A cura de uma não doençA1 o humor e a (re)apropriação do dogma cristão da heteronormatividade the cure of a non-illness humor and (re)apropriation of the christian dogma of heteronormativity Bruno Menezes Andrade Guimarães2 resumo



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A CURA DE UMA NÃO DOENÇA1

o humor e a (re)apropriação do dogma cristão da heteronormatividade

THE CURE OF A NON-ILLNESS
humor and (re)apropriation of the christian dogma of heteronormativity


Bruno Menezes Andrade Guimarães2
RESUMO:

O artigo busca captar parte das polêmicas instauradas entre as diferentes interpretações da mensagem cristã em nossa sociedade, e, ademais, de quais maneiras o dogma da heteronormatividade é questionado através do humor. A discussão é contextualizada no projeto de lei da “cura gay”, tramitado em meados de 2013. A base teórica está fundada nas discussões acerca da paródia, modo clássico de se fazer humor herdado da literatura greco-romana. Por sua vez, a análise está voltada para o vídeo “Cura”, produção do canal de humor “Porta dos Fundos” no Youtube. O percurso metodológico, dividido em três eixos, procura entender como atores e atrizes em cena se deslocam por quadros ficcionais para dotar o mundo de sentido e como demais aparatos complementam este objetivo. A configuração desse quadro nos diz dos posicionamentos assumidos pelo canal com relação à homossexualidade, dos valores cristãos que são questionados e daqueles que, por contraste, sustentam a crítica sob outro ponto de vista.


Palavras-chave: Cura gay. Homossexualidade. Humor. Porta dos Fundos. Religião
ABSTRACT:
This article seeks to capture part of the polemics that arise with the different interpretations of the christian message in our society, and, furthermore, in which ways the dogma of heteronormativity is questioned throught humor. The discussion has it's background in the law project of the "cura gay", proposed in 2013. The theoretical basis is in the discussions over parody, classical way to promote humor inherited from greek-roman literature. The analysis is focused in the video "Cura", produced by the Youtube humor channel "Porta dos Fundos". The methodological path, divided in three axes, tries to understand how actors in scene deslocate themselves through fictional frames to give meaning to the world and how other devices complement this purpose. This frame's configuration tells us about the positions taken by the channel regarding homosexuality, the christian values that are questioned and about those who support the critic with contrasting points of view.
KEY-WORDS: "Cura gay". Homossexuality. Humor. "Porta dos Fundos". Religion.

INTRODUÇÃO
O sociólogo Jean-Paul Willaime (2012) aponta que “as religiões são fatos sociais cuja análise permite conhecer melhor as sociedades e suas evoluções” (WILLAIME, 2012, p. 143). Com vistas na religião cristã, entendemos que os desdobramentos do cristianismo, que hoje se divide em novas e inúmeras ramificações além das institucionalizadas há séculos, reverberam um discurso dito cristão que passa por uma ampla diversidade de interpretações. Sem pretender entrar nesse cenário religioso diversificado e complexo, nosso interesse é captar de quais maneiras o humor se (re)apropria da mensagem cristã, especificamente do dogma da heteronormatividade. De acordo com Elias T. Saliba (2002), “o humor brota exatamente do contraste, da estranheza e da criação de novos significados” (SALIBA, 2002, p. 17). Então, é para esse contraste e estranheza que dedicamos o presente artigo no intento de compreender de quais maneiras uma paródia humorística cria novos significados acerca da relação entre homossexualidade e cristianismo.

Nossa discussão tem início em meados do ano de 2013, data em que um polêmico projeto de lei chamou atenção na Câmara dos Deputados. De um lado, lideranças evangélicas e, de outro, ativistas de direitos humanos a favor da diversidade sexual travaram um debate que ganhou amplo espaço na mídia e repercutiu de diversas formas. Sob o comando do deputado federal Marcos Feliciano, do Partido Social Cristão (PSC) de São Paulo (SP), a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara aprovou no dia 18 de junho daquele ano um projeto que confere aos psicólogos o direito e o respaldo legal de promover tratamentos em seus pacientes com o objetivo de reverter a orientação homossexual caso fosse de interesse do próprio paciente. A proposta ficou conhecida como “cura gay” e o resultado da votação realizada pela CDH foi considerado, a contragosto de muitos, uma vitória da bancada evangélica que tentava avançar com o projeto há dois anos.

