A cultura Chinesa na visão do Ocidente



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Dinastia Xia


Entre esses heróis culturais admirados pelos chineses, Yu é particularmente interessante, pois sua contribuição foi o controle das enchentes e a irrigação. Considera-se que foi tão devotado à sua tarefa que, quando voltou a seu distrito depois de uma ausência de nove anos, ao avistar sua casa perto do rio, continuou o seu caminho, sem se dar ao trabalho de nela entrar. Tais mitos, que não se podem enquadrar em qualquer quadro cronológico de referência estabelecido pela arqueologia, mostram que, embora a China tenha lutado em muitas guerras cruéis, o seu ideal tem sido sempre a realização cultural pacífica e não a vitória em batalhas. A lenda de Yu demonstra que o herói cultural necessário é o que pode organizar os homens e uni-los para combater uma catástrofe natural como uma enchente de grandes proporções. A sociedade chinesa reconhece a importância vital do trabalho coletivo para os objetivos comunitários; ao passo que o credo individualista ditado pelas circunstâncias da fronteira americana acredita no pioneiro solitário que, com ajuda da família, pode demarcar no sertão um pedaço de terra para seu usufruto em liberdade. Um pequeno grupo de indivíduos não é de qualquer utilidade nas planícies da China setentrional; lá são precisos dezenas de milhares, cada um carregando juma pá e um sacode areia, para domar a irada “Tristeza da China", o rio Amarelo.

A dinastia Xia (datas tradicionalmente atribuídas: 2205-1766 a.C.) não está associada a qualquer prova arqueológica até hoje conhecida. Entre os cronistas oficiais de épocas ulteriores havia a tendência para recuar num passado tão remoto quanto possível o surgimento do Estado chinês como sistema centralizado, burocrático e dinástico. Assim sendo, a historicidade dos Xia é duvidosa, mas os eruditos tornam-se cada vez mais cautelosos. Houve um tempo em que se pensou que a dinastia Shang, também conhecida como dinastia Yin (segundo a tradição, de 1766 a 1122 e, mais corretamente, de 1523 a 1027 a.C.) foi também considerada como lendária. E, no entanto, a lista de reis da dinastia, recolhida nas inscrições reconhecidas como datando dos Shang, harmonizava-se quase totalmente com a lista tradicional dada pelo grande historiador do século II a.C., Sima Qian (Ssu-Ma Ch'ien), assim defendendo inteiramente, nesse caso, a posição das fontes literárias. Um julgamento sobre os Xia não deve, portanto, ser feito até que surjam novas provas.


Dinastia Shang


A história dos ossos divinatórios dos Shang é uma das mais excitantes dos anais da arqueologia, graças ao clarão que lançou sobre os primórdios da história da China. Essa história pode ser comparada, em seus aspectos mais amplos, à da decifração da escrita linear B na Creta minóica, cujos textos originais pertencem quase à mesma época. (Esta é também a época do faraó Tutancâmon.) Pouco antes do final do século XIX, alguns eruditos chineses descobriram que os chamados "ossos de dragão" estavam aparecendo em farmácias chinesas para serem usados no preparo de remédios tradicionais. Tais ossos eram considerados como mágicos por trazerem símbolos inscritos. Pesquisas sérias começaram a ser feitas, a respeito dos ossos, em 1903, mas só se conseguiram resultados mais completos depois de intensas escavações (efetuadas de 1928 a 1937), em Anyang, perto da grande curva do rio Amarelo, na área conhecida como o berço da civilização chinesa. Desenterraram-se ao todo 100 mil desses ossos - omoplatas de veados e bois e carapaças de tartaruga - e publicaram-se os resultados da pesquisa efetuada em 15 mil deles. Os caracteres neles inscritos, que datam das proximidades do ano 1300 a.C., representam sem dúvida a forma mais antiga conhecida da língua chinesa. Cerca de 5 mil caracteres foram catalogados e 1.500 deles, decifrados. Uma importante reforma da escrita chinesa realizada no século II a.C. levou a que se esquecesse o significado de muitos dos mais antigos sinais gráficos.

