A corrente Racionalista da Gramática Brasileira no Século XIX



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A Corrente Racionalista da Gramática Brasileira no Século XIX

Ricardo Cavaliere (UFF)


Falar em gramática brasileira de língua portuguesa impõe remontar aos primeiros anos do século XIX, quando efetivamente começam a moldar-se as bases de um pensamento lingüístico nacional. Com efeito, dois fatos políticos dos oitocentos, de grande repercussão para a vida cultural do Brasil, criaram o ambiente favorável para que os naturais da terra se interessassem em escrever textos descritivos e normativos – bem mais normativos do que descritivos, saliente-se – sobre a língua portuguesa: a transferência da Corte para o Novo Mundo e a declaração de independência da colônia em 1922. Esses atos integram a construção das bases culturais e, sobretudo, educacionais necessárias para a formação de mentes lingüísticas no seio da sociedade brasileira, objeto esse que contou com a progressiva disseminação do ensino básico a partir da chegada da Corte de D. João VI e o incremento do espírito nacionalista que naturalmente exsurgiu com a nova ordem institucional do Império.

Não terá sido, portanto, casual que grande volume de textos gramaticais sobre o português para uso em sala de aula viesse a lume a partir do final da primeira década imperial, trabalhos esses incentivados por um sentimento não de posse sobre a língua, que na verdade ainda era vista como um traço de identidade lusitano, inclusive mediante ostensivo ensino da norma gramatical predominante nos textos literários portugueses, mas de capacitação para dizer sobre a língua, no sentido de que assim se expressava uma nova civilização consciente e ciosa dos valores culturais importados da Europa por uma sociedade emergente e intelectualmente necessitada de afirmação.

Curiosamente, entretanto, o primeiro texto gramatical brasileiro foi publicado antes da edificação dessa nova ordem cultural. A primeira década do século XIX vê surgir o período racionalista dos estudos lingüísticos brasileiros – que vai de 1806, ano de publicação do Epítome de gramática da língua portuguesa, de Antonio de Moraes Silva, a 1881, quando sai a lume a Gramática portuguesa, de Júlio Ribeiro (cf. Cavaliere, 2003) –, que assim se denomina em face da rigorosa fundamentação teórica escudada nas teses da denominada Lingüística Cartesiana, tal como a denomina Noam Chomsky (cf. Chomsky, 1972), para referir-se ao paradigma que domina os estudos sobre a linguagem humana desde a Grammaire de Port Royal até os últimos ecos emanados da teoria sobre linguagem e mente em Condillac no século XVIII (cf. Condillac, 1775).

O Epítome da gramática da língua portuguesa, de Antonio de Moraes Silva, um texto gramatical que constitui a primeira tentativa de descrição sistêmica do português edificada por um intelectual nascido no Brasil, é mais do que um trabalho lingüístico; a rigor, deve ser hoje lido e examinado como documento de especial valor historiográfico, a par da relevância que possa auferir quanto ao mérito do conteúdo.

Não obstante o Epítome de Gramatica da Língua Portuguesa tenha sido escrito em 1802 ― a primeira edição viria a lume apenas em 1806 ―, semelhante fato não descaracteriza o que podemos denominar "caráter setecentista" da obra, visto que as idéias lingüísticas que se manifestam em suas páginas são as que chegaram ao conhecimento de Moraes Silva mediante leitura dos textos teoréticos do século XVIII e certamente estavam no centro das discussões de quantos se dedicavam ao estudo sobre a linguagem nesse período. Assim, a proposta de Moraes Silva no que tange ao ensino e à descrição do português, não obstante repouse em páginas escritas nos verdores do século XIX, pode ser historiograficamente reconhecida como um produto acadêmico do século XVIII, cujos frutos vicejaram com magnificente pujança no século seguinte, quando efetivamente começa a florescer o pensamento sobre a linguagem no seio da sociedade brasileira.

