A criacao e disseminaçÃo de saberes através de um grupo educacional: análise da revista de cultura vozes na decada de 1960”



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A CRIACAO E DISSEMINAÇÃO DE SABERES ATRAVÉS DE UM GRUPO EDUCACIONAL: ANÁLISE DA REVISTA DE CULTURA VOZES NA DECADA DE 1960”


TANNÚS, Fabiana Vilela (Feit- Uemg) favitapem@bol.com.br

ROTHEN, José Carlos (UFSCar) jcr3219@yahoo.com.br



Palavras chave: Reforma Universitária de 1968, Ensino Superior, Imprensa Educacional, Revista de Cultura Vozes.

A irradiação de saberes através de um periódico publicado por um grupo educacional


Este estudo faz parte do contexto de investigação que busca a explicitação dos atores sociais que participaram da elaboração de políticas públicas para a educação superior na década de 1960. Os saberes disseminados pelas publicações nas áreas de educação e cultura se configuraram como ponto de referencia para a análise da postura de diferentes grupos em relação aos novos rumos que seriam tomados pela educação superior, em virtude da inevitável e breve Reforma Universitária de 1968.

A década de 1960 – período em que aconteceram mobilizações sociais, e o governo militar promovia diversas ações tencionando legitimar reformas – foi marcada pela presença de atores sociais que, naquele momento, se inseriam nas discussões. No seio de intensa mobilização social, com vistas a influir nos rumos da Educação Superior no Brasil, era de se esperar que o pensamento católico tomasse posição ativa para a construção de um saber que atendesse a seus preceitos e interesses.

Identificando grupos que direcionavam suas ações e movimentação como meio de pressão para a formação de saberes que legitimassem a sua proposta para o Ensino Superior, ou seja, os atores sociais daquele momento, apontam-se: o governo militar com ações repressivas, para controlar os estudantes e subversivos e com seus projetos, entre os quais: acordo MEC-USAid, relatório Atcon, elaborado para o Conselho dos Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), trabalho da Comissão Meira Mattos dando origem ao Grupo de Trabalho para a Reforma Universitária (GTRU); a classe média, que exigia um maior número de vagas nas IES como forma de ascensão social; setores de esquerda; a atuação do movimento estudantil que se opunha ferozmente à ditadura militar; o posicionamento dos intelectuais integrantes do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES); as visões pedagógicas de diferentes grupos e, no foco desta pesquisa, a postura dos educadores católicos.

O objeto deste é a explicitação do ponto de vista educacional católico, tendo como fonte as matérias publicadas na Revista de Cultura Vozes no período compreendido entre os anos de 1960.

Com o minucioso exame das publicações da Revista (temas, editoriais, autores etc) na década de 1960, tem-se por objetivo fornecer subsídios para a compreensão do referencial teórico educacional católico para o Ensino Superior. As orientações que são destinadas aos leitores “imaginários” da revista (professores, gestores, burocratas governamentais, legisladores, leigos e clero) e a interpretação feita sobre o que é regulamentado na perspectiva da legislação.

A tribuna Vozesi como agente determinante na legislação para a Educação Superior


Esta investigação teve como inspiração metodológica a tese de Rothen (2004) acerca do exercício de poder dos aparelhos do Estado: a ação política dos funcionários intelectuais é tratada nas suas ações de deliberação e elaboração de doutrina e jurisprudência, a partir dos saberes disseminados na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP), editada pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP). Em seu trabalho, foi especificamente tratada a postura do Conselho Federal de Educação, tendo como objeto de estudo as matérias, editoriais etc da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos e também um olhar sobre a Revista Documenta.

O exercício de poder acima citado não é exclusividade dos agentes governamentais, mas sim da somatória destes com os relacionamentos com outros grupos, compreendendo os mecanismos de criação e disseminação de saberes. (Rothen, 2004)

Supôs-se, então, que a criação e disseminação de mentalidades pelo grupo católico, por meio de uma de suas tribunas, a Revista de Cultura Vozes, atingindo os leitores (possíveis e “imaginados”) poderia ter como fim, entre outros, avanços na legislação. Significa o discurso de um grupo funcionando como instrumento de pressão sobre os legisladores, somados aos relacionamentos com outros grupos ideológicos.

