A cultura Feita Material: os instrumentos recorrentes dos cerritos do Banhado do M’Bororé e suas possíveis interpretações



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A CULTURA FEITA MATERIAL: OS INSTRUMENTOS RECORRENTES DOS CERRITOS DO BANHADO DO M’BORORÉ E SUAS POSSÍVEIS INTERPRETAÇÕES
Vanessa Barrios Quintana

Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História da PUCRS

vanessa_bq@yahoo.com.br
Resumo
O presente trabalho foca-se nas relações entre as pessoas e as coisas discutindo como a cultura é transformada do simbólico para algo material através de ações humanas. A partir disto, é apresentado o contexto em que a cultura material do Banhado do M’Bororé foi encontrada e as interpretações feitas a partir de sua análise.
Palavras-chave: Cultura Material, Lítico, Cerritos

Cultura material é o produto material da ação do homem usado pela arqueologia como um meio de nos aproximarmos de populações humanas pretéritas às quais não temos mais acesso. Por isso muitos enfoques arqueológicos tradicionais acreditavam que os objetos possuíam apenas uma natureza passiva, por verem-nos enquanto simples produtos dessa ação. Entretanto, como Hodder (1986) salienta a produção de objetos materiais não pode ser um processo passivo, pois eles representam e agem ativamente na sociedade (ROSA, 2007). Coisas desempenham importantes papéis na formação de pessoas, instituições e culturas, e a forma como pensamos e agimos depende tanto dos objetos com os quais nos cercamos quanto da linguagem que usamos ou das intenções que podemos ter: encontramo-nos através das coisas (TILLEY, 2008).


Matéria inerte é transformada por práticas sociais ou trabalho produtivo em um objeto cultural, seja um produto para consumo imediato, uma ferramenta ou trabalho de arte.1 (SHANKS e TILLEY, 1992, p. 130)
A perspectiva tradicional de conceber objetos como entidades passivas levou a uma atualmente tão criticada dicotomia entre sujeito e objeto, que acabou por colocá-los em esferas sociais separadas. Há sempre um afastamento entre pessoas e coisas, material e ideal, que advém da crença de que a cultura material além de ser passiva, possui propósitos estritamente funcionais e utilitários. Dessa forma, por muito tempo todo o desenvolvimento cultural das sociedades foi pensado a partir da função das coisas. Os objetos eram explicados a partir da questão ‘para que serve isto?’, que após uma série de questionamento que surgem a partir da década de 1980 passa a ser substituída pela questão ‘o que isto significa?’2. Estas análises funcionalistas levaram a uma arqueologia de dados e cálculos em que os seres humanos pretéritos eram tidos como preocupados apenas com a subsistência e tudo que fosse por eles criado teria apenas um caráter utilitário.
A construção de dados arqueológicos reflete a posição peculiar da arqueologia. Nem humanidade nem ciência, nem arte nem análise, a arqueologia combina métodos e paradigmas de ambos. A arqueologia pré-histórica inicial, em particular, continua sujeita aos paradigmas da ‘ciência normal’ de uma maneira que está mudando em períodos do Neolítico em diante. O mundo dos caçadores-coletores é visto irresistivelmente (PLUCIENNIK, 2002) como dominado por imperativos de subsistência e é estudado em termos de números e contas, as ciências dos restos de flora e fauna, e a física do rádio-carbono.3 (Pirie, 2004, p. 678)
Segundo Rosa (2007) o caráter meramente funcional e utilitário da cultura material é questionado por Hodder (1992) que defende a presença de significados nos artefatos que podem ser atribuídos de diferentes formas e em diferentes relações e contextos. A atenção desta visão utilitária era dispensada majoritariamente aos aspectos físicos e às restrições materiais dos objetos, sendo que seu conteúdo significante, seus elementos simbólicos e ideológicos, eram esquecidos.

Outra crítica à idéia das culturas humanas subordinadas às atividades práticas e com caráter utilitário vem do antropólogo Marshal Sahlins (1976 apud ROSA, 2007), que sugere a interpretação simbólica ou significativa da cultura. Para ele o homem não “sobrevive” simplesmente em um mundo material, ele sobrevive de forma específica conforme seus próprios esquemas simbólicos. A funcionalidade das coisas tem finalidade cultural e é definida por este esquema significativo, o que é claro não retira o caráter material das coisas.

