A cura Quântica



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Para esclarecer o que é uma supercorda, o físico Michio Kaku faz uma analogia com a música. Imagine que um violino está fo­ra de vista, sendo tocado dentro de uma caixa. À medida que as cordas vibram, produzem diferentes tons, acordes, sequências de notas e timbres. Se você fosse um alienígena que não soubes­se o que é música, acharia cada uma dessas coisas completamen­te diferentes entre si — a nota poderia ser como um átomo de hidrogênio, enquanto o mi bemol seria um fóton. Somente abrindo a caixa e vendo que, na verdade, todos os sons vieram de um único violino, você ficaria convencido de que eles tinham uma fonte unificada.

Da mesma forma, o campo fundamental da natureza está constantemente vibrando e produzindo variações das mesmas “no­tas”, mas nossos sentidos estão organizados de tal maneira que transformam essa igualdade em diferenças. Percebemos o ferro como uma nota sólida, o hidrogênio como uma nota gasosa, a gravidade como uma nota pesada, e assim por diante. Somente com a exposição das supercordas ficaria evidente a unidade sub­jacente, e elas não são expostas abrindo-se uma caixa, mas por meio de fórmulas matemáticas demonstrativas de que todas as formas de matéria e energia se ajustam ao modelo supercorda — e até agora todas elas se ajustam. Portanto, a física quântica tem agora seu primeiro bom candidato a uma teoria do campo unifi­cado, justificando a fé de Einstein na ordem do cosmos.

Por mais impressionante que pareça, os rishis védicos também perceberam que o cosmos era permeado de cordas. Deram-lhes o nome de sutras, do qual deriva a palavra “sutura”, dos cirur­giões. Em sânscrito, sutra pode significar um ponto de costura (ou sutura) e também uma linha ou frase verbal. Se você pensar num sutra como uma linha, então o universo inteiro é tecido co­mo uma teia diáfana, a partir de fios de inteligência, bilhões e bilhões deles. Como notas tocadas no violino escondido, o nível fundamental do mundo todo, segundo os rishis védicos, é feito de sons. Como surgem antes de qualquer outra coisa, eles são primordiais — daí o termo som primordial.

É preciso mais de um som para fazer o universo. No entanto, os rishis tinham um para começar, uma vibração chamada Om, que surgiu na ocasião do Big Bang. Om é uma sílaba sem signi­ficado — trata-se apenas da primeira onda que quebra o silêncio cósmico. À medida que vai se quebrando em muitas ondas me­nores, o Om se subdivide em diferentes subfreqüências que com­põem a matéria e a energia de nosso universo.

Desde que você abra sua mente à possibilidade, não será mais surpreendente que estrelas, galáxias e seres humanos possam ser criados a partir do Om, em vez de a partir de uma supercorda. Ambos são abstratos. Voltando ao violino escondido, Kaku es­creveu: “Os tons criados pela corda em vibração, como um ou si bemol, não são mais fundamentais do que qualquer outra nota. O que é fundamental, contudo, é o fato de que um único conceito — as cordas que vibram — pode explicar as leis da har­monia — ou, no caso do universo, as leis da Natureza”.

O Om pode ser representado como uma linha reta cujo tom cai no infinito, como a suprema supercorda. Não é por acaso que a sílaba Om soa como um zumbido; quando os rishis sintoniza­vam com o som do universo, ouviam mesmo um zumbido cós­mico. Se você fosse um iluminado, seria capaz de ouvir sua pró­pria vibração, que é tão individual como uma assinatura; por exemplo, você poderia “ouvir” seu DNA como uma frequência específica vibrando em sua percepção. Da mesma forma, cada neuropeptídio, como qualquer outra substância química, teria ori­gem num som.

Começando pelo DNA, o corpo inteiro se desdobra em mui­tos níveis e, em cada um, o sutra, ou sequência de sons, vem primeiro. Portanto, colocar um som primordial de volta no cor­po é como lembrá-lo da estação em que deveria estar sintoniza­do. Com base nisso, o Ayurveda não trata o corpo como uma pe­lota de matéria, mas como uma teia de sutras.