A autoria do projeto é originalmente atribuída ao deputado João Campos, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de Goiás (GO). O projeto roga a suspensão de dois trechos da resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) instituída em 1999. O primeiro trecho a ser sustado diz que os psicólogos “não colaborarão com eventos e serviços que propõem tratamento e cura das homossexualidades”. O segundo trecho, por sua vez, diz que “os psicólogos não se pronunciarão, tampouco participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica”.3 Na justificativa do projeto, Campos escreve que o CFP extrapolou seu poder de regulamentação da profissão de psicólogo na medida em que restringiu a atuação do profissional e o direito do paciente de receber orientação qualificada mediante interesse próprio.

Durante o debate anterior e ao longo do processo de votação do projeto, centenas de pessoas se reuniram em Brasília e em outras cidades do país para protestar contra sua aprovação. Em um dos cartazes utilizados por um dos manifestantes havia a frase “Não existe cura para quem não está doente”.4 Na época, Feliciano, acusado de homofobia, foi questionado acerca da sua posição no cargo. As críticas sobre o deputado também enfatizavam que ele favorecia apenas interesses dos evangélicos nas discussões da Comissão. Alguns dias se passaram e, após pressões do PSDB, o deputado autor do projeto, João Campos, entrou com um pedido para a retirada de tramitação da “cura gay”. Por ter recebido aprovação da CDH, a proposta de arquivamento teria que passar pelo plenário. A votação plenária foi realizada e o projeto foi arquivado. Dessa maneira, discussão de teor similar só poderia ser realizada novamente no ano seguinte, em 2014.5

Com o contexto de aprovação do projeto da “cura gay” pela CDH, liderado pelo deputado Marcos Feliciano, e seu posterior arquivamento acordado por votação no plenário, voltamos nossos olhares para o canal de humor no YouTube “Porta dos Fundos”. Idealizada como produtora de vídeos para a internet, o canal foi criado em março de 2012, com exibição do primeiro vídeo em agosto do mesmo ano. Hoje, é o canal de humor com mais inscritos no YouTube do Brasil. De acordo com relatos dos fundadores, a ideia inicial era a de levar para a internet um humor de qualidade e livre de censuras. Desse modo, um grupo de jovens atores e amigos se reuniu para pensar no roteiro e na montagem dos vídeos, todos com tônica de humor crítico e, na medida do possível, polêmicos.6

A ideia funcionou e logo nos seis primeiros meses de existência mais de 30 milhões de visualizações foram registradas. Hoje, além de ser o canal brasileiro do YouTube mais assistido, é mundialmente o 5º canal de comédia mais influente e o 18º mais clicado em todo o mundo. Atualmente, os vídeos são postados regularmente três vezes por semana e podem ser acessados por diferentes plataformas virtuais, além da disponibilidade de aplicativos para celulares e demais aparelhos eletrônicos portáteis. Com média de quatro minutos de duração, o humor questionador de temas cotidianos atrai milhões de espectadores para a internet, alguns deles engajados em comentar e expressar opinião acerca dos temas abordados.

Entre as produções de “Porta dos Fundos”, analisaremos o vídeo “Cura”, produção paródica diretamente relacionada à questão da homossexualidade e ao projeto de “cura gay”. Para isso, na primeira seção retomamos o conceito de paródia e as formas pelas quais esse recurso é incorporado ao humor. A análise, na segunda seção, está dividida em três eixos. O primeiro deles consiste em uma caracterização do vídeo “Cura” em seus elementos de conteúdo. O segundo, em uma análise do formato do vídeo, isto é, de elementos da produção responsáveis por afirmar os sentidos propostos: o cenário, os figurinos, a maquiagem, o regime discursivo. No terceiro eixo, debruçamos sobre a interação propriamente dita, ou seja, o posicionamento e as falas dos personagens compondo quadros. A configuração do quadro com base nesses três eixos nos diz dos posicionamentos assumidos por “Porta dos Fundos” com relação à homossexualidade, dos valores cristãos que são questionados e daqueles que, por contraste, sustentam a crítica sob outro ponto de vista.
PARÓDIA: RECURSO LITERÁRIO À SERVIÇO DO HUMOR
Definir a origem e descrever o sentido de uma obra paródica não é tarefa fácil. De acordo com Ferreira (2003):
A paródia não é uniformemente entendida pelos críticos modernos e se diverge quanto aos domínios em que se enquadram, à amplitude dos alvos, ao grau de validade, em termos temporais, de cada definição, e aos intuitos que lhes estão subjacentes. [...] Os modos como o leitor deve encarar os textos parodiados e paródicos e a importância da paródia em termos de história literária também não têm gerado consensos (FERREIRA, 2003, p. 282).
A discussão acerca da classificação da paródia vem de longa data. Desde a antiguidade clássica, alguns teóricos estão centrados em abordar a paródia como gênero literário, enquanto outros a veem como um recurso disponível para diversos gêneros. Uma vez que já na Grécia Antiga a paródia não raras vezes foi utilizada como forma de provocar o público ateniense e de criticar vícios da sociedade, entendemos que há, desde as paródias históricas, uma função de formar um ponto de vista moral nos indivíduos. Assim, para essa mesma paródia, identificamos um modo de ser que corrobora com a tese de que ela é, antes, um recurso que historicamente esteve a serviço e foi incorporado e remodelado por gêneros distintos, como a sátira (MORA,2003).7

