A construção dos locais de memória: os sefarditas nas Histórias de Portugal do século XX



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Caminhos da memória: os judeus sefarditas nas Histórias de Portugal do século XX

Paulo Mendes Pinto



  1. Apresentação: mais que «cripto-judeus», uma «cripto-história»

Que os judeus portugueses estão presentes em vários sectores da História de Portugal, é uma verdade nada difícil de demonstrar. Através de aspectos bastante positivos para a vida económica, científica, jurídica e cultural do país, não nos criaria qualquer obstáculo apontar um largo e bastante significativo grupo de situações e de indivíduos pertinentes para robustecer esta afirmação.

Os sefarditas são ainda uma temática incontornável na cultura popular, nos ditados que nos revelam um asco xenófobo enraizado em séculos de perseguições e de criação de figuras apriorísticas, muitas delas cimentadas em teologias que apontavam a este grupo a culpa pela morte de Jesus, o Cristo dos opressores.

Por uma via aparentemente mais escusa, mas nada negligenciável, a população judaica sempre esteve (e em certa medida estará) presente no nosso imaginário através de um grupo de mitos e de feridas mal curadas. Por um lado, quase sem se saber, são eles que em muito vão enformar o sebastianismo1, que é pedra angular na construção da identidade nacional nos últimos séculos; por outro lado, a ferida aberta por uma Inquisição que deixou as suas marcas profundas no imaginário colectivo devido aos brutais meios usados e às mortes perpetradas, não sarou e continua a manter a sua mácula no todo nacional, levando as altas figuras do Estado a formular solenes pedidos de desculpa.

Perante este quadro, os judeus portugueses são, de facto, incontornáveis, mas significativamente incómodos na gestão da memória nacional.

Com este texto pretende-se percorrer alguns dos aspectos mais importantes da forma como a sociedade letrada portuguesa foi integrando, ou afastando, burilando e compondo, uma das suas parcelas de memória mais ricas.

Obviamente, não esqueceremos as dificuldades de investigação nesta área, o que pode, em certa medida, ajudar a compreender a inalterabilidade dos discursos durante muitas décadas. Mas estaremos fundamentalmente centrados na forma como as obras de síntese sobre a História de Portugal trataram e enquadraram, ou omitiram, as comunidades, e os indivíduos, simultaneamente de origem judaica e de origem portuguesa.

A análise, por opção, que se formulará no ponto seguinte, terá lugar nas chamadas Histórias de Portugal. Será nesse tipo de obra historiográfica que encontraremos o nosso material, as nossas visões que sobre os judeus portugueses se foram criando.

Não trataremos todas as Histórias de Portugal, nem exaustivamente nenhuma delas. Faremos um percurso sobre uns quantos quadros eleitos por se nos apresentarem como significativos.



  1. A opção pelas Histórias de Portugal

A escolha das Histórias de Portugal (HP) para a recolha da argumentação sobre o local dos judeus na historiografia nacional pareceu-nos óbvia. Duas ordens de ideias nos levaram a esta constatação:

- As HP são, em grande medida, um momento de balanço de uma escola, de um indivíduo, de uma tendência intelectual, historiográfica. Uma HP redige-se quando há uma instituição ou um indivíduo que se sente capaz de trazer uma visão global algo nova sobre o longo correr do fio temporal do país. Desta forma, uma HP apresenta um «estado da questão» que é cimentado numa historiografia já aceite e plenamente integrada numa corrente ou numa escola. Regra geral, uma HP não leva ao leitor um conjunto de visões ainda por definir completamente, ainda não aceites na comunidade científica. As HP são, epistemologicamente falando, “Ciência Normal”, uma quase “História [tornada] oficial”;

- Por outro lado, as HP são obras que muitas vezes se abalançam a grandes públicos. Redigidas quase sempre em meio académico, encontram fora dele os seus maioritários leitores. Assim, uma HP é tida muitas vezes como uma referência entre autodidactas e, em especial, entre profissionais que a elas vão recolher a sua actualização (falamos, é claro, do vasto leque dos docentes não universitários).