Nosso mundo é impregnado pela cultura material da qual, segundo Warnier (1999), não conseguimos escapar por momento algum desde nosso nascimento. Ela possui uma importância fundamental na medida em que se encarrega de transmitir e preservar valores humanos em suas relações sociais. Objetos são parte ativa das relações sociais. Para Rabardel (apud VIANA, 2005) um objeto pode ser considerado uma estrutura dinâmica uma vez que sua utilização também tem um caráter dinâmico. Seu funcionamento é organizado, o que não impede que possa congregar e adequar novas situações se necessário. Como a cultura material é resultado de um processo produtivo e o indivíduo que confecciona um determinado objeto é sempre um sujeito social, este objeto por ele produzido apresenta duas dimensões: uma privada (própria de cada indivíduo) e outra social. Desta forma a cultura material é uma produção social e socializada, mesmo se trabalho de um único indivíduo (SHANKS e TILLEY, 1992).

Para Glassie (1999) cultura material é exatamente a cultura feita material, uma vez que cultura é apenas um modelo mental, interna, invisível, tornado-se tangível somente através das coisas materiais. Cultura material então combina o visível com o invisível, o tangível com o simbólico. Ela inicia com as coisas, mas não precisa necessariamente terminar nelas, pois, por ser cultural, pode nos transmitir ações e pensamentos, impressos nas cicatrizes deixadas pela atividade humana. Estas cicatrizes formam uma cadeia de informações sobre os objetos, um texto que pode ser lido e descrito durante o processo de análise. Pois como afirma Glassie (1999), mesmo não sabendo o que um objeto significa, nós podemos descrevê-lo e, assim como um texto, ele pode ser quebrado em partes e lido como uma composição, uma vez que a forma como ambos são criados (texto e objeto), através de esforços físicos e mentais, os coloca em conexão.

As atividades das pessoas são construídas e organizadas socialmente ao mesmo tempo em que são representadas simbolicamente na forma de linguagem e objetos materiais (SHANKS e TILLEY, 1992). Uma vez que não temos mais acesso a linguagem destas pessoas, apenas nos resta tentar ler suas atividades no que chegou até nós, a cultura material. Entretanto, esta leitura não é uma tarefa fácil, pois objetos têm sua própria forma de comunicar-se uma vez que reportam à pensamentos e formulações que resistem a formulação verbal, enquanto tentamos obstinadamente decompô-los em palavras (GLASSIE, 1999).

A tarefa de transcrever objetos em texto além de ser um empreendimento complicado é também arriscada, pois ao fazê-lo diversos elementos são perdidos. Não posso, por exemplo, alcançar determinadas escolhas do artesão nem os significados que somente existiram em sua mente. Contudo, essa transcrição é necessária para que a cultura material se torne inteligível, uma vez que é através da narrativa discursiva do arqueólogo que objetos ganham sentido, pois “artefatos não significam nada. É somente quando são interpretados através da prática que eles se tornam investidos com significados”4 (BARRETT, 1994 apud HOLTORF, 2005, 60).

Ao nomear e classificar as coisas construímos relações metafóricas e perdemos muito de seus detalhes, no entanto ganhamos formas de torná-los compreensíveis. Conforme Latour para descrever coisas em palavras, nós as manipulamos conferindo-lhes diversas transformações que resultam no objeto tomando forma, indo do concreto para o menos concreto. E cada transformação que o objeto sofre o torna mais móvel, universal, comparável, padronizado, ao mesmo tempo em que o torna menos particular e detalhado (PIRIE, 2003).

Assim, cultura material é um meio através do qual pessoas se comunicam e se expressam. Uma vez que um objeto é visto enquanto um signo, adquire diferentes significados conforme o contexto no qual estiver inserido. Coisas contextualmente estruturadas podem ser lidas da mesma forma que um texto. E assim, a cultura material é transformada em texto para permitir as que as pessoas se comuniquem.


(...) é a análise contextual de seus usos e significados o que possibilita avaliar a importância dos mesmos não apenas enquanto índices de adaptabilidade mas, também, como meios de satisfação das necessidades práticas do cotidiano e como veículo de transmissão de conteúdos simbólicos e afirmação de identidade pessoal e étnica. (SILVA, 2002, p. 120-121)

Quando o único vestígio que nos resta de sociedades remotas é a cultura material, é somente através de sua análise que temos a possibilidade de conhecer essas culturas que não mais existem. Analisando e descrevendo a cultura material, percebemos as mensagens nela inscritas, ou seja, os diversos aspectos que influenciaram em sua gênese. E ao inserir os objetos em seu contexto apreendemos os diferentes papéis que podem ter assumido nas sociedades do passado.