O historiador Carlos M. Mora (2003) é mais específico e explica que originalmente a paródia grega se referia a um recurso exclusivo da literatura que trabalhava tão somente a transcontextualização8 de textos, ou seja, um recurso que não ultrapassava os limites da própria literatura. Contudo, o autor aponta que com o tempo a paródia passou a expressar uma intenção moralizadora e crítica muito forte, na medida em que tentava influenciar o comportamento das pessoas ou da sociedade como um todo. O que Mora (2003) quer dizer é que a paródia passou a ser gradualmente incorporada por gêneros literários, o que descaracterizou seu caráter exclusivamente literário. Não nos é pertinente refletir se a paródia teve sua definição original superada ou não, mas, antes, assimilar o que é de quais maneiras o recurso paródico foi incorporado no processo de produção do humor.

A perspectiva de Hutcheon (1989) sobre a paródia corrobora com a obra de Mora (2003) e está centrada no âmbito da enunciação (énonciation), ou seja, de uma produção e recepção (re)contextualizada. A autora define paródia como “inversão irônica”, “resgate com certa distância crítica” e “irônica transcontextualização”. Para além destes significados, ela considera que a paródia pode ser reverencial, lúdica ou desdenhosa e tem como alvo toda forma de discurso codificado e institucionalizado (HUTCHEON, 1989). Sangsue (2003) analisa a obra de Hutcheon (1989) e aponta que, quando levados ao extremo, os escritos da autora mostram que a paródia possui íntima ligação com (i) imitação, (ii) citação e (iii) alusão, o tripé de sustentação de uma obra paródica. Dito isso, a paródia se caracteriza por se tratar de uma transformação lúdica, cômica e possivelmente satírica e irônica de um texto ou contexto singular (SANGSUE apud FERREIRA, 2003).

O autor paródico constrói um discurso capaz de evocar outros discursos conhecidos pelos leitores graças a um procedimento de repetição, a uma insistência a determinados assuntos ou pela conjugação de ambos. Então, uma paródia é rica pela ótica transcontextual porque, para além do seu próprio contexto, “[...] incorpora o contexto que acompanhava também o contexto parodiado, transpondo-o para uma nova situação” (MORA, 2003, p. 12). Em uma obra paródica, o texto ou o contexto cronologicamente mais antigo é resgatado e modificado. O riso estará vinculado à intenção do autor de dar um novo significado ao contexto resgatado. Assim, o autor de uma paródia dá a entender que o contexto antigo esteve incompleto por todo esse tempo e que aguardava por esse resgate paródico recente a fim de completar o seu sentido.

