A crônica humorística de luis fernando verissimo: traços e recortes da realidade



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A CRÔNICA HUMORÍSTICA DE LUIS FERNANDO VERISSIMO: TRAÇOS E RECORTES DA REALIDADE. Luiz Rogério Camargo (PET Letras-UNICENTRO) Níncia Cecília Ribas Borges Teixeira (Orientador – Dep. de Letras/UNICENTRO), e-mail: lrcamargo.roger@hotmail.com Palavras-chave: Humor, Verissimo, Crítica Social Resumo As crônicas de Luis Fernando Verissimo têm como principal característica o humor. Seus textos exteriorizam conflitos políticos, sociais e ideológicos presentes na sociedade e a forma atrativa de seus escritos suscita no leitor a atividade crítico reflexiva a respeito das mais diversas situações que se lhe apresentam. O que se busca nesta pesquisa é constatar, justamente, a utilização do humor, aspectos de sua construção, e sua utilização como um instrumento de crítica social neste gênero. Introdução

Luis Fernando Verissimo é considerado um dos maiores cronistas da contemporaneidade. Um dos traços característicos das suas narrativas é a comicidade, que se apresenta das mais variadas formas Dentre os seus vários trabalhos (romances, contos, cartoons, etc.) o que mais se destaca é, justamente, a crônica, e nesta, por ser mais próxima do cotidiano, aparecem vários aspectos do humor no tratamento dos fatos sociais. Verissimo utiliza-se do humor, apresentando a seus leitores uma visão descontraída dos fatos do dia-a-dia. Seus textos exteriorizam conflitos políticos, culturais e ideológicos presentes no dia-a-dia.. O presente trabalho aborda alguns aspectos do humor e sua construção nas narrativas de Verissimo, bem como da crônica, gênero onde a obra do autor ganha mais destaque.



Materiais e Métodos

Em um primeiro momento foram realizadas leituras bibliográficas em livros, artigos, periódicos e sites, em seguida, foram selecionados materiais pertinentes visando obter respaldo teórico suficiente para embasar a pesquisa. Logo após, foram selecionados os textos que serviram de corpus analítico e a partir dos pressupostos teóricos, foi desenvolvido um estudo abordando a crônica de Luis Fernando Verissimo como objeto central de análise, tendo em vista o humor e alguns de seus diversos aspectos.


A crônica
A crônica, palavra ligada ao termo Chronos, deus da mitologia grega que representa o tempo, surge, originalmente, com o papel de registrar os fatos do cotidiano.

Pelo fato de a crônica surgir primeiro no jornal e para o jornal, muitas vezes acaba assumindo a mesma efemeridade da notícias que estampam as manchetes de maior destaque das bancas em um dia e nada mais são que papéis de embrulho em outro. Uma das formas de se preservar a crônica é sua a reunião em coletâneas, a partir de textos selecionados, seja pelo próprio autor, seja por mãos de terceiros. O livro garante assim, a permanência do texto, conferindo-lhe um caráter mais duradouro, visto que, dessa forma, já não está condenado a perecer junto ao jornal. Muitos textos, escritos há bastante tempo, ainda continuam dialogando com a sociedade atual, muitas vezes por tratarem de assuntos que não estão condicionados somente à notícia em si, e também por tratarem de certas coisas, insistem em não mudar.

Dessa forma, a crônica, mesmo depois de ser desvinculada do jornal e fazendo parte de um livro, ainda continua mais viva do que nunca. Nesse sentido, Marcelo Coelho afirma que “o propósito da crônica é fixar um ponto de vista individual, externo aos fatos, externo ao próprio jornal. Daí a crônica ser feita também com a intenção de ser publicada em livro depois”(MENEZES , 2002, p.157).
O texto humorístico
O riso sempre esteve presente no cotidiano das pessoas, seja nas piadas contadas entre amigos, seja em determinada situação engraçada, ou às vezes nem tanto, vivida por uma pessoa, e que foi motivo de sarro para outras. De todos os animais, somente o homem, ri, e fora o riso espontâneo das crianças, para citar Paes em Konzen, “a capacidade de rir está ligada intimamente à capacidade de pensar, privativa do homem, único animal racional” (Paes, 1993 apud KONZEN, 2002, p.47). Ou seja, o homem não só é capaz de rir, como também é o único com condições de tomar consciência de porquê o faz. Assim, é capaz de rir, até mesmo das próprias mazelas, sempre encontrando um jeito bem humorado para lidar os as mais difíceis situações. O riso funcionaria como uma espécie de contra ponto ao que está acontecendo. Uma forma de se dizer que algo não deveria ser de determinada forma, e que de alguma maneira, fugiu à normalidade, senão, não haveria motivo para rir.

