tratamento que será dado a seu cadáver. Depois de uma série de operações preparatórias, o corpo é levado diante da entrada da tumba (evidentemente são as tumbas escavadas na rocha, no chamado "vale dos reis"), e ali se faz "a avaliação" das realizações do defunto. Quem quiser tem a liberdade para exprimir suas críticas. Se as loas tecidas pelos sacerdotes são consideradas exageradas ou falsas, os presentes expressam clamorosamente suas discordâncias. "Por outro lado'', continua Diodoro, '' ocorreu que muitos soberanos, justamente devido ao parecer negativo expresso pelos presentes durante a cerimônia, foram privados da sepultura visível e legítima. E, portanto, muitos soberanos optaram por se conduzir bem, entre outras coisas pelo temor de que, ao morrer, seus nomes fossem profanados e um veredicto de condenação os estigmatizasse para sempre" (I, 72, 6).

Assim, não surpreende que, quanto a Ramsés, exista a singular possibilidade de preferir acreditar na "revelação' ' dos sacerdotes a Hecateu (prudentemente mencionada por ele: "parece que o corpo do rei foi sepultado ali", isto é, na sala dos triclínios do Ramesseum) ou considerar a existência, até hoje verificável, da tumba de Ramsés no "vale dos reis" (é a tumba n? 7).

"Parece", assim se expressa Hecateu/Diodoro, "que está sepultado ali". A expressão empregada não implica necessariamente que, no momento do encontro entre Hecateu e os sacerdotes, o corpo do faraó ainda estivesse lá. Logo a seguir fala-se da '' tumba ", mas a própria frase em que reaparece o termo tem suscitado dúvidas: "Através dos aposentos [dispostos em torno da sala dos triclínios] subia-se em direção ao sepulcro em seu conjunto". As últimas palavras, que grifei, são pouco claras. Ainda menos claras na tradução de Derchain (p. 167: "à tout le tombeau") ou de Jollois e Devilliers, um tanto fantasiosa (p. 277: "le lieu qui est véritablement construit en tombeau"). Hertlein sugeriu "em direção ao ápice do sepulcro".

Em todo caso, o sentido da descrição é claro. O monumento fúnebre está colocado no teto da sala dos triclínios (e sobre o teto encontra-se o círculo de ouro). Era possível alcançá-lo subindo por uma rampa que atravessava os aposentos dispostos ao longo da sala. Um exemplo de quiosque, colocado acima do teto, com acesso por duas rampas de escadarias, até hoje se encontra bem conservado no templo de Hathor em Dendra. Um caso famoso, várias vezes, descrito por fontes gregas (Heródoto, Diodoro, Estrabão) e romanas (Plínio, Pompônio Mela), é o do chamado "labirinto" perto do lago de Méride. Ali, depois de ter "subido ao teto", diz Estrabão, XVII, 1, 37), e ter atravessado uma série de aposentos, chegava-se a uma "construção em forma de pirâmide de base quadrada, que é exatamente o monumento fúnebre" do soberano (citado por Estrabão com o nome genérico de Ismandes, equivalente tanto a Memnão como a Osimandias). Também Diodoro (I, 61 e 66) comenta brevemente esse labirinto. O arquétipo era Heródoto (II, 148), que afirma ter conhecimento direto de grande parte do edifício e falava em milhares de salas. Também nesse caso, as indicações sobre o local efetivo da tumba são contraditórias. Segundo Estrabão, ela estava na pirâmide; por outro lado, disseram a Heródoto que "os soberanos e os crocodilos sagrados" eram sepultados nas salas subterrâneas, sendo por isso impossível o acesso a elas.

A descrição feita por Heródoto, necessariamente sumária, fala em uma alternância contínua de salas, pórticos, átrios; aqui também as abóbadas das salas são de pedra, as paredes internas recobertas por figuras, e cada átrio é circundado por colunas. O modelo de base é sempre o mesmo: no caso do "labirinto", o modelo é exageradamente ampliado, mas o princípio enganador da repetição de salas é o mesmo. Assim é no Ramesseum. São diversos labirintos que, entre outras coisas, têm a função de esconder o cadáver mumificado do soberano.


