A cura Quântica



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Se a sanidade pode ser conservada por meio dos alimentos, capazes de promover até a melhora no estado de espírito, os princí­pios básicos da medicina mente-corpo ficam ainda mais confu­sos. Você pode confiar na mente para curar artrite e, ao mesmo tempo, alegar que comer chocolate o deixa deprimido? Isso sig­nificaria uma contradição: a mente domina a matéria, exceto quan­do a matéria domina a mente. No clima atual de descobertas am­bíguas, as duas posições opostas — tratamento do corpo através da mente e da mente através do corpo — ficam igualmente no ar.

O resultado é que nenhum esclarecimento adequado surgiu de toda essa confusão; o mundo subjetivo da mente continua sendo uma energia traiçoeira, caprichosa em sua capacidade de curar ou gerar a doença. Muitos médicos de tendência materialista fi­cariam ansiosos por concluir que a química deve ser a resposta a todos os nossos mistérios mentais e físicos.

Não acho que seja assim. Em minha especialidade, a endocrinologia, foram descobertas algumas das primeiras substâncias quí­micas que afetam a mente: os hormônios endócrinos. Encontro todos os dias pacientes com sintomas que podem ser explicados como defeitos de equilíbrio hormonal — a idéia distorcida da rea­ção de um diabético por baixa do teor de açúcar no sangue, as mudanças de temperamento durante o ciclo menstrual e até uma depressão característica, que é o primeiro aviso de certos tipos de câncer (um tumor no pâncreas, por exemplo, pode ser pe­queno demais para ser detectado, mas espalhará cortisol e outros “hormônios estressantes” na corrente sanguínea, deprimindo o paciente).

Apesar disso, vejo muitas falhas no argumento de que apenas precisamos de um conhecimento mais profundo da química do organismo. O corpo possui muitas substâncias químicas (literal­mente, milhares delas) produzidas em padrões espantosamente complexos, que surgem e acabam rapidamente, quase sempre em frações de segundo. O que controla esse fluxo constante? Não podemos desvincular a mente da união mente-corpo. Afirmar que o corpo se cura usando apenas substâncias químicas é como declarar que um carro troca de marchas usando apenas a transmis­são. Evidentemente, o motorista é necessário, porque sabe o que está fazendo. Embora durante vários séculos a medicina tenha conservado a idéia de que o corpo funciona por si, como uma máquina automotivada, ele também deve precisar de um motorista. De outro modo, a química de nosso corpo seria uma confusão de moléculas flutuantes, em vez do maquinário incrivel­mente ordenado e preciso que é, sem dúvida.

Numa época mais ingênua, achavam que o motorista era um homenzinho a que chamavam homúnculo e que vivia sentado no coração, mudando todas as marchas necessárias para dirigir o corpo. O homúnculo desapareceu na Renascença, quando pe­la primeira vez os anatomistas começaram a dissecar cadáveres para verificar o que tinham por dentro. O homúnculo não foi encontrado no coração (onde também não acharam a alma), mas isso fez surgir uma evidente distância entre a mente e o corpo. Desde então, muitos cientistas procuraram preencher esse vazio com o cérebro, declarando que a função cerebral é controlar to­das as outras funções do organismo. Mas essa resposta leva a uma nova questão, já que o cérebro é apenas outra máquina: ainda é necessário que se encontre ali o motorista. Posso argumentar que está ali, mas se transformou em um ser bem mais abstrato que o homúnculo ou até que o próprio cérebro. Ele é feito da energia inteligente que nos motiva a viver, agir e pensar.

Isso pode ser provado? O próximo passo será nos aprofundar­mos na inteligência interior do corpo, procurando descobrir o que a motiva. O campo da medicina mente-corpo não tem disposi­ções nem regras inflexíveis, o que é muito bom. Durante déca­das a medicina tem entendido que muitas doenças possuem um componente psicossomático, mas lidar com esse aspecto tem si­do como tentar represar o vento. Deve existir algum “corpo pen­sante” dentro de nós, respondendo aos comandos da mente, mas onde pode estar e de que é feito?

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A Escultura ou o Rio?