Os ossos divinatórios, os soberbos vasos de bronze e os túmulos dos Shang revelam uma civilização de esplendor e violência. Os reis eram sepultados em caixões dentro de imensos poços com duas ou quatro rampas de acesso. Um cão era sacrificado e imediatamente colocado sob cada caixão, e numerosos tesouros (5.801 peças em determinado túmulo) eram enterrados junto com o monarca. Entre os objetos mais valiosos, que contavam como símbolos de status, estavam carros de combate, com cavalos e cocheiros previamente mortos e enterrados com aqueles, e vasos culturais de bronze. Os carros eram similares aos que Homero descreve na Ilíada e que pertencem ao ano 1200 a.C. Tais carros eram construídos com um alto grau de habilidade técnica. As duas rodas de madeira são finas e têm 16 ou mais raios. A estrutura da boléia, apoiada no eixo e no varal, que se estendia para colocar-se entre os dois ou quatro cavalos, era pequena e leve, mas de tamanho suficiente para carregar o cocheiro e o lanceiro, bem como o rei ou o nobre que possuía o carro. Os cubos das rodas tinham de ser avantajados, a fim de distribuir o calor gerado pela fricção da madeira na madeira, embora breu ou banha animal fossem empregados para lubrificá-los. Ornatos de carro e de arreios, em bronze de alta qualidade, foram preservados nos túmulos.

Um aspecto sombrio dos funerais Shang era o sacrifício de um grande número de vítimas humanas, em grupos de dez. Eram elas cerimonialmente decapitadas com grandes machados, também encontrados nos túmulos. Tratava-se de prisioneiros de guerra ou de indivíduos capturados nas tribos de pastores nômades das fronteiras ocidentais dos Shang. Esse massacre e o fato de que as vítimas estavam, por vezes, algemadas, levou os historiadores marxistas chineses a darem a esse período a denominação de "Sociedade Escravista". WiIliam Watson aponta uma semelhança entre os Shang e os Estados da antiga Mesopotâmia, no que se refere às instituições da realeza e da classe sacerdotal, do sacrifício e da consulta ao oráculo, do uso do carro de combate e do arco, e "da hipertrofia do rito funeral acompanhado de sacrifício humano. Sob tudo isso, havia um vasto número de camponeses que mal tinham ultrapassado a fase da velha economia neolítica."[WiIliam Watson, Cultural Frontiers in Ancient East Asia. Edinburgh, Edinburgh University Press, 1972, p. 38.]

Os Shang parecem ter-se organizado como uma forma de cidade-Estado sob uma monarquia que, no início, foi muito forte. Havia aldeias-satélites não muito longe da capital central e o Estado tinha meios de controlar as comunidades a uma grande distância. Mais de 50 sítios com restos dos Shang, nove deles de grande, importância, foram identificados na região do rio Amarelo e da planície da China setentrional. A localização da capital murada sofria mudanças, e dois dos mais importantes sítios foram Zhengzhou (provavelmente a antiga capital de Ao), fundada durante o reinado do décimo monarca e ocupada desde c. 1500 a 1300, e Anyang, também conhecida como Grande Shang, que data do tempo do 19o rei, em 1300, até a queda da dinastia em 1027 a.C.

A riqueza e o domínio de trabalho especializado que aparecem nas tumbas, comparativamente grandes para esse estágio primitivo da história chinesa, indicam que os reis Shang e os nobres detinham posições de considerável poder e prestígio na sociedade. Os reis tinham condições de colocar em campo exércitos de 3 mil a 5 mil homens. Nota-se, pelas inscrições nos ossos divinatórios, que a caça era uma grande preocupação dos governantes e, como ocorria na dinastia mongol, essa atividade lúdica, que contava com o concurso de batedores organizados, era utilizada como meio de treinamento de grupos de soldados. Na verdade, a caça, a pesca e a coleta de alimentos permaneceram importantes na economia de todo o povo, ainda que a agricultura já representasse, há longo tempo, uma viga mestra dessa economia.

