A cura Quântica



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Na prática comum, depois do milagre o médico volta à rotina de sempre, que inclui os conceitos habituais. Mas até esses, que compõem o material de trabalho da faculdade de medicina, fo­ram deformados. Para dar apenas um exemplo: desde que pas­sou a ser considerada um campo de pesquisa científica racional, a medicina tem aceitado a degeneração das funções cerebrais nos idosos como uma ocorrência natural. Essa deterioração foi toda documentada com “tristes” descobertas: quando envelhecemos, nosso cérebro se atrofia, fica mais leve e perde milhões de neurônios a cada ano. Temos o máximo suprimento de neurônios aos 2 anos e, aos 30, o número deles começa a diminuir. A perda de cada célula cerebral é permanente, já que os neurônios não se regeneram. Baseado nesse fato tão conhecido, o declínio da capacidade cerebral parecia cientificamente aceitável; triste, po­rém inevitável; o envelhecimento leva obrigatoriamente à falta de memória, à diminuição da capacidade de raciocínio, ao enfraque­cimento da inteligência e sintomas correlates.

No entanto, essas suposições consagradas pelo tempo agora provaram-se errôneas. Pesquisas meticulosas com idosos saudá­veis, comparadas às que a medicina realizava habitualmente com pessoas idosas doentes e hospitalizadas, revelaram que 80 por cento dos americanos sãos e sem distúrbios psicológicos (como solidão, depressão ou falta de estímulo externo) não sofrem significativa perda de memória ao envelhecer. Pode diminuir a capacidade de reter novas informações, o que explica o fato de pessoas idosas esquecerem números de telefone, nomes e perambularem pela casa à procura de objetos. Mas a capacidade de recordar antigos acontecimentos, a chamada memória distante, na realidade até melhora. (Uma autoridade em envelhecimento costuma citar Cí­cero: “Nunca vi um velho que esquecesse onde seu dinheiro es­tava escondido”.)

Nos testes de pessoas com 70 anos de idade, comparados aos de jovens de 20, os velhos conseguiram melhores resultados nes­sa área da memória. Depois de terem treinado diariamente, por alguns minutos, o que chamamos de memória recente, os idosos quase alcançaram os jovens, que estavam no auge de sua capaci­dade mental.

Talvez a “plenitude da vida” deva ser prolongada. O segredo, como quase todo o resto do declínio “natural” da velhice, de­pende dos hábitos mentais, e não do conjunto de circuitos do sis­tema nervoso. Enquanto uma pessoa se mantiver mentalmente ativa, continuará com a mesma inteligência da juventude e da idade madura. Todo mundo continua perdendo mais de 1 bilhão de neurônios durante a existência, numa média de 18 milhões por ano, mas essa perda é compensada por outra estrutura: os filamentos cerebrais semelhantes a ramos, chamados dendrites, que ligam as células nervosas umas às outras.

Toda célula nervosa costuma apresentar um formato bastante individual, mas possui um núcleo típico, bulboso, de onde se ir­radiam braços finos como um polvo. Esses braços, ou axônios, lembram árvores, e os primeiros anatomistas os batizaram de den­drites, que em grego significa “árvore”. Seu número varia desde menos de uma dúzia a mil por célula, servindo de pontos de con­tato para que um neurônio envie sinais a seus vizinhos. Com o crescimento de novas dendrites, um neurônio pode abrir mais canais de comunicações em todas as direções, como um painel telefônico distribuindo novas linhas.

Não sabemos como um pensamento é realmente formado en­tre as células cerebrais ou como se inter-relaciona esse vastíssi­mo número de ligações com milhões de dendrites se unindo em certos pontos principais do corpo, como o plexo solar, sem falar dos bilhões e bilhões do próprio cérebro. Contudo, experiências demonstraram que novas dendrites podem se formar durante a vida toda, até a idade avançada. A opinião geral é de que esse novo crescimento nos proporciona a estrutura física para que a função cerebral não diminua. A senilidade não é fisicamente nor­mal em um cérebro saudável. Uma rica multiplicação de den­drites pode até ser a causa oculta da sabedoria crescente na ve­lhice, uma época em que a vida é cada vez mais encarada em sua totalidade ou, em outras palavras, fica mais interligada, as­sim como as células nervosas se interligam através das novas den­drites.