Antônio de Morais Silva nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1757, vindo a falecer em Pernambuco a 11 de abril de 1824. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, segundo nos informa Francisco Innocêncio da Silva (Silva, 1863:209), Moraes teve prematuramente encerrada uma promissora carreira na magistratura em face de uma condenação do Santo Ofício que o fez fugir para a França e, posteriormente, após largo período na Inglaterra, retornar a Portugal. No entanto, na opinião de Sacramento Blake, bibliógrafo brasileiro contemporâneo de Innocencio da Silva, o autor do Diccionario bibliographico portuguez enganou-se sobre a carreira jurídica de Moraes Silva, já que a conhecida fuga para a Inglaterra teria ocorrido antes da colação de grau na Universidade de Coimbra (Blake, 1883:268). Consta que durante sua estada na capital inglesa, contribuiu para uma revisão do Dicionário de Bluteau, que viria a ser publicado em Lisboa no ano de 1789. Aliado ao Elucidário de Viterbo, o dicionário de Bluteau serve a Moraes Silva como uma das fontes magnas para a elaboração de seu Dicionário da língua portuguesa.

Outro texto que contribui expressivamente para a construção do pensamento gramatical no Brasil, cujo ano de publicação não se pode hoje precisar, é o Tratado de eloqüência de Frei Caneca, orador, revolucionário político e publicista brasileiro, nascido em Recife, Pernambuco no ano de 1779 e falecido no dia 13 de Janeiro de 1825. Professor de Geometria e Retórica, Caneca em 1817 envolveu-se no movimento revolucionário de Pernambuco. Condenado, foi enviado para a Bahia onde cumpriu pena de quatro anos. Na prisão, encontrou ânimo e denodado empenho para redigir um Breve compêndio de gramática portuguesa (Caneca, 1972), texto que, aliado ao Tratado, demonstra grande vigor crítico sobre o ensino do português e, em certa medida, inovadores ares na seara descritiva.

No tocante ao sistema ortográfico, por exemplo, Caneca pugna por uma relação fonema–letra de cunho biunívoco, embora suas regras não almejem concretizar esse desiderato. No entanto, soam bastante lúcidas suas propostas sobre o emprego do hífen e de dígrafos, sempre em busca de um plano ortográfico mais simples e fiel ao princípio da boa estratégia pedagógica.

O fluxo de textos escolares publicados para assessorar o professor de português na tarefa docente, enfim, viria a crescer significativamente com os gramáticos do denominado "grupo maranhense": Antonio da Costa Duarte, que publicou sua Gramática em 1929, Filipe Benício de Oliveira Conduru, cujo texto vem a lume em 1840 e, sobretudo, Francisco Sotero dos Reis, autor da prestigiada Gramática portuguesa acomodada aos princípios geraes da palavra seguidos de imediata aplicação prática. Com efeito, desses ilustres maranhenses, Sotero do Reis foi o que mais contribuiu para a edificação de um perfil próprio aos nossos compêndios gramaticais, talvez por haver auferido maior projeção e êxito editorial do que seus pares, não obstante, na essência doutrinária seu texto não diferisse substancialmente dos demais. Cuide-se, ademais, que o lapso temporal que intercala as edições dessas gramáticas confere à de Sotero o benefício de haver-se abeberado das que a precederam, tanto para aperfeiçoá-las, quanto para repará-las no que houvesse de inexato, a seu juízo.

Nesse ínterim, atua proficuamente no ensino básico do Rio Grande do Sul – mais tarde, na Corte do Rio de Janeiro – o gaúcho Antônio Álvares Pereira, o Coruja, cuja gramática, publicada em 1835, gozou de grande projeção no ensino da retórica pela metade dos Oitocentos. Coruja organizou e manteve na Corte o Colégio Minerva, onde continuou a publicar livros escolares de variadas disciplinas.