Mediante as duas posturas antes encontradas, podemos afirmar que as HP são, por um lado, um momento de balanço do campo da “Ciência Normal” e, por outro, um ponto de contacto e de formulação das visões mais populares e menos fundamentadas da população.

Uma HP é esta simbiose entre o campo letrado, erudito, académico, e um público que não quer, nem ninguém pretende, fique de fora do acontecimento editorial.

Obviamente, alguns reparos há a fazer perante esta opção: as HP não são um género que implique uma estabilização de fórmula. Isto é, tanto temos HP de um, como de mais de uma dezena de volumes; tanto temos HP de um autor, como com centenas de autores.

Escrita por uma elite cultural, lida por um vasto público que reproduzirá os seus conteúdos, uma HP é o ponto de encontro entre aquilo que é específico de determinado grupo e aquilo que é transversal a boa parte da população.

Desta forma, podemos almejar a identificar uma HP com a visão que essa época, pelo menos dentro dos meios mobilizados pela edição em causa, fez de um grupo minoritário e periférico face às posturas da hegemonia religiosa.

É o que pretendemos com este texto: identificar a forma como o todo social através dos seus grandes balanços historiográficos, foi integrando, vivenciando, esse seu passado incómodo, mas presente, que são os judeus sefarditas.



3. Pinheiro Chagas: entre a construção de um lugar e a instrumentalização da memória
Manuel Joaquim Pinheiro Chagas nasceu em Lisboa (1842-1895). Frequentou a Escola do Exército e a Escola Politécnica. Autor de enorme nome na sua época, as suas obras tiveram êxito imediato; após a sua morte, foi praticamente esquecido.

A sua longa obra, em que se integram traduções de muitos dos maiores autores franceses do século XIX (Octave Feuillet, Júlio Verne, Alexandre Dumas, entre outros), tem alguns dos seus momentos fortes em:

Obras poéticas: Anjo do Lar (1863), Poema da Mocidade (1865). Obras de ficção: Tristezas à Baira-Mar (1866), A Flor Seca (1866), Os Guerrilheiros da Morte (1872), A Corte de D. João V (1873), O terramoto de Lisboa (1874), As Duas Flores de Sangue (1875), A Mantilha de Beatriz (1878);

Obras dramáticas: A Morgadinha de Valflor (1869), Deputado de Venhanós (1869); A Judia (1869), À Volta do Teatro (1868), Madalena e Helena (1875), Quem Desdenha (1875);

Obras de história e de crítica: Ensaios Críticos (1866), Novos Ensaios (1867), Portugueses Ilustres (1869), História de Portugal (8 volumes – 1869-1874), História Alegre de Portugal (1880), Migalhas da História de Portugal (1893).
Aspectos gerais. A obra por nós escolhida é, obviamente, a sua História de Portugal, de que analisámos a segunda edição. Tratou-se de uma HP de grande expansão, de massiva tiragem, ilustrada, vendida em fascículos.

Escrita nos anos oitenta de novecentos, em certa medida é a primeira HP do século XX, a primeira grande HP que circulou no século passado. Por esta razão a integramos neste périplo que genericamente se confina à centúria de vinte.

Bibliograficamente, trata-se de uma obra bastante pobre. Nos primeiros volumes, os que mais referem os sefarditas, a grande autoridade (e quase única) que Pinheiro Chagas segue é Herculano - os seus volumes, também eles uma HP, confinados à Idade Média são muitas vezes seguidos de tal forma que apenas ele é citado ao longo de muitas páginas.

Que judeus aqui surgem? Estatisticamente, o quadro não é negativo. Vejamos o número de referências a judeus por volume:


Vol. I: pp. 76, 119-123, 207-208, 372, 490-491, 514-515, 532, 541-542 e 544-546.

Vol. II: pp. 36, 118, 397, 583 e 594.