"LOCAL DE CURA DA ALMA''
O Ka é a "força vital" ou, se se quiser, "a alma" do soberano. Essa "força", concedida a ele assim como aos deuses e a poucos outros mortais, tem — segundo a concepção religiosa egípcia — a função de manter o faraó vivo após a morte (P. Kaplony, verbete "Ka" do Lexikon der Aegyptologie, III, 1980, col. 276). Nos mausoléus funerários egípcios, geralmente, é-lhe reservado um aposento intimamente ligado ao Saneia sanetorum. No Ramesseum, o Ka provavelmente se encontra na sala dos triclínios.

Isso pode ser deduzido a partir da tão controversa inscrição. Se é efetivamente "officina mediei, locus ubi medicus artem suam exercet" [laboratório do médico, lugar onde o médico exerce sua arte] (Thesaurusgraecae linguae) e é a tradução de Ka, é de se supor que as palavras definem justamente o lar, ou melhor, "a oficina", o aposento onde opera o Ka.

Se, por outro lado, a parede-biblioteca no Ramesseum e o local de acesso à sala dos triclínios, a inscrição deve ser entendida como uma designação não da estante embaixo, mas da sala onde se entra por ali: a própria sala dos triclínios. E essa a oficina do Ka do Ramesseum. E da alma (Ka) de Ramsés que se trata, e não dos benefícios que a alma humana retiraria das boas leituras, como modernamente entenderam os estudiosos, que imaginaram que houvesse uma sala-biblioteca no Ramesseum, com essa inscrição na porta de entrada.

Na sala do Ka ("maison de 1'âme", como a definia Maspéro), geralmente também se encontra uma estátua representando o rei morto. E justamente o que ocorre na sala dos triclínios. A qual Diodoro se refere, e não por acaso, ao citá-la: "parece que o rei estava sepultado ali".


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QADES
É um tanto difícil acreditar que os sacerdotes que acompanharam Hecateu na visita ao Ramesseum tenham realmente lhe falado sobre bactrianos rebeldes, a propósito do baixo-relevo representando a batalha de Qades (Diodoro, I, 47, 6). Além disso, o relevo traz um texto ilustrativo, que simplifica ainda mais a identificação da cena representada. Jacoby, na coletânea de fragmentos de Hecateu, assinalava oportunamente a improbabilidade de uma referência aos bactrianos (Die Fragmente der grie-chischen Historiker, Nr. 264 F 25 [p. 33, linha 32]).

A célebre e celebradíssima vitória de Ramsés II sobre os hititas, conquistada no quinto ano de reinado (e, portanto, datável, segundo os cálculos de Eduard Meyer, Geschichte des Altertums, Berlim, 1928, p. 462, no dia 16 de maio de 1294 a.C, mas existe também uma cronologia anterior), é a proeza militar de maior repercussão não apenas no reinado de Ramsés II, mas talvez também em todo o "novo império". É o episódio cantado na chamada “Ilíada dos egípcios", o poema dito de Pentáur, o escriba cujo nome figura no rodapé do texto. "Encontro-me só e ninguém estava comigo", eram as palavras atribuídas pelo poeta ao faraó num momento crucial da batalha. Tais palavras foram inúmeras vezes gravadas, a mando de Ramsés, sobre a arquitrave do templo de Amon, enquanto as cenas cruciais da batalha são obsessivamente repetidas em todos os templos que ele mandou erguer (Meyer, pp. 460-1): além do Ramesseum, em Abu-Simbel, Luxor, Abido etc. (Meyer, p. 502, calculou que restaram pelo menos seis representações). Especialmente no templo rupestre de Abu-Simbel, as imagens que representam os adversários derrotados são cuidadosamente comentadas com frases que também reaparecem, em parte, no relevo do Ramesseum (Meyer, p. 460, nota 2). No templo de Ramsés em Luxor, a representação distingue cuidadosamente doze tipos de povos diferentes (semitas, beduínos, hititas etc.), todos inevitavelmente derrotados pelos exércitos de Ramsés.

