A cidade das vinhas



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CAI A NOITE

Fora-se o magnífico no rubro oeste, enterrara-se. No feriado municipal, as notícias corriam em torno da chegada de uma louvável família nos arredores da gloriosa urbe.

Das paredes das casas a se resfriarem rapidamente, viu-se a necessidade de um aquentamento artificial, latas com querosene. Um banho quente a sufocar a friagem corporal abriu caminho para a sopa de ervilhas. Estavam por merecer.

O atrito metálico das portas sanfonadas de bares e restaurantes a descerem apressadas, compeliu o bondeco - sobre o trilho de pesadas bitolas - a emudecer o calmoso ruído requentado de história.

As aves remanescentes do último outono - teimosas pela beleza natural do lugar - não migraram; procuravam nas frondosas de copas centenárias, um refúgio para a prole faminta.

Na praça, o obcônico dobrou pontualmente às seis e o toque de recolher estava mais pelo frio que pela hora do jantar.

A botica representava ainda o único estabelecimento com portas escancaradas. Dois funcionários seguravam firmemente as placas com promoções de medicamentos a ziguezaguear nas rajadas.

Longe da cidade, videiras a balançar folhas e cachos no resistir das gavinhas e pedúnculos, anunciavam a generalização avassaladora de um crepúsculo quase sísmico; grande a nuvem de pó cinza a erguer-se pelos redemoinhos parentes.

Notadas as beatas a alargar os passos com bíblias em capa de zíper em uma das mãos e sombrinhas floridas com varetas invertidas pela fúria do vento na outra; seguravam-nas tão firmemente - mais o livro que o guarda chuva - que dava a quem olhava, a impressão de preferirem morrer abraçadas aos pertences, caso fossem arrancadas do chão.

Perto dali, sobre o parapeito da velha ponte do ribeirão, o qual ocupara bom tempo da infância, o almirante-de-esquadra Igor Valle soltava os balbucios finais de sua vida triunfante atracada em Alabama do Norte, Estado de Viena.

Afogando-se em lágrimas e sentindo pena de si mesmo, ele caminhara até lá, em passos lesos, decidido a pôr um fim no martírio que o assolara a contar do dia em que, curioso, ele abriu aquela carta.

Incorporado no induto que o consagrara - uniforme de gala branco, apinhado de réplicas de insígnias douradas e o quepe de mesma cor, estrelado, representativo dos muitos anos de serviços prestados à marinha brasileira - passou a triscar a vigilância dos raros intrépidos que ainda enfrentavam as baixas temperaturas do inverno vienense.

Observava as estrelas - e não eram muitas - os fios de água escorrendo por entre os seixos, a brisa glacial roubando-lhe o calor da face e checava na mente, as reminiscências do árduo prélio conquistado.

Inerte, escutava o derradeiro murmúrio das águas a chocar-se contra as pedras e o assovio do mendigo - já carimboto, assaz rodado - que o cegara de ira tantos passados momentos.

A certa altura, na ponte, donde os raros intrépidos ocultaram-se, até as inscrições à tinta e no calcamento de lâminas - de dizeres açucarados, pra lá de cafonas - chamaram-no a atenção.

Com a emoção inundando-lhe as veias, a ele invadira pungentemente o anseio de verter lástimas. Então, fê-lo! Chorou de verossímil pranto, numa desilusão doída de presenciar.

Na irreversibilidade do inconformismo e na exaustão do afadigado arcabouço, posto que já havia por depauperar suas reservas lacrimais, ele pôs-se de pé. Em arranjo curvo toda aquela cidade pareceu anuviar-se. Assim, havia poucas razões para fazê-lo tirar de seu juízo a vontade de realizar um desejo mórbido, brotado em seu âmago de homem infeliz.

Sacou do bolso a carta, releu-a - ficando estático por átimos - olhou os lados e rasgou-a em pequenos pedaços, arremessando-os nas águas gélidas e correntes do ribeirão. Alguns ficaram retidos nas rochas, como se teimassem em esperar Igor, que viria sem mais tardança.

Pobres rochas! De tanto júbilo assistido, tingir-se-iam no dia presente, de escarlate; o sangue do ilustre homem - a contrastar com o verdejante musgo que por muito as embelezou - gotejava na altura do pescoço.

O corpo foi encontrado algumas horas depois por um casal que fora àquela ponte para namorar e certamente enriquecê-la com mais inscrições açucaradas, da mesma natureza das que presenciaram a morte do arguto nauta.

No dia seguinte, a notícia propagou-se rapidamente entre os moradores que, estupefatos, falavam daquele que teria sido o único suicídio registrado em Alabama do Norte.

