A cura Quântica



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A palavra holística, que desagrada aos médicos ortodoxos, significa apenas um enfoque conjunto da mente e do corpo. Acre­dito que o Ayurveda realize essa união melhor do que qualquer alternativa, apesar de não demonstrar o fato de modo muito apa­rente. Na verdade, várias técnicas de mente-corpo, amplamente divulgadas como a hipnose e o biofeedback, chamam bem mais a atenção que o Ayurveda. Se Chitra tivesse adoecido em Bom­baim, sua terra natal, sua avó teria receitado alimentos naturais, traria da farmácia aiurvédica um saquinho de papel pardo com ervas medicinais e insistiria para que a neta ficasse na cama. Pres­creveria vários purgantes e óleos de massagens, para limpar o corpo das toxinas que geravam o câncer. Se houvesse na família algu­ma tradição espiritual, a moça teria começado a meditar. Em re­sumo, eu a trataria do mesmo modo, com algumas coisas a mais. Ainda não existe nenhum motivo científico que explique por que esse sistema funciona, a não ser que é assim. O Ayurveda atingiu algo profundo na natureza. Seus conhecimentos não são baseados na tecnologia, e sim na sabedoria, no que eu poderia de­finir como a compreensão segura do organismo humano, adqui­rida através de muitos séculos.

— Quero que você passe uma semana ou duas em uma clíni­ca especial, fora de Boston — disse a Chitra. — Algumas coisas que vão lhe acontecer podem parecer extraordinárias. Você está habituada à idéia de um hospital como um local com respiradores, câmaras de oxigênio, aparelhos de transfusão e quimiotera­pia. Comparado a isso, o tratamento que lhe daremos na clínica não será nada. Em princípio, quero que seu corpo atinja um pro­fundo estado de descanso.

Chitra era uma pessoa confiante e concordou em ir. Em parte, é claro, porque não tinha outra alternativa. A medicina moderna fizera todo o possível, usando a estratégia do ataque físico contra seu câncer. A vantagem inicial obtida ao se investir contra uma doença deve-se à esperança de extirpá-la o quanto antes do cor­po. A enorme desvantagem é que todo o organismo se danifica nesse ataque contra uma parte dele. No caso da quimioterapia, existe o perigo real de enfraquecer de tal modo o sistema imunológico que fique aberta uma porta para que outros tumores can­cerosos possam se desenvolver no futuro. No entanto, o câncer de mama não tratado é considerado mortal, e a medicina atual é capaz de extirpá-lo a curto prazo. Em um clima emocional em que a opinião é influenciada pelo medo, as pessoas preferem correr os riscos da cura, em vez do mal.

Eu mencionava a Chitra a clínica onde trabalho, o Maharishi Ayurveda Health Center, em Lancaster, no Estado de Massachu­setts. Ela passou ali uma semana em tratamento e aprendeu o programa de automedicação que deveria usar em casa, incluin­do mudanças na alimentação, algumas ervas aiurvédicas, uma ro­tina diária de exercícios simples de ioga e as instruções de Medi­tação Transcendental. Esses meios pareciam diferentes à primei­ra vista, mas todos visavam, no fundo, trazer tranqüilidade a seu dia-a-dia e, assim, construir uma base para a cura. No Ayurve­da, o requisito mais importante para a cura de qualquer desor­dem orgânica é um nível profundo e completo de relaxamento.

Esse princípio se baseia no conceito de que o corpo sabe como manter o equilíbrio, a não ser que esteja abalado pela doença; desse modo, se alguém deseja restaurar a capacidade de cura do próprio organismo, é necessário que faça tudo para readquirir o equilíbrio. Trata-se de uma idéia muito simples, mas de profundas conseqüências. Chitra também aprendeu duas técnicas mentais especiais, que atuariam diretamente nas raízes de seu cân­cer (falarei mais sobre esse assunto depois).

Chitra seguia religiosamente seu programa e vinha me ver a cada seis semanas. Continuou também com o tratamento de qui­mioterapia prescrito por seu médico de Nova York. Quando fa­lamos sobre o assunto, eu declarei:

— Se pudesse tratá-la pelo Ayurveda e nada mais, eu o faria. A piora de seu estado físico seria bem menor. Mas você veio me procurar já muito doente e sabemos que a quimioterapia atua de fora para dentro. Vamos combinar o processo externo e interno, na esperança de que levem à cura completa.