Nem preciso dizer que levei muito tempo para explicar tudo isso a mim mesmo. Quando comecei a administrar os programas aiurvédicos na clínica de Lancaster, eu mantinha um pé firme­mente plantado em meu consultório particular de médico endocrinologista — embora me sentisse afinado com a teoria aiurvé­dica, ainda estava apreensivo com seus resultados. Eu fazia uma verdadeira ponte aérea entre meu consultório e a clínica todos os dias da semana. Certo dia de outubro, entrei no restaurante da clínica e notei um dos pacientes de câncer, um homem de meia-idade, almoçando tranquilamente numa mesa de canto, em com­panhia da esposa. Ele tinha câncer de pâncreas, uma condição fatal que é também extremamente dolorosa. Quando o homem se internara, cinco dias antes, seu rosto estava cinzento e enruga­do devido a meses de sofrimento. Fui até sua mesa para cumprimentá-lo. Enquanto me aproximava, ele me olhou por aca­so. Foi um desses momentos que fazem o coração parar. Seu ros­to estava relaxado e transmitia impressão de paz; seus olhos mostravam-se inegavelmente tocados pela bem-aventurança. Perguntei-lhe como se sentia e ele me disse que não sentia mais nenhuma dor; depois de quatro dias de tratamento aiurvédico deixara, por si próprio, de tomar todos os analgésicos. Alguns dias depois, o paciente saiu da clínica e, até a época em que fale­ceu, continuou praticamente livre de drogas.

Isso ainda não pode ser considerado uma cura, mas é um grande passo em sua direção. Estou convencido de que a percepção es­taria curando mais pessoas atualmente, se não fizéssemos diag­nósticos tão tardios das doenças, depois que anos de estresse te­nham endurecido a fisiologia, dificultando a penetração da bem-aventurança. Entretanto, o portão está sempre aberto, nem que haja apenas uma fresta. Todas as técnicas de cura aiurvédica atuam dentro da premissa de que em primeiro lugar trata-se o doente e, depois, a doença.

A perspectiva de se tornar novamente uma pessoa sadia, em vez da luta contra um mal que se sabe incurável, dá esperanças a pacientes que, de outra forma, não teriam nada em que se agarrar senão tristes estatísticas. Um aidético da Alemanha foi tratado com o Ayurveda por dois anos, como parte de um programa pi­loto de combate à AIDS. Tendo sido diagnosticado em 1984, ele continua vivo no momento em que estou escrevendo este livro, agosto de 1988 (80 por cento dos pacientes de AIDS morrem den­tro de dois anos após o diagnóstico), e leva uma vida normal, sem nenhum sintoma aparente.

Um programa similar está sendo desenvolvido na Califórnia, tratando aidéticos e mantendo-os sob constante observação clíni­ca para se verificar se tanto a fase ativa como a fase latente da doença podem ser afetadas com o tratamento aiurvédico. Os dois grupos são pequenos e os aidéticos sabem que o Ayurveda não está prometendo uma cura, mas os médicos supervisores afirmam que estão observando melhoras, especialmente na capacidade de os pacientes suportarem a fadiga debilitante que lhes mina a for­ça e a vontade.

A simples extensão do período de latência, dando ao paciente mais alguns anos antes que a doença produza sintomas, seria um avanço importante. No entanto, encontrei um aidético, não liga­do à clínica, que parece ter feito melhor do que isso. Um músico de Los Angeles, de 40 e poucos anos, veio me procurar dois anos atrás para aprender a técnica da bem-aventurança; não o revi até este ano, quando apareceu para aprender o som primordial. Per­guntei como estava passando e ele respondeu que precisava me contar uma coisa — tinha AIDS.

O diagnóstico fora feito quatro anos antes, depois que ele contraíra pneumonia. Sua enfermidade não era típica, causada pelo pneumococo, mas uma infecção por um protozoário chamado Pneumocystis carinii. Essa é uma das doenças mais comuns que atacam os aidéticos quando ocorre o colapso do sistema imuno­lógico. O músico curou-se dessa crise e decidiu mudar de vida. Aprendeu a meditar e, pela primeira vez em sua vida adulta, aban­donou a rotina de noites em claro, bebedeiras, pílulas, fumo e promiscuidade, que estivera ligada a sua carreira. (É interessan­te notar que um estudo de acompanhamento de aidéticos com um período de sobrevivência mais longo demonstra que todos eles tomaram uma decisão do tipo “vou assumir o controle’’, a respeito de sua doença. A medicina comum não consegue expli­car por que essa atitude é um salva-vidas tão bom, mas é assim que ela funciona.)

