A breve existência da seção brasileira do Centro Internacional de Pesquisas sobre o anarquismo



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A breve existência da seção brasileira do Centro Internacional de Pesquisas sobre o Anarquismo.
Quando, em 1963, fui forçado a sair da Suíça, tive a imensa sorte de deixar em boas mãos as atividades do "Centre International de Recherches sur l'Anarchisme" (A sigla C.I.R.A. permaneceu mesmo nas seções de outros países, incluindo o Brasil, onde uma mera tradução teria dado a abreviação CIPA) que eu concebera sete anos antes em Genebra. Marie-Christine Mikhailova (recém falecida) e sua filha Marianne Enckell, generosamente e corajosamente, assumiram a responsabilidade pela instituição e continuaram a dirigi-la, louvavelmente ajudadas por um modesto, porém constante, grupo de voluntários.

Do meu exílio brasileiro continuei colaborando com o C.I.R.A., como melhor pude.

Neste ponto cabe lembrar que a viagem ao Brasil, depois da expulsão helvética de 31 de janeiro de 1963, não foi a primeira. Em 1961 eu tinha permanecido lá dois meses de férias e tinha encontrado várias vezes os companheiros do Rio de Janeiro, Caxambu, Belo Horizonte, São Paulo, Niterói, "Nossa Chácara", participando de reuniões e excursões. O C.I.R.A. já tinha há alguns anos um representante no Brasil, o então muito ativo Ênio Cardoso, autor de alguns livros e, entre outros, de um Projeto de Federação Anarquista latino-americana, que previa a adesão ao C.I.R.A. e/ou a criação de uma seção brasileira. Infelizmente, quando me estabeleci no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1963, o Enio tinha entrado em crise e deixado de militar no movimento anarquista.

As circunstâncias políticas (quase logo sobreveio a ditadura militar) não favoreciam certamente atividades públicas ligadas ao anarquismo. Como militante tomei algumas iniciativas (co-fundação da Liga dos Direitos do Homem, do Centro Internacional de Estudos Brasileiros, eu me tornei presidente do Centro de Estudos Professor José Oiticica, etc...). Nessas atividades, porém, a etiqueta anarquista não caparecia sendo esse anonimato insuportável, pois não marcava nossa presença. Eu me perguntava por que teríamos que praticar uma espécie de autocensura. Surgiu progressivamente (1) a idéia de se constituir uma seção brasileira (que se teria transformado em centro latino-americano, segundo o velho e esquecido projeto do Cardoso) do C.I.R.A. Internacional (do qual, aliás, já se cogitavam "filiais" na França, na Inglaterra, na Bélgica, na Holanda e no Japão). Foi assim que, em julho de 1967 – após uma série de conversações pessoais, antes, e de reuniões preparatórias, depois, foi oficialmente inaugurado o C.I.R.A.-Brasil. Apesar da apreensão pela polícia e pela censura militar dos arquivos, ocorrida em lugares diferentes e em várias oportunidades, alguns documentos foram preservados e nos permitem reconstituir quase integralmente a trajetória. A lista se encontra no fim do artigo.

Esses documentos de arquivo (em cópia mimeografada ou datilografada ou fotocópia de um original confiscado ou extraviado) não são os únicos vestígios das atividades pois foram preservadas também cópias das cartas enviadas (pois costumávamos datilografar a correspondência "oficial" e guardávamos a cópia) bem como algumas dúzias das cartas recebidas, entre aquelas interceptadas pela censura sem nosso conhecimento ou confiscadas no momento de minha prisão ou ainda seqüestradas na repartição postal de Caxambu (Minas Gerais), ou na casa de veraneio de minha sogra, Blanca Lobo Filho (que, por causa disso, teve que passar umas horas no quartel militar de Caxambu).

Essa correspondência deve ser considerada duplamente importante pois:

  1. os remetentes eram militantes, escritores ou pesquisadores conhecidos (hoje em dia quase todos falecidos);

  2. ilustram o conteúdo, muito mais impessoal, de circulares e de relatórios mimeografados.

Se o C.I.R.A.-Brasil tem uma data oficial de nascimento muito exata, um certo trabalho de preparação tinha sido realizado com o envio da carta circular mencionada no alínea 1, que se torna então o primeiro dos documentos emitidos.

