A culpa é da imprensa



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Yves Mamou

A culpa é da imprensa”

Ensaio sobre a fabricação da informação

Tradução de Felipe José Lindoso
Texto da Contra-capa

A imprensa engana e manipula. Quantas vezes as câmaras de televisão, os microfones das rádios e as folhas impressas se lançam em ataques cegos, se enganam e enganam seu público?

A culpa é da imprensa!?

Quantas vezes os próprios órgãos de comunicação reconhecem, entretanto, que foram manipulados, que só receberam informações distorcidas ou parciais?

A culpa é da imprensa!?

Os meios de comunicação são um bode expiatório? Seria fácil pensar assim.

Em uma sociedade que se desenvolve através de crises sucessivas - crises econômicas, políticas e sociais - a informação desempenha um papel de intermediário.

Cada vez que um grupo social luta por uma reivindicação, cada vez que um político ou um empresário quer ajustar suas contas, provoca uma crise - real ou manipulada - capaz de atrair a atenção da imprensa.

A desinformação, a mentira e o engano progressivamente corrompem a vida cotidiana.

No entanto, ao conhecer os mecanismos da manipulação da informação, o leitor pode ser capaz de decodificar o seu conteúdo e os interesses que se filtram através das notícias.

Yves Mamou, jornalista econômico e um dos editores do Le Monde de Paris nos mostra como a manipulação é feita, quais os mecanismos utilizados e como se defender das distorções. Repõe o assunto em seus devidos termos e mostra, neste livro cheio de casos e exemplos, como, afinal, a imprensa é um instrumento democrático essencial para todos os setores da sociedade.

Para Léah

Noé

Hugo


Dominique

O autor:

Yves Mamou é editor de Economia do Le Monde. Publicou, em 1968, o livro Une Machine de pouvoir. La direction du Trésor.

SUMÁRIO
Prólogo - A informação pode ser decodificada!

Capítulo 1 - Sociedade bloqueada, sociedade em crise

Capítulo 2 - A informação, carta no jogo da crise

Capítulo 3 - A resistência à crise se organiza

Capítulo 4 - O poder da informação

Capítulo 5 - O jornalismo ao risco da crise

Capítulo 6 - A desinformação, manipulação suprema

Capítulo 7 - O Golfo, uma crise de consciência

Conclusão - O jornalismo em busca de um estatuto

Bibliografia

PRÓLOGO
A INFORMAÇÃO DEVE SER DECODIFICADA!
Manchete! No dia 19 de julho de 1990, The Financial Times publica na primeira página, em seis colunas, que a Standard Telephone and Cables (STC), um dos principais grupos britânicos de eletrônica, está prestes a vender aos japoneses da Fujitsu 80% do capital de sua filial International Computer Limited (ICL). O acordo ainda não é definitivo, afirma o jornal inglês, mas, se for concretizado, a Fujitsu, que já é a terceira maior produtora mundial de computadores, logo atrás da IBM e da DEC, passará a ocupar uma posição decisiva no mercado europeu.

Logo às primeiras horas da manhã as emoções devastam os fabricantes de computadores. Francis Lorentz, presidente do grupo francês Buli, acusa publicamente os dirigentes da STC e da ICL de terem comprometido sua independência tecnológica em troca de lucros a curto prazo. Siemens, a líder da informática alemã, recusa-se a comentar, mas seus dirigentes parecem estar em estado de choque. Em Bruxelas, Maria Filippo Pandolfi (Comissária Européia1 encarregada da elaboração de uma política de pesquisas e tecnologia comuns para os doze países da Comunidade) lamenta que o centro de gravidade da indústria européia desloque-se cada vez mais para fora das fronteiras da CEE.

Apesar do desagrado dos europeus, no dia 29 de julho, Arthur Walsh, presidente da STC, anuncia a assinatura da venda da ICL para Fujitsu. Diz ele, numa entrevista coletiva, que “bravatas machistas” como a “preservação da independência nacional” em assuntos industriais, não devem interferir com a vida dos negócios e da indústria. Em outras palavras, se a indústria britânica decide curvar-se diante dos samurais, esse é um assunto que permanece estritamente privado.

