A brincadeira



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A BRINCADEIRA

Milan Kundera


O AUTOR

Milan Kundera nasceu em 1929 em Brno, na Checoslováquia. Operá~ rio, depois pianista de bar, acabou por se consagrar à literatura e ao cinema, tendo sido durante vários anos professor no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos de Praga. Após a invasão soviética de 1968, foi demitido das suas funções e todos os seus livros foram retirados do mercado. Havia já publicado A Brincadeira (1967) e O Livro do Amores Risíveis (1968), este último Prêmio da União de Escritores Checoslovacos. A partir dessa data, a sua obra deixa de poder ser publicada na Checoslováquia e as primeiras edições dos novos livros surgem já em

tradução francesa. É em França, aliás, que em 1975 fixa residência, sendo convidado para professor universitário. Quatro anos mais tarde, reagindo à publicação de O Livro do Riso e do Esquecimento, o governo checo retira-lhe a nacionalidade.

A Vida Não é Aqui recebeu em 1973 o Prêmio Médicis para o melhor romance estrangeiro publicado em França e A Valsa do Adeus o prémio Mondello, em Itália (1978). Em 1981, pela totalidade da sua obra, Milan Kuridera foi galardoado com o premio norte-americano "Common Wealth Award", e em 1984 A Insustentável Leveza do Ser recebeu o

"National American Literary Prize of Los Angeles Times". Já em 1985, também por toda a sua obra, foi-lhe atribuído o Prêmio Jerusalém. Presentemente cidadão francês, Milan Kuridera reside em Paris.
MILAN KUNDERA

A BRINCADEIRA

Tradução de Helena Vaz da Silva

PUBLICAÇõES DOM QUIXOTE

LISBOA

1994


r, 1
A BRINCADEIRA

Publicações Dom Quixote, Lda Rua Luciano Cordeiro, 116 - 2.-

1098 Lisboa Coclex - Portugal

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor

@ 1967, Milan Kuridera,

Título original: Zert

4.a edição: Novembro de 1994 Depósito legal ri., 81318194 Impressão e Acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda

ISBN: 972-20-0014-4


íNDICE

PRIMEIRA PARTE

Ludvik ....... ........................... . ................... 9

SEGUNDA PARTE

Helena ...................................................... 19

TERCEIRA PARTE

Ludvik ...................................................... 31

QUARTA PARTE

Jaroslav ..................................................... 119

QUINTA PARTE

Ludvik ...................................................... 157

SEXTA PARTE

Kostka ...................................................... 197

SÉTIMA PARTE

Ludvik, Helena, Jaroslav ..................................... 237

NOTA DO AUTOR .......................................... . ... 301


,

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PRIMEIRA PARTE

LUDVIK

Assim, depois de tantos anos, voltava de novo a casa. De pé, na praça principal (que, criança, depois rapaz, depois jovem, atravessara mil ve-



zes), não sentia qualquer emoção; pelo contrário, pensava que aquele es-

paço onde a torre do sino (parecida com um antigo cavaleiro sob o seu elmo) se vê acima dos telhados, lembrava a vasta parada de um quartel, e que o passado militar daquela cidade da Morávia, outrora muralha contra as incursões dos Magiares e dos Turcos, imprimira nela a marca de uma irrevogável fealdade.

Durante anos, nada me atraíra à minha cidade natal. Dizia-me que ela se me tinha tornado indiferente, e isso parecia-me natural: ao fim de quinze anos vividos fora, só me restam alguns conhecidos, ou mesmo

os amigos (que prefiro, de resto, evitar); a minha mãe está enterrada num

túmulo estrangeiro, que não visito. No entanto iludia-me: aquilo que eu

chamava indiferença era na realidade rancor; escapavam-me as razões, pois tinham-me acontecido coisas boas ou coisas más nesta cidade como em todas as outras, em todo o caso esse rancor existia; percebera-o durante a minha viagem: a missão que aqui me trazia poderia, bem vistas as coisas, cumpri-Ia igualmente bem em Praga, mas tinha sido, num repente, irresistivelmente atraído pela ocasião oferecida de executá-la na

minha cidade natal, precisamente por se tratar de uma missão cínica e terra-a-terra que, por ironia, me absolvia da suspeita de aqui voltar sob o efeito de um enternecimento piegas pelo tempo perdido.

