A cura Quântica



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Dr. Deepak Chopra
A CURA QUÂNTICA

O poder da mente e da consciência

na busca da saúde integral
Tradução de

evelyn kay massaro

e Marcília Britto


Título original: Quantum Healing

Copyright © Deepak Chopra, 1989

Publicado sob licença de Bantam Books,

uma divisão de Bantam Doubleday Dell Publishing Group, Inc.

Todos os direitos reservados.
Proibida a reprodução no todo ou em parte,

por qualquer meio, sem autorização do Editor.

Não é permitida a venda em Portugal.

Direitos exclusivos da edição em língua portuguesa no Brasil

adquiridos por EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.,

que se reserva a propriedade desta tradução


EDITORA BEST SELLER

uma divisão da Editora Nova Cultural Ltda.

Av. Brig. Faria Lima, 2000 - CEP01452 -Caixa Postal 9442

São Paulo, SP

ISBN 85-7123-176-1

10 9 8 7 6 5 4 3 2

Fotocomposto na Editora Nova Cultural Ltda.

Impresso e acabado na Gráfica do Círculo do Livro S.A.

Contra Capa

Uma viagem às fronteira da nova medicina, integrando corpo e mente.

Uma nova medicina vem surgindo, na qual a mente, a consciência, a compreensão e a inteligência ocupam importantes papéis.

Um de seus arquitetos é o dr. Deepak Chopra, consagrado autor de Conexão Saúde e O Retorno do Rishi, cujo método — a que deu o nome de Cura Quântica — engloba o lado físico e biológico do ser humano, mas vai além, como mostram alguns temas deste livro:

• O Corpo Possui Mente Própria

• Fantasmas da Memória

• O Nascimento de uma Doença

• O Que Você Vê, Você se Torna

• Corpo de Bem-Aventurança

Baseando-se tanto na ciência moderna como na ancestral sabedoria do Ayurveda, o autor relata casos reais e histórias fascinantes em apoio a um modelo de saúde e bem-estar que está em perfeita harmonia com o mais profundo conhecimento espiritual.
A Cura Quântica é uma brilhante investigação da habilidade de um aspecto da consciência — a mente — em corrigir espontaneamente outro aspecto da consciência — o corpo.”

The Washington Post


“O dr. Chopra escreve com simplicidade quase mágica e encanto, mas é rigoroso nos fatos que apresenta e no raciocínio.”

Marilyn Ferguson, escritora


Orelhas do Livro

Nos últimos anos surgiu uma abordagem da medicina, na qual a mente, a consciência e a inteligência ocupam papéis importantes. O dr. Deepak Chopra, um de seus idealizadores, batizou-a de Cura Quântica, e neste livro nos apresenta esse novo modelo de saúde e bem-estar, baseando-se em conhecimentos da medicina moderna ocidental, e da antiga sabedoria oriental, o Ayuverda. O dr. Chopra também reforça as propostas de suas publicações anteriores — Conexão Saúde e O Retorno do Rishi —, onde dá ênfase às energias positivas e à Meditação Transcendental. Em A Cura Quântica, o dr. Chopra nos mostra que o corpo humano é controlado por uma “rede de inteligência”, que determina se estamos saudáveis e bem integrados com a Natureza, sendo capazes, assim, de derrotar doenças cardíacas e câncer, entre outros males. Por meio de uma narrativa envolvente, com relatos de pacientes e noções básicas de física e biologia, o autor nos mostra como as células de nosso organismo estão ligadas às forças do cosmo e como o pensamento individual se relaciona com as unidades fundamentais da matéria e da energia. Indispensável para quem quer manter ou recobrar a saúde, A Cura Quântica é um livro cheio de mistério, maravilha e esperança.

DEEPAK CHOPRA nasceu na Índia em 1947 e lá se formou em medicina. Desde 1971 exerce a profissão nos Estados Unidos, onde foi chefe de equipe do New England Memorial Hospital. Em 1985, tornou-se presidente-fundador da Associação Americana de Medicina Védica. Hoje é diretor do Maharishi Ayurveda Health Center em Lancaster, Massachusetts, e também professor-assistente de ciências médico-sociais na Escola de Medicina da Universidade de Boston. Realiza conferências sobre saúde e autoconscientização nos EUA e em diversos países. Esteve no Brasil em 1988 para o lançamento de seu livro Conexão Saúde.