O papel utilizado na correspondência é o do C.I.R.A.-Internacional, isto é da sede suíça, enquanto a data não é especificada e o cabeçalho indica vagamente "data do carimbo postal". Pode-se presumir que o texto tenha sido concebido de maneira a poder ser utilizado ainda muito depois da data de sua redação e deveria servir como introdução ao C.I.R.A., em geral, e também como projeto de fundação de uma seção brasileira. A datação deveria ser estabelecida como janeiro de 1967, época de férias no Brasil durante a qual um professor teria mais tempo livre para dedicar a esse tipo de atividade. Na apresentação dizíamos logo que a militância no anarquismo não era ume pre-condição essencial para a adesão. Esta distinção, escrupulosamente respeitada, ditada por uma dupla preocupação de evitar perseguições policiais e a de tomar ao pé da letra os estatutos do C.I.R.A.-Internacional (à redação dos quais eu tinha participado) garantia a objetividade científica. Examinando a lista dos inscritos ao C.I.R.A.(-Suíça), perceber-se-á que entre os primeiros cinqüenta nomes a metade corresponde a não militantes; tratava-se de amigos pessoais, de pesquisadores, de simpatizantes, que não compartilhavam a causa do anarquismo (alguns tornaram-se anarquistas por "contágio" enquanto outros desinteressaram-se no C.I.R.A. do momento em que eu não estive mais presente para estimulá-los.

O caso dos membros do C.I.R.A.-Brasil foi parecido: vários inscritos não se identificavam com as idéias anarquistas razão pela qual a lista deles permaneceu reservada e a polícia nunca a encontrou. Quando aconteceram as prisões, foram presos os anarquistas empenhados em outras atividades mais específicas, como as do Movimento Libertário Estudantil ou do CEPJO.

Aos destinatários da circular n.1 se propunham várias escolhas, além da adesão ao C.I.R.A.:

  1. aos autores e editores se pedia para ofertar cópias de livros, revistas e jornais à biblioteca da Suíça para aumentar a coleção de língua portuguesa e também para que fossem recenseadas no Bulletin ;

  2. a gravação de palestras para a criação de um arquivo de história oral;

  3. o envio de material iconográfico e manuscrito;

  4. o levantamento de dados sobre coleções especializadas sobre anarquismo existentes em bibliotecas e arquivos públicos ou particulares para o estabelecimento de um fichário central para pesquisadores, etc.…

Não foram encontradas outras cartas circulares, nem outros boletins do C.I.R.A.-Brasil depois desse documento até o relatório de atividades distribuído na assembléia de 10 de julho de 1969. Para ilustrar as atividades desenvolvidas entre o início de 1967 e meados de 1969, só podemos nos basear no documento n.18 e sobre o arquivo da correspondência. Os dados que emergem podem portanto ser divididos em várias categorias:
MEMBROS
Em data 1º de julho de 1969 resultam inscritos 34 membros (entre os quais um "honorário" e dois que ainda não tinham formalizado a adesão por se encontrarem viajando ao exterior). Trata-se, à primeira vista, de um número limitado, mas temos que pensar na dificuldade de aceitar um "carnê" cheirando a anarquismo em plena ditadura militar. Além disso, não se tratava somente de declarar seu nome (unicamente duas pessoas tinham escolhido um pseudônimo) mas também desempenhar tarefas de pesquisa ou outras. E, seja dito, para a honra da verdade, se olharmos de perto, sobre os 34, pelo menos 23 dos membros exerceram alguma atividade prática e útil. Temos, aliás, que sublinhar a colaboração de amigos próximos ou longínquos que, apesar de não terem aderido oficialmente ao C.I.R.A.-Brasil, nos ofereceram um auxílio precioso. Enfim, temos que notar que o C.I.R.A.-Brasil esteve presente só no Rio de Janeiro (com exceção de um em Caxambu e outro em São Paulo) devido à dificuldade de manter relações de correspondência seguras em regime de ditadura e de censura.
CORRESPONDÊNCIA
Foram mantidos contatos com os seguintes países : Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Canada, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra, Israel, Itália, Japão, México, Peru, Suécia, Suíça, Uruguai. As cartas enviadas ou recebidas eram destinadas ou provinham de militantes anarquistas isolados, grupos e federações, ou de bibliotecas, institutos de pesquisa, universidades, sindicatos, arquivos, fundações, editores, autores, livrarias, etc.

