A construçÃo do cotidiano nas fotografias



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MEMÓRIA ICONOGRÁFICA DO CARNAVAL VALEPARAIBANO

Eliane Freire de Oliveira1

Francisco de Assis2
Universidade de Taubaté

Resumo

Uma das mais tradicionais e antigas festas populares, o Carnaval foi introduzido no Brasil no século 18 e, desde então, caiu no gosto dos brasileiros. No Vale do Paraíba, interior do estado de São Paulo, as manifestações em torno dessa festa fazem parte do calendário de várias cidades e a imprensa regional participa intensamente do registro desse acontecimento. Este estudo analisa o conteúdo fotográfico da cobertura do Carnaval realizada pelo maior veículo impresso regional, o jornal ValeParaibano, nas últimas três décadas. Tem por objetivo compreender as transformações sociais e culturais características do evento popular, revisitando a trajetória de um jornal de grande abrangência em sua busca por expressar a dicotomia: cultura regional versus mercantilização das tradições populares. Para tanto, observa aspectos quantitativos e qualitativos da disposição e publicação de imagens sobre o Carnaval na região.


Palavras-chave: Carnaval; jornal impresso; cobertura fotográfica; ValeParaibano.
Introdução

Originado na antigüidade, o Carnaval se tornou uma das festas populares mais preferidas entre os brasileiros, que aproveitam os dias que antecedem a Quaresma para comemorar com alegria e descontração. Por se tratar de um evento de grande repercussão e que envolve diversos setores da sociedade, a imprensa não mede esforços para noticiar os acontecimentos em torno desse festejo.

No Vale do Paraíba Paulista essa manifestação ocorre há várias décadas com características próprias que, mesmo com o passar do tempo, resistem à mercantilização da cultura popular. Nesse contexto, cada cidade da região mantém particularidades na celebração do Carnaval, como a tradição dos blocos e clubes em São José dos Campos, os suntuosos desfiles de escolas de samba em Guaratinguetá ou a comemoração de rua em São Luiz do Paraitinga, que também contempla o tradicional festival de marchinhas carnavalescas.

Ao assumir o papel de maior veículo impresso da região, o jornal ValeParaibano – periódico que circula desde 1952 – se tornou um dos principais responsáveis pela divulgação dos assuntos referentes ao Carnaval do Vale do Paraíba e também arcou com a responsabilidade de reforçar a identidade da cultura regional. Um dos caminhos para realizar essa tarefa é a construção de uma memória iconográfica.

Por isso tudo, este estudo tem dois objetivos. O primeiro deles é revisitar a trajetória do ValeParaibano, apontando suas principais características ao identificar os motivos que levaram um pequeno jornal criado em condições precárias a se tornar um jornal de grande abrangência. O segundo objetivo se volta para a observação de como a imprensa regional pode contribuir com o registro da história a partir da cobertura fotográfica de determinado acontecimento – neste caso, das festividades do Carnaval.

Os recursos metodológicos que compreendem a investigação se apóiam, principalmente, nas pesquisas bibliográfica e documental. Além disso, aspectos quantitativos e qualitativos são levados em conta para uma maior fidelidade aos resultados da leitura das fotografias publicadas nos dias que antecedem e sucedem o Carnaval durante as últimas três décadas.

Esta pesquisa colabora com o Núcleo de Pesquisas e Estudos em Comunicação (NUPEC – Mídia Regional), vinculado ao Departamento de Comunicação Social da Universidade de Taubaté, que trabalha no resgate da história da imprensa do Vale do Paraíba, por meio da coleta de depoimentos, registros, documentos, além da análise do material divulgado pelos veículos impressos e eletrônicos da região.
A trajetória do jornal ValeParaibano

O ValeParaibano tem um aspecto histórico interessante: o atual veículo impresso de maior tiragem de São José dos Campos e da região do Vale do Paraíba, com circulação em mais de quarenta municípios paulistas, começou singelamente numa cidade vizinha, a pequena Caçapava.

No início, o fundador do veículo, Francisco Pereira da Silva, conhecido como Chico Triste, conseguiu montar o jornal graças à contribuição do gráfico Rubens Lencioni que, naquele início dos anos de 1950, aceitou o desafio de editar um semanário que divulgasse apenas notícias caçapavenses.