Os túmulos dos Shang dão-nos igualmente uma boa idéia das armas utilizadas durante esse período, que assinalou o início da Idade do Bronze na China. A principal utilidade dos carros de combate já mencionados era evidentemente o transporte de guerreiros para os campos de batalha, onde se apeavam para o combate, uma vez mais como nas guerras descritas por Homero. Entre as armas havia lanças com lâminas de bronze e os grandes machados também usados na decapitação cerimonial das vítimas. Por serem perecíveis, os arcos de madeira e chifre não deixaram vestígios, mas algumas inscrições em vasos de bronze sugerem que os arcos Shang eram do tipo reflexo ou composto, que atiram com maior potência com menor comprimento de arco do que o mais comum arco manual. O arco composto, de dupla curvatura, e de inestimável valor, portanto, no espaço apertado de um carro de combate, e foi usado com grande eficácia em datas subseqüentes, tanto por nômades como por chineses a cavalo. As espadas não eram usadas na época Shang. Fizeram seu aparecimento durante a dinastia Zhou, no século VI a.C.

Uma arma tipicamente chinesa encontrada em grande quantidade nos sítios da época Shang é o ge ou alabarda. Esta arma possui uma lâmina montada em ângulo reto com a longa haste, e uma espiga na parte traseira que atravessa a haste. Mais tarde, acrescentou-se-lhe um reforço protetor ao longo da haste para dar mais rigidez ao encaixe da lâmina, e uma ponta de lança no prolongamento da haste e acima da lâmina transversal.

A maior glória da arte e do artesanato dos Shang está nos magníficos vasos de bronze. Estes, com muitas formas cuidadosamente elaboradas, foram a princípio concebidos para serem usados nos sacrifícios aos ancestrais e aos deuses, mas também eram empregados para assinalar ocasiões de favor real, como a outorga de um feudo ou de uma honraria a um nobre. A posse de vasos de bronze era um sinal evidente de riqueza e um meio de conservá-la no seio da família.

As formas dos bronzes, em muitos casos derivadas das da cerâmica primitiva, são sólidas, majestosas e belas. A ornamentação é muito rica e adaptada, de maneira notável, à forma do vaso. Um dos principais motivos é o da máscara do monstro taotie, uma forma estilizada e simétrica de face animal vista de frente. Uma decoração secundária em forma de desenhos geométricos ou em relevo preenche o espaço entre os motivos principais. Os vasos eram fundidos em moldes de cerâmica. Uma proporção de chumbo maior do que a usual era acrescentada à mistura de cobre e estanho a fim de produzir um fluxo livre de metal derretido nas delicadas partes do desenho e impedir a formação de bolhas de gás. O artesanato desses bronzes é tão delicado que os encaixes podem ser vistos, com o auxílio de uma lente, não com a forma de um V, mas mostrando uma perfeita e aberta seção quadrada, com lados perpendiculares, com o seguinte desenho: U.

O trabalho em bronze dos Shang atingiu um nível extremamente elevado, raramente alcançado em outra época ou em qualquer outro lugar. O desenvolvimento das técnicas do bronze Shang pareceu, até pouco tempo atrás, haver sido muito rápido, o que levou a especular se o conhecimento da fundição do bronze não Poderia ter sido trazido da Ásia ocidental e, em seguida, aplicado e aperfeiçoado na China. Mas descobertas efetuadas nos anos 1970 revelaram exemplos de bronzes anteriores, muito mais primitivos e delgados, que atestam um longo desenvolvimento dentro da própria China. Parece agora provável que os chineses tenham Inventado a fundição do bronze sem qualquer ajuda do exterior.




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