Do autor, pela Best Seller:

CONEXÃO SAÚDE

O RETORNO DO RISHI

Ilustração da capa: Luiz Carlos Alvim

De todo o coração e com os

mais profundos agradecimentos

a Maharishi Mahesh Yogi





http://groups.google.com/group/digitalsource

Agradecimentos

A Gautama, Mallika e Rita, pelo amor incondicional que me dedicam e pela plena aceitação de tudo o que faço.

A Carla Linton, por seu empenho em criar um mundo melhor.

A Muriel Nellis, por inspirar, desde o início, minha autocon­fiança como escritor.

A Toni Burbank, pela revisão que trouxe maior clareza a meus pensamentos e melhorou cada capítulo deste livro.

E especialmente a Huntley Dent: a nossa profunda amizade, aos insights que vivenciamos juntos e a sua orientação literária, que foram, no todo, experiências evolutivas para mim.

Sumário
Uma Introdução Pessoal


PRIMEIRA PARTE: A FISIOLOGIA OCULTA

1. Após o Milagre

2. O Corpo Possui Mente Própria

3. A Escultura ou o Rio?

4. Mensageiros do Espaço Interior

5. Fantasmas da Memória

6. O Corpo Mecânico Quântico do Homem

7. Em Lugar Nenhum e em Toda a Parte

8. Testemunha Silenciosa

9. O Mistério do Vazio


SEGUNDA PARTE: CORPO DE BEM-AVENTURANÇA

10. No Mundo dos Rishis

11. O Nascimento de uma Doença

12. “O Que Você Vê Você se Torna”

13. Corpo de Bem-Aventurança

14. O Final da Guerra

Uma Introdução Pessoal

— Tenho um paciente chinês que está em fase terminal de um câncer na cavidade nasal. Seu rosto foi afetado, e ele sofre dores quase o tempo todo. Mas ele também é médico e acho que deve­ria ouvir isto.

Concordei, do outro lado da escrivaninha. Estávamos nos últi­mos dias do mês de outubro de 1987, em Tóquio. Eu fazia uma visita a um japonês especialista em câncer, que poderia me aju­dar a testar uma nova teoria. Ela estava ligada a um dos grandes mistérios da medicina: o processo da cura. Naquela ocasião eu ainda não havia descoberto o conceito “cura quântica”, mas este foi o assunto que discutimos por mais de uma hora.

Depois nos levantamos e nos dirigimos às alas dos pacientes. Enquanto caminhávamos, pude admirar de passagem os bem cui­dados jardins Zen do hospital. As crianças dormiam na ala in­fantil e passamos por ali em silêncio. Quando chegamos ao setor dos quartos particulares, o médico japonês se deteve diante de certa porta, dando-me passagem.

— Doutor Liang — disse ele —, pode nos dedicar alguns mi­nutos de sua atenção? — O quarto estava na penumbra. Um ho­mem de quarenta e alguns anos, mais ou menos de minha idade, jazia na cama. Virou a cabeça, cansado, quando entramos.

Nós três tínhamos várias coisas em comum: éramos do Orien­te e havíamos abandonado nossas terras para estudar medicina ocidental avançada. Somando os três, tínhamos cinquenta anos de especializações. Mas o homem deitado no leito era o único que estaria morto no mês seguinte. Cardiologista em Taiwan, ele recebera, havia menos de um ano, o diagnóstico de câncer nasofaríngeo. Naquele dia seu rosto estava coberto por tiras largas, que chegavam quase até os olhos. O encontro foi um momento difícil. Não baixei o olhar ao cumprimentá-lo, mas o dr. Liang, sim.

— Viemos conversar um pouco — murmurou o médico japo­nês. — Não está se sentindo cansado demais?