Para além das considerações sexistas de Arthur Walsh, dois fatos merecem destaque. O primeiro é que, no mundo da informática, ninguém ignorava que a Fujitsu cobiçava a ICL. Em permanente reestruturação, a eletrônica é um mercado planetário no qual os fabricantes que pretendem desempenhar algum papel se conhecem muito bem. Todos, em um momento ou outro, sonharam em se aliar com um terceiro ou comprar um concorrente para assegurar uma melhor presença no mercado mundial. A vivacidade das reações se explica menos pelo anúncio da aproximação anglo-nipônica do que pelo aspecto quase definitivo - e inesperado - que as negociações tomaram.

Um segundo fato, que passou desapercebido, também merece atenção: é raríssimo que uma operação estratégica se torne pública antes de se concretizar. Tanto na Inglaterra quanto na França os jornalistas não são informados das operações em curso. Principalmente porque, no mundo dos negócios, nada é efetivamente comprado antes que um contrato seja definitivamente assinado. A fusão mais bem arranjada sob o ponto de vista jurídico ou econômico pode se arruinar no último minuto por conta da repartição de poderes entre os dirigentes das duas empresas.

Outro motivo para o segredo: a Bolsa. Alguns dias antes do desenlace de uma aquisição importante não é raro que as ações da companhia compradora comecem uma progressão inexplicada. São os clássicos delitos dos bem-informados que fizeram fracassar a compra da American National Can (ANC) por Pechiney, em 1988. Ao anunciar como certo a próxima compra da ICL pela Fujitsu, o Financial Times não noticiou simplesmente rumores correntes na Bolsa ou entre os concorrentes. Tudo indica que o jornal se beneficiou de um vazamento de informação. Como é obrigatório pelo sistema de proteção das fontes, o jornalista não mencionou nenhum nome e ninguém lhe fez perguntas. No entanto, alguém, envolvido de perto nas negociações entre ICL e Fujitsu, se deu ao trabalho de revelar o assunto off the record a um jornalista. Com que propósito? Essa é a pergunta. Esse informante procurava tornar inevitável uma venda que estava ameaçada? Ou, ao contrário, procurava criar emoções suficientemente fortes para obrigar os dirigentes da ICL a renunciar? Queria provocar a intervenção do governo de Margaret Thatcher e impedir que um japonês adquirisse a flor da informática da indústria britânica?

Saber quem falou e por que é sempre impertinente. Em primeiro lugar porque conseguir uma resposta não é nada fácil. Um jornalista digno desse nome jamais trai suas fontes. No entanto, mesmo sem resposta, essas perguntas têm um interesse pedagógico. Elas permitem que perguntemos a nós mesmos sobre a maneira como se fabrica a informação. Quando, ao final do mês de março de 1991, Le Figaro publica na primeira página de seu caderno econômico certas críticas do Tribunal de Contas sobre a maneira como a Caixa de Depósitos e Consignações utilizou os saldos de poupanças da Caderneta A2 para operações pouco ortodoxas na Bolsa, é claro que esse jornal se beneficiou de vazamentos cheios de intenções. Um relatório do Tribunal de Contas, na França, sempre permanece confidencial e não se destina senão aos olhos de um pequeno número de iniciados. Quem achou por bem divulgá-lo para o grande público? Um responsável da Caixa de Depósitos? Alguém no Ministério da Economia e das Finanças? Um parlamentar, membro do Conselho de Supervisão da Caixa de Depósitos? E que objetivos moviam o informante? A simples informação do grande público? Ou a cabeça do diretor geral da Caixa?