Vol. III: pp. 101-108, 209, 243, 363-373, 396-397, 408-409 e 414-495.

Vol. IV: pp. 421-422 e 489-491.

Vol. V: pp. 16-19 e 181.

Vol. VI: pp. 428.

Vol. VII: pp. 64-66.

Podemos ainda completar a visão estatística verificando que parte das referências são, de facto, longas.


O “polvo” judaico. Mas, o quadro de leitura deve ser condimentado, aferido, com a leitura de alguns trechos que tomamos como mais significativos. Percorrendo o texto, verificamos que se trata de um autor que alia o discurso crítico a uma postura laudatória, numa hábil capacidade de levar o leitor a campos de interpretação quase inconscientes.

Logo a início da obra, nas páginas 119 e 120 do 1º volume, depois de tratar a realidade mourisca, Pinheiro Chagas avança com uma verdadeira obra prima da retórica oitocentista. Vejamos como o autor troca, literalmente, o sentido ao leitor, dizendo bem e mal, troçando, defendendo, e acusando, tudo ao mesmo tempo e em poucas linhas. De tal forma que o leitor mais incauto se arriscaria a não dar por nada:



Ao lado dos Mouros outra população existia, odiada como eles, mais do que eles desprezada, mas contudo também mais do que eles intrometida no viver dessa rude sociedade, e senhora de uma influencia que, por ser latente e disfarçada, não deixava de ser imensa, influencia que, mau grado as repulsões fanáticas, hão-de sempre adquirir os homens de espírito esclarecido, astucioso e paciente, sobre as turbas ignorantes e brutais. Essa raça era a dos Judeus, essa população era a população hebraica2.

Em primeiro lugar vejamos a construção deste parágrafo: constituído por dois períodos, apenas no segundo, o mais curto e o mais vazio de conteúdo, os judeus são vocabularmente referidos. Todo o primeiro período funciona num esquema de subentendido lançado habilmente com a frase: Ao lado dos Mouros outra população existia… a descodificação virá depois do virar da página, mais de uma dezena de linhas depois, num período diferente: os judeus.

E o que diz esse primeiro período em que os judeus estão virtualmente presentes, mas retoricamente apagados? Como era essa população? Ela era odiada como eles [os mouros], mais do que eles desprezada; isto é, odiada e desprezada, nada mais. Mas, e acima de tudo, revela-nos o autor: mais do que eles intrometida no viver dessa rude sociedade, e senhora de uma influencia que, por ser latente e disfarçada, não deixava de ser imensa. Isto é, mais intrometida que os mouros e detentora de um enorme poder na sociedade cristã. É esta a ideia central da caracterização dos judeus medievais portugueses: são intrometidos e têm poder.

Mas, mais que essa definição, esse poder é ainda caracterizado por Pinheiro Chagas: influencia que, por ser latente e disfarçada, não deixava de ser imensa, influencia que, mau grado as repulsões fanáticas. Ora, esse poder era latente e disfarçado e, inevitavelmente, sem denegrir propriamente a população que o detém, em continuação com o início da frase, como que justifica a reacção negativa face a eles. Logicamente, logo em seguida diz serem os judeus homens de espírito esclarecido, astucioso e paciente enquanto que os cristãos são as turbas ignorantes e brutais. Mas a verdade é que, imperceptivelmente, estão lançadas as bases comparatistas em relação à própria sociedade de Pinheiro Chagas.

