A cultura Chinesa na visão do Ocidente



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A Criação de Novos Termos


Depois que as comportas se abriram em virtude da derrota da China na Guerra do Ópio (1839-42), o país se viu inundado por um afluxo de coisas e idéias ocidentais, algumas das quais não tinham nome em chinês. Era preciso criar novos termos. Havia duas soluções alternativas para o problema. A primeira seria usar os caracteres chineses ou símbolos fonéticos para a transliteração do som ou sons da palavra inglesa. A segunda seria forjar uma nova palavra ou expressão com caracteres chineses para traduzir o significado da palavra estrangeira. Os dois métodos foram utilizados tanto na China como no Japão; mas a China deu ampla preferência ao segundo método, ao passo que a moderna tendência no Japão é para a transliteração por meio da escrita fonética. [Os japoneses desenvolveram um silabário fonético especial, katakana, precipuamente destinado a transliterar palavras estrangeiras]

Não dispondo originalmente de uma escrita fonética, pareceu incômoda aos chineses a transliteração de sons estrangeiros em caracteres ideográficos. De modo que, na maioria dos casos, recorreu-se ao método da tradução. Por exemplo: um trem foi chamado huo che (fogo carruagem); uma caneta-tinteiro. zu lai mo shui pi (pena trazendo sua própria tinta líquida); átomo, yüan tzu (partícula original); etc.

Traduziu-se "democracia" como min chu chu yi (povo senhor senhor significado). Este composto de quatro caracteres é, na realidade, produto de dois caracteres compostos. O primeiro constituinte compósito significa "povo sendo senhor", e o segundo significa "uma doutrina ou ideologia mestra". A totalidade do composto de quatro caracteres significa "a ideologia que diz ser o povo senhor do país". Da mesma forma, "comunismo" é kung chan chu yi (propriedade comunal senhor significado).

Quando se descobriu o urânio, foi preciso criar um caráter inteiramente novo para designá-lo em chinês. Sua construção obedeceu ao quarto princípio de formação dos caracteres, já analisado, combinando-se um elemento significativo, ou radical, e um elemento fonético. O radical escolhido foi o caráter que significa "metal", escrito do lado esquerdo do recém-criado, e o elemento fonético é um caráter que se pronuncia "u", escrito à direita. A combinação resultante, considerada como um caráter simples, pronuncia-se u. [N. Curiosamente, U (ou yu) representa a germinação de um grão e, por extensão, "princípio", "origem", "ponto de partida", "causa" (cf. L. Wieger, Chinese Characters, Dover Publications, Nova Iorque, 1965); isto poderia levar o leitor a interpretar semanticamente (ainda que "a posteriori") a segunda parte do composto, já que o urânio, o mais pesado dos elementos naturais, é a "origem" ou "ponto de partida" da energia atômica...]


A Renascença Chinesa


Os contatos com o Ocidente trouxeram para a China as idéias de consciência nacional, lealdade nacional e independência nacional. Essas e outras noções ocidentais deram origem em 1917 a um movimento de libertação lingüística, intelectual, social e política, conhecido como Renascença chinesa, que empolgou o país durante uma década mais ou menos. (13) Uma das fases desse movimento preocupou-se com o fato de que, embora sempre tivesse havido na China uma unidade lingüística na escrita, não havia unidade no falar. Um número considerável de pessoas, particularmente no litoral sudeste da China, falava dialetos muitos diversos. Visando à unificação do falar, os líderes promoveram e finalmente garantiram a adoção oficial do mandarim como língua nacional, que seria ensinada nas escolas de todo o país. Como o mandarim já era falado como língua materna por cerca de setenta por cento da população chinesa, excluídas as minorias étnicas, sua adoção constituiu um objetivo exeqüível. Criou-se, e passou a ser utilizada nos manuais impressos, uma escrita fonética elaborada com partes dos caracteres chineses. Ela poderia ser colocada ao lado dos caracteres para indicar as pronúncias nacionais dos mesmos.