ANO DE 1971
Alabama do Norte não constava no mapa, não fruía canais de televisão, nem tão pouco nome grafado nos catálogos telefônicos. Apenas existia! E se fazia orgulhosa pelo fato.

Recebeu o codinome de Cidade das Vinhas, devido ao único e sendo assim, mais importante sustentáculo econômico: a produção de uvas.

Exemplo fidedigno do regresso conservador. Suas vielas saxosas e buraquentas, compostas por casas que datavam do início do século, davam um ar barroco e um tanto pitoresco a tudo que se via.

Detalhes de escultores anônimos estampados nas fachadas, encerravam a moda que se arrastava por gerações. As ruas centrais de terra batida apresentavam-se estreitas e disformes. O transporte?... Um bondeco fechado, de estribos corridos e caleches - espécie de carruagem rústica de quatro rodas e apenas dois lugares, onde o carroceiro perfazia metade da tripulação - puxadas por eqüinos e muares. No lombo destes, sobre as albardas enchumaçadas de paina, translocavam os mais aventurosos.

Traços de modernidade escassos e notados em pitada na praça municipal, onde se podia encontrar um pequeno teatro - comumente utilizado para a realização de eventos comemorativos - uma livraria no estilo banca de jornal - onde se vendia de alguns livros raridades a condimentos para o preparo de iguarias da culinária regional - e uma fábrica de pães, agregada e fornecedora de matéria prima à tradicional confeitaria local.

Havia ainda uma vinícola, situada bem ao lado do coreto, o qual marcava as noites de sexta-feira com a apresentação do coral da igreja. Uma abnegação total de tecnologia e desenvolvimento.

Por outro lado, sua beleza natural era singular no Estado e a hospitaleira urbe só não fôra transformada em estância turística por questões políticas, pouco austeras, que fugiram da compreensão da carente população.

Apresentava como paisagem marcante, os extensos vinhedos com cachos monocromáticos a perder de vista entre as montanhas de terreno sedimentar, herança da cenozóica.

O clima predominante era o ameno no trâmite dos equinócios e solstício de verão, atingindo números de bater os dentes, no inverno.

Assaltos, roubos, latrocínios... Nem pensar! Um lugarejo pacato por excelência. O índice de mortalidade decresceu substancialmente nos últimos anos e as principais pestes foram erradicadas, graças a um rigoroso programa de controle dos vetores, o que serviu de base para a adesão e utilização nas cidades vizinhas.

A edificação de um posto de saúde passou a atender a população, outrora migrante a logradouros distantes a encontrar assistência médica.

Embutida, inerente e generalizada, a pacatez das criaturas pulsantes e inanimados, causava fobia nos mais irrequietos - “pouco românticos”, diziam - que apartavam-se do lugar à procura de uma vida mais dinâmica.

A cidade ia e vinha na discrição de um beija-flor em vôo de cópula, silenciosamente, consignando os episódios de relevância nos reboques do tempo, às alças da sociedade.

Nasceres e pores-do-sol inigualáveis. Como era ímpar a sua beleza natural! Ter-se-iam sido mais bem recomendados os poetas se ali tivessem passado umas férias ou uns dois dias que fosse. Inspiração não tardaria. Ah, se um Álvares de Azevedo, um Casemiro de Abreu ou um Drummond de Andrade fincasse o peito por esses arredores, nas meantes sinuosas, arrebatar-se-iam em vasto júbilo.

Não existia tipo de arrogância para com os que de alhures vinham. Havia hospitalidade. Um acolhimento imerso em altivez; um brio bastante aparente dos tantos orgulhos da pérola vienense, que polia seus heróis - anônimos, ao bem da franqueza - como ágatas cerosas.

Os horários daquela gente sucediam-se milimetricamente; o povo habituara-se. Uma moleza, encontrar as pessoas quando se queria; não se perguntavam uns aos outros: “Viu fulano?”. Sabia-se, com exatidão, o quando e o onde, como quem conhece a palma da mão.

Assim, o sol nascia às seis, impreterivelmente, fosse inverno ou verão, primavera ou outono. Se houvessem nuvens... Ah! Daí, ele não aparecia, mas aquela gente altaneira apontava o firmamento na exatidão do recôncavo estratificado.

