A cultura Chinesa na visão do Ocidente



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Características da Gramática Chinesa


O chinês é uma língua não-flexionada. As palavras não sofrem modificações de acordo com o número, o gênero, o caso, o tempo, a voz ou o modo. Não há conjugação nem declinação. O que torna o aprendizado do chinês um dos mais fáceis do mundo. As relações gramaticais são indicadas sobretudo pela ordem das palavras e pelo emprego de palavras auxiliares. Por exemplo, diríamos em chinês: "Ontem ele deu eu dois literatura revolução livro”. A ordem das palavras indica claramente que "ele" é o sujeito, "eu" o objeto indireto e "livro" o objeto direto. De modo que, de acordo com a regra, todos os modificadores devem preceder as palavras por eles modificadas, "literatura revolução" deve significar "revolução literária" (e não "literatura revolucionária", embora isso também fizesse sentido), e a frase toda deve ser o modificador de "livro".

O outro recurso para indicar as relações gramaticais é o emprego de palavras auxiliares. O emprego de uma palavra ou frase referente a tempo sugere o tempo verbal. Um verbo de ação seguido da palavra auxiliar lei indica o sentido completado. "Eu" seguido de ti se transforma em "meu".

As palavras chinesas não são classificadas em partes do discurso, como as inglesas. Uma palavra pode ser usada como substantivo, adjetivo, advérbio ou verbo, dependendo de sua função na sentença. Elas, entretanto, se repartem em duas classes gerais: "sólidas" e "vazias". As palavras "sólidas" possuem um significado por si mesmas, enquanto as "vazias" são usadas apenas como preposições, conectivos, interjeições ou partículas interrogativas.

Por exemplo: a forma interrogativa em chinês não inverte a ordem do sujeito e do verbo. Numa das três maneiras de fazer uma pergunta, a ordem das palavras é exatamente igual à de uma afirmação, acrescentando-se porém a palavra "vazia" ma no final. Essa partícula auxiliar, por si mesma destituída de significado, transforma a afirmação em interrogação. Assim, em chinês, "Você é americano ma", quer dizer "Você é americano?" As palavras "vazias" como ma muitas vezes constituem a chave para a interpretação de urna sentença. Mostraremos adiante a significação de tudo isso para os processos mentais.


Características do Chinês Escrito


O chinês é escrito em termos de símbolos, chamados "caracteres". Os caracteres não são representações fonéticas e sim ideogramas. Cada um deles consiste em certo número de traços, escritos numa ordem determinada e projetados de modo a se inscreverem num espaço quadrado (quadrículo) imaginário. De fato, os cadernos destinados às crianças são pautados em colunas de quadrados, em cada um dos quais será escrito um dos caracteres. É preciso aprender de cor a reconhecer a forma de cada um deles individualmente, e a escrever os traços que os constituem da maneira e na ordem adequadas.

A despeito de todas as diferenças dialetais na China, os caracteres escritos são os mesmos para todos os grupos de dialetos. Sendo ideogramas, os caracteres têm o mesmo significado ou significados para todos os leitores, embora possam ser pronunciados diferentemente nas diversas regiões.

A construção original dos caracteres chineses baseou-se em quatro princípios. O primeiro é a representação pictórica. A forma arcaica de jih ("sol") é um círculo com um ponto no centro. Mais tarde convencionou-se que seria um retângulo na vertical, com um traço curto e horizontal no meio. Um crescente representa a "lua". Três picos representam uma "montanha". O símbolo para "árvore" tem uma linha vertical representando o tronco da árvore, dois traços que se abrem em baixo para representar as raízes e outros dois em cima sugerindo os ramos. O símbolo de "porta" é claramente a imagem de um par de portas de vai-e-vem e pouquíssimas alterações sofreu em mais de 3 000 anos.

Essa qualidade pictórica dos caracteres chineses levou Fenollosa (que escrevia no alvorecer do século) a afirmar que ela muito contribuiu para a imagética visual da poesia chinesa.(5) Admitia-se que, ao ver o símbolo da "lua", o leitor chinês não somente obtinha uma idéia da lua, como também via uma lua crescente. Tal concepção está hoje desacreditada, simplesmente por não ser verdadeira. Quase todos os caracteres pictográficos modificaram tão drasticamente suas formas que já não são imagens picturais. O leitor chinês simplesmente os considera como símbolos convencionalizados de idéias. É ainda certo, entretanto, que os chineses tratam os caracteres escritos como desenhos artísticos. Talvez não seja coincidência que a arte chinesa sobressaia no campo visual.