A unidade lingüística na escrita é dada por uma língua morta: o chinês clássico. Seu vocabulário e seu idioma, a gramática e o estilo são algo arcaicos. Embora constitua um excelente recurso para a poesia e outros escritos literários, ela se adapta com dificuldade às necessidades da descrição científica, do raciocínio preciso e até mesmo da literatura realista. De modo que uma outra fase da Renascença teve de se haver com a adoção do falar comum da maioria das pessoas (isto é, do mandarim) como meio de comunicação escrita para todas as finalidades. Esta proposição, que desencadeou a Renascença, suscitou uma grande controvérsia. Terminou com a vitória dos advogados do vernáculo, em 1922. A partir de então, todos os manuais das escolas elementares foram obrigatoriamente editados em mandarim e o chinês clássico vem sendo ensinado apenas nos cursos médio e superior. O objetivo desse movimento era a unificação do falar e da escrita, e a produção de uma literatura viva numa língua viva.

Tal reforma lingüística promoveu, de fato, uma grande emancipação da mente chinesa nos domínios literário, intelectual e cultural. Rompeu com as rígidas convenções do passado e deixou-se fascinar pelas idéias e pela expressão literária ocidentais. Os escritores experimentaram as formas ocidentais da poesia e do drama, escreveram versos livres, criticaram a herança cultural chinesa e enalteceram a Ciência e a democracia do Ocidente. Espocaram periódicos às centenas e uma enxurrada de livros novos, escritos no vernáculo, ajudou a aplacar a sede de novos conhecimentos: As transformações sociais (reforma do sistema familiar, emancipação das mulheres, aumento da mobilidade social, etc.) e os movimentos políticos (antifeudalismo, antiimperialismo, nacionalismo, etc.) começaram a manifestar-se e a vicejar. Esses aspectos da Renascença fogem ao escopo deste ensaio. Basta dizer aqui que as reformas lingüísticas não tiveram lugar num vácuo social; estiveram, pelo contrário, intimamente ligadas aos movimentos sociais e políticos. Os efeitos da Renascença ainda continuam.

Até a gramática e o estilo de escrever do inglês têm sido imitados. Alguns escritores adotaram o sistema de pontuação usado em inglês. O chinês clássico não tem sinais de pontuação e as citações não são realçadas por nenhuma marca. Considerava-se um insulto ao leitor não esperar que ele fosse capaz de fazer pausas nos lugares convenientes do texto, ou de identificar a fonte de uma citação. Essa ausência de pontuação leva por vezes à ambigüidade. Ao adotar a pontuação inglesa, passamos a nos desviar para o lado do supérfluo. Por exemplo: colocar um ponto de interrogação depois de ma, partícula interrogativa, no final de uma pergunta, é uma redundância.

A influência do Ocidente afetou até a gramática chinesa. Em chinês, raramente se usa a voz passiva. Com referência a objetos inanimados, a voz ativa tem significado de passiva. Por exemplo: "O címbalo e o tambor percutem forte", quer dizer "o címbalo e o tambor são percutidos fortemente”. Referindo-se a uma pessoa, a voz passiva é indicada pelo símbolo pei precedendo o verbo, como em pei sha (ser morto). A voz passiva é usada apenas em circunstâncias desastrosas. De modo que um purista dificilmente diria em chinês: "Fui convidado para jantar". Ele diria "Alguém convidou-me para jantar" ou então "Recebi um convite para jantar". Atualmente, sob a influência ocidental, o emprego da voz passiva está generalizando-se e é bastante comum dizer-se "Ele foi eleito presidente" sem ficar implícito que ele fez face a uma oposição! (14)

Outra pequena prova de ocidentalismo nos escritos literários sofisticados é a colocação de uma cláusula dependente depois da cláusula principal, ficando ambas separadas por um traço. Esta construção contraria as normas gramaticais do chinês. Ainda não é muito comum na redação corrente, mas parece que vai sendo cada vez mais praticada. Outro desenvolvimento é a tendência a imprimir o chinês em linhas horizontais em lugar do sistema tradicional, em que se escrevia e lia em colunas verticais. Isso é de uso particularmente comum nas revistas científicas para facilitar a incorporação de fórmulas e equações ao texto chinês. A impressão horizontal é hoje prática corrente em todos os jornais e revistas da China continental.




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