Nesse arrimo, os mais idosos e os mais saudosos encontravam-se na pracinha, ao encanto do astro maior, às seis em ponto a se apoderar dos resquícios da vizinhança ainda não dominado pela vasta curiosidade. Na hora seguinte, mães - todas! - acompanhavam suas proles ao grupo; iam praticamente juntas. Bem à vontade no vestir - trapézios ao vento, bermudas largas de tecidos parecidos com tergal; as mais envergonhadas, mostravam-se de calça com no máximo um délavé para variar - Falavam muito o que por praxe já o tinham dito, o cotidiano avergalhado ou ainda, queixavam-se dos maridos, umas às outras; expunham as intimidades, os defeitos e anseios e, pelo mais, estender-se-ia muito a descrição. Era de se estranhar a única ausente desde a tomada do fiel ritual, a lhes fazer companhia certa noite, véspera de natal... Fora promessa!

Às oito, agora variando-se um pouco os minutos, as mesmas mães, solitárias ou com sua outra cria pouco mais nova, encostavam os lombos nos banquinhos e repunham-se a tagarelar, como se houvessem novidades; mas aquela gente tinha uma imaginação, uma criatividade! Sempre de olhos nos moleques, que pendulavam nos balancinhos suspensos nas figueiras a florir.

E corria deste modo, nesta toada, todos os dias, indiferentemente!

O encanto daquela gente não se explicava, nem sequer buscava-se entender. O fato é que, qualquer mortal que por ali apontasse, ao menos em parte, mudaria a faculdade das coisas.

Alabama tinha a lucidez das capitais, a sedução enigmática do litoral e a inocência involuta do interior; tudo junto em uma mescla nobre, diferente, altaneira!

Urbe dadivosa! Tomava forma na poesia de suas ruelas, na secularidade dos calçadões - por onde transitavam as mulas, os cavalos - não que fossem padrões de beatitude, é que, inexplicavelmente - não aos olhos daquela gente - havia algo de sublime no ar, algo mágico.

Em meio à atonia e ao marasmo, a anos-luz da desenvolução, duas pessoas em especial, estavam vivendo os seus dias mais desvairados e felizes. O filho que tanto esperavam - e já haviam intensificado esforços para tal - estava por chegar, para delírio do humilde casal de agricultores, que só faziam de suas vidas, trabalhar e trabalhar.

Com o raiar do dia Oito de Dezembro, sob espesso e irreparável azul celeste, veio ao mundo, de parto normal, a baixar a média geriátrica das estatísticas, o filho prodígio de Camilo e Samantha Valle, cujo nome foi previamente escolhido: Igor.

O nascimento foi comentado nas abas das cercanias, pelo fato de Camilo ser bastante conhecido, sobretudo admirado; um homem íntegro, de caráter límpido, sem máculas, um verdadeiro abaetê. Sufragava-se na aloucada honestidade dos homens de bem que descansam tranqüilos, com a consciência delgada, impelida pela balsa errante do passado árduo. Sua vida modesta confundia-se com a própria história do lugar. Ícone quando o da vez era uva.

A cônjuge, mulher briosa de passado farto - que perdera a herança dos pais por um contundente desentendimento com o irmão mais velho, dos sete ainda vivos - era exímia dona do lar, aos cuidados com os prestimosos afazeres e maestrina-soprano do coral da igreja. Exibia-se rotineiramente no coreto da praça municipal.

Samantha recebeu alta, quatro horas após dar a luz. O querubim viera robusto, com fios alourados cobrindo-lhe a testa, não tão estendido no comprimento e nos gestos; irradiava quietude.

Pelos cantos do posto de saúde, enfermeiras e auxiliares paparicavam; não ocultavam suas ânsias em colocar as mãos no recém-nascido.

A Camilo, o gabo dos outros ao filhote, muito o satisfazia, causara-lhe orgulho, mas depois de excessivo assédio, queria mesmo era voltar pra casa.

- Bebês são todos iguais! - disse a tomá-lo das mãos estranhas - Todos tem a mesma cara! Só adquirem beleza na soltura dos primeiros fonemas, na aparição dos primeiros dentes - determinava, com brevidade.

A incorporada família foi ter ao parco lar na companhia do obstetra - que por consideração a Camilo, fê-lo sem pestanejar - aproveitando carona com a ambulância do posto, que saía no pinote a buscar mais uma progenitora, preste a se extasiar. Dois nascimentos em um só dia! Para uma cidadezinha como aquela era um tanto raro.

- Não sabe João, o nome da segunda mamãe? - interrogou Samantha, em tom baixo.

- Não senhora! Pelo endereço, carece de ser encostado a Septória, pelas bandas da desembocadura do ribeirão - supôs o motorista.

- Daqui não há de ser... Senão, saberíamos! - atalhou Camilo.

O pequeno Igor, trajando um macacão amarelo com capuz e laços, repousava nos braços do pai, no assento frontal da diligência e resistia em sono profundo aos solavancos por ela, dados.

A mãe guardou o banco traseiro com o médico. Estava ainda um pouco tonta pelo esforço feito. Mesmo assim, não perdera a atenção no marido a carregá-lo levezinho.