Segui o progresso de Chitra durante quase um ano. Ela sem­pre me ouvia numa atitude confiante, mas, ao voltar a cada con­sulta, era evidente que não estava melhorando. As radiografias dos pulmões continuavam ruins, ela respirava com crescente di­ficuldade e parecia mais fraca e abatida, à medida que o mal avan­çava. Finalmente, chegou o dia em que Chitra não apareceu no horário marcado. Esperei a semana toda e acabei ligando para sua casa.

As notícias não eram boas. Raman, o marido de Chitra, disse-me que repentinamente ela tivera uma febre muito alta, preci­sando ser hospitalizada no fim de semana. Seus pulmões vinham, há algum tempo, vazando fluido para a cavidade pleural que os rodeava, e o médico suspeitava que se havia instalado uma infec­ção. Com um prognóstico tão pessimista, não havia nenhuma ga­rantia de que Chitra pudesse deixar o hospital.

Então, aconteceu uma coisa muito curiosa. Depois de um dia ou dois de antibióticos, a temperatura de Chitra, que estava em 40°C, baixou ao normal, o que intrigou seu médico. Era muito raro uma febre tão alta baixar assim rapidamente, tratando-se de uma infecção em paciente terminal. Poderia haver outro motivo além da infecção? Ele decidiu fazer novas radiografias. No dia seguinte, Raman me telefonou, exultante e confuso.

— Ela não tem mais câncer! — exclamou com grande alegria.

— O que quer dizer? — perguntei.

— Eles não encontraram mais nenhuma célula cancerosa, na­da. — Mal conseguia se conter. — A princípio, o oncologista de Chitra achou que tinham trocado a chapa pela de outro paciente e quis fazer novos exames, mas agora está convencido.

Arrebatado e aliviado, incapaz de explicar aquela súbita salva­ção, Raman considerava o restabelecimento de sua esposa um mi­lagre. Quando telefonei para Chitra no hospital, ela ficou re­petindo:

— Você conseguiu, Deepak.

— Não, não, Chitra. Foi você que conseguiu — eu insistia.

Eu nunca poderia imaginar que seus tratamentos, tanto o convencional como o aiurvédico, resultassem em cura tão rápida. Fazendo uma retrospectiva, vejo que aquela febre alta foi uma es­pécie de queima do câncer em extinção, um processo conhecido como necrose do tumor. Mas o mecanismo exato ligado a esse processo não tem explicação. Se existe algum tipo de cura mira­culosa, aquela foi uma, eu tenho certeza.

Em poucas semanas nossa alegria começou a mudar. O “mi­lagre” de Chitra não se mantinha. Primeiramente, a sensação sur­giu em seu íntimo. Em vez de se mostrar capaz de confiar na­quela recuperação inexplicável, ela entrou em conflito, com um medo mórbido de que o câncer voltasse. Procurou-me e pergun­tou se devia prosseguir com a quimioterapia.

— Faz dois meses que o câncer desapareceu — disse eu. — Seu médico encontrou novas células cancerosas?

— Não — ela admitiu. — Mas ele acha que a quimioterapia me curou e que eu devia prosseguir o tratamento.

Comecei a me sentir frustrado. Eu sabia, tanto quanto seu médico, que a quimioterapia a que Chitra se submetera não produ­zia, pelo que se conhece, uma recuperação total daquele tipo. Não, certamente, em um caso avançado, quando o câncer já começara a atacar outras partes do corpo. Além disso, era óbvio que a mo­ça estava esgotada pelo sofrimento anterior. A quimioterapia lhe provocara uma náusea quase constante e seu cabelo caíra de mo­do assustador; além disso, ela se envergonhava por ter-se sub­metido à extirpação dos seios. Tudo isso comprometia o trata­mento aiurvédico que estávamos iniciando. Se ela recebesse do­ses ainda mais elevadas de quimioterapia, aumentariam sua de­pressão, a tendência às infecções e a fraqueza em todos os sentidos.

Ao mesmo tempo, porém, eu não tinha motivos suficientemente fortes para dizer-lhe que não continuasse. E se viesse a sofrer uma recaída em seis meses e acabasse morrendo?