Outra coisa é, evidentemente, o orgulho exagerado — dos faraós da XIX dinastia — por ter estendido seu domínio até a índia e a Bactriana. Os textos com referências a esses fatos não são propriamente muito claros; remontam aproximadamente ao mesmo período: às visitas de Estrabão (25-20 a.C.) e de Germânico (19 d.C.). Estrabão comenta o tema logo após a descrição do Memnônio e suas curiosas propriedades acústicas, sobre as quais expressa cautelosamente a suspeita de que se tratava de um truque. "Acima do Memnônio", escreve ele, "estão as tumbas do rei, escavadas em grutas, somando cerca de quarenta [é justamente o "vale dos reis", com suas 58 tumbas], construídas admiravelmente e dignas de serem vistas" (XVII, 1, 46). Aqui segue uma indicação que não é clara: "nas tumbas sobre alguns obeliscos existem epígrafes que atestam a riqueza dos soberanos da época e a extensão de seus domínios: até os citas, bactrianos, indianos, a atual Iônia; o montante dos tributos e o total dos seus exércitos até 1 milhão de homens".

Seguindo uma sugestão do humanista Antônio Mancinelli, Joergen Zoega, o arqueólogo dinamarquês que se estabeleceu em Roma pouco antes do furacão napoleônico, propôs, no De origine et usu obeliscorum (datado de 1797), devido à dificuldade de imaginar obeliscos com 23 metros de altura — como o de Ramsés II, instalado em 1833 na Place de Ia Concorde em Paris — erigidos dentro de uma tumba rupestre. A proposta foi aprovada por Kramer (1844) e Meineke (1852) nas respectivas edições de Estrabão, e funda-se na quase inevitável confusão entre β e x na escrita minúscula dos séculos IX-X.

Mas, se esses obeliscos não têm relação com as tumbas reais, visto que Estrabão os situa genericamente "em Tebas", é de se perguntar a que "soberanos de uma época" se referem aquelas epígrafes. A propósito, deve-se lembrar que uma série de epígrafes ptolomaicas — freqüentemente escritas não só em grego, mas também em escrita hieroglífica — apresentam um conteúdo idêntico ao descrito por Estrabão: isto é, dão uma representação igualmente inverossímil dos desmesurados limites do domínio dos Ptolomeus. E o caso, por exemplo, de uma epígrafe colocada num local bastante periférico, a chamada "epígrafe adulitana" de Ptolomeu III Evergeta (conhecida por intermédio da transcrição de Cosma Indicopleuste no século VI d.C.). Eis como o Evergeta, nesse texto oficial, indica a extensão de seus domínios: ' 'Todo o território aquém do Eufrates, a Cilícia, a Panfília, a Iônia, o Helesponto, a Trácia [...] Vencidos todos os monarcas dessas regiões, passou o Eufrates e atravessou a Mesopotâmia e a Babilônia, a Susiana, a Pérside e a Média, e todo o restante até a Bactriana foi reduzido a seu domínio, e devolveu ao Egito tudo o que os persas haviam apreendido" (Orientis graeci inscriptiones selectae, a cargo de Wilhem Dittemberger, I, n. 54, pp. 86-7). Naturalmente, nada disso tem uma correspondência histórica. "Laudes tralaticiae" [loas convencionais], definia-as Dittemberger, retomando uma expressão de Mahaffy, The empire of the Ptolomies (p. 126); de fato, elas se apresentam quase da mesma forma, total ou parcialmente referidas aos dois antecessores do Evergeta. Até uma epígrafe hieroglífica do primeiro Ptolomeu, no ano 310 a.C., antes ainda que tivesse o título de rei, publicada por H. Brugsh na Zeit-schrift für aegyptische Sprache (9, 1871, p. 1), diz, entre outras coisas, que ele trouxe de volta da Pérsia para o Egito todas as estátuas e os livros sagrados apreendidos pelos persas. É curioso como essa devolução se repete de soberano para soberano: o Evergeta também se atribui este mérito na epígrafe de Tanis, chamada "monumentum Canopium", igualmente bilíngüe (OGIS, n. 56, p. 99).