- Garotão formoso, hein Seu Camilo! - comentou o motorista, pondo-se mais próximo a apreciá-lo.

- É, João... Este aqui veio como uma dádiva!

- Verdade!... - concordou o moço, sem entender o significado do adjetivo usado.

- Ele há de ser o maior viticultor do Estado de Viena!... Ah, se há!...

- Se puxar ao pai, não tem do que duvidar...

- Já tenho traçado os planos para o futuro dele. Irá estudar para adquirir cultura e no meio tempo vai me ajudar na roça...

- Desculpe a intromissão, Seu Camilo, mas... Pra que a pressa? - perguntou jeitosamente, o homem.

- E quem falou em pressa! Num mundo como o de hoje João, isso se chama previdência!

- Aí o senhor tem razão! - disse o moço, mais uma vez sem saber com o quê.

A residência dos Valle dotava de simplicidade; a fartura em espaço abrandava a má impressão. Os quartos demarcados por paredes que mais se assemelhavam a muros, altas e sem fino acabamento, eram amplos e em número de quatro; a sala, como cartão de visita, não devia muito ao restante dos cômodos... Em espaço!

O jardim frontal à janela que dava para a sala era escasso em aquarela e muito mal cuidado, abandonado até. Tomavam conta, as trepadeiras invasoras, enrolando sobre os caules podados de roseiras e camélias, como se pudessem rebrotar; não tinha porquê - os meristemas já secos eram fósseis do passado. Este envergonhava Samantha das vizinhas. Camilo não ligava; teclava sempre no dito popular do ferreiro com o espeto de pau.

No fundo, um quintal de piso mesclado entre o cimento e a terra escura a se confundir bem na junção. Ao lado do pomar - havia pereiras, laranjeiras, tamarindeiros e aboboreiras bastante nutridas, visto que o chorume das pocilgas ali escorrido, fertilizara o solo - ficava uma casinha de forro que abrigava Pedro - braço direito de Camilo na lavoura, parceiro nas infindáveis jornadas dos tratos com as videiras - e Judite, sua companheira. Daí em diante, tudo o que regia eram videiras de niagaras e verdes.

Ao chegar, a mãe seguiu às primeiras providências - aquecer a água para um banho mais minucioso, estalar o lacre do pacote de fraldas; escolher entre três, o talco a ser pulverizado na alva tez... - e o querubim mostrava-se indiferente aos enfeites de bichinhos nas paredes e penduricalhos que pendiam das vigotas da laje recém construída.

O pai, na sala, aguardava a visita dos famigerados pervincos que viriam de longe para saudar o novo herdeiro.

Sr. Trajano, dono da vinícola e velho comparsa de Camilo, mandara um ramalhete de tulipas brancas, uma caixa de charutos cubanos e um cartão de felicitações pela chegada de Igor.

Assim, o pai acendeu um charuto, cujo perfume de mel preencheu o ambiente.

Mais a mais, o som do Cadilac 59 foi por ele - e por muitos outros - ouvido no topo da ruela esburacada. As famílias Valle e Rositto chegaram coladas. A primeira de caranga e a segunda de caleche-taxi. Ambas vieram quase completas.

Sofia, a outra representante feminina entre os irmãos Rositto, não comparecera por adoecer na véspera, porém marcaram presença os avós paternos Isaura e Ulisses, os tios Clésio (esposo de Sofia), Albano, Moser e Marcos, além do primo Franco, até então o caçula da estirpe milanesa - moleque endiabrado que não se continha em apenas retirar as coisas do lugar. Então, destruía-as. Nada escapava à sua ausência de tenuidade.

Um descuido apenas e o vaso de cerâmica pintado à mão por Samantha, encontrou-se com o assoalho.

- Olha o que você fez, seu capetinha! - censurou brandamente a mãe, dando-lhe um suave tapa na mão carnuda e abaixando-se para juntar os cacos.

Mais que depressa, Camilo pediu a Pedro que corresse até o depósito - uma pequena adega de rochas basálticas, incrustada entre a dispensa e o porão subterrâneo - e trouxesse um garrafão do melhor de seus vinhos - fabricado com uvas especiais de entre safra, colhidas na própria fazenda - para brindar o acontecimento.

- Traga também alguns comes da cozinha - acrescentou o patrão, apresentando-lhe os parentes.

- É um imenso prazer!... Eu volto já, patrão - e saiu, ligeiro.

- Onde está Igor? - perguntam concomitantemente os avós, como se tivessem ensaiado.

- Samantha o está preparando para que possam conhecê-lo - respondeu o anfitrião.