— Prossiga com a quimioterapia — concordei —, mas com nos­so programa também, está certo?

Ela concordou.

Durante alguns meses, Chitra continuou livre da doença, mas também se mantinha perturbada e confusa. Parecia que seu câncer fora mais fácil de vencer do que aquela dúvida sinistra invadin­do sua vida e impedindo-a de estar bem.

O dilema torturante de Chitra é o verdadeiro ponto inicial des­te livro. Ela precisava de uma explicação para voltar a ficar bem. O que havia lhe acontecido? Sua cura era um milagre, como pen­sara no início, ou apenas um estágio na agonia, como acabou por temer? Acredito que se possa encontrar uma resposta apro­fundando-se mais o conhecimento da ligação entre a mente e o corpo.

As pesquisas de curas espontâneas de câncer realizadas tanto nos Estados Unidos como no Japão demonstraram que, pouco antes do restabelecimento, quase todos os pacientes passam por uma alteração de consciência. A pessoa sabe que vai sarar e sen­te que a energia responsável pela cura está em si mesma, mas que não se limita apenas a ela. Estende-se além de seus limites pessoais, por toda a natureza. Sente, subitamente: “Não me li­mito a meu corpo, tudo o que existe a minha volta faz parte de mim”. Tais pacientes, nesse momento, atingem aparentemente um novo nível de consciência, que inibe a existência do câncer. As células cancerosas, então, desaparecem literalmente do dia para a noite ou, pelo menos, estabilizam-se e não prejudicam mais o organismo.

Esse mergulho em um grau mais profundo de consciência pa­rece ser a chave, mas não surge necessariamente num impulso. Chitra vinha cultivando esse estado de forma deliberada, através das técnicas aiurvédicas. Portanto, sua capacidade de se manter em um nível mais elevado de consciência estava surpreendente­mente relacionada com sua condição. Ela conseguia, de algum modo, motivar a ausência do câncer, mas com a mesma facilida­de poderia voltar a ele. (Penso nisso como se fosse uma corda de violino cujo som varia na medida em que o dedo sobe ou des­ce por ela.) A palavra que vem à mente, quando um cientista pensa nessas mudanças súbitas, é quantum. Ela significa um sal­to descontínuo de um nível de função para outro, mais elevado: a transição quântica.

Quantum é também um termo técnico, antes conhecido ape­nas pelos físicos, mas agora presente na linguagem popular. Pre­cisamente, um quantum é “a unidade indivisível em que as on­das podem ser emitidas ou absorvidas”, na definição do eminente físico britânico Stephen Hawking. Para os leigos, o quantum é um bloco de construção. A luz é formada por fótons, a eletrici­dade, pela carga de um elétron, e a gravidade, pelo graviton (um quantum hipotético, ainda não encontrado na natureza). E o mes­mo acontece com todas as formas de energia, cada qual baseada em um quantum que não pode ser subdividido em nada menor.

As duas definições, a do salto descontínuo para um nível mais elevado e o grau irredutível de uma energia, parecem aplicar-se a casos como o de Chitra. Sendo assim, eu gostaria de introduzir o termo cura quântica para explicar o que aconteceu com ela. Ape­sar de ser uma palavra nova, o processo, em si, não é. Sempre existiram pacientes em que não se observa o curso natural de cu­ra. Por exemplo, uma pequena minoria não definha com o cân­cer, outros desenvolvem tumores muito mais lentamente do que a estatística prevê para aquele tipo de mal. Muitos restabeleci­mentos são de origem igualmente misteriosa, como os casos de remissão espontânea e o uso eficiente de placebos, ou “drogas enganadoras”, que também indicam o salto quântico. E por quê? Porque em todos esses casos a consciência profunda parece ter promovido um drástico salto quântico no mecanismo da cura.

A consciência é uma energia pouco valorizada pela maioria das pessoas. Geralmente não enfocamos nossa consciência mais pro­funda nem usamos sua verdadeira energia, mesmo nos mais di­fíceis momentos de crise. Talvez seja esta a razão pela qual as “cu­ras milagrosas” são recebidas com um misto de espanto, descrença e reverência. Mas todos possuem esse nível mais profundo de consciência. Talvez, até alguns desses milagres sejam extensões de capacidades normais. Por que não consideramos um milagre o corpo soldar um osso partido? Como processo de cura, é complexo de­mais para ser imitado pela medicina; envolve um número incrí­vel de processos perfeitamente sincronizados, dos quais a medi­cina conhece apenas os principais, e de modo imperfeito.