O homem no leito fez um gesto amável e aproximamos nossas cadeiras. Comecei a explicar minhas idéias, como fizera antes com meu anfitrião. Em resumo, eu acreditava, por princípio, que a cura não é um processo físico, mas mental. Quando víamos a re­composição de um osso fraturado ou a regressão de um tumor maligno, estávamos condicionados, como médicos, a observar, de início e principalmente, o mecanismo físico. Mas esse meca­nismo é apenas uma tela. Expliquei-lhes que por trás existe algo bem mais abstrato, uma espécie de know-how que não pode ser visto ou tocado.

No entanto, eu estava convencido de que esse know-how fosse uma força poderosa sobre a qual não tínhamos suficiente contro­le. Apesar dos esforços para influenciarmos o processo de cura quando ele falha, a medicina não pode explicá-lo. A cura é viva, complexa, holística. Lidamos com ela presos a nossos meios li­mitados e ela parece obedecer a nossos limites. Mas quando acon­tece alguma coisa estranha, como um câncer avançado que desa­parece súbita e misteriosamente, frustra-se a teoria médica. Nossos limites parecem, então, muito artificiais.

Em minha clientela particular, muitos pacientes com câncer sararam completamente depois de considerados incuráveis, com prognóstico de poucos meses de vida. Não considerei essas curas como milagres; achei que eram a prova de que a mente pode aprofundar-se o suficiente para mudar os próprios modelos que formam o corpo. Ela pode, por assim dizer, apagar os enga­nos impressos na planta básica, destruindo qualquer doença co­mo câncer, diabetes ou um mal das coronárias que tenha afetado o modelo corporal.

Minhas palavras soavam confusas porque eu estava falando lo­go após a experiência mais notável de minha vida profissional. Poucas semanas antes, durante uma visita à Índia, um dos maio­res sábios vivos me transmitira algumas técnicas usadas há mi­lhares de anos, assegurando-me que elas restaurariam em minha mente as capacidades de cura. Falo do Maharishi Mahesh Yogi, mais conhecido no Ocidente como o fundador da Meditação Transcendental, ou MT. Venho meditando há quase oito anos e prescrevo rotineiramente a MT a minha clientela. (O mais irôni­co foi ter aprendido a meditar com um americano em Boston, e não na Índia.)

Certa tarde eu visitava o Maharishi num lugarejo novo, cha­mado Maharishi Nagar, a aproximadamente oitenta quilômetros de Nova Délhi. Estávamos a sós, na casa modesta em que ele vive, cercada pelos edifícios da escola e do hospital ainda em cons­trução. Esse é um dos raros locais que eu ainda considero como a verdadeira Índia. Sente-se ali que uma grande cultura antiga conserva sua dignidade e sua enorme sabedoria. Graças ao Ma­harishi, os antigos sábios védicos não parecem tão remotos e se­parados de nós por milhares de anos, mas muito próximos. O lugarejo, de fato, é muito próximo do local exato em que o sr. Krishna passou a noite ensinando ao grande guerreiro Arjuna os segredos da iluminação. A história é relembrada na poesia épica do Bhagavad Gita.

Subitamente, o Maharishi falou, olhando para mim:

— Gostaria de vê-lo a sós, amanhã, em meu quarto. Pode vir logo depois de sua meditação matinal?

Surpreendi-me, mas não o pressionei com perguntas. Na ma­nhã seguinte chegava a sua porta. O Maharishi estava sentado em posição de lótus, sobre um sofá coberto de seda. Convidou-me a entrar e nos sentamos juntos, em silêncio.

— Venho esperando um longo tempo para explicar algumas técnicas especiais — declarou muito simplesmente. — Acredito que serão a medicina do futuro. Eram conhecidas no passado lon­gínquo, mas foram se perdendo na confusão dos tempos; agora quero que as conheça e, ao mesmo tempo, explique clara e cien­tificamente como funcionam.

Durante as horas seguintes, ele me ensinou uma série de téc­nicas mentais, inclusive a que denominava “sons primordiais”. Seu uso está ligado à prática da meditação, embora sejam pres­critas no tratamento de males específicos, inclusive os considera­dos incuráveis no Ocidente, como o câncer. O Maharishi explicou-me claramente que aquelas eram as terapias mais fortes do Ayur­veda, a velha medicina tradicional indiana. Ensinou-as com muita simplicidade, e não foi difícil aprender o que eu deveria fazer com meus pacientes quando voltasse para casa. Ao mesmo tempo, com­preendi que ele estava me pedindo para ir muito além do papel de médico que se conhecia no Ocidente.