Entre desavergonhados goles de vinho e não menos ávidos avanços nos petiscos, parentes e amigos - que chegavam aos molhos - foram se acomodando e aguardando ansiosos, o momento do encontro.

Uma gestante tardia - conhecida de uma vizinha, que contou da nascença para Jéssica, que comentou com Alicia, que não pôde deixar Tereza de fora - num invólucro róseo, grande e confortável de poás amarelas, comprimindo suavemente o sobre-umbigo, parecia aguardar uma prévia gratuita do relacionamento entre mãe e cria. Petiscava por dois. “Engordara bem mais que os novecentos e cinqüenta gramas por cada mês de prenhez”: comentavam.

As Donas in loco não muito íntimas da turma dos Valle agiam a aglutinar bisbilhotices, mexericos, coisa e tal. Infames! Mulheres de alma vendida. Os próprios narizes não lhes eram avaliáveis. Abasteciam-se nos percalços, nas desgraças e nos fatos privados dos alheios.

A mamãe e o pequeno surgiram quando a primeira bateria de piadas e anedotas findava, pondo os ouvintes aos sinceros contentamentos através da sinfonia de gargalhadas.

Confuso e assustado - o barulhoso ruído causado pela presença de tanta gente, causava-lhe desconforto; o bebê alternava expressões de riso e espasmos de choro pelos minutos que se sucederam.

Os membros da linhagem entregaram à mãe, seus mimos, cada qual acompanhado de um carinho forrado de criatividade.

Clésio deu a Samantha uma pulseirinha de ouro dezoito quilates, encomendada por Sofia. Esta continha seu nome cheio, gravado ao lado do primeiro do bebê, em letras itálicas, normalmente um adereço simbólico da intenção de assumi-lo como afilhado - pelos menos em Cidade das Vinhas.

Lembranças devidamente endereçadas, estômagos satisfeitos, corujisse generalizada, bebidas e mais bebidas...

Igor passou de colo em colo, seguidamente, até padecer em sono profundo. Remotas foram as chances de mantê-lo ativo ou em estado de vigília. O assédio era tamanho e apesar do bem querer dispensado com o pimpolho, Dona Iracema, uma vizinha da família, alertou Samantha para os benefícios da benzedura com água do próprio banho e réstia de alho porro:

- Remove os quebrantes e traz boa nova. Promove a paz interior - afirmou com incisão.

Os confinantes do bairro chegavam de pouco em pouco, entupindo a sala. Os mais humildes, presentes não traziam; participavam com preparados culinários dos bem variados: sanduíches de pernil, torta de batata, broa de milho, olho de sogra, entre outros doces que acompanharam o vinho e supriram o desfalque dos tira-gostos arrematados com voracidade.

E assim brindaram por diversas vezes, a cada suspiro, gesto ou olhar aturdido do garotinho. Tudo era motivo para a solenização da data.

De repente, fez-se um silêncio pasmado. Os convidados notaram a aproximação de um homem de estranheza brutal aos pervincos - não aos vicinais - que adentrara pela casa, transpondo o extenso corredor sem provocar um só ruído.

- Ba nôte, gente! - saudou-os com transmissível alegria.

- Boa noite, Rede! - respondeu Camilo, circundando os olhos na direção da porta de entrada.

Redengardo era um mancebo doente da cachola - não se atrevia onde o sol ou a lua iluminava; até raiz criara dentro de casa e por isso, não era reconhecido pelos moradores mais novos - um louco de pedra partida que adquiriu insanidade mental por causa de um atroz desencontro, ou melhor, encontro do destino.

Ainda nos primeiros períodos da universidade recebeu por merecimento próprio, uma bolsa de estudos, dando-lhe o direito de completar o curso de engenharia nos Estados Unidos.

Não guardando reincidência no pensamento, arrumou as malas e zarpou. Lá, conheceu uma linda mulher que o acolheu e o influenciou com destreza. Apaixonou-se, casou-se e foi prontamente apunhalado nas costas pela futura mãe de seus descendentes. Perfídia! O terceiro vértice do triângulo?... Seu professor de inglês, único amigo na terra distante.

Laborava em uma reputada clínica de manipulação de produtos homeopáticos e saía-se muitíssimo bem, embora o cargo em nada tivesse a ver com a profissão de engenheiro eletrônico. Rede era por lá, tido como um exemplar funcionário de atenção meticulosa aos clientes do ponto.

A fatídica cena foi presenciada por suas céticas retinas, sob a evolução clássica de um marido traído em sua própria cama, numa tarde de outono, ao retornar mais cedo para casa.