O público desconhece uma evidência: nos períodos de crise, a informação é uma carta de jogo, um elemento de poder. E já que é uma carta, necessita ser decodificada. Um primeiro-ministro que cai diante de um rival, Urna oferta pública de compra, um processo, uma greve estudantil atiçam pessoas físicas e jurídicas, apetites de tamanho diverso, ciúmes e rivalidades. Nesses conflitos, os golpes freqüentemente são trocados através de meios interpostos. Quem controla a informação, seja sobre si mesmo ou sobre outrem, atribui-se um trunfo decisivo para a vitória. Esse controle raramente sofre alguma censura. Ao contrário, o vazamento está para a democracia como o segredo está para a ditadura.

Nos sutis meandros dos conflitos de poder, se a informação é farta, corre também o risco de ser manipulada. A informação no meio da crise - mentira, desinformação, instrumentalização dos meios -, este é o objeto deste livro. Longe de procurar um bode expiatório, este ensaio se propõe a ser um foco de luz sobre o espaço obscuro e mal conhecido que precede a difusão da informação.

Como todos os produtos comerciais, a intormação é fabricada. Diversas pessoas se envolvem na sua preparação. Alguns são profissionais da comunicação - assessores de imprensa, consultores -, e outros, mais numerosos, não são especialistas - juizes, policiais, diretores de empresas, políticos, diplomatas, militares. O jornalista se defronta com as duas categorias. O que dizem uns para os outros? Que relações mantêm entre si? Por qual tratamento passou a informação antes de chegar às orelhas de um jornalista? A informação é verificada? O jornalista pode ter confiança no que lhe dizem? É um boato ou uma informação? Um jornalista pode sempre citar suas fontes?

São inúmeras perguntas às quais nem sempre é possível responder de maneira exaustiva, já que as situações são variadas e diferentes umas das outras. É pouco provável que a sociedade francesa algum dia se torne completamente transparente. Por conseguinte, é importante que o principal destinatário da informação - leitor, telespectador, ouvinte - tenha um mínimo de chaves para compreender. E decodificar.

CAPÍTULO I


SOCIEDADE BLOQUEADA, SOCIEDADE EM CRISE
“A culpa é da imprensa”. Essa acusação aparece regularmente. Quando, ao final de 1989, a televisão francesa tomou alguns cadáveres exumados em um cemitério de Timisoara, na Romênia, por uma chacina de vários milhares de pessoas. Quando, a 17 de janeiro de 1991, a imprensa francesa e a internacional consideraram a ausência de resistência iraquiana no primeiro dia dos bombardeios como um sintoma de vitória rápida. Quando ela abriu suas colunas para as calúnias do inspetor Dufourg no momento em que ele tinha que responder sobre o desaparecimento do pastor Doucé. Quando os jornais deram crédito ao boato de que a atriz Pauline Lafont fugiu. Quando...

Os exemplos poderiam ser multiplicados. A cada vez, a opinião pública francesa se indigna diante dos excessos da imprensa, bradando contra a irresponsabilidade e a manipulação: a culpa é dos meios de comunicação.

Essa enfermidade não é exclusiva da sociedade francesa. Em novembro de 1990, o jornalista americano Robert Samuelson ironizava docemente na Newsweek3 contra a idéia corrente de que, se os Estados Unidos mergulhavam docemente na recessão, a culpa era dos meios de comunicação. O raciocínio é simples, explicava Samuelson: todas as histórias apocalípticas que os jornais escritos e televisados contam criam um clima apocalítico no país. A desmoralização se espalha, e ninguém mais investe nem gasta seu dinheiro. De repente, a economia começa a fazer água. Robert Samuelson contradiz assim esse pseudo-raciocínio: “É culpa dos meios de comunicação se foram construídos demasiados edifícios de escritório, a ponto de 19,5% da superfície construída continuar desocupada? É culpa dos meios de comunicação se o preço do petróleo se multiplicou por dois desde 1990? Os meios de comunicação são culpados pela inflação passar de 4,4% em 1987 para 6% em 1990? Ou pela diminuição de 14% do lucro das empresas desde 1988?”