Uma vez mais, percorri cinicamente com os olhos a praça desengraçada antes de lhe voltar costas e tomar a rua do hotel onde tinha um quarto alugado para essa noite. O porteiro estendeu-me uma chave pendurada numa pêra de madeira dizendo "segundo andar". O quarto não era muito convidativo: uma cama contra a parede. no meio uma mesi-

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nha com uma única cadeira, ao lado da cama um pretensioso toucador de mogno com espelho, junto da porta um lavatório lascado absolutamente minúsculo. Pousei a toalha na mesa e abri a janela: a vista dava sobre um pátio e sobre casas com as traseiras nuas e sujas viradas para o hotel. Fechei a janela, corri os cortinados e aproximei-me do lavatório, que tinha duas torneiras, uma com sinal encarnado, outra azul; experimentei-as, a água correu igualmente fria em ambas. Examinei a mesa, que, em rigor, chegava, visto que nela cabiam perfeitamente uma garrafa e dois copos; infelizmente, à falta de uma segunda cadeira no quarto, só uma pessoa se poderia lá instalar. Tendo puxado a mesa para perto da cama, tentei sentar-me nesta, mas era demasiado baixa e a mesa alta de mais; mais ainda, encovava de tal maneira que logo foi evidente que não só constituía um mau assento, corno desempenharia de maneira duvidosa a sua função de cama. Apoiei-me nos punhos; depois estendi-me levantando cuidadosamente os pés calçados para evitar sujar a co-

berta e o lençol. Com o colchão cavado sob o meu peso, encontrava-me estendido como numa rede ou numa campa estreita: não me era possível imaginar partilhar aquela cama com alguém.

Sentei-me na cadeira, o olhar perdido nas cortinas iluminadas em transparencia, e reflecti. Nesse momento, fizeram-se ouvir passos e vo-

zes no corredor; duas pessoas, um homem e uma mulher, e cada palavra era inteligível: falavam de um certo Petr, que tinha fugido de casa, e de uma tal Mara, que era idiota e estragava o pequeno; depois ouviu-se uma chave a rodar na fechadura, uma porta que se abria e as vozes que continuavam no quarto ao lado; ouvi os suspiros da mulher (sim, até os suspiros me chegavam!) e a decisão do homem de dizer de vez duas palavras à Mara.

Levantei-me, a minha resolução estava tomada; lavei ainda as mãos no lavatório, limpei-as com a toalha, e deixei o hotel sem saber ao certo para onde ia. Sabia simplesmente que, se não quisesse comprometer o

bom sucesso de toda a minha viagem (viagem consideralvelmente longa e fatigante) por causa da única imperfeição do meu quarto de hotel, devia, por muito que não me apetecesse, fazer um discreto apelo a qualquer amigo local. Passei rapidamente em revista todas as caras do tempo da minha juventude, para logo as afastar, pois o carácter confidencial do favor solicitado me iria obrigar a construir uma ponte laboriosa so-

bre os muitos anos em que nos perdêramos de vista - e isto desagradava-me. Depois lembrei-me de que aqui vivia sem dúvida um homem a quem outrora tinha, aqui mesmo, arranjado um emprego e que ficaria, pelo que conheço dele, muito contente por me fazer por sua vez um favor.

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Era um ser estranho, simultaneamente de uma moralidade rígida e cu-

riosamente inquieto e instável, de quem, pelo que eu sabia, a mulher se tinha divorciado ao fim de vários anos pelo simples facto de ele viver indiscriminadamente em qualquer lado, desde que fosse longe da mulher e dos filhos. Assustava-me a ideia de que ele se pudesse ter voltado a casar, circunstância propícia a complicar a satisfação do meu pedido, e apressei o passo em direcção ao hospital.

O hospital é um conjunto de edifícios e pavilhões semeados aqui e ali sobre um vasto espaço de jardins; entrei na pequena guarita junto ao portão e pedi ao porteiro sentado atrás de uma mesa para me pôr em contacto com a secção de virologia; ele empurrou o telefone para o

canto da mesa do meu lado e disse: "Zero dois! " Marquei o zero dois e fiquei a saber que o doutor Kostka saíra há alguns segundos e que estaria prestes a chegar à saída. Sentei-me num banco perto da porta principal para me assegurar de que o não perderia, e olhava distraidamente os homens passeando-se em roupão de hospital, de riscas azuis e brancas, quando o vi: vinha pensativo, alto, magro, simpático na sua falta de presença, sim, era mesmo ele. Levantei-me do meu banco e fui direito a ele como se fosse empurrá-lo; deitou-me um olhar de desagrado, mas depressa me reconheceu e me abriu os braços. Senti que a sua sur-

presa foi de quase felicidade, e a espontaneidade do seu acolhimento deu-

-me prazer.