O adultério só não ficou consumado, por Redengardo não reunir condições de levantar-se ao sofrer in situ, um colapso nervoso.

Trágico?... Sim! Um autêntico bum na cabeça do desafortunado ser. Mas o pior ainda viria.

Voltando ao Brasil, mais precisamente à Cidade das Vinhas, Redengardo seguiu direto ao enterro dos pais - ilustres fundadores da Escola de Padres de Papua Lima, a primeira do Estado - que perderam a vida em um incompreendido desastre de automóvel.

O cortejo se arrastou da praça ao cemitério e Rede teve de ser levado ao hospital da Capital, em estado de choque.

A contar daí, nunca mais se recuperou. Passou a viver com sua irmã caçula que integrava o coral da igreja, juntamente com Samantha. Abdicou da mulher, da Engenharia, da botica, do estrangeiro, dos sonhos. Os amigos deram-lhe as costas. Só não desistiu da vida, por amá-la incondicionalmente e por agora lhe restar apenas ela e sua generosa mana como companhias.

- Fique à vontade, meu rapaz! - articulou Samantha, apresentando-o aos familiares.

Não tinha menos idade que Camilo, mas comportava-se como uma criança de uns nove ou dez anos: ato reflexo do conturbado passado.

No momento, não exercia nenhuma atividade: não trabalhava, nem estudava. Não se divertia, não se relacionava... Era um come-e-dorme de lascar.

Ao menos se continuasse a lecionar violão clássico aos muitos interessados! Rede era mestre supremo dos arpejos. Autodidata no tocar e refinado na arte de compor melodias para todas as gerações. Em tempo anterior ao trauma, almejava sacudir multidões em praça pública, com suas fantásticas criações.

Camilo apanha ao rapaz, uma caneca plena de refrigerante, pareada com outras tantas por começar, abandonada sobre a mesa de centro.

Pedro ofereceu-lhe torta de batata e seguidamente, alguns bombons da caixa que a esposa ganhara de um dos irmãos. Afinal, o coitado não desgrudou o olho da guloseima, um mísero instante.

A comemoração invadiu a madrugada e foi reprisada mais adiante no segundo rito de passagem: o batizado de Igor, que contou desta vez com a presença da madrinha Sofia, recuperada por hora, da terrível moléstia.



SONHOS, CONTENDAS E DESCOBERTAS
Oito anos se passaram e Igor - menino franzino de pele e cabelos claros - apresentava traços mais evidentes de semelhança com os pais, embora se parecesse mais com a mãe. Pirralho afortunado! Camilo, além de suficientemente rude, era feio de arder, enquanto Samantha - pouco mais de trinta anos - corpo esbelto, altura mediana e olhos de jabuticabas, arrancava respeitosos suspiros da ala masculina pelas ruelas onde transitava.

Às portas da nova década e do estabelecimento do último governo militar da pátria mãe gentil, Camilo e Samantha seguiam rotina diária de assaz faina e zelo por Igor, que ainda não se aventurava em nenhuma atividade agrícola praticada pelo pai. Dedicava-se exclusivamente aos estudos.

Cursava o segundo ano primário do Colégio Municipal Cecília Meirelles e era, ao lado de Cristino - amigo inseparável - o melhor aluno da classe. Um gênio! Bastante superior aos de mesma idade que dividiam com ele a sala de aula. Falava bem, escrevia melhor ainda. Mantinha em seu vocabulário, palavras engajadas e concordâncias exatas para os verbos e predicados.

Portador de uma anomalia rara, causadora de constrições nos vasos cerebrais, sofria fortes dores de cabeça, o que às vezes chegavam a lhe causar terríveis alucinações. Estas só controladas com a administração de medicamentos tarja preta.

A doença o impossibilitava de participar de atividades esportivas, bem como das aulas de educação física, tão importantes para crianças de sua idade, limitando-o a viver aquém do convívio social.

Com o intuito de não abrir uma lacuna em sua grade de horários semanal, Sr. Ramires - diretor da instituição de ensino e admirador incondicional do pequeno gênio - deu-lhe a incumbência de monitorar a classe, em sentido real, de ser o dedo-duro dos companheiros. Ficara ainda responsável pelo estabelecimento de frentes de estudo, recolhimento dos trabalhos disciplinares e paralelamente, pela organização de um grupo de teatro infantil, o primeiro em sua cidade.

À causa das diferenças comportamentais, Igor foi durante bom período, vítima de discriminação por parte dos colegas. Sendo um aluno merecedor de cuidados especiais, era sumariamente excluído de qualquer atividade extraclasse, por eles realizada.

Perspicácia e assiduidade eram entre várias, características que o diferenciava da maioria dos discentes da instituição, pois aprendera desde cedo o valor da comida na mesa e da cama sempre quentinha.