Contar o número de células do corpo humano é uma tarefa tão difícil como contar o número de pessoas existentes no mundo, mas a estimativa aceita é de 50 trilhões, cerca de 10 mil vezes a atual população da Terra. Isolados e expostos em um micros­cópio, os vários tipos de células — do coração, fígado, cérebro, rins etc. — são semelhantes a olhos inexperientes. Uma célula é basicamente um saco fechado por uma membrana exterior, a parede celular, cheio de uma mistura de água e espirais quími­cas. Exceto as células vermelhas do sangue, todas as outras pos­suem um núcleo que protege as espirais muito retorcidas do DNA. Se você tocar uma partícula do tecido do fígado, verá que tem a aparência de fígado de boi; teria de pressioná-la com força para verificar se é especificamente humano. Mesmo um geneticista com grande prática teria apenas 2 por cento de chance de notar a di­ferença entre nosso DNA e o de um gorila. Assim, diante da quan­tidade de funções do fígado — mais de quinhentas foram relacionadas recentemente — não poderíamos ter a menor idéia com apenas um simples exame ocular.

Uma coisa é inquestionável, apesar da confusão no assunto mente-corpo: as células humanas evoluíram até um estágio no­tável de inteligência. O número de atividades Constantemente coordenadas em nossos corpos é infinita, no sentido literal do termo. Como os ecossistemas da Terra, nossa fisiologia parece operar em compartimentos estanques que, na verdade, estão visivelmente ligados: nós comemos, respiramos, falamos, pensamos, digeri­mos os alimentos, expulsamos as infecções, purificamos nosso san­gue das toxinas, renovamos nossas células, descartamos matéria inútil, votamos nas eleições e muito mais do que isso. Cada uma dessas atividades se entrelaça no tecido do todo. (Nossa ecologia é mais semelhante à do planeta do que muita gente pensa: mi­núsculas criaturas perambulam por nossa superfície, tão igno­rantes de nosso vasto tamanho quanto nós de seu tamanho ínfi­mo. Colônias de ácaros, por exemplo, passam todo seu ciclo de vida em nossos cílios.)

Dentro da vasta organização do corpo, as funções de uma sim­ples célula — como um dos 15 bilhões de neurônios do cérebro — propiciam assunto para um extenso artigo médico. Os volu­mes dedicados a qualquer dos sistemas de nosso organismo, co­mo o imunológico ou o nervoso, ocupam várias prateleiras de qual­quer biblioteca médica.

O mecanismo de cura reside nessa complexidade geral, mas permanece oculto. Qualquer um desses processos que envolvem a cura de um corte superficial na pele — por exemplo, o de coa­gulação do sangue — é incrivelmente complexo. Tanto que, se esse simples mecanismo falha, como acontece com os hemofíli­cos, a medicina científica mais avançada não consegue repetir a função prejudicada. Um médico pode receitar drogas para esti­mular o fator perdido de coagulação do sangue, mas essa ação é temporária, artificial e apresenta efeitos colaterais indesejáveis. O período de restabelecimento do corpo não é o normal, assim como não ocorre a magnífica coordenação de uma dúzia de pro­cessos relacionados. Como comparação, uma droga fabricada pelo homem é como um estrangeiro numa terra em que todos são pa­rentes de sangue. Ele nunca partilhará dos conhecimentos que os outros já têm ao nascer.

Devemos admitir que o corpo tem uma mente própria. Quando compreendemos esse aspecto misterioso de nossa natureza bá­sica, desaparece a natureza milagrosa que atribuímos à cura do câncer. Os corpos de todo mundo sabem como curar um corte na pele, mas aparentemente poucos deles sabem como curar o câncer.

“Todo médico compreende que é a natureza quem cura as doenças”, Hipócrates escreveu, pela primeira vez, há dois mil anos. Então, qual a diferença entre a forma comum de cura e a “mira­culosa”? Talvez a diferença seja mínima e exista apenas em nos­sas cabeças. Se você está descascando batatas e corta o dedo, o corte se cura e, evidentemente, você não fica deslumbrado com isso, porque o processo de cicatrização — a coagulação do san­gue para fechar o corte, a formação de uma crosta e a regenera­ção da nova pele e dos vasos sanguíneos — parece uma coisa ab­solutamente normal.