Expliquei-lhe que tinha chegado havia uma hora para tratar de um assunto sem importância que me reteria ali perto de dois dias, e ele logo me manifestou a surpresa feliz por a minha primeira visita lhe ter sido dedicada. Foi-me subitamente desagradável não o ter vindo procurar com um espírito desinteressado, por ele só, e a pergunta que lhe fiz (perguntei-lhe jovialmente se voltara a casar) pareceu reflectir uma atenção sincera, quando, no fundo, provinha de um calculismo baixo. Disse-me (para minha satisfação) que continuava só. Declarei que tínhamos muito que con-

tar um ao outro. Ele concordou e lamentou não dispor, infelizmente, de pouco mais de uma hora, visto ter ainda que voltar ao hospital e, no fim da tarde, ter de apanhar um autocarro para fora da cidade. "Não mora aqui?", digo, assustado. Assegurou-me que sim, um estúdio num edifício novo, mas que "é penoso viver solitário". Soube que Kostka tinha, numa outra cidade a vinte quilómetros, uma noiva professora, possuindo, também ela, um pequeno apartamento de duas assoalhadas. "Vai viver com ela futuramente?", perguntei-lhe. Disse-me que dificilmente encontraria trabalho noutro sítio tão interessante como aquele que lhe arranjara e que, pelo contrário, a sua noiva teria dificuldade em arran-

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jar um lugar aqui. Pus-me a vituperar (de bom coração) as demoras da burocracia, incapaz de facilitar as coisas de maneira a que um homem e uma mulher possam viver juntos. "Sossegue, Ludvik, disse-me com uma

doce indulgência, que não é assim tão insuportável. A viagem custa-me, é certo, dinheiro e tempo, mas a minha solidão permanece intacta e sou livre. - Porque tem você um tal desejo de liberdade?, perguntei-lhe. -

E você?, disse ele. - Eu ando atrás das raparigas, respondi-lhe. Não é pelas mulheres, é por mim que me faz falta a minha liberdade", disse, e acrescentou: "Oiça, venha um momento a minha casa antes de eu me ir embora." Eu não pedia mais que isso.

Saídos do recinto do hospital, logo fomos dar a um grupo de edifícios novos que, uns a seguir aos outros, se elevavam desarmoniosamente de um solo poeirento desnivelado (sem relva, sem passeios, sem asfalto) e formavam um triste cenário nos confins dos campos, vastos e planos, estendidos a perder de vista. Atravessámos uma porta, subimos uma es-

cada demasiado estreita (o elevador estava avariado) e detivemo-nos no

terceiro andar, onde reconheci o nome de Kostka no cartão-de-visita. Quando, tendo atravessado a entrada, nos encontrámos na sala, senti-me mais que satisfeito: um grande e confortável divã ocupava um canto; além do divã, havia uma pequena mesa, uma poltrona, uma grande biblioteca, um gira-discos e um aparelho de rádio.

Elogiei a Kostka o seu quarto e perguntei-lhe como era a casa de banho. "Nada de luxuoso", disse, contente do interesse que eu mostrava, e fez-me passar à entrada de onde se abria a porta para a casa de banho, pequena mas muito agradável, com banheira, duche, lavatório. "Ao ver

este apartamento magnífico, vem-me uma ideia, disse. Que vai fazer ama-

nhã à tarde e à noite? - Ali, desculpou-se confuso, amanhã terei um

longo dia de serviço, não voltarei com certeza a casa antes das sete horas. À noite, não vai estar livre? - Pode ser que tenha a noite livre, res-

pondi, mas, mais cedo, não me pode emprestar o estúdio durante a tarde?"

A minha pergunta surpreendeu-o, mas, imediatamente (como se tivesse medo que eu duvidasse do seu desvelo), disse-me: "Com todo o

gosto, é seu." E prosseguiu, como que num esforço de recusa em procurar as razões do meu pedido: "Se tem problemas de alojamento, pode dormir aqui a partir de hoje, pois irei directamente para o hospital. -

Não é preciso. Estou no hotel. O problema é que o meu quarto é bastante desconfortável e, amanhã à tarde, vou precisar de um ambiente agradável. Obviamente, não para estar sozinho. - Sim, fez Kostka baixando ligeiramente a cabeça, calculo."