Possuía um jeito inconfundível de caminhar - com os pés voltados para dentro e as pernas brandamente arqueadas - o que lhe rendeu algumas boas alcunhas, como “cata folhas” e “cambaio” e isso, muito o incomodava.

Durante anos, o garoto sofreu muito. Ao invés das quadras, a biblioteca. Lia tudo sobre a história do Brasil, os folclores, os heróis nacionais, as lendas, enfim, o sentimento patriótico principiou a fluir em seu peito infantil. Cristino era seu único aliado. Usava óculos fundo-de-garrafa, aparelho corretivo nos dentes e sofria de obesidade. Nada muito preocupante, mas o fato também o excluía das rodas e das aulas de educação física.

Politicamente correto, o patrasama era o filho o qual todo pai sonhava. Perdeu a mãe por uma infecção hospitalar generalizada, quando ainda nutria-se de seu leite. Entendia como poucos dos afazeres domésticos: lavar, passar, cozinhar...

O pai realizava bicos de carpinteiro, o que lhe rendia metade do orçamento mensal. A outra parte, advinha da boa mesada enviada todo mês por um rico irmão de criação, radicado na capital, que fôra abandonado pela trupe biológica e acolhido com louvor pelos pais do velho Saulo.

Igor e Cristino jamais revidavam as agressões verbais por eles sofridas, pois sabiam bem, na matemática, o peso do dois em relação a dezenas. Eram adeptos do diálogo, dos ideais pacifistas; ligados às peias moralistas.

A completa falta de popularidade desencadeou em Igor certos traumas e complexos, tolhendo ainda mais o convívio junto à sociedade. Por bom tempo, aderira à pura misantropia dos renegados da vida. Chegou a empunhar-se de arma branca - estilete que o próprio construiu - para se defender dos que insistissem em toma-lo. Não chegara a usar; apenas manteve-o o como precaução.

Modelo de aluno aplicado dividia com Cristino as maiores notas da classe, fato o qual despertava inveja nos colegas que apesar de muito estudar, não alcançavam o êxito esperado e aproveitavam para descontar suas mágoas no despojado guri.

Em data festiva, durante a execução do hino da pátria, os da pá virada davam ares de sarcasmo quando tomavam-no do sério; sabiam que não suportava zombarias diante de símbolos nacionais quais fossem a chagar o seu nacionalismo; perdia a calma. Com a mão espalmada sobre o peito, girava o pescoço a mudar o ângulo de visão; desatava a suar. Cris a fitá-lo com olhos apaziguadores, interferiu mais uma vez.

Mas Igor, como iluminado cérebro de sua geração, entendia a vida como uma imensa balança de gôndolas inconstantes que seguem alternadas para buscar e gerar o equilíbrio de suas partes constituintes. Pensava com ares otimistas: “um dia, as coisas hão de mudar”.

Exauria-se por empoçar incompreensão dos que o cercavam, exceto dos pais, portos mais que garantidos, donde provinha toda a força necessária à vida.

Escumava entre os caninos - pelos cantos - a incerteza verdejante da solidão, da introspectividade; sangrava a ira dos desfavores - embora houvesse nisso, o pólo favorável: sofreava-lhe a polidez.

Nesse contexto, o que os dias, meses ou anos subsequentes reservavam aos fieis amigos, ninguém em sã consciência afirmaria, mas a percepção de linces, faria-os enxergar uma aurora reluzente, de certo vindoura a ambos.

- Igor é o maior! - gritavam eufóricos os ex-rivais - Hei campeão: por que não vai ao baile conosco esta noite? Vai ser bacana!

Desta feita, ao cobrir com trevas o céu, todo o pessoal do colégio estava reunido em frente à sua casa, de onde gritavam:

- Vamos! O baile nos espera.

Até Jenifer, a garota mais paquerada da cidade - inclusive platonicamente por Igor - estava entre os clamantes. Então, ele mostrou-se, envergando uma calça branca listrada de preto, camisa de linho azul marinho e sapato de verniz bicolor combinando com a jaqueta de couro preta, que pusera nas costas para incrementar o visual.

Sem hesitar, Jenifer o apanhou pelo braço e seguiram fulgurantes para o baile.

Lá, os bons camaradas adentraram e propalaram-se no salão abarrotado de mesas engalanadas com flores - na maioria, rosas e gérberas, porém havia ainda, estruturas de clorantáceas, harmonizando as cerâmicas côncavas, num estilo bem art nouveau - baldes de gelo e castiçais com velas padrinhas.