Porém, durante a escavação o arqueólogo elimina um contexto (o contexto arqueológico onde se encontravam as coisas), mas ao escrever ele cria outra relação para as coisas. É este o momento em que os primeiros dados são construídos e as primeiras relações com os objetos acorrem, pois como bem salienta Thomas
a escavação de um sítio arqueológico deve tornar-se um momento de conversação, negociação, contestação e diálogo entre os participantes, que passariam a produzir dados sobre o passado de forma ativa e participativa. Além disso, as contribuições dadas por cada um dos participantes do trabalho de campo estão vinculadas a um contexto mais amplo, onde suas experiências em estudos anteriores influenciam no desenvolvimento da pesquisa e por conseguinte no seu resultado final. (ROSA, 2004, p. 24)
O método de escavação e tudo o que acontece em campo influencia na imagem que fazemos do passado (PIRIE, 2003). A forma como vemos e percebemos o trabalho de campo guiará a forma como iremos transcrever a cultura material em palavras.

Assim como construções, objetos também são pistas da existência de determinado indivíduo (ou indivíduos) em um determinado espaço. Seguimos cada uma delas e sua leitura nos levará a mais pistas de um passado remoto. Mas estas pistas não são simplesmente descobertas, elas são produzidas pelo arqueólogo a partir de seus pressupostos teóricos e metodológicos – o que não significa que sejam ‘forjadas’.

Logo será contada a história de como os vestígios arqueológicos descritos neste artigo ganharam vida. Pois é exatamente isto que arqueólogos fazem: traçam narrativas para contar histórias através das coisas.
Uso minha sabedoria de arqueólogo para criar histórias a partir das coisas que outros deixaram para trás. Transformo coisas em narrativas. Mas, diferente de outros cientistas históricos e sociais, que se comunicam diretamente com as pessoas, o diálogo com a cultura material se dá pela atribuição de sentidos ao próprio objeto. (HILBERT, 2006, p. 99)
No dia 24 de abril de 2004 a equipe do LEPA/UFSM teve o primeiro contato com os sítios arqueológicos do Banhado do M’Bororé. Curiosamente, o fato que mais chamou a atenção da equipe foi a quantidade de material lítico que aflorava dos cerritos, como podemos notar através de trechos do diário de campo:

“Começamos nosso dia conhecendo alguns sítios e pudemos perceber a enorme quantidade de materiais líticos na superfície.” (Libiane Cargnin de Lima, diário de campo, 24/04/2004)

“Chegamos a São Borja pela manhã e fizemos uma visita rápida a alguns cerritos, onde o material da superfície é abundante e de boa qualidade.” (Vanessa Barrios Quintana, diário de campo, 24/04/2004)

“Chegamos de manhã, e conhecemos alguns cerritos. São muitos e com muito material lítico.” (Silvana Zuse, diário de campo, 24/04/2004)

Isto ocorreu, é claro, devido ao anseio de encontrar materiais, em especial as tão desejadas pontas de projétil.

Após as visitas iniciaram-se as escavações dos cerritos escolhidos (Butuy 1 e 2), que antes foram medidos e quadriculados. A primeira camada de grama foi retirada e as espátulas foram dando vida aos primeiros vestígios líticos dos cerritos do M’Bororé. Estas verdadeiras pistas que nos informam sobre povos remotos estiveram sob a terra por centenas, talvez milhares, de anos e quando novamente vem à luz, já chagam carregadas de significados e pressupostos dados pelos pesquisadores. Elas tiveram uma vida que foi soterrada por terra e grama e agora mais histórias são acrescentadas a essas vidas, atribuídas por uma gama de métodos, técnicas e pressupostos teóricos embutidos nas mentes de quem as escava, pois concordo com Holtorf (2002) que afirma que nós adicionamos histórias às vidas das coisas.