A questão da transcontextualização é bastante forte diante do anseio crítico e contestatório do humor contemporâneo. Com relação à comicidade de “Porta dos Fundos”, é possível afirmar que ela é constantemente pautada no recurso da paródia, realizada na internet. O vídeo “Cura”, selecionado para análise, mostra um dos momentos em que Jesus está reunido com seus discípulos em um local a céu aberto para curar pessoas de suas doenças. Em certo momento, um personagem homossexual entra em cena para “ser curado”. O humor paródico, isto é, o resgate de um acontecimento passado a fim de dotá-lo de novo sentido, permite que o canal se (re)aproprie da questão da homossexualidade e sugira que Jesus, líder espiritual da religião cristã, possui um novo ponto de vista com relação ao assunto.
O DOGMA DA HETERONORMATIVIDADE E A (RE)APROPRIAÇÃO PARÓDICO-HUMORÍSTICA
Em linhas gerais, o vídeo “Cura” mostra um dos momentos em que Jesus (Rafael Infante) está reunido com seus discípulos em um local a céu aberto para realizar milagres. O primeiro milagre foi a ressurreição de Lázaro, que segundo a Bíblia era um amigo de Jesus. Em seguida, Jesus chama a próxima pessoa, momento em que um personagem chamado Sandrinho (Marcus Majella) aparece em cena. Sem dizer qual o milagre pretendido, Sandrinho diz que veio “para ser testada” e alega sofrer de um “fogo que o corrói por dentro”. Após uma breve troca de falas, Jesus concorda em curar Sandrinho de tal “fogo”, fecha os olhos e ergue as mãos em direção ao personagem. Alguns segundos depois, Jesus diz que Sandrinho estava curado e todos se espantam quando o personagem diz: “estou ótima”. Sandrinho sai de cena saltitante e todos olham para Jesus com olhares de dúvida e de reprovação. Sem entender o porquê de tais olhares, exclama: “O quê, gente? Gastrite”.

Com vistas nos três eixos elencados, iniciaremos nossa análise com foco nos elementos de conteúdo (eixo 1): temática, ênfase do título e da descrição; personagens e dogma em questão. O vídeo possui duas abordagens temáticas principais perceptíveis logo no título. A primeira delas invoca a questão dos milagres de Jesus. O conjunto de narrativas bíblicas relata que, enquanto ser vivente na terra, Jesus foi o autor de vários milagres. Um deles foi a ressurreição de Lázaro, representada rapidamente no início do vídeo. Para além da ressurreição de Lázaro, a Bíblia ainda relata dois outros milagres nos quais Jesus teria trazido vida física de volta a pessoas.9 Ademais, o termo “cura” também indica que o vídeo aborda uma questão polêmica da época de sua publicação: o projeto de lei abordado na introdução que defende o direito de psicólogos de atender e tratar pacientes que desejam “se curar” da orientação homossexual. A conexão entre as duas abordagens temáticas do vídeo faz com que consideremos os “milagres de cura” e a “cura da homossexualidade” como a base da crítica paródica.

Na descrição do vídeo, oferecida pelo canal, lemos que:

Milagres são acontecimentos extraordinários que não possuem explicação sob a luz da ciência. A mesma ciência que desbanca os falsos milagreiros que insistem em não enxergar que certas "doenças" não precisam de cura.10

A principal crítica presente na descrição se encontra nas últimas palavras do parágrafo, quando diz que alguns milagreiros “insistem em não enxergar que certas ‘doenças’ não precisam de cura”. Aqui, há referência a líderes religiosos que se dizem capazes de curar pessoas. Também, há clara referência à homossexualidade enquanto uma orientação individual legítima, e não como doença que precisa de cura. Interessante notar que “Porta dos Fundos” utiliza-se de um raciocínio semelhante àquele lido na placa de um dos manifestantes na ocasião da aprovação do projeto de lei da “cura gay”. Dito isso, caminhamos para o vídeo em si com a ideia prévia de que o canal considera que a orientação homossexual não é uma doença.

Com vistas no assunto, Carlos Grzybowski (2013) explica que o meio religioso cristão sempre esteve envolvido na formação ética e moral das pessoas. Segundo ele, “por meio dos ensinos doutrinários, os conceitos de certo e errado vão se estabelecendo no interagir da pessoa com o seu meio ambiente” (GRZYBOWSKI, 2013, p. 32). Sendo assim, cada grupo religioso possui códigos de ética e de moral, sejam eles escritos ou não, que cumprem a função de nortear a vida dos seus seguidores. Ao longo do tempo, as práticas de grupos religiosos se consolidam e se transformam em normas, o que Grzybowski denomina de “tradição”. No caso do cristianismo, é importante destacar o papel da Bíblia na manutenção da norma da heteronormatividade e de sua posterior tradicionalização. Em grupos como a Umbanda, por exemplo, a homossexualidade não é tão mal vista devido a sua própria doutrina. Dessa maneira, como no cristianismo, distintas expressões religiosas tecem distintos modos de conduta tidos como aceitáveis ou não.