Princípios de análise de um periódico


Distinguindo-se a publicação entre o livro e a revista – neste caso uma revista editada por um grupo religioso: o livro constitui-se como uma obra fechada, já a revista possui a capacidade de se reconstruir a cada número, pode ser considerada uma obra aberta. Esta última possui características que a diferenciam em termos de sua orientação intelectual: 1. É constituída a cada número, pode incorporar novos e antigos colaboradores e nem mesmo identifica-los. 2. Pode assumir uma diversidade de posturas políticas, científicas e culturais ou uma firme orientação de base ou fundamental. (ROTHEN, 2004)

Ainda com a finalidade de perceber, na globalidade da cada aspecto, que como elos de um sistema uno se inter-relacionam e para se entender “como as idéias são transmitidas por vias impressas e como o contato com a palavra impressa afetou o pensamento contemporâneo da humanidade” (ROTHEN,2004), foram investigados, entre outros:



  • A produção da revista e a política de publicação.

  • A circulação da revista.

  • Os possíveis leitores.

  • A história da editora.

  • Os autores esporádicos e recorrentes.

  • Os editoriais quando presentes.

  • Aspectos gerais e gráficos.

  • As temáticas tratadas nas diferentes seções da revista, e em diferentes momentos.

Periodização da década de 1960; marcos de influência para as orientações educacionais católicas expressas na Vozes


A construção de uma periodização foi intencionada, com o intuito de delimitação de fases de atuação da postura católica. Apesar de ser possível a definição de importantes marcos de influência na mentalidade católica – como o Concílio Vaticano II e a Conferência do CELAM – tornou-se praticamente impossível a construção de um esquema com rígidas demarcações, inseridas no período pesquisado (janeiro de 1961 a dezembro de 1969).

Apesar de tal constatação, no intuito de buscar perceber a postura geral adotada pela Revista de Cultura Vozes, em diferentes momentos, em relação ao contexto sócio-político-religioso-educacional específicoii, a década foi dividida em três fases, com base nos eventos ocorridos no período que, de alguma forma, exerceram influência nas orientações católicas para a educação superior.


Primeira fase: janeiro de 1961 – março de 1964


Esta fase é marcada pelos seguintes fatos que caracterizaram ações e orientações específicas adotadas pela Igreja católica no campo educacional:

  • a implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei4.024, de 21 de dezembro de 1961);

  • as primeiras reuniões para o início do Concilio Vaticano II; em que o sopro da renovação coloca pela primeira vez ênfase no “homem sujeito” (1962);

  • a elaboração do “Plano de Emergência” da CNBB, em 1962, no período que é denominado pré-golpe militar (até março de 1964).

Segunda fase: abril de 1964 – dezembro de 1968


  • Período pós Golpe Militar de 1964, quando as relações sociais tomam um novo desenho na perspectiva repressora do novo regime que se instala.

  • A renovação dos educandários católicos por influência da “Ação Católica”iii e também pelos projetos da AEC.

  • O Concílio Vaticano II (1962 – 1965) que aponta novas propostas para a ação pastoral da Igreja.

  • A publicação das Encíclicas Gaudium Et Spes e Populorum Progressio.

  • Repercussões do final do Concílio, em 1968, a 2ª. Conferência Episcopal Latino-americana (CELAM), em Medelin, abriu novos caminhos para a educação católica, modelo da “educação libertadora”, na visão de saída do subdesenvolvimento.

  • Promulgação da Lei da Reforma Universitária de 1968.

  • Baixado o Ato Institucional 05 (AI-5)

Terceira fase: o ano de 1969


  • A implantação da Reforma Universitária.

  • As repercussões da 2ª. Conferência Episcopal Latino-americana (CELAM), Medelin.

Na década imediatamente anterior (1950) ou mesmo antes, a partir de 1948, houve uma ação similar a esta sentida na década de 1960. Naquela fase, os debates educacionais tinham o objetivo de influenciar os princípios da Lei de Diretrizes e Bases, promulgada em 1961. O que estava então na ordem do dia era o ataque aos escolanovistas, ou defensores da educação liberal. Naquele momento que antecedia a reforma universitária, a ação do grupo católico se baseava na defesa das perspectivas educacionais para o ensino superior com fortes influências newmanianas, resgatadas por Alceu Amoroso Lima, especialmente, no ensaio O Espírito Universitário (1959).

Tais perspectivas constituíam a fundamentação básica das discussões levantadas nas matérias. De forma implícita, bem como claramente explicitado nas orientações e questionamentos sugeridos para a Educação Superior. Também a figura humana Alceu Amoroso Lima mereceu destaque em diversas ocasiões.