Quando terminamos, eu havia preenchido com anotações vá­rias páginas do caderno. O Maharishi sorriu com aquela doçura penetrante e aquela compaixão que sempre revejo ao me lem­brar dele.

— Esse conhecimento é extremamente poderoso — repetiu. — Comparadas a ele, as drogas e a cirurgia a que você está habi­tuado são métodos muito grosseiros. Levará tempo ainda, mas as pessoas vão se desenvolver e compreenderão isso. — Depois, virou-se com absoluta naturalidade para receber outros visitan­tes que o procuravam para matricular as crianças na escola de Maharishi Nagar.

Poucos minutos depois, eu estava sozinho na soleira da porta, observando o deserto e aquela paisagem vermelha e nua a dis­tância. Este é um lugar cuja existência a maioria dos ocidentais ignora. Poderiam acreditar que ali se iniciara uma importante mu­dança no conceito médico? Conheço muitos médicos pesquisa­dores e não pude conter o riso ao imaginar suas reações. A ciência tem uma base física muito sólida e extremamente convincen­te aos olhos de qualquer médico. Já o poder da mente é duvido­so na mesma proporção.

Para ser franco, naquele momento as dúvidas pouco me atin­giam. Eu seguia pela trilha empoeirada até minha hospedagem, com o sol indiano queimando minha nuca, e me sentia exultan­te. Não era uma sensação de convencimento, mas de uma alegria quase impessoal, incontrolável. Não sabia por quê, mas alguns grandes segredos me haviam sido revelados e eu me sentia trans­portado aos céus. Tinham me mostrado como penetrar no ocul­to e, naquele momento, nem o calor nem a poeira ou qualquer outro vínculo material me importavam. Nem meu próprio ceti­cismo me incomodava, apesar de saber que logo começaria a me oprimir. Enfrentei algumas decisões difíceis: tinha de imaginar uma forma de tornar aquelas técnicas dignas de crédito. Certas pessoas poderiam descartá-las como cura pela fé; outras me acu­sariam de vender falsas esperanças.

Precisava demonstrar que aquela era uma ciência por seus próprios méritos. Como fazer isso? A resposta acabaria por surgir. O pensamento indiano tem se baseado sempre na convicção de que Satya, a verdade, triunfa por si.

— A verdade é simples — encorajava o Maharishi. — Apresente-a com clareza, deixe que se afirme e não se perca em complicações.

O nome Ayurveda originou-se há mais de quatro mil anos; em sânscrito, significa “a ciência da vida”. O fato de crescer na Ín­dia, como foi meu caso, não assegura que se aprenda muito so­bre essa antiga ciência. Minha avó costumava esfregar açafrão nas picadas de insetos, quando eu era criança, e nos avisava para nunca comermos frutas ácidas com leite. Era assim o Ayurveda em mi­nha casa. O Ayurveda foi eclipsado, de forma geral, pela medici­na ocidental científica e reprimido pelo progresso em seu pró­prio local de nascimento. Fora das culturas interligadas da Ín­dia, do Tibete, Nepal e Sri Lanka, o Ayurveda é desconhecido, embora tenha deixado marcas duradouras. Os sistemas populares de medicina oriental que lançaram algumas raízes no Ocidente, como a acupuntura chinesa, foram baseados nos princípios do Ayurveda há milhares de anos.

O conhecimento primordial do Ayurveda dispersou-se através dos séculos. Os indianos que vivem de acordo com os valores da tradição, principalmente no campo, ainda procuram seguir as prá­ticas aiurvédicas, mas deram a elas muitas interpretações dife­rentes. Muitas visões são parciais e até estrábicas. Qualquer vaidya, ou médico védico, costuma citar antigos mestres do Ayurveda, como Charaka e Sushruta, com toda a autoridade. Isso não sig­nifica, porém, que suas prescrições sejam iguais às do vaidya da vila mais próxima.