Mencionemos alguns de nossos correspondentes: Alliance Ouvrière Anarchiste (França), Centro de Acción Popular (Montevideu), Charles Hochauser Harmony (Israel), Circolo Camillo Berneri (Florença), Circolo Germinal (Carrara), Clelia viuva de Ugo Fedeli (Ivrea), Ernesta viuva de Lato Latini (Florença), Federación Anarquista Mexicana (Cidade do México), Federaciön Libertaria Argentina (Buenos Aires), Federazione Anarchica Italiana (Napoli), Freedom (Londres),

Galart (Peru),L'Internazionale (Ancona), Movimento Operaio (Milão), René Vienet (da Internacional Situacionista), Sir Herbert Read (Inglaterra),Trento Tagliaferri (Roma e Rio de Janeiro), Umanità Nova (Roma), etc.
EDIÇÃO
Nossos projetos ambiciosos de edição faliram, pois nenhuma gráfica teria a coragem de realizar nosso programa. Colaboramos porém com a única editora abertamente anarquista ainda existente, a Editora Germinal do corajoso Prof. Roberto das Neves. Fomos intermediários para obter os direitos autorais de Daniel Guérin de seu livro O Anarquismo (que saiu com um prefácio do autor deste artigo e foi muito difundido). Alguns de nós cooperaram igualmente nas atividades da Editora "Mundo Livre" (que modestamente e silenciosamente reeditava alguns clássicos anarquistas) mas isso foi feito a título pessoal, entre militantes, sem envolver o C.I.R.A.

Enio Silveira nos pediu que interviéssemos junto ao Herbert Read para que ele autorizasse a Editora Civilização Brasileira a publicar em português algumas obras suas sobre anarquismo. O escritor inglês, que já aderira ao C.I.R.A. internacional a meu pedido, uns dez anos antes, nos colocou em contato com seu agente literário, porém a recrudescência da censura fez mudar de idéia o editor carioca.

O texto de um folheto que eu mesmo escrevi sobre a fundação do C.I.R.A. na Suíça foi traduzido em francês e enviado ao Centro de Lausanne, mas ficou inédito.

Um manuscrito meu sobre a "Bibliografia dos periódicos anarquistas de 1939 a 1965" foi confiscado ou destruído pela censura militar que seqüestrou também as fichas contendo os dados individuais de cada publicação, bem como os documentos de comprovação (ou seja um milhar de originais de publicações internacionais em vários idiomas colocados em pastas individuais), documentos históricos raros e, em alguns casos, insubstituíveis (publicações clandestinas vindas de Espanha, Portugal, Iugoslávia, Argentina, Cuba, Bulgária, Suíça, etc.) números únicos, boletins interiores e assim a seguir.

Tampouco foi publicado um longo relatório (24 laudas formato almaço) que eu redigi sobre o Congresso Internacional das Federações Anarquistas de Carrara de 1968 (ilustrado por fotografias e documentos que vários companheiros suíços, franceses e italianos, tinham me mandado) bem como outros artigos meus e de outro membros. Uns anos atrás encontrei um estudo empreendido pela doutora Regina Helena Machado (trinta anos depois não tinha perdido seu interesse) que foi publicado na revista lusitana Utopia, a.I, n.1, p.72-83) com o título "Sacco e Vanzetti no Brasil. Presença e Accão da Literatura de Cordel".

Redigimos também uma moção do C.I.R.A.-Brasil ao Congresso da CRIFA, de Carrara (agosto de 1968) que foi registrada nas atas.
TRADUÇÕES
Além das versões italiana, portuguesa e esperanto dos estatutos do C.I.R.A. Internacional, o C.I.R.A.-Brasil, que dispunha da ajuda voluntária de vários membros e simpatizantes competentes, traduziu artigos e documentos vários para a imprensa anarquista de língua portuguesa. Entre eles: "Silhuetas israelianas" do francês, para O Dealbar de São Paulo; documentação para os livros do Edgar Rodrigues (do italiano), materiais vários para a Editora Germinal, apelo de Daniel Guérin em solidariedade com Octavio Alberola ameaçado de expulsão da Bélgica (do francês), apelo de Carlos M> Rama em solidariedade com José Peirats ameaçado de expulsão da França (do espanhol), Declaração Comum Libertária Continental Americana do Movimento Libertário Cubano no Exílio (do espanhol), definição do verbete "Anarquismo" da Enciclopédia Soviética,(do russo) etc.
ENTREVISTAS
Uma entrevista concedida ao diário carioca O Globo com o título "Ferrua: Anarquismo atua e progride no mundo moderno" saiu na p.2 da edição de 5 de julho de 1968.

Duas entrevistas com um jornalista do diário carioca O Paiz , Paulo Sterlinck, que foram suprimidas pelo redator-chefe do jornal "por serem demais comprometedoras".

Uma entrevista com Carlos M. Rama foi parcialmente reproduzida no número de 15/7/1968 de O Paiz, na p. 3. Permaneceram as considerações dele sobre a situação econômica no Uruguai mas foi passada sob silêncio a participação dele no curso sobre anarquismo no Teatro Carioca do Rio de Janeiro, naquela mesma semana.
BIBLIOTECA-ARQUIVO
A coleção iniciada no Rio de Janeiro, nunca superou uma centena de volumes. Quando do fechamento do C.I.R.A.-B esses livros foram despachados para a biblioteca suíça.