Esse exemplo demonstra como a medicina pode estar radicalmente errada ao insistir em que a matéria seja superior à mente. Pode ser verdade que uma célula nervosa crie pensamentos, mas é igualmente verdadeiro que o pensamento cria células nervosas. No caso das novas dendrites, é o hábito de pensar, de recordar e manter a atividade mental que cria o novo tecido. Mas essa não é uma descoberta isolada. Curiosamente, logo que o conceito de uma “nova velhice” pareceu razoável aos olhos dos médicos, muitas formas de degeneração começaram a ser encaradas de outro modo.

Por exemplo: enquanto você praticar exercícios, a musculatu­ra de seu corpo não enfraquecerá e sua força não diminuirá du­rante a vida, apesar de haver um lento declínio de energia. Você pode treinar para uma maratona aos 65 anos, contanto que esteja em boa forma física e treine sensatamente. Do mesmo modo, seu coração muda com a idade e torna-se menos elástico, bombean­do menos sangue por batida, mas as doenças coronárias e o en­durecimento das artérias, até poucas décadas atrás considerados normais na velhice, agora também podem ser evitados, depen­dendo da alimentação e do estilo de vida. Outro mal da velhice, os derrames cerebrais, diminuíram em 40 por cento durante a última década, graças ao melhor controle da hipertensão e à di­minuição de gordura na dieta alimentar. Grande parte dos males senis “inevitáveis” foi explicada pela deficiência de vitaminas, por uma dieta alimentar pobre e pela desidratação. O resultado global dessas descobertas levou a drástica mudança no enfoque da velhice; um resultado menos evidente, porém, é o de que to­do o organismo, em qualquer fase da vida, precisa ser repensado.

O que acontece agora em todos os ramos da medicina é que o corpo saudável vem demonstrando maior poder de recupera­ção e versatilidade do que se suspeitava. Enquanto a faculdade de medicina ensina que o micróbio A causa a doença B e é trata­da pela droga C, a natureza parece achar que essa é apenas uma opção entre muitas. O enfoque mental no tratamento do câncer, por exemplo, seria ridicularizado há uma década. Mas as pes­soas parecem capazes de participar de seu tratamento de câncer e até controlar o curso da doença, usando os pensamentos. Em 1971, o dr. O. Carl Simonton, radiologista da Universidade do Texas, conheceu um homem de 61 anos que sofria de câncer na garganta. A doença já progredira muito e ele mal conseguia en­golir, chegando a pesar 42 quilos.

O prognóstico de seu caso não só era extremamente ruim — os médicos lhe davam apenas 5 por cento de chance de sobrevi­vência de cinco anos após o tratamento — como, por outro lado, o paciente estava tão debilitado que provavelmente não corres­ponderia às radiações — a terapia normal em seu caso. Levado pelo desespero e, além disso, curioso em tentar um enfoque psi­cológico, o dr. Simonton sugeriu a seu paciente que ampliasse a ação das radiações por meio da prática de visualização. Ele foi ensinado a visualizar seu câncer o mais vividamente possível. De­pois, pediram-lhe que visualizasse seu sistema imunológico sob qualquer imagem que desejasse, “vendo” as células brancas do sangue atacarem com sucesso as células cancerosas e as expulsa­rem do corpo, deixando restar apenas as saudáveis.

O homem disse que visualizou suas células imunológicas co­mo se fossem uma névoa de partículas brancas cobrindo o tu­mor, assim como a neve cobre uma rocha escura. O dr. Simon­ton aconselhou-o a ir para casa e repetir essa visualização várias vezes por dia. O homem concordou, e logo seu tumor pareceu regredir. Em poucas semanas, estava visivelmente menor, e a res­posta do paciente às radiações, quase livre de efeitos colaterais; depois de dois meses o tumor havia desaparecido.