Músicas soavam ecléticas. Os ritmos iam do jazz norte-americano às consagradas marchinhas folclóricas, tão presentes nas noites carnavalescas dos grandes centros urbanos.

Igor concedera à Jenifer - ou, mais precisamente o contrário - várias danças, uma pós a outra.

Vira pra cá, muda pra lá! Entre pisões nos pés e performances inatas, esbaldaram-se na roda armada.

Extenuados em demasia pelas valsas seguidas bailadas, deslocaram-se a um pórtico bastante amplo, iluminado por centenas de micro lâmpadas amarelas, e juntos, contemplaram a lua cheia e o firmamento recamado da noite de primavera.

Por ali, despertou em Igor a vontade de crescer, de ganhar sua independência e ser notado... Ah! Como esse era um sonho almejado!

De um em um, que sobrevinha a farrear, o molecote chalrou aos montes, em plenipotência e pesadume de encanto. Embora escasso, esse era o momento da perfeita contumácia do tempo: a redenção para com a chusma de cépticos.

Ao pé do ouvido, suspirava devaneios poéticos, absorvidos sem desperdício pela musa dos seus sonhos.

Acolhido pelos antigos malfeitores, ele gozava agora de um estado parco, no entanto especial e se embrenhava em termos singulares, a fim de fazer daquela, o prólogo de uma nova caminhada.

Inchada das apologias, Jenifer prefaciou a explorá-lo com pupilas cintilantes que por si só, caprichavam insinuações sem a devida tradução, naquela sinaleira da juncada.

Toneladas de sentimentos fluíram do peito virgem. Respiração em polvorosa e alguns míseros centímetros a vencer, e se bem quistos, trariam o sopro da brisa mística ao túrgido sonho sepultado.

O radiante manteve-se em posição de bote até o limiar da timidez birrenta, quando enfim, trouxe-a para junto de seus braços, cerrando as pálpebras e umedecendo os lábios trêmulos a encostar-se à glória.

Nesta refutação, às margens da consumação do ato, Igor escutou um som se repetir segundos e mais segundos, eloqüentemente, cada vez mais próximo. Em meio a pesarosas confusões mentais, o mancebo caiu em si, como se despenca de um abismo: o despertador! Ancorando-o de um dos sonhos mais incríveis que tivera.

Esticou o braço faltante em pano e com a ponta dos dedos, livrou-se da irritante campainha. Suava. Em alto grau. Mas era de raiva!

Sob efeito da ilusão subconsciente, sentou-se à beira da cama e tateou o piso, catando o chinelo de dedos que calçou por cima da meia, mesmo. Levantou-se, injuriado e caminhou pelo quarto semi-iluminado por um abajur de cabeceira - o qual ganhara de sua madrinha Sofia. E não dormia no escuro. Não por temor, mas por hábito - deixando na passagem, um chute alto no batente da janela, como extravasamento da ira doída.

- Meu bem! - sussurrou Samantha no ouvido do marido - Acorde. Igor já está preparando o café.

Era ele quem preparava o café todos os dias para os ancestrais. Não lhe fora imposto, era desejo próprio.

Em poucos minutos, a mesa estava posta sobre a toalha xadrez de cantina italiana, impecavelmente distendida.

Havia leite de cabra - contido no mesmo bule que fôra esquentado - pão sírio com sementes de gergelim, queijo fresco, doce de leite, manteiga de barra caseira e café quentinho, além do tradicional e delicioso bolo de fubá, que de tão perfumado, aguçava o paladar da vizinhança, todas as manhãs.

Ao sentar-se à mesa, Camilo, ainda com o rosto estriado pelas dobras do lençol, disse:

- Sabe gente: a safra deste ano superou minhas expectativas. Se o dinheiro for suficiente para pagar nossas contas e ainda construir um estábulo novo para as vacas leiteiras, nós poderemos comprar uma televisão em cores.

- Hurra! - bradou o magricela, incontido - Daí, eu poderei convidar o Cris para assistir aos filmes de bang-bang aqui em casa.

- E sua mãe vai poder assistir à novela que tanto acompanha, sem os fantasmas que estragam a imagem.

Samantha não comemorou. Parecia não se importar com a notícia. Seguiu cortando um pedaço de bolo, com a cabeça em outras redondezas.

Privam-se as falas e à expressividade, algumas palavras não muito oportunas certamente sairão da boca da moça, assim que o pedaço de bolo ultrapassar sua garganta.

- Por falar em fantasmas, eu tenho te achado meio estranho, ultimamente. Parece estar apoquentado ou coisa assim... - articulou, a mãe ao garoto - Você está com algum problema no colégio?


  • Não! Impressão sua! - respondeu Igor, fugindo do olhar arguto.



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