Os companheiros portugueses nos assinalaram a existência de uma coleção importante de documentação anarquista reunida pelo militante Pinto Quartim. Avisamos o C.I.R.A. na Suíça sugerindo que fizessem intervir a Biblioteca Nacional Helvética de Bern e se usasse a mala diplomática da Embaixada da Suíça em Portugal , porém ficamos decepcionados ao saber que a recuperação desse arquivo não aconteceu.

Mais importante ainda foi a doação do Arquivo de Edgar Leuenroth que visava sobretudo evitar a possível destruição do acervo por parte da ditadura militar Naquela altura o militante paulista, membro do C.I.R.A., faleceu, mas confirmação da doação me foi dada pessoalmente pelo filho Germinal – então ainda militante ativo – por ocasião do último encontro que tive com ele em São Paulo, em novembro de 1969, poucas semanas depois das prisões dos membros do CEPJO no Rio de Janeiro e poucas semanas antes de minha saída para o exílio americano. Escrevi às responsáveis pelo C.I.R.A. na Suíça e formulei a mesma proposta que já tinha feito em relação aos arquivos portugueses. A operação, por alguma razão, não se realizou. Felizmente, porém, os arquivos não foram destruídos nem extraviados. Após várias vicissitudes alguns foram vendidos a um pesquisador americano (diz-se que eram duplicatas, mas isso nunca foi conferido) que os utilizou para escrever um livro (2) muito tendencioso sobre o movimento operário e anarquista no Brasil, que foi violentamente criticado por Edgar Rodrigues numa resenha muito pormenorizada (3). Parte da coleção foi cedida à Universidade de Campinas (onde parece que as obras foram catalogadas e postas à disposição dos pesquisadores, o que explica, pelo menos parcialmente, a abundância de teses de mestrado e de doutorado, sobre assuntos ligados ao anarquismo (em particular) e ao movimento trabalhador brasileiro (em geral), sobrevindas no Brasil durante os últimos quinze anos) e outra parte foi confiada a um comitê de militantes e guardada em lugar privado e seguro, à disposição do movimento anarquista.

Segui as vicissitudes desse arquivo antes por correspondência, como representante do Movimento Libertário do Rio de Janeiro no exílio, depois, no decorrer de minhas visitas ao Brasil depois de quinze anos de ausência. Desapareceram infelizmente Jayme Cubero, Ideal Peres e também o companheiro espanhol que tomava conta fisicamente dos arquivos. Entre os membros responsáveis só está vivo o Edgar Rodrigues, mas provavelmente os outros foram substituídos (4).

Outro fundo de documentação muito importante do qual o C.I.R.A.-B se ocupou, foi o Arquivo da Biblioteca Anarquista Internacional Americana (conhecido sob o nome de BAIA) de Montevidéu. Quando, em novembro de 1969 fui à capital uruguaia, eu acbava de ter sido solto pela polícia da ditadura militar brasileira e temia estar sendo vigiado também naquela cidade que estava cheia de espiões devido à presença do ex-presidente "Jango" Goulartque ali vivia em exílio. Os anarquistas com os quais falei pelo telefone não tinham porém nenhum receio em me encontrar e assim combinei de ver as pessoas separadamente. Estive com Luce Fabbri, Eugen Relgis, os companheiros da Comunidad del Sur (que convidaram todos os anarquistas brasileiros, recém presos e que estavam sendo libertados provisoriamente, à espera do processo, a se exilarem nos locais da comunidade com as respetivas famílias), Carlos Rama e sua companheira Judith Dellepiane e alguns militantes da Federação Anarquista Uruguaia, cindida em duas facções, uma das quais pro-castristas. Tive a oportunidade de ver algumas de suas publicações clandestinas, entre as quais a bela revista Rojo y Negro bem como o diário da F.A.U., que a esposa do Rama difundia entre os médicos do hospital no qual exercia suas funções profissionais. Não a levei na volta ao Brasil (onde voltei apesar da opinião contrária dos companheiros uruguaios, pois eu temia que os membros de minha família pudessem ser presos como reféns em vez de mim) aquelas publicações preciosas, com medo que me fossem seqüestradas na chegada no aeroporto.