Limitar-se a dizer que os meios de comunicação não fabricam os problemas, que sua função é simplesmente a de torná-los conhecidos não explica por que a acusação aparece com tanta regularidade nem por que ela persiste apesar de tudo. Aceitar - pelo menos provisoriamente - a idéia de que os meios de comunicação estão na origem de todos esses males nos obriga a nos interrogarmos sobre o status que ocupam nas sociedades desenvolvidas.) Será essa posição diferente hoje da que foi ontem? Os próprios órgãos de informação terão evoluído? Tratam eles as notícias da mesma maneira? Qual o seu papel exato durante as crises? São tantas perguntas novas que às vezes é difícil proporcionar uma resposta exaustiva.


Os meios de comunicação: qual a sua responsabilidade ?
A primeira modificação das relações entre o sistema de informação e o resto da sociedade diz respeito ao tempo. A rapidez da transmissão dos fatos (imagens, sons, artigos escritos) hoje em dia não tem mais nenhuma medida comum com o que acontecia há apenas dez anos. O anúncio da entrada das tropas iraquianas no território do Kuwait repercutia entre as audiências das rádios, televisões e jornais do mundo inteiro enquanto os habitantes da Cidade do Kuwait ainda se perguntavam por que os tanques ocupavam, os cruzamentos da cidade. Através do casamento entre a informática e as telecomunicações, a informação chega a seu público quase que em tempo real. A diferença entre o momento em que o acontecimento se produz e o de quando ele é difundido tende a se anular.

Graças a uma rede muito densa de correspondentes, as agências de notícias freqüentemente são as primeiras a repercutir a informação. As doze maiores agências mundiais enviam, cada uma, de 6.000 a 8.000 despachos por dia. Em sua grande maioria essas informações são de interesse puramente local, ou nacional. Mas quando um chefe de Estado importante é assassinado, ou um país declara guerra a outro, o planeta inteiro se transforma numa aldeia em ebulição.

A televisão via satélite, capaz de retransmitir imagens e sons ao vivo, às vezes balança a proeminência das agências. Em 1985, quando um grupo de terroristas palestinos fez reféns dos passageiros do navio italiano Achille Lauro, o apresentador do canal a cabo da CNN, a partir do estúdio de Atlanta, nos Estados Unidos, multiplicou as perspectivas chamando cada um dos atores da crise. O barco estava sendo filmado por helicópteros, e as equipes de Washington, Beirute, Túnis, Jerusalém e Roma apresentaram, em alguns minutos e ao vivo, os pontos de vista da Casa Branca, dos governos israelense e italiano e de Yasser Arafat, na Tunísia. Simultaneamente, o apresentador podia obter de uns as respostas às perguntas que outros faziam a milhares de quilômetros. A crise se desenvolvia ao vivo, sob os olhos de milhões de telespectadores.

Entretanto os meios de comunicação só veitaram tardiamente dos progressos da tecnologia. Os banqueiros foram os primeiros a compreender o interesse que representava a transmissão e a execução em tempo real das ordens financeiras. Atualmente, dia e noite, de tela para tela de computador, bilhões de francos, dólares, ienes dançam uma ronda permanente ao redor de toda a terra. Foi no começo dos anos 80 que as televisões se apropriaram das novas técnicas. Meio morno, transmitindo uma realidade fria há apenas quinze anos, a televisão transfomou-se num meio fervilhante graças aos satélites. A revolta ao vivo dos estudantes chineses na praça Tian An Men, a crise do Golfo, foram outros acontecimentos nos quais as câmeras de televisão - e principalmente as da CNN (Cable News Network), cadeia de televisão por cabo baseado em Atlanta (Geórgia) - conseguiram a façanha de focalizar a opinião pública mundial.