Do ponto de vista doutrinário, como já assinalamos, pode-se afirmar que todos esses textos seguem uma linha homóloga de exposição dos fatos gramaticais, sob o ideário da gramática racionalista que se difundiu na Europa até pelo menos o final no século XVIII. Entretanto, a fonte imediata de nossos gramáticos na primeira metade do século XIX, onde buscavam não só as teses pedagógicas, mas também – e sobretudo – a metodologia de tratamento da língua como objeto de descrição, residia em dois textos portugueses de pujante presença no cenário acadêmico brasileiro ao longo de todo esse período: A Gramática filosófica da língua portuguesa, de Jerônimo Soares Barbosa (Barbosa, 18), e a Arte da gramática da língua portuguesa, de Antônio José dos Reis Lobato (Lobato, 18). Esses dois textos, por sinal, são alvo recente de edificantes e renovados estudos, o que bem revela o presente interesse que despertam nas hostes filológicas portuguesas. O texto de Soares Barbosa mereceu uma edição fac-similar do emérito Professor Amadeu Torres, catedrático da Universidade Católica Portuguesa, com fulcro na edição de 1822; já a obra de Reis Lobato é objeto de cuidadosa edição crítica encetada pelo jovem e valoroso filólogo Carlos Assunção, sob os auspícios da Academia de Ciências de Lisboa.

O trabalho de Soares Barbosa, em especial, vem suscitando inúmeros estudos críticos aqui no Brasil, da lavra de competentes lingüistas como Hilma Ranauro, Edward Lopes, Luiz Carlos Cagliari e Leonor Lopes Fávero, todos unânimes quanto ao caráter precursor do grande mestre português em questões indigestas, como a da taxionomia lexical e da avaliação das partes do discurso à luz da função exercida pelos termos no corpo da estrutura sintática.

O aparato doutrinário da gramática racionalista, como sabemos, partia de uma concepção da língua como fruto da capacidade humana de erigir o raciocínio lógico, razão por que o estudioso não hesitava em aplicar na descrição do fenômeno lingüístico as leis que regulavam a estrutura do raciocínio. Essa abordagem, contudo, elevava-se da premissa de que se o homem detém a primazia da arquitetura racional e se semelhante atributo era comum aos homens em geral, então haver-se-ia de compreender a língua –fruto da razão – igualmente dotada de elementos universais. A rigor, a gramática filosófica – que em princípio equivale à expressão gramática geral – busca reconhecer na língua os princípios genéricos que estão na concepção da razão humana.

Não sem fundamento, pois, a metalinguagem gramatical faz eclodir esse paralelo, em termos como juízo, para expressar o conteúdo semântico da frase, substantivo, para expressar a palavra através do conteúdo ontológico das coisas e atributo para expressar o valor dos adjetivos. A concepção do verbo ser como uma palavra que encerra a substância de toda e qualquer ação humana – daí verbo substantivo – fortifica essa aplicação dos universais da razão humana à descrição da língua.

No Brasil, decerto, os parâmetros da gramática filosófica foram extremamente atenuados pela pouca perspectiva doutrinária de nossos gramáticos, mais interessados em criar manuais normativos com regras do bem-dizer. Uma ordem lingüística que só seria descaracterizada no final dos Oitocentos, com o advento da denominada gramática científica, calcada nos princípios da análise do fato gramatical. A primeira atitude em face dessa constatação é a de condenar o obscurantismo desses brasileiros, aparentemente carentes de visão científica suficiente para aplicar no gigante emergente das Américas as novas teses sobre estudo da língua que eclodiam no Velho Mundo. A análise sócio-histórica do Império brasileiro, entretanto, conduz-nos para outras conclusões.

Decerto, algumas questões surgem quando estudamos a relação entre a atividade intelectual e o frenético ufanismo que tomou conta do país no primeiro decênio da Independência. No tocante especificamente à produção de textos gramaticais, verificam-se dois fatos bem marcados: a) a maior parte dos homens interessados em semelhante tarefa residia nas províncias do Norte-Nordeste, b) o foco das atenções filológicas passa a figurar no cenário da Corte somente a partir da segunda metade do século XIX.