O motivo pelo qual a mesma pessoa considera milagre a cura do câncer e não pense o mesmo a respeito da fusão de um osso do braço está ligado à união entre mente e corpo. O osso quebra­do parece soldar-se fisicamente, sem a intervenção da mente; mas a cura espontânea do câncer, segundo se acredita em geral, de­pende de uma qualidade especial da mente, de um profundo de­sejo de viver, de uma perspectiva heroicamente positiva, ou qual­quer outra habilidade rara. Isso significa que existem dois tipos de cura, uma que é normal, outra, anormal ou, pelo menos, ex­cepcional.

Acredito que essa distinção seja falsa. O braço partido solda-se porque a consciência o emenda, e o mesmo acontece na cura mi­lagrosa de um câncer, na longa sobrevivência de um caso de AIDS, na cura pela fé e mesmo na capacidade de viver até a idade avan­çada, sem se deixar abater por uma doença. A razão de nem to­dos conseguirem levar o processo de cura até onde devem resulta do fato de nos diferenciarmos drasticamente quanto a nossa ca­pacidade de mobilizá-la.

Podemos comprovar isso nas diferentes reações das pessoas diante da doença. Uma fração mínima, bem menos de 1 por cento de todos os pacientes que contraem um mal incurável, consegue curar-se. Um número maior, mas ainda abaixo dos 5 por cento, vive bem mais que a média. Isto é confirmado pelos 2 por cento de aidéticos que conseguiram sobreviver mais de oito anos en­quanto a grande maioria não passa de dois. Essas descobertas não se restringem às doenças incuráveis. Pesquisas demonstram que apenas 20 por cento dos pacientes com doenças sérias, mas curáveis, recuperam-se com excelentes resultados. Sendo assim, cerca de 80 por cento deles não conseguem sarar, ou curam-se parcialmente. Por que é tão desproporcionalmente elevado o ín­dice de insucesso nas curas? Qual será a diferença entre um so­brevivente e alguém que não consegue sobreviver?

Aparentemente, os pacientes bem-sucedidos aprenderam a mo­tivar a própria cura e conseguiram, nos casos mais felizes, ir além. Descobriram o segredo da cura quântica. São os gênios da união entre a mente e o corpo. A medicina moderna não consegue se igualar nem de longe na reprodução de suas curas, porque ne­nhum tratamento baseado em drogas ou cirurgia consegue pre­cisar tão bem o prazo, ser tão maravilhosamente coordenado, tão benigno e livre de efeitos colaterais, tão fácil. A capacidade des­sas curas vem de um nível tão profundo que não se pode ir mais além. Se soubéssemos o que os cérebros fazem para motivar os corpos, teríamos a unidade básica do processo de cura em nos­sas mãos.

Até agora, todavia, a medicina não conseguiu dar o salto quân­tico e a palavra quantum ainda não tem aplicação clínica. Como a física quântica lida com aceleradores de altíssima velocidade, você pode pensar que a cura quântica emprega radioisótopos ou raios X. Mas o significado é o oposto. A cura quântica afasta-se dos métodos da alta tecnologia e penetra nos meandros mais pro­fundos do sistema mente-corpo. É nesse núcleo que ela se inicia. Para atingi-lo e aprender a provocar a resposta de cura é necessá­rio que você atravesse todos os níveis mais densos do corpo: cé­lulas, tecidos, órgãos e sistemas; atingirá, então, o ponto de união entre a mente e a matéria, o ponto em que a consciência real­mente começa a causar um efeito.