Se a técnica confere aos meios de comunicação modernos uma potência de retransmissão e de amplificação sem precedentes, o campo e o tratamento da informação também evoluíram. O aumento das seções de economia dos grandes jornais parisienses é, nesse sentido, significativo. No final dos anos 50, Le Monde não dedicava mais que duas ou três colunas por dia às grandes decisões do governo Pinay e às grandes reformas nacionais ou internacionais: relatórios do Conselho Nacional de Crédito, plano de recuperação econômica espanhol, etc. A essa informação de base somavam-se alguns encartes financeiros pagos pelas grandes empresas cotadas na Bolsa.

Dez anos mais tarde, na corrente dos anos 70, a informação econômica conquistou um pouco mais de espaço, mas permanecia muito institucional ou social: grandes medidas fiscais do governo, comunicados do Conselho Nacional do Patronato Francês (CNPF), orientações orçamentárias ou descontentamento dos agricultores diante da política agrícola comum. O tema da energia irrompeu brutalmente no domínio diplomático-econômico a partir de 1974. Ao contrário, o setor de negócios continuava bem magro. As empresas raramente faziam por onde se falasse delas e não apareciam no noticiário senão por ocasião de aquisições importantes: entrada da ATO-Chimie no capital de Rousselot, por exemplo (novembro de 1977).

Hoje, a informação econômica do Le Monde continua essencialmente institucional, mas ocupa um espaço multiplicado por cinco em relação aos anos 50. A inflação, o orçamento do Estado, a economia internacional são temas mais amplamente desenvolvidos. Ao mesmo tempo, aparecem ao lado de artigos consagrados à vida das empresas. Os grandes conflitos na Bolsa (o ataque fracassado de Georges Pébereau contra a Société Générale em 1988, ou a oferta pública de compra por Suez da Companhia de Seguros Victoire) ocupam, quando acontecem, um lugar privilegiado.

Outros jornais experimentaram um aumento semelhante de suas seções. Les Échos, originalmente um jornal de pequenos anúncios a serviço das empresas, pouco a pouco aumenta suas seções. Nos anos 70, esse diário serviu principalmente de espelho para o meio empresarial e como instrumento de luta para as facções rivais que compunham o CNPF; às vezes como porta-voz do próprio CNPF, no começo do primeiro mandato de Mitterrand. Conservando ainda essa função, o jornal também desenvolveu, espicaçado pela concorrência, uma informação cada vez mais independente e diversificada. A internacionalização da indústria francesa provocou uma melhoria da cobertura micro-econômica, e as privatizações promovidas pelo governo Chirac entre 1986 e 1987 provocaram a criação de uma verdadeira seção financeira.

Le Figaro que, como o Le Monde, espremia a economia num espaço apenas conveniente, criou, em meados dos anos 80, um caderno especial, cor salmão, desenvolvido pouco a pouco até se transformar num verdadeiro jornal econômico. Cerca de sessenta jornalistas colaboram nesse suplemento diário que tem como objetivo fazer concorrência aos jornais especializados como Les Échos ou La Tribune de L’Expansion.

Até mesmo o Libération entrou nessa linha. Quando esse jornal rompeu com um esquerdismo moribundo em 1981, inaugurou, ao mesmo tempo que uma nova fórmula, uma editoria econômica com dois jornalistas. Esta editoria se transformou na página “Dinheiro”. Todo dia, por dois anos, esta página proporcionou a um leitor, ainda submetido aos ideais de maio de 68, o aprendizado dos mecanismos econômicos e financeiros. Naquela época a editoria encarregada de cobrir os acontecimentos sindicais e os conflitos sociais tinha quatro jornalistas e duas páginas. Oito anos mais tarde foi criada uma editoria “Bolsa”, que conquistou notoriedade e credibilidade. Depois, a antiga editoria sindical/social foi reformulada no seio de uma editoria de economia ampliada.