Não podemos esquecer que o último quartel do século XIX verá crescer o discurso anti-semita fundado no enorme polvo do poder escondido dos judeus. O medo do domínio do mundo, o medo da grande teia tecida laboriosa e pacientemente para tudo vir a controlar. Pinheiro Chagas não faz mais que passar para a sua visão do passado o contexto que levará em França ao famoso affaire Dreyfus. Ao afirmar que os judeus medievais tinham e afirmavam esse poder, mau grado as repulsões fanáticas, como que está a afirmar a própria culpa dos judeus por terem mantido esse poder indesejado: sabiam das repulsas que ele provocava...
Judeus e chantagem. Mas o quadro ambíguo que vai, ao correr da pena, lançando ideias apriorísticas e xenófobas é mais complexo e implica mais temáticas. Sem sair da mesma página, por exemplo (entre dezenas de outros casos passíveis de aqui transcrever), é lançado de forma bastante interessante o binómio que marca a visão que ainda hoje temos dos judeus: são médicos ou banqueiros, esquecendo que, sendo alguns deles profissionais dessas áreas, nem todos o são; isto é, tomamos a parte pelo todo.

Se fosse apenas este o reparo a merecer o nosso destaque no que diz respeito à “catalogação” profissional, apenas poderíamos afirmar que o raciocínio histórico estava enquistado em ideias feitas. Mas, esta leitura do universo das actividades judias leva Pinheiro Chagas a visões que, mais uma vez, como que justificam o ódio que lhes era lançado. Vejamos o trecho:



Era porque eles possuíam dois talismãs que, se os não protegiam contra a brutalidade dos seus dominadores, os livravam contudo da proscrição absoluta. Eram médicos e eram banqueiros, tinham presos os cristãos pela cobiça, e pelo receio dos padecimentos.

Mais à frente repete o raciocínio de forma mais clara:



De um lado a raiva fanática que lhes votavam, raiva ainda aumentada pelo desespero de estarem tantas vezes à mercê ou da sua ciência, ou da sua tradicional rapacidade.

Isto é, eles como que dominavam os cristãos pelos seus saberes. Quase que podemos dizer que a sua vida e lugar social se devia a uma situação de chantagem. Ora, perante isto, não seria de estranhar toda a perseguição.


Igreja e Inquisição (a instrumentalização). Uma grande abertura temática encontramos nesta obra: os judeus portugueses estão, sem qualquer sombra de dúvida, presentes nas páginas destes volumes. Não encontramos um fenómeno de apagamento.

É ainda de notar que muitas das referências que surgem nesta obra são, de facto, grandes. Centrais ou não, elas estendem-se por mais de uma linha.

Esta situação é mais visível no volume III onde, ao longo de 79 páginas (414-495), é tratada a instalação e o funcionamento da Inquisição.

Ricas em dados e em aspectos descritivos algo questionáveis, este grande grupo de páginas mostra como a questão judaica estava omnipresente em certos grupos intelectuais de fins de oitocentos.

Interessa, no entanto, analisar mais profundamente essa situação. Numa leitura mais demorada, facilmente verificamos que as longas páginas sobre a Inquisição, o seu estabelecimento e funcionamento, em nada pretendem avaliar o efectivo lugar dos judeus. Estes, simplesmente são usados como arma anti-clerical e anti-monárquica, servindo como exemplo da brutalidade já antes apontada para cristandade.

O sentido do lugar que nessas páginas é dado aos judeus é o de mostrar as barbaridades cometidas pela estrutura de poder cristã. As imagens dos judeus sefarditas surgem apenas como exemplo, como ilustração da barbárie que reinava nas mentes ao lançar a instituição inquisitorial.

Isto é, em Pinheiro Chagas, o naco maior da presença dos sefarditas na sua HP deve-se a um certo fervor político que tudo tem a ver com os tempos do escritor, e pouco com a História dos judeus, de facto.

Instrumentalizada, a memória histórica e colectiva relativa a essa fatia da população medieval e renascentista portuguesa, não vai trazer de volta os judeus a uma lugar “de direito” na historiografia, vai apenas usá-los num discurso ideológico onde eles são a prova de uma forma de estar e de um regime que se pretende terminar.



4. Damião Peres: o branqueamento da memória
Damião António Peres (1889-1976) foi Professor universitário em Coimbra, historiador que marcou a historiografia nacional, manteve ainda interesses no campo da numismática. Integrou a Faculdade de Letras do Porto, criada em 1919, onde se manteve até à sua extinção em 1927/28. Em 1929, é convidado para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde ingressa em 1930.