Estas milhares de peças líticas antes mesmo de serem escavadas já haviam sido atribuídas a um grupo construtor de cerritos – e desta forma a estrutura também já estava pré-determinada e carregada de pressupostos –, ligadas e uma ‘Tradição’ pampeana Umbu e classificadas como ‘antigas’, vestígios arqueológicos de um povo perdido. Todas estas características foram, porém atribuídas pelo pesquisador, “constituídas significativamente – no presente” (HOLTORF, 2002, p. 55). A primeira e principal delas é a antiguidade do objeto. Ela é que vai determinar se vale a pena guardar a coisa e estudá-la e será atribuída no momento da descoberta pelo escavador: o que nós acreditávamos que era antigo, se tornou antigo e foi guardado; o que nós acreditávamos que era recente ou que não havia sido transformado e/ou utilizado pelos indivíduos que pretendíamos compreender, virou lixo e foi descartado – senão ali, tempos depois na lixeira do laboratório.

Em seguida o objeto é classificado como um lítico, uma cerâmica, restos alimentares; ligado a uma quadricula, a um poço teste ou trincheira; e colocado assim em sua devida embalagem onde alguns números e letras indicarão sua classificação pré-estabelecida. Chegando ao laboratório suas características talvez se alterem ou mais detalhes sejam atribuídos ou talvez simplesmente ele se torne lixo. Foi exatamente o que aconteceu com a coleção em questão. Após ser lavado, o material recebeu mais detalhes, foi classificado, reclassificado (ou, por exemplo, se percebeu que o que se pensava ser uma lasca era na verdade um fragmento de cerâmica), separado entre lascas e núcleos, se identificou a existência de artefatos.

Cada ação dos pesquisadores, cada interpretação dos fatos passados – apenas interpretações dos fatos e não os fatos em si, pois estes não existem mais –, foi aos poucos acrescentando histórias à vida destas coisas, as quais são relatadas aqui nestas linhas não sem acrescentar ainda mais detalhes. Mais histórias, pois ainda nos restam aspectos empíricos explícitos nas coisas, que nunca deixam de ter sua própria materialidade.

A forma como lidamos com os dados, os métodos de observação, descrição e quantificação dos artefatos, tudo isso influencia na imagem que fazemos do passado (PIRIE, 2003). Os objetos só ganham significado através do discurso construído pelo arqueólogo. E o discurso do arqueólogo é construído com os artefatos (HILBERT, 2006).




Lendo as Coisas

A coleção lítica recuperada durante os trabalhos de campo está composta por mais de 9.000 peças, sendo a grande maioria lascas de tamanhos médios e pequenos, estilhas e micro-lascas. Os núcleos são raros e de pequenas dimensões. Há ainda instrumentos como lascas utilizadas, plano-convexos, pontas de projétil e bolas de boleadeiras.

A matéria-prima utilizada é na imensa maioria o arenito silicificado originado entre os derrames basálticos da Formação Serra Geral que podem ter sido adquiridos nos afloramentos circundantes dos cerritos ou de blocos destacados de afloramentos maiores distribuídos na região. Mas há ainda alguns fragmentos de quartzos e calcedônias, em geral lascas de tamanhos bastante reduzidos.

Os métodos de confecção dos artefatos empregados pelos artesãos pré-históricos foram o lascamento por percussão, o polimento e o picoteamento – estes últimos aplicados à confecção das bolas de boleadeiras.

Fazendo um exercício de reflexão, pensemos nos instrumentos como os vetores de uma série de ações que guardam todos essas ações em si, possibilitando que estas sejam lidas e descritas na forma de texto. A leitura desta peças é fruto de suas vidas presentes, desde o momento da retirada do solo até as interpretações feitas aqui. Porém, ao interpretar as pistas da tecnologia de confecção dos instrumentos, aproximamo-nos de certa forma de suas vidas passadas.

Um tipo de instrumento bastante recorrente na coleção são os chamados raspadores plano-convexos, muito comuns em sítios caçadores-coletores. Este tipo de instrumento é recorrente em sítios arqueológicos por todo o mundo e análises mais aprofundadas da tecnologia empregada em sua confecção e de marcas de utilização sugerem que receberiam usos diferenciados.


(..) o que comumente é chamado de ‘artefatos plano-convexos’, na verdade são suportes unifaciais: são matrizes que podem ser organizadas em diferentes instrumentos (ou seja, podem receber diferentes UTF’s5 transformativas ao longo do seu bordo). (MELLO, 2006, p. 764)
Na coleção em questão há uma quantidade significativa de artefatos formais representados pelos instrumentos plano-convexos, que apresentam padronização tanto da matriz quanto do núcleo de onde foi retirado o suporte. Foi possível distinguir três categorias tecnológicas de suporte: 1) suportes com nervura-guia; 2) suportes com superfície central plana; e 3) suportes piramidais. Uma vez que tais suportes foram padronizados, houve uma adequação de suas estruturas volumétricas e três tipos diferentes foram identificados para estes instrumentos: 1) prisma triangular; 2) prisma triangular; e 3) piramidal.