Evidentemente, deve-se levar em conta que essa obra de reconstrução dos templos egípcios de fato ocorreu (falou-se, no devido momento, do célebre caso do templo de Hórus em Edfu): uma operação que necessariamente criou estratos ptolomaicos sobre antigas estruturas egípcias. É o caso, por exemplo, do santuário de Alexandre Magno no templo de Luxor. Tudo isso ajuda a compreender melhor por que vinha se formando uma espécie de equivalência entre a figura do mítico faraó Sesóstris (que recebeu várias hipóteses de identificação) e a de Alexandre: "ocupou", diz Diodoro a respeito de Sesóstris, "não só todo o território dominado por Alexandre Magno, mas também povos a cujas terras Alexandre não chegara" (I, 55, 3). O costume de vangloriar-se de um reino infinitamente maior do que o verdadeiro também foi diretamente derivado pelos Ptolomeus do mesmo costume faraônico (A. Wiedemann, Aegyptische Geschichte, Gotha, 1884, p. 29).

O interminável "monumentum Canopium" chega a especificar o tipo de coroa que deve ser colocado nas estátuas de Berenice (da célebre cabeleira): "bem diferente" indica-se, "da destinada às estátuas da mãe" (OGIS, n. 56, linhas 61-2). Vem à mente a tríplice coroa colocada na cabeça da mãe de Ramsés II no Ramesseum (Diodoro, I, 47, 5). Em suma, assiste-se a um verdadeiro processo de auto-identificação, pelos Ptolomeus, com o estilo e a concepção de realeza característicos dos faraós. Um outro indício dessa auto-identificação é o elo entre a planta do Museu e a do Ramesseum.

O relato que Germânico ouviu de um velho sacerdote egípcio coincide em muitos aspectos com o que narra Estrabão; além disso, há a menção ao nome "Ramsés":

Depois visitou as grandes ruínas da antiga Tebas, lá onde nos grandiosos edifícios ainda se conservam hieróglifos que traziam em si a voz da antiga grandeza. Um sacerdote dos anciãos, solicitado a traduzir a língua dos seus pais, contava que lá tinham morado 700 mil homens aptos para pegar em armas, e que com aquele exército o rei Ramsés se apossara da Líbia, Etiópia, Média, Pérsia, Bactriana, Cítia e das terras habitadas pelos siríacos, armênios e pelos vizinhos capadócios, e que o mesmo rei dominara daquele lado o mar de Bitínia, desse lado o mar de Lícia. Liam-se ainda naquelas inscrições os tributos impostos às pessoas, a quantidade de ouro e de prata, o número das armas, dos cavalos e das doações oferecidas nos templos, o marfim e os perfumes, a quantidade de trigo e daquilo que serve às necessidades da vida e que cada nação devia pagar, em proporções não menores das hoje exigidas pela prepotência dos partas ou pela potência dos romanos.

Esse tardio epígono da sabedoria sacerdotal menciona o nome genérico "Ramsés" para dar um maior sabor de autenticidade ao seu relato (F. R. D. Goodyear, The Annals of Tacitus, II, Cambridge, 1981, p. 383). Ramsés II era identificado, por um confundidor como Maneton, com o mítico Sesóstri. E o que Flávio Joséfo, na época de Tácito, lembra no polêmico ensaio Contra Apião (I, 98). A Sesóstris — como sabemos — atribuíam-se conquistas ainda maiores do que as de Alexandre (Diodoro, I, 55, 3). Mas, nesse terreno da identificação de soberanos tão distantes e às vezes nebulosos, avançava-se às apalpadelas, e os estudiosos se mostravam cautelosos: "Se Ismandes é Memnão", escreve Estrabão, "então o Memnônio é obra sua, e assim também os templos de Abido e Tebas" (XVII, 1, 42). Talvez os informantes de Hecateu, mais ou menos contemporâneos de Maneton, já tivessem idéias bastante confusas sobre essa difícil questão: no melhor dos casos, teriam sido sacerdotes bem do tipo de Maneton. De qualquer forma dificilmente teria se perdido tão radicalmente a noção dos traços históricos da batalha de Qades a ponto de levar alguém a situá-la na Bactriana, no distante Afeganistão, que havia marcado um dos limites da expansão de Alexandre.