Em Montevidéu me disseram também que Abraham Guillén (que talvez tenha conhecido na França nos anos 40' com outro nome) e Gerardo Gatti poderiam me dar notícias dos arquivos da B.A.I.A., mas não consegui localizar essas pessoas. Cochichava-se que teriam entrado na clandestinidade, fariam parte de uma guerrilha urbana ou talvez estivessem presos incomunicáveis. Alguém se lembrou do último endereço e me acompanhou até lá: as portas estavam lacradas. Foi o terceiro e último fracasso na tentativa de recuperação e salvamento de arquivos.
PALESTRAS
Eu mesmo pronunciei três palestras sobre a fundação e o funcionamento do C.I.R.A. internacional, respetivamente no Rio de Janeiro (na sede do Centro de Estudos Professor José Oiticica), em Buenos Aires (na sede da Federação Libertária Argentina) e em São Paulo (na sede do Centro de Estudos Sociais). Sobre o mesmo assunto me entreteve com os companheiros do Grupo Libertário de Mar del Plata (Argentina), da Casa Editorial Proyección (Buenos Aires) e em Montevidéu, nos grupos Solidaridad del Sur, Solidaridad, Federación Anarquista Uruguaya.

Roberto das Neves apresentou um relatório, muito entusiástico, de sua viagem a Lausanne em visita ao C.I.R.A.
VISITAS
Alguns membros do C.I.R.A.-B visitaram a sede suíça. Além do Roberto das Neves, aí estiveram também Valdecir Palhares e Regina Helena Machado. Rosa Maria de Freire Aguiar visitou os arquivos de Edgar Leuenroth em São Paulo e escreveu sobre essa visita uma artigo de que não temos cópia, talvez para a revista semanal Manchete para a qual colaborava e da qual se tornou correspondente parisiense durante vários anos.

Eu mesmo encontrei alguns membros de honra do C.I.R.A. internacional, como Diego Abad de Santillán (em Buenos Aires) e Eugen Relgis (em Montevidéu) enquanto que outros estiveram conosco no Rio de Janeiro: Helmut Rüdiger (que veio da Suécia) e Carlos M. Rama (do Uruguai).
CURSO "ALGUNS ASPECTOS HISTÓRICOS DO ANARQUISMO"
Talvez tenha sido a atividade pública que tenha suscitado o maior interesse e colhido de surpresa os ambientes universitários, a opinião pública, bem como os serviços de polícia. Tratou-se de um desafio aberto à ditadura, pois a etiqueta "anarquismo" reaparecia abertamente e com bastante evidência em um cartaz de grandes dimensões afixado nos quadros murais de todas as faculdades universitárias e das escolas particulares mais importantes do Rio de Janeiro. O diretor e dono do diário Jornal do Brasil, Manoel do Nascimento Britto (a quem eu dava aulas de francês e que, geralmente era muito prestativo comigo) previu que eu acabaria preso. Isso de fato aconteceu, mas somente um ano depois de acabar o curso. Os próprios policiais, quando me interrogaram, tiveram que admitir que tínhamos agido inteligentemente pois não tinham encontrado nenhum motivo para interromper uma série de aulas históricas. Contentaram-se em providenciar que uma dupla de agentes se inscrevesse no curso, os quais admitiram em seus relatórios que não conseguiram entender o que nós queríamos em realidade, pois:

  1. nunca falávamos do Brasil;

  2. criticávamos as ditaduras da direita mas também às da esquerda;

  3. nos mantínhamos num nível acadêmico (as revoluções que discutíamos eram as do passado: a Comuna de Paris de 1871, a primeira revolução russa de 1905 e a segunda de 1917, a revolução mexicana de 1910-11, a revolução espanhola de 1936-39.

Examinamos também assuntos contemporâneos, como as revoltas dos estudantes na Europa: o Maio de 68 em Paris e também seu equivalente em Praga.

Nossos "inspetores" estavam confusos e quando um dos "provocadores" formulou a objeção de que todos os oradores (houve quatro durante a série) só aludiam às revoltas do passado ou acontecimentos sobrevindos em outras latitudes e quis saber o que o conferencista do dia pensava da viabilidade de uma revolução no Brasil atual, o acaso se deu que o orador fosse o músico americano John Cage, o qual respondeu que a primeira revolução no Brasil seria a de reconstruir o sistema telefônico. Inicialmente o curso tinha sido anunciado sob minha única responsabilidade, pois eu podia aproveitar de minha condição de professor estrangeiro (ninguém mencionou que eu tinha me naturalizado cidadão brasileiro dois anos antes) com a "cobertura" do C.I.R.A. suíço; na última hora (os cartazes já tinham sido impressos e distribuídos) o militante anarquista, hoje infelizmente desaparecido, Doutor Ideal Peres, ofereceu-se como voluntário para tratar do assunto dos anarquistas na revolução russa. Quando o curso já tinha começado chegaram ao Rio, em semanas diferentes, duas grandes personalidades anarquistas internacionais, o sociólogo e historiador Carlos M. Rama (fazia parte do Comitê Internacional do C.I.R.A. e já tinha feito uma palestra para nós em Genebra em época anterior) que nos falou admiravelmente dos anarquistas durante a revolução espanhola e, como dissemos há pouco, o compositor John Cage, que se ofereceu para falar sobre Henri David Thoreau e a desobediência civil.