Naturalmente, o dr. Simonton ficou surpreso e confuso, em­bora exultante, por ter a abordagem psicológica se revelado tão poderosa. Como um pensamento consegue derrotar uma célula cancerosa? Na verdade, esse mecanismo era totalmente desconhe­cido, já que a complexidade desnorteante dos sistemas imunológico e nervoso, evidentemente envolvidos no caso, continuava um mistério. O paciente, por sua vez, aceitou a cura sem grande sur­presa. Contou ao dr. Simonton que sofria de artrite nas pernas e que não conseguia pescar no rio, como gostava. Tendo se livra­do do câncer, porque não poderia acabar com a artrite por meio de visualizações? Poucas semanas depois, foi exatamente o que aconteceu. O homem ficou livre do câncer e da artrite, durante os seis anos em que continuou sob controle.

Esse caso, agora famoso, passou a representar um marco da medicina mente-corpo, mas infelizmente essa não é a história toda. A terapia de visualização do dr. Simonton (que passou a abran­ger um programa maior mente-corpo) ainda não inspira confiança na cura do câncer. Uma de minhas pacientes foi bem-sucedida e, ao que parece, curou um câncer no seio, mas empregou a téc­nica por conta própria, sem assistência médica constante. Levan­tamentos estatísticos a longo prazo, no entanto, levam-nos a ques­tionar se esses resultados esporádicos são superiores aos do trata­mento convencional. Atualmente, a terapia convencional apre­senta grande vantagem. Se, por exemplo, uma mulher com cân­cer no seio o descobrir enquanto for bem pequeno e localizado, a chance de se curar ultrapassa os 90 por cento (uma “cura” sig­nifica a sobrevivência de três anos, no mínimo, sem a volta da doença). Em comparação, os casos de recuperações espontâneas, numa estimativa mais generosa, seriam bem inferiores a um dé­cimo de 1 por cento. Até que terapia mental e outras alternativas ultrapassem as radiações e a quimioterapia, não serão os tratamentos preferidos. Mesmo que os pacientes desejem tais enfo­ques, a maioria dos médicos ainda os teme e não confia neles.

Ainda que o paciente do dr. Simonton seja um caso raro, basta para abalar nossa concepção de como o organismo cura a si pró­prio, porque nele a natureza descobre uma forma de combater a morte nunca antes tentada por nenhum médico. E nesse caso há também a sombria possibilidade de que os médicos, com suas tentativas habituais, estejam reprimindo a natureza em vez de ajudá-la.

Médicos curiosos e ousados recorreram às experiências com inovações nas terapias mente-corpo durante a última década, usan­do desde biofeedback e hipnose até visualizações e mudança de comportamento. Os resultados de todo esse grupo foram duvi­dosos e difíceis de se interpretar. Durante três anos, o psicólogo Michael Lerner empreendeu extensa pesquisa em quarenta clí­nicas que ofereciam enfoques alternativos para o tratamento do câncer, com métodos que variavam desde o emprego de ervas e da macrobiótica até a visualização de imagens mentais positivas. Ele descobriu que esses “centros complementares de combate ao câncer” eram geralmente mais procurados por pacientes de me­lhor nível cultural e mais prósperos, e que os médicos que os dirigiam também eram sérios e bem-intencionados, mas nada que se aproximasse da cura do câncer havia sido descoberto nos lu­gares que visitou.

Ao entrevistar os pacientes, uma razoável porcentagem (40 por cento) pensava ter obtido ao menos uma melhora temporária na qualidade de vida. Outros 40 por cento declararam ter experimen­tado uma melhora real em suas condições, variando desde poucos dias a vários anos. Aproximadamente 10 por cento dividiram-se entre os extremos do espectro, um grupo declarando que não con­seguira nada com o tratamento, e outro, que havia se recuperado parcial ou totalmente da doença. Em geral, os registros de enfo­ques alternativos demonstram que eles dão certo conforto e alívio aos pacientes, mas os dados sobre recuperação são desapontadores, não diferindo muito dos da terapia comum.