Foi director do Museu Numismático Português, anexo à Casa da Moeda, e director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra entre 1940 e 1943.

A sua extensa bibliografia está elencada em: Maria Armanda de Almeida e Sousa - Damião Peres: biobibliografia analítica (1889-1976). Coimbra, Fac. de Letras, 1989
Aspectos gerais. Esta obra tem um carácter significativamente diferente face à anterior. São apenas 4 os volumes editados. São volumes que tiveram a sua versão primeira num conjunto de conferências realizadas via rádio.

Este aspecto leva-nos a colocar uma questão central: a quem era dirigida? Terá esse facto condicionado a redacção, os enfoques, os esquecimentos que mais à frente veremos?

O que é certo, e é por esse motivo que integramos esta HP neste corpus, é que se destinava a um vasto público: o público radiofónico da década de sessenta. De que forma essa dimensão social condicionou os conteúdos? Terá sido esta obra feita à imagem do seu público? Ou pretenderia esse texto dar uma nova visão, doutrinando o ouvinte e leitor?
Judeus: um non lieux3. A primeira constatação que o leitor faz ao procurar os judeus nesta obra é a que nos diz que, realmente, eles quase não estão presentes. Estatisticamente, estamos perante valores da ordem das sete referências em quatro volumes (que vão até à época moderna).

Se compararmos estes valores com os das restantes HP tratadas neste trabalho, verificamos que esta é a obra onde os judeus menos aparecem.

Ao todo, são as seguintes a totalidade de ocorrências nesta HP:
Vol. I, pp. 12-13.

Vol. II, pp. 32-33, 135, 170/171 e 192/193.

Vol. III, pp. 6/7.

Vol. IV, pp. 143/144.


Olhando para o quadro que se anexa, recolhendo todas as referências, vemos que nenhuma delas nós considerámos «central» em relação ao raciocínio e explanação apresentada no contexto onde ela é feita. Os judeus são, para Damião Peres, sempre «periféricos».

Ora, a que se deve esta posição? Para a época de Pinheiro Chagas poderíamos afirmar que ainda não existiam estudos que o guiassem melhor; mas mesmo assim, seguiu Herculano. Ora, Damião Peres escreve depois de Samuel Schwarz, depois de Mendes dos Remédios, depois de Lúcio de Azevedo, depois de Virgínia Rau. É um claro quadro de opção.

Pela introdução podemos ir um pouco mais longe na busca do pensamento de Peres. Para ele, Portugal surge quase como um desígnio. Portugal é um imperativo que se identifica claramente com um povo e uma religião. Mais que unidade de outra qualquer natureza, a sua nação portuguesa só existe na igual medida em que existe um povo português: um povo que é a identidade antropológica, que a esgota, e que com ela formula a ideia de pátria. Neste discurso, tudo o resto seria, obviamente, acessório.

O mais interessante neste raciocínio é que, havendo uma identidade definida desta forma, todas as acções historicamente tomadas no sentido de aprofundar a identificação entre esse grupo humano e a realidade social, são como que tomados como legítimos e naturais.

Nessa dimensão de justificação histórica se enquadra a chamada “reconquista cristã”, assim como a expulsão de mouros e judeus: não pertenciam a essa identidade.

Ora, em ordem a neste raciocínio, até podemos estranhar que, então, judeus e mouros sejam, apesar de tudo, tão pouco fustigados pela justificação histórica da perseguição, da purificação da identidade pátria.

Os judeus são, efectivamente, um non lieux, à falta de pior.
Agradecer a perseguição. Apenas num momento, Damião Peres não resiste a lançar a sua retórica justificativa face às perseguições de que os judeus sefarditas foram alvo.

Esse trecho, a seguir citado, relativiza os padecimentos dos sefarditas, tendo como horizonte de comparação o que de pior poderiam ter sofrido se, em vez de terem sofrido em Portugal, tivessem migrado para o Norte de África.