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ESTRABÃO E A HISTÓRIA DE NELEU
A reconstrução do destino dos textos aristotélicos (acima, capítulos VI e X) implica uma avaliação do pormenorizado relato de Estrabão (XII, 1, 54). As informações aqui apresentadas sobre a forma como o erudito Tiranião obteve os originais de Apeliconte ("adulando o bibliotecário" de Silas) remontam ao próprio Tiranião, mestre de Estrabão, o qual narra o episódio. Assim se expressa Carl Wendel, no verbete "Tyrannion" da Pauly-Wissowa (col. 1813, 42). Estrabão esteve em Roma desde 44 a.C., lá tendo chegado aos vinte anos; era também conterrâneo de Tiranião, este de Amiso, aquele de Amaséia. E de se supor que de Tiranião também provém a avaliação sobre o péssimo trabalho dos copistas contratados pelos livreiros de Roma para confeccionar os "exemplares para a venda'' ("não tinha feito sequer um cotejo"), o juízo demolidor sobre o trabalho editorial então desenvolvido por Apeliconte (provavelmente, pouquíssimos conheceriam a edição a seu cargo anterior a 86) e, além disso, a condenação mais genérica dos trabalhos de transcrição promovidos pelos livreiros, tanto em Roma como em Alexandria. Tiranião conheceu bem o mundo livreiro e erudito de Alexandria, pelo menos indiretamente, através de seu mestre Dioniso, o Trácio, que havia se formado na escola de Aristarco. E de se perguntar se também não remonta a Tiranião o irônico parecer sobre a deterioração que se verificou com a passagem dos rolos de Apeliconte por Roma ("muito ajudou também Roma" pode ser uma ironia).

É bem conhecida a controvérsia sobre a credibilidade ou não do relato de Estrabão. Mas o fato de que suas informações, ao que parece, remontam a Tiranião constitui um elemento a favor de quem lhe dá crédito. Outra confirmação vem da referência de Posidônio (Ateneu, V, 214 d) à aquisição da "biblioteca de Aristóteles" por Apeliconte: é uma respeitável confirmação de um detalhe essencial no relato de Estrabão. Posidônio é testemunha relevante, tanto por ser contemporâneo e bom conhecedor do entourage a que finalmente chegaram os rolos de Neleu, como por seu interesse profissional pelas vicissitudes de uma coleção filosófica tão importante. A esse respeito, é importante o testemunho, muito rico, de um estudioso como Plutarco (Vida de Silas, 26), que — não se deve esquecer — tinha um conhecimento direto de uma grande produção filosófica pós-aristotélica (recente e menos recente), na qual — é de se pensar — se deviam mencionar essas vicissitudes não sem conseqüências para o desenvolvimento do pensamento grego após Aristóteles.

Outro testemunho, provavelmente independente, sobre o papel de Apeliconte encontra-se na relação árabe, dita de "Ptolomeu filósofo", das obras de Aristóteles. Foi transmitida com os títulos em árabe e grego por Ibn al-Qifti, na História dos sábios. A edição mais cuidadosa desse texto encontra-se no ensaio de Ingemar Düring, Aristotle in the ancient biographical tradition, Gõteborg, 1957, pp. 21-231. Ali, no número 92, aparece o título: "Eis os livros que foram encontrados na biblioteca de um homem chamado Apeliconte (Ablikun).