Ao curso colaboraram também outras personalidades locais, como o historiador do anarquismo luso-brasileiro, Edgar Rodrigues (que providenciou muita documentação) e o Professor Daniel Brilhante de Brito (que traduziu do russo vários verbetes enciclopédicos). Nos bastidores, modesta, porém eficazmente, contribuíram à organização geral do curso (cuidando de problemas práticos como: datilografia, inscrições, publicidade, transporte de oradores, etc.) as então ainda estudantes Regina Helena Machado (que depois obteve doutorado na Universidade de Toulouse) e Rosa Maria de Freire Aguiar (hoje grande tradutora e diretora da Fundação Celso Furtado), Jacques Kalbourian (hoje pintor de renome) além de pessoas que preferiram permanecer incógnitas. Amigos, companheiros, grupos e instituições estrangeiras nos mandaram documentação: Marco Smeraldi (Florença), Movimento Libertário Cubano no Exílio (Miami), C.I.R.A.-Lausanne, C.I.R.A.-Marseille, Federação Anarquista Mexicana e Grupo Tierra y Libertad (Cidade do México), Comissão de Relações das Federações Anarquistas, André Bernard, Antonio Téllez e Daniel Guérin (Paris), Edgar Leuenroth (São Paulo) etc.
PESQUISAS BIBLIOGRÁFICAS
Aos membros que tinham a oportunidade de viajar se pedia que visitassem as bibliotecas locais e fizessem um levantamento do material de interesse anarquista existente nas coleções. Isso foi feito para a Biblioteca Municipal de Salvador (Bahia), a de São Paulo, o Arquivo Mineiro de Belo Horizonte e, naturalmente, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. As fichas, infelizmente, foram confiscadas e jamais devolvidas.
PRISÕES E PROCESSO
As prisões ocorreram durante o mês de outubro de 1969, isto é um ano após a conclusão do curso no Teatro Carioca. Estava previsto e cada um de nós tinha se preparado para isso (pelo menos, foi assim que pensávamos). Um colaborador e amigo, Gilberto Ballalai, tinha sido preso e muitas perguntas lhe foram feitas sobre mim. Aconteceu o mesmo com outros: meu dia se aproximava. Nos primeiros dias do mês de outubro o Roberto das Neves, que pertencia a uma loja maçônica, tinha sabido que haveria uma incursão nos ambientes ligados ao anarquismo e nos avisou por intermédio do genro. Alguns de nós se reuniu e estabeleceu que não sendo possível que a maioria de nós pudesse deixar o país (quase todos os suspeitos tinham uma família que não queriam abandonar) devíamos salvar o que era possível. Um companheiro empreiteiro de obras construiu um esconderijo especial onde foi preservada uma documentação importante (que ainda existem). Cada um de nós teria que cuidar dos arquivos pessoais. As precauções que adotei foram desafortunadamente as piores: dividi tudo por três e deixei uma terceira parte em casa (teria sido muito suspeito se eles não encontrassem nada) outro terço coloquei na casa de uma estudante insuspeitável (mas não tomamos em consideração a curiosidade de uma empregada nem o medo de um marido apreensivo o que levou a uma autodestruição deliberada) e um terço na casa de vilarejo de minha sogra (a qual tentou despachar meu material para os Estados Unidos (15 pacotes de impressos e manuscritos registrados), cada um de cinco quilos, que foram apreendido na repartição postal de Caxambu (Minas Gerais) pela Polícia Militar. D. Blanca Lobo Filho, aliás, foi presa e interrogada durante várias horas e conseguiu se sair da encrenca só por ser doutora, professora universitária nos Estados Unidos e não compartilhar de minhas idéias. De fato ela era totalmente inocente e só queria me fazer um favor. Protestei junto à Convenção Postal Universal de Berne, porém de nada valeu. Nunca recuperei nada.