A predominante origem nortista de nossos primeiros gramáticos constitui fato inconteste. Tirante o Epítome, de Antonio de Morais Silva e os conhecidos textos gramaticais de Frei Caneca aqui já citados, todos escritos antes da Independência, o primeiro volume do Brasil imperial dedicado à descrição do português, de caráter normativo, sai no Maranhão, em 1929, pela lavra do padre Antonio da Costa Duarte, que alçou a expressivas seis edições (cf. Araujo, 2005). Seguem-se-lhe a Gramática elementar da língua portuguesa, do maranhense Filipe Benício de Oliveira Conduru (1840), o Breve compêndio de gramática portuguesa (1844), publicado no Recife por Salvador Henrique de Albuquerque, culminando com a Gramática portuguesa do maranhense Sotero dos Reis (1965), apenas para citar os trabalhos de maior importância, já que não poucos os textos que merecem cuidadosa revisão crítica dos que se dedicam à pesquisa historiográfica.

Por exceção à onda nordestina, há que referir-se ao já aqui citado gaúcho Antônio Álvares Pereira, o Coruja, cujo Compêndio de gramática da língua nacional (1835) alcançou grande expressão nas salas de aula da Corte, e a dois filólogos que se destacaram no Rio de Janeiro: João Idalio Cordeiro, autor da Nova gramática da língua portuguesa ou arte de falar (1844) e Chales Grivet, mestre de reputada presença em várias cidades fluminenses, o qual nos legou a Gramática analítica da língua portuguesa e, posteriormente, a Nova gramática analítica da língua portuguesa (Grivet, 1881).

Sobre o fato, podem-se trazer à mesa de discussão algumas evidências de caráter social, cuja avaliação decerto contribuirá para explicar a questão. Não são poucos os depoimentos – leiam-se, sobretudo, Saint-Hilaire (Saint-Hilaire, 1974) e João Armitage (Armitage, 1943) – de que a Corte do Rio de Janeiro, no inicio do século XIX, gozava de má reputação. M. Arago (1839) a descreve como local de cinismo e depravação, ao passo que João Armitage considera a moral da Corte como tudo de mais baixo. Diz Horace Say, que chegou ao Rio em 1815, onde manteve relações de comércio por vinte e cinco anos: "O Principe D. Pedro, jovem, sem experiência, tendo recebido educação muito incompleta e entregue precocemente a todas as desordens de uma corte corrompida, dispunha de poucos recursos para exercer o poder" (apud Monteiro, 1972:34).

Descontados os exageros, não se pode negar que o cenário sócio-cultural do Rio de Janeiro não ia muito além de um desalentado marasmo até a chegada da família real no início do século XIX, visto que as forças de desenvolvimento social sucumbiam à quase absoluta falta de investimento estatal. Basta atestar que a fundação de escolas no Brasil até a Independência constituía raríssimo ato de Estado. No fim do século XVIII, como sabemos, não eram tão escassos os brasileiros de reconhecido talento científico ou artístico, conforme atestam as palavras de Latino Coelho, que lembra os nomes de Morais Silva, do poeta Pereira Caldas, do jornalista e publicista Hipolito de Azeredo Coutinho, do matemático Vilela Barbosa, dos químicos Nogueira da Gama (Barão de Baependi), do botânico Conceição Veloso, do zoólogo Alexandre Rodrigues Ferreira, do mineralogista Feijó, entre outros, a par dos conhecidos nomes literários: Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa, Santa Rita Durão, Basilo da Gama, entre outros igualmente relevantes. (cf. Monteiro, 1972)

O talento brasileiro, entretanto, era ainda esculpido em terras lusitanas, dado o pouquíssimo, quase nulo, investimento da sede do Reino no desenvolvimento cultural da colônia. Ademais, como afirma Tobias Monteiro, a "imensidade do território brasileiro era o maior dos obstáculos à realização da independência" (Monteiro, 1972:797), o que equivale à constatação de que a imensidão brasileira elevava-se como o maior desafio que se opunha à criação de uma verdadeira nação, com autonomia e condições para prover desenvolvimento econômico, social e cultural a todas as suas distantes províncias.