Mas devemos compreender que essa noção de normalidade nada tem a ver com o conhecimento do que é a cura ou de como controlá-la. É triste constatarmos que o volume de conhecimen­to existente nos livros médicos refere-se mais à morte do que à vida. A maior parte do saber médico foi obtida realizando au­tópsias em cadáveres, examinando-se tecidos no microscópio, analisando-se sangue, urina e outros subprodutos do corpo. É verdade que os pacientes são examinados enquanto estão vivos, com testes de partes isoladas do corpo. Mas o conhecimento ad­quirido dessa forma é rudimentar se comparado ao volume de dados ultra-sofisticados dedicados à morte. O poeta Wordsworth escreveu esta frase memorável e sucinta: “Nós matamos para dis­secar”. Nenhuma declaração a respeito das limitações da pesquisa médica pode ser mais verdadeira.

A primeira coisa morta no laboratório é a delicada trama da inteligência que mantém o corpo coeso. Quando uma célula de sangue chega à borda de um corte e começa a formar um coágu­lo, não viajou até ali ao acaso. Sabe realmente aonde quer ir e o que fazer quando chegar, com a mesma certeza de um especialista — com mais até, de fato, já que age de forma completamen­te espontânea e não procura adivinhar. Mesmo que se reparta o conhecimento dessa célula em partículas cada vez menores, à pro­cura do segredo de algum hormônio determinado ou de uma en­zima que sirva de mensageiro, não encontraremos um fio de pro­teína com o rótulo “inteligência”; mas não há dúvida de que ela está atuando.

Parte dessa inteligência dedica-se à cura e aparentemente é uma energia muito poderosa. Existem misteriosos sobreviventes a to­das as doenças fatais e não só ao câncer. Apesar de não se conhe­cer nenhum caso de cura espontânea de AIDS, sabemos que al­gumas pessoas conseguem sobreviver por muito tempo — umas vivem mais de cinco anos — porque, de algum modo, seus siste­mas imunológicos conseguiram se defender de uma doença que em condições normais seria totalmente devastadora. Os pesqui­sadores tendem a considerá-las dotadas de uma fisiologia extraor­dinária, caprichos bioquímicos da natureza. Partindo de amos­tras de sangue e isolando qualquer componente pouco comum que consigam detectar nas células imunizadoras dessas pessoas, os biologistas moleculares esperam descobrir o ingrediente des­conhecido que as protege. Se esse alvo for alcançado — uma ta­refa extremamente tediosa e difícil, dada a complexidade do sis­tema imunológico —, só então, depois de anos de testes de mi­lhões de dólares, poderá surgir uma nova droga que beneficie a humanidade.

Assim, o que todos precisam é da capacidade de fabricar essa droga maravilhosa no próprio organismo, como aconteceu com a primeira pessoa que a produziu. E tal capacidade não pode ser sintetizada. Comprar a droga não é tão bom quanto fabricá-la? Não, por muito tempo ainda. O que chamamos ingrediente ati­vo de uma droga feita pelo homem tem muito pouco know-how, comparado à substância química original produzida pelo orga­nismo. Talvez fosse mais correto chamar essa droga de ingrediente inerte.

A razão disso está no nível de nossas células. A membrana externa, ou parede celular, de cada uma delas está equipada com numerosos pontos receptores. Essa parede é macia, mas os re­ceptores são viscosos — são formados por complexas cadeias mo­leculares cujos últimos elos ficam abertos, à espera de outra mo­lécula que se prenda a eles. Para uma droga atuar — morfina, Valium, digitálicos ou qualquer outra —, é necessário que seja a chave que corresponde exatamente a um receptor escolhido na parede celular, e a nenhum outro.