O quantum em si, o que é e como se comporta, ocupa a pri­meira parte deste livro. A segunda parte apresentará a mistura do quantum e do Ayurveda, promovendo uma união das duas culturas na tentativa de se chegar a uma resposta. O panorama científico do Ocidente confirma, surpreendentemente, a visão dos antigos sábios da Índia. Esta é uma viagem que derruba barrei­ras e ignora obstáculos culturais. A meu modo de ver, toda a his­tória precisa ser descoberta. Chitra me fez esse pedido, portanto estou escrevendo para ela e para todos os pacientes como ela. Até descobrirem uma resposta, continuarão com suas vidas presas por um fio.1

2
O Corpo Possui

Mente Própria

Quando afirmei que ninguém pode declarar que conhece a cura do câncer de seio, estava dizendo apenas meia verdade. Se uma paciente conseguisse promover o processo de cura de dentro pa­ra fora, essa seria a cura do câncer. Casos de cura semelhantes ao de Chitra surgem quando internamente se opera uma mudança radical, afastando-se o medo e a dúvida junto com a doença. Mas o local exato dessa mudança leva a profundos mistérios. Ele de­safia a sabedoria médica a responder até a pergunta básica: a mu­dança ocorreu na mente de Chitra, em seu corpo, ou em ambos? Para descobrir isso, a medicina ocidental começou recentemente a se afastar das drogas e da cirurgia, que são o apoio principal da clínica médica, em direção ao campo mais amorfo e geralmente desconcertante, conhecido como “terapia do corpo e da mente”. Esse movimento foi quase forçado, porque a velha confiança ape­nas no corpo físico começou a se desagregar.

A medicina do corpo e da mente deixa muitos médicos extremamente intranqüilos. Consideram-na mais um conceito do que um campo verdadeiro. Se puder escolher entre a nova idéia e a química familiar, um médico dará preferência à segunda: penicilina, digitálicos, aspirina e Valium não exigem nenhum con­ceito novo do paciente (ou do médico) para fazer efeito. O problema surge quando a química não atua. Levantamentos recen­tes, na Inglaterra e nos Estados Unidos, demonstraram que apro­ximadamente 80 por cento dos pacientes sentem que sua queixa principal, a razão que os levou ao médico, não fora satisfatoria­mente atendida ao deixarem o consultório. Estudos clássicos, da­tados do fim da Segunda Guerra Mundial, mostraram que os pa­cientes saíam do hospital da Faculdade de Medicina de Yale mais doentes do que no dia em que haviam chegado ali. (Esses estu­dos correspondem a outros, semelhantes, que demonstraram que os pacientes com queixas de doenças mentais sentiam-se melhor enquanto estavam na lista de espera para uma consulta com o psiquiatra do que depois, quando eram realmente atendidos por ele. Portanto, este não é o caso da simples troca de um médico que trata do corpo por um que trata da mente.)

Diante disso, uma cura miraculosa simplesmente reforça a necessidade de reexame dos conceitos básicos da medicina. O ra­ciocínio lógico da medicina atual pode impressionar ou, pelo me­nos, bastar, quando receitamos penicilina para curar uma infec­ção; mas a natureza dessa lógica é capaz de inspirar medo. Mui­tos médicos ficaram maravilhados ao testemunhar curas como a de Chitra, sem nenhuma pista para explicá-las; o termo comum para elas é recuperação espontânea, rótulo conveniente mas pouco esclarecedor, além do fato de o paciente ter sarado por si. As re­cuperações espontâneas são muito raras: uma pesquisa, em 1985, calculou que ocorrem na média de uma em 20 mil casos diag­nosticados de câncer; alguns especialistas acreditam que são ain­da mais raras (menos de dez em 1 milhão), mas ninguém sabe ao certo.

Recentemente, passei várias horas da noite conversando com um oncologista, ou especialista em câncer, do Oriente Médio, que trata de milhares de pacientes por ano. Perguntei-lhe se conhecia algum caso de recuperação espontânea.

— Sinto-me pouco à vontade com esse termo — ele respon­deu, dando de ombros. — Tenho visto tumores regredirem com­pletamente. É muito raro, mas acontece.

Às vezes, tais recuperações ocorriam apenas por si mesmas? Ele admitiu que isso acontecia ocasionalmente. Pensou por um momento e declarou que, pelo que se sabe, certos tipos de melanoma (um câncer de pele extremamente letal, que mata com muita rapidez) desaparecem por si mesmos. Mas não sabia explicar co­mo isso acontecia.

— Não paro para pensar nesses raros incidentes — disse ele. — O tratamento do câncer é uma questão de estatística, obede­cemos a números. Uma enorme maioria de pacientes reage a certas linhas de tratamentos e não há tempo para pensar na minoria in­finitesimal que sara por alguma razão desconhecida. Além dis­so, sabemos por experiência que muitas dessas recuperações são apenas temporárias.