A tese de Tobias Monteiro explica, portanto, havermos demorado tanto, cerca de quarenta anos a partir da Independência, para atingir uma vida intelectual em dimensão nacional. A dificuldade das comunicações internas limitava o comércio de cada uma das circunscrições – anteriormente ligadas a Lisboa – a trocas com as províncias mais próximas e criava virtualmente quatro grupos territoriais regionais: Amazonas e Piauí; Ceará e Alagoas; Espírito Santo e o extremo sul, inclusive o centro, ficando Sergipe e Bahia uma espécie de zona intermediaria (cf. Monteiro, 1972:797).

É comum afirmar-se que o Brasil sempre esteve atrás das demais colônias americanas até o limiar do século XIX, seja no progresso sócio-econômico, seja na construção de bases culturais que dessem oportunidade ao surgimento de uma vida intelectual medianamente produtiva. Não obstante se possa assegurar que o ritmo de desenvolvimento brasileiro não seguiu o compasso do implementado na maioria das colônias hispânicas, igualmente se impõe admitir que o atraso econômico da colônia portuguesa era menor do que nossa critica costuma fabricar. Basta dizer que a construção naval brasileira, incentivada desde o século XVI pelo governo de Francisco de Souza, culminaria no ano de 1770 com a fundação do Arsenal da Marinha, responsável durante mais de um século pela construção de numerosas e imponentes embarcações. Mesmo considerando a evidente vocação agro-pecuária da economia brasileira, não se podem olvidar esforços pontuais de industrialização da colônia ainda no século XVII, de que são exemplos as investidas na indústria têxtil no Pará e em Minas Gerais, além dos primeiros passos de uma indústria siderúrgica região de Aroiçaba da Serra, em São Paulo.

Por outro lado, a constituição de uma ordem educacional eficiente o bastante para fomentar o saber e incentivar a eclosão do talento intelectual brasileiro sem dúvida capitulava sob uma frenagem que não se sabe bem fosse resultante do desinteresse da Corte portuguesa ou mesmo de uma deliberada política obscurantista, que inibisse a colônia na tentativa de caminhar com passos próprios. As evidências desse atraso são flagrantes: bastaria dizer que em 1821, quando a Argentina comemorava a fundação da Universidade de Buenos Aires, o Brasil ainda se valia predominantemente de mestres autônomos para prover ensino básico às elites sociais.

Quando em 1808 passaram a funcionar os dois primeiros prelos e oito caixas de tipos que compunham a Impressão Régia, fundada por D. João VI, as gráficas mexicanas já contavam com largo catálogo de obras científicas publicadas ao longo do século XVIII em todos os campos do saber. Advirta-se ainda que o ritmo de produção intelectual impressa não chegou a entusiasmar até a Independência: entre 1808 e 1822 a Impressão Régia deu a público mil cento e cinqüenta e quatro impressos, dentre obras científicas e literárias e, sobretudo, publicações da Administração reinol, estagnada numa média de 82 volumes por ano. Entre os textos mais importantes, citam-se os Elementos de Geometria e o Tratado de Trigonometria, de Legendre, o Ensaio sobre a Crítica e os Ensaios Morais, de Pope, a par de obras literárias brasileiras, como Marília de Dirceu, de Gonzaga o O Uraguai, de Basílio da Gama. Destaque, por nosso especial interesse, a Nova gramática inglesa e portuguesa, de Manuel José de Freitas, vinda a lume em 1810.

No plano educacional stricto sensu, o Brasil ressentia-se da falta absoluta de investimento, público ou privado, que reduzia os estabelecimentos de ensino a algumas unidades providas por ordens religiosas ou sob amparo provincial. A inexistência de educação superior impunha aos mais abastados a via única das universidades européias, mormente a Universidade de Coimbra, santuário das pretensões intelectuais na oligarquia colonial. Basta verificar, para corroborarmos a tese, a biografia de nossos setecentistas mais ilustres: Cláudio Manuel da Costa foi filho de portugueses abastados que o matricularam na escola jesuítica do Rio de Janeiro e posteriormente o enviaram a Coimbra para bacharelar-se em Direito; igual trajetória traça a vida de Santa Rita Durão, doutor em Filosofia e Teologia em Coimbra, de Tomás Antônio Gonzaga, também laureado em Coimbra na área do Direito Natural, de Silva Alvarenga, entre outros.