Dois anos depois que o músico aprendeu a técnica da bem-aventurança, sua saúde havia melhorado a ponto de ele ter um aspecto absolutamente normal. A técnica da bem-aventurança tornou-se o principal foco de sua determinação em derrotar a AIDS.

— Não penso em mim mesmo como estando em luta contra a doença — observou. — Só estou aprendendo como era errada a sensação de angústia e infelicidade em que eu vivia.

Em seu interior, ele começou a vivenciar uma gama de emo­ções muito mais positivas — contou-me que jamais imaginara que poderia ficar viciado em felicidade. Hoje, quatro anos depois do diagnóstico original, esse homem parece perfeitamente saudável e, exceto por alguma fadiga, vive como se a AIDS não existisse.

A cada ano que passa, os congressos internacionais sobre a AIDS revelam maior desânimo no combate à doença. A AIDS é causada pelo vírus HIV e suas mutações — o pesadelo dos pes­quisadores —, pois ele pertence a uma classe de organismos es­pecialmente ardilosos e desnorteantes, denominados retrovírus. Mesmo um vírus normal, como o responsável pelo resfriado co­mum, tem notáveis poderes para enganar o sistema imunológico do corpo.

Ao contrário do que acontece quando reage às bactérias, nos­so DNA misteriosamente se esquece de como lutar contra um vírus invasor — de fato, parece cooperar com ele. Quando um vírus chega à parede celular, é como se ela se derretesse, e ele a penetra sem resistência, sendo praticamente conduzido até o núcleo da célula, onde o DNA, muito prestativo, interrompe suas operações normais e passa a fabricar proteínas para produzir no­vos vírus.

Um vírus de resfriado ou de gripe contenta-se em deixar o DNA fabricar proteínas para ele, mas um retrovírus como o HIV vai além, mesclando-se às combinações químicas do DNA, mascarando-se como material genético da célula hospedeira. Ali ele “dorme” até o dia — que pode chegar anos depois — em que o DNA é disparado para lutar contra outra doença. Então, o retrovírus “desperta” e passa a se multiplicar aos milhões, usan­do a célula hospedeira como incubadora, o que acabará por matá-la. Ela se rompe, soltando uma horda de vírus letais na corrente sanguínea. Cada etapa do ciclo é tão misteriosa e complicada que o vírus da AIDS logo conquistou a fama de ser o mais complexo organismo mórbido já conhecido. Nenhuma droga é capaz de combatê-lo. O AZT, que ajuda a adiar a fase ativa, tem efeitos colaterais significativos, o que impossibilita seu uso em alguns pacientes.

Não tenho a intenção de negar a abordagem típica da medici­na ocidental. Quando surge uma doença que ameaça a vida, é necessário tomar medidas drásticas — nisso todos concordam. Acredito, porém, que encarar a doença como uma distorção da inteligência poderia representar um passo na direção de um ní­vel mais profundo de compreensão e, portanto, do tratamento.

Tanto o câncer quanto a AIDS parecem casos onde a sequên­cia adequada de sutras deve estar se distorcendo no mais pro­fundo dos níveis. Em outras palavras, são falhas de inteligência, como “buracos negros”, onde a bem-aventurança desvia-se de seu padrão normal. O que torna ambas as doenças tão intratá­veis é que esse desvio está muito fundo — trancado no interior da própria estrutura do DNA. Isso faz com que o mecanismo auto-reparador da célula se quebre ou se volte contra si mesmo. No caso do câncer, o DNA parece querer cometer suicídio, ig­norando seu conhecimento sobre a divisão celular correta.

Em ambas as doenças, a distorção da bem-aventurança aparentemente penetra até os campos de força que mantêm o DNA unido. (A física celular é um campo complexo, mas acredita-se que uma célula inicialmente sente os vírus e interage com eles ao detectar suas ressonâncias químicas e eletromagnéticas; esses sinais são interpretados pelo DNA e presumivelmente também conseguem enganá-lo.)