Um estudo realizado sobre a história do jornal3 identificou a postura do co-fundador, que a princípio se mostrava temeroso em se aventurar no empreendimento. No entanto, em artigo publicado no ValeParaibano em 30 de novembro de 1994, o gráfico linotipista Rubens Lencioni demonstra sua admiração pelo êxito que o jornal conquistou ao longo de décadas:

As pessoas desavisadas que transitavam pela rua Capitão João Ramos, lá pelos idos de 1952, em Caçapava, olhavam para aquela exígua sala e viam uma impressora tipográfica, um conjunto de móveis em ínfimo espaço físico, sem instalações sanitárias, apenas com um lavatório, nunca poderiam imaginar que, naquele local, estava sendo plantada uma sementinha que, num futuro próximo, daria origem a um dos maiores representantes da imprensa escrita do Vale do Paraíba, Litoral Norte e Sul de Minas: “O ValeParaibano”. [...] Nesse terreno fértil, o diário ValeParaibano surgiu para preencher uma lacuna na imprensa do Vale, necessitando de um jornal de grande penetração no nível dos conhecidos matutinos paulistanos. Estão de parabéns pelo sucesso alcançado, o jornal e seus dirigentes, São José dos Campos – a capital do Vale – e por extensão toda essa região, mas se esquecendo daquele que preparou a terra e semeou, visando o futuro, o jornalista “Chico Triste”.4
A primeira edição do ValeParaibano circulou em Caçapava no dia 6 de janeiro de 1952. Na ocasião, o gráfico Lencioni trabalhou a madrugada inteira para na impressora para que o jornal estivesse pronto para ser distribuído naquele domingo.

O material foi rodado em uma impressora alemã da marca Bremensis, adquirida pelo alagoano Chico Triste. Como não sabia operar a máquina, o policial militar aposentado pediu que o aprendiz de linotipia o ajudasse na tarefa de dar forma ao jornal semanário, de quatro páginas. Lencioni, por sua vez, inexperiente no campo jornalístico, tentou argumentar com Chico Triste para que ele abandonasse a idéia, já que na época as gráficas confeccionavam jornais como serviços extras e não sobreviviam exclusivamente para isso.

Idealista, Francisco Pereira da Silva não desistiu de seu objetivo, mas concordou em contar com o apoio de Lencioni apenas nas horas de folga que o rapaz dispunha quando saía da gráfica onde era funcionário. Chico Triste elaborou toda a pauta, preparou os textos e aguardou o gráfico montar o jornal inteiro, letra por letra, coluna por coluna, página por página. Depois de várias provas, estava pronta a primeira edição do ValeParaibano, com tiragem inicial de 500 exemplares.

A partir de 6 de janeiro de 1952, todos os domingos uma nova edição saía da gráfica. Chico Triste escrevia os artigos, era diretor e editor do jornal, mas contava com a colaboração de outros caçapavenses: Antônio Zanetti, que escrevia os artigos esportivos; José Mansur, que publicava poesias sob o pseudônimo de Mansur Nasser; o advogado Antônio Pereira Bueno, responsável pelos textos sobre política; e o engenheiro agrônomo Wady de Oliveira, que ocasionalmente escrevia artigos sobre tratos na lavoura para os produtores rurais de Caçapava.

Rubens Lencioni comandava uma equipe de quatro tipógrafos, que operavam a impressora e compunham as quatro páginas do jornal. O trabalho comandado por Lencioni era extremamente técnico e exigia improviso em algumas situações. Os espaços entre as colunas eram medidos com barbantes, para acondicionar perfeitamente os tipos dentro das páginas.

Feito em papel imprensa no formato 66x96 cm, o jornal tinha assinantes e patrocinadores locais. Os clichês das fotos e das propagandas eram feitos em São Paulo e se o clichê não coubesse no espaço a ele reservado, prejudicando a montagem do jornal, o linotipista não se preocupava, pois mantinha uma serra na mesa de trabalho e, quando necessário, recortava com ela os clichês e tipos que ultrapassavam as medidas das páginas.

Hoje em dia, com os modernos processos de diagramação informatizada, tal recurso pode até parecer arcaico, mas foi dessa realidade que sobreviveu o ValeParaibano em Caçapava durante dois anos. Em fevereiro de 1954, Lencioni deixou seu emprego na gráfica para se dedicar exclusivamente ao jornal e se tornar sócio de Chico Triste. Mas a sociedade durou pouco. O idealismo foi suplantado por dificuldades financeiras e o gráfico desistiu da sociedade.

O último exemplar a circular em Caçapava foi a edição número 132, de 1º de agosto de 1954. Com a sociedade desfeita, Rubens Lencioni ficou com os equipamentos de impressão e montou a Gráfica Dom Bosco. Chico Triste, por sua vez, resolve dar continuidade ao jornal e o levou para ser impresso em Taubaté, já que nessa época contava com 400 assinantes e o jornalista não queria encerrar a vida do periódico, apesar das dificuldades.

Em Taubaté, Chico Triste iniciou uma sociedade com um mecânico de linotipo de São Paulo chamado Ciro Testa. A partir daí, o ValeParaibano começou a ser rodado numa impressora japonesa, extremamente barulhenta, o que acabou por incomodar os moradores da rua onde a nova gráfica havia se instalado.

No início de 1955, Chico Triste se viu obrigado a transferir novamente seu jornal, dessa vez para São José dos Campos, e pouco tempo depois afastou-se definitivamente da direção do semanário. O linotipista Ciro Testa contraiu sociedade com Joacyr Beça e Edvar Simões para adquirir uma nova máquina alemã de linotipo que imprimiu edições diárias do jornal. Entretanto, esse seria o período mais difícil da existência do veículo, que não conseguia anunciantes e vendia poucos exemplares nas bancas.

Mesmo com a situação financeira complicada, o ValeParaibano foi vendido, em 1958, à Rádio Clube, do Grupo Bandeirantes. O jornal adotou o perfil do Vale do Paraíba, autodefinindo-se como veículo de cobertura jornalística regional. Entretanto, tal definição não se estampava nas notícias, sendo a maioria da publicação feita com informações locais.

Com tiragem média de dois mil exemplares, o jornal circulava com seis páginas durante a semana e com oito aos domingos. Em São José dos Campos, o jornal desenvolveu-se e publicou edições extraordinárias durante a revolução de 1964, que se esgotavam rapidamente nas bancas. No início da década de 1970, a direção do jornal já fazia planos para imprimi-lo em off-set, mas, em 1974, o Grupo Bandeirantes de Rádio e Televisão decidiu vender o impresso aos empresários Ferdinando Salerno e Aquilino Lovato.

Novos investimentos foram realizados para impulsionar o crescimento do jornal. Em 4 de dezembro de 1977, o jornal é impresso pela primeira vez em rotativas próprias no sistema off-set. O fato foi comemorado com festa, mas os problemas ainda continuaram, como falta de infra-estrutura para a impressão, insuficiência de mão-de-obra especializada, dificuldades de transporte e distribuição do jornal. Os proprietários do jornal, então, decidiram enfatizar o aspecto regional do veículo, com base no idealismo de que o jornal, por meio da informação, refletisse a identidade do Vale do Paraíba. A partir daí, o ValeParaibano se tornou o porta-voz da região.

Com a modernização, o jornal chegou aos anos 1980 com certa estabilidade e seu parque gráfico foi finalmente construído. No dia 2 de abril de 1989, o ValeParaibano atingiu a marca de 10 mil edições, circulando com tiragem de mais de 50 mil exemplares, com 38 páginas e atingindo a 41 municípios do Vale do Paraíba, Sul de Minas e Litoral Norte de São Paulo. Nessa edição o jornal contou sua própria história em ampla reportagem publicada nas páginas centrais.

Na década de 1990, o jornal se consolidou como o maior veículo, não só da cidade de São José dos Campos, mas também de toda a região e já podia ser encontrado em algumas bancas da Capital Paulista.

O ValeParaibano rompeu o ano 2000 em constante atividade e destaca-se na imprensa regional como jornal de referência, não apenas para a população, como também para os demais veículos de comunicação, que, muitas vezes, se pautam com base em seu conteúdo. Ao completar 50 anos, em 2002, publicou um especial de 28 páginas que narra toda a sua trajetória e aponta sua influência no Vale do Paraíba.

Atualmente, publica cadernos variados e voltados para diversos públicos. Além disso, costuma publicar suplementos especiais em comemorações e outros eventos de destaque. Conta com cerca de 60 funcionários na redação e nas sucursais, centenas de assinantes e é o preferido em todas as classes sociais, faixas etárias e grau de escolaridade no Vale do Paraíba, conforme apontou uma pesquisa do Ibope em setembro de 2001.
Uma festa popular

Ao que tudo indica, o Carnaval é uma das festas mais antigas da história. De acordo com Sebe (1986), suas raízes remontam à antigüidade egípcia, quando o povo se reunia para homenagear a deusa Ísis, protetora da natureza, para agradecer a vida e o período das colheita, que abriam o ciclo anual.

Na Grécia e na Roma antiga também se promoviam comemorações semelhantes a dos egípcios. Porém, as festas não eram apenas cultos prestados aos deuses e voltavam-se para um aspecto carnal, ou seja, era comum nessas ocasiões a prática de bacanais ou outros ritos que marcassem a mudança da rotina.

As bacanais, lupercais e saturnais poderiam ter sido algumas variações da festa carnavalesca. Suas celebrações implicavam a existência de rituais libertadores das atitudes reprimidas e abrigavam a extroversão, a permissidade, prevalecendo “o tempo dos vícios”. (SEBE, 1986, p. 11)


Esse período de oposição à rotina diária é o que dá suporte às definições de “sagrado” e “profano”. Sebe o chama de “tempo extraordinário” e cita que, em determinados trechos da História, o Carnaval era considerado como sagrado, uma vez que era pensado como a interrupção da luta diária com o objetivo da conquista de um “espaço utópico”. (idem, op. cit., p. 16)

Percorrendo a história da humanidade, ainda é possível encontrar celebrações próximas ao Carnaval de hoje em dia nas culturas babilônica e judaica. Olhando por um viés mitológico, a festa popular consiste no fechamento de um ciclo, tempo em que tudo pode ser feito, pode haver a personificação de seres sobrenaturais em humanos e, num mesmo espaço, se encontram o culto à fertilidade e os apelos sexuais, além do abuso de bebidas, comidas, músicas, danças e vários outros elementos que compõem a comemoração. É uma ocasião para celebrar a alegria de viver.

Já na Idade Média, era comum o festejo com máscaras de acordo com as estações do ano, sem uma data ou período fixo, até que a festa conquistou um período único para ser realizada. Aí, os foliões costumavam vestir roupas femininas, ou suas próprias vestes no avesso, assustavam pessoas, se embriagavam, usavam capuzes e saíam beijando as moças que tentavam reconhecê-los. Por essa época, na quarta-feira de cinzas um manequim simbolizando o Carnaval percorria os vilarejos europeus e, no final do dia, era queimado perto da igreja, junto com as máscaras utilizadas durante a festa, anunciando o início da Quaresma.

O Carnaval acompanhou os navegadores europeus e acabou chegando ao Novo Mundo. Com o decorrer do tempo, suas características foram se adaptando à realidade dos povos da América, especialmente dos países latinos. Segundo Cunha (2005), no Brasil, a festa popular denominada “entrudo”5 foi introduzida em 1723, por imigrantes portugueses das ilhas da Madeira e Açoures. De lá para cá, além de adquirir características nacionais, a celebração também foi imbuída de aspectos regionais, como acontece no Vale do Paraíba.

Na região que liga as principais capitais do Brasil – São Paulo e Rio de Janeiro – o Carnaval acontece de maneira particular em cada cidade. São José dos Campos, por exemplo, é conhecida pelos festejos em clubes e blocos de rua; Guaratinguetá tem tradição nos desfiles de escolas de samba; as demais cidades agregam um pouco de cada costume, mas sempre buscam um apelo local; São Luiz do Paraitinga, por sua vez, atrai foliões do Brasil inteiro, com sua comemoração realizada nas antigas ruas de pedra, acompanhadas de marchinhas tipicamente regionais.

Até alguns anos, entretanto, o Carnaval luizense era muito discreto, com um ou outro grupo apenas acovardando a cidade para a data festiva. Explicam os moradores mais velhos que isso acontecia porque um antigo Vigário havia alertado a cidade para o pecado das festas carnavalescas, o que poderia atrair problemas para o lugar, como trombas d’água, enchentes e outras desgraças. Passando um tempo de “retiro” do Carnaval, São Luiz superou o temor dos prognósticos e hoje se evidencia por suas festas carnavalescas, consciente da importância de sua autenticidade dentro da cultura valeparaibana, com suas marchinhas e “seu Carnaval de rua que irá até o sol raiar”. (MAIA & MAIA, 1989, p. 30)


Nesse sentido, percebe-se a relação entre realidade e sonho que o Carnaval ajuda a cultivar. Por isso, sua complexidade está no processo de unificação de várias tradições em numa festa popular, que faz parte do cotidiano das pessoas que esperam, durante um ano inteiro, o tempo propício para deixar de lado a rotina do dia-a-dia.
Análise fotográfica

Como metodologia para a leitura e análise das imagens publicadas no jornal ValeParaibano definiu-se o exposto por Iluska Coutinho na obra Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação (DUARTE & BARROS, 2005, p. 330-344), que enfatiza a importância do olhar voltado para aspectos técnicos – como posição, cor, perspectiva e enquadramento – e conteúdo ou significação, priorizando percepção e interpretação.

Um dos aspectos é o enquadramento da imagem, seja ela estática ou em movimento. O enquadramento indica o recorte feito pelo produtor do registro visual para comunicar sua mensagem, ou em outras palavras, indica quanto a imagem mostra da cena representada. A preocupação com os chamados planos de enquadramento surgiu com os estudos das imagens pictóricas (desenho, pintura), sendo depois apropriada no desenvolvimento das linguagens do cinema, da fotografia e finalmente da televisão. (COUTINHO, 2005, p. 337)
Há que se levar em conta que a informação presente nas imagens publicadas em um jornal é que as constitui como material de fotojornalismo. Esse conteúdo envolve questões técnicas e estéticas, além da notícia, uma vez que o jornalista, ao registrar alguma cena, captura um momento histórico que servirá de documentação para aqueles que não estavam presentes no momento do fato ocorrido.

O produto final, a fotografia, é portanto resultante da ação do homem, o fotógrafo, que em determinado espaço de tempo optou por um assunto em especial e que, para seu devido registro, empregou os recursos oferecidos pela tecnologia. (KOSSOY, 2001, p. 37)


Nesse sentido, cabe ao fotojornalismo perpetuar os momentos históricos gerados por fatos cotidianos, possibilitando o entendimento do passado e da memória construída pelas imagens e suas conseqüentes repercussões. Porém, há aspectos fundamentais a serem considerados em relação à práxis jornalística, definidos pelo professor José Marques Melo:

Fotografia-notícia (quando apresenta a faceta privilegiada de um fato), complemento da notícia (quando a notícia é compreendida como uma estrutura articulada entre texto e imagem) ou até uma reportagem (quando as imagens são suficientes para narrar os acontecimentos). (MELO apud BRIL, 1992, p. 111-112)


Para a realização de uma pesquisa em torno de material iconográfico, além dos critérios apontados pelo autor, é preciso pensar a fotografia como a construção de uma segunda realidade – captada pelo filtro do fotógrafo. Além disso, torna-se necessário observar a distribuição do material nas páginas do jornal, com base na percepção, ordenação e edição de acordo com critérios próprios do veículo.

O material aqui utilizado compreende quatro décadas de cobertura jornalística sobre o Carnaval pelo ValeParaibano, respectivamente as edições dos anos de 1976, 1986, 1996 e 2006 do período carnavalesco. A seleção documental de análise contou com o apoio do Centro de Documentação (Cedoc) do próprio jornal, e teve como foco as imagens publicadas tanto na primeira página, quanto nas páginas internas do primeiro caderno do ValeParaibano, que se destina à cobertura de assuntos regionais, e também do caderno de variedades, ValeViver.

A análise quantitativa baseou-se no número de imagens publicadas por edição e na quantidade de colunas ocupadas por página. O objetivo é identificar a evolução gráfica do veículo no que diz respeito ao tratamento dado às imagens numa relação de importância e utilização dos recursos visuais.

Quanto à análise qualitativa, este estudo segue com a proposta de Melo, conforme definido anteriormente, e de Coutinho, no que diz respeito à “relação entre os elementos representados e os espaços livres na cena” (2005, p. 338), correspondendo à interpretação e significação do objeto estudado.


Estudo empírico

Em 1976, o ValeParaibano era impresso por sistema tipográfico e suas imagens eram reproduzidas em uma única cor, a partir de clichês6, o que explica a pequena quantidade de imagens que consta sobre o Carnaval. Entre os dias 27 de janeiro e 3 de fevereiro daquele ano, o jornal publicou apenas 6 fotografias sobre o evento popular, todas sem crédito do autor das imagens e sem legendas jornalísticas. Ainda que poucas, as imagens possuíam formato maior que o usual, ocupando até ¼ da mancha gráfica da página.

Três fotografias – todas em plano médio – foram publicadas na primeira página do veículo, nos dias 27 e 29 de janeiro e 3 de fevereiro, data do Carnaval de 1976. A primeira reproduz o ensaio de uma escola de samba com figuras humanas, porém – fato curioso – todas as pessoas que aparecem em primeiro plano estão de costas para o fotógrafo. A segunda imagem é uma foto posada com a presença de um carnavalesco e algumas alegorias de rua de São José dos Campos. Já a fotografia do dia do evento destaca uma foliã – contudo, por uma falha do fotógrafo ou da edição, a parte inferior da imagem sofreu um corte que prejudica a informação impressa.

As outras três imagens foram publicadas em página interna da edição de 3 de fevereiro, sendo duas em plano americano, ocupando o espaço de 27 linhas por uma coluna, e a terceira, em plano geral, ocupando duas colunas no mesmo número de linhas. Vale ressaltar que o diagrama do veículo na época era composto por 4 colunas em formato standard, o que tornava as colunas mais largas do que são atualmente.

De acordo com a classificação sugerida por Melo (apud BRIL, 1992), quanto ao gênero jornalístico, observa-se que 100% das imagens caracterizam-se como complemento da notícia, ilustrando o conteúdo das colunas, pois dependem de informações impressas para significação junto ao leitor. Apesar das informações que as próprias imagens carregam, estas não são suficientes para informar ao leitor que se trata do registro do Carnaval da época.

As imagens registram perspectivas diferentes, por vezes focando unicamente os protagonistas. Os únicos elementos que identificam o evento são instrumentos musicais, típicos de blocos carnavalescos. Pelas imagens captadas nas edições de 1976, o jornal demonstra certo distanciamento da alegria popular característica do evento.

O material publicado no ano de 1986 ocupou as páginas do jornal durante 13 dias corridos, período antecedente e posterior ao evento. Quantitativamente, as imagens representaram um total de 80 fotografias publicadas em sua maioria ocupando entre uma e duas colunas na mancha gráfica. Desse total, apenas 6 imagens foram estampadas na primeira página do veículo, ocupando em média três colunas por 40 linhas.

A característica principal da distribuição gráfico-visual foi o agrupamento das imagens como composição para a narrativa dos eventos. Assim, um conjunto de fotos disposto em uma mesma página formava a ilustração de várias cenas de um mesmo local objeto da cobertura jornalística. A profusão das imagens contrasta fortemente com a cobertura da década de 1970 que, conforme analisado anteriormente, não se destacou pela quantidade significativa de imagens registradas e publicadas no veículo. No entanto, é preciso considerar que o processo gráfico de impressão do jornal foi alterado durante esse intervalo, o que facilita consideravelmente o uso de imagens no trabalho jornalístico.

Quanto à classificação proposta por Melo (apud BRIL, 1992), a análise registrou que a maioria das imagens (88%) se caracteriza como reportagens, já que são suficientes para narrar os acontecimentos e, eventualmente, ou seja, 12% estão dispostas como complemento da notícia, ilustrando o proposto ora pelos títulos e legendas, ora pelo texto em colunas. A diferença desse aspecto em relação à década anterior está simplesmente na quantidade de fotografias utilizadas.

No que diz respeito ao enquadramento, a maioria das fotos (85%) foi registrada em plano médio mostrando as inter-relações entre os personagens e o espaço em que eles se encontram. Os outros 15% compreendem registros em plano americano, destinados a enfatizar expressões e sentimentos dos personagens das cenas fotografadas. Quanto ao uso da cor, na época o jornal publicava imagens apenas em preto e branco. As imagens registram perspectivas variadas procurando demonstrar ações e acontecimentos e não simplesmente os protagonistas. São comuns registros de alas de blocos e escolas de samba, além de aglomerações em bailes de Carnaval.

Em termos de conteúdo, observa-se que em todas as imagens estão presentes figuras humanas, preferencialmente fantasiadas, eventualmente com instrumentos musicais peculiares à festa popular. As imagens procuram enfatizar a alegria do Carnaval, com protagonistas sorridentes, descontraídos e imbuídos do espírito carnavalesco, o que deu às edições do jornal da época um ar festivo em relação às edições de 1976.

Na década de 1990, o jornal apresentava um novo projeto gráfico-visual, o que diferenciava sensivelmente o veículo das décadas anteriores. No ano de 1996, há uma preocupação com a identidade jornalística do ValeParaibano e todas as imagens são acompanhadas de créditos e legendas e ocupam espaços pré-definidos no projeto do veículo. Percebe-se também um tratamento visual mais apurado, com definição melhor, principalmente porque nessa época o jornal já era impresso por sistema off-set rotativo.

Entre os dias 15 e 22 de fevereiro foram publicadas 37 imagens, em variados tamanhos, a maioria ocupando entre duas e três colunas na mancha gráfica. Desse total, apenas 3 imagens foram impressas na primeira página do veículo, ocupando em média três colunas por 28 linhas.

A característica principal da cobertura sobre o Carnaval registrado pelos fotógrafos do jornal foi a valorização dos personagens do evento, especialmente os que ostentavam luxuosas fantasias e acompanhavam alegorias. Essa forma de registro das imagens diferencia-se da cobertura das décadas de 1970 e de 1980, uma vez que a maioria das fotografias publicadas em 1996 permite a identificação imediata do evento popular, sem a necessidade de um agrupamento de imagens que, em conjunto, representam determinada situação.

A análise do gênero jornalístico referentes a estas imagens demonstra que 75% se caracterizam como reportagens, pois são capazes de descrever os acontecimentos por si só. Os 25% restantes são imagens que funcionam como complemento da notícia, ilustrando os elementos textuais – matérias, títulos e legendas – dispostos nas páginas. Em relação às décadas anteriores, a cobertura parece mais rica e atrativa para o leitor.

Naquele ano, pôde-se visualizar 44% das fotografias jornalísticas captadas em plano médio, valorizando a ação dos personagens que participavam da situação fotografada. Foram registradas 35% das imagens em plano geral, utilizado para dar ênfase ao cenário onde o acontecimento se desenrola – ora no desfile das escolas de samba, ora nos salões de bailes dos clubes ou ainda nos blocos de rua. As demais fotografias compreendem 21% do total e foram feitas em plano americano, enfatizando detalhes dos personagens e suas fantasias. Cabe ressaltar que, nesse período, o ValeParaibano ainda era impresso em escala de cinza, impedindo a contemplação do colorido de fantasias e carros alegóricos, que foram destacados nas edições do mês de fevereiro.

Merece reconhecimento que essa é a primeira década em que se observa a cobertura fotográfica e jornalística voltada para eventos carnavalescos tipicamente regionais, principalmente com uma abordagem do Carnaval de São Luiz do Paraitinga, caracterizado pela concentração de blocos populares animados por marchinhas carnavalescas remanescentes da década de 1920, e pelo aspecto folclórico da região do Vale do Paraíba. Quanto ao conteúdo, todas as imagens representam personagens, sendo que 92% dão destaque às fantasias e 8% captam figuras humanas em contextos carnavalescos.

A partir de 1997, o ValeParaibano passou a ser impresso em cores, com inovações no projeto gráfico-visual a fim de atender à demanda de um público cada vez mais exigente. Assim, padronizou a impressão em cores ao menos nas primeiras páginas de cada um de seus cadernos. Com a mudança, a cobertura do Carnaval da região ficou mais interessante e atraente, já que uma das características desta festa popular é a profusão de brilhos e cores como forma de exaltar a alegria e a descontração.

Nas edições de 2006 foram publicadas 144 imagens entre 19 de janeiro e 2 de fevereiro, ocupando um período de 12 dias. Entre todas as décadas analisadas na pesquisa, 1986 foi o ano em que o jornal cobriu o assunto por um período maior, ou seja, durante 13 dias. O tamanho médio das fotos publicadas foi de 2 a 3 colunas por 55 linhas de texto. Do total de imagens, 24 fotografias ocuparam as primeiras páginas das edições, representando 16% do total.

Entre 144 imagens, 85 foram publicadas em cores, ou seja, 59%. Em parte, como no ano de 1986, algumas imagens foram distribuídas em conjunto numa mesma página, formando a ilustração de várias cenas de um mesmo local objeto da cobertura jornalística. Muitas imagens, entretanto, se referem ao Carnaval no Rio de Janeiro ou São Paulo, publicadas na primeira página como manchetes para o caderno Nacional & Internacional.

A análise registrou que a maioria das imagens (59%) se caracteriza como reportagens, já que são suficientes para narrar os acontecimentos. Há 40% de fotografias classificadas como complemento da notícia, ilustrando o conteúdo textual e 1% das imagens é foto-notícia, que revela uma faceta privilegiada do fato.

Quanto ao enquadramento das imagens, a maioria (40%) foi registrada em plano americano, salientando detalhes dos foliões em suas fantasias. As imagens em plano geral somam 28% e enfatizam o cenário em que transcorre o evento carnavalesco ou o fato que foi objeto de cobertura por sua relação com o Carnaval no Vale do Paraíba e no Litoral Norte. As fotografias que mostram as inter-relações entre os personagens e o espaço em que eles se encontram foram registradas em plano médio (25%) e aquelas que pretendem enfatizar as emoções dos personagens (7%) foram captadas em close-up.

Observa-se que o conteúdo enfatizou os elementos de acordo com as perspectivas abordadas. Assim, os cenários freqüentemente registrados foram: os preparativos (montagens de arquibancadas, carros alegóricos e fantasias), blocos carnavalescos, desfiles nas avenidas, flagrantes do Carnaval de rua e do movimento de automóveis nas estradas. Destacam-se também os registros de praias e alegorias em barcos no Litoral Norte. Fato curioso é que não houve registros de bailes em clubes.

As imagens – especialmente pelo uso da cor – representam um grande atrativo do jornal na conquista dos leitores. Em quase todas elas estão presentes figuras humanas, o que gera maior identificação com o público. É somente na análise do ano de 2006 que se observam registros fotojornalísticos entremeados com imagens de agências de notícias, que reproduzem fatos das escolas de samba das principais capitais do país.



Considerações finais

Entre as décadas de 1970 e 2000, o ValeParaibano passou por transformações gráficas e editoriais e isso se revela na análise aqui realizada. Como a pesquisa tem por objetivo perceber a evolução do veículo, tendo como objeto a cobertura jornalística do Carnaval, os resultados podem ser observados em duas vertentes: 1) a evolução gráfico-visual; e 2) a nova postura editorial adotada durante o período e que revela um olhar mais atento à realidade regional.

Do ponto de vista quantitativo – que mensurou a forma e o tratamento dado às imagens publicadas – percebe-se que as edições mais recentes priorizaram a quantidade e a qualidade técnica das fotografias, tanto na perspectiva e enquadramento, quanto na disposição do material na mancha gráfica e no uso da cor, mais recentemente. Tal aspecto enfatizou o caráter fotojornalístico do material analisado, e demonstrou a evolução do veículo ao oferecer a seu público uma cobertura mais atraente, diversificada e melhor apurada.

Quanto à análise qualitativa do material, observa-se que o veículo priorizou o gênero reportagem na publicação em detrimento dos gêneros foto-notícia e complemento da notícia. Em todas as décadas analisadas houve um percentual superior de fotografias publicadas, cujo conteúdo era suficiente para narrar um acontecimento. Vale ressaltar que a maioria das imagens permitia o imediato reconhecimento por parte do público leitor de que se tratava do evento popular objeto desta pesquisa. Três aspectos ainda podem ser evidenciados: 1) em 1986, o elemento de maior destaque é a profusão de imagens em conjunto, formando seqüências que permitiam ver a amplitude do fato narrado; 2) em 1996, destaca-se a abordagem das imagens, com valorização de aspectos regionais, como a cobertura do Carnaval em São Luiz do Paraitinga; e 3) em 2006, sem dúvida, o principal destaque é o uso da cor e a edição jornalística à qual as imagens foram submetidas.

Como um dos objetivos da pesquisa é compreender as transformações sociais e culturais características do evento popular, revisitando a trajetória de um jornal de grande abrangência em sua busca por expressar a dicotomia cultura regional versus mercantilização das tradições populares, entende-se que com os dados analisados o jornal dividiu-se em duas posturas. Se por um lado passou a abordar aspectos folclóricos do Carnaval regional, valorizando os bonecos, blocos e marchinhas peculiares à festa luizense, por outro, passou a publicar, em destaque na primeira página, imagens feericamente coloridas das escolas de samba das Capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo, o que contrastou com a própria identidade regional assumida pelo veículo.

Assim, a pesquisa revela a importância de se observar a evolução do mais influente jornal da região do Vale do Paraíba, tanto na forma como ele se apresenta quanto em sua linha editorial, a fim de compreender os efeitos da produção midiática atual. Além disso, este estudo se constitui em um novo registro da trajetória do jornal, oferecendo possibilidades para novos entendimentos a respeito e proporcionado que a memória da mídia regional seja revista sob diferentes óticas.


Bibliografia

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1 Doutoranda e Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP); professora da Universidade de Taubaté (UNITAU) e pesquisadora do NUPEC (Núcleo de Pesquisa e Estudos em Comunicação), da mesma instituição. E-mail: eliane-freire@uol.com.br

2 Graduando em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade de Taubaté (UNITAU); pesquisador do NUPEC (Núcleo de Pesquisa e Estudos em Comunicação) e do núcleo COMPUCT (Comunicação Pública da Ciência e da Tecnologia), ambos da mesma instituição. E-mail: francisco-nupec@uol.com.br

3 Esse levantamento foi realizado por Eliane Freire de Oliveira em 1997 diretamente com o gráfico Rubens Lencioni, que era a única fonte de consultas sobre o surgimento do jornal e preservava os exemplares originais do ValeParaibano.

4 Trecho retirado do texto de Rubens Lencioni, publicado pelo ValeParaibano em 1994.

5 De acordo com Cunha (2005), termo “entrudo” engloba desde hábito de jogar água nas pessoas, brincar de pintar o rosto ou outras formas de disfarce, até chegar nas brincadeiras “grosseiras” dos mascarados barulhentos, que congregavam foliões de rua.

6 Conforme esclarece o Dicionário de Comunicação (1995), clichês são placas de metal, geralmente feitas de zinco, gravadas fotomecanicamente, cuja superfície apresenta todos os pontos que devem deixar impressão no papel, em relevo e em sentido inverso à imagem original. São empregados em tipografia, para impressão de jornais, revistas, livros, anúncios, folhetos etc.


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