O Concílio Ecumênico, convocado pelo Papa João XXIII, ainda na década de 1950, e realizado de 1962 até 1965, também se apresentou como um fato importante a demarcar uma nova fase de atuação dos educadores católicos. O Concílio Vaticano II, denominado “flor de inesperada primavera”, pelo próprio pontífice, veio trazer novas perspectivas de atuação educacional, nas quais o homem, como sujeito, foi colocado no centro dos debates. Num pensamento de ecumenismo e de abertura, antigas práticas caíram por terra e leigos e religiosos foram convocados a atuar na busca pela formação integral do ser humano, como forma de saída do subdesenvolvimento.

Percebeu-se uma nova forma de tratar os assuntos educacionais, por parte da Vozes. As matérias, editoriais, bem como os aspectos gráficos gerais (capa, contra-capa, ilustrações) foram fortemente influenciados pelos “ventos conciliares”.

A Conferência Episcopal Latino Americana (CELAM), realizada em Medelin, 1968, reforçou o que ficara determinado no Vaticano II, porém na dimensão do continente latino americano.

Sobretudo na porção final da década, no período em que o país atravessava intenso momento de turbulências políticas e sociais, e o Ensino Superior se encontrava em crise, era de se esperar que os debates em torno da Reforma Universitária tomassem vulto e mobilizassem os representantes das Instituições Católicas.

Como já foi dito, a tribuna Vozes cumpriu, naquele momento, o seu papel de disseminadora de saberes e idéias, por meio da palavra impressa, com o intuito de influir no pensamento educacional da época.


Audição das Vozes católicas


No estudo dos exemplares da Revista de Cultura Vozes, no período específico, utilizou-se como referência uma proposta metodológica (ROTHEN, 2004) pela qual foi elaborada uma análise da trajetória da revista, como abaixo explicitado.

Ressaltou-se o histórico, a produção e os leitores da obra. Pelo histórico, percebeu-se a importância da publicação, que teve a sua estréia praticamente coincidindo com a fundação da Editora. Na produção da revista, enfatizou-se a presença de editorial a partir da proximidade da data de elaboração da Reforma Universitária e também como reflexo do término do Concílio Vaticano II e da Conferência do CELAM, em Medellín.

Quanto aos colaboradores que apareciam com freqüência na publicação e ao conteúdo presente nas capas, contracapas e demais espaços, foi percebido que seus perfis (dos autores e das temáticas) buscavam legitimar os saberes contidos nas matérias.

Com relação aos leitores, as visões sobre Ensino Superior disseminadas pela revista buscavam ecoar não só nos grupos que comungavam com ela, bem como se direcionavam aos opositores a essa visão, já que se tencionava atingir as consciências e obter consenso.

A Revista de Cultura Vozes foi criada em 1907 – a Editora Vozes foi fundada em 1901 -, com o papel de periódico para a divulgação dos produtos da editora, notícias locais e artigos religiosos. Em seu primeiro editorial, teve como título Quo vadis? (Aonde vais?), já evidenciava quais objetivos possuía: os de espalhar a doutrina cristã, com uma postura rígida e de acordo com os preceitos da Igreja.

Na década de 1960, já com seis décadas de existência e sua terceira denominaçãoiv - Revista de Cultura Vozes -, a publicação vivenciou uma fase de intensas transformações, como nela mesma expresso “afinada com seu tempo”.

No início da década de 1960, houve uma clara orientação anticomunista, chegando tal tema a figurar, de maneira constante e insistente, nos dizeres da grande maioria dos artigos da revista. A postura em relação às greves e aos movimentos sindicais também seguiam o mesmo padrão, por vezes, de intolerância e rejeição. Os movimentos reivindicatórios do campo, repetidas vezes, foram classificados pejorativamente de “infiltração comunista no campo” e “o mundo vermelho”, querendo “instituir a baderna e a desagregação das famílias” camponesas no país.

Particularmente nos anos 1961 a 1963, a postura católica se apresentava como única verdade capaz de promover a ideal formação do povo. Outras crenças, outros regimes políticos, outras visões pedagógicas, inovações e avanços sociais não eram sequer discutidos nas matérias.

No meio da década, essa visão se renovou e parecia florescer uma nova época em que o diálogo, o ecumenismo e a preocupação com o desenvolvimento social, tendo como foco o homem, predominou.

A partir do ano de 1965, no qual tiveram fim os trabalhos do Concílio Vaticano II, a Igreja forneceu orientações aos leigos e eclesiásticos para que buscassem se aproximar das massas, a “Igreja do povo de Deus” deveria atuar em todos os campos em que fosse possível, abrindo-se e participando das discussões (sociais, políticas, educacionais), inclusive, nas demandas sindicais, estudantis, agrárias etc.