Haja vista que o contexto de criação do vídeo “Cura” é mesmo do projeto da “cura gay”, e que além de deputado federal, Feliciano também é pastor e membro ativo da frente parlamentar evangélica, é possível buscar a relação existente entre o posicionamento do parlamentar e os dogmas fundantes de sua religião, pois acreditamos que um influencia o outro. A igreja cristã biblicamente fundamentada não aceita o casamento homossexual. A tradução da Bíblia para a língua portuguesa não utiliza o termo “doença”, mas fixa a homossexualidade como um “pecado imoral”, condenável e que afasta os seres humanos de Deus por contrariar a criação e a constituição de família prevista em Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, que diz “[...] o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (GÊNESIS 2:24, BÍBLIA NVI).

Logo, é de interesse do vídeo questionar o posicionamento adotado por aqueles que se baseiam em uma interpretação bíblica dogmática para condenar e empenhar-se em impedir o relacionamento amoroso entre pessoas do mesmo sexo. A partir de agora, passaremos a pontuar as questões do eixo 2 de modo a refletir de quais maneiras “Porta dos Fundos” também lança mão de cenário; figurinos; gestualidades para constituir a sua crítica paródica no vídeo “Cura”.

O vídeo não foi gravado em estúdio. O cenário retrata um ambiente não urbanizado, composto por pedras, plantas e árvores. Todos os atores envolvidos em cena são homens e estão vestidos com vestes bíblicas típicas: túnicas semelhantes com aquelas utilizadas em países do Oriente Médio. Os atores em cena possuem cabelos e barbas longos. No total, há dois protagonistas em diálogo constante e nove coadjuvantes que exercem o papel de ouvintes, sem falas, apenas com exclamações e expressões faciais pontuais. Jesus está vestido com uma túnica branca coberta por um tecido vermelho que perpassa seu ombro e é amarrado por uma corda na altura da cintura. Possui cabelos longos e barba comprida. Sua imagem em cena é semelhante à representação convencional adotada pela Igreja Católica ao longo da história. O segundo protagonista, Sandrinho, possui cabelos longos e soltos, barba curta e se veste de forma diferente dos demais personagens em cena, pois utiliza uma sobreposição de roupas para compor o seu figurino, não somente uma túnica.

Durante o vídeo, Jesus é interpretado de forma calma e serena, ou seja, não se exalta ou perde o controle em nenhum momento. Seus movimentos são lentos e sutis e durante toda a produção suas mãos estão sempre juntas próximas à barriga, bem como seus pés não se movem de forma brusca. A gestualidade que o ator emprega ao personagem mostra um Jesus que sabe o porquê de estar naquele local e, acima de tudo, sabe o que está fazendo. Por sua vez, os gestos de Sandrinho são, em grande parte do vídeo, agitados, impulsivos e afeminados. Desde o início, dá-se a entender de forma clara que o personagem é homossexual. Os indícios estão presentes tanto na forma do personagem andar quanto nos modos como ele mexe em seu cabelo, na posição de suas mãos e, principalmente, no conteúdo de sua fala, repletos de auto-adjetivações femininas.

Para continuar com os esforços de análise das formas como alguns recursos literários foram empregados no humor de “Cura”, é necessário invocar as perguntas do eixo 3 com vistas na interação dos personagens em cena. O terceiro eixo privilegia os processos interativos; posicionamentos dos personagens; sequência de críticas e respostas; o tratamento dos dogmas e os valores criticados e resgatados.

Após a ressurreição de Lázaro, Jesus pergunta “Quem é o próximo?”. Nesse momento, Sandrinho entra em cena para dizer que ele seria a próxima pessoa a ter contato com o “tão falado milagreiro”. A partir de então, o vídeo deixa de parodiar um milagre que realmente está relatado nas escrituras bíblicas para criar uma situação imaginada entre Jesus e um homossexual. Com isso, o recurso da paródia se justifica porque o vídeo dá a entender que o contexto das narrativas bíblicas sobre os encontros e os milagres de Jesus estão de certo modo “incompletos”.11 Em outras palavras, o vídeo evoca um discurso conhecido – o milagre da ressurreição de Lázaro – pelo modo da repetição e insiste posteriormente nesse discurso (a cura), porém de modo a enquadrar a relação entre Jesus e Sandrinho e construir um novo sentido.