Chegaram até nós outras duas listas das obras de Aristóteles: a citada por Diógenes Laércio (V, 22-7) e a colocada no final da chamada Vita Menagiana (Düring, pp 81-9).

A única informação explicita existente sobre a origem dessas listas é dada por Plutarco no capitulo 26 da Vida de Silas. Plutarco diz que, afinal, a edição das obras aristotélicas que chegaram a Roma no espólio de Silas foi preparada por Andrônico de Rodes, que "confeccionou também os catálogos hoje correntes". Por intermédio de Porfírio, sabemos que Andrônico "dividiu em tratados a obra de Aristóteles e de Teofrasto, reunindo no mesmo lugar os temas afins" (Vida de Plotino, 24). É um trabalho intimamente ligado ao da pinacografia [catalogação]. Porfírio estabelece uma comparação entre seu trabalho sobre a obra de Plotino e o trabalho de Andrônico: "Da mesma forma, eu, dispondo de 54 livros de Plotino, reparti-os em seis enéades, satisfeito em atingir, juntamente com o nove da enéade, a perfeição do número seis; a cada enéade atribui um âmbito próprio de argumentos e juntei-os reservando o primeiro lugar às questões mais fáceis. A primeira enéade contém, de fato, os seguintes textos [...]; a segunda reúne os tratados de física etc.". O reagrupamento temático dos livros e a composição dos catálogos, portanto, estão estreitamente ligados entre si.

Visto que para Plutarco, cerca de um século depois de Andrônico, os catálogos deste são os correntes, é difícil pôr em dúvida que as listas remanescentes, na forma em que chegaram até nós, remontem em certa medida às de Andrônico ou, em todo caso, dependam delas de modo significativo. A de Ptolomeu provavelmente em medida maior (foi o que sustentou Paul Moraux no ensaio de 1951 sobre lei listes anciennes des ouvrages d'Aristote). Moraux sublinhou a diferença entre as três listas: de um lado a diogeniana e a menagiana que, segundo ele, remontam a Aristão; e, de outro, a de Ptolomeu, mais próxima a Andrônico.

É claro que se trabalha mal sobre textos como as listas, visto que estão mais expostas a acréscimos e reduções do que qualquer outro tipo de texto. Não é por acaso que as três aristotélicas remanescentes diferem entre si antes de mais nada pelo seu tamanho: a menagiana, por exemplo, que é tida como fonte imediata ao repertório de Esiquio de Mileto (século VI d.C.), em relação à de Diógenes apresenta um apêndice em que aparecem alguns tratados (a Metafísica, por exemplo). Mas Moraux crê poder demonstrar que no catálogo diogeniano existe uma lacuna, a ser preenchida justamente acrescentando o título da Metafísica. Essas considerações, evidentemente, limitam a força demonstrativa das hipóteses de Moraux sobre a derivação das duas primeiras listas a partir da obra de Aristão de Céo, escolarca do Liceu no final do século III (pp. 243-7).

São evidentes as conseqüências que Moraux extraiu de tal hipótese. Se a lista em que se baseiam Diógenes e a vida menagiana fosse realmente a de Aristão, cairia por terra a tese de que os tratados acroamáticos, como a Metafísica, teriam ficado escondidos por longo tempo, e o relato de Estrabão perderia seu valor. Se, pelo contrário, admite-se — sem negligenciar a contribuição de Aristão — que, de um certo momento em diante, foi determinante (como assegura Plutarco) a organização feita por Andrônico em conseqüência da "reaparição" de Aristóteles, neste caso o relato de Estrabão nada perde de sua plausibilidade.