Os textos humorísticos exploram os mais diversos aspectos, e vinculam por detrás dos enunciados uma mensagem que não salta às vistas do leitor logo de cara, é preciso uma leitura mais aprofundada para não cair no engano de perceber somente o que está sendo dito ao pé da letra. Para Posssenti, “provavelmente todas as piadas veiculam, além do sentido mais apreensível, uma ideologia, isto é, um discurso de mais difícil acesso ao leitor” (POSSENTI, 2002, p. 38). É nesse discurso que está implícito, que as críticas, mascaradas pelo humor, se escondem. Nem sempre os textos visam propor uma solução para os diversos problemas abordados, mas sim, suscitar a reflexão e o olhar crítico do leitor para a realidade na qual está inserido.


Resultados e discussões

Um dos grandes trunfos de Luis Fernando Verissimo é, justamente, tratar de situações muito comuns do dia-a-dia das pessoas. Em suas crônicas aparecem os mais variados temas sob os mais variados enfoques, onde personagens comuns vivenciam cenas do cotidiano que são familiares aos olhos da grande maioria das pessoas, senão por tê-las vivenciado ao menos por delas ter ouvido falar. Através de diálogos leves e marcadamente irônicos, Verissimo nos oferece uma visão crítica das muitas situações que envolvem o cotidiano.

Em seus textos, denuncia padrões sociais pré-estabelecidos que muitas vezes limitam o indivíduo enquanto ser detentor de vontade própria. Dessa forma o que acaba ocorrendo é uma alienação, uma vez que, sem o questionamento, simplesmente o indivíduo passa a aceitar tudo o que lhe é imposto, sem direito a contestação. Ao narrar fatos de que certamente já ouvimos falar, há entre o autor e o leitor uma certa cumplicidade, porque à certa altura o cronista consegue mergulhar o leitor para dentro o texto.
Conclusões

As crônicas de Verissimo, apesar de serem histórias criadas e que não correspondem a situações factuais, no entanto, não se afastam da realidade. Verissimo vai além do que é meramente factual, pois quando o que se mostra é o que está à vista de todos não há ganho nenhum em relação ao que já é fato. O cronista deve ir além do que os olhos podem ver. Para que se apreenda toda a significação da crônica é preciso que seja lida criticamente buscando perceber o que por trás dela se esconde.



Ao destacar as contrariedades presentes na sociedade, o autor procura chamar a atenção para a necessidade de que é preciso estar sempre alerta ao que se passa ao redor, sempre mantendo um olhar crítico sobre as mais variadas situações. Dessa forma o leitor acaba desenvolvendo um olhar crítico-reflexivo que o capacita a pensar a realidade de outra forma que não somente a que pode ser percebida em uma primeira instância.
Referências Bibliográficas
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução da 1ª edição brasileira coordenada e revista por Alfredo Bosi, revisão da tradução e tradução dos novos textos Ivone Castilho Benedetti. 4. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
D`ANGELI, Concetta; PADUANO Guido Paduano; O Cômico. tradução de Caetano Waldrigues Galindo. Curitiba: UFPR, 2007.
KONZEN, Paulo Cezar. Ensaios sobre a arte da palavra. Cascavel: Edunioeste,2002.
MENEZES, Rogério. Relações entre a crônica, o romance e o jornalismo. In: CASTRO, G. de e GALENO, A. (orgs.). Jornalismo e literatura: a sedução da palavra. São Paulo: Escrituras Editora, 2002.
POSSENTI, Sírio. Os humores da língua: análises lingüísticas de piadas. Campinas: Mercado de Letras, 1998.
SÁ, Jorge de. A crônica. 3. ed. São Paulo: Ática, 1987.
SHAPIRO, Harry L. Homem, cultura e sociedade. São Paulo: Fundo de cultura, 1966.
VERISSIMO, Luis Fernando. A versão dos afogados: Novas comédias da vida pública. Porto Alegre: L&PM, 1997.
______ Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

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