Minha prisão ocorreu no Dia do Mestre, 15 de outubro de 1969. Fui levado ao Quartel Geral da Aeronáutica Militar no Galeão, junto com o Professor Roberto das Neves. Os outros foram presos em dias diferentes e se chegou a um total de dezesseis militantes, todos anarquistas menos um. A acusação era de atividades subversivas, de complô contra o governo, de fabricação de explosivos, de formação de guerrilhas, de financiamentos ilícitos de proveniência estrangeira e a seguir.

O ato de acusação está transcrito na seção de documentos.

O tratamento no quartel da Aeronáutica Militar foi diferente para cada um de nós. Sem que nós o soubéssemos, foram torturados três jovens cujas respostas não soavam – e, talvez, de fato não fossem – sinceras.

Pessoalmente gozei de um serviço de "luxo" pois o regulamento militar previa que os detentores de algum diploma universitário tivessem direito a refeições e alojamento ao nível de oficiais. Dormi com colchão e comi bem. Roberto das Neves era vegetariano e tentou converter à dieta macrobiótica um policial que sofria de distúrbios gástricos (só depois soubemos que ele era o torturador).

O coronel que nos interrogava, às vezes juntos e às vezes separadamente, não entendia porque todos os "subversivos" sob inquérito negavam tudo, até a evidência, enquanto que nós anarquistas não só admitíamos tudo (ou quase) mas até nos gabávamos de nosso comportamento. Os detalhes interessantes da instrução e do processo são demasiados para poder ser reproduzidos aqui e quem estiver interessado poderá consultar o volume que o Edgar Rodrigues dedicou ao assunto, Os anarquistas no banco dos réus.

A parte que diz respeito ao C.I.R.A. merece algum esclarecimento: eu era acusado de ser um agente estrangeiro (a serviço de uma hipotética revolução internacional) que "financiava" atividades subversivas no Brasil com fundos suíços.

Foi muito fácil desmontar esse achado dos serviços secretos. Houve, sim, algumas transferências de fundos, mas, ironicamente (será que as autoridades suíças, que ainda me vigiavam, pensavam que eu estava alimentando uma revolução na Suíça com dinheiro brasileiro?) em sentido oposto (uma percentagem do dinheiro cobrado para a inscrição ao C.I.R.A.-Brasil era paga à sede suíça). As importâncias eram tão insignificantes (uma dúzia de dólares) que as responsáveis de Lausanne tinham sugerido que em vez de mandar dinheiro comprássemos e despachássemos para eles livros de interesse anarquista em língua portuguesa.

Minhas viagens subversivas "no exterior em vários países da América Latina foram também fáceis de explicar devido a meu trabalho de intérprete a serviço de entes tão subversivos como a Organização dos Estados Americanos (O.E.A.), da qual o Brasil fazia parte, ou o Serviço do Cerimonial do próprio Ministério de Negócios Exteriores do Brasil. Ficaram um pouco perplexos mas, afinal, divertiram-se às pampas com o estratagema, por mim excogitado, para colocar meu nariz em lugares e situações indevidos (manifestações estudantis, delegacias de polícia, ministérios) exibindo um cartãozinho do Ministério que pedia às autoridades que me deixassem circular livremente. Esse documento deveria ser válido só para um dia específico ou um período bem delimitado, mas eu o tinha dobrado de maneira que a carteira plástica não deixasse transparecer as datas e pudesse ser considerado válido em um controle superficial limitado às assinaturas e aos carimbos. Ninguém nunca tinha me contestado esse documento até então.

O terreno suspeito de treinamento para guerrilheiros, adquirido coletivamente pelo Movimento Libertário Brasileiro, correspondia a uma modesta fazenda destinada à agricultura biológica e à criação de uma comunidade autogestida, a uma meta quase turística de descanso e reflexão e a um lugar para palestras e reuniões entre companheiros (os anarquistas paulistanos tinham feito o mesmo com a "Nossa Chácara" em Moji das Cruzes).

Sobre esse assunto o C.I.R.A. não tinha nada a ver; só eu, a título pessoal contribui financeiramente com o "Nosso Sítio"; contribuição muito modesta e só financeira, pois eu nunca pisei naquele terreno. Os militares, depois de tê-lo sobrevoado com seus helicópteros, antes, e esquadrinhado de perto, tintim por tintim, não encontraram nenhum traço de guerrilheiros nem de armas.

Permanecia a acusação mais grave, a fabricação de explosivos, explicada no manual Acção Directa. Este folheto fora publicado por Roberto das Neves, a pedido do general português Humberto Delgado (a quem eu tinha sido apresentado uns anos antes na sede da Editora Germinal). A publicação era destinada à luta em Portugal contra a ditadura de Salazar e foi fácil convencer os militares nesse sentido por três razões essenciais:

  1. Ortografia, gramática e sintaxe eram lusitanas e não brasileiras;

  2. havia sido impresso "antes" do advento do governo militar no Brasil;

  3. todos os interessados que o conheciam admitiram tê-lo possuído ou visto e as respostas sempre combinavam com as do editor que, na verdade, assumiu a responsabilidade de tê-lo impresso e distribuído ele mesmo, bem como dado de presente a cada um de nós.