Existem, porém, problemas mais sérios do que resultados inconsistentes: o campo do tratamento mente-corpo continua enfrentando a incapacidade de provar, rigorosamente, seu princí­pio básico: a mente influencia o corpo e pode levar à saúde ou à doença. Parece evidente por si mesmo que pessoas doentes e saudáveis vivem em diferentes estados mentais, mas a conexão causal continua indefinida. Em 1985, na Universidade da Pen­silvânia (EUA), uma importante pesquisa sobre câncer no seio não conseguiu encontrar a relação entre a atitude mental das pa­cientes e sua chance de sobrevivência além de dois anos. No ar­tigo que acompanhava a pesquisa, publicado no famoso New En­gland Journal of Medicine, todo o conceito de que as emoções afetam o câncer foi combatido. Declarava: “Nossa idéia de que a doença é um reflexo direto do estado mental é, em grande parte, crendice popular”.

O jornal recebeu um dilúvio de cartas, em particular de médi­cos que discordavam violentamente da conclusão do artigo. Sem dúvida, se não é razoável não considerar as atitudes mentais co­mo fator de enfermidade, é menos razoável ainda considerar tal pensamento como “crendice popular”. Qualquer médico que exerça a profissão sabe que a vontade do paciente em se curar é parte vital do tratamento. Mesmo integrando a medicina “se­vera”, a maioria dos médicos aceita a idéia de que a atitude, a crença e as emoções são atuantes. Hipócrates declarou, na auro­ra da medicina ocidental, que “um paciente mortalmente doen­te poderia se recobrar pela fé na deusa de seu médico”. Inúme­ras pesquisas modernas confirmam isso, demonstrando que as pessoas que confiam em seu médico e se entregam a seus cuida­dos têm maior possibilidade de se curar do que aquelas que en­caram o tratamento com desconfiança, medo e antagonismo.

Após o artigo, os ânimos se agitaram e surgiram grupos cer­rando fileiras por lealdade, mas o assunto ficou ainda mais con­fuso. Três pesquisas independentes, realizadas em meados de 1980, sobre dados de sobrevivência após câncer no seio, chega­ram a resultados totalmente diferentes. Em uma delas, as mulheres que demonstraram atitudes fortemente positivas viviam mais que as de atitudes negativas, não importando o quanto o câncer estivesse avançado. Aparentemente, as emoções positivas ajuda­vam a cura de estágios adiantados da doença, com metástase do câncer, enquanto pacientes com emoções negativas morriam por pequenos tumores diagnosticados logo no início.

Mas uma segunda pesquisa concluiu que qualquer atitude drástica exteriorizada, em vez de reprimida, ajudava na sobrevivên­cia em relação a essa doença mortal. Enquanto a primeira pes­quisa baseava-se no bom senso, na idéia de que a positividade é melhor que a negatividade, a segunda fazia o mesmo sob outro ângulo, com a idéia de que vale a pena lutar e não desistir. Foi divulgada a chamada personalidade do câncer, que reprime as emoções e, de alguma maneira, transforma essa repressão em cé­lulas malignas. O oposto seria o tipo “o forte sobreviverá”, po­dendo essa força ser positiva ou negativa.

Tudo isto obedece a certa lógica, exceto a pesquisa publicada no New England Journal of Medicine, que, apoiada por outras, não encontrou correlação entre nenhum padrão emocional e a sobrevivência ao câncer de seio após dois anos. Mesmo ao ga­nhar popularidade e se transformar em uma das inovações mais bem recebidas desde a vacina Salk, o conceito de tratamento mente-corpo continuava abalado. Agora um novo sistema tornou-se familiar: o público é informado de alguma brilhante vitória, enquanto os resultados clínicos desapontadores que se seguem são conhecidos apenas em círculos médicos restritos.

Um exemplo clássico foi a divisão dos pacientes de ataques do coração, dos quais mais de três quartos são homens de meia-idade, em personalidades tipo A — de alto risco — e tipo B — de baixo risco. A personalidade tipo A seria o motorista exaltado, o traba­lhador compulsivo, Constantemente perseguindo metas e enchendo o organismo de hormônios de estresse — oposta à do tipo B, mais tranqüila, tolerante e equilibrada. O tipo A sofria do “mal de viver com pressa”, portanto parecia lógico que seu coração aca­basse se rebelando e surgisse uma doença coronariana.