Já com as posturas do meio da década solidificadas e os objetivos de ampliação de sua atuação fortemente difundidos, o pensamento católico, expresso pela Revista de Cultura Vozes, em relação ao Ensino Superior, tornou-se bem mais visível e direto nos anos de 1968 e 1969.

Desta forma, grandes temas foram trazidos ao debate com vistas a auxiliar a educação superior a se ver livre da crise pela qual passava; apontar saídas para o subdesenvolvimento; ao mesmo tempo em que se intencionava legitimar o ensino superior católico.

Entre as temáticas desenvolvidas, destacam-se:


  • Missão da Educação Universitária na América Latina.

  • Educação Cristã à Luz do Concílio.

  • Desenvolvimento Integral do Homem.

  • Ensino Superior e Desenvolvimento.

  • Educação, Fator Básico de Desenvolvimento.

  • Ensino Católico e seu Papel no Desenvolvimento.

  • Universidade e Diálogo.

Pela revista, por vezes, foi indicada a urgência em se alterar o perfil do Ensino Superior brasileiro, apontado como seletivo, acadêmico e importado. O Ensino Superior brasileiro, por vezes, foi categorizado como quantitativamente insuficiente, qualitativamente obsoleto em relação aos recursos e instalações, e ineficaz quanto aos seus aspectos estruturais.

Foram apontados fatores responsáveis pela crise pela qual a educação, neste nível de ensino, se encontrava. Pelos problemas diagnosticados e enumerados pela revista, foram sugeridas ações que solucionassem tal crise:



  • Necessidade de ampliação e diversificação dos estudos universitários; por exemplo, os cursos superiores muito procurados não correspondiam à demanda de mão-de-obra.

  • Necessidade de criação e/ou ampliação de cursos de pós-graduação.

  • Urgência em preparação e aperfeiçoamento do magistério e do pessoal administrativo.

  • Melhoria do espaço e equipamento especializado, que se encontravam insuficientes.

  • Aumento dos índices de matrícula. Já que apenas 2% dos jovens na faixa etária de 18 a 24 anos se encontravam matriculados no ensino superior. E havia apenas 22 mil graduados em um universo de 90 milhões de habitantes.

  • Alteração do regime de tempo parcial, para alunos e professores.

  • Modificação das estruturas de organização e administração, que estavam obsoletas.

Nas matérias publicadas – com maior freqüência a partir do ano de 1967 e especialmente em 1968 e no ano de 1969 -, percebeu-se a preocupação com a Educação no sentido de transformação social do ser humano. Algumas prerrogativas inerentes ao ensino superior católico foram adotadas pelos colaboradores, que representavam princípios básicos que não exigiam problematização:



  • Necessidade de maior integração da Universidade, na vida social da nação. A universidade não poderia sustentar, por mais tempo, a sua “redoma de vidro” com a qual promovia um distanciamento, e mais, uma proteção em relação à sociedade.

  • Não poderia haver desenvolvimento sem promoção humana. A Educação seria, sem dúvida, o processo não apenas inicial, mas permanente, segundo o qual o homem se tornaria verdadeiramente homem.

  • Necessidade urgente de incremento da contribuição financeira privada para a educação. E também incremento considerável dos programas nacionais de bolsas de estudos, empréstimos e assistência aos estudantes.

  • Fortalecimento da Educação Superior para a compreensão internacional.

  • A educação confessional, que sempre é uma escolha, com o apoio da família, seria a melhor opção de formação, comungando com os ideais próprios e inatos dos alunos.

Durante a década de 1960 e, principalmente, no seu final, a discussão da relação entre Ensino Superior e Desenvolvimento tomou corpo. No período que antecedeu a promulgação da lei da Reforma Universitária, os seguintes princípios básicos foram apontados pela maioria dos autores que escreviam na Revista de Cultura Vozes:



  • Exigência de planejamento para a reestruturação do ensino técnico, visando à força de trabalho e às necessidades previsíveis de recursos humanos para os planos de desenvolvimento das nações.

  • A missão da Universidade, além da formação de líderes, se encontraria na perspectiva de formação profissional e técnica. Finalmente, forjar a mão-de-obra na busca do desenvolvimento dos quadros técnico, científico e profissional do país.

  • A formação profissional, deveria estar sempre envolvida em direcionamentos por uma educação humanista.