O segundo princípio de construção dos caracteres é o diagrama. Algumas idéias não podem ser representadas, podendo ser, entretanto, diagramadas. Por exemplo, um, dois e três são representados, respectivamente, por um, dois e três traços. Um ponto acima de uma linha horizontal representa "acima", e um abaixo dessa linha significa "abaixo".

O terceiro princípio é o da sugestão. Dois caracteres são colocados juntos para formar uma palavra que sugira uma terceira idéia. A palavra "brilho" é formada colocando-se juntos os caracteres que significam "sol" e "lua". Duas árvores lado a lado sugerem uma "floresta". Uma mulher segurando uma criança significa "amor", e como o amor é bom, a extensão do significado transforma a palavra em "bom".

O quarto e último princípio é o da combinação de um elemento significativo e de um elemento fonético. O primeiro indica a categoria geral de coisas a que pertence o significado da palavra, enquanto o segundo fornece o som do caráter. Por exemplo, as palavras equivalentes a "oceano" e "ovelha" são ambas pronunciadas yang, De modo que, para escrever "oceano", o símbolo de "ovelha" combinou-se com o de "água", tendo sido ambos originalmente palavras-pinturas. Essa combinação é para indicar que o novo símbolo tem algo a ver com água, sendo o elemento "ovelha" apenas fonético. A grande maioria das palavras chinesas pertence a tal tipo (6), Um dos inconvenientes atuais dos caracteres desse tipo é que, em muitos casos, sua pronúncia se distanciou da dos seus elementos fonéticos.

Os caracteres chineses se classificam num dicionário de acordo com 214 "radicais" ou partes identificadoras. Muitos desses radicais são elementos significativos que indicam categorias gerais de coisas e idéias. Os radicais são apresentados na ordem do número de traços neles contidos. Seguindo radical por radical, os caracteres que possuem o mesmo radical são apresentados na ordem do número de traços da parte restante do caráter ou do elemento fonético. É preciso, antes de tudo, identificar o radical contido num caráter, para poder saber onde buscar a palavra no dicionário. Trata-se de um processo fastidioso e por vezes difícil.

Os primeiros registros escritos em chinês remontam a cerca de 1400 anos a.C. Durante a Antigüidade, os escritos devem ter permanecido bem próximos da maneira de falar. Contudo, com o desenvolvimento e a difusão da língua por uma área mais vasta, a maneira de falar se modificou mais rapidamente e se tornou mais diversificada que a escrita. Por volta do ano 600 d.C., o chinês escrito já se tornara uma língua morta, mas os eruditos continuaram a usar o chinês clássico em todas as formas de escrita, tanto literárias como práticas. A partir de 1 000 d.C., aproximadamente, a ficção e o drama começaram a ser redigidos em vernáculo, mas os eruditos não viam com bons olhos esses escritos. Tal situação perdurou até 1919. O chinês clássico garantiu a continuidade lingüística do passado e a unidade para os instruídos acima das diferenças dialetais. A situação assemelhava-se à da Europa pós-renascentista, quando os sábios dos diversos países. Falando várias línguas, podiam comunicar-se uns com os outros em latim. Embora o vocabulário, a gramática e a sintaxe do chinês clássico sejam algo diferentes em relação ao chinês vernáculo de hoje, a estrutura básica da língua e os caracteres escritos são os mesmos.

Linguagem e Pensamento Relacional Tendo examinado rapidamente as características da língua chinesa, representada pelo mandarim, passo agora a explorar alguns dos inter-relacionamentos entre língua e pensamento. Os caracteres ideográficos monossilábicos e não-flexionáveis proporcionam um instrumento congenial à reflexão relacional, que tem sido uma qualidade distintiva do pensamento e da cultura chineses. Em virtude da estrutura da língua, a atenção se volta para as relações entre as palavras, mais do que para as próprias palavras individualmente. Embora isto se aplique, em maior ou menor grau, a todas as línguas, é particularmente relevante no caso do chinês. Em inglês, um substantivo é um substantivo e conota uma espécie de "substância" real ou imaginária (7). Mas em chinês, quase todas as palavras, com exceção das partículas "vazias", podem ser substantivos, dependendo de sua posição e de sua função na sentença. A dependência da ordem das palavras e o emprego de palavras auxiliares para esclarecer os significados salientam inevitavelmente a importância das relações e do arranjo estrutural (pattern) das palavras.