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Depois do que nos sentámos à volta da mesinha (Kostka tinha preparado café) e conversámos uns momentos (sentado no divã, constatava com prazer a sua firmeza, não encovava nem guinchava). Kostka anunciou em seguida que deveria retirar-se para voltar ao hospital, e apressou-se a iniciar-me em certos segredos caseiros: É preciso fechar com força a torneira da banheira, a água quente corre, contrariamente ao habitual, da torneira marcada com a letra F, a tomada de electricidade para ligar o gira~ está escondida atrás do divã, dentro do pequeno armário há uma garrafa de vodca acabada de encetar. Em seguida, deu-me um

molho com duas chaves e mostrou-me a da porta do prédio e a do estúdio. Tendo dormido em inumeráveis camas ao longo da minha vida, criei um culto particular pelas chaves, pelo que as fiz deslizar para dentro do meu bolso com um júbilo silencioso.

Kostka exprimiu ao partir o voto de que o seu estúdio me proporcionasse "qualquer coisa realmente bela". "Sim, disse-lhe, vai-me permitir efectuar uma bela destruição. - Você acha que as destruições podem ser belas?", disse Kostka, e eu sorri no meu íntimo pois que, através daquela pergunta (proferida com doçura mas pensada combativamente) o

reconheci exactamente tal como ele era (simpático e cornico simultaneamente) quando do nosso primeiro encontro há quinze anos atrás. Respondi-lhe: "Bem sei que você é um pacífico operário na eterna obra divina e que ouvir falar em destruições lhe desagrada, mas que hei-de fazer: eu por mim não sou um aprendiz de pedreiro de Deus. Além disso, se os aprendizes de pedreiro de Deus construírem cá em baixo edifícios com paredes verdadeiras, haverá poucas probabilidades de as nossas destruições os prejudicarem. Mas parece-me que em vez de paredes não vejo por todo o lado senão cenários. E destruir decorações é algo de muito justo."

Voltámos ao sítio onde nos tínhamos separado da última vez (talvez há nove anos atrás); a nossa desavença revestia-se agora de uma forma metafórica porque lhe conhecíamos bem o fundo e não sentíamos a necessidade de voltar a ela. Precisávamos apenas de repetir que não havíamos mudado, que continuávamos os dois igualmente diferentes um do outro (a esse respeito, devo dizer que gostava dessa dissemelhança com Kostka e que tinha, por isso, prazer em discutir com ele, pois que deste modo podia sempre, de passagem, verificar quem, de facto, sou e o que penso). Assim, para me tirar todas as dúvidas a seu respeito, respondeu-me: "O que acabou de dizer soa bem. Mas diga-me lá: céptico como é, onde foi buscar a certeza que o faz distinguir o que é decoração do que é parede? Nunca lhe ocorreu duvidar de que as ilusões de que faz

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troça não-sejam realmente ilusões? E se está enganado? E se se tratasse

de valores, e você fosse um destruidor de valores?" E acrescentou em seguida: "Um valor destruido e uma ilusão desmascarada têm o mesmo corpo lastimável, parecem-se e nada é mais fácil do que confundi-los."

Enquanto acompanhava Kostka no caminho para o hospital situado na outra ponta da cidade, brincava com as chaves no fundo do meu bolso e sentia-me bem ao lado do meu amigo de longa data, que era capaz de tentar convencer-me da sua verdade fosse onde fosse, até agora, ao atra-

vessar o terreno desigual dos quarteirões novos. Kostka sabia sem dúvida que teríamos por nossa conta toda a noite do dia seguinte, e por isso logo se deixou de filosofias para passar aos assuntos banais, confirmando de novo que eu o esperaria amanhã em sua casa quando ele re-

gressasse às sete horas (ele próprio não possuía outras chaves), e

perguntando-me se não precisava realmente de mais nada. Passei a mão

pela cara e disse que precisava de passar no barbeiro, pois tinha uma barba indecorosa. "Vem mesmo a calhar, disse Kostka, arranjo-lhe um barbeiro especial!"