Os suportes utilizados na confecção de tais instrumentos foram lascas de plena debitagem, sem presença de córtex, predominando lascas cujas retiradas de debitagens anteriores produziram uma superfície plana na parte central da face externa ou lascas cuja parte central é definida por uma aresta longitudinal, sendo que esta última aparece em maioria.

Os instrumentos foram confeccionados sobre lascas pré-determinadas, sendo que todas as qualidades do bloco foram levadas em conta desde o momento da escolha da matéria-prima. Os suportes eram volumosos, proporcionando um maior aproveitamento do gume e possibilitando um maior número de reavivamentos. Os ângulos das bordas dos artefatos indicam que eram utilizados na ação de raspar; portanto, atividades de incisão e corte deveriam ser atribuídas às lascas.

Os instrumentos obedecem a um padrão tecnológico de confecção embora apresentem formatos diferenciados. A matriz foi estruturada o que proporcionou uma total sinergia entre as superfícies – cada retirada influencia na próxima. Foram confeccionados a partir do lascamento direto, com retiradas invadentes. Pequenos retoques foram feitos nas bordas e o reavivamento do gume se dava de uma forma bem característica: lascas grandes e, algumas vezes, relativamente espessas eram retiradas com um forte golpe produzindo, assim, um novo gume que era novamente retocado e utilizado ou em alguns casos, utilizado diretamente. Outra característica marcante é a retirada de lascas contrárias ao plano de percussão que ocorre em praticamente todas as peças. É possível perceber aqui uma atividade largamente associada ao uso dos objetos: a reciclagem visando a manutenção dos instrumentos. A partir disto, vê-se que a estrutura de confecção dos instrumentos é estável, o que pode indicar que o método aplicado em sua produção se inscreve na tradição cultural do grupo, uma vez que


(...) os aspectos cognitivos e empíricos constituem a herança técnico-cultural de um grupo, porquanto testemunham a experiência adquirida e sucessivamente transmitida de geração a geração, correspondendo ao saber-fazer, relacionado às operações intuitivas baseadas na experiência pessoal do artesão (BOEDA, 1997; KARLIN e JULIEN, 1996 apud VIANA, 2006, p. 803).
A confecção adequada dos instrumentos plano-convexos está ligada à eficiência técnica do artesão, pois, a aplicação de conhecimentos tecnológicos complexos exige, concordando com Viana (2006, p. 829-830) “não somente seleção de matéria-prima adequada, obtida com base em ‘escolhas’ previamente determinadas, mas também conhecimento e domínio dos métodos e técnicas, que cada concepção exige para a eficácia de sua produção”.

Uma leitura mais detalhada de cada peça6 demonstra este padrão de confecção referido está ligado ao aprendizado e a herança cultural do grupo, uma vez que parece claramente ter ocorrido o planejamento prévio dos objetos por parte dos artesãos.

Após a leitura dos instrumentos é possível concluir que os suportes foram lascas bastante robustas com estruturas volumétricas formatadas – sendo identificados três tipos. As principais ocorrências observadas na coleção são as seguintes:

 Um padrão tecnológico é percebido com determinadas características presentes em todos os instrumentos.

 Os negativos na face dorsal anteriores ao lascamento de alguns instrumentos formam superfícies planas.

As retiradas de façonnage geralmente invadentes e abruptas.

 Retidas abruptas originaram grandes negativos reflexivos.

Os ângulos dos instrumentos apontam para a atividade de ‘raspar’, sendo empregado em materiais como peles, madeira e ossos. Entretanto, somente através da análise microscópica dos vestígios de utilização destes instrumentos seria possível afirmar que materiais teriam sido por eles trabalhados. Mas as suposições feitas se baseiam na discussão a respeito dos ângulos dos instrumentos, segundo a qual a ação a ser desempenhada necessita de um determinado valor de ângulo: para ações de raspar o ângulo do gume deve ter em torno de 70º a 90º; para a ação de cortar o gume deve formar um ângulo em torno de 40º a 60º; um ângulo menor que 40º permite cortes deslizantes (BOEDA apud VIANA, 2006, p. 132).