Essa ênfase se exprime na literatura, particularmente em sua forma mais elevada - a poesia. Existe um tipo de poesia clássica no qual um poema é geralmente composto de quatro dísticos. Cada verso contém cinco ou sete caracteres. Os dísticos que intervêm entre o primeiro e o último do poema devem mostrar um paralelismo, obtido graças a um cuidadoso equiparamento das categorias e dos tons. Cada uma das palavras do primeiro verso de um dístico tem o seu paralelo numa palavra correspondente no segundo verso, pertencente à mesma categoria de coisas, como, por exemplo, aos fenômenos astronômicos, ao reino vegetal, ao domínio da casa e do jardim, da alimentação, ou de qualquer outra categoria estabelecida. Uma palavra usada como adjetivo no primeiro verso deverá encontrar um adjetivo correspondente na mesma posição, no segundo verso, e assim por diante. Além disso, a uma palavra no primeiro ou no segundo tons no primeiro verso, deverá corresponder uma palavra no terceiro ou no quarto tons no segundo verso, ou vice-versa. O primeiro e o segundo tons também podem entrar em correspondência. Nenhum tom corresponderá a si mesmo. E mais: o conjunto do poema deve ser conforme a um dos esquemas de rimas padronizados no final de certos versos.

O que vem a seguir é uma tradução literária do segundo dístico de um conhecido poema de Wang Wei, do oitavo século:



Bright moon amidst pines shines

Clear Spring over rocks flows

[Brilhante lua entre pinheiros reluz/ Clara fonte sobre rochas flui]

Os sons e tons são indicados pela seguinte versão romanizada, consoante a atual pronúncia do mandarim:

ming yüeh sung xien chao / qing qüan shih shang liu

Os dois versos deste dístico foram cuidadosamente equiparados quanto à categoria material, à estrutura gramatical e ao esquema tonal. (9) Essa tendência a combinar e equilibrar as coisas ou idéias é exigida não somente neste tipo de poesia como também aparece freqüentemente em outros tipos de versos e até na prosa. Seria difícil, senão impossível, conseguir semelhante espécie de paralelismo com palavras polissilábicas, flexionáveis e não-tonais, como as inglesas.

A ênfase dada às relações entre as palavras tem provavelmente muito a ver com o pensamento relacional manifestado em numerosas áreas da vida e da cultura chinesas. Alguns exemplos serão suficientes. A arte e a arquitetura chinesas se caracterizam por uma acentuada noção de equilíbrio. A atenção se volta menos para os elementos separados que para a configuração total. As idéias são muitas vezes denotadas por expressões compostas, constituídas de antônimos; por exemplo: “comprar-vender" é “comerciar"; "avanço-recuo" é "movimento"; "norma-caos" é "condição política", etc. Os antônimos não são tidos como opostos irreconciliáveis, mas sim como suscetíveis de união para formar uma idéia completa. Um dos conceitos-chave da Filosofia chinesa se expressa através de um composto de antônimos, yin - yang. Esses dois termos denotam duas forças opostas porém complementares no universo, cuja interação produz todas as coisas e cuja unidade se baseia no Supremo. É do conhecimento geral que o Confucionismo, filosofia dominante na China durante mais de 2 000 anos, é em grande parte um código de ética para governar as relações humanas. Sua atenção se volta não para o indivíduo, mas sim para a teia das relações humanas. Sua preocupação é com a ordem e a harmonia na família e na sociedade, e não com a liberdade individual dos membros que as constituem. Assim, são enfatizadas as obrigações morais de um indivíduo para com os outros e não os "direitos individuais" de cada um.

Até a cozinha chinesa reflete esse pensamento relacional. No preparo dos alimentos, a maneira chinesa consiste em cortar as coisas e cozinhar os ingredientes em combinações e proporções adequadas. Uma longa experiência provou que determinadas combinações de ingredientes são mais agradáveis que outras. Até os pratos de um mesmo jantar devem estar agradavelmente relacionados uns com os outros. Cozinhar um prato apenas ou elaborar um menu, é tudo uma questão de construir um modelo configurativo. Por outro lado, uma refeição ocidental dá a impressão de ser o produto de uma mente analítica. Carne e legumes são cozidos separadamente. Come-se carne por causa da proteína, batata e pão por causa dos hidratos de carbono, manteiga pela gordura, legumes pelas fibras; bebe-se café em razão do líquido; e, finalmente, toma-se uma pílula por causa das vitaminas!




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