A partir da perspectiva dos sutras, ou sons védicos, deve ha­ver uma distorção na seqüência adequada de inteligência à me­dida que ela vai se abrindo no mundo relativo. Ao “ouvir” o ví­rus em sua vizinhança, o DNA o confunde com um som bené­volo ou compatível, como acontecia com os antigos marinheiros gregos que ouviam o canto da sereia e eram atraídos para a des­truição. Essa é uma explicação plausível quando se toma cons­ciência de que o DNA, que está sendo explorado pelo vírus, não passa de um feixe de vibrações.

Se essa explicação é válida, então o remédio é reformar a sequência inadequada de sons, usando-se o som primordial do Ayurveda (conhecido como Shruti nos textos sânscritos, a partir do verbo que significa “ouvir”). Esses sons são basicamente como moldes de cerâmica — colocando-se o molde na sequência dis­torcida, consegue-se realinhar o DNA rompido. Esse tratamen­to é sutil e delicado em seus efeitos, mas alguns resultados preli­minares têm sido muito interessantes. Uma vez restaurada a se­quência de som, a espantosa rigidez estrutural do DNA nova­mente o protegerá contra novos rompimentos.

Creio que no futuro próximo o Ayurveda florescerá e nos aju­dará a criar uma nova medicina, uma medicina de conhecimen­to e compaixão. Sob seu melhor aspecto, a medicina atual já con­tém esses ingredientes — o sistema médico enfrenta problemas, mas seus males são transcendidos por pessoas dedicadas. Elas serão as primeiras a ver que o Ayurveda não entra em conflito com sua profissão de médico. O Ayurveda só pode auxiliar o pro­cesso de recuperação e trazer a cura até nosso controle.

14
O Final da Guerra

Se alguém me perguntasse qual a exata definição de cura quântica, eu responderia: a cura quântica é a capacidade de um mo­do de consciência (a mente) para corrigir espontaneamente os erros em outro modo de consciência (o corpo). Trata-se de um proces­so fechado em si mesmo. Se me pedissem uma definição mais abreviada, eu diria apenas que a cura quântica produz a paz. Quando a consciência se fragmenta, desencadeia uma guerra no sistema mente-corpo. Essa guerra está por trás de muitas doen­ças, originando o que a medicina moderna define como compo­nente psicossomático das enfermidades. Os rishis talvez a deno­minassem “o medo nascido da dualidade” e a considerassem não um componente, mas a principal causa de todas as moléstias.

O corpo enviará vários sinais para indicar que existe uma guerra. Há pouco tempo uma mulher franco-canadense veio me procu­rar porque sofria do mal de Crohn, uma grave perturbação in­testinal caracterizada por diarréia crônica, incontrolável e acom­panhada de dolorosa inflamação. Embora a causa do mal de Crohn seja desconhecida, sabe-se que ele ataca principalmente jovens adultos e pode estar ligado a uma deficiência no sistema imuno­lógico. O trato intestinal é muito sensível a estados emocionais e, no caso dessa paciente, não me surpreendi ao ouvir que ela trabalhava longas horas sob forte tensão em uma agência de pro­paganda no centro de Boston.

Depois de conversar um pouco com ela, descobri que, alguns anos antes, aprendera a meditar. Perguntei se ainda se entregava à prática e a paciente respondeu que não tinha tempo; quando ocasionalmente sentava-se para meditar, não adiantava muito, por­que em geral adormecia em poucos minutos.

Então, eu quis saber se ela havia adaptado sua dieta para aju­dar sua condição, se diminuíra o ritmo de vida ou se pensara em se transferir para um emprego menos estressante. Demonstran­do certa impaciência, a mulher respondeu não, de novo — não pretendia permitir que aquela doença, que lhe causava tantas di­ficuldades, governasse sua vida.

— Olhe — falei —, você tem uma doença muito grave. Se essa inflamação persistir, talvez seja necessário operá-la para se reti­rar partes do intestino. E então, o que você vai fazer?