Outro fator que influencia no funcionamento do instrumento é o formato da linha de gume. Linhas de gume curvas são apropriadas para cortar e talhar, sua área de ação é maior e melhor aproveitada. Já as linhas de gume retas são mais adequadas a furar e fatiar, mas limitam-se a uma área de ação menor. Note-se que os instrumentos da coleção em estudo possuem linhas de gume de ambos os tipos, entretanto seus ângulos são maiores que 70º, encaixando-se nas atividades de raspar. Destaca-se ainda que instrumentos com maior ângulo exibem maior resistência, podendo ser aplicados em objetos a serem transformados que exijam maior força motriz do instrumento transformativo.

As pequenas dimensões dos artefatos plano-convexos chamam a atenção, pois apresentam em média um comprimento de 5,65cm. Estas dimensões reduzidas implicam limitações com relação às dimensões do material no qual seriam empregados os artefatos, mas, em contrapartida, implicam uma maior facilidade no transporte.


Para Kuhn conjuntos artefatuais compostos por uma série de pequenos artefatos unifaciais confeccionados sobre lascas representariam a solução ótima para articular transportabilidade e multifuncionalidade na elaboração dos conjuntos de artefatos transportados pelos caçadores-coletores em diversos tipos de deslocamento, pois apresentam a melhor relação em termos de utilidade e peso (1994 apud BUENO, 2007, p. 88).
Percebemos ainda que as pequenas dimensões dos instrumentos não foram um empecilho para seu reaproveitamento. Um método particular de reavivamento (as grandes retiradas com um forte golpe referidas acima) era empregado com o objetivo de criar novos ângulos e com isso a peça podia ser exaustivamente utilizada.

Devido à grande quantidade de material, sendo a imensa maioria lascas e microlascas sem marcas de uso ou retoques, o foco principal foram os instrumentos recorrentes aqui representados por 18 peças denominadas pela literatura arqueológica plano-convexos. Fazer uma leitura individual mais detalhada de cada objeto permitiu identificar um padrão em sua confecção. O lascamento era direto e com retiradas invadentes; as peças foram exaustivamente retocadas, sendo que ao não haver mais ângulo de percussão outro era produzido através de retiradas rasantes e espessas que geralmente deixaram negativos de lascas reflexivas; foram realizadas retiradas contrárias ao plano de percussão, a partir do ápice da peça, que podem ter servido à uma melhor preensão do instrumento ou para algum tipo de encabamento; rebaixamentos de pequenas porções da superfície ventral dos instrumentos auxiliavam na obtenção de gumes mais agudos e conseqüentemente mais afiados.

As características acima descritas são encontradas em praticamente todos os instrumentos plano-convexos, bem como nas lascas da coleção que embora não remontem aos artefatos aludem a outros confeccionados a partir das mesmas técnicas, mas que não ganharam vida durante nossos trabalhos de campo e que provavelmente continuam a espera de alguém que os ajude a nascer. Dessa forma, os resultados da leitura dos instrumentos plano-convexos permitem ligá-los a um mesmo grupo cultural local.

Análises mais amplas focadas na tecnologia de confecção de artefatos líticos e comparações com outros estudos podem talvez relacioná-los a uma cultura regional, uma vez que artefatos semelhantes são recorrentes em sítios arqueológicos de regiões pampeanas.


Referências Bibliográficas
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1 Em ingles: “Inert matter is transformed by social practices or productive labour into a cultural object, be it a product for immediate consumption, a tool or work of art.”

2 Por exemplo Hodder, 1986; Shanks e Tilley, 1992.

3 Em inglês: “The construction of archaeological data reflects the peculiar position of archaeology. Neither humanity nor science, art nor analysis, archaeology combines methods and paradigms of both. Early prehistoric archaeology, in particular, continues to be subject to the paradigms of ‘normal science’ in a way that is changing in periods from the Neolithic onwards. The world of the hunter-gatherer is seen overwhelmingly as dominated by subsistence imperatives (Pluciennik 2002) and is studied in terms of numbers and counts, the sciences of floral and faunal remains, and the physics of radiocarbon.”

4 Em inglês: “Artefacts mean nothing. It is only when they are interpreted through practice that they become invested with meanings.”

5 UTF é a organização particular das retiradas, cujas conseqüências técnicas agem em sinergia para colocar uma característica técnica remarcável e coerente (MELLO, 2006, p. 767). Nota da autora.

6 Para uma análise detalhada da cultura material ver QUINTANA, 2010.


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