Hormônios, enzimas e outras substâncias químicas produzi­das por nossos corpos têm admirável conhecimento de quais re­ceptores combinam. As próprias células parecem realmente ca­pazes de encontrar um ponto entre vários — é fantástico seguir seus sinais em um microscópio eletrônico, enquanto traçam li­nhas retas até os pontos em que são necessárias. O corpo tam­bém é capaz de produzir ao mesmo tempo centenas de diferen­tes substâncias químicas, orquestrando-as em relação ao conjunto. Se você ouvir uma forte explosão vinda da rua e se sobressal­tar em sua poltrona, numa reação instantânea, esse mesmo efei­to ocorre diante de um complexo evento interno. O gatilho para esse evento é o jorro de adrenalina liberado pelas glândulas supra-renais. Levada pela corrente sanguínea, essa adrenalina comuni­ca as reações ao coração, que começa a bombear o sangue mais rapidamente — às veias, que se contraem e forçam a elevação da pressão arterial; ao fígado, que põe mais combustível na fórmula de glicose; ao pâncreas, que segrega tanta insulina que mais gli­cose é metabolizada; e ao estômago e intestinos, que param imediatamente de digerir os alimentos para que a energia seja desviada a outro lugar.

Toda essa atividade que se desenvolve num ritmo violento e com efeitos poderosos em todo o organismo é coordenada pelo cérebro, que usa a pituitária para distribuir os sinais hormonais acima descritos. Além disso, outras sinalizações químicas percor­rem os neurônios, fazendo com que a vista focalize melhor, os ouvidos fiquem mais aguçados, os músculos das costas se rete­sem e a cabeça se volte em sinal de alerta.

Para fazer com que todas essas reações se desencadeiem e ces­sem novamente (ao contrário da droga fabricada pelo homem, o organismo sabe como reverter cada processo desses com a mesma perfeição com que iniciou), ocorre um mecanismo de ajuste, se­melhante ao da chave na fechadura. Tudo parece ilusoriamente simples, mas quando se procura repetir esse evento com alguma droga os resultados estão longe de ser tão precisos e a orquestra­ção tão perfeita. Na realidade, são caóticos. A injeção de adrena­lina, insulina ou glicose puras no corpo causa um choque vio­lento. Essas substâncias químicas começam imediatamente a fluir por todos os pontos receptores sem a coordenação vinda do cére­bro e, em vez de se comunicarem com o organismo, elas o assal­tam com teimosa insistência. Embora a composição química da adrenalina seja idêntica à produzida pelo organismo, o ingrediente crítico da inteligência precisa estar presente; de outro modo, a ação da droga não passa de um arremedo da reação verdadeira.

Vou relatar aqui um exemplo de complicações resultantes da aplicação de uma droga aparentemente simples. Pacientes com hipertensão geralmente são aconselhados a baixar sua pressão sanguínea pelo uso de diuréticos — drogas que retiram água das células e do organismo através da urina. É isso, exatamente, o que os rins fazem o tempo todo enquanto monitoram delicadamente a química do sangue, assegurando o equilíbrio exato da água, do material inútil e dos sais necessários, ou eletrólitos. Mas o diuré­tico tem apenas um objetivo e é obcecado por ele: percorre o corpo bradando “Água! Água!” a todas as células que encontra.

Como resultado, reduz-se a tensão do fluido nos vasos sanguíneos, na realidade o que o médico deseja, mas o nível de água em todo o organismo também é afetado. O cérebro pode, então, ser forçado a doar parte de seu líquido, o que em condições nor­mais só faria em caso de extrema urgência, provocando tontura e náuseas no paciente. Nada mais sério acontece na maioria dos casos; porém, às vezes, certas funções cerebrais também se aba­lam, sobretudo em pacientes mais idosos: se tomarem bebidas alcoólicas, mesmo com moderação, podem ficar tão confusos a ponto de esquecerem de ingerir água ou alimentos na quantida­de necessária. Isso poderá provocar um estado de desnutrição alia­do a uma desidratação grave. Segundo alguns endocrinologistas, a desidratação induzida por certos diuréticos na presença de ál­cool ou tranquilizante é a principal causa de morte entre ameri­canos idosos.

