A cultura Chinesa na visão do Ocidente



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Reforma da língua e eliminação do Analfabetismo


A alfabetização universal é uma das características distintivas de uma nação moderna, mas a natureza ideográfica dos caracteres chineses representa um enorme empecilho à realização dessa meta. Alguns caracteres correntemente utilizados contêm muitos traços, e embora em outros os traços sejam poucos, a colocação errônea de um, por pequeno que seja, transformaria o caráter noutro muito diferente. Como na maioria dos casos a forma dos caracteres não tem relação alguma com a pronúncia deles, cada um tem de ser aprendido de cor. O que, evidentemente, retarda o ritmo do aprendizado e impede a educação universal.

Foram tomadas três providências diferentes, visando a diminuir essa dificuldade. A primeira foi a seleção dos caracteres mais habitualmente usados, a fim de formar uma lista das palavras básicas. Esses caracteres devem ser ensinados nas escolas elementares e nos cursos de alfabetização. O Comitê de Reforma da Língua da China Comunista publicou em 1952 uma lista de palavras comuns contendo 1010 caracteres na primeira classe com referência à freqüência de utilização, e 490 caracteres na segunda classe, totalizando 1500. Além disso, há uma lista suplementar de 500 caracteres na terceira ordem de freqüência. Calcula-se que, tendo aprendido os 1 500 caracteres básicos, uma pessoa esteja capacitada a ler cerca de noventa e cinco por cento dos "textos de leitura popular". Esta percentagem parece otimista, visto como um jornal médio utiliza cerca de 4000 caracteres.

A seleção dos caracteres básicos é apenas parte de uma tarefa mais vasta porque, lembre-se, o chinês moderno emprega um grande número de compostos, os quais têm de ser aprendidos como unidades. Em 1958, foi publicada uma lista de 20000 compostos correntemente usados em mandarim. Incidentalmente, há cerca de 400 desses compostos para cada um dos quais existe, pelo menos, um outro vocábulo compósito, pronunciado exatamente da mesma maneira e com o mesmo tom. Se fossem escritos foneticamente, só se poderia estabelecer uma distinção entre eles através do contexto.

A segunda tentativa de erradicação do analfabetismo consistiu em simplificar os caracteres complexos pela redução do número de traços de cada um. Conseguiu-se isso mantendo uma pequena parte do caráter complexo; ou então substituindo um elemento mais complicado por um mais simples; ou ainda adotando um homófono mais simples no caso dos caracteres intrincados; e de várias outras maneiras mais. Formas simplificadas de muitos caracteres vinham sendo usadas há muito tempo pelos homens de negócios, mas eram mal vistas pela elite educada da velha China. Elas têm agora a aprovação oficial e vêm sendo criadas novas formas simplificadas.

Um exemplo extremo de simplificação é o do caráter qang (fábrica), cujos quinze traços foram reduzidos a dois. Em 1956, o governo da China Comunista promulgou oficialmente uma lista de 515 caracteres simplificados a serem utilizados em lugar das formas complexas originais em todas as publicações. Como muitos deles servem de radicais para numerosos outros, o efeito da simplificação vai muito além dos 515 caracteres oficialmente arrolados. A análise mostra que aqueles 515, em suas formas originais, tinham em média, cada um, 16,1 traços, ao passo que, depois da simplificação, o número de traços por ideograma desceu para 8,2 (uma redução, portanto, de 50%).