Infelizmente, pesquisas controladas indicaram que essa divi­são amplamente aceita não é tão certa. Na realidade, as pessoas possuem parte da personalidade do tipo A e parte da do tipo B, além de variar muito a tolerância ao estresse, chegando alguns grupos a declarar que se sentem melhor sob tensão. Finalmente, uma pesquisa realizada em 1988 revelou que, se um homem so­fre realmente um ataque do coração, o tipo A sobrevive mais que o tipo B. Seu impulso de vencer é aparentemente um benefício quando chega o enfarte.

As complexidades da relação entre mente e corpo não podem ser resolvidas com simplicidade. Se alguém perguntar por que uma mente positiva não pode estar facilmente relacionada à boa saúde, o que parece um dos fatos mais evidentes da vida, a res­posta dependerá, em primeiro lugar, do que ela entende por “mente”. Essa não é uma questão filosófica, mas de ordem prá­tica. Diante de um paciente com câncer, seu estado mental é jul­gado pelo modo como se sente no dia do diagnóstico, muito an­tes ou muito depois? O dr. Lawrence LeShan, autor de estudos pioneiros desde os anos 50, relacionando as emoções ao câncer, voltava à infância de seus pacientes para descobrir a semente som­bria que envenenava sua vida psicológica, e criou a teoria de que ela permanecia adormecida durante anos no subconsciente, antes de provocar a doença.

Em minha própria clínica, conheci um paciente com câncer no pulmão, que vivia confortavelmente com uma lesão do tama­nho de uma moeda naquele órgão, havia mais de cinco anos. Ele nem suspeitava de que a lesão fosse cancerosa e, como já estava com mais de 60 anos de idade, ela crescia lentamente. No entan­to, logo que lhe contei que a lesão se coadunava com o diagnósti­co de câncer no pulmão, ele ficou extremamente agitado. Em um mês, começou a tossir com sangue, e em três meses estava mor­to. Se seu estado mental contribuiu para esse triste final, aparen­temente agiu bem rápido. Esse paciente podia viver com seu tu­mor, mas não com o diagnóstico.

A questão seguinte é ainda mais relevante: na personalidade geral do paciente, o médico está interessado na “mente”, e is­so significa seu subconsciente, suas atitudes, suas crenças mais profundas, ou alguma coisa ainda não plenamente compreen­dida e definida pela psicologia? Pode ser que o aspecto da men­te relacionado ao adoecer ou sarar nem seja especificamente humano.

Numa pesquisa sobre doenças cardíacas realizada na Universidade de Ohio (EUA), na década de 70, coelhos foram alimentados com uma dieta muito tóxica e com alto índice de coleste­rol, para o bloqueio das artérias, procurando duplicar-se o efeito que esses alimentos exercem sobre as artérias humanas. Em to­dos os grupos de coelhos começaram a surgir os resultados espe­rados, menos em um, que estranhamente apresentava 60 por cento a menos de sintomas. Nada na psicologia dos coelhos podia ex­plicar sua alta tolerância à dieta, até se descobrir, por acaso, que o estudante encarregado de alimentar aquele grupo gostava de coelhos e os agradava. Ele carregava cada animalzinho durante alguns minutos, antes de lhe dar a comida; por incrível que seja, isso bastou para que os bichos tolerassem a dieta tóxica. Expe­riências repetidas, em que um grupo de coelhos recebia trata­mento neutro e outro recebia amor, demonstraram os mesmos resultados. Vemos mais uma vez que o mecanismo que causa tal imunidade é completamente desconhecido. É espantoso pensar que a evolução dotou a mente do coelho de uma reação de imu­nidade que pode ser desencadeada pelo carinho humano.

Existe até uma possibilidade, como argumentariam muitos médicos, de que a mente seja uma ficção científica. Quando acha­mos que ela está doente, o que realmente tem a doença é o cére­bro. Seguindo-se essa lógica, as desordens mentais clássicas co­mo depressão, esquizofrenia e psicoses são, na realidade, desor­dens cerebrais. Mas tal lógica apresenta evidentes impropriedades, pois seria como afirmar que as colisões acontecem por cul­pa dos carros. Mas, como o cérebro é um órgão físico, podendo ser pesado e dissecado, inspira maior segurança à medicina do que a mente, impossível de ser definida após tantos séculos de introspecção e análise. Os médicos ficam muito felizes por não terem de opinar a esse respeito como filósofos.