A paciente estava muito a par de sua enfermidade, e não tive de me alongar muito sobre algumas tristes possibilidades que a esperavam. A cirurgia em questão envolve considerável desfigu­ração, já que, ao se remover parte do intestino, é preciso colocar um tubo e bolsa externos para se recolher a eliminação. Apesar de todo esse desconforto, a doença não está curada e tende a vol­tar em outras partes do intestino.

— É por isso que estou aqui — respondeu a mulher. — Quero uma técnica mental que me ajude a continuar a levar uma vida normal.

Eu via o resultado do que os rishis chamavam de Pragya aparadh, o equívoco do intelecto. O corpo da paciente estava gritan­do por cura, e era o que pedia sempre que a mulher tinha uma crise. Ela nem mesmo podia fechar os olhos para meditar, sem que o corpo se agarrasse em desespero a algum tipo de alívio sob forma de sono. No entanto, sua mente interpretava esses gritos de socorro como irrelevantes ou aborrecidos. A mulher insistia em levar uma “vida normal” extremamente estressante, que seu organismo não estava preparado para suportar.

— Esse não é um tipo de doença contra o qual você pode lu­tar — falei —, porque não há ninguém para combater a seu lado.

Expliquei que os mesmos neuropeptídios que registravam o estresse em seu cérebro eram produzidos em seu intestino. Quan­do ela sentia medo, frustração ou preocupação, emoções idênti­cas estavam sendo vivenciadas em seu abdome — literalmente idênticas.

Acrescentei que, em minha opinião, ela não necessitava de uma nova técnica mental — precisava deixar seu corpo fazer o que que­ria, ou seja, curar-se. O melhor meio de cooperar para isso era dar ao corpo o descanso que ele estava exigindo, meditar, modi­ficar a dieta e se dar conta de que nenhuma gratificação extraída do emprego poderia superar o perigo em que se colocara. A na­tureza procurava lhe dizer algo muito importante e, uma vez que prestasse atenção a ela, seus problemas se corrigiriam por si.

— Em um caso como o seu — prossegui —, você já tem o me­lhor remédio com o qual poderia sonhar... sua própria atenção. Neste momento, a qualidade dessa atenção é temerosa e tensa, e por isso não há melhora. No entanto, assim que sua percepção se assentar e perder o medo, seu corpo irá se recuperar. Só de­pende de você.

A paciente ouviu-me com interesse, mas senti que não estava gostando do que eu dizia. O equívoco do intelecto é insidioso. Ele se recusa a acreditar que tudo está acontecendo numa reali­dade mente-corpo e cria a ficção de que o corpo doente está em algum outro lugar, em qualquer lugar que não seja aquele em que se encontra.

A enfermidade é um nítido sinal de que há uma guerra em andamento. De acordo com o Ayurveda, o conflito está se de­senrolando “aqui dentro”, ao contrário do que afirma a teoria da doença causada por micróbios, que procura nos dizer que a guerra começou “lá fora”, por invasores de todos os tipos — bac­térias, vírus, carcinógenos etc. — que estão à espreita, prontos a nos atacar. Contudo, pessoas saudáveis vivem entre esses peri­gos com muita segurança. Somente quando o sistema imunológico falha, como no caso da AIDS, nos conscientizamos de que nossa pele, pulmões, mucosas, intestinos e muitos outros órgãos aprenderam a coexistir com organismos externos em delicado equi­líbrio. A pneumonia que os aidéticos habitualmente contraem é causada por uma variedade do pneumocystis, sempre presente nos pulmões de todos nós. O vírus da AIDS ativa essas enfermida­des de dentro para fora, ao demolir uma parte do sistema imu­nológico (as células-T), rompendo assim a rede de informações que nos mantém como um organismo.

De fato, somos essa rede, que se projeta no mundo como cor­po, emoções e ações. A rede também não termina conosco. A idéia simplista de que os micróbios são nossos inimigos mortais é ape­nas meia verdade, porque eles também fazem parte dessa rede. Todo o mundo vivo está indissoluvelmente ligado ao DNA, que ao longo de um canal evoluiu como bactérias, em outro como plantas e animais e num outro ainda como ser humano. O am­biente “lá fora” coopera com o “aqui dentro” como duas pola­ridades, em certo sentido completamente opostas, mas em outro totalmente complementares. Se você olhar para a realidade do ponto de vista de todo o DNA, não apenas o humano, então há uma rede global de informações que deve ser mantida viva e saudável.