A rigor, a formação de cérebros em terras brasileiras só se consolidaria a partir da segunda década do período imperial, quando o país já contava com escolas de bom nível e algumas faculdades em áreas de conhecimento mais prestigiadas, como o Direito e a Medicina. Dessa nova ordem, beneficiam-se nomes como Álvares de Azevedo, formado em Direito em São Paulo, Laurindo Rabelo, médico bacharelado na Bahia e Joaquim Manuel de Macedo, formado médico no Rio de Janeiro (cf. Bosi, 1970).

Por outro lado, o conturbado cenário político do Rio de Janeiro nos primeiros anos pós-Independência coincidia com uma estrutura social falimentar, fruto possivelmente do desinteresse secular por investimentos na colônia. Disso resulta, igualmente, uma incipiente vida cultural carioca até pelo menos o terceiro decênio do século XIX, não obstante se devam ressaltar algumas iniciativas pontuais de investimento na área da cultura , como a inauguração do Real Teatro de São João em 12 de outubro de 1813, a Criação da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro em 1814 e a chegada da Missão Francesa ao Brasil, com a fundação da Academia de Belas Artes em 1816. Saliente-se que o Brasil só contava com tipografias (algumas), não com editoras, o que inibia sensivelmente a iniciativa para publicação de livros sobre quaisquer temas.

Por outro lado, já no primeiro ano da Independência, anotam-se atos administrativos de sensível interesse pelo crescimento cultural da Corte, tais como a abertura de uma Escola Normal no Rio de Janeiro, a criação do Arquivo Público – na verdade, uma revitalização do Arquivo Público criado por D. João VI em 1808 –, a Fundação do Colégio das Educandas e o aumento do número de livrarias, como desdobramento da livraria de Saturnino da Veiga. Em 1826, o incremento artístico-cultural toma impulso definitivo com a Fundação da British Subscription Library, a inauguração do Teatro São Pedro de Alcântara e a Fundação do Museu e Gabinete de História.

Não se há de negar, entretanto, que a incipiente infra-estrutura da Corte, dir-se-ia até mesmo deteriorada no tocante às bases das relações institucionais, teria conferido às províncias melhores condições para desenvolvimento de trabalhos individuais no tocante à língua e à didática do português em nível elementar. Por outro lado, a criação de escolas, uma natural conseqüência do processo de desenvolvimento intelectual do novo Império, tomou rumo mais profícuo nas províncias do que no Rio de Janeiro, já que, a rigor, o grande ato institucional nesse sentido em terras cariocas só viria a concretizar-se em 1837, com o surgimento do Imperial Seminário São Joaquim (na verdade, uma modernização do antigo e assistencial Colégio São Pedro, criado em 1739), por obra de Bernardo Pereira de Vasconcelos, grande estadista e conselheiro do Império. Mais tarde foi denominado Ginásio Nacional e finalmente, já no Segundo Reinado, Colégio de Pedro II (mais tarde Colégio Pedro II).

Sem dúvida, caberia ao Pedro II a tarefa de congregar os estudos gerais em nível avançado, de tal sorte que se constituiu num centro de excelência tanto nas ciências físicas quanto nas Humanidades, contribuindo decisivamente para a convergência de interesses no cenário da Corte, Tal fato, porém, só viria a consolidar-se definitivamente a partir da segunda metade dos oitocentos. Outro reflexo da claudicante situação em que se encontrava a Corte do Rio de Janeiro diz respeito ao absoluto desconhecimento que nossos primeiros vernaculistas tinham das fontes teóricas européias, excetuando-se obviamente os autores lusitanos, sobretudo Soares Barbosa e Reis Lobato. Fato é que em um momento que já efervescia com as teses do comparativismo histórico, nossos textos vernáculos abrigavam anacronicamente as teses racionalistas da Gramática de Port-Royal, pelas páginas dos aqui citados expoentes da gramaticografia lusitana. Vivia-se, então, um momento de exclusivo pendor normativo, traduzido didaticamente na postura mimética do bem escrever à luz dos cânones da literatura portuguesa, não obstante inúmeros compêndios de língua vernácula europeus já desenvolvessem estudo analítico dos fatos lingüísticos, à luz das novas teses comparativistas.