A razão dessa inversão é simples: a reabilitação do dinheiro, o enfraquecimento dos sindicatos e do debate político, a impossibilidade de conceber os movimentos sociais como únicos geradores da evolução econômica e social - a luta de classes não leva mais à revolução - levaram o Libération a harmonizar seu tratamento da informação com o dos outros jornais, dos quais se tornou concorrente. Os semanários e os diários de província também abriram suas colunas para a informação econômica. As empresas, o dinheiro e a Bolsa se transformaram em assuntos de interesse para o grande público.
A televisão contra a imprensa escrita
Contração do tempo, ampliação do noticiário - além da economia, os jornais abriram-se para os assuntos da sociedade, e a moda, a cultura, a música, a tecnologia passaram a ser bem mais comentados do que há vinte anos - transformaram primeiro o próprio setor da informação. O lugar dos meios de comunicação na sociedade se modificou? Ao que tudo indica, sim. Sem entrar numa análise aprofundada das evoluções da imprensa, pode-se afirmar que a transformação dos meios de comunicação do pós-guerra passa primeiro pela televisão. Progressivamente, esse farol estranho ocupou um lugar estratégico na vida social e familiar, comparável àquela da igreja num vilarejo medieval. O padre Di Falco, diretor da revista católica La Vie, lamentava, em fevereiro de 1991, que a comunhão cotidiana dos franceses com o noticiário televisivo das 20 horas transformou-se no principal fenômeno religioso deste fim do século XX.

As análises empreendidas por Dominique Wolton, diretor de pesquisas no CNRS4 sobre a televisão e seu papel social permitem compreender melhora nova situação dos meios de comunicação. Segundo ele, o encontro íntimo e renovado a cada dia de um público heterogêneo com uma oferta global de imagens televisivas (jogos, programas culturais, informação, filmes) cria um laço social. Laço esse tanto mais eficaz por ser livre, invisível e sem reação. Cada um se “liga” e se “desliga” como bem o quer. Na teoria, explica Dominique Wolton, todo mundo pode ver os mesmos programas ao mesmo tempo. Na realidade, públicos diferentes e móveis consomem de maneira seletiva as diferentes grades de programação - o público dos esportes é diferente daquele que desfruta os musicais. Mas durante todo o tempo de transmissão, a oferta das redes abertas5 encontra uma demanda permanente, quer esta seja global ou seletiva.

Esta conjunção entre um meio e seu público só tem sentido se repousar sobre a confiança. É esta última que confere à televisão seu papel de laço social. Segundo Dominique Wolton, a “adesão do público à televisão parte da confiança, já que ela oferece ao público um pouco de tudo, e, portanto, faz um pouco o que ele deseja.” A liberdade concedida a cada um de ligar seu aparelho “em confiança”, de escolher seus programas, de pular de um canal para outro, é a condição primária para aceitar esse “companheiro a domicílio”.

Esse crédito proporcionado por cada um à televisão é ainda mais necessário pelo fato da telinha não oferecer apenas diversão. Ela é também um instrumento de informação e de abertura para o mundo. Guerras, fomes e catástrofes naturais penetram a domicílio, sempre sem prevenir. A ponto de se tornarem um sério fator de desequilíbrio. É preciso uma fé intangível nas boas intenções do meio televisivo para aceitar essa intromissão em casa de um exterior “mais freqüentemente selvagem e violento do que amistoso e caloroso”.

A menos, é claro, que essa selvageria seja o preço a pagar para ter acesso às diferentes dimensões do jogo social. Se a televisão representa um laço, é porque diversas frações da sociedade, indiferentes umas às outras no cotidiano - analfabetos e diplomados, jovens e velhos, agricultores e operários -, têm acesso simultâneo aos diferentes tempos e lugares do noticiário. Já que não existe ninguém entre os indivíduos e a sociedade, a televisão faz o papel de go-between6, assegurando uma transmissão entre o particular e o geral.

A televisão não tem o monopólio de apresentar um aspecto da vida social para todos. O conjunto dos meios de comunicação trabalha nisso noite e dia. O rádio, meio “quente”, oferece, entre sua grade de programas sonoros, o mesmo coquetel de violência, cultura e diversão que a televisão. O rádio também só é tolerável a domicílio por que criou uma “confiança”. Essa decorre da possibilidade que cada um tem de escolher seus programas, de se ligar ou se desligar sem prestar contas.

