A cultura Chinesa na visão do Ocidente



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Estrutura da Sentença, Lógica e Filosofia


Há ainda um outro sentido, mais profundo e mais estrito. no qual a linguagem influencia o pensamento. Segundo Tung-Sun Chang, a Lógica e a Filosofia ocidentais são determinadas pela gramática ocidental, enquanto que as suas contrapartidas chinesas são determinadas pela gramática chinesa (10). A sentença inglesa deve ter sujeito e predicado. Esta estrutura leva, por si mesma, ao conceito de lei de identidade, que é o fundamento da Lógica aristotélica. A proposição com sujeito e predicado dá origem aos conceitos filosóficos de substância e atributo. O estudo da substância leva à concepção de ser supremo em religião e de átomos em Ciência. Do conceito de substância derivou a idéia de causalidade, que, por sua vez, dá origem à Ciência. De modo que as categorias do pensamento ocidental são identidade, substância e causalidade, determinadas talvez, todas três, pelo padrão das sentenças nas línguas ocidentais.

Por outro lado, uma sentença chinesa não exige nem sujeito nem Predicado, embora eles possam ser muitas vezes encontrados. Em muitas ocasiões, estando o sujeito claro no contexto, é omitido; outras vezes, o sujeito simplesmente inexiste. Por exemplo, "Gotejar chuva" é uma sentença perfeitamente correta em chinês, enquanto que em inglês seria necessário dizer "It rains". A possibilidade de dispensar o sujeito em chinês torna mais fácil imaginar o cosmo num perpétuo processo circular de transição, sem necessidade de postular um agente externo para atuar ou controlar o processo. É um conceito-chave da cosmologia chinesa.

Esta concepção reflete uma falta de interesse pela substância, pelo substrato das coisas. Os caracteres escritos são apenas signos e não substância. Os fenômenos naturais também são signos. Mas dos signos vêm as coisas. Os chineses não investigam o substrato das coisas, estando interessados unicamente nos signos e em suas relações. A língua chinesa nem sequer dispõe de uma palavra para "substância". Os chineses se interessam pela Vontade do Céu, não pela natureza do Céu. A Vontade do Céu se revela nas condições sociais e políticas. Confúcio concentrou portanto a sua atenção nos assuntos humanos.

Além disso, uma sentença chinesa não precisa de verbo. "Montanha grande" é uma sentença. Não é necessário usar o verbo "ser". Na realidade, o verbo "ser" não existe no chinês clássico. Em inglês, numa sentença de definição, é absolutamente indispensável esse verbo. No chinês clássico, uma definição emprega duas palavras "vazias", Che e yeh. Por exemplo, uma definição de jen (humanidade) assumiria a seguinte forma: jen che jen yeh. O segundo jen é um caráter diferente que significa "homem". Em outras palavras, a sentença define por analogia, dizendo, com efeito, "humanidade é a qualidade do homem".

Sem o padrão sujeito-predicado na estrutura da sentença, o chinês não desenvolveu a noção de lei da identidade na Lógica, nem o conceito de substância em Filosofia. E sem esses conceitos, não poderia haver noção de causalidade, nem de Ciência. O chinês desenvolve, em lugar disso, uma Lógica correlacional, um pensamento analógico e um raciocínio relacional que, apesar de inadequados para a Ciência, são extremamente úteis em teoria sociopolítica. (11) É por isso que, primacialmente, a Filosofia chinesa é uma Filosofia da vida.

Não tendo a sentença chinesa necessariamente sujeito nem verbo, pode-se perguntar "Qual é a sua estrutura básica?" Fique entendido que certos tipos de sentenças em chinês se assemelham, de modo geral, a determinados padrões das sentenças inglesas, existindo porém algumas que não têm similar em inglês, por sua singularidade. Como salientou Chao (12), um padrão comum de sentença em chinês consiste num tópico seguido de um comentário. A pessoa que fala primeiro menciona um tópico sobre o qual vai falar e diz em seguida algo a respeito do mesmo. A ação é apenas uma espécie de comentário e. o tópico não precisa ser agente dessa ação. Por exemplo: "Ele, coração bondoso, mente estúpida". Não seria estritamente exato traduzir essa sentença por "Seu coração é bondoso mas sua mente é estúpida". Seria melhor traduzir por: "Falando dele, seu coração é bondoso mas sua mente estúpida". Ou então: "América, muitas famílias têm dois carros" significa "Falando da América, muitas famílias têm dois carros". Chao compara esse tipo de sentença à sinalização nas estradas inglesas: "Terceira rua, conserve a direita". A Regra de Ouro chinesa também assume essa forma: "O que você não quer para si, não faça aos outros".

Tal estrutura de sentença sugere que o tópico é mais vasto e mais abrangente do que o comentário. O que está de acordo com a idéia de que o cosmo é infinitamente complexo e o que podemos dizer a seu respeito se reduz a comentários ínfimos, que mais distorcem a verdade do que a revelam.

Essa convicção está subjacente à atitude mística no Taoísmo, filosofia que agiu paralelamente ao Confucionismo e com ele interagiu na história do pensamento chinês. O Taoísmo também considera o "ser" e o "não-ser" como interdependentes, e insiste sobre o fato de que o ser extrai sua utilidade ou função do não-ser. A utilidade de uma tigela não está em suas paredes e sim em sua concavidade. Essa ênfase atribuída ao não-ser leva à idéia de não-ação, na conduta pessoal tanto quanto no governo, ao apreço pela quietude e pela meditação, à importância do emprego de espaços vazios para contrabalançar os objetos numa pintura chinesa, etc. Essa atração pelo não-ser talvez seja influenciada pelo fato de que, em linguagem, os chineses devem prestar uma atenção especial às palavras "vazias" que, embora destituídas de significado próprio, desempenham um papel crucial na estrutura de uma sentença. Uma vez dominadas as palavras "vazias" habituais, o estudante terá vencido a parte mais difícil da gramática chinesa.

Nesta análise, evidentemente, ficam definidas apenas algumas das maneiras segundo as quais a estrutura da língua chinesa pode ter influenciado a formação do pensamento tradicional na China. Passemos agora a considerar o outro lado da moeda; isto é, como as idéias ocidentais que se impuseram na China moderna levaram a modificações na linguagem.



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