De qualquer forma, não se deveria descurar um fator que, em princípio, dificultaria concluir sobre uma efetiva disponibilidade das obras pelo fato de circularem as listas de seus títulos. Listas de títulos também podem ser conscienciosa e mecanicamente transmitidas na ausência (ou independentemente) da efetiva conservação das obras correspondentes. É o caso, para dar apenas um entre os muitos exemplos possíveis, das imponentes listas relativas a Teofrasto (V, 42-50) ou a Demócrito (IX, 46-9), transcritas por Diógenes Laércio. Diógenes copiava as listas a partir de suas fontes, enquanto, provavelmente, aquelas obras não existiam mais (as de Demócrito tinham certamente desaparecido havia muito tempo), ou apenas em parte. E a observação pode ser também estendida aos copistas que foram transcrevendo gradualmente as obras de Diógenes no decorrer da Idade Média. Pode-se imaginar uma situação semelhante para a transmissão das listas antigas. Especialmente no que se refere às listas das obras aristotélicas, é inquestionável que, desde que Neleu se retirou para Scepsi com seus livros (e certamente antes também), terá existido no perípato um inventário de todo esse material: a partir desse tipo de lista, necessário numa escola, pôde-se desenvolver uma pinacografia que não correspondia necessariamente à efetiva disponibilidade dessas obras.

O dado que, aparentemente, mais parece contradizer o relato de Estrabão é o narrado por Ateneu, no início dos Deipnosofistas. Infelizmente, para essa parte, não se dispõe de um Ateneu completo, mas apenas de resumos que, pelas estimativas, em média reduzem o texto original em 40%. Ao narrar as memoráveis conversas na casa de seu amigo e protetor, o cavaleiro romano Lívio Larense, Ateneu imediatamente informa ao leitor sobre a característica mais apreciável desse riquíssimo romano: sua imensa biblioteca, "incluindo", escreve ele, "mais livros gregos antigos do que os possuídos por pessoas que mais foram admiradas pela quantidade de livros". A seguir, dá uma lista desses renomados proprietários: "Polícrates de Samo e Pisístrato tirano de Atenas, Euclides, ele também ateniense, e Nicócrates de Chipre, além do rei de Pérgamo, o poeta Eurípides, o filósofo Aristóteles e Teofrasto e Neleu, o qual guardou os livros deles: de cujo Neleu o meu rei Ptolomeu, dito Filadelfo, adquiriu todos os livros e os transferiu para a bela Alexandria, juntamente com os provenientes de Atenas e de Rodes" (1, 3 A). Moraux observou que "aqui Ateneu está falando de pessoas que recolheram livros e possuíam grandes bibliotecas", e portanto, "nesse contexto, a notícia de que Neleu vendeu os livros de Aristóteles deve se referir aos livros que Aristóteles adquiriu para a sua biblioteca", e não necessariamente aos escritos por ele (Der Aristotelismus bei den Griechen, I, Berlim, 1973, p. 13, nota 29). E com base nessa notícia e na interpretação dada por Moraux que se falou (acima, capítulo VI) do "ardil" de Neleu, que vendeu aos mensageiros de Ptolomeu justamente esse tipo de “livros de Aristóteles".

"Segundo todas as probabilidades", continua Moraux, "Neleu vendeu ao Filadelfo principalmente livros não-aristotélicos, livros que Aristóteles e Teofrasto haviam reunido. Se entre esses também havia cópias das obras dos dois filósofos, não sabemos. Sabemos apenas que, na parte que Neleu conservou para si, estavam as obras de Aristóteles. E plausível que Neleu tenha subtraído à mania colecionadora dos compradores alexandrinos alguns textos de Aristóteles." "Meio século depois da morte de Aristóteles", é este o balanço, "existiam pelo menos quatro cidades do mundo grego que possuíam textos doutrinais do filósofo: Scepsi na Tróade, Alexandria, Rodes, onde se prosseguiu com a tradição instaurada por Eudemo, e certamente também Atenas, visto que seria totalmente inconcebível que, após a partida de Neleu, o Perípato não possuísse nenhuma cópia dos textos mais importantes de Aristóteles" (pp. 13-6). É interessante observar que, por outro lado, ao indicar os textos aristotélicos de que se encontram vestígios na obra dos eruditos de Alexandria, Moraux enumera — além dos resumos de textos zoológicos, extraídos de Aristófanes de Bizâncio — as Listas dos vencedores olímpicos, as Didascalie, as Poloieiai e, de forma um tanto dúbia, a Poética (p. 15, nota 36). Muito pouco em relação ao corpus acroamático.