A capacidade dos modernos psicotrópicos — as drogas influenciadoras da mente que aliviam os principais sintomas de doenças mentais como depressão, manias, ansiedade e alucinações — é muito maior do que a de qualquer tratamento existente no pas­sado. A psiquiatria química provavelmente estará alinhada ao la­do de sua oponente, a medicina mente-corpo, formando a revo­lução médica de nosso tempo. Ela tem apresentado sérios resul­tados clínicos para confirmar isso, inclusive com numerosas in­dicações de que os desequilíbrios químicos no cérebro estão di­retamente ligados a doenças mentais.

Nada poderia parecer mais intocável do que a loucura plena de um esquizofrênico crônico, sofrendo de alucinações visuais e vozes interiores, com pensamentos distorcidos e completa de­sorientação física e mental. Talvez baste perguntar em que dia estamos para provocar confusão e terror no esquizofrênico. No entanto, a diferença estrutural entre esse estado mental e a sani­dade pode ser rapidamente determinada por uma substância quí­mica chamada dopamina, secretada pelo cérebro. Essa relação com a dopamina, conhecida há duas décadas, comprovou que os esquizofrênicos produzem em excesso essa substância quími­ca de importante desempenho no processo das emoções e per­cepções; portanto, uma alucinação seria a percepção do mundo exterior que ficou desordenada na codificação química do cérebro.

Essa hipótese foi simplificada em 1984, quando um psiquiatra da Universidade de Iowa (EUA), dr. Rafiq Waziri, reviu o que se sabia sobre a química cerebral dos esquizofrênicos, descobrindo a deficiência numa molécula ainda menor, a serina, um aminoácido comum, encontrado na maioria dos alimentos protéicos. Ela vem sendo considerada um dos elos de origem na formação da dopamina. Incapazes de metabolizar corretamente a serina, os cérebros dos esquizofrênicos superproduzem a dopamina para compensar tal deficiência. Esse processo exato ainda é desconhe­cido. Poderia a esquizofrenia total, considerada a mais estranha e complexa das desordens mentais, depender do modo como são digeridos os alimentos?

Descobertas anteriores no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA) demonstraram que a química básica do cérebro é tão variável que pode ser modificada por uma simples refeição.

O dr. Waziri reforçou sua teoria cuidando de um grupo de esquizofrênicos e alimentando-os com um suprimento dietético de glicina, um produto químico supostamente produzido como parte do mecanismo da dopamina. Ele pensou que o excesso de glici­na talvez pudesse secundar o efeito da serina, reequilibrando a dopamina. Alguns esquizofrênicos do grupo reagiram de forma dramática e puderam interromper a medicação sem nenhum epi­sódio psicótico. Pela primeira vez, em anos, ficaram com os pen­samentos livres da doença e das drogas potentes usadas no tra­tamento.

Um enfoque das doenças mentais sob o prisma da alimenta­ção seria bem mais benigno do que o das terapias atuais. A pos­sibilidade de serem descobertas novas ligações alimentares tam­bém é tentadora. Entre os livros mais vendidos de culinária, um foi pioneiro ao apresentar listas de “alimentos felizes” e “alimentos tristes”, em apoio à teoria de que os aminoácidos neles contidos chegam diretamente ao cérebro e se transformam em substân­cias químicas que produzem estados de ânimo positivos ou ne­gativos. O leite, o frango, bananas e verduras estão entre os ali­mentos “felizes”, porque estimulam a dopamina e outras duas substâncias “positivas” do cérebro. Em contrapartida, alimen­tos doces e gordurosos são “tristes”, porque estimulam a acetilcolina, uma substância química “negativa”. Os críticos decla­ram, justificadamente, que a química do cérebro não é tão sim­ples assim — os níveis elevados de dopamina de um esquizofrê­nico podem ser considerados positivos? Tampouco é provável que a mudança na ingestão de aminoácidos leve diretamente a uma desejada química cerebral, do mesmo modo que a quantidade de colesterol na alimentação não corresponde diretamente à quan­tidade que existe no sangue.



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