Vejamos o excerto retirado da página 171:

Muito impropério se tem escrito contra estes últimos actos de D. João II, crueldades ditadas aliás por num sincero motivo de fé religiosa; mas os que assim vociferam deviam antes louvar a memória do monarca, pois esses seus actos, proclamados cruéis, pouparam afinal muitos infelizes a horrores bem maiores, tais como os sofridos pelos que entraram em Marrocos, onde os muçulmanos, movidos apenas dos mais baixos e vis sentimentos – o latrocínio e a luxúria – lhes infligiram uma incontável série de assassinatos, de roubos e de abomináveis sevícias.

Vários aspectos poderiam ser analisados mediante esta frase. Trataremos apenas dois: a validade da religião como móbil da acção política, e a defesa do monarca através da comparação antes esplanada.

No que diz respeito ao primeiro aspecto, Damião Peres coloca lado a lado os motivos de ambas as situações: numa, o sincero motivo de fé religiosa, noutra, apenas dos mais baixos e vis sentimentos.

Obviamente, e para além do que aqui está tido como imagem e lugar dos sefarditas, também o Islão não escapa a um discurso francamente cristianizado, um discurso que coloca apenas no tal fervor religioso o móbil, um móbil que merece a estima e a admiração de Damião Peres.

Esta visão do Islão está, efectivamente, de acordo com o lugar lacunar que os estudos islâmicos tinham nessa época em Portugal. Nos anos sessenta do século XX, se pouco ainda se tinha escrito sobre os judeus sefarditas, talvez menos se tivesse ainda lavrado no campo dos estudos árabes e islâmicos.

Obviamente, não é a falta de investigação que legitima esta argumentação, este discurso claramente negativo e apriorístico face a uns e a outros, mas essa situação possibilitava a ausência de sentido crítico por parte de muitos dos leitores. De resto, esta postura só é possível num quadro que encontre nestes conteúdos uma identificação com o momento presente.

No que respeita ao segundo aspecto, o centro da argumentação de Peres reside no facto de dar ao monarca um papel benigno, retirando-lhe o carácter negativo de algumas das suas acções.

Ora, em primeiro lugar temos de dar destaque a esta visão da memória histórica que divide os actores em bons e maus. Damião Peres propõe-se a lavar a memória do monarca no que diz respeito aos acontecimentos referentes aos judeus. Tal como podemos classificar o seu texto de apologético, também Peres classifica os seus antecessores de acusadores, os seus textos de impropérios. Para Peres, a História é tem esse local: o do ajuste de contas.

E é nesse sentido que compara o que em Portugal aconteceu aos judeus, em relação ao muito pior que lhes poderia ter acontecido. Isso é justificação que baste. No fundo, foi muito positivo que o rei português se decidisse por uma política de fecho e perseguição. Não fora essa política, o fim dos sefarditas teria sido pior!

5. A construção dos lugares de memória actuais: do pontilhar inicial de Oliveira Marques ao volume temático de João Medina
Com a expansão bibliográfica que sobre os estudos sefarditas os anos 70, 80 e 90 viram ter lugar, o universo de ideias feitas que sobre esta temática havia começou a ser demolido4.

Qual foi o caminho da construção, já não dos lugares de suposta memória, lugares ideológicos, mas sim os efectivos conteúdos resultantes de uma análise descomprometida do passado?

A partir do projecto editorial de Oliveira Marques, de 1972 (HP dedicada a António José Saraiva e a Vitorino Magalhães Godinho, que estiveram na génese do esquema base), vemos como se constrói um conjunto de lugares que, neste momento, estão inquestionavelmente ligados à memória judaica.

Nesses dois volumes de início da década de setenta (que ainda hoje são reeditados em três volumes), apenas o primeiro, que ia até às Revoluções Liberais, tinha referencias a judeus (referências em: Vol. I: 102, 103, 114, 119, 136, 142, 146, 183, 221, 234, 236, 237, 287, 288, 294, 296, 300, 363, 365, 431, 439, 505 e 516; Vol. II: nenhuma ocorrência).