Não recusei os bons préstimos de Kostka e deixei-me levar a um pequeno salão onde em frente de três espelhos se encontravam plantadas três grandes cadeiras giratórias, duas das quais ocupadas por dois homens de cabeça inclinada e cara untada de creme. Duas mulheres de bata branca inclinavam-se sobre eles. Kostka aproximou-se de uma delas e segredou-lhe qualquer coisa; a mulher limpou a navalha com uma toalha e chamou para dentro: uma rapariga nova de bata branca apareceu para prestar os seus cuidados ao senhor abandonado na cadeira, enquanto a mulher a quem Kostka havia falado me dirigiu uma breve inclinação de cabeça e me convidou com a mão a sentar-me na cadeira livre. Kostka e eu despedimo-nos um do outro com um aperto de mão, e eu instalei-me, a cabeça apoiada na almofada que servia de encosto, e, como desde há muitos anos não gostava de olhar para a minha cara, esquivei-me ao espelho situado na minha frente, ergui os olhos e deixei-os errar pelas manchas do tecto caiado de branco.

Mantive os olhos pousados no tecto mesmo depois de sentir no pescoço os dedos da cabeleireira, que entalavam no colarinho da minha ca-

mísa a ponta de uma toalha branca. Depois ela afastou-se um passo, e não ouvi mais do que o vaivém da lâmina a ser afiada no cabedal e deixei-me ficar numa espécie de imobilidade beatifica cheia de feliz indiferença. Pouco depois, senti nas faces os dedos húmidos a aplicarem -untuosamente o creme sobre a pele e apercebi-me dessa coisa singular e incongruente: uma desconhecida que não me é nada, a quem eu também não

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sou nada, acaricia-me docemente. Em seguida, com um pincel, a cabeleireira pôs-se a espalhar o sabão e parecia-me não estar realmente sentado, mas flutuar num espaço branco semeado de manchas. E então imaginava-me (porque, mesmo nos momentos de repouso, as ideias não suspendem os seus jogos) ser uma vítima sem defesa, totalmente submetido à mulher que tinha afiado a lâmina.

Enquanto o meu corpo se dissolvia no espaço e eu sentia unicamente os dedos que me tocavam a cara, imaginei facilmente que as suas mãos suaves envolviam (rodavam, acariciavam) a minha cabeça, como se não a ligassem a corpo nenhum, mas a tratassem como uma cabeça em si, de tal maneira que a lâmina cortante pousada na mesa ao lado parecia não ter outra função que a de perfazer essa bela autonomia da minha cabeça.

Depois, as carícias cessaram e ouvi a cabeleireira afastar-se a fim de, agora, se apoderar da lâmina, e pensei nesse momento (pois os pensamentos continuavam o seu jogo) que era preciso ver que aspecto tinha a dona (a criadora) da minha cabeça, o meu terno assassino. Tirei os olhos do tecto e olhei para o espelho. Fiquei estupefacto: o jogo com que me divertia tomou de repente contornos estranhamente reais; parecia-me que essa mulher que se inclinava sobre mim no espelho era minha conhecida.

Com uma mão, ela segurava o lóbulo da minha orelha, com a outra

raspava meticulosamente a espuma de sabão da minha cara; observei-a, e a sua identidade, que reconhecera um momento antes com espanto, esfumava-se lentamente e desaparecia. Depois ela curvou-se por cima do lavatório, soltou da navalha, com dois dedos, um monte de espuma, endireitou-se e fez a cadeira dar meia volta com ligeireza; os nossos olhares cruzaram-se um segundo e de novo me pareceu que era ela! Na verdade, este rosto era um pouco diferente, como se fosse o da sua irmã mais velha, tornara-se macilento, murcho, um pouco enrugado; mas havia quinze anos que eu a tinha visto pela última vez! Durante este período o tempo tinha imprimido uma máscara enganadora sobre os traços autênticos, mas felizmente essa máscara tinha dois orifícios por onde de novo podiam olhar-me os seus olhos, reais e verdadeiros, tais como os conhecera.

Mas, a seguir, de novo a pista se obscureceu: um outro cliente entrou no salão, veio pôr-se atrás de mim, numa cadeira, à espera de vez; co-

meçou a falar com a cabeleireira; falava do Verão magnífico e da piscina em construção à saída da cidade; a cabeleireira respondia (eu registava a sua voz mais do que as palavras, aliás insignificantes) e constatava que não reconhecia aquela voz; ela soava desenvolta, desprovida de ansiedade, quase ordinária, era uma voz completamente estranha.