A obtusão de nossos textos não deve, entretanto, ser atribuída a pretenso imobilismo intelectual dos gramáticos, senão à quase impossibilidade que a esses homens se impunha para manter contato com a produção científica do Velho Mundo. A rigor, o contato cultural com a Europa só começa a crescer a partir da segunda metade do século, razão por que é também a partir desse momento que o Rio de Janeiro passa a atrair as atenções de grande legião de brasileiros provinciais. A criação de livrarias-editoras, que mantinham estreito contato comercial com suas congêneres francesas, é uma dos sintomas dessa conexão tardia com as fontes científicas dos centros mais adiantados, fato que contribui decisivamente para a grande virada intelectual brasileira como o movimento da gramática científica, a partir de Júlio Ribeiro.

Como exemplo dessa transição do “modelo racionalista” para o “modelo científico”, destaque-se necessariamente a Gramática analítica da língua portuguesa (1865), de Charles O. A. Grivet, posteriormente inteiramente reformulada e batizada de Nova gramática analítica da língua portuguesa, cuja edição póstuma se providencia em 1881 (Grivet, 1881). Grivet era um cidadão suíço de formação enciclopédica, inclusive em letras clássicas, que estudou ainda jovem na cidade de Friburgo. Após uma estada de aproximadamente seis anos na Rússia, Grivet voltou à terra natal onde exerceu o magistério do latim e várias línguas modernas. Pressionado pela conturbada situação política decorrente da Guerra de Sonderbund, o mestre suíço resolve deportar-se para o Brasil em 1956. No Rio de Janeiro, Charles Grivet dedicou-se com denodado ardor ao magistério e fincou raízes permanentes, vindo a falecer em 1876.

O caráter idiossincrático da Nova gramática de Grivet reside, conforme já atestamos, numa evidente transição entre a velha ordem cartesiana e os novos ares empiricistas que a revolução científica oitocentista fazia soprar a partir da metade do século. De imediato, rompe com a sinopse tradicional que habita os compêndios racionalistas – prosódia, ortografia, etimologia e sintaxe – para organizar a matéria gramatical em lexicologia, sintaxe, ortografia, prosódia e pontuação. Ademais, deixa transparecer nos conceitos gramaticais os efeitos dessa transição, como se percebe na definição de sintaxe: "Syntaxe é a theoria das funcções que as palavras exercem na enunciação dos pensamentos, e das relações que dahi entre ellas occorrem".

Observe-se, por fim, que, não obstante ainda conectado à corrente que descreve a língua pela descrição lógica do pensamento, Grivet salienta nessa definição que as relações sintáticas se processam entre as palavras, o que decerto lhe confere significativo avanço quanto à atribuição de autonomia sistêmica à língua. Mais ainda, percebe nas palavras a expressão das funções sintáticas que atuam na construção da frase. Se confrontarmos a definição de Grivet com a de Soares Barbosa, por exemplo, para aqui citarmos um expoente da gramática filosófica em português, verificaremos com facilidade que o ortodoxismo da escola de Port Royal não admitia propriamente relações lingüísticas, senão relações lógicas da mente humana expressas pela língua. É, pois, com Grivet e, em certa medida, com Ernesto Carneiro Ribeiro − de cuja obra haver-se-á de cuidar em estudo específico − que o Brasil dá os últimos passos na seara da gramática racionalista, rumo ao esplendor da nova ordem instalada pela gramática científica nas décadas finais dos Oitocentos.

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