Os vírus, por exemplo, são capazes de sofrer mutações muito rapidamente — é por isso que a vacina que o imuniza contra a gripe deste ano em geral não será eficaz no próximo. O vírus da gripe já deve ter sofrido mutação em algum lugar do mundo, transformando-se numa linhagem completamente diferente. (Um dos muitos talentos inauditos do vírus da AIDS é sua capacida­de de sofrer mutações cem vezes mais rápido do que um vírus típico, como o causador da gripe.) Os pesquisadores recentemente especularam se o motivo pelo qual os vírus sofrem mutações com tanta rapidez está na necessidade de acompanharem o passo do surgimento de novas variantes de bactérias, levando assim, a to­das as partes do planeta, a notícia de que a vida está mudando.

Pegar uma gripe, portanto, é como se atualizar com as notícias. Seu DNA fica sabendo sobre as alterações que estão desa­fiando o DNA do mundo e, então, enfrenta o desafio, não de forma passiva, mas ativamente. Ele precisa provar sua viabilida­de sobrevivendo ao vírus. O sistema imunológico se apressa a enfrentar o invasor, e eles se engalfinham em batalhas, molécula contra molécula. Toda a operação ocorre num átimo, e não há espaço para erro. As células macrófagas avançam rapidamente para descobrir a identidade dessa nova forma de vida, sondar suas fra­quezas vitais; em seguida, mobilizam o material genético em seu próprio DNA, que romperá as moléculas do vírus, tornando-as inofensivas.

Ao mesmo tempo, as células imunológicas também destroem qualquer uma das células do corpo que deram abrigo ao invasor. Essas células hospedeiras infectadas ainda não morreram de gri­pe. Elas estão empanturradas de vírus vivos que constituem uma ameaça, mesmo depois de as células imunológicas terem elimi­nado toda a gripe que circula na corrente sanguínea. Para matar uma célula hospedeira infectada, certas células imunológicas (as células-T, exterminadoras) prendem-se externamente a ela e fa­zem buracos na parede celular. Como um pneu que se esvazia, a célula hospedeira perde seu conteúdo líquido e vai murchan­do, até morrer.

No entanto, a célula hospedeira não é apenas eliminada; seu DNA também é destruído por outros sinais vindos das células imunológicas agressoras. Esse é um aspecto absolutamente fas­cinante de todo o processo. O que realmente acontece é que um pedacinho de seu DNA (a célula imunológica) está destruindo outro pedacinho de seu DNA (a célula hospedeira), que de fato não passa de uma cópia de si mesmo. A única diferença entre os dois é que o segundo pedacinho de DNA, o do interior da célula hospedeira, cometeu o equívoco de cooperar com o vírus da gripe. Ninguém sabe por que isso acontece. Como vimos no capítulo anterior, nossas células misteriosamente deixam-se ma­tar de dentro para fora, quando os vírus as atacam. Em termos físicos, o vírus não é páreo para a célula, pois é milhares de vezes menor e menos complexo. Como escreveu um médico, é como se uma bola entrasse pela janela de um arranha-céu e todo o pré­dio ruísse.

Você poderia pensar que equívocos desse teor demonstram a imperfeição da inteligência do corpo, mas isso seria superficial demais. O que realmente acontece num caso como o que descre­vi é um notável exemplo da cura quântica em funcionamento; de fato, a idéia de que está havendo uma guerra é outra meia verdade, pois, quando um pedacinho do DNA destrói outro, es­tamos sendo testemunhas de um processo totalmente autocontido. Cada segmento da reação contra a doença, desde as células patrulheiras, que de início vão de encontro ao invasor, às células hospedeiras, que o abrigam, aos macrófagos, às células-T ajudan­tes, às células-T exterminadoras, às células-B e assim por diante, são todos o mesmo DNA expressando suas várias capacidades. Em outras palavras, o DNA decidiu montar, em seu próprio fa­vor, um drama em que todos os personagens são desempenha­dos por ele mesmo.



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