Todas essas conseqüências, leves ou graves, são comumente chamadas de “efeitos colaterais” indesejáveis dos diuréticos. Mas tal denominação é inadequada, pois se refere apenas aos efeitos que, bons ou maus, se reúnem no mesmo pacote. Basicamente, um diurético trabalha penetrando nos átomos de sódio, levando o cor­po a descartar-se do excesso de sal, o que faz baixar o nível de líquido nos tecidos, já que a água se alia ao sal em nossos corpos, assim como ocorre na água do mar. O diurético nada pode aju­dar se for retirado muito sal de um local onde a água ainda é necessária. Já que a estrutura atômica do potássio é próxima à do sal, o diurético também pode forçá-lo a se exaurir, levando à fraqueza, fadiga e cãibras nas pernas. (Efeitos menos nocivos são notados geralmente pela perda de vestígios de outros elementos como o zinco e o magnésio.) Além dos sinais comuns de carên­cia de potássio, podem surgir outras complicações — os digitálicos, drogas comumente ministradas a pacientes que sofrem do coração para aliviar a angina (dor no peito), serão mais tóxicos se o organismo estiver com baixo teor de potássio. Ironicamente, suspeita-se hoje em dia que a deficiência de potássio seja o elo causal da alta pressão sanguínea, o que significa que o diurético possa ser o promotor da própria condição que ele pretende curar.

A frustrante realidade, no que se refere aos pesquisadores médicos, é já sabermos que o corpo vivo é a melhor farmácia inven­tada até hoje. Ele produz diuréticos, analgésicos, tranquilizan­tes, soníferos, antibióticos e tudo mais que é fabricado pelas in­dústrias de drogas, mas sua produção é muito superior. A dosa­gem é sempre certa e ministrada no horário adequado; os efeitos colaterais são mínimos ou inexistentes; as indicações para o uso estão incluídas na própria droga, como parte de sua inteligência.

Pensando em fatos tão conhecidos, cheguei a três conclusões. Primeira, essa inteligência está presente em qualquer parte de nos­so corpo. Segunda, nossa inteligência interior supera de longe qualquer outra com que se procure substituí-la a partir do exte­rior. Terceira, essa inteligência é mais importante que a própria matéria de nosso corpo, já que sem ela a matéria ficaria disper­sa, sem forma e caótica. A inteligência é que faz a diferença en­tre a casa projetada pelo arquiteto e uma pilha de tijolos.

Por enquanto, manteremos a definição da palavra “inteligên­cia” tão simples e prática quanto possível. Em vez de nos refe­rirmos à inteligência de um gênio, que pode parecer exaltada e abstrata, eu a encararia simplesmente como know-how. O que quer que você pense sobre inteligência em termos abstratos, não há dúvida de que ao corpo deve ser creditado uma enorme base de conhecimento.

A inteligência interior do corpo é tão poderosa que, quando se desvia, o médico tem pela frente um antagonista temível. Por exemplo, cada célula do corpo é programada por seu DNA para se dividir até determinado ponto, quando a célula-mãe se repar­te em duas. Como todo o resto regulado por nossa inteligência interior, esse processo não é puramente mecânico. A célula se di­vide em resposta à própria necessidade interna, aliada aos sinais gerados pelas células vizinhas e por órgãos distantes que “falam” com ela por meio de mensagens químicas. A divisão da célula é cuidadosamente calculada — e uma decisão bem pensada, a não ser no caso do câncer.

O câncer é o comportamento selvagem e anti-social de uma única célula, que se reproduz sem seguir o padrão, sem sinais de nenhum lado, a não ser, aparentemente, de seu próprio DNA enlouquecido. Por que isso acontece ninguém sabe. É bem pos­sível que o próprio corpo saiba como reverter o processo, mas, por qualquer razão igualmente desconhecida pela ciência, nem sempre consegue. É apenas uma questão de tempo, desde o iní­cio do processo até que as células cancerosas consigam invadir um órgão vital, com células normais, e venha então a causar a morte. Quando chega a crise final, as células cancerosas pere­cem com o resto do organismo, condenadas por seu apetite incontido de auto-expansão.