  • O “clima de diálogo” e de “boa vontade” deveria ser alimentado e imperar na Universidade internamente e também desta com a sociedade. O avanço científico e tecnológico não poderia justificar o distanciamento de valores morais e éticos.

  • A Universidade – com sua missão de formar líderes da nação – seria responsável por ajudar os jovens na descoberta dos “valores que definem a sociedade em desenvolvimento” e na “vivência dos valores cristãos”, já que se encontram em “idade de transição” e participando de uma “sociedade em transformação”.

  • A missão da “formação consciente” da Igreja pela Educação: fomentar, por intermédio de colégios e universidades, um sentido profundo das injustiças sociais e uma consciência clara do dever social e político dos cristãos, sobretudo dos que mais receberam da sociedade.

Considerações finais


A Revista de Cultura Vozes se mostrou capaz de surpreender os leitores a cada número, trazendo temas polêmicos e dialogando “com a sociedade numa postura dialética”. Tal perspectiva, advinda dos “novos ventos” emanados pelo Concilio Vaticano II (1962 a 1965), talvez tenha se apresentado como tentativa de reação da intelectualidade católica que via seu poder sobre a educação ameaçado pela conjuntura da época.

Foram percebidos, pela pesquisa, mudanças de postura em relação ao trato com temas polêmicos: comunismo, educação liberal, UNE, por exemplo. Especialmente nos anos de 1961 a 1963, crenças, movimentos sociais e visões pedagógicas que se opunham à postura católica – a única capaz de promover a ‘formação ideal’ – eram vistas com intolerância e rejeição. No meio da década, começou a florescer uma orientação agora mais aberta em relação aos objetivos de ‘aproximação com as massas’.

Finalmente, nos anos de 1968 e 1969, tornaram-se bem mais visíveis e diretos os discursos acerca da urgência de se alterar o perfil do Ensino Superior no país, expressos na Revista de Cultura Vozes.

Fatores pedagógicos, estruturais, organizacionais e mesmo legislativos foram então tratados, avaliados, criticados e sugestões de mudanças foram feitas em relação aos seguintes aspectos:



  • Cursos e carreiras oferecidos;

  • Programas de pós-graduação;

  • Formação docente e do pessoal técnico-administrativo;

  • Espaços e equipamentos específicos;

  • Organização e administração universitária;

  • Tempo de dedicação de professores e estudantes;

  • Número de vagas;

  • Caráter de isolamento da sociedade;

  • Programas de incentivo financeiro às instituições;

  • Visibilidade internacional, entre outros.

A melhor opção, em meio à crise do ensino superior, se encontraria no ensino confessional, que sempre é uma escolha, com o apoio da família, promovendo a formação, comungando com os ideais próprios e inatos dos alunos.

A temática principal nas discussões da época, o desenvolvimento das nações - melhor dizendo, a saída do subdesenvolvimento - encontraria no Ensino Superior seu suporte. A formação profissional universitária deveria, porém se pautar em princípios de uma formação humanista.

Reflexivamente, a universidade se responsabilizaria por despertar nos jovens “valores que definem a sociedade em desenvolvimento” e a “vivência dos valores cristãos” para que estes pudessem participar efetivamente das transições sociais e políticas da sociedade.

O foco das discussões tornou-se a defesa da seguinte concepção católica: a educação, a formação, e a cultura como processos sucessivos e integrados, que deveriam ser perseguidos no Ensino Superior. Permitindo, assim, que a universidade cumprisse a sua missão de preparar os alunos para além da profissionalização, tendo como meta a formação humana. Ou seja, forjar mão de obra tecnicamente preparada, lapidar líderes que buscassem o desenvolvimento das nações na perspectiva da consciência moral e ética.


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i Neste texto, por vezes a Revista de Cultura Vozes (objeto da pesquisa) será referenciada simplesmente como Vozes. Os autores, em tais ocasiões não se referem à Editora Vozes e, sim, à revista especificamente.


ii Essa periodização teve como base os trabalhos de Araújo (1986), Azevedo (2004), Azzi (1979), Moraes (2003), Morais (1985), e outros.

iii Irmã Leônida Fávero (1995) aponta da perspectiva da Associação de Educação Católica (AEC), como naquele momento de realização de um Concílio Ecumênico (CVII) eram sentidas as recomendações para a atuação dos educadores católicos.

iv Inicialmente era chamada Revista Vozes de Petrópolis, também fora denominada, em um segundo momento, de Revista Católica de Cultura.




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