O processo interacional entre os protagonistas é marcado por trocas complexas. As falas dos personagens brincam com as expectativas e o imaginário dos públicos. Logo no primeiro contato entre eles, há certo estranhamento de Jesus, que franze a testa para exprimir dúvida sobre qual o verdadeiro motivo de Sandrinho estar ali frente a ele. Notemos as falas iniciais dos dois personagens:
[0:20-0:40]

SANDRINHO: Sou eu, Senhor. Sou eu. Desculpa, está cheio de pedra aqui. Tudo bem?

JESUS [olhando com desconfiança]: Tudo ótimo.

SANDRINHO: Então... É isso.

JESUS: O que?

*SANDRINHO: É isso. Ouvi falar dessas coisas do milagre. Das coisas que você está fazendo. Da cura. No meu bairro só se fala nisso. Aí eu vim aqui ser testada [risos].

JESUS [ainda mais desconfiado]: Mas o que você tem?
A fala marcada com um asterisco (*) revela dois enquadramentos relevantes acerca de Jesus. O primeiro deles é que o canal deixa a entender que Jesus de fato era um milagreiro conhecido (famoso) na região, pois no bairro de Sandrinho “só se fala nisso”. Notemos, então, como o canal volta a afirmar a popularidade e os possíveis poderes de Jesus – já verificados segundos antes na paródia da ressureição de Lázaro. O segundo enquadramento aparece de forma mais sutil e trabalha a questão do preconceito e do pré-julgamento. Se Jesus é o todo-poderoso milagreiro como já acordado, seria óbvio que ele saberia que o “problema” de Sandrinho envolve a sua orientação sexual. Se não por poderes sobrenaturais, a constatação ainda assim seria óbvia visto que o personagem se utiliza de adjetivos femininos para se referir a ele mesmo. Então, o canal começa a deixar claro, ainda que indiretamente, que a orientação sexual de Sandrinho não foi notada por Jesus como um problema a ser curado em primeira instância, pois o líder religioso insiste na pergunta “O que você tem?”. É a partir daí que o vídeo começa a brincar com o que há “por trás” das falas, isto é, o duplo sentido dos proferimentos dos personagens em cena. Vejamos a sequência:
[0:41-1:02]

SANDRINHO: Eu tenho um fogo incontrolável dentro de mim. Me queimando por dentro. Eu não aguento mais. Eu não aguento mais, Senhor. Eu preciso de ajuda.

JESUS: Desculpa. Eu acho que não entendi ainda exatamente o que você quer.

SANDRINHO [chorando]: Eu preciso que o senhor me livre desse mal. Dessa maldição que me corrói. Eu não aguento mais.

JESUS: É... tá. Eu vou tentar ajudar... a te ajudar.
Sem dizer explicitamente do que deseja ser curado, as falas de Sandrinho são ricas de duplo sentidos. Ao proferir “eu preciso que o senhor me livre desse mal, dessa maldição que me corrói”, o personagem alcança o alto da ambiguidade haja vista que toda a trama é construída de modo a fazer com que o espectador pense que Sandrinho deseja se curar da homossexualidade. O conteúdo e a entonação da voz faz com que a frase soe como uma oração, uma súplica desesperada de alguém que “não aguenta mais”. Contudo, por sabermos o fim do vídeo, fica claro que o objetivo da frase é mesmo o de ridicularizar preces do tipo que rogam por curas de uma orientação sexual homossexual.

Passadas as sequências de falas dotadas de duplo sentido, é chegado o momento em que o principal feito da cena começa a acontecer: a cura de Sandrinho. O processo ocorre na medida em que Jesus ergue os braços e abre as mãos em direção a ele. Nesse momento, é de interesse do canal estereotipar ainda mais a orientação sexual de Sandrinho, que começa a puxar assunto com Jesus sobre moda e produtos para cabelo. Vejamos as trocas de falas:

[1:05-1:37]

SANDRINHO: Nossa, linda a sua bata. Comprou aqui em Jerusalém mesmo?

JESUS: Só um instantinho...

SANDRINHO: 100% algodão egípcio. 700 fios. Adoro. [risos]. Tem um amigo meu que vende em uma tendinha lá no Egito. Na Aristides Espínola esquina com o Rio Nilo. Se você quiser, ele te dá um desconto, tá?