Muitas técnicas aiurvédicas desapareceram por completo; infelizmente, logo aquelas que mais poderiam oferecer contribui­ções à medicina moderna. Os antigos médicos da Índia eram tam­bém grandes sábios e tinham como crença principal a idéia de que o corpo é criado pela consciência. Um grande yogi ou swami também acreditava nisso. Portanto, a medicina que exerciam era de consciência, e o tratamento transcendia o mal físico e atingia além, o âmago da mente.

Quando você observa os mapas anatômicos do Ayurveda, não vê os órgãos internos descritos nos manuais de anatomia, mas sim um diagrama do fluido da mente enquanto cria o corpo. O Ayur­veda trata desse fluir. Antes de encontrar o Maharishi, eu consi­derava o Ayurveda uma medicina folclórica, porque só via seus costumes populares: ervas, dietas, exercícios e regras incrivelmente complicadas para a vida diária, que apenas “ficam no ar” quan­do crescemos na Índia.

No entanto, o interesse do Maharishi centrava-se no Ayurveda perdido e em sua capacidade de curar pacientes por meio de mé­todos imateriais. Depois que ele me ensinou esses métodos, eu também esperava contar a outros como funcionavam. Por esse motivo desejava conversar com médicos interessados, como o que conheci em Tóquio.

Naquele momento, eu repetia isso a um homem moribundo, numa cama de hospital a milhares de quilômetros de casa, e quem sabe a que distância de sua ancestralidade espiritual... Minhas palavras se perdiam no silêncio do quarto sombrio. O dr. Liang já aparentava cansaço. Não dissera nada, mas, quando nos le­vantamos para sair, tocou meu braço.

— Esperamos que você tenha razão — disse ele. — Obrigado.

Enquanto voltávamos pelas alas, tornei a olhar para os peque­nos jardins Zen através das janelas. Eram plantados em áreas pou­co maiores que os quartos do hospital, mas cada um deles era modelo de devotado carinho. Os teixos, aparados com absoluta precisão, estavam lindos na quente claridade de outubro. Quan­do chegamos a meu carro no estacionamento, o médico japonês apertou calorosamente minha mão. Eu lhe disse que primeiro co­meçaria a testar as novas técnicas na América, mas ele seria in­formado de todo novo passo que fosse dado.

Enquanto voltava ao hotel, resolvi que escreveria ao médico o que o Maharishi me havia contado sobre a vida de um vaidya, um médico védico:

— Um vaidya é um guerreiro invencível porque combate o elemento da morte. Um vaidya doa, é um doador da vida e, por­tanto, querido pela natureza.

O significado dessas palavras é de que o médico precisa fazer uma viagem ao interior, estendendo sua compreensão para além dos limites do corpo físico até o núcleo de uma realidade mais profunda. Sua responsabilidade é resolver o enigma da vida e da morte. A solução acena no horizonte com a mesma urgência e alegria que animavam os sábios antigos. Saltando pelo vazio do tempo e do espaço, sobrevivendo às ondas de destruição que aba­lam a humanidade, a antiga sabedoria Védica nos fala com pro­funda simplicidade: no perfeito desígnio da natureza, nada mor­re. Um ser humano é tão permanente quanto uma estrela; am­bos são iluminados pelo resplendor da verdade.

Sinto, a cada dia, a importância da viagem interior. Acredito que ainda estou dando os primeiros passos, mas quero transferi-los aos outros, neste livro. A prática da medicina é, agora, cheia de esperança para mim. Não precisei dos conhecimentos do Ayur­veda para descobrir que os médicos lutam contra a morte. Preci­sei deles para descobrir que venceremos.

PRIMEIRA PARTE:

A FISIOLOGIA

OCULTA
Na realidade mais profunda,

além do espaço e do tempo,

talvez sejamos, todos,

membros de um só corpo.
Sir James Jeans

1

Após o Milagre



Em minha carreira médica, por várias vezes tive o privilégio de presenciar curas miraculosas. A mais recente iniciou-se no ano passado, quando uma moça indiana de 32 anos me procurou em meu consultório próximo à cidade de Boston. Vestida num sári de seda azul, sentou-se em silêncio diante de mim. Procurando manter-se sob controle, ela apertava fortemente as mãos entrela­çadas no colo. Chamava-se Chitra, como declarou. Dirigia uma loja de importações com o marido, Raman, num bairro de Nova York.