O terceiro esforço a favor dessa campanha de alfabetização consistiu na elaboração de um plano de transformação da escrita, que abandonaria os caracteres ideográficos para adotar um alfabeto. Depois de muitos estudos, a China comunista anunciou em 1958 a adoção das vinte e seis letras do alfabeto latino usadas em inglês, e de um sistema padronizado para escrever o mandarim com esse alfabeto - com exceção da letra "v" que seria usada apenas para reproduzir sons estrangeiros e das línguas minoritárias da China. Esse sistema (15) emprega letras simples, dobradas ou mesmo mais de duas em combinações, para representar vinte e uma consoantes, seis vogais, e vinte e nove ditongos. Há quatro sinais diacríticos para indicar os quatro tons e um sinal divisar para indicar, sempre que necessário, que duas vogais adjacentes, ao serem soletradas, devem ser pronunciadas isoladamente. Esse sistema está sendo usado (1) para indicar a pronúncia mandarim dos caracteres, e como auxiliar para o aprendizado do mandarim, língua nacional padrão; (2) para ajudar as minorias étnicas existentes na China, que não dispõem de sistemas próprios, a criar uma escrita para suas línguas; (3) na transliteração de nomes próprios estrangeiros e de termos científicos; (4) para ajudar os estrangeiros a aprenderem o chinês; (5) para compilar índices; e (6) para substituir eventualmente os caracteres. É linha de ação prevista pelo regime comunista utilizar este sistema em lugar dos caracteres em data futura, ainda não determinada.

Na verdade, a substituição dos caracteres por uma escrita alfabética encontraria no momento presente várias e sérias dificuldades. Uma delas diz respeito ao grande número de palavras homófonas. Por exemplo, os caracteres que significam "novo", "coração", "salário" e "prazer" são todos pronunciados xin, no primeiro tom, embora os caracteres escritos sejam muito diferentes. Se a sua grafia alfabética correspondesse aos respectivos sons, eles seriam enunciados de maneira idêntica, e o leitor teria de adivinhar o sentido exato baseando-se no contexto.

A tendência do chinês moderno a usar expressões compostas, cada uma delas constituída por dois ou mais caracteres, tomando-se assim, em certo sentido, um idioma polissilábico, representa uma solução parcial para o problema dos homófonos. Entretanto, de acordo com uma análise preliminar, dos 14000 compostos, cerca de 790 grupos têm pronúncias idênticas e, por conseguinte, também são escritos alfabeticamente de maneira idêntica, implicando 1986 caracteres homofônicos. Quando o significado correto de um homófono não pode ser inferido através do contexto, a única maneira de elucidá-lo numa sentença redigida alfabeticamente é incluir imediatamente depois da palavra homófona o ideograma adequado, ou usá-lo em lugar da expressão alfabética. É o que se faz na transmissão de telegramas na China comunista entre as estações ferroviárias, onde boa parte do conteúdo dos telegramas diz respeito às operações de rotina da estrada de ferro. Cerca de cinco por cento das palavras nesses telegramas têm de ser transmitidas em símbolos de código numérico, conversíveis em caracteres ideográficos. Contudo, as agências públicas do telégrafo não usam de maneira alguma a escrita alfabética; seguem ainda o método tradicional da conversão de cada ideograma num número quadridígito, de acordo com um código para transmissão arbitrariamente convencionado, que será reconvertido em ideograma ao ser recebido. Significa isto que, pelo menos nas atuais circunstâncias lingüísticas, a escrita alfabética dos chineses carece de inteligibilidade, precisão e segurança quanto ao significado, e suas conseqüências são também aleatórias. Não obstante, o governo comunista adotou recentemente uma política de estímulo para que o povo empregue uma mistura de escrita alfabética e de ideogramas na escrita informal.

Outro problema sério na escrita alfabética é a união de elementos num composto para escrevê-los como uma só palavra. Até agora não existem regras que padronizem a definição ou a delimitação dos compostos. Esse problema fica esquecido quando se escreve chinês com os caracteres ideográficos, pois estes não se agrupam na sentença de modo a indicar os compostos. Mas escrever cada um dos componentes de um composto separadamente, em escrita alfabética, representa a perda da individualidade da expressão escrita. O resultado pareceria quase tão destituído de sentido quanto, entre nós, "A-mér-i-ca é u-ma de-mo-cra-ci-a." O correspondente em chinês de "pequena burguesia" é xiao (pequena) zu chan (propriedade) zhie xi (classe). Esta expressão pode ser escrita como uma palavra única e comprida, ou em duas ou três palavras, dependendo de como se delimitem os componentes internos do composto integral. A escrita terá de apresentar uma padronização muito maior no agrupamento dos elementos dos compostos, em relação ao estágio atual, antes que se possa escrever o chinês alfabeticamente de maneira inteligível.