A imprensa escrita faz pálida figura ao lado desses meios completos. Se considerarmos a imprensa escrita em seu conjunto, a banca de jornais da esquina oferece ao leitor a mesma variedade de programas que o rádio e a televisão. Desde a revista de notícias sobre a nobreza feliz ao catálogo de La Redoute, passando pelas revistas especializadas em consertos domésticos, tricô, treinamento de cães, vida íntima dos peixinhos vermelhos, automóveis, e sem esquecer os diários e semanários de informação geral, cada núcleo familiar pode escolher sua abertura para o mundo. Um jornal, qualquer que seia seu conteúdo. representa um põntõcfé acesso aos outros e à sociedade.

O universo dos meios de comunicação conquistou, dessa forma, um papel social central: dirigindo-se a todos, permite a cada um ter a ilusão de transparência para com os outros, com o poder e com os mecanismos da sociedade. Ao irrigar o conjunto do tecido social, os meios de informação são um mapa - talvez o único - à disposição de todos os cidadãos, para se orientar em todos os domínios da vida econômica, social ou política.

Rapidez e multiplicidade de informação, confiança, papel de intermediário social... Os meios de comunicação contentam-se em mostrar as mil e uma peripécias que afetam a sociedade? Será que afetam de volta o funcionamento e a evolução das instituições? Em outros termos, será que os meios de comunicação amplificam os problemas... a ponto de fabricá-los?

A acusação freqüentemente feita aos meios de comunicação por permitir que Jean-Marie Le Pen se alçasse à condição de presidenciável pode servir como fio condutor. Os políticos acusam a imprensa de haver dado credibilidade ao personagem. Os grandes programas políticos da televisão ecoaram suas propostas racistas e xenófobas, afirma o Partido Comunista. O tambor dos meios de comunicação deu consistência ao personagem e criou seu eleitorado?

Lamentar que os meios de comunicação criem falsos ídolos não tem sentido, a priori. A não ser que se diga que essa máquina de fabricar espetáculos se transformou em uma fábrica de realidades. Será que Le Pen deixaria de existir se os meios de comunicação não falassem mais dele? Permito-me duvidar disso. É claro que o “lepenismo” assumiria então uma forma diferente. Assim como as revoltas estudantis, as manifestações violentas dos agricultores, os erros judiciários: os descontentamentos não desapareceriam, mas se produziriam de maneira diferente. Acusar os meios de comunicação leva a vantagem de desviar o debate. Em vez de interrogar-se sobre a paralisia de uma sociedade democrática diante de um movimento de extrema direita que a contesta em seus fundamentos, os políticos acham mais cômodo nomear um bode expiatório.

É verdade que a imprensa freqüentemente - e com muita freqüência, sem dúvida - barulhentamente se nutriu de Le Pen. E seus rangidos de dentes fizeram ressoar o vazio político e institucional. Demasiadamente interessados em gerir suas querelas internas, nem o Estado nem os partidos políticos souberam marginalizar o movimento de Le Pen. E muito menos elaborar uma resposta aceitável para os problemas que ele coloca: a perda da identidade nacional, a rejeição da Europa e dos imigrantes em favor de um isolacionismo político e étnico. Acusar o termômetro sempre foi mais fácil do que cuidar da doença. Os partidos políticos de direita pagam por isso, em 1991, com uma grave crise de identidade.

De fato, a França se encontra numa situação paradoxal. Os bloqueios institucionais e sociais são antigos mas explodem em crises sucessivas. Estas são imediatamente teatralizadas pelos meios de comunicação e produzem um contra-choque tão forte que os meios de comunicação, e particularmente a televisão, são acusados de haver fabricado a crise. As aparências são enganadoras, é claro. Particularmente por que, cada vez mais, as crises se expressam segundo modelos que lhes permitem serem reconhecidas pelos meios de comunicação: elas se transformam em espetáculo. É um perfeito círculo vicioso.



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