Na realidade, ao abordar essa delicada questão (em nada esclarecida pelo papiro demasiado incompleto do Adversus sophistas de Filodemo), não deveríamos perder de vista, pela sua qualidade primária, as declarações explícitas de Estrabão/Tiranião e Plutarco sobre os gravíssimos danos que a defecção de Neleu acarretou para o desenvolvimento da escola aristotélica. Ambos relacionam estreitamente a estagnação e o generalismo subseqüentes do trabalho filosófico dos peripatéticos com o singular episódio de Neleu.

O pensamento helenístico formou uma idéia sobre o pensamento aristotélico principalmente a partir dos diálogos (Bignone), e indiretamente através de Teofrasto (H. Flashar, Die Philosophie der Antike, III, Basiléia, 1983, p. 191). Na época helenística, certamente circulavam redações e reformulações dos principais tratados. E bastante fácil imaginar em que bases escolares foram elaborados. Caíram em desuso com o aparecimento da edição crítica de Andrônico (que também iria invalidar a edição ateniense do infeliz Apeliconte e as piratarias romanas que tanto afligiram Tiranião). E por isso que só se recomeça a estudar criativamente e a interpretar Aristóteles na metade do século II d.C., com Aspásio, Ático, Alexandre de Afrodisia. Esse renascimento pressupõe uma edição decisiva: justamente a de Andrônico (O. Gigon, "Cícero und Aristóteles", Hermes, 1959, p. 144).

A contraprova se encontra em Cícero. No conjunto de sua obra, Cícero demonstra conhecer apenas o Aristóteles dos diálogos. Mas, inesperadamente, no De finibus, composto nos primeiros meses de 45 a.C., ele introduz no texto do quinto livro uma breve e acadêmica exposição do pensamento ético de Aristóteles e Teofrasto (V, 9-14). Texto bastante gratuito, podendo-se facilmente constatar "quam non apte et quam inutiliter interponatur" [como foi inserido inapropriada e inutilmente], como dizia Madvig no comentário a De finibus (Copenhague, 1838, 1876, p. 839). É nesse texto que figura a primeira menção remanescente à Ética a Nicômaco, cujo autor Cícero declara considerar provável que seja o próprio Nicômaco, filho de Aristóteles ("non video cur non potuerit patri similis esse filius"). Sinal também de uma tradição ainda não consolidada.

Assim se confirma a fundamentação do relato de Estrabão, apesar das periódicas ondas de ceticismo que a assaltaram. Ele se mostra baseado em informações de ótima qualidade, provenientes de uma fonte bastante familiarizada com a história dos livros e das bibliotecas, e sua respectiva terminologia. Assim, se agora tornamos a considerar, a título de conclusão, o início do relato ("Neleu tinha recebido como herança [alusão à cláusula testamentária citada por Diógenes] a biblioteca de Teofrasto na qual também estava incluída a de Aristóteles"), poderemos observar que a terminologia adotada é pertinente e rigorosa: como se infere de Ateneu (I, 3A), Neleu de fato acabara por dispor precisamente das duas "bibliotecas pessoais" dos dois grandes escolarcas, também incluindo em larga medida os livros adquiridos por eles. A expressão empregada por Estrabão abrange exatamente esse estado de coisas.

Se então a biblioteca de Teofrasto, tal como uma caixa chinesa, continha a de Aristóteles, e a de Neleu (provavelmente escolarca) continha as duas, isso significa que essa transmissão direta pessoal dos livros de escolarca para escolarca era algo normal. Foi com o transplante do "modelo" aristotélico par Alexandria, no contexto faraônico da monarquia ptolomaica, que os livros passaram a ser "do rei": sua figura, deste ponto de vista, suplanta a do escolarca.



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