Fomos soltos depois de três ou quatro dias, alguns só depois de um mês, porém fomos todos denunciados. O trâmite do processo demorou muito mas ao final fomos todos absolvidos. O Procurador apelou pois as leis excepcionais o exigiam. Passaram-se ainda uns anos e o veredicto prolatado foi a nosso favor.

As atividades do C.I.R.A.-B se confundem parcialmente com as do Movimento Libertário Brasileiro (do qual me tornei representante no exterior entre 1970 e 1985) e cessaram oficialmente com o fechamento da sede do C.I.R.A.-B e do CEPJO, em fins de 1969 e são pouco conhecidas pelas novas gerações de anarquistas cariocas. Isso se tornou evidente em agosto de 1992, no encontro "Outros 500" organizado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, um curso no qual, devido à ausência do delegado carioca Ideal Peres, incumbiu-me a tarefa de tomar a palavra e narrar, para um público desinformado (os presentes tinham aderido ao movimento anarquista depois de 1969 ou como no caso de algumas pessoas idosas, que já tinham militado antes, mas que eram oriundas de regiões em que aconteceram coisas diferentes) fatos daquela época, mais tarde documentado pelo Edgar Rodrigues no livro acima mencionado e, no que diz respeito ao C.I.R.A., com algumas lacunas inevitáveis que vamos preencher com os documentos alegados. O discurso, porém, permanece aberto.
Pietro Ferrua
P.S. Este ensaio sobre o C.I.R.A.-Brasil pode ser considerado como artigo em si mas também como um capítulo comum a dois livros, parcialmente inéditos.

O primeiro trata da história de todos os CIRAs. Foi em parte publicado pela Rivista Storica dell'Anarchismo (Pisa, Itália). Assinados por mim saíram os artigos seguintes:

  1. Appunti per una cronistoria del Centro Internazionale di Ricerche sull’Anarchismo” a..7, n.2 (julho-dezembro de 2000) 88-108.;

  2. La breve esistenza della Sezione Brasiliana del Centro Internazionale di Ricerche sull’Anarchismo”a..8, n.1 (janeiro-junho de 2001) 51-60.;

  3. "La Sezione del CIRA in Giappone" a..XI, n.1 (janeiro-junho de 2004), 127-131.

Outros artigos da série foram:

  1. Marie-Christine Mikhaïlo: "Cronache del periodo d'oro del C.I.R.A."a.9, n.2 (julho-dezembro de 2002) 89-93.

René Bianco, antes de falecer, chegou a escrever um artigo sobre a fundação e o desenvolvimento do C.I.R.A.-Marseille, em colaboração com Felip Equis, destinado à mesma revista que, porém, cessou suas publicações.

Faltavam ainda dois artigos a essa série: um da Marianne Enckell em continuação dao que sua mãe escreveu e um meu, sobre o "C.I.R.A. virtual". Quem sabe, algum dia.
O segundo livro programado, do qual o presente artigo seria apenas um capítulo, é aquele dedicado à "Atividade do Movimento Libertário do Rio de Janeiro durante a ditadura militar” e que deve ser precedido e seguido por:

"A fundação da Liga dos Direitos Humanos" (por Lícia do Prado Valladares e eu mesmo), "O funcionamento do CEPJO até as prisões e o fechamento", o Movimento Libertário Estudantil, as visitas de personalidades estrangeiras, o congresso clandestino, o Centro Brasileiro de Estudos Internacionais, as atas do processo, etc.
NOTAS


  1. Numa carta do Rio de Janeiro ao C.I.R.A.-Lausanne, em data 16/XII/1965, na p.2, eu mesmo formulo a hipótese da fundação de uma seção brasileira (ou latino-americana) certamente já precedida por alguma sondagem sobre o projeto. Apesar de algumas hesitações, prevejo a possibilidade de poder concretizar a iniciativa dentro de algum tempo, o que de fato acontece.

  2. John H.F. Dulles: Anarchists and Communists in Brazil (Austin-Dallas: University of Texas Press, 1973, pp. XIX-603).

  3. Edgar Rodrigues

  4. Edgar Rodrigues me informa que faleceu também o companheiro espanhol Martínez, vigia da Biblioteca-Arquivo.




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