Ele achava que as recuperações completas ocorriam numa proporção de menos de um caso por milhão? Respondeu-me que não eram tão raras assim.

Não desejaria, então, como cientista, descobrir o mecanismo que existe por trás delas, mesmo que ocorresse apenas um caso em 1 milhão ou em 10 milhões? Ele novamente deu de ombros.

— É claro que deve haver um mecanismo por trás delas — admitiu. — Mas não estabeleci minha clínica para cuidar disso. Deixe-me dar-lhe um exemplo: oito anos atrás, um homem me procurou queixando-se de uma tosse que doía no peito. Fizemos algumas radiografias e descobrimos que tinha um grande tumor entre os pulmões. Ele foi internado no hospital, tiramos material para a biópsia e o diagnóstico do patologista foi de um carcino­ma extremamente mortal, de crescimento rápido e muito malig­no. Avisei meu paciente — prosseguiu ele — de que o submete­ríamos imediatamente a uma cirurgia para aliviar a pressão cria­da por seu tumor e depois o trataríamos com radiações e qui­mioterapia. Ele ficou profundamente aborrecido com a idéia do tratamento e recusou. Oito anos depois, um homem veio me pro­curar com um nódulo linfático muito inchado no pescoço. Tirei uma amostra para a biópsia, que revelou tratar-se de um carci­noma do mesmo tipo encontrado no pulmão de meu antigo cliente. Foi quando percebi que se tratava do mesmo homem. Examina­mos seu peito com raios X — o médico continuou a relatar — e não havia o menor traço de câncer no pulmão. Normalmente, 99,99 por cento dos pacientes sem tratamento teriam morrido num prazo de seis meses; cerca de 90 por cento não teriam sobrevivi­do cinco anos, mesmo com o máximo de terapia. Perguntei-lhe como tratara o câncer anterior e ele me disse que não tinha feito nada, apenas decidira que não ia se deixar morrer de câncer. E talvez ele recuse novamente o tratamento para esse segundo câncer.

Por definição, a medicina científica lida com resultados previsíveis. Ainda assim, sempre que surge um caso de recuperação espontânea, seu comportamento é totalmente imprevisível. Es­ses casos podem ocorrer sem a presença de uma terapia, ou po­dem ser acompanhados pelo tratamento convencional do câncer. Dentre as muitas alternativas referentes ao câncer que hoje exis­tem nos Estados Unidos, cada qual com mérito próprio, nenhu­ma provou recuperações espontâneas melhor que o tratamento padrão de radiação e quimioterapia nem que seu efeito seja pior. Tampouco parece influenciar o estágio que a doença já atingiu. Tanto os pequenos tumores como os grandes e extremamente ma­lignos podem desaparecer virtualmente, da noite para o dia. Co­mo são casos muito raros e que ocorrem ao sabor da sorte, as recuperações espontâneas vêm nos ensinando muito pouco so­bre a causa do câncer e o modo como acontece uma cura “im­possível”.

Parece razoável supor que o corpo está Constantemente em luta contra o câncer e que vence a imensa maioria das batalhas. Mui­tos tipos de câncer podem ser induzidos em tubos de ensaio ou em animais de laboratório, com o uso de substâncias tóxicas (carcinógenas), dietas ricas em gordura, radiações, estresse excessivo e vários tipos de vírus, entre outras coisas. Como vivemos sub­metidos a todas essas condições em grau elevado, elas devem cau­sar dano a nosso organismo. Sabe-se que o DNA (ácido desoxirribonucléico) se deteriora em tais condições, mas ele é capaz de se recompor ou distinguir a matéria perigosa, livrando-se dela.

Isso significa que tumores ainda no estágio inicial podem ser percebidos e frequentemente combatidos pelo organismo. Se ampliarmos a escala desse processo, teremos o “milagre” de uma recuperação espontânea. Na realidade, não se trata de um mila­gre, de modo nenhum, mas de um processo natural que ainda precisa ser explicado, do mesmo modo que a cura da pneumo­nia pela penicilina seria considerada miraculosa, se não pudés­semos explicá-la por meio da teoria do germe da doença. O fato é que o mecanismo oculto nessas curas milagrosas não é místico nem fortuito, portanto merece ser investigado.



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