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w-r.


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Agora lavava-me a cara, que segurava entre as suas mãos, e eu (apesar da voz) voltava a acreditar que era ela, que sentia ainda, passados quinze anos, o contacto das suas mãos na minha cara, que ela me acariciava de novo, acariciava-me longamente e com ternura (eu esqueci completamente que não eram carícias mas abluções); a sua voz estrangeira não parava entretanto de responder não sei quê à conversa encadeada do tipo, mas eu recusava-me a acreditar na voz, preferia ter fé nas suas mãos; obstinava-me em reconhecê-la nas suas mãos; pela doçura do seu toque esforçava-me por discernir se era ela e se ela me tinha reconhecido.

A seguir, ela pegou numa toalha e secou-me as faces. O falador desatou a rir ruidosamente de uma piada que acabara de contar e reparei que a minha cabeleireira não tinha rido, que não prestava portanto grande atenção ao que o tipo lhe dizia. Isso perturbou-me porque via aí a prova de que ela me tinha reconhecido e que escondia a agitação que sentia. Decidi falar-lhe quando me levantasse da cadeira. Ela tirou-me a toalha que eu tinha à volta do pescoço. Levantei-me. Puxei de uma nota de cinco coroas do bolso interior do meu casaco. Esperava um novo encontro dos nossos olhos para poder dirigir-lhe a palavra, chamando-a pelo seu nome

(o tipo continuava a tagarelar), mas ela virou a cabeça com indiferença, pegou no dinheiro com um gesto breve, impessoal, a ponto de eu me sentir de repente um louco que acreditara nas suas próprias miragens, e não tive de todo a coragem de lhe dizer palavra.

Curiosamente insatisfeito, saí do salão; tudo o que eu sabia era que nada sabia e que era uma enorme grosseria hesitar sobre a identidade de um rosto outrora tão amado.

Claro que não era difícil saber a verdade. Apressadamente voltei ao hotel (de caminho vi do outro lado da rua um velho amigo de infância, Jaroslav, maestro de uma orquestra com címbalo, mas, como se fugisse da música lancinante e demasiado forte, desviei vivamente o olhar), e

de lá telefonei a Kostka; estava ainda no hospital.

"Diga-me, aquela cabeleireira que me recomendou chama-se Lúcia Sebetkova?.

- Hoje, ela usa outro nome, mas é ela mesma. Como é que a conhece?, diz Kostka.

- Foi há muito, muito tempo", respondi, e, sem sequer pensar em jantar, deixei o hotel (já a noite caía), para passear ainda.

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SEGUNDA PARTE

HELENA


Esta noite vou deitar-me cedo, não sei se conseguirei adormecer, mas

vou deitar-me cedo. Pay-el partiu esta tarde para Bratislava, eu amanhã de manhã cedo, de avião, para Brno, e depois de autocarro, a minha Zdena pequenina ficará dois dias sozinha em casa, ela não se vai importar, não liga muito à nossa companhia, pelo menos à minha, adora o Pavel, ele é o seu primeiro ídolo masculino, é preciso reconhecer que ele sabe lidar com ela, como sempre soube com todas as mulheres, incluindo eu, e continua a ser assim, esta semana voltou a tratar-me como antigamente, fazia-me festas e prometia-me que voltaria a buscar-me à Morávia no regresso de Bratislava, segundo ele, temos que voltar a conversar

um com o outro, talvez tenha chegado à conclusão de que isto não pode continuar assim, talvez ele queira que tudo volte a ser como dantes, mas porque é que só agora se lembra disso, agora que encontrei Ludvik? Estou angustiada, mas eu não devo estar triste, não devo, que a tristeza nunca se ligue ao meu nome, esta frase de Fucik é a minha divisa, mesmo na tortura, mesmo sob a forca, Fucik nunca estava triste, e pouco me importa que a alegria não esteja hoje na moda, talvez eu seja uma idiota, mas os outros não o são menos com o seu cepticismo mundano, não sei por que havia de renunciar à minha palermice para adoptar a deles, não quero separar a minha vida, quero que a minha vida seja uma só de uma ponta à outra, foi por isso que o Ludvik me agradou tanto, quando estou com ele não preciso de mudar de ideais nem de gostos, é um homem vulgar, simples, claro, e é disso que eu gosto e sempre gostei.



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