Um terceiro obstáculo para que se escreva o chinês alfabeticamente vem da falta de uniformidade na pronúncia, no vocabulário e até na estrutura gramatical, não somente entre os dialetos, como até mesmo no mandarim. O símbolo para "irmão mais velho" pode ser pronunciado ko ou ke "Cimento" pode ser designado como yang hui ou shui ni.

"A não ser que a maioria concorde, então poderemos chegar a uma decisão" é hoje tão aceitável quanto "A não ser que a maioria concorde, não poderemos chegar a uma decisão". Essas variações já são bastante embaraçosas quando escritas em caracteres chineses, mas seriam ainda mais dificilmente reconhecidas em escrita alfabética. Normalmente, a sintaxe e a gramática chinesas já são suficientemente elásticas para provocar freqüentes ambigüidades. (16) A menos que se faça um maior acordo baseado num uso mais uniforme, a confusão e a ambigüidade talvez fiquem acrescidas pela escrita alfabética.

São essas as reformas que se estão processando na língua na China Comunista, e os problemas concomitantes. O governo nacionalista, antes de perder a parte continental para os comunistas, mostrou-se favorável à seleção dos caracteres básicos para o ensino às crianças e analfabetos, assim como à utilização de uma escrita fonética como auxiliar para a pronúncia, mas não favoreceu a substituição dos caracteres. Havia duas formas de escrita fonética. Denominava-se uma Gwoyeu Romatzyh (Romanização Nacional), e utilizava o alfabeto latino para indicar a pronúncia mandarim dos caracteres. Como essa forma se assemelha à escrita ocidental e não pode ser convenientemente impressa ao lado dos caracteres, seu emprego jamais se tomou extensivo, nem foi oficialmente encorajado. A outra forma era chu yin zu mu (as "Letras Fonéticas Nacionais"), e consistia em trinta e nove símbolos derivados de elementos de antigos caracteres chineses. Esta forma tem sido regularmente ensinada nas escolas elementares controladas pelo governo nacionalista e demonstrou ser um instrumento eficiente para ensinar o mandarim a pessoas que não o falam, e com um alto grau de precisão na pronúncia. Desde 1937, todos os livros de texto das escolas elementares têm de ser Impressos em caracteres chineses à cuja direita vem indicada a respectiva pronúncia em "Letras Fonéticas Nacionais". O receio de incorrer numa grave ruptura com a herança cultural chinesa impediu a China nacionalista de estimular oficialmente a simplificação dos caracteres, embora a maioria das pessoas recorra, dentro de uma certa medida, a formas abreviadas na escrita cotidiana. O governo nacionalista tem-se oposto energicamente - como era de supor - à escrita alfabética.

No continente, os defensores das reformas declararam que somente o pensamento marxista seria capaz de produzir as reformas da língua. (17) Sem ser necessário aderir a esse ponto de vista particular, é indiscutível que as concepções ocidentais provocaram mudanças lingüísticas na China moderna. Por outro lado, Hajime Nakamura demonstrou que a ideologia budista - elo comum entre os hindus, os chineses, os tibetanos e os japoneses - tem sido submetida a diversas interpretações por esses quatro povos em virtude das diferenças lingüísticas. (18) Assim sendo, não serão as idéias ocidentais, e as concepções marxistas em particular, modificadas na China, em virtude das peculiaridades lingüísticas dos chineses, muito embora estas últimas já estejam passando por transformações?

A interação entre a linguagem e o pensamento em chinês, como nas outras línguas, é real e tem inúmeras ramificações. A consciência dessa interação liberta o indivíduo de uma espécie de prisão semântica e lhe torna possível evitar uma armadilha em que caiu Immanuel Kant. Desconhecendo línguas de tipo não-ocidental, provavelmente, Kant foi levado a admitir que as categorias do pensamento por ele formuladas eram universais no pensamento humano. Nada menos verdadeiro. A compreensão da interação entre a linguagem e o pensamento é sem dúvida algum um dos requisitos essenciais de uma educação liberal.




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