JESUS [parcialmente impaciente]: Vamos ficar calmo. Você é ansioso, né? Você tem coisas boas na sua personalidade. Fica calmo.

SANDRINHO: Desculpa.

JESUS: Vamos concentrar. [voltar a fechar os olhos e estender as mãos].

SANDRINHO: Nossa, seu cabelo é maravilhoso, Jesus. Babado, heim. Você usa o que? Babosa? Ou aquele óleo do Marrocos que tá todo mundo usando? Sou super entendida. Eu sei de tudo.


Vimos que o diálogo inicial de Jesus com Sandrinho foi construído de modo a insinuar – deixar subentendido – que o personagem deseja se livrar de sua orientação homossexual, de uma suposta “maldição” e que, por isso, foi buscar a ajuda de um milagreiro. Da mesma forma que Jesus trouxe Lázaro de volta a vida, o vídeo constrói uma narrativa que cria uma expectativa em torno do milagre a ser realizado em Sandrinho: a cura da homossexualidade. O humor da troca de falas acima é constituído na medida em que Sandrinho não corresponde com a expectativa que a própria interação entre os personagens criou. O ponto alto do humor ocorre quando Jesus se dá por satisfeito com o trabalho. Acompanhe a sequência final de falas:
[2:01-2:22]

JESUS: Foi.

SANDRINHO [fala para as pessoas presentes]: Gente, tô ótima. Taí. Tô cem por centa. Não estou acreditando, Jesus [lê-se em inglês o nome “Jesus”]. [SANDRINHO dá dois beijos em JESUS, um em cada bochecha]. Tem que pagar alguma coisa? Não vai me chamar de caloteira depois não, heim? [risos].

[JESUS encara as pessoas presentes que possuem expressões faciais de desconfiança].

JESUS: O que, gente? Gastrite!
A última frase de Jesus visa romper com toda a rigidez de comportamento contrária à orientação homossexual. Ao dizer que a única doença identificada em Sandrinho era gastrite, Jesus mostra que em nenhum momento a orientação homossexual do personagem foi levada em consideração como algo depravado aos seus olhos, isto é, a “cura” da homossexualidade não foi cogitada pelo Jesus de “Porta dos Fundos” porque, para ele, ela não se configura como doença. Não somente a frase final, mas toda a cena colabora com a criação desse sentido. Além disso, a forma como o conteúdo foi tratado no vídeo revela que o canal, ao mostrar um Jesus que recebeu, conversou, tocou e não excluiu minorias LGBT, avança ao sugerir que o líder religioso foi um homem que não se importava com a orientação sexual das pessoas. O Jesus imaginado, então, enxergou apenas “coisas boas na personalidade” daqueles que se achegaram a ele e, consequentemente, a orientação sexual está dentro do quadro de coisas boas da personalidade de alguém.

CONCLUSÃO
O vídeo analisado propõe uma reflexão com base no humor sobre o que de fato precisa ser tratado como doença na sociedade contemporânea. Ao colocar frente a frente o principal líder religioso cristão e um personagem homossexual que é, por vezes, condenado por pastores e demais cristãos que rogam para si uma interpretação inflexível e a universalização do dogma bíblico da heteronormatividade, a produção não realiza uma crítica ao cristianismo em si, mas à forma como ele é vivido hoje e à liderança polêmica de igrejas neopentecostais. Vimos que o vídeo não nega Jesus, tampouco nega seus milagres. A mensagem principal trazida no desfecho da produção é que o canal institui um quadro de sentidos no qual Jesus não se importa com a homossexualidade de alguém, ou seja, trata-se de uma orientação individual que deve ser respeitada e que não impede uma pessoa de se achegar a Jesus.

O riso provocado no momento em que Jesus revela que todo o “fogo” era gastrite é um riso capaz de propor uma reflexão mais ampla sobre o assunto. Uma vez que se trata de um dogma biblicamente fundamentado, impassível de uma correção material, o riso final ajuda a reforçar outro sentido com relação ao posicionamento de Jesus acerca da homossexualidade. Não é nossa intenção generalizar e dizer que todos os cristãos possuem um comportamento contrário e desrespeitoso à orientação homossexual. Para isso, utilizamos a frase do bispo protestante, Hermes C. Fernandes, que diz: “A maioria (dos cristãos fundamentalistas) está tão obcecada com a ideia de curá-los (os gays) daquilo que reprovam como conduta, que não percebem o quão doentes estão” (FERNANDES, 2015, s/p.)12. A citação de Fernandes é aplicável para, além de minar generalizações, corroborar com a proposta principal do vídeo “Cura”: a de propor uma releitura nos modos como a homossexualidade é vista como doença repulsiva principalmente entre alguns cristãos.