Poucos meses antes, Chitra notou um pequeno caroço em seu seio esquerdo, sensível ao toque. Submetera-se a uma cirurgia para extirpá-lo, mas infelizmente o cirurgião chegou à conclusão de que se tratava de tumor maligno. Procedendo a um exame mais profundo, ele descobriu que o câncer já atingira os pulmões.

Depois de retirar o seio doente e boa parte do tecido a sua vol­ta, o médico de Chitra receitou-lhe as doses iniciais de radiação; a seguir, fez com que se submetesse a intensa quimioterapia. Es­se é o procedimento habitual nos casos de mama e tem salvado muitas vidas. Mas o câncer de pulmão era mais difícil de ser tra­tado, e qualquer um poderia perceber que Chitra se encontrava numa situação muito perigosa.

Ao examiná-la, notei nela muita ansiedade e procurei encorajá-la. Foi quando me surpreendeu com uma declaração tocante:

— Não me incomodo se tiver de morrer, mas sei que meu ma­rido ficará muito solitário sem minha companhia. Às vezes, fin­jo que estou dormindo, mas passo a noite acordada, pensando nele. Sei que Raman me ama, mas também sei que, depois que me for, ele vai começar a se encontrar com as jovens americanas. Não consigo suportar a idéia de perdê-lo para uma delas. — De­pois de uma pausa, olhou-me com expressão de sofrimento e pros­seguiu: — Sei que não devia dizer essas coisas, mas acho que o senhor compreende.

Não nos acostumamos com a dor que o câncer provoca, mas sofri ainda mais ao pensar que o tempo era o grande inimigo de Chitra. Por enquanto ela mantinha um aspecto saudável. Vinha até escondendo seu mal dos parentes, porque detestava a idéia de ser observada enquanto definhava. Mas ambos sabíamos que seria um processo difícil para ela.

Ninguém pode afirmar que conhece uma cura para câncer de mama em estado avançado. A terapia convencional tinha feito tudo o que era possível por Chitra. Como o câncer já atingira outro órgão, os dados estatísticos indicavam menos de 10 por cento de chance de cinco anos de sobrevivência, mesmo com a mais in­tensa rotina de quimioterapia que se pudesse adotar em segurança.

Pedi-lhe que começasse um novo processo de tratamento, co­mo o prescrito pelo Ayurveda.

Chitra, como eu, também crescera na Índia, mas tinha uma vaga idéia do que era o Ayurveda. A geração de seus avós fora a última a “acreditar” nessa medicina, eu imaginava; atualmen­te, qualquer indiano progressista que viva numa grande cidade daria preferência à medicina ocidental, se tivesse condições de mantê-la. No intuito de explicar a Chitra por que eu queria que ela desse as costas ao progresso, afirmei-lhe que seu câncer não era apenas uma doença física, mas holística. Todo seu organis­mo sabia que ela estava com câncer e sofria com ele; um exame do tecido dos pulmões demonstraria que as células malignas tinham migrado para lá, enquanto a amostra de tecido do fígado seria negativa. Mas o fígado era irrigado pelo mesmo sangue e recebia os sinais da doença, vindos dos pulmões. Tal conheci­mento, por sua vez, afetava as funções desse órgão.

Da mesma forma, quando ela sentia dor no peito ou era obri­gada a sentar-se por feita de ar, os sinais percorriam todo seu corpo, saindo do cérebro e voltando a ele. Sentindo a dor, o cérebro era obrigado a reagir. O cansaço que ela sentia, aliado à depressão e à ansiedade, era uma reação cerebral com conseqüências físi­cas. Portanto, seria errado pensar em seu câncer apenas como um tumor isolado que precisava ser destruído. Chitra sofria de um mal holístico que exigia uma medicina holística.



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