Até agora, a medicina não descobriu como enviar uma mensa­gem às células cancerosas em tempo de impedir que se realize o trágico destino criado por elas. Os produtos químicos que um médico pode usar contra o câncer não possuem nenhuma efi­ciência no nível da inteligência. O câncer é dotado de mau cará­ter enquanto as drogas são simplórias. O oncologista, portanto, recorre a um ataque mais violento, a uma forma de envenena­mento. Geralmente a droga administrada contra o câncer é tóxi­ca para todo o organismo, mas, como as células cancerosas cres­cem muito mais depressa que as normais, elas ingerem maior quantidade do veneno e morrem primeiro. Toda a estratégia é um risco calculado. O paciente precisa ter sorte; seu médico pre­cisa ser extremamente arguto quanto à dosagem e ao prazo da quimioterapia, questões absolutamente vitais no tratamento. O câncer pode, então, ser derrotado, e anos de vida útil serão so­mados à existência do paciente.

Ironicamente, porém, essa terapia pode falhar porque enfra­quece a própria inteligência que normalmente protege nossos cor­pos da doença. Muitas drogas de combate ao câncer são extre­mamente danosas ao sistema imunológico do corpo; eliminam a medula óssea que fabrica nossas células brancas, provocando um efeito devastador sobre sua quantidade no sangue. À medida que o tratamento de quimioterapia progride, o paciente torna-se mais suscetível a novas formas de câncer e, em certo número de casos — que chega a 30 por cento, no caso do câncer de mama —, surgem outros tipos de câncer e o paciente morre. Além dis­so, estatisticamente, não é possível matar todas as células malig­nas. Estima-se que um paciente típico de câncer possua cerca de 10 bilhões de células cancerosas. Se a quimioterapia for 99,9999 por cento eficiente, 1 milhão delas irão sobreviver, mais do que o suficiente para começar o processo de novo.

As células cancerosas não se formam do mesmo modo; algu­mas são mais duras que outras, portanto mais difíceis de se ma­tar. Pode ser que destruindo as células mais fracas, numa espé­cie de seleção darwiniana, deixemos as mais fortes sobreviver. Nes­se caso, a quimioterapia estaria, na realidade, produzindo um mal virulento em vez de curá-lo. (Do mesmo modo, as persistentes infecções por estafilococos que os pacientes contraem nos hospi­tais são, em geral, muito resistentes aos antibióticos, porque ape­nas as bactérias mais teimosas conseguem viver no ambiente es­terilizado dos centros cirúrgicos e agüentar o contínuo bombar­deio das injeções de penicilina.) Podemos facilmente imaginar a variedade de “supercânceres” que pode surgir de uma ou duas dessas células malignas dotadas de maior resistência ao tratamento.

De qualquer modo, a velha promessa de que a quimioterapia iria acabar com o câncer em nossa geração — tão difundida nos anos 50 — perdeu a crença inicial. Atualmente, alguns tipos de câncer são vencidos pouco a pouco, como a leucemia linfocítica infantil e certos linfomas de Hodgkin, enquanto outros grandes assassinos como o câncer do pulmão e do cérebro continuam vir­tualmente intocáveis por meio da quimioterapia.

Nada do que eu disse até agora sobre o know-how do corpo é hipotético. Fomos todos informados, médicos e público em ge­ral, sobre a maravilhosa complexidade do organismo humano. Mas insistimos em continuar pensando no corpo segundo um mol­de obsoleto: ele é considerado basicamente matéria, mas dotado de um técnico eficaz em seu interior, que o põe em movimento. Esse técnico já foi chamado de alma; agora a tendência é rebaixá-lo a um simples fantasma dentro da máquina, mas que continua tendo a mesma importância. Porque podemos ver e tocar nossos corpos, carregar seu sólido peso de um lado para o outro e bater nas portas se não formos avisados disso, sua realidade parece ser a de um material primário — como é o contorno de nosso mundo.

Mas esse contorno tem em si um ponto cego. Apesar da enor­me superioridade de know-how do corpo, que naturalmente os cientistas reconhecem, uma quantidade mínima de tempo e di­nheiro é dispendida na tentativa de compreender o organismo vivo como um todo. Isso acontece por um bom motivo. O filóso­fo grego Heráclito foi o autor do famoso comentário: “Não po­demos entrar num rio duas vezes no mesmo lugar”, já que ele está em constante mudança com a chegada de novas águas. O mesmo acontece com o corpo. Todos nós nos parecemos muito mais com um rio do que com qualquer coisa petrificada no tem­po e no espaço.



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