REFERÊNCIAS

A BÍBLIA SAGRADA. Tradução: João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.


BERGSON, H. O riso: ensaio sobre a significação da comicidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

FERREIRA, P. S. Paródia ou paródias. In: MORA, C. M (org.). Sátira, paródia e caricatura: da Antiguidade aos nossos dias. Aveiro: Universidade do Aveiro, 2003.

GRZYBOWSKI, C. C. Macho & fêmea os criou: celebrando a sexualidade. Viçosa: Ultimato, 2013.

HUTCHEON, L. Teoria e política da ironia. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.

HUTCHEON, L. Uma teoria da paródia: ensinamentos das formas de arte do século XX. Lisboa: Edições 70, 1985

MINOIS, G. História do riso e do escárnio. São Paulo: Editora Unesp, 2003.



MORA, C. M (org.). Sátira, paródia e caricatura: da antiguidade aos nossos dias. Aveiro: Universidade do Aveiro, 2003.


1 Trabalho apresentado no GT Processos Sociais e Práticas Comunicativas.


2 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). E-mail: brunomenezesag@gmail.com.

3 Esses e demais trechos da resolução do Conselho Regional de Psicologia estão disponíveis online no endereço eletrônico . Acesso em 05/06/2015.

4 Informações retiradas de reportagem publicada pelo jornal “Folha de São Paulo” no dia 18/06/2013, às 15h42m. No link há galeria com imagens das manifestações que ocorreram em diversas cidades do país. Todos os direitos do texto e das fotos são reservados aos seus respectivos autores e autoras. Disponível em . Acesso em 19 out. de 2015.

5 As informações sobre a tramitação do projeto de lei da “cura gay” estão disponíveis nos endereços eletrônicos: e < http://goo.gl/Q7hx16>. Todos os direitos do texto são reservados aos seus respectivos autores. Acesso em 19 out. de 2015.

6 Dados encontrados no site oficial do canal. Mais informações em http://www.portadosfundos.com.br/ Acesso em Acesso em 19 out. de 2015.

7 Por esse motivo é correto dizer que a paródia, por si só, nada tem de cômica. Durante a evolução da literatura greco-latina, a paródia foi inicialmente utilizada na música e em convenções dramáticas. A paródia literária consiste em um alargamento do âmbito semântico do termo, e, aí sim, sempre associada ao cômico (FERREIRA, 2003).

8 Transcontextualizar significa retirar algo de seu contexto de origem e inseri-lo em um novo contexto. A dinâmica exige novas formas e novos tratamentos para que aquilo que foi retirado de seu local original faça sentido mesmo em um novo ambiente.

9 Os dois outros milagres de ressureição operados por Jesus e registrados na Bíblia são a ressurreição da filha de um homem chamado Jairo [Mateus 9.18-26], e a ressureição do filho da viúva de Naim, ressuscitado no segundo dia após a sua morte [Lucas 7.11-15]. A cura de um leproso está registrada em Mateus 8.1-4. Ademais, a Bíblia relata em Mateus 9.27-31 que Jesus curou dois cegos em Galileia.

10 Descrição disponível na página do YouTube onde o vídeo está hospedado e no site oficial do canal, ambos já referenciados anteriormente. Também, o canal se utiliza dessa mesma descrição [ou de trechos dela] para divulgar o vídeo em sites de redes sociais, como o Facebook e o Twitter, por exemplo.

11 Importante ressaltar que “Porta dos Fundos” não deseja acrescentar algo novo à Bíblia com a criação do vídeo “Cura”. A proposta da paródia é sugerir um transcontextualização tão somente para criar um novo significado.

12 Citação retirada de um texto publicado no site pessoal de Hermes C. Fernandes acerca da forma como alguns cristãos agem impulsionados por uma necessidade de “colocar lenha na fogueira de nossa nada santa inquisição, não alimentando o que ainda nos resta da chama do amor”. Texto completo disponível em . Acesso em 19 de out. de 2015.

VIII Encontro dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação de Minas Gerais

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