De facto, esta HP apenas dá lugar de memória aos sefarditas na medievalidade e na modernidade, com especial ênfase até ao início do século XVI.

Seguindo a trajectória do mesmo historiador, vemos que em 1995, quando publica a sua nova HP, em formato bolso, o lugar dos judeus já se alterou significativamente.

Estatisticamente, o número de vezes em que os judeus são chamados às linhas do texto é bastante superior. Numa obra de menor número de páginas, as citações são em maior número (referências em: pp. 68, 73, 89, 96, 115, 118, 126, 143-144, 154, 155, 156, 161, 189, 193, 195-196, 198, 221, 235, 241, 244, 246, 255, 266, 267-268, 271, 284, 291, 292-293, 297, 302, 323, 330, 346, 353, 369 e 370).

Mas mais que esta questão que se prende com as simples ocorrências da temática, há que olhar mais profundamente para o texto. As três últimas vezes em que a temática ocorre corresponde já a um tratamento de várias linhas, na temática setecentista de Absolutismo, Despotismo e Iluminismo.

Nesta linha de abertura temática, a obra dirigida em parceria por Oliveira Marques e Joel Serrão (HP editada pela Editorial Presença), já nos apresenta quadros onde os judeus surgem na memória e análise dos séculos XIX e XX.

O volume XI (Portugal da Monarquia para a República - com coordenação de A. H. de Oliveira Marques, e com redacção de 4 autores; ed. em 1991) trata os judeus em 3 momentos. Obviamente, são referidos já num quadro típico de análise de uma historiografia pós-25 de Abril, aquando do tratamento de temáticas maçónicas e de luta contra o poder da Igreja católica. Mais longe, no lugar dado a este grupo religioso, a última referencia é já num sub-capítulo dedicado de forma assumida e explícita aos grupos religiosos não católicos: os judeus começavam a ganhar um local de afirmação da sua identidade na memória que lhes era reservada nas HP.

O volume XII (Portugal e o Estado Novo (1930-1960), com a coordenação de Fernando Rosas e com 12 autores; ed. em 1990), torna a referir os judeus no subcapítulo sobre as tensões religiosas, no capítulo sobre As relações entre o Estado e a Igreja.

Criado, finalmente um espaço, de facto, dos judeus portugueses (sefarditas ou não) nas HP, poderíamos mesmo sistematizar os locais de memória que actualmente podemos encontrar consensualmente nas HP, e que vão da administração burocrática na primeira dinastia, ao peso nos descobrimentos e na ciência moderna, terminando nas actuais comunidades, passando, em várias épocas, pela caracterização social e demográfica e pelas questões de imaginário colectivo, em especial, o sebastianismo.

Mas, se há um conjunto de temáticas e de cronologias em que actualmente já sabemos que, de certo, vamos encontrar os judeus na argumentação e na narrativa historiográfica, a nível de relevância da globalidade, só mais recentemente se criou um espaço autónomo para essa memória.

Esse salto qualitativo, essa alteração de concepção do lugar da temática na gestão da memória colectiva, verificou-se pela criação de um volume temático na HP dirigida por João Medina.

Terminando, o volume VIII é dedicado a questões transversais da identidade e da memória portuguesa, acolhendo os fenómenos do messianismo e o judaísmo.

Inevitavelmente, mesmo havendo um volume que mostra em lombada e em letras douradas, o assumir do lugar central deste grupo religioso na História portuguesa, os judeus não deixam de ser referidos ao longo da totalidade dos outros volumes, percorrendo a listagem de locais de memória que antes apresentámos.

Parece que foi percorrido o percurso da criação de um local cientificamente estruturado da memória nacional em relação aos sefarditas. Só a consolidação dos estudos poderão confirmar o que